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67ª Leva - 05/2012 Destaques Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética II

Desenho: Felipe Stefani

 

ONDA

Elizabeth Hazin

 

o desejo é como água:
flui
circunda
onda mais alta
(de cor profunda)

o desejo é como água
(de mar ?):
sempre distante do porto
e o que fazer do corpo
apenas invólucro
– breve,
finito –
e, portanto, sequioso
do próprio desejo
em que se afunda ?

sobre o cetim da pele
desliza a veste que escolho
ou nenhuma veste

o desejo é como água:
flui  reflui
escorre   inunda
o corpo
(quem bebe ?)

 

 

***

 

 

DESDE O FOGO

 

Sou triste
desde o fogo impresso na argila:
odeio todos os deuses.

Minha tristeza vem desde o nome
a revelar-me  a sede
a fome
a farsa que me corrói a face
nua.

Não quero essa alma que me queima:
de  barro estava bem.
Arde em meus olhos o desejo dos deuses
(como o dos homens).

Não quero a palavra
acesa
que à minha revelia me incendeia:
de repente
é impossível  restar calada.

Desde o fogo
a tristeza nos consome.

 

(Elizabeth Hazin publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987) e O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e a Editora 7Letras publicou o livro escrito a quatro mãos com Davino Sena: Lêgo & Davinovich. Em 2010, foi re-publicado pela Vieira & Lent o Arco-Íris, poemas para crianças. Já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente, é professora de Literatura Brasileira na UnB – Universidade de Brasília)

 

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Aperitivo da Palavra Destaques Outras Levas

Aperitivo da Palavra

UNIVERSO MENTAL POVOADO POR SERES MINÚSCULOS

Por Geraldo Lima

 

O que se pode esperar de uma obra literária é que ela provoque, no mínimo, o estranhamento no leitor, arrancando-o do automatismo da vida ordinária. O leitor que se aventurar na leitura de ‘Notas de Pensamentos Incomuns’, de Anderson Fonseca (Editora Multifoco, 2011), será, com certeza, tocado por esse estranhamento. O livro é composto de minicontos, sem título, e quase sempre narrados em primeira pessoa, ou fragmentos que se articulam como se fizessem parte de uma única história, mas que, ao mesmo tempo, mantêm uma independência em relação ao todo. E esse já é um dado do estranhamento que o livro provoca, pois, ao final, sabemos tratar-se de uma obra cuja tessitura só se completa com a junção de todos esses fragmentos aparentemente autônomos.

E o estranhamento se aprofunda com a presença dos seres minúsculos, bizarros, fantásticos, que povoam o universo ficcional criado por Anderson Fonseca. Tamagotchi, Delírios, Gloeb, Jhungols, Flopers, Dabie-Dabie e Móbile são alguns dos estranhos personagens com os quais o leitor irá se deparar durante a leitura de ‘Notas de pensamentos incomuns’.

Alguns desses seres minúsculos habitam a cabeça (e às vezes dela brotam) ou outras partes do corpo de um quase sempre atormentado narrador-personagem. É o caso de Apple, um “bichano muito interessante, redondo, peludo, amarelo e saboroso” que um dia escapa da cabeça do narrador-personagem: “E para que eu não me esqueça do propósito inevitável da vida, evoluir, Apple agarra-se a certas partes do meu corpo iconoclastas da evolução humana: uma hora está numa das pernas, outra na nuca para que me lembre da coluna vertebral, e noutra sobre a cabeça” (pág. 51). Às vezes esse processo de coabitação é mais radical, e o ser intruso penetra o corpo do narrador-personagem ou interfere na sua capacidade de articular o pensamento. Imagine uma mosca que pousa certo dia na mão do sujeito e, depois de algum tempo, já se encontra morando embaixo da sua pele. Ou seja, ele se torna o seu hospedeiro. Noutro miniconto, uma bactéria começa a interferir nos pensamentos do narrador-personagem. Diz ele: “Faz um tempo que meus pensamentos estão sob a regência de uma bactéria” (pág.85). E para que o leitor não ache que isso seja inverossímil, improvável, o narrador-personagem cita como argumento de apoio a matéria publicada na Scientific American confirmando a existência de uma bactéria capaz de “alterar o estado cognitivo do ser humano”. Mas nem precisava usar esse argumento, pois, desde o início, o leitor terá notado que a narrativa de Anderson Fonseca, nesse ‘Notas de pensamentos incomuns’, dá-se fora dos limites do realismo. O que se vê aí é a mais viva manifestação do fantástico e do absurdo.

E é nesse sentido, dessa forte presença do fantástico e do absurdo, que podemos falar das influências que permeiam essa obra de Anderson Fonseca. É visível o diálogo dessas suas narrativas curtas com a obra de Jorge Luís Borges (estão lá os espelhos que simulam outras realidades ou imagens, os corredores formando labirintos, o espírito de fábula), a de Julio Cortázar (o seres minúsculos e fabulosos lembrando cronópios, famas e esperanças), a de Kafka (a metamorfose, a sujeição do personagem a uma realidade que escapa à sua vontade) e, também, o universo mágico da obra de Escher. Esse, aliás, é citado literalmente numa das narrativas: “É embaraçoso viver numa casa desenhada por Escher, e muito mais embaraçoso saber que ela existe numa folha de papel…” (pág. 73). De tudo isso surge um texto de feições próprias, mas que mantém suas raízes fincadas na tradição que subverte o real.

Mais que qualquer outro mecanismo de forjar realidades, é a imaginação que prevalece nesses textos ficcionais de Anderson Fonseca. É da imaginação do narrador-personagem, do seu pensamento incomum, atormentado, que brotam todas essas notas e todos esses seres e universos perturbadores. E, aqui, o leitor irá se deparar com outro elemento que destoa do normal: o narrador-personagem e o autor fundem-se, aparentemente, numa só pessoa. O autor Anderson Fonseca, à maneira de Borges, se coloca na narrativa. (E os limites entre realidade e fantasia quase que se dissolvem.) Todo esse universo de perturbações e estranhamentos situa-se na sua mente. E diante da sugestão do médico para extirpá-lo (a cura mataria a capacidade criativa do autor), ele escolhe permanecer coabitando com os seres que, muitas das vezes, sugam a sua energia e a sua paz de espírito: “Vendo hoje o meu estado, tenho vontade de esmurrá-lo, lançá-lo para longe dos meus olhos; (…) me apeguei de tal modo a essa pequena criatura inocente, que sacrificá-la seria o mesmo que me destruir”, diz ele sobre Gloeb (pág. 18).  Criador e criatura estão, nesse caso, unidos de maneira indissociável. Criar é, de certa maneira, deixar-se habitar pela existência do ser criado. E o leitor que se aventurou por esses estranhos mundos criados por Anderson Fonseca não escapará ileso: os minúsculos seres que pululam na mente do autor, ou do narrador-personagem, passam a habitar também agora a sua imaginação.

 

(Geraldo Lima nasceu em Planaltina, GO, em 1959. Mora, atualmente, em Sobradinho, DF. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, escritor e dramaturgo. Já publicou seis livros, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), UM (romance, LGE Editora/FAC) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites: O BULE, Dona Zica tá braba e Portal EntretextosColabora com o Jornal Opção, em Goiânia, o Jornal de Sobradinho e a Revista TriploV. Contato: gera.lima@brturbo.com.br) 

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Destaques Olhares Outras Levas

Olhares

ASSIMETRIA, ESBOÇO E PROJEÇÃO: A ARTE DE FELIPE STEFANI

Por Hilton Valeriano

Desenho: Felipe Stefani

Pode a arte apreender o movimento primevo do nascer das coisas e dos seres, de seus gestos, acontecimentos, vivências? Antes do fato, os sonhos; antes do anseio, os projetos; sempre a possibilidade.  Os desenhos de Felipe Stefani, artista convicto em seu ofício, parecem demonstrar o fluxo premente da existência antes de sua realização nas dimensões da temporalidade. Uma obra marcada por traços assimétricos, onde início e fim confluem, onde o desfecho paradoxalmente inconcluso expressa formas vindouras, repletas da instabilidade característica do movimento, e que revelam um intento permanente de criação. Longe de uma mera abstração sintética, seus desenhos manifestam a forma, isenta de toda matéria, em seu prenúncio. Sua subjetividade de artista busca o instante nascedouro, o esboço humano de concretização, o que nos leva à questão da definição de um ser em sua essência.

Se as ações do homem não o definem como um ser estático, mas sim como um ser sempre projetado, o espaço aberto, espaço esse constitutivo da liberdade em suas múltiplas escolhas, ou seja, o futuro, evidencia o campo de possibilidades nunca definidas, nunca concretizadas, a continuidade da vida como fluxo de projetos a se realizarem como significação provisória.  Assim, podemos pensar os desenhos de Felipe Stefani nas suas dimensões estéticas em três planos analíticos: assimetria, esboço como forma inconclusa e espaço de projeção.

Desenho: Felipe Stefani

Assimetria

Tendo a ação humana como realização de seu intento a possibilidade ou não de concretização, transposta para o âmbito da arte como subjetividade criadora, seus traços, simbolicamente representados como projeções, só podem ter a assimetria como apreensão do movimento intencional característico do humano em sua manifestação.

Esboço como forma inconclusa

A possibilidade de concretização da ação humana revela o projeto como significação, como instaurador de sentido, mas sendo possibilidade, só pode manifestar o esboço em seu anseio de realização, ou seja, sua forma inconclusa porque não determinada.

Espaço de projeção

Apreender a ação humana em seu intento e simultaneamente mostrar toda a dimensão provisória de sua realização, toda a possibilidade ou não de concretização de seus anseios, revela a principal característica do homem: a liberdade. A liberdade como dimensão definidora do homem, como sua essência, só pode ser percebida nos desenhos de Felipe Stefani se prestarmos atenção na relação estrutural, semântica existente entre os seus desenhos e a folha branca, que se apresenta como espaço de projeção. Seus desenhos parecem nascer, brotar da folha branca como um sentido a clamar pelo homem.

A estética de Felipe Stefani ecoa as palavras do poeta Murilo Mendes: “O homem é um ser futuro. Um dia seremos visíveis.”

Desenho: Felipe Stefani

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)

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67ª Leva - 05/2012 Destaques Outras Levas

Janela Poética I

Desenho: Felipe Stefani

CÍRCULO DE SANGUE

Edson Bueno de Camargo

 

carrego a sede
de desertos
e a certeza perene
da repetição do verso
costurada
nos dentes

sou dos homens
que trazem
um círculo de sangue
na parte superior
da mão

e as palmas limpas
como areia de aluvião
das que repousam
o fundo das torrentes
depois de secas
as chuvas

 

 

***

 

LILITH

 

entre a escolha
entre a mulher virtuosa
e a que caminha sinuosa

embora cindido
eu prefiro a que tenha asas

que me beije como um anjo
e escolha a posição que quiser

 

 

(Edson Bueno de Camargo foi operário da indústria, dentro de uma realidade suburbana. Muitos de seus primeiros poemas foram escritos no “chão da fábrica” com cheiro de máquinas. Escreve desde muito jovem, sempre muito prolixo. Na maturidade, passou a ter uma relação com a poesia que vai para além da literatura, a poesia é sua experimentação do sagrado. Escrever poesia é seu tempo do sonho)

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Olhares

Olhares

UM DIÁLOGO SENSÍVEL DAS COISAS

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Kenia Vartan

Por entre as paisagens amazônicas, há um universo particular que se revela vigoroso nas imagens flagradas pelas lentes de Kenia Vartan. Mais do que registrar pessoas e lugares envoltos em suas rotinas, a fotógrafa deixa escapar a poesia contida nas atmosferas delicadas de vida.

Seus personagens derivam de uma especial observação ao que se camufla em meio aos instantes. É como se a artista, ao adentrar os ambientes da alteridade, pactuasse não romper com a tênue camada que envolve o mundo circundante, promovendo uma escuta singular a tudo o que pode ser matéria da luz.

Amazonense de nascimento, Kenia passou a se interessar por fotografia através do estímulo de seu companheiro, o também fotógrafo Paulo Neves.  Aos poucos, um mundo novo ia se construindo diante de seus olhos, despertando um verdadeiro fascínio pelo que testemunhava sobretudo em relação às pessoas captadas.

Seus primeiros cliques dotados de um olhar mais engajado deram-se após a adesão ao grupo fotográfico amazonense A Escrita da Luz. Foi quando passou a mergulhar num entendimento maior da fotografia enquanto obra de arte. De lá para cá, Kenia participou de duas exposições coletivas, nos anos de 2010 e 2011, integrando o festival de fotografia MBF (Manaus Bem na Foto).

Utilizando-se da fotografia como forma de autoconhecimento, Kenia Vartan crê nesse ofício uma perspectiva de se contar uma história através das imagens, sentimento que, de modo especial, aponta para uma compreensão mais ampla não somente da sua existência, mas também sobre todas as outras coisas e seres.

Foto: Kenia Vartan

 

 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

LÍNGUA PAPIRA OU O QUARTO DO CORPO

Wesley Peres  

 

Foto: Kenia Vartan

A palavra erra o corpo;
mesmo nele inscrita,
o corpo, entanto,  não
é ermo de qualquer voz.

Disso nem se adivinha o quaseabismo
entre, no corpo, o que é e o que não é boca.
Mesmo no beijo, há línguas,
o que faz da boca insular
anomalia no monastério-corpo.

Ainda que pulse toda papira
como na suposta poética cabralina
: a palavra em suspensão minéria
arranjada na lei mosaica
exigindo o não
espraiar-se dos olhos:

alguma papila pronuncia o tempo no corpo;

ainda que, na palavra papira,
o corpo sonhe de si se eximir,
conservar-se em  reino minériumano,

na mônada no sonho-linguagem,
há um silêncio irremediável,
ruidoso palatável, quasilha de carne
inóspita no na língua canavial;

disso se adivinha um estranho quarto,
minimenso e brancareia, no qual
corpo e palavra furtam-se,
mutuamente,
desde o final dos tempos.

 

(Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance Casa Entre Vértebras, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: Palimpsestos (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, Rio Revoando (poemas) USP/COM-ARTE 2003; Água Anônima (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL. No prelo: O corpo de uma voz despedaçada (poesia, a sair pela Casa Editorial Luminara/Porto Alegre); As pequenas mortes (a sair pela Ed. Rocco))

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66ª Leva - 04/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

doce lâmina

Jorge Mendes

 

Foto: Kenia Vartan
a palavra é o modo mais puro e sensível de morrer e fazer morrer
felix guattar

ocorre o corte. quer dizer, toda palavra primeiro sangra por dentro. depois é o vermelho escorrendo da página em branco. o texto.

– conheço os destilados e as frases do último bar aberto, já posso esquecer.

desnecessário, porém, ressaltar as palavras desespero e cariótica. basta a extensão fria do fio afiado da língua rabiscando a carne (a pele apenas envelhece ao sol. inútil pergaminho. contra-capa), o brilho úmido da ponta do punhal propondo o único ponto final possível ao corpo, porosa esquizoesferografia do desejo.

decerto não se trata de leitura dinâmica com molho rosé para corações voadores & outras miopias dissertativas dos poetinhas com flores no cu. antes é a inapelável solidão dos olhos enclausurados no signo rígido do silêncio. o coração sem explicação nenhuma sussurrando a última estrofe da noite lívida na hora da autópsia semiótica.

como uma vírgula bêbada, quem sabe, haja um olhar mais plano sobre a superfície (isso durante a queda), uma possível desmaterialização gestual no espelho do banheiro. então é a frase noutra forma, concretamente pingando, evaporando e sendo absorvida pelas paredes, criando pedras, descendo pelo ralo, não importa.

ademais, foda-se o foco narrativo. fica o torpor. a pulsação do talho. queima, é vero. arde. mancha o azulejo e o papel. causa pavor aos críticos ligados a higienização e catalogação da frase incendiada.

escorre, todavia.

inútil acrescentar lágrimas monossilábicas e/ou fluidos genitais ao parágrafo. isto é, o amor e outros dejetos não têm nada a ver com a obscura e amarga sentença – escrita com esperma, nuvens e saliva – do estúpido e sempre patético coração. ou seja, a vida – essa puta de refrão fácil e rimas sórdidas, verbo biológico – não ruboriza: aborta azuis. cala infinitos. fecha fluxos. esvai-se, e pronto.

provavelmente algumas imagens maquínicas cruzaram o espaço. rizomas. um sorriso de mulher saindo do mar (como uma interrogação líquida), algumas frases metonímicas talvez ainda dancem em volta da mesa. nenhum futuro-devir, é certo.

de qualquer maneira, não será lírico e nem em forma de meia-lua o traço no pulso. será sim negro e patético e sem retorno o baque. no fim da página, o vácuo.

restará a ruptura. o corpo inerte. o riso de escárnio na metáfora grotesca estendida na sombra. depois é a eternidade (um gosto de alfarrábios no céu da boca), uma sentença azul queimando dentro da cabeça. a bibliografia do medo. a música parada e a inevitável palavra esquecimento sumindo na neblina.

linguagem, é o nome da coisa.

vire a página, irmão.

(Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos)

 

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Márcio Vasconcelos

Há um marco especial fundado nas possibilidades de quem se dedica à fotografia documental: harmonizar, a um só tempo, as ações humanas aos cenários de suas epifanias particulares. No entanto, isso não é o bastante quando quem registra sabe, como ninguém, encontrar o ponto ideal no qual os objetos retratados adquirem novos sentidos. É então que o fotógrafo, utilizando-se da capacidade de perceber as nada óbvias perspectivas encerradas no mundo que o cerca, ousa transpor a tênue cortina que envolve os dias.

No caso do maranhense Márcio Vasconcelos, tudo o que foi dito acima se coaduna bem, principalmente por estarmos diante de uma trajetória que devota olhares diferenciados aos homens e seus lugares. Adepto inconteste da via documental, Márcio conduz com maestria suas sensíveis visões em torno das porções humanas. Aliada a tal característica, resiste incólume a observação atenta ao que podemos chamar de memória dos lugares. Dessa junção entre tais elementos, surge um estilo de captação da realidade algo singular, pautado, sobretudo, numa precisa e delicada percepção das paisagens visitadas. Dono de um trabalho independente, o fotógrafo acumula valiosas incursões pelas searas da cultura popular nordestina, em especial as manifestações oriundas dos afrodescendentes do Maranhão. Merece destaque seu ensaio “Na Trilha do Cangaço – O Sertão que Lampião Pisou”, conjunto de registros que percorrem os rastros memoriais deixados pela emblemática figura do rei do cangaço. E para falar um pouco sobre tais caminhos trilhados por sua precisa retina e outros temas ligados à fotografia, Márcio Vasconcelos acolheu a Diversos Afins numa iluminada conversa.

 

Foto: Márcio Vasconcelos

 

DA – Seu trabalho é marcado intensamente pelos caminhos da fotografia documental. Mais do que retratar lugares, pessoas e situações, acredita que esse tipo de registro promove, de certo modo, uma intervenção na realidade?

MÁRCIO VASCONCELOS – De 2008 para cá, tenho me dedicado intensamente a um trabalho mais autoral. É muito bom ter uma ideia, pesquisar, conversar com pessoas ligadas ao tema e cair em campo para produzir, sentir-se o autor ou co-autor do começo ao fim. Quando estou no processo de imersão, não tenho a preocupação de saber se este projeto vai mudar uma situação ou uma realidade, apenas quero fazer da maneira mais profunda e sincera, ser honesto comigo e com os personagens daquela história. Quero fazer a minha versão daquilo que vi e senti. Agora, é muito gratificante quando vejo que, depois de pronto, o resultado mexe e emociona as pessoas que o experimentam.

 

DA – Num viés antropológico, o fotógrafo documental adentra o universo do outro, estabelecendo com ele uma espécie de pacto. Como é que você percebe a questão do distanciamento, sobretudo do ponto de vista da preservação das diferenças culturais, entre quem registra e aquele que é objeto das lentes?

MÁRCIO VASCONCELOS – Com relação ao processo documental , quando estamos invadindo espaços e momentos de muita particularidade, creio que o respeito, a discrição e a ética são os elementos de maior importância. Na maioria das vezes, somos intrusos e, assim sendo, precisamos demonstrar as reais intenções de nossa aproximação, o objetivo do projeto e a relevância daquele assunto para nós e para a sociedade. O trabalho só deve ter continuidade quando percebemos que estamos sendo aceitos e que a permissão nos foi dada. Neste momento forma-se realmente um pacto, no qual a confiança, como fio condutor, jamais poderá ser quebrada. Temos que estar muito atentos ao espaço físico e espiritual que conquistamos e de forma alguma ultrapassá-lo. A confiança mútua é a joia maior que podemos adquirir.

“Esse branco pode voltar aqui quantas vezes quiser para fazer o seu trabalho, pois confiamos nele”. Estas são palavras de uma mãe africana do Benin, depois de receber umas fotos de seus filhos, enviadas por mim desde o Brasil, em mãos de um antropólogo beninense amigo. Palavras como desta mãe é que gratificam nossos trabalhos.

 

DA – Muito do seu olhar está direcionado de modo especial à cultura popular brasileira. Que país você vislumbra quando está imerso em tais registros?

MÁRCIO VASCONCELOS – A cultura popular brasileira não teria a força que tem se não fosse a forte influência das nações africanas. Percebe-se que todas as danças brasileiras, que adotam os mais variados tipos de tambores como marcação rítmica, foram trazidas ou derivadas de manifestações do continente africano. Uma das minhas maiores alegrias como fotógrafo foi ter a oportunidade de viajar ao Benin, na África Ocidental, quando da realização do projeto “Zeladores de Voduns do Benin ao Maranhão”. Desenvolvendo o projeto ali, no meio das danças, dos sons, da energia daquele povo, tinha a verdadeira sensação que estava num dos quilombos do Maranhão. Foi muito mágico e inesquecível.

 

DA“Na Trilha do Cangaço” é, sem dúvida alguma, um de seus trabalhos mais marcantes, sobretudo pelo aspecto da pesquisa histórica. De que modo você estruturou seu roteiro de andanças em torno do tema?

MÁRCIO VASCONCELOS – A proposta do Projeto era resgatar e refazer os caminhos percorridos por Lampião e Maria Bonita, Corisco e Dadá, e seus bandos, através da elaboração de uma trilha que ligasse locais que foram simbólicos na história do cangaço pelos sertões nordestinos. Desta forma, a trilha deveria começar no Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada, local do nascimento de Virgulino Ferreira da Silva, e terminar na Grota de Angico, na beira do Rio São Francisco, em Sergipe, onde Lampião foi morto pela volante do Tenente João Bezerra.

Além do aspecto físico desse sertão revisitado, o Projeto procurou também identificar, localizar e fotografar personagens que fazem parte dessa história, ou descendentes destes, e que ainda se encontram vivos para contar “causos” e atestar a veracidade do mito Lampião e Maria Bonita.

Passei por momentos de extrema emoção, principalmente quando deparava com lugares simbólicos ou personagens que foram testemunhas e que ainda se encontram lúcidos apesar da idade avançada.

Mantive horas de prosa com Manuel Dantas Loiola, vulgo Candeeiro, de 97 anos, e que se encontrava na Grota do Angico no momento da emboscada que matou Lampião, Maria Bonita e outros nove companheiros. Candeeiro conseguiu fugir, mesmo baleado no braço, e é o último cangaceiro ainda vivo deste grupo. Mora no povoado Guanumbi em Buique, Pernambuco.

Na cidade de Olho d’Água do Casado, Alagoas, cheguei de surpresa na casa de Elias Matos Alencar e este se encontrava no terraço, numa cadeira de balanço, como que a me esperar. Elias, hoje com 98 anos, pertencia à volante chefiada pelo tenente João Bezerra e narrou com muita precisão toda a cena de ataque que vitimou Lampião e seu grupo.

Em Serra Talhada, Pernambuco, passei dois dias arranchado no sítio Passagem das Pedras e, em noite de lua cheia, dormi numa rede contemplando a casinha simples de taipa de dona Jacosa, avó materna de Lampião, que ali nasceu e brincou na infância.

Para finalizar a trilha, escolhi o local que considero mais simbólico em toda a história do cangaço, a Grota do Angico, às margens do Rio São Francisco, no lado de Sergipe. Acompanhado de Hugo, meu guia, segui no final da tarde por setecentos metros, na mesma trilha percorrida pela volante do tenente João Bezerra, até chegar ao local da chacina. Acendi onze velas pelas almas dos cangaceiros ali sacrificados, fiquei em silêncio por vários minutos até a chegada da luz ideal para efetuar o último disparo, dessa vez não de morte, mas pela celebração à vida.

 

Foto: Márcio Vasconcelos

 

DA – Sua experiência nesse percurso pelo sertão nordestino evoca uma sensação de que a oralidade foi transposta para as imagens. O que mais lhe chamou atenção nesse processo?

MÁRCIO VASCONCELOS – O mais impressionante em todo este processo que vivenciei naquela região do sertão nordestino foi perceber que tudo ali ainda é muito vivo na memória do povo. Eu chegava sempre nos lugares sem a preocupação de ter marcado antecipadamente os encontros, as entrevistas, as fotografias, e tudo acontecia exatamente ao contrário. Parecia que eles estavam a me esperar, as informações iam fluindo com muita facilidade e eu acabava encontrando os personagens sentados em cadeiras de macarrão plástico na porta de suas casas, por exemplo, como se o encontro tivesse sido marcado.

Um episódio muito marcante foi encontrar um senhor indo para a roça de bicicleta, já no cair da tarde, no povoado Malhada da Caiçara, na Bahia. Achei aquela figura muito interessante e fiz sinal para que parasse. Começamos a conversar sobre o ofício que faria àquela hora do dia e, depois de certo tempo, solicitei gentilmente a permissão para fazer uma foto dele, no que fui prontamente atendido. Depois de um papo gostoso, nos despedimos e ele, sem que eu perguntasse algo sobre o cangaço, começou a falar que era primo de Maria Bonita e que seu pai fora namorado dela. Como a noite já vinha chegando, esta seria a melhor revelação pra fechar aquele dia. Tinha ganhado um verdadeiro presente daquele senhor, chamado Seu Borges. Ele seguiu pra roça e eu voltei para a minha trilha.

 

DA – Arriscaria dizer que seu ofício é um manifesto à preservação da memória?

MÁRCIO VASCONCELOS – Trabalho com afinco e seriedade. Isso, no futuro, só a memória dirá.

 

DA – Suas origens remontam ao Maranhão, estado que agrega um rico cenário de apreensões do imaginário popular. Veio daí a motivação maior para trilhar o caminho documental?  

MÁRCIO VASCONCELOS – Além da minha origem nordestina e da riqueza cultural do Maranhão, senti que já estava com um trabalho maduro para seguir um caminho mais independente, mais autoral. Quero, cada vez mais, ser o idealizador de um tema, me aprofundar nas pesquisas, fazer uma leitura própria e transformar isto em imagens.

 

DA – Suas incursões pelo Brasil permitem-no constatar que, no tocante à preservação de nossa memória histórica, ainda estamos longe do ideal?

MÁRCIO VASCONCELOS – O Brasil é de uma riqueza cultural enorme, e, realmente, muito pouco para a preservação da memória de parte desse acervo tem sido feito. Somente no Maranhão, por exemplo, poderíamos trabalhar anos seguidos e não conseguiríamos registrar metade desse tesouro.

 

DA – Afora os evidentes aspectos tecnológicos, o que você considera como sendo a principal mudança trazida pela fotografia digital?

MÁRCIO VASCONCELOS – No começo, senti uma grande resistência para fazer a troca do analógico para o digital, pois a diferença de qualidade era gritante. Hoje, vejo que o processo de pensar o ato fotográfico continua o mesmo, apenas a captura é que mudou. Em alguns trabalhos documentais, como em comunidades quilombolas, por exemplo, o processo digital ajuda muito, pois podemos mostrar as fotos imediatamente aos personagens e isto contribui para a troca de confiança.

 

DA – Está em curso algum novo projeto documental seu?

MÁRCIO VASCONCELOS – A minha cabeça está sempre a fervilhar e a vontade de produzir é incontrolável. Atualmente, estou desenvolvendo três projetos ao mesmo tempo:

“Terecô – a magia dos tambores da Mata Codoense”, aprovado no edital da Secretaria de Cultura do Maranhão, resultará numa exposição sobre uma vertente do Tambor de Mina, em uma região específica do Maranhão.

“A Estética do Terreiro – materialidade e agencialidade nos terreiros de Pajés do Maranhão”, este projeto em parceria com a antropóloga Ana Stela Cunha, tem patrocínio do Banco do Nordeste e será apresentado num livreto e numa exposição no Brasil e nas cidades portuguesas Lisboa e Guimarães.

“Incorporados”, projeto que mostra o processo de montagem de travestis, drags e transformistas. Este trabalho, mesmo antes de concluído, já ganhou uma Menção Honrosa no Concurso Iberoamericano de Fotografias, promovido pela Embaixada da Espanha na Bolívia, e fará parte da exposição a ser montada no Centro Cultural da Espanha, em La Paz, no mês de abril.

Outro projeto que se encontra em processo de sondagem e pesquisa é sobre Monges e Mosteiros do Brasil.

 

DA- Afinal, por que fotografar?

MÁRCIO VASCONCELOS – A fotografia passou a ser a extensão do meu corpo, da minha mente, da minha alma. Fotografo a todo instante, até enquanto durmo. Às vezes, até uso uma câmera para fotografar.

 

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Foto: Kenia Vartan


INALTERADO

Ana Vieira

 

Nada no espaço do peito, na mortalha do dia, na
luz na voz no horizonte no mundo na fenda que submerge,

a não ser o espelho líquido, a imprecisão embrulhada nos gestos aquáticos.
Os peixes sedentos no poente da escuta, no eco do grito, na mão que derrete.

Invento o bater do espelho a cair,
a gota, o veio, o corte na carne
desfeita.
A frase repetida, o inalterado, o sem cor,
a corroer-se inteiro por dentro, a escorrer pernas abaixo como lava que desencandesce e se agarra, se infiltra, penetra cada poro

congela em pedra dura um coração colosso.

A dor nos dedos
no espaço,
na espera, na curva,
no fio da teia da aranha.


***

 

Faço-me solidão em silêncio.
Faço-me solidão espécie suicida de muitas idas e
nenhuma volta
nenhum retorno
nenhum escudo.
Nenhuma pequena vala comum no fim do túnel.

Faço-me sozinha e às vezes aflita.
Sozinha e por vezes contrita fechada
por dentro desse silêncio à força de escrever aos gritos.

Faço-me sozinha e às vezes aflita.
Sozinha e às vezes cativa aflitamente cativa
da solidão e do silêncio opalino
da tua voz.

 

(A poetisa portuguesa Ana Vieira Pereira é mestre e doutora em Letras pela USP. Mãe de 7 filhos, publicou contos, crônicas e um volume de poemas, “O que sobre vive”. Mora atualmente em Araraquara/SP e escreve porque, como os demais, precisa de oxigênio)


 

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

UM OLHAR SOBRE O JOGO DE SER EFÊMERO

Por Rafael Morais

 

Foto: Kenia Vartan

 

É muito interessante a relação entre o nome deste caderno, “Jogo de Cena”, com o tema que abordaremos em sua estreia: a Improvisação Teatral. Antes de tudo, pensei em um tema que estivesse presente em tudo que realizamos no teatro, assim como o próprio jogo, inerente à atividade teatral. A improvisação tem papel relevante em todos os meus processos criativos e de formação artística. Interage tanto com o ofício do ator, quanto com o do contador de histórias, palhaço e o teatro de rua, destaques estéticos do Teatro Griô, grupo do qual sou um dos fundadores e coordenador artístico.

A improvisação existe como elemento implícito em qualquer ato teatral, mesmo num teatro que pretende formalizar o seu resultado como uma criação acabada e previamente elaborada, que objetiva uma forma final (produto acabado) fechada ao improviso. Nestes casos, a improvisação deixa de existir apenas aparentemente, permanecendo submersa, pois a arte teatral por si só é improvisacional. O ato de improvisar no teatro, entretanto, não deve ser confundido com a atitude de realização com pouco ou nenhum preparo prévio.

Julgo importante frisar que a improvisação, além de ser inerente ao teatro, ela, justamente, origina o próprio teatro e tem se desenvolvido desde os primórdios do fazer teatral. Mas, em muitos momentos do percurso do teatro através dos tempos, a improvisação descreve um percurso dinâmico que vai desde a condição de primeiro e único recurso, tornando-se posteriormente a se constituir uma atividade subliminar, até chegar a ser um elemento autônomo de expressão, de forte relevo em determinadas manifestações teatrais.

A improvisação teatral, segundo Sandra Chacra, importante estudiosa do tema, não encontra um espaço privilegiado nos registros escritos do chamado teatro tradicional, sobretudo o de base literária, não sendo, portanto, as fontes históricas sobre a improvisação teatral, referências sustentadas em fundamento textual mais amplo. As formas e os meios de improvisar no teatro foram se desenvolvendo de forma subterrânea, juntamente com um fazer mais ligado ao teatro popular, desde as épocas primitivas, perdurando como manifestação até o presente. Desde as representações dionisíacas, precursoras da cena formal, além da estrutura ritual, comportavam uma série de expressões mimo-dramáticas improvisadas. “A Improvisação é a raiz, não somente da tragédia, como também da comédia”. (CHACRA, 1983, p. 24-25).

Desde a antiguidade, a improvisação existe como uma forma de transmissão a partir de aspectos ligados à oralidade, como elemento de destaque de determinadas formas de espetáculo muitas vezes originadas de experiências ligadas ao teatro mais popular. Não dá para realizar, neste artigo, um estudo panorâmico da improvisação teatral ao longo da história*, no entanto, gostaria de chamar atenção aqui para esse fio que segue subterraneamente através dos tempos, o que a aproxima muito de uma forma de sobrevivência e disseminação inerente à tradição oral, como foi o caso de sua presença tanto nos primórdios das farsas atelanas, que improvisavam com tipos determinados em que se pode reconhecer os progenitores das futuras máscaras italianas da commedia dell’arte, passando pelos saltimbancos, bufões, acrobatas, prestidigitadores, charlatães e outros, que representavam all’ improviso nas praças e feiras desde os primórdios da Idade Média. “Da mesma forma, a improvisação também está presente nas festas medievais, como a ‘Festa dos Reis’, o ‘Carnaval’, a ‘Festa dos Loucos’ e outras.” (CHACRA, 1983, p. 29).

Após o desaparecimento da commedia dell´arte, a improvisação continua a manter-se no decorrer do século XIX em espetáculos marcadamente populares como a pantomima, o circo, o teatro de variedades (music-hall, cabarés). O próprio Stanislavski, preocupado com uma representação mais sincera e verdadeira, propõe ao ator uma preparação através da improvisação. Meyerhold, por sua vez, integra o improviso no próprio espetáculo, seja para estabelecer traços estilísticos, seja para comunicar aspectos sócio políticos. Artaud, dentre seus objetivos, tem o de tornar o teatro uma “linguagem da improvisação” e chega a pensar num teatro cuja peça seja composta diretamente em cena. Gordon Craig e Jaques Copeau, entre outros, valorizam o espetáculo, a atuação, o jogo cênico, o gesto, a expressão corporal e vão beber na mesma fonte em que nasce o espírito da improvisação teatral.

De um modo geral, todos os encenadores do teatro moderno se valem da improvisação num grau maior ou menor, seja na preparação ou durante os espetáculos, como o chamado “Teatro Participação” **, e grupos como o Living Theater, Open Theater, Bread and Puppet, dentre outros, sem esquecer os brasileiros que recorrem à improvisação como linguagem de destaque, tais como Augusto Boal, com o “Teatro do Oprimido”, e José Celso Martinez Corrêa, com o “Te-ato”, os quais consideram que o fenômeno teatral nasce e se concentra quase exclusivamente na co-autoria ator-público.

Na prática por nós desenvolvida no Teatro Griô, por exemplo, a improvisação teatral integra tanto os ensaios quanto o momento da apresentação, através de estratégias diversas. A arte do improviso auxilia e dá suporte à criação cênica, apresentando possibilidades de interação com a plateia. Os elementos criados em meus processos criativos a partir da improvisação estão apoiados na própria prática de ator, professor de teatro e preparador de elenco, utilizando ainda experiência como especialista nas técnicas de palhaço e contador de histórias. Parte de inspirações diversas, como palavras, imagens, manipulação de objetos, jogos e estratégias de improvisação tanto para a criação do texto quanto da encenação.

A arte de narrar histórias, elemento-chave de nosso fazer teatral, tem, também, forte marca de improvisação. A própria relação com a oralidade confere à arte do cronista oral muita aproximação com elementos ligados à improvisação teatral. Não tenho como objetivo, no processo criativo de encenação de histórias, “decorar” a narrativa de maneira convencional, numa forma fechada, mas trabalhá-la como uma trama, um fio narrativo entrelaçado com fatos fundamentais, imagens, emoções, atmosferas, conflitos, desenlaces que se organizam de maneira a estabelecer o percurso narrativo desejado. De modo alusivo, o griot tradicional do contexto africano também assume a improvisação no tratamento dado a uma trama narrativa tradicional:

Uma narrativa tradicional possui sempre uma trama ou base imutável que não deve jamais ser modificada, mas, a partir da qual, pode-se acrescentar desenvolvimentos ou embelezamentos, segundo a inspiração ou a atenção dos ouvintes. (HAMPÂTÉ BÂ, 1982, p. 192).

Ao visualizar esta trama, com as muitas imagens que ela implica, o ator-griot*** improvisa o seu texto apoiado na cena da oralidade. Isso não quer dizer que ele irá inventar tudo na hora, ou que não tenha preparo prévio, mas, muito pelo contrário, o preparo para este tipo de desempenho é imprescindível. A improvisação, neste caso, além de ser elemento chave na concepção da cena, é também destaque no momento da encenação, uma vez que este ator estabelecerá um contato mais direto com a plateia, a qual em determinados momentos poderá até participar como co-criadora da cena, resultando, por conseguinte, em uma maior abertura para a realização de uma atuação improvisada.

Nesta experiência em que o ator contracena diretamente com a plateia, ele vai naturalmente ajustando sua atuação (texto, estratégias, ritmo etc.) em resposta aos espectadores e ao momento. Tem a liberdade de, no andamento da cena, caso ele mesmo julgue pertinente, simplesmente fazer como tinha planejado nos ensaios, ou adaptá-la, suprimir alguma parte, acrescentar outra, interromper em determinado ponto a narrativa e realizar um jogo de animação da plateia, para logo a seguir retomar a narrativa de onde havia parado.

As tramas, no contexto de meus processos criativos junto ao Teatro Griô, diferentemente das histórias simplesmente narradas, estimulam a criação de diversas estratégias de transposição da narrativa para a cena e criação de personagens, inclusive do próprio personagem narrador. Também permite ao ator-griot interagir diretamente com o público num ato de desvendamento de sua própria personalidade de forma poética, a partir da encenação dos mitos e contos populares e das narrativas criadas da sua própria memória, bem como dos jogos de interação com a plateia.

A improvisação acaba por alinhavar um tecido que sustenta o próprio jogo teatral, principalmente numa metodologia como a do Teatro Griô, que privilegia a cena do ator em comunhão com elementos técnicos e estéticos do palhaço, contador de histórias e teatro de rua, dentre os quais a improvisação é elemento-chave na composição cênica em todas as etapas do processo criativo.

Não é possível vivenciar o transitório jogo da cena teatral sem praticar a arte de improvisar. O ator sabe que é preciso re-viver a cada espetáculo, a cada encontro com o público, o jogo efêmero do teatro, onde, apesar da busca da repetição, daquilo que foi perseguido nos ensaios, é impossível se fechar ao novo. E, caso esta experiência se cristalizasse, numa forma fria e acabada, tornar-se-ia sem vida. Morreria o jogo. Deixaria de ser teatro.

 

Notas:

 

* Além de Chacra (1983), “Natureza e Sentido da Improvisação Teatral”, e da obra de Viola Spolin (1979), destacando-se o título “Improvisação Para o Teatro”, uma visão panorâmica do percurso da improvisação no teatro, pode ser vislumbrada, de forma implícita, ao analisar muitas obras sobre o teatro, como por exemplo, “O Parto de Godot” de Luis Fernando Ramos (1999), no capítulo 1, que aborda a história da rubrica, e o histórico sobre o non sense na história do teatro composto por Martin Esslin (1968), no seu “O Teatro do Absurdo”, capítulo 1: o absurdo do absurdo. Claro que, ao contrário de Chacra, os outros dois trabalhos dos autores citados não tratam explicitamente de improvisação teatral, mas, ao tratar da história da rubrica, ou do percurso do non sense, eles acabam permitindo agregar dados, de forma panorâmica num mesmo capítulo, a essa possível reconstituição de um fio imaginário de um percurso da tradição oral da improvisação teatral. Isso sem contar com a análise de obras específicas da História do Teatro.

 

** Notadamente o dos anos sessenta, realizado nos Estados Unidos, também conhecido, além de “Teatro Participação”, com os nomes de “teatro experimental”, “teatro em processo”, “teatro de contestação” ou “teatro improvisado”. Tratam-se na verdade de diferentes tipos de “participação”, na qual podem ser englobados, por terem todos, em comum, alguma participação “ativa” do espectador e ser a improvisação a base de seus trabalhos.

 

*** Utilizo o termo ator-griot, para designar o ator que cria um personagem narrador, inspirado poeticamente em narradores tradicionais do noroeste da África, denominados griots, que têm a função de alinhavar as narrativas encenadas, inclusive as narrativas criadas a partir da experiência de vida do próprio ator. A utilização do termo ator-griot foi de grande valia para facilitar a compreensão da especificidade de atitude deste ator, como concebido na pesquisa realizada por mim no âmbito do PPGAC – Programa de Pós-Graduação em Artes Cenicas – UFBA, e, para auxiliar no entendimento do que foi exposto no cotejamento com os procedimentos assumidos por tradicionais encenadores do teatro. Caso haja interesse numa maior compreensão do termo e, consequentemente, do processo criativo integrante da pesquisa, no qual se constituiu da criação e encenação de uma trama de narrativas inspiradas nos griots, pode-se consultar a Dissertação (citada nas referências ao fim deste artigo), onde foram tecidas determinadas especificidades a respeito do desempenho deste ator-griot.
 

 

REFERÊNCIAS:

 

CHACRA, Sandra. Natureza e Sentido da Improvisação Teatral. São Paulo: Perspectiva, 1983.

 

ESSLIN, Martin. O Teatro do Absurdo. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.

 

HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. A Tradição Viva. In: KI-ZERBO, J. (org.). História Geral da África Vol. I. São Paulo: Ática/Unesco, 1982.

 

RAMOS, Luiz Fernando. O parto de Godot e outras encenações imaginárias: a rubrica como poética da cena. São Paulo: Hucitec, 1999.

 

SOUZA, Rafael Morais de. Na Teia de Ananse: um griot no teatro e sua trama de narrativas de matriz africana. Orientadora: Profª. Drª. Hebe Alves da Silva. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal da Bahia, Escola de Teatro, 2011.

 

SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. São Paulo: Perspectiva, 1979.

 

 

(Rafael Morais é ator, diretor e professor de Teatro. Mestre em Artes Cênicas – UFBA, é também Coordenador Artístico do Teatro Griô. Dirige os grupos artísticos residentes do Teatro Griô: “Akpalôs – Fazedores de histórias” e “Cia de Teatro Baobá”)

Contato: rafael@teatrogrio.com.br