Naquela costa
as nuvens migram
para a espiritualidade
os cavalos as feras
seres deste mundo
conectados a uma
estranha palavra
o invisível também
é natureza
a linguagem cobre
o corpo
nossa energia
o que sai de nós
linguagem
como uma espécie
de aura
diz que somos excessivos
processamos
a língua materna
ela quer nos preencher
daquela paisagem
ou acontecimento
– um poema
deveria ser escrito
em um idioma indomável
para assim se tornar
poesia novamente.
***
Yosef
ele que voltava ao continente
ou que tinha por país sua fuga
o coração incerto como a fronteira
nome na deriva do rio, moldava
o que era rio e o que era abismo
carne não bem situada
o coração costurado nas trevas
este lugar mais silencioso
que o canhão antes do tiro.
***
“É-me o corpo todo”
à Leonardo Fróes
teso, mudo, vegetal
ao modo de montanha
e octogésima pedra
onde fundações flutuam
insinuado monge, alpinista
artífice das raízes e itinerário das matas
o que pode sem a selvagem justificação de deus?
abarcar-se no corpo-cordilheira do poema
***
Hórus
um olho que emite sua fratura
encarnada e múltipla – um escuro
que atravessa a luz do verão
um olho que é o aceso o outro
que versa sobre o fim
um olho-oráculo fendido na distância
pela certeza pelo furo
na pintura o olho é posicionado
francamente como em prisma
só a ausência de simetria importa
o desequilíbrio, o desfazimento que penetra
na costura dos órgãos
na luz vibrante
na sua sonegação
***
o que pode o corpo contra a montanha dispersa?
quantas vezes deliberarei o corpo
nestas paisagens tropicais?
me antecipei em achar minha feminilidade
mas no fim fui ao altar das conchas
e não mais saí de lá
sou a ostra aguerrida contra o céu gigante
constituindo sua periculosidade em pérola
e o sexo, embora um mero acaso
é também uma ética
com que nos comunicamos
nos semeamos, nos esgotamos.
***
Aos pés da cotovia
um pensamento é puro magnetismo
tem sal nos caninos
eu escuto o passo aproximado
de uma cotovia
é um som de errância gaulesa
e é à prova de som
chegar à casa desses pensamentos
apossada do escuro magnetismo
mensurar a visibilidade
desses espaçamentos
me sentir real
um desejo de ser real
de ser cada vez mais real
aos pés da cotovia
nas ferrovias, montanhas
no meu país interno
e no reino inventado do brasil
Roberta Tostes Daniel, poeta carioca, nascida em 1981. Publicou “Uma casa perto de um vulcão” (Patuá, 2018) e “Ainda ancora o infinito” (Moinhos, 2019). Possui participações em várias revistas literárias, no meio impresso e digital. Propõe imagens e acasos lá no @robertatostesdaniel (instagram).
Pensar as cores que contornam tudo. Ter as formas como horizonte de perspectivas num campo aberto de observação. Sorver da existência mundana a experiência dos gestos, os idiomas do tempo e as múltiplas faces da condição humana. Vislumbrar rostos embotados de silêncio, expressão e rotina. Percorrer a ciranda dos tons para depois enaltecer a pulsação que anuncia a vida.
Viver pela Arte é um estado de atenção, ver-se desperto para flagrantes e voltar o olhar também para o que parece imperceptível. O artista é esse alguém de espírito inconformado, posto que ousa perscrutar até mesmo o insondável e trazer dali lampejos e mergulhos. No retorno dessas imersões, o apreciador da obra sabe que os trajetos ofertados lhe causaram toda sorte de revoluções internas. Nós, espectadores ávidos, somos parte da construção almejada pelo criador quando ecoamos por dentro de nosso âmago os impactos saboreados.
E como é bom desfrutar de possibilidades da descoberta ao nos depararmos, por exemplo, com a arte de Paula de Aguiar. Nas ilustrações da artista, as formas regem os caminhos. Suas cores acusam a aurora do humano sobre corpos que transbordam sentimentos dos mais variados. Mas eis que a temática do corpo ganha uma dimensão especial quando o alvo passa a ser o universo feminino.
Em Paula de Aguiar, o ser mulher é tido em amplitude, posto que carrega em si cenários de manifestação que vão desde o recolhimento íntimo até a expressão mais efusiva de suas personagens. No bailado das formas, pairam ante nossos olhos corpos alargados como se tal escolha refletisse uma necessidade de marcar posições contundentes diante da vida que inevitavelmente nos toma de assalto. Trata-se de um verdadeiro trajeto por onde desfila a face plural das emoções, caminho que denota a predileção pelo olhar poético sobre as mulheres ali pensadas. Nesse caldeirão de rostos e gestos, há um misto de delicadezas, silêncios, inquietações e enigmas.
Ilustração: Paula de Aguiar
Um dos pontos altos das ilustrações de Paula está no uso das cores. Nelas podemos notar um sentido de expansão das sensações gozadas através de uma experiência estética que contempla o diálogo com os mundos interno e externo. O efeito dessa coexistência entre o íntimo e o exterior não opera dissonâncias entre essas duas esferas de percepção do tempo e da vida; pelo contrário, mais parece harmonizar dimensões que naturalmente sugeririam algum tipo de oposição ou confronto.
A pernambucana Paula, que é formada em computação gráfica e atualmente estudante de artes visuais, viu no aprendizado e manejo com as ilustrações digitais uma valiosa estrada a ser trilhada profissionalmente, tanto que vem atuando como freelancer nos últimos tempos.
As veredas percorridas pelo trabalho da ilustradora recifense mostram uma especial relação entre o real e o imaginário. São imagens que sugerem também uma interposição entre os caminhos do sonho e da fantasia com a visão do mundo que não cessa de acontecer debaixo de nossos narizes. O resultado de tudo isso é também a ideia de que um todo orgânico paira sobre a obra da artista, fazendo com que os elementos constituintes se mostrem interligados, seja pelos laços humanos de nossa vivência terrena, seja por projeções que decorrem diretamente duma capacidade de reinvenção sensível da existência.
Ilustração: Paula de Aguiar
* As ilustrações de Paula de Aguiar são parte integrante da galeria e dos textos da 145ª Leva
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
As inscrições quadrangulares de uma incomum calçada e a conhecida placa luminosa da Rua Vinte de Setembro confirmam o endereço: número 1991, Edifício Coronel Cabrita, apartamentos SS/T/01. Após dois lances da escada em mármore verde, a porta de mogno. Entalhes de anjos, querubins, cavalos alados, centauros e cenas da vida campestre.
No meio de tudo, uma guirlanda, flores artificiais e ramos de trigo, pintalgados dum esmaecido brocal na cor do cobre. No seu interior, discreto cartão em letras góticas, douradíssimas, gravadas em baixo-relevo: “Bem-vindos a este humilde rancho, onde não falta o mate amargo e o ombro amigo”.
Ao centro da moldura de prata, contendo arabescos, a campainha. Dois toques, e soa um mugido de vaca, bovinos ou similares. Ao ruído de uma chave na fechadura, segue-se o movimento circular da maçaneta alaranjada, fosforescente.
Em cima da porta, o arranjo metálico tilinta, pequenos sinos dobram. No saguão de entrada, multiplica-se em biombo de espelhos a pequena bailarina. Dança o Tema de Lara sobre círculos imantados de um vistoso porta-joias.
Entre as duas portas no velho estilo faroeste, da cozinha e da sala de jantar, o corredor em cotovelo, onde se enfileiram as fotografias. Retocadas por tintas de coloração primária, imagens unidas de um casal em close-up. Amarelados instantâneos da casa de campo avarandada e do homem de enormes bigode e chapéu. Em preto-e-branco, um retrato de casamento: a mão da noiva sob a do noivo segura a faca de serra, acima do segundo andar do bolo. No terceiro, um par de açucarados pombinhos.
Num verde-oliva destingido, e à frente do esquadrão em continência, o militar bronzeado, com óculos de sol, exibe medalhas no peito a estufar-se. Em tons pouco definidos, a dupla de meninos sorri, sem os dentes da frente, atrás do globo terrestre. Como pano de fundo, a bandeira nacional e o estandarte azul-anil, “Lembrança da Escola do Divino Espírito Santo”.
Lustrosamente coloridos, rapazes em trajes menores, e a dezoito por vinte e cinco, circundam o pôster da Cleópatra seminua. Pernas roliças, escadinhas no abdômen e bronzeado reluzente, no meio de um mar de plumas e tecidos bordados a lantejoulas, em degradês de verde.
Ao fundo do corredor, na grande sala de móveis brancos, laqueados, destaca-se a lareira, de rosáceo granito. Sobre ela, cabeças de cavalos em puxadores de brasa, tubos de vitaminas e a Vênus em bronze. Seus braços amputados, sem pés nem cabeça, mas com o triângulo, entre as pernas, bem definido. Raros pelos crespos, a descerem do ventre liso, rumo à orquídea entreaberta, pronta para estremecer e abrir-se ao primeiro toque.
Impaciente, meto a boca na flor da deusa. Por meio desse pitoresco interfone, comunico-me com a dona da casa e espero. Batendo a cinza do quinto cigarro no cu de ferro de um Hermes grego.
***
UM TESOURO TODO SEU
Se a minha anfitriã não existisse, de qualquer forma, seria inventada por algum oficineiro em busca de protagonista. Ou de protagonismo.
Importa que existe. De fato, seu guarda-roupa não delata uma perua a rigor. Modelitos mais casuais, no âmbito cotidiano: flanelas e camisetas tamanho L, uma que outra estampa xadrez, jeans e jardineiras, nem amassam. Do outro lado, à espera do ferro de passar, as golas plissadas, pantalonas com vinco, saias mini rodadas, de cintura alta.
Sempre de classe, mas sem os excessos da década anterior, revisita blusas de seda, lã e linha, jaquetas e casaquinhas bem cortadas. Todas em cabides individuais. As cotidianas, bem à frente; as festivas, mais ao fundo.
Ainda separa roupas citadinas da indumentária agreste. Subdivide-as entre as seções matinal, diurna e noturna. Sem contar com o nicho das ocasiões mais assim: o baile das debutantes, carnavais binacionais, o sarau das prendas, as exposições agropecuárias, de Esteio e Palermo (de Buenos Aires, não da Sicília).
As vestes de gala nem serão descritas, congêneres encontram-se nos catálogos de JP Gaultier e do Alexandre, aquele, que tem o mesmo sobrenome da romancista polaca. Sete fantasias, por sua vez, de grega ou de egípcia, devido a alguma crendice, talvez, e com os brilhos cabidos, ornamentam uma arara de aço inox, que fica no canto bem do fundo.
Na fileira anterior, tem que ver, os panos da campeira: ponchos de lã crua e palas de seda pura; as bombachas com casinha de abelha nas laterais. E os cintos de todas as cores, no couro ou no tecido, com fivela ou sem fivela, guaiacas, inclusive.
Tampouco faltariam peças do chiripá, uma grande tira que se amarra na cintura, como saiote ou fralda, a canga dos gaúchos. Quem não tem praia, lagarteia ao sol nas coxilhas, nem fica com areiazinha entrando nas partes.
Caso à parte, um outro quarto inteiro, onde guarda, praticamente, só as bolsas e os calçados. Não vou me debater, porém, no meio de cabides, sapateiras, cobertores, sob os trinta e tantos graus do verão fronteiriço, para expor a sua incontável e mais particular coleção.
Nada nosso, tudo dela. Como os armários embutidos, outros aposentos, o big apartamento, a laje, os ladrilhos, pedrinhas; falsos brilhantes, brincos iguais ao colar do anjo, um bosque, a piscininha; Amor, bombons finos. Dona do carnaval, da coisa toda, menos da voz que narra. Por enquanto.
***
UMA FIGURAÇA EM BUSCA DE BIÓGRAFO
Desvela-se um fantástico show ao vivo; a vida como ela é. Nada fútil segundo pressupunha. Nem uma existencialista com toda razão, nem a rebelde dos anos dourados. Não queimaria sutiãs, tampouco haveria de pintar a cara e se vestir de preto, tipo carola andaluza.
No lado inverso, como visto pelo closet e se verá pelas melenas, tende para o arco-íris, multicor. Nada mais, nada menos, do que uma fábula. Em carne e osso — que figura! — as curvas sinuosas, o traseiro empinado, as pernas sólidas, meio arruivada.
Os prontuários do doutor Resende, segue à risca, paciente. Toma uma canja revigorante, ou caldo, ou ambos, talvez, ou suco, ou os três, quando acorda, lá pelas dez da matina. E o chá [?] verde num coité que ronca, sorve pelo canudo de metal, durante o resto da manhã, os pauzinhos boiando ao final de mais um conto, se é que há.
Às vezes, acrescenta tília ou erva-cidreira, anda doente dos nervos, mexeram na sua poupança. Congelada pelo governo, pense aí, quadro depressivo, crises de ansiedade. Mesmo com a dieta rica em antioxidantes, betacarotenos, gafanhotos, acha-se meio desmemoriada.
Não sendo chata para comer, nunca passa fome, ainda fica longeva. Prescreve o médico ortomolecular, lá de Resende, como dito, e papa lindo, a figurona, lesmas hermafroditas, lagartas de cartucho, o chá de cavalinha, a tanajura que cai, cai, na panela de gordura insaturada.
Caramujos da maçã, caracoles do café, com sal rosa do Himalaia, caralhinhos de licor, os caracóis dos seus cabelos, até o louva-a-deus morto no pós-coito. Tudo mastiga devagar, mas em refeições ligeiras, entre o desjejum e a comida do meio-dia. O cardápio todinho na ponta da língua, porém se cala quanto aos homens com os quais se enrolou.
Abotoaram o paletó, alguns. O primeiro, na hora do bem-bom/bem-tudo que, com ele, poucos minutos, nada bons. Esta mulher daqui pra frente dá uma pausa no seu relato de cunho biográfico, mas não quer voltar atrás, não é carangueja na enchente da maré. Está mais para uma louva-deusa.
***
IN MEDIA RES
Meia rês, manda carnear, para os filés a cavalo, que costuma oferecer nos almoços sempre tardios, com batatas fritas mais legumes frugais. Ao revezar o menu, carreteiro de arroz vermelho, feijão mexido na pimenta da braba e as bananas da terra baiana.
Já na sobremesa, pode nem alcançar a metade do assunto de grave urgência para cuja resolução convocou-nos a opinar durante o aperitivo. Se bater um soninho, ou aquela fome mais tarde, ceva outra vez o verde mate, serve mix de nuts, os chips de coco, uns chocolates lá de Uruçuca.
O lauto jantar traduz-se num caranguejo inteiro acompanhado de vinho tinto, ervilhas poás e cenouras baby ao molho campanha. Na ceia da madrugada, o espumante nosso de cada dia, para alternar entre a salada de pepino com frango assado e o quefir de mamão cassis na baguete de aveia. Talvez por isso, não enrugue, é o que aparenta, colagenosa.
Adepta do fogo baixo e da comida lenta, busca não se estressar muito, eu que o diga. Altas horas pelo Beco dos Ricos, até agora no Bar Pirâmide, a biografada discute comigo os pormenores desta narrativa por fazer. E havia proposto só uma espichadinha nas redondezas, perto das doze do meio-dia, para uns três chopes, no máximo, com intuitos de encerrar o papo. Mas esse, como a saideira, nunca chega ao fim, pletórica que só!
***
ABRE A JANELA, FORMOSA MULHER
Vinha direto da balada. Belíssima como ela só, e uma novela brasileira. Quem não soubesse, presumiria que, de tão nos trinques, recém saísse do cabeleireiro. Após umas vinte e quatro horas na rua, mal tomou uma ducha, o suco de couve, e mate quente até ficar verde, umas duas garrafas térmicas.
A mochilinha das costas, trocou pela bolsa-baguete; do coque, fez um rabo de cavalo. Sente-se meio sufocada, quando sufocado, deveria estar eu, ainda que já fora do armário.
Para respirar melhor, aproxima-se da veneziana pintada de amarelo-ouro, com vista para a Via Pirandello. Rápido, rapidíssimo, escancara dois postigos. Iluminada e policromática, faz fusquinha para uns guapos de bom-porte, passantes. Quanto à plena modernidade que ostenta na cabeça, dá as tintas: Anjo-Caramelo de tonalizantes temporários, mais Cereja do Peloponeso, às custas de Casting 3.1, tintura sem amônia.
Em um ponto, indomável, suas posições modernas orientam-se por determinados limites. Causam-lhe nojo quaisquer clones, inclusive uma telenovela com esse nome. Para que não a confundam com uma cópia mal feita, a personagem em busca de si-mesma como uma outra quis porque quis deixar um pouco da vida para virar páginas impressas.
Nem bem escolho novo ângulo a fim de melhor observá-la, espicha o olho para a tela do computador, que acabou de inicializar-se. E ri de gaiata ao ver um dos seus mimosos apelidos a luzir na mais recente das pastas que vou abrindo neste Word for Windows.
André Mitidieri: Pobre bicha na estrangeiridade do lugar e do momento. Professa e pesquisa a nebulosa biográfica, as literaturas transviadas, mas nem tão só. Nasceu na terra do Quintana, mas ama a Baía de Todos os Santos. Oferece em primeira mão, nesta edição de aniversário, super agradecendo à Diversos Afins, os textos que integram a trilogia Eterna miss, a ser lançada em outubro, após 25 anos de engavetamentos, extravios, miles de disciplinas, artigos publicados, ressacas, recomposições, ejós & etc.
O ofício poético é esse debruçar sobre a vida que acontece, constatação dos instantes, explosão de sentidos e mistérios. É dado ao poeta pensar sobre seu tempo, sua realidade, seus desvarios. É dado ao poeta, também, esculpir em palavras o espanto e o estranhamento que perpassam o ato de existir. Quem escreve sabe que o tempo impõe desafios, modulando cargas que se equilibram ou não na dinâmica das emoções, ora fugidias ora permanentes.
Por mais que especulemos sobre as razões do engenho com os versos, empreendendo toda sorte de análises particulares sobre uma determinada obra, nada substitui o diálogo direto com o autor. Nesse gesto de escuta, talvez o melhor resultado seja aquele que opera dentro da lógica da provocação. E o que seria isso? É um deixar que o escritor transite livre pelas suas ideias, mas não sem antes ser estimulado a movimentar territórios inquietantes em matéria de pensamento.
Aquele que entrevistamos por agora na revista não tem o perfil de fugir às provocações e parece estar bem à vontade quando um eixo filosófico se desenha no horizonte das falas. Trata-se do poeta capixaba Jorge Elias Neto, a quem poderíamos definir como uma espécie de artífice da palavra. E dizer isso do autor é ir além da ideia de que nele está o cálculo arquitetado para fazer eclodir a forma em seus versos. Um olhar para sua obra nos permite dizer que seus poemas emanam epifanias abundantes da vida.
Jorge é, de fato, um poeta de inquietações. Quando um tema o assola, é capaz de mergulhar fundo em toda sorte de leituras adicionais que o façam movimentar compreensões mais robustas. Está atento aos sinais da existência e, tanto em suas falas aqui presentes quanto em seus poemas, notamos um caminho de busca: sentir a experiência humana como um protagonista face aos cenários. Dessa maneira, ele é um alguém que não se furta em saborear os enfrentamentos da vida, refletindo sobre nossa condição de seres que interferem a todo tempo no transcurso da história.
Dono de uma trajetória que contempla a escritura de livros como “Verdes Versos” (Flor&Cultura, 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&Cultura, 2010), “Glacial” (Patuá, 2014), “Sonetos em crise” (Mondrongo, 2020), dentre outros, Jorge Elias Neto atravessa agora nossos sentidos com o seu pungente e provocador “Manual para estilhaçar vidraças”, recentemente lançado pela Editora Cousa. Seu novo rebento poético é verdadeiro roteiro para cutucar uma coleção de sobressaltos da contemporaneidade com vara curta. Ou, como o próprio poeta nos diz, “uma alternativa de salvação”. De todo o dito, a entrevista serviu, sobretudo, para também mostrar um autor que presentifica o seu lugar no mundo.
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal
DA – “Manual para estilhaçar vidraças” é uma verdadeira reunião de modos de existir. Sob o manto da provocação, a obra desfila cenários distintos da experiência humana. O que dizer de tais caminhos?
JORGE ELIAS NETO – Fabrício, esta nova oportunidade de ser entrevistado por você, para publicação nesta que foi a primeira revista eletrônica que divulgou minha obra e uma entrevista, isso no ano de 2009, quando eu me encontrava finalizando o meu segundo livro, ”Rascunhos do absurdo”, me despertou a necessidade de reler a nossa conversa da época. Foram poucas as entrevistas que dei nestes quase 20 anos de produção poética e a releitura que ora acabo de fazer me causou algumas surpresas. A primeira foi descobrir o momento no qual iniciei a abordar um tema específico para escrever poemas e, como no caso do “Manual para estilhaçar vidraças”, um livro. Naquela época, após a finalização do livro, ocorreram os eventos em Gaza e o poeta, e atualmente editor da Mondrongo, Gustavo Felicíssimo, me propôs um desafio: escrever uma trilogia sobre o tema. Foi algo que fiz com muito prazer e se transformou no embrião para algo que se mostra recorrente em minha obra. Depois veio o convite do saudoso Pipol, editor do Portal Eletrônico Cronópios, que resolveu convidar 50 poetas brasileiros para escrever um poema para um livro em homenagem ao Éder Jofre. Sentei, estudei o tema e, de impulso, escrevi 43 poemas. Enviei para o Pipol, que me propôs incluir como um caderno especial dentro do livro. Infelizmente ele faleceu. Mas Eduardo Lacerda, editor da Patuá, resolveu publicá-lo com o título de “Breve dicionário (poético) do boxe”. Depois vieram “Glacial”, “Cabotagem” e agora o “Manual”… Trago para o “Manual para estilhaçar vidraças” questões rotineiras, irrelevantes, executadas, muitas das vezes, de forma mecânica por todos nós. Já alguns poemas lidam com conflitos existenciais, abordam as questões que norteiam e creio permanecerão ao longo dos meus escritos. Boa parte dos poemas foram escritos em um curto espaço de tempo; escrevi 11 poemas em uma noite. Alguns temas foram enumerados antes da escrita. Outros partiram de imagens que me ocorreram ao longo das horas que fiquei imerso na busca da estruturação dos poemas. Quando escrevo tenho como primeiro objetivo o leitor que sou. Desta forma, o intrincado das imagens, um certo grau de hermetismo involuntário (e que, creio, afasta muitos leitores de minha escrita) e a proposta de trabalhar muito com as ideias acabam prevalecendo. Como “tenho uma ideia” do local que cada palavra ocupa em meu inconsciente, sinto-me confortável quando revisito os poemas. Já o leitor, e isto aprendemos com o tempo, tem suas leituras particulares e muitas vezes, com convicção (e isso já é sabido de todos), nos sinaliza interpretação imensamente distantes do que busquei no poema. E é isso, no “Manual”, ora falando sério, ora com ironia, proponho uma reflexão sobre o cotidiano, tento usar da palavra para dizer da irrelevância dos nossos atos, da insignificância relativa de nossa vida e, como nos diz o poeta e psicanalista Ítalo Campos no posfácio do livro: Para ler bem o Manual Para Estilhaçar Vidraças é preciso fazê-lo sem pressa e com cuidado. Em muitos casos ele apenas “prega uma peça”. Ele é ora um espanto, ora um acalanto, mas em ambos os casos seu propósito último é o de estilhaçar sentidos. O leitor se surpreende ora com o inusitado, ora com o humor, deixando-se flagrar pela trapaça que o poeta faz com o senso comum, embora nada esteja desarticulado. O poema é minha forma de rebeldia contra o cotidiano. Este livro é uma proposta alternativa que somente o olhar poético para a vida é capaz de nos dar, uma alternativa de salvação.
DA – Rebelar-se contra o cotidiano através do engenho poético é desacomodar certezas?
JORGE ELIAS NETO – Aqui se impõe discutir duas questões fundamentais: o papel da arte em minha vida e algo muito mais prático neste momento histórico, a relação entre certeza e dúvida. Costumo dizer que cumpro com os pés o que é devido e cubro com sonhos o desmedido. Penso que todo percurso é uma ilusão necessária, e a arte é meu ato, sim, de rebeldia; a arte é o cosseno, o obsceno e outras peripécias. A minha experiência como médico ao longo dos últimos 30 anos me fez ver e ouvir muito e construir uma certa paz no remendar das imagens e das palavras. Eu vou apreendendo as palavras e guardando-as no silêncio. E chega o dia que o poema se faz dos fiapos destas recordações, ajeitadas aqui e ali com algum enchimento, com algum artifício adquirido, ou mesmo com algum vício repetido. Talvez este “Manual para estilhaçar vidraças” seja a tradução deste meu “ato de rebeldia”, como você bem diz. Por isso digo que primeiramente escrevo para mim. Sei que serei um dos poucos, talvez o único, que terá o interesse em folhear o manual no futuro. Nada como uma cartilha para iluminar e evitar que nos desgarremos ainda mais neste cotidiano de ilusões multimidiáticas. Passando já para o segundo ponto, acho que você foi muito feliz quando utilizou a expressão “desacomodar certezas”. Quando jovem, sempre me senti inferior aos demais por não ter certeza de nada. Hoje digo que a dúvida é o alicerce de minhas convicções. Penso ser necessário resgatar o valor da dúvida… Mas isso valeria se a dúvida não fosse algo anacrônico para a sociedade atual. Existe uma suposta razão, uma “verdade” que encobre as dúvidas dos homens. Vivemos um tempo de desperdícios e de bandeiras. No meu caso,aprendi que a ciência é um divino manancial de verdades fluidas e dúvidas eternas. Também aprendi que a certeza é estática e a dúvida é dinâmica. Fico então com a dúvida. E como “desacomodo a certeza”? Convivendo com a ideia que, do útero à morte, seguimos renascendo. Afinal, o principal conflito humano é mediado pelo nada. A morte é parteira dos desesperados e desespero dos inocentes. E a paz é um corte na carne da convicção, o osso aparente na trincheira criada pela força da humildade. Tento, com os meus poemas, como no caso do “Manual”, lembrar ao homem que ele é um deus que se perde na encruzilhada da ausência. Daí o poema que dá nome ao livro dizer da sombra e da escuridão. Proponho ao leitor o confronto com a sombra, pois ela é a experiência diária da morte, o ato introdutório do homem no esquecimento. A sombra sinaliza ao homem o poder da luz que não nos deixa esquecer que estar de pé é uma circunstância, uma transitoriedade. A sombra é a seta que o céu projeta sobre a soberba da consciência bípede.
DA – Ao que parece, temos alguma dificuldade em nos compreendermos como sendo simultaneamente luz e sombra. Seguimos engendrando verdades e inventando versões para narrar nosso imperfeito trajeto no mundo. Na sua visão, quem é esse sujeito contemporâneo?
JORGE ELIAS NETO – Há alguns anos li um livro que me intrigou muito, “A negação da morte”, parecia que eu conseguia estabelecer uma ligação tão procurada com minhas leituras da obra de Nietzsche, Camus e Emil Cioran. Nele, o antropólogo Ernest Becker me apresentava a obra de um dos grandes discípulos de Freud, Otto Rank. Busquei os livros de Rank e encontrei uma interessante descrição do papel da sombra na história da humanidade. E a sombra passou a ser tão importante que me ocorreu escrever um livro que denominei “XXI – Diálogo das sombras”, ainda inédito. Nele trato especificamente do sujeito contemporâneo e este diálogo com a sua sombra, esse duplo Rankiano. E para estabelecer uma ligação entre sua pergunta e minha opinião deixo aqui um aforismo poético que escrevi: Não identifiquei entre os destroços nenhuma sombra de dúvidas. No meu entendimento, mantendo sempre como lastro a dúvida, tem sido fundamental a leitura das obras produzidas a partir da segunda metade do século XVIII e, principalmente, a obra do século XIX. E não posso deixar de sinalizar a minha admiração pessoal pelos autores russos. Ler Gogol, Turguêniev, Tolstoi e Dostoiévski tem sido fundamental para entender a transição para o século XX e fazer uma ligação com a produção da obra de Marx, Engels, Feuerbach, com a efervescência de Darwin, as proposições de Freud e por aí em diante. Foi a partir daí que busquei entender toda a frustação quando ficou claro que, por detrás de todas as propostas de uma sociedade mais justa, existia o homem, e que os “leões” insanos rugem mais forte… Adoro reticências… Elas dizem do inacabado das dúvidas… Nesse momento, muitos, como Octávio Paz, indagaram se adiantavam essas pedras empilhadas apoiando precipícios? De que vale a rosca e o parafuso no vazio? Entenderam perfeitamente que o ódio não é fonte, é desperdício. Era o momento do homem medir os seus fantasmas pela hora do dia que admirava a sua própria sombra. E esta sombra tornou-se imensa. Só que a visita das sombras tem um pio ingrato, é a cor branca da culpa nos delatando por nossas atrocidades, nossa vaidade, nossa hipocrisia. É difícil aceitar que existe um lado obscuro na fronteira imposta pelos que buscam o paraíso terrestre. Mas, no meu entendimento, na volta devemos percorrer o caminho da sombra. Mas a mentira seguiu sendo um tônico revigorante… Um assunto tão denso tomaria muito tempo do leitor, por isto prefiro deixar aqui um poema inédito que talvez sintetize meu olhar sobre este “sujeito contemporâneo” e sua sombra. Afinal, o poema é o um esforço de silêncio de meus olhos cansados.
Retorno ao rascunho do mundo
Eis o inerte, o sucumbido, aquele antes do instante em que se dissipou a paz.
Desperta homem, vê a grandeza do seu nome e o Não, imposto ao seu destino.
A página leve não tem a tessitura do seu caminho e o que lhe resta é o estampido ou um pilar qualquer que te convide ao abismo.
Madeixas das sombras
O Eu apagado, descrente, o crucifixo do outro e toda nudez do medo.
Meu martírio: esta fogueira que não vesti.
Se restam fagulhas, são versos roubados, pés trocados de outros passos no silêncio das cinzas.
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal
DA – No atual estado de hiperconexão em que estamos mergulhados, talvez tenhamos perdido a capacidade de nos recolhermos em nós mesmos, de sermos silêncio para fruição das coisas e sentimentos. Em que medida tamanha absorção com consequente efeito de dispersão interfere, por exemplo, na prática literária de leitores e escritores?
JORGE ELIAS NETO – Nos últimos anos tenho escrito alguns pequenos ensaios abordando, dentre outros temas, este “tempo sem tempo” que permeia a realidade das relações interpessoais e consigo mesmo do homem contemporâneo. Sempre digo de minha condição de alternância entre um pessimismo e um realismo entusiasmado (uma migração que faço entre um olhar mais cético de Cioran e do brasilianíssimo Suassuna). Isto me levou ao “Ornitorrinco do pau oco”, nome do meu livro publicado pela editora Cousa em 2018. Tomo a liberdade de incluir aqui alguns esclarecimentos sobre esse ser inusitado:
Há que se entender ou não o ornitorrinco do pau oco?
É chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balbúrdia multimidiática de nossos dias.
………………………..Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias: um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno.
………………………..E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.
……………………….O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.
Ou seja, se faz necessário estender o conceito de silêncio para a visão. E isso serve para os leitores e, infelizmente, também para muitos escritores. O homem se esqueceu que o silêncio é o ponto de partida e de chegada. É o nosso “buraco negro” individual. E imerso neste caos se incluem também escritores e leitores. Tenho a sensação de uma “bolha” literária. Algo como grupos de whatsapp, de Facebook, onde se posta e se aguarda, com urgência, o reconhecimento de nossa obra. Uma busca constante de feedback positivo. Mas conviver com os homens é a forma mais popular de isolar-se de si mesmo. Somos indivíduos comuns ambicionando a glória do instante. Mas este tempo desperdiçado hoje, essa busca da glória diária, é o tempero da fome de amanhã. É uma “verdade” requentada dia após dia. Perdemos muitas vezes o senso crítico, maximizamos nossos desejos e potencializamos nossas frustações. Entretanto, o Mundo é regido de tal forma que ficou fácil estender as coisas no sem tamanho da ambição humana. O mutilado se satisfaz com uma miragem da perfeição. Vejo uma linha do tempo que já teme o rastilho do fogo, um presente como uma presença perdida no instante, um sufocamento da poesia. Mas a palavra tem seu tempo e as horas sorriem durante o sono dos homens. Acredito que o nada resplandece no silêncio e que há de se buscar a paz em algum ponto impreciso entre a contemplação e a convicção da conquista. À paz da inércia sou mais o atropelo do silêncio. E o que pode fazer um ornitorrinco nestas circunstâncias? Trabalhar, silencioso, o naufrágio do homem.
DA – Seria apocalíptico demais dizer que, em escala global, estamos experimentando um processo de desumanização?
JORGE ELIAS NETO – Não tenho pretensão de conseguir com palavras dizer de minha visão apocalíptica para o futuro da humanidade. Por mais que eu insista, os dias são mais irônicos que as palavras. Mas agradeço que assim seja e que eu perceba a limitação de que elas, as palavras, reproduzam a realidade humana. Trabalho com tecnologia, realizo procedimentos em minha profissão que utilizam recursos altamente sedutores, com imagens impressionantes e, principalmente, com alto grau de resolutividade e de segurança. Ora, então eu deveria ser um porta-voz incondicional dos avanços científicos. Outro ponto, não tenho religião. Então eu deveria ser um herdeiro natural da visão positivista e materialista. Devia acreditar, em termos sociais, na morte de Deus. Mas a necessidade me fez ambidestro. Hoje mantenho o hábito de usar ambas as mãos para escrevinhar minhas dúvidas. E, como disse acima, elas me levaram a buscar entender esta transição fundamental do século XIX para o século XX. E antes de falar minha impressão sobre o mundo atual, gostaria apenas de dizer o nome de um poeta que me ajudou a ver toda angústia contida na dicotomia inserida naquele momento histórico: Augusto dos Anjos. Não. O punhal tem duas faces: a que brota e a que geme. Não vou recorrer às minhas anotações, às minhas leituras, vou recorrer ao meu descontentamento. Como ambientalista e como defensor dos preceitos da responsabilidade propagados por Hannah Arendt e Vaclav Havel, só consigo ver com muita tristeza o futuro, não só do homem, mas, principalmente, para o Planeta. Onde começa o fio? No novelo ou na farsa dos dias? A farsa cuidadosamente lapidada pelos ditos “engenheiros do caos” já se desgarrou do novelo da história e estes veem crescer, exponencialmente, o seu poder, e já ocupam o lugar vago deixado por Deus e pelo Estado. Muitos já escreveram sobre a terceira revolução industrial. Outros, neste momento de pandemia, sinalizam para a quarta revolução. Informação, imagem, consumo, efêmero, que palavras dúbias. É por isto que penso que um retorno ao triplo transcendental (o bem, o belo e a verdade), uma retomada da religiosidade, seria uma possibilidade, uma alternativa mais realista, mais acessível aos homens, em geral, de evitar um futuro distópico para a humanidade. Da mesma forma não creio que o pós-humanismo ou mesmo o neo-animismo sejam uma visão aglutinadora. Não acredito que o “big-data” seja uma panaceia para a humanidade. Fosse o pó o essencial da escultura, a matéria valeria mais que a arte e o vazio seria a verdade celebrada por todos. Mas essa visão míope aliciou uma parte significativa da humanidade. É preciso entender que dentro do absurdo existe um reino de perdas.
DA – No que se refere a pensar o escritor como leitor de seus próprios poemas, haveria uma espécie de margem para, numa mirada autocrítica, mudar aquilo que já foi publicado? A atitude revisionista não causaria certa instabilidade à obra do autor?
JORGE ELIAS NETO – Sabe, Fabrício, a palavra tem seu tempo, tem seu espaço na vida das pessoas. E no poema, quando ela se instala de forma definitiva em um livro, seja com perfeição ou meio impositiva, empurrando para os lados as demais, o poeta deve respeitar esta disposição como definitiva. Publicado o livro, passo a ser leitor. E mesmo, como acontece muitas vezes, ao me deparar com uma palavra ou mesmo versos que me pareçam imperfeitos e desagradem, raramente os altero. Pois já é outro o poeta, já é “outra” a palavra. Se a ordem, os versos, não se alteram, prevalece o impulso criativo do momento da criação do poema; ou o de sua lapidação. Em suma, eu me sentiria desonesto alterando um poema. Posso roubar um verso antigo, ou usá-lo como epígrafe, isto faço sem pudor, mas respeito as palavras. Alterar o poema seria, no meu entendimento, uma tentativa artificial de torná-lo atemporal. Talvez tudo seja uma busca de estetização da vida ̶ retorno aqui ao que disse acima sobre a urgência de resultado ̶ , um superdimensionamento de nossa obra, o que traduziria o quão brilhante e singulares somos enquanto indivíduos. Mas o meu sentimento é que o poder da flor está no voo da pétala. É neste desgarrar da beleza que se atinge a amplidão do infinito, é um distanciamento que tento alcançar. É esse voo, que independe de nós, que dará alguma relevância a nossa obra. As pedras marroadas sempre guardam um espaço para os nossos pés. Segue abaixo um poema que trata da relação obra e autor. Coloca, em verso, como tento entender esta questão.
A obra
Do artista ……………– a obra, o todo …………..– da obra.
Mesmo que um segundo apenas, seja o tempo para a derrocada do homem, cabe o feito …………..definitivo, traduzindo o gesto, o desfecho do combate.
Não se apegue ao herói erguido aos céus na glória do instante, reafirmo: ………….– veja a obra.
A arte, as mãos, também se expressam fechadas, sufocando o ar no exíguo espaço da tensão dos dedos.
O artista do palco, do ringue, persiste na imagem que desaba e se rasga.
Atenha-se ao diálogo ……….– com a obra.
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal
DA – Há limites para o autobiográfico no horizonte da poesia?
JORGE ELIAS NETO – É na prosa que o autobiográfico habitualmente se apresenta. O poema é território do “eu lírico”, um rebelde, fingidor, um subversor da sintaxe (como sempre diz o linguista e amigo José Augusto Carvalho). Mas toda grafia tem um recorte da alma de quem escreve e não me cabe julgar os poetas que se mantenham na primeira pessoa em seus poemas. Afinal, cada ilhéu traz uma concha guardada a sussurrar saudades. De início, para discutir essa questão como leitor de poesia, deixo de lado aqueles poetas que se confundem com a sua obra. Autor e obra não coexistem em equilíbrio de perfeição, quando o autor não se apercebe disso, geralmente a obra perde. Brinco com meus amigos que a biografia mais fiel deveria ser escrita pelo psicanalista… Agora, quando o poeta consegue dizer do “eu universal”, equilibrando entre os versos todos os recursos de linguagens que tem a sua disposição, é possível resgatar no seu passado memórias que permitam um diálogo com o leitor. Os grandes poetas podem tudo em seu “eu lírico” – esse “ser de papel”. O que podemos dizer no “Eu” de Augusto dos Anjos, e na obra imensa de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Drummond e Minas Gerais, Adélia Prado e a religiosidade, Ferreira Gullar e o seu retorno ao mercadinho no Maranhão… Como nos diz o Antônio Miranda citando Lejeune:
Pode haver uma coexistência da biografia do autor na medida em que o poeta faz do “eu” da poesia lírica o “eu” da autobiografia. Por outro lado, ainda diz Lejeune, a poesia torna-se uma escritura segunda, isto é, aquela na qual o escritor reconverteu, ao voltá-la para si mesmo, a escritura que ele havia anteriormente elaborado para “dizer o mundo”. Não haveria, por isso, a possibilidade de a experiência poética ser contraditória com o projeto de uma “narrativa” autobiográfica.
Quando falo de minha produção poética, este diálogo com o passado está mais presente nos meus dois primeiros livros: “Verdes versos” e “Rascunhos do absurdo”. Em “Glacial”, o “eu” que se apresenta é uma caminhante que atravessa os Andes em uma busca pelo sentido da existência. Já em “Cabotagem” resgato a cidade de Vitória de minha infância e adolescência. Mas se eu tivesse de escolher um poema no qual vejo um equilíbrio entre a palavra, o passado e o Universal, é o poema “Cristo de pão”. Um evento ocorrido na mais tenra infância que ficou guardado e serviu como uma metáfora de minha, da nossa, relação com Deus.
Cristo de pão
Herdei de meu pai esse Cristo forjado em miolo de pão.
Esse crucifixo que, pacientemente, foi moldado no almoço de domingo; em seus dedos, amassado, em seus lábios umedecido.
Um Deus criado pelo provedor de minha casa durante o eterno silêncio comigo repartido.
E eu aprendi que da bolinha de massa se forja um ídolo.
Ao final da refeição, meu pai me estendeu o Cristo na cruz.
Eu o peguei e ele se partiu.
Foi duro para mim ver Deus quebrar-se em minhas mãos.
DA – A Literatura é um perfeito território de ilusões?
JORGE ELIAS NETO – Guimarães Rosa escreveu que “… livro, a ser certo, devia de se confeiçoar da parte de Deus, depor paz para todos, virtude de enganar com um clareado a fantasia da gente, empuxar a coragens”. Sempre senti na arte a possibilidade de um legado sem tragédia; o mais próximo que posso chegar, talvez com menor risco, do legado humano e do porvir. Uma perspectiva de alguma sanidade. A grande literatura é uma das grandes fontes possíveis de ilusão. E com as suas coirmãs: música e artes plásticas são a maior possibilidade de nos levar próximos à perfeição da Natureza. Sabemos que, em graus variáveis, o disfarce da órbita é desviar-se do óbvio. E que “a arte existe pois a vida não basta”. Afinal, em que pernas poderíamos apoiar esta existência no sem sentido? Como disse em um ensaio que escrevi sobre Augusto dos Anjos, “(…) hoje, faço parte dos poetas que procura este olhar insubornável, perdido na ausência. Procuro a nobreza desse olhar entardecido de uma ilusão”.
O que se arrepende é o avesso do nome
A morte é zelosa em sua força, e aprecia a fragilidade no arremate do erro, no estampido do verbo, no testemunho do assombro, no lento embuste dos passos catados.
Digital falsa no contorno das letras que se desprendem nas entrelinhas.
O flerte do verso com o abismo, o encantamento da bruma sobre os lençóis,
……………………o suborno do medo.
DA – Afinal, por que escrever?
JORGE ELIAS NETO – Eu poderia usar da escrita como um lamento, parodiando o grande poeta, dizendo do drama existencialista pós-moderno, mostrando assim uma das facetas do por que escrever:
De que vale a vida se a tela é pequena, e de que vale o Mundo se não para viajar e registrar em um Smartphone a minha felicidade fluida e postar no Instagram, no Facebook e nos meus grupos de zap…
O exercício crítico da vida é uma das minhas justificativas para escrever. Poderia dizer que, por vezes, escrever é um ato de desespero, um vício que assombra. Na verdade, ao longo de minha vida, a escrita paira, e sua razão de existir se apresenta de várias formas. E confesso que tenho um ghost-writer, o hemisfério cerebral direito com suas pinguelas sobre a maré alta vazante… Escrever é um refugiar-se na síntese contornando a sintaxe, é uma terapia, é um jogo de videogame com possibilidades infinitas. A eternidadeé uma metáfora que já não me ilude. Mas como me disse certa vez um psicanalista e amigo “há de se relativizar a morte, de tangenciá-la”. E embora saiba que aesperança é uma simples questão de instinto de sobrevivência, todo artista persiste vasculhando sua particular caixa de pandora. Em 2013, ingressei na Academia Espírito-santense de Letras. Naquela oportunidade, em meu discurso de posse, tentei trazer o porquê da escrita e a questão da imortalidade para o centro de minha fala. Tomo a liberdade de reproduzir aqui alguns trechos.
……….Digam-me, com a experiência humana no século XX, quanto nos afastamos deste deslumbramento com a capacidade humana de criar, descobrir – desse potencial do homem para atingir os céus com seu gênio, tornando-se o centro do Universo. Um deus a servir-se do inesgotável entornado em seus pés?
……….É certo que muito ocorreu ‒ perdemos a inocência ‒ , mas nada foi capaz de alterar a condição primeira da existência consciente: o desejo de transcendência da alma.
………E como reagir quando Albert Camus nos lança na face que “A razão não explica tudo, mas não existe nada além da razão”. Isto atordoa. E resplandece perante os nossos olhos – a Morte. O que faz a consciência com sua extrema maleabilidade, sua capacidade de se moldar perante o abismo? O que faz, como se justifica o indivíduo, em especial aquele mais cético e realista, aquele que se intitula um homem do absurdo, com sua existência lançada no rosto?
…….E o poeta responde a Albert Camus:
Parte-se do esquecimento. Caminha-se para o esquecimento. Disso dou testemunho.
Tamanha consciência da morte vindoura nomeia encantamentos em cada trecho de aurora.
E, se, em algum momento, falta ao punho o sustento, recolho-me ao verso que apoia.
Eis a dura lida que ao poeta condena. Mas apesar do tormento da finitude certa, tem no poema – pulsão de vida – rumo ao esquecimento.
É possível, trabalhar e sonhar. É possível a convivência do cientista com o poeta. Afinal, a quanto dista o zelo do cientista do abuso apaixonado do poeta com a palavra? Pois a poesia começa assim:
Emprenhar-se de miudezas; deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros.
E quando a luz se aperceber, desmembrada pelo estalo da palavra, jogar-se nos trilhos para salvar a flor.
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
minha mãe me contou
meu avô guardava
os palitos
de fósforo
queimados
na caixa
talvez a gente lavasse a louça depois
de um almoço em família quando
ela me disse entre
outras memórias
guardo sempre comigo uma caixa
riscada que nunca
fica vazia
***
quero
que me largue de uma
vez de repente………….me abandone
o pensamento os cabelos
num rabo
de cavalo alto………….o diafragma
que soluça………………quero um vento ………………………………………………….forte
norte
note
eu quero ir como uma onça
***
sabe
quando
nada muda
hoje de manhã
teve café
depois
à noite
sopa
o ano que vem
também
teve pernilongos no verão
***
para Angélica
o sismógrafo ficava sobre a mesa
da sala
no jantar
fora um presente
media a mulher espasmos estouros
a louca
o sismógrafo não media
abalos
abaixo da superfície
onde havia
a mulher inteira à força não media os destroços ela não tinha tempo
***
a náusea
de repente dona
até das minhas costas
envergadas
fecho os punhos aprendi
espanto
o fluxo e seguro
o reflexo
com força dentro
de mim com as mãos
quero expulsar
secar as vísceras o que mora lá dentro
o passado me incha
quando não há meio-termo
não há negócio
arma apontada
pra mim
na mesa posta vazia sem espinhas
quando sento na beirada
escuto a minha voz adulta
que fala alto
gesticula
inventa
com a garrafa de vinho
esvazio
combinações felizes impossíveis
na manhã seguinte
quando reconto com os olhos as taças sujas
e lavo uma por uma no banho
vergada fechei com força os punhos o vidro caiu no chão cortei meus pés sob água represada pelo ralo entupido
***
o que te preocupa?
além da cor negra do céu
estamos em alto mar
você não vê
aqui está muito frio
como as últimas vezes que saímos
fomos àquela festa bebemos muito
decidimos nos casar temos uma casa e viajamos
estamos no caminho de volta
não sabemos para onde
na casa não cabem mais dois quando te digo
seremos três
você deseja a onda imensa vencendo o navio que por fim é soberano
não morremos
seguimos
não sabemos para onde
eu só no navio via o mar aberto meu pulso duplicado
agora soube
o que te preocupa
o que te move ao revés
sabemos
está o caos instalado instalada a noz selada em mim eu a desejo
abandonada por você que me diz
o futuro será sem cais
plataforma ou estrado
decida
você me diz bruto.
minha palavra
final
te preocupa
Escritora mineira e jornalista, Constança Guimarães é autora de “Como se fosse possível medir o tamanho do escuro”, (Urutau, 2020), “Ombros caídos olhando pro Inferno” (Urutau, 2017) e “A sereia da contorno e outras histórias” (Leme, 2017). Tem poemas e contos em revistas como a Acrobata, Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em Guerra), Ruído Manifesto, Mirada, Germina, Laudelinas e Torquato, entre outras, e participa da antologia “Nao há nada mais parecido a um facista que um burguês assustado”, editora Hecatombe/2020.
Druk – mais uma rodada é o último filme (2020) de Thomas Vinterberg, diretor remanescente do movimento dinamarquês de cinema Dogma, junto com a estrela Lars von Trier. Druk recebeu o prêmio de melhor filme em língua estrangeira do Oscar deste ano (2021), um prêmio inédito para diretores provenientes do Dogma. Em geral, os filmes oriundos das experiências estéticas desse movimento estético não parecem se encaixar nos moldes cinematográficos reconhecidos pelos jurados do prêmio norte-americano. Os cineastas dinamarqueses prezavam a experimentação estética com a iluminação natural, a câmera documental que intervém na imagem para quebrar a ilusão da “quarta parede” cinematográfica, e sobretudo os temas espinhosos e inquietantes. O fato de Druk ter superado as expectativas junto ao grande público não significa necessariamente que os diretores dinamarqueses “se renderam” ao cinema tradicional, mas antes que suas inovações experimentais foram incorporadas ao “cinemão”.
Sobre muitos aspectos, Druk lembra o filme de 2012 de Vinterberg, A Caça, filme sobre o qual também escrevi uma resenha. Entre os dois filmes, o diretor dinamarquês realizou outros dois longas, mas Druk está ligado por irmandade a A Caça. Logo na abertura no filme de 2012, por exemplo, vemos uma confraternização entre homens ao redor de um lago de uma pequena cidade dinamarquesa. Druk também abre com uma confraternização semelhante, porém desta vez entre jovens adolescentes, rapazes e moças, bebendo e carregando muitas garrafas de bebida alcóolica, que depois irão distribuir no transporte público, até um dos rapazes ser abordado pela polícia.
Druk também é protagonizado por Mads Mikkelsen, o mesmo ator protagonista de A Caça. Também como neste filme, ele agora interpreta um professor de história para o ensino médio (no filme de 2012 o protagonista era professor numa escola infantil). Mikkelsen é um conhecido ginasta e dançarino dinamarquês, que mais tarde se tornou um ator premiado de cinema e de seriados. Como se verá, essa característica se mostrará importante neste último filme. O professor Martin, interpretado por Mikkelsen, aparece deprimido e incapaz de estimular seus alunos a um melhor desempenho escolar. Logo no início, ele é cobrado pelos pais desses alunos que acham que seus filhos não terão um desempenho suficiente para ingressar na faculdade por causa de sua atonia. Num jantar com seus colegas de trabalho, Martin, que também enfrenta problemas em seu casamento, acaba por se emocionar e chorar, o que provoca em seus amigos de longa data a vontade de ajudá-lo.
“Druk” / Foto: divulgação
E é então que o roteiro do filme entra em sua questão mais delicada, pois o grupo de amigos decide se fiar numa suposta hipótese de psicologia de que haveria um nível “normal” de álcool no sangue, mas que estamos cotidianamente sempre abaixo desse nível. Mesmo que essa extravagante hipótese exista, ela funciona quase como uma anedota de bar: devemos beber todos os dias para manter uma taxa normal de álcool. A verdade é que o quarteto de professores entra de cabeça nessa ideia e eles passam a experimentar um consumo diário de álcool. E assim, uma hipótese incongruente, ou mesmo inverossímil, passa a ser um dos principais argumentos do filme. E o que acontece surpreendentemente é que seus desempenhos realmente melhoram, como professores e homens.
Podemos questionar se uma hipótese desse tipo seria capaz de convencer professores de várias disciplinas a participar de um experimento envolvendo consumo diário de álcool. Essa ideia, no entanto, funciona como um “mcguffin”, o pretexto que move toda a trama. Inverossímil ou não, é este argumento que alimenta a narrativa e faz com que os quatro principais personagens sejam conduzidos a seus destinos, como pessoas e como grupo. De toda a maneira, o alcoolismo é um problema grave na Dinamarca, de modo que já há uma disposição normalizadora a se aceitar sugestões como a apresentada no filme. Mas aos poucos, este problema de verossimilhança se torna uma questão menor, pois o desdobramento narrativo irá nem confirmar nem rejeitar a hipótese, mas complexificá-la bastante.
Assim, Martin, o protagonista vivido por Mikkelsen, deixa de ser um professor enfadonho para se tornar o mestre entusiasmado e entusiasmante de seus alunos. E melhora também sua vida conjugal na qual se sentia ausente. Os quatro personagens principais todos têm sucesso na primeira fase desse experimento “entre amigos”, e ao mesmo tempo conseguem incluir seus alunos nesse sucesso. E passam, cada um deles, a viver mais bem dispostos, quando recuperam uma alegria jovial. Em certo sentido, Druk é basicamente um filme sobre homens de meia idade que através do álcool recuperam um sentimento de juventude, inclusive de potência sexual. Numa sociedade regulada por cobranças e medidas, o álcool serve para “afrouxar o controle”. E este, não o alcoolismo, é o verdadeiro tema do filme de Vinterberg: na sociedade regida pelo princípio do desempenho, pela lógica do controle, pela meritocracia e pela cobrança individualizada, há pouco espaço para o sentimento de êxtase.
E é exatamente por isso que a partir de um determinado momento eles aceitam “dobrar a aposta” e aumentar a dose de álcool para além da sugerida. E, como seria de esperar, é a partir desse ponto que os problemas começam e a experiência desanda. E o diretor com sua câmera interveniente persegue seu quarteto principal como diante de um experimento científico. O fato de que sejam quatro personagens com situações vivenciais distintas, permite mostrar que, ao ultrapassarem a medida recomendada, já não conseguem mais se autocontrolar. O mais frágil do grupo então se perde nesse processo. Mas a maior virtude da obra de Vinterberg é não moralizar jamais a sua história, nem aceitar que sua câmera, que acompanha a vida dos personagens, funcione como juiz e o espectador como júri. Para cada um deles, há caminhos e destinos diferentes.
“Druk” / Foto: divulgação
Para Martin, o protagonista, o teste é trazido para sua vida conjugal. Ele se considera um marido ausente e um homem falho. É interessante que, também à semelhança do filme A Caça, Druk aborde um círculo especificamente masculino, a partir de uma perspectiva claramente androcêntrica. Mas esta perspectiva, assumida pela montagem, não o torna necessariamente machista. A perspectiva androcêntrica é sóbria e procura não ser sexista. A única cena de sexo do filme ocorre dentro de um perfil tradicional heteronormativo conjugal, o que é espantoso para um filme vindo da linha Dogma, na qual sempre foram abordadas as formas não tradicionais da sexualidade. Um dos principais temas do filme é justamente enfocar os dilemas da sexualidade masculina de meia idade, faixa na qual se encontram todos do quarteto principal. O sentimento de fracasso, a perda de libido, a métrica dos sistemas de controle são problemas observados por vieses masculino e etário. Nesse ambiente, o álcool é um elemento de perturbação que funciona para o bem ou para o mal. Ou melhor ainda, para o bem E para o mal.
Essa recusa de Thomas Vinterberg de julgar o consumo excessivo de álcool acaba sendo de grande alcance. Ela permite não demonizar a substância, mas colocar o peso da objetiva sobre as relações e a maneira de cada personagem ligar com sua experiência. E nisso a perspectiva inclui tanto os adultos quanto os jovens, pois esses também participam do experimento. Aliás, o diretor menciona numa entrevista que os jovens coadjuvantes do filme foram colegas de sua filha prematuramente falecida num acidente de automóvel. É a ela que o diretor dedica sua obra. É, portanto, com essa nota de tristeza que a sublime cena final se conecta com a cena inicial. Para além do luto e da melancolia, e contra a hipótese psicologizante assumida pelos personagens, o filme termina com um olhar mais psicanalítico. A cena final é a vitória do júbilo do viver contra seu controle normativo. Nós, homens e mulheres, jovens e adultos, viemos à vida para gozá-la, e o gozo está bem além do princípio do prazer e da realidade.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.
“(...) Faça como o griloSem grilo canta pro seu bem chegar”(4 Cabeça, Quem Canta)
Se a adolescência é a etapa da existência que nos dá toda a coragem e certa petulância para enfrentar a tudo e a todos, é no início da vida adulta – e provavelmente durante toda ela – que nos damos conta de que “por mais que a gente cresça, há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender”, como diria Humberto Gessinger e seus Engenheiros do Hawaii em Terra de Gigantes, no já distante final dos anos 80. Mais de trinta anos depois, a banda paulistana O Grilo dispensa o apoio de hey, mãe (!) para reafirmar que ninguém sabe de coisa alguma. Composto atualmente por Pedro Martins (voz e composição), Felipe Martins, o “Fepa” (guitarra) — não, eles não são parentes! —, Lucas Teixeira (bateria) e Gabriel Cavallari (baixo), o grupo formado em 2017 (entre o final do Ensino Médio e o início da vida universitária) que queria fazer covers de música indie nacional passou por uma reformulação em 2019 e define-se hoje como um grupo de “Rock Popular Brasileiro”.
Depois de alguns singles e dois EPs lançados, o contagiante Herói Do Futuro (2017), com destaque para o hit Serenata Existencialista e de O Grilo no Estúdio Showlivre — Ao Vivo (2019), os meninos (sim, meninos; eles estão na faixa dos vinte e pouquíssimos anos) — que abriram o Lollapalooza Brasil 2019 (sonho de muito artista veterano) após vencer um concurso lançado pela Rádio Rock 89 FM — estão de volta. As 13 faixas autorais do disco de estreia Você Não Sabe De Nada (2021), gravado pelo selo Rockambole, foram produzidas pelo quarteto em parceria com Hugo Silva e alternam ritmos dançantes com momentos mais introspectivos. A sonoridade pop-tupiniquim mistura bossa, baião, new wave, indie, pop, rock e outros elementos brasileiros, que agora se apresentam de modo ainda mais intenso.
A despretensiosa Trela (o meu amor vem da terra e do mar/uma musa estendida na areia/anjo de um céu de estrelas do mar/um balé de mulher e baleia), primeiro single divulgado abre o álbum em ritmo de pop. A canção seguinte, Guitarrada (é que eu sou mais eu, mas eu queria ser você/eu sou mais você/mas se você sou eu, agora eu quero te esquecer/eu quero me esquecer), é um carimbó ou forróck, como a banda gosta de chamá-la e já tem videoclipe em fase de pós-produção. O samba-rock Contramão (nada novo sob o sol/são aquelas mesmas mentiras/banhadas em formol), segunda música lançada, lembra de um carnaval de outrora, um amor entre coisa de cinema e quarta-feira de cinzas. Ainda há espaço para Tudo e Mais um Pouco e para a balada Vou Levar. A levemente vingativa Meu Pior Amigo (eu só quero ver você cair/eu só vim pra ver, ver você cair/eu só quero ver você cair/em si) manda um recado praquele alguém que você já guardou no lado esquerdo do peito e hoje figura no hall dos seus desafetos, enquanto Infinito (-1) (vou partir o horizonte ao meio/vou me dividir/por todos os caminhos que eu quiser seguir) passeia por caminhos mais experimentais.
O Grilo / Foto: divulgação
Na “mini-música” Você Não Sabe de Nada, O Grilo divide o refrão da faixa de pouco mais de 1 minuto e meio com diversos convidados, entre eles Gabriel Aragão, Reolamos e as bandas Maracatech e Pluma (da qual Teixeira também é baterista), o que é a deixa perfeita para a setentista Meu Amor (meu amor/as coisas não precisam ser assim/pega uma lata de tônica, um copo de gin e vai dançar), que alterna refrão engraçadinho com uma crítica à indústria fonográfica, na qual “a música mais bonita d’O Grilo tem que ter/um bilhão de curtidas/10 mil cópias vendidas/lotar estádios e avenidas/e tocar o coração das rádios Brasil afora”. Se a vinheta E daí, eu sei lá prefere não opinar, eu me arrisco a dizer que ela é o abre-alas para o melhor bloco do álbum, composto pelas três últimas canções: a disco Adeus (não dá pra esquecer alguém como você/mas bem que eu queria/o que te encanta em mim é você/sempre foi você e eu sabia/mas resolvi não me abandonar), que ganhou até coreografia oficial no TikTok; a festiva Onde Flor (onde flor não for jardim/eu não vou, eu sou assim/algo que não cabe mais em mim/ôô, eu quero viver um grande amor/e morrer de saudade), que pode figurar ao lado de Todo Carnaval Tem Seu Fim, do Los Hermanos no catálogo de canções-foliãs que alegram nosso “carnaval fora de época” instantaneamente; o belíssimo bônus-track de voz e violão Malabarista de Granadas (malabarista de granadas/me conta quantas fardas você já vestiu/pra manter a cabeça ocupada/enquanto o mundo te estraçalha como um tiro de fuzil), que finaliza o álbum com toda a doçura que pode haver na voz de Pedro Martins.
Responsável pelo projeto gráfico da obra, o cartunista Pietro Soldi idealizou também um livro que acompanha o disco. O personagem central de Você Não Sabe De Nada – o livro, é Lauro, sujeito de poucas palavras que traz em sua personalidade características físicas ou psicológicas de cada um dos integrantes da banda. Lauro já deu o ar da graça em 2020 nas capas dos três singles lançados: Trela, Meu Amor e Contramão. Além das tirinhas, o livro traz ainda cifras, fotos e canções comentadas, com direito a rabiscos, anotações e muita criatividade (revelada inclusive à luz negra). Os integrantes são bastante atuantes nas redes sociais e chama atenção a constante interação com seu público, seja através de lives, posts,tweets ou dancinhas no TikTok. Ou mais especificamente em seu podcast (ou melhor, Grilocast) e no canal no YouTube (o GriloTube), com destaque para Você Não Sabe de Nada — o Mini Doc. Aproveitando o lançamento de VNSDN no final de março, os músicos têm disponibilizado em seus stories do Instagram cifras das canções no violão, comentários sobre as inspirações das faixas, enquetes e versões das músicas feitas por seus fãs. O Grilo está mais falante, dançante, maduro e criativo do que nunca. E é só o começo.
Larissa Mendes se identifica com Lauro e tampouco sabe de muita coisa.
milena esconda essas vergonhas
limpe dos olhos dos pios a presença na casa
escórias
o sujo
paredes molhadas
de cheiro vivo
guarde no armário a presença na casa milena
guarde nas gavetas
debaixo das roupas proibidas
que roçam na umidade
sobras à beira do canal
dobras
na ponta dos dedos
é suja a presença na casa
a terra sob os peitos qual serpente
e outros castigos pelos feitos de eva
maçã vermelho-sangue salivando gênesis
***
terra sob as unhas,
sob as solas,
sob o ventre.
eu rastejo.
e o frescor do solo
contra a pele
conhece apenas
quem tem a minha sede.
tantos milhões de anos dedicados
a levantar a criatura humana
em duas pernas
e eu prefiro ver o mundo
desde o chão,
de fora, de frente.
contrariando o igual dos dias.
aqui, desse lado da lida,
todo e cada corpo
é um querubim rebelado
ainda acometido
pela dor da queda.
aprendendo passos senoidais.
aqui, desse lado da lida,
os ciclos se fecham
qual mandíbula nas caudas.
passamos bem, provando o proibido,
que não é tão saboroso quanto pregam uns
tampouco põe as malas na porta.
passamos bem, mas nos botaram
a cabeça a prêmio
num livro famoso
e agora estão querendo nos queimar.
não se vê piedade
para as que preferiram
abandonar pelo caminho
braço e pena,
rito sagrado e doutrina
em nome de um ângulo primevo
que nenhum ser
jamais verá
na vertical.
***
tenho uma dobra vermelha na pele do rosto
como um corte
entranha
……..você viu
a marca vermelha da cama no meu corpo
branco
onde dói o sol
……..você viu
os meus sinais em coleção
imitando a pose ereta de órion
ombro em rigel pé em betelgeuse
as partes proibidas à mostra
faz calor
e eu tenho sede
todos os tabus desnudados
……..constelações
e eu ariadne corpo celeste
vindo jantar nos escombros
as pontas dos seus dedos mastigando os meus contornos
entranha
todos os lábios
mordendo
a fraqueza da carne
***
suas mãos em expectativa
vinham me manter acordada
era hora do sol …….isso tem que ser visto
o primeiro é o raio das promessas
que se fazem por medo
o segundo é o raio das mentiras
que se contam por amor
os que vêm depois são para aquecer a culpa nos ossos …….isso tem que ser visto
a manhã é a hora de uma verdade
que não desce com água
nem harmoniza com vinho
hora do lugar da língua que ocupa o sabor do erro
salgado demais para o sangue] …….em gota …….em gota
vem ver
já vai nascer
vamos ter certezas
e as janelas ainda mostravam a cidade alagada
***
o reles ato
de atar
os cadarços ……..o inacabado
e a boca continua aberta em suspenso ……..eu respiro
o reles ato
de pés e mãos ……..atarefados
feito o sapato em tropeços ……..desatado
e eu sou inábil em usar as mãos
servem-me à inutilidade
de não arrematar o rosto ……..o inacabado
do ano de quem morreu
dos planos de quem surtou
dos meus dentes que eram tortos
e continuaram tortos
dentro apenas do limite do ignorável
o final da chuva em que eu dancei pequena
tomei bronca
mas não gripei
mamãe estava errada ……..você não é todo mundo
e quem não é todo mundo
é ninguém
e eu ainda tropeço nos pés
e sujo a blusa da escola de sangue ……..eu respiro
e o calor de madureira lateja as minhas veias de infância
o mundo passando
na telefunken
1984
que já estava ali quando eu nasci
***
comecei no mundo com um grito de dor ……..o primeiro ar
comburente universal ……..fogo no peito
a minha história
que nasceu do grito
sucessão de notas descolocadas
em sol maior
fogo grave ……..queimadura
a minha história
escrava no fogo da forja
molda o passo torto
com que tento dançar ……..na ponta ……..do lápis
nanquim luz e sombra
todos os fados padecendo ao sol
o meu deposto aos pés do fogo
gota de sal na pele nos pelos
……..cai o pano
eu seco os olhos com o desfecho inesperado
eu seco o corpo da impureza nos poros
Milena Martins Moura é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros “Promessa Vazia” (2011), “Os Oráculos dos meus Óculos” (2014) e “A Orquestra dos Inocentes Condenados” (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia e de colunistas da revista Tamarina Literária. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos. Contato: milenamartinstradutora@gmail.com.
Nem sei como isso começou, sei que sempre gostei muito de bonecas.
É como se eu tivesse acordado de repente nesse lugar, ou no mesmo lugar de antes, e as pessoas é que foram substituídas. Sabe quando a gente para e tenta lembrar o que aconteceu do nosso nascimento até cerca de uns três ou cinco anos de idade? Parece que simplesmente a gente acordou de repente. É isso que sinto agora.
As moradias são do tamanho das humanas, com móveis de verdade. Só que estes são programados. A TV passa quase o dia inteiro ligada. Existem coisinhas parecidas com trilhos dentro da casa que fazem os bonecos se mover por ali bem como na rua.
Na casa que eu vivo, existem dois bonecos. Um feminino e outro masculino. De manhãzinha o boneco se levanta e se direciona para fora de casa, e passa o dia por lá mesmo. Acredito que seja uma espécie de trabalho, já que esporadicamente ele chega com coisas novas, as coisas que vemos na TV. A boneca vai para a cozinha. Eu fico por ali observando o movimento. Também aproveito pra ler. Há muitos livros, mas não são tocados. Acho que não existe ainda mecanismo de leitura nesses bonecos, apesar de se alimentarem e fazerem outras coisas dignas de humano.
Sinto-me estranha. Eles não conversam, nada de sentimento, nada de afeto. Sinto falta dos afagos de família, de beijos de mãe, cócegas no sofá, risos pela casa. Eles se reúnem sempre à noite, em frente à televisão. Em algumas ocasiões me põem nos trilhos e sou obrigada a fazer certas coisas e ir a lugares dos quais não gosto. É complicado porque os meus pés não se adequam nunca e doem. Quando vou a esses lugares realizo trabalho chato. Lá não posso cantar que é algo que gosto bastante.
Acho que meu canto é de certa forma inútil pelo fato de não conseguir enxergar nenhum tipo de vibração por parte dos bonecos. Deduzo que eles não apreciam música. O rádio nunca é ligado, só por mim. Mas a música que existe na cidade dos bonecos é de uma péssima qualidade: rimas pobres, ritmos chatos, melodia irritante aos ouvidos. Então, logo desligo. E canto.
Lembro-me da criatividade humana quanto à música e começo a cantá-las. Meu coração se entristece um pouco por não poder mais tê-las. Se fosse boa o suficiente eu comporia, mas apenas canto. Há dificuldades de relacionamento entre mim e os instrumentos musicais. Contudo, do que acontece na cidade dos bonecos, esse é o fato que mais me entristece.
Vivo aqui e espero o dia em que os bonecos se transformem em seres humanos para que tudo se torne completo. Nas minhas reflexões penso se isso há de ser um tipo de praga que contamina o mundo aos pouco. Penso no dia em que eu serei contaminada e me tornarei uma boneca. Choro, depois acalmo, acreditando que se me transformar certamente entenderei a lógica deles e terei felicidade em viver de tal modo. Não há espaço aos que no mundo estão diferentes.
***
Envelope
Começamos a namorar.
Enlouquecida, deixei que tudo acontecesse muito rápido.
Primeiro, se foram os olhos.
Ele me arrancou um de cada vez. Comecei a poder ver menos, devagar fui me acostumando, e quando me arrancou o segundo eu já não senti tanta dificuldade de adequação. Não pude mais ver nem mesmo a ele mesmo, o que fazia, com quem convivia.
Mas eu o amava e deixei.
Da outra vez foi minha boca. Deixei de opinar. Na hora não vi necessidade porque certas coisas que saíam dela visavam nosso próprio bem-estar.
Mas eu o amava, e podia aprender a viver sem falar.
Arrancou-me um dos ouvidos. Poucas coisas eu podia ouvir dele antes de me arrancar o outro. Do que conversava com os amigos, do que lhe diziam as outras garotas.
Mas eu o amava e não me importei.
Quando me arrancou um braço, ainda consegui dirigir por um tempo. Eu queria estar nos lugares. Mas sem os dois braços, passei a ficar mais tempo em casa. Sequer podia fazer o que eu mais gostava: escrever.
Mas eu o amava e acreditei que faria bem.
Um dia me arrancou as pernas, ambas ao mesmo tempo.
Nosso relacionamento se resumiu a cama, pois era o lugar onde eu conseguia passar todo o tempo, sem queixas. Confesso que foi difícil essa vida.
Mas eu o amava, e me contentei com suas visitas e frases de amor.
Muito tempo de cama me fazia ter certas reflexões.
Quando ele apareceu para mais uma visita de amor, eu estava pronta.
Entreguei-lhe um envelope numa pulsão risonha.
Ele abriu e pôde ver.
Lá dentro estava todo o meu amor. Eu o estava devolvendo em troca de mim.
Com dificuldade ele aceitou, e me devolveu tudo de uma vez só: olhos, pernas, braços, ouvidos.
Agora ali estava eu, com tudo que precisaria para recomeçar.
E ali estava ele, com o meu e o seu amor nas mãos.
Fernanda Paz é Artista Visual e Especialista em educação infantil pela UFPI. Professora, escritora e produtora no FragmentadoLab. Estudou Teatro e participou de curtas metragens, performances e montagens teatrais. Tem dois livros publicados “O Buraco e Outras Histórias”(Multifoco, RJ) e “Olhos de Vidro”(Quimera, PI), participou de antologias de contos e poemas e publicações em revistas virtuais.
Artistas como Tereza Sá nos fazem compreender que algumas almas expandem a vida imaginativa em várias nuances, porque desde muito cedo foram expostas ao máximo de realidade possível. Entendendo os atravessamentos dos que vieram antes, bem como a importância das referências que lhe foram apresentadas durante a infância, ela se declara resultado da força de gerações anteriores, em sua família. Mulher negra, professora, poeta e atriz, filha do professor e poeta Eléus Leonardo de Sá e de Tereza Soares de Sá, mãe de Èbano Bencos e de Luan Bencos, a entrevistada da Pequena sabatina ao artista é ilheense, Graduada em Letras/Espanhol e Pedagogia (UESC), Especialista em Leitura e Produção Textual e Educação e Relações Étnico-raciais (UESC), Mestranda em Ensino e Relações Étnico-raciais (UFSB). Atualmente, Tereza Sá faz parte da Cia Trapizonga de Teatro e do Coletivo Afro em Cena (UFSB), que trabalha na perspectiva do teatro negro, tendo o corpo negro também como protagonista da cena. Além disso, ela integra a Coletânea Literária e Fotográfica de mulheres: Profundanças 3. Seja com expressões faciais fortes, em performances marcantes; ou versos intrigantes, em poemas bastante atuais, Tereza Sá mostra que há mais para se ver e interpretar em suas expressões artísticas. Com uma carreira que inclui o concurso de poesia da Revista Brasília, que lhe rendeu o prêmio da categoria “destaque” e a publicação coletiva no livro Valores Literários do Brasil, Volume XV(1992), a artista conta à Diversos Afins sobre sua trajetória artística, suas experiência de vida e como tem pensado a arte no atual cenário pandêmico, no Brasil.
Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal
DA – Mulher negra, ilheense, professora, poeta e atriz. Co-autora do Projeto “Mulher Negra: a força que se explica”, na Escola Municipal Themístocles Andrade, no Teotônio Vilela, em Ilhéus. Tereza Sá, a sua biografia em constantes transformações e atravessamentos, em alguma medida, se explica pela sua árvore genealógica? Quais influências, dos que a antecederam, você consegue identificar em seus percursos individuais e coletivos? Mais, quais as divergências e desconstruções?
TEREZA SÁ – Sim. Eu posso afirmar que a constituição do que eu sou é inteiramente atravessada pela força dos que me antecederam. Sempre me vi fortalecida pela referência individual e também coletiva de pessoas que muito contribuíram e contribuem para a formação da mulher que me constitui. Como criança negra, conheci desde muito cedo os percalços que o racismo nos coloca. Foram justamente essas referências que me encorajaram no processo de enfrentamento ao racismo, sexismo e tantos dilemas que envolvem o ser mulher negra. Sinto-me uma mulher múltipla, intensa, cheia de sonhos e projetos. Minha influência primeira acontece dentro de casa. Meu pai, intelectual negro, professor de Esperanto, sempre nos possibilitou contato com a cultura e a arte. Fomos expostos ainda crianças a ambientes onde o poético e o estético se estabeleciam, mesmo diante das dificuldades que a vida nos impunha. Cresci ouvindo meu pai tocando bandolim, recitando poesias, escrevendo artigos em jornais e participando de coletâneas poéticas. Minha mãe sempre precisa em cobrar, de nós, leituras. Era certo que em algum momento eu enveredaria pelos caminhos das artes para além do lugar de expectadora. Essas referências iniciais foram decisivas para as minhas projeções, a curto e longo prazo, e com o passar do tempo foram somadas a novas experiências, novos contatos com pessoas, em sua maioria mulheres negras, que influenciaram e me encorajaram a seguir na composição das coisas que acredito. Certamente seria muito mais difícil para eu caminhar e crescer sem os diálogos que se estabeleceram, o exemplo e principalmente os ensinamentos dessas pessoas para que eu persistisse nos sonhos e na coragem de ser feliz. As divergências encontradas se deram mais precisamente no campo da raça e do gênero. Ainda que não fosse dito com palavras, desde a infância já esbarrava na imposição de um lugar para a mulher negra na sociedade e, por mais que meu ambiente familiar me desse suporte de superação, eu me vi por diversas vezes afetada por impedimentos do sistema de opressão e violência que me colocaram em condição de silenciamento e inércia, em diversas situações. A escrita literária foi uma delas. Por muito tempo me tranquei para o ato da escrita acreditando não ser esse meu lugar. Mas a minha trajetória é de lutas e a força da ancestralidade sempre me colocou no trilho da história, renovando as águas da minha existência. Tenho caminhado e seguido os passos de nossos antepassados que resistiram para que pudéssemos (re)existir e ocupar todos os espaços que nos foram negados. Os desafios são muitos e as redes de apoio estabelecidas entre as mulheres negras vêm fortalecendo nossa consciência ancestral, nos fazendo revisitar memórias, que nos encorajam a um constante movimento em busca de estabelecer nossas trajetórias enquanto mulheres negras.
DA – “Sinto-me uma mulher múltipla”, esta é uma afirmação sua sobre a composição contínua de sua identidade, no mundo. Outro dado importante de sua biografia é o fato de ter sido criada em ambientes onde o poético e o estético se comunicavam. Como é possível, em retrospecto, identificar os contornos estéticos construídos na e a partir de seus escritos? Quais as referências visuais e literárias ganham sentido e materialidade nas suas construções artísticas?
TEREZA SÁ – A palavra realmente se fez a força motriz no que me constituí. Minha memória remota aos sons impactantes, seja vinda dos provérbios proferidos por minha mãe, seja através das músicas que meus irmãos ouviam na “radiola”. Eu gostava de ouvir os discos de vinil lendo os encartes que acompanhavam as músicas. Lembro de um disco de Raimundo Fagner intitulado Eu canto (quem viver chorará) e, dentre todas que gostava, uma me chamava atenção e dizia: “Eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste:/sou poeta.” Eu deveria ter uns dez anos. Essa canção me consumia os instantes. Não sei se por conta da letra ou da interpretação do cantor. Só mais tarde tomei conhecimento de Cecília Meireles como poeta. E assim eu cresci consumida pela palavra cantada e reconhecendo também essa força na escrita. A minha consciência da escrita veio muito sutilmente e não era nada compulsório. Aconteceu ainda na infância, justamente nessa época em que era afetada por canções e bordões de minha mãe. Já na fase adulta eu compreendi que o que eu escrevia era poesia, mas uma poesia que não se atrelava a uma estética especifica. Meu pai, que era trovador, ao perceber que eu escrevia, passou a me orientar sobre a métrica da trova. Arrisquei os versos rimados dentro da métrica, mas confesso que sempre tive dificuldade com aquele processo matemático e, ao tentar encaixar pensamento/sentimento na métrica, sempre fracassava. Isso foi um dos fatores também que me travaram no processo do escrever, pois papai me dizia que a forma com que eu escrevia era coisa da modernidade e deixava transparecer que não era muito “elegante”. Mais adiante, aprendi sobre versos livres, poesia concreta, entre outras coisas da “modernidade” que me permitiram mais liberdade. E eu continuei a escrever da forma que os poemas me vinham e registrava. Apenas isso. Registrava, guardava e muitas vezes os revisitava, da mesma forma que revisitava os poemas de Cecilia Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira… Note que a literatura que eu consumia era majoritariamente masculina. Posso garantir que muito do que escrevi inicialmente (e muitas vezes atualmente) foi afetada por essa literatura. Atualmente reconheço a riqueza da escrita de mulheres, principalmente das escritoras negras e fico triste com o tempo em que essa literatura esteve tão distante do alcance de minhas mãos. Hoje sou afetada pela escrita de Mirian Alves, Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo, entre tantas que os Cadernos Negros me apresentaram.
O teatro me chegou paulatinamente e sei que seu prenúncio se deu na infância quando ainda na pré-escola eu decorava os versos para o dia das mães e outros eventos. Sentia prazer naquilo, mas não sabia que me acompanharia para a vida toda. Foi no Ensino Fundamental, nas atividades para as Feiras de Ciências que eu compreendi o quanto o palco me tornava imensa e que queria muito aquilo. Busquei cursos de teatro na cidade, que só fortaleceram a certeza de que representar era algo fundamental pra mim. Tive poucas experiências com teatro clássico. As oportunidades me levaram às técnicas de Boal e ao teatro de rua. Poder atuar ao lado de Jorge Batista, Mônica Franco, Telma Sá, Rita Santana, Val Kakau, Tereza Damásio, Justino Viana, Ester Santana e João Marcelino, no Grupo Caras e Máscaras nos finais dos anos 80 em Ilhéus, foi algo imenso e revelou em mim a atriz. Nosso repertório textual era referendado pela música popular e a literatura brasileira, fortes dispositivos para nossa atuação enquanto teatro de/na rua, de direção coletiva. Os artistas da região foram grandes influenciadores na arte em que me propus navegar. Os grupos Macuco, de Buerarema, Arte em cena, de Itabuna, e os atores e atrizes, como Carlos Betão, Ramon Vane, Marcos Cristiano, Alba Cristina, Eva Lima, são figuras que introjetaram o gosto e a possibilidade de fazer teatro no Sul da Bahia e são as referências mais marcantes, pois reverberam até hoje em minhas construções artísticas.
DA – Interessante pensar que sua biografia transita por várias artes, como uma espécie de tessitura que desenha um conjunto muito singular. No fazer teatral, temos uma infinidade de formas de atuação e composição de cena, a performance é uma delas. O teatro de rua, digo a performance realizada na rua – encontra sempre o contingente, o inesperado, tal qual a vida. Como você descreveria a relação entre este espetáculo de rua, seu percurso de vida e a troca com o público espectador? Esta relação sempre foi a mesma sempre? Quais as variantes?
TEREZA SÁ – O teatro de rua foi um grande divisor de águas para mim e acredito que para todos os integrantes do GrupoCaras e Máscaras, pois vivíamos em um processo decisivo no que se refere à entrega de sermos atores/atrizes, mas nos deparávamos com a dificuldade de não termos diretor e, por estarmos frequentemente ausentes do palco, já não éramos convidades a atuar em espetáculos. Acreditamos por muito tempo que para um grupo existir de fato deveria contar com a presença de um diretor para desempenhar única e exclusivamente essa função. Só quando passamos a entender que o teatro poderia acontecer em espaço não convencional e que poderíamos dinamizá-lo em uma direção coletiva, foi que realizamos nosso sonho de atuar. Isso foi engrandecedor. Fizemos da rua nosso palco e essa relação se estabeleceu por muitos anos, movimentando a cidade e nossas vidas. Esse teatro foi para mim uma escola e o aprendizado se estende até hoje. Aprendi a reinventar-me sempre. No teatro de rua eu aprendi a perseguir sonhos, criar meu próprio jogo de cena, superar obstáculos. Sinto a vida como um verdadeiro espetáculo, no qual estamos constantemente performando as diversas versões de nós. Eu, por exemplo, tenho a sala de aula, o teatro, a poesia, entre tantos papéis sociais a desempenhar. A vida tem me surpreendido ultimamente com situações de desafios. Tenho vencido esses desafios como quem entra em cena naquele teatro de rua de outrora, na certeza de que nem todos que cruzam meus caminhos são meros transeuntes. Muitos aparecem justamente para formar a rede de apoio, idêntico como acontecia naquela época com o Caras e Máscaras, que sempre contava com uma plateia que colaborava com silêncios, risos, gargalhadas e até lágrimas. Ela aparecia em determinada praça ou rua porque sabia que nossa trupe estaria lá. Erámos impelidos/as por esse encorajamento e sempre foi fortalecedor contar com o apoio de tanta gente boa naquela época em que fazer teatro sempre foi muito desafiador pra nós. Com isso eu acabei aprendendo a ser múltipla e a desempenhar papeis distintos que exigiriam de mim muita dedicação num mesmo tempo/espaço. Como no teatro, aprendi a ser intensa em todos eles. Lembro-me de um fato em minhas experiências teatrais em que eu, ainda em resguardo do parto do meu primeiro filho, já estava em cena ensaiando a peça “O fiscal e a Fateira”, sob a direção de Équio Reis. Em determinados momentos, parava para amamentar e retomava os ensaios. Isso porque eu nunca consegui fragmentar em mim a mãe, poeta, atriz e professora. Esses papeis sociais são a minha motricidade e um fortalece o outro. Tenho buscado intensidade em tudo o que me proponho e agora com uma certa dose de suavidade. A sala de aula sempre foi para mim espaço de reconstrução e de poéticas. As trocas que comumente estabeleço ali estão para além da grade curricular e, por conta disso, a professora exigiu mais permanência em cena. Aliás, a sala de aula consumiu a poeta e a atriz (na ordem apontada) desproporcionalmente. Sempre foi difícil viver de arte em nossa cidade. Sair em busca de novas possibilidades quando já se tem dois filhos era algo bem longe de minhas expectativas. Agarrei a carreira docente, mas de certa forma fui vivendo “tudo ao mesmo tempo agora”, como canta a banda Titãs. Assim, eu vivi intensamente a gravidez/maternidade imbricada na aprovação do vestibular e também na atuação como professora da educação Básica; a segunda graduação conectada ao Mestrado, este, por sua vez, integrado à participação no Coletivo de teatro negro Afro (en) Cena e paralelo à Cia Trapizonga de Teatro. Sem contar essas últimas atuações, concomitante com a participação como poeta no livro virtual Profundanças 3. Ufa! Parece que falta folego, né? Às vezes, falta. Mas “me recomponho/ feito rabo de lagartixa”, como afirma a cantora e compositora ilheense Eloah Monteiro. Minha trajetória é assim: pulsa num emaranhado de variantes que reforçam meu existir. São minhas escolhas e não deu para escolher uma em detrimento de outra. E assim, sigo intensa, sendo acolhida e fortalecia por uma rede de mulheres negras que me revigoram e seguram em minha mão o tempo todo para que eu tenha certeza de que a vida continua e o espetáculo não pode parar. Como diz Arlindo Cruz: “o show tem que continuar”.
Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal
DA – Quando você diz que nunca conseguiu fragmentar em sua identidade a mãe, a poeta, a atriz e a professora, sinto que há uma integridade na expressão, que é corroborada pelos relatos que se seguem na sua narrativa. Você poderia falar um pouco dos atravessamentos que o ser “mulher” na contemporaneidade impõe? Partindo de suas experiências, desde o seu lócus social, conte um pouco para a Diversos Afins sobre estas intersecções que atravessam sua existência.
TEREZA SÁ – Historicamente, a condição do feminino sempre foi marcada sem o mínimo de dignidade humana, excluída de todo e qualquer processo político, sociocultural, em ambiente violento, predominantemente racista e machista. O espaço que lhe fora reservado foi o da marginalidade, amarga herança da dominação colonial que espoliou a condição dos colonizados de se colocarem como sujeitos e autores de pensamento e de conhecimento. Mas as mulheres vêm assumindo uma postura de ruptura frente a essa imposição histórica que por tanto tempo nos colocou em condições de subalternidade. Estamos assumindo postura de enfretamento às desigualdades, reinventando nosso lugar histórico e criando a cada dia condições para garantir participação ativa em todas as esferas da sociedade. Isso tem exigido de nós muito enfrentamento no combate às desigualdades e resistência para garantir conquistas e validação de nossas escolhas. Mas não nos intimidamos, ao contrário, temos marcado fortemente nossas presenças em movimentos de diferentes lutas pelo fim de opressões e conquistas de direitos. Sabemos que toda a conjuntura de nossa sociedade se estruturou com base no patriarcado e consequentemente sustentou-se em ideologias heteronormativas, sexistas, racistas, profundamente segregacionistas. Mesmo com tantas lutas já conquistadas pelas mulheres, muitas desigualdades ainda precisam ser superadas, dentre elas a mais urgente é justamente a desigualdade racial. As mazelas da escravidão ainda nos atingem em cheio e a presença negra no movimento de mulheres é de grande importância, pois exige amplitudes nas lutas, traz para evidência a necessidade de combate às mais variadas formas de opressão, além de impulsionar a mobilização de uma sociedade mais equânime. Ser mulher negra nesse contexto demarca situação muito mais desafiadora, pois exige a defesa de território do ser mulher e negra, condições extremamente marginalizadas socialmente. Eu, como mulher negra, o tempo inteiro vivi os atravessamentos dessas marginalizações. Desde a infância até os dias atuais. E, como toda preta, aprendi desde muito cedo que nossa luta é muito mais complexa, fazendo com que estejamos em militância o tempo todo, em constante alerta para diariamente nos defendermos contra todo tipo de discriminação e assédio. Tenho me comprometido com lutas antirracistas em sala de aula e através do teatro. A minha poesia também se apresenta como uma forma de combate e tenho feito uso dela como dispositivo para contribuir nas reflexões das questões de gênero/raça, somando minha voz a de muitas mulheres em um grande movimento que marca a inserção de nossas presenças em espaços tidos no passado como inacessíveis para nós.
DA – Por falar em poesia, no poema Profundeza, você encerra da seguinte maneira: “Já não possuo superfície/Sou toda profundeza”. O fazer poético envolve inspiração, mas também técnica e processos variados. Conte-nos um pouco sobre seus processos criativos, suas inspirações semânticas e, caso queira, fale um pouco sobre este poema em específico.
TEREZA SÁ – Eu sempre percebi o fazer poético como um movimento antecipado de imagens, cores, sons, desvelo criativo, entre tantas subjetividades que podem ser tecidas por quem escreve. Antes de se consubstanciar-se em poema, a poesia já é movimento na essência do/a poeta e a sua corporificação é o resultado da cumplicidade entre o sentir e a decisão de externar. O processo de escrita é um poço profundo e secreto que nutre todos os atravessamentos e inquietações que povoam o existir. Já mencionei que não sigo uma linha técnica específica no processo de escrita, mas certamente quando a poesia em mim se apresenta, traz em sua configuração uma roupagem entrelaçada com linguagem literária e a carga emocional. De certa forma, percebo que embora não haja, até então, uma escolha consciente com determinada técnica literária, essa escrita é bastante influenciada pelas autoras e autores que leio. Por ter contato constante com vários textos poéticos, na condição de leitora e também de professora, sou afetada intimamente pelas diversas estéticas literárias dos/as autores/as que devoro. Isso certamente influencia em minhas subjetividades. Escrever é também aprendizado. Tenho aprendido muito nessa construção de aceitar-me como poeta. Sinto que a técnica vai se apresentando, mas não quero que ela represente limitação para minhas enunciações criativas. Quero seguir no registro de minhas inspirações, me comprometendo mais e mais na cumplicidade com o estético, me permitir ser atravessada pela palavra sem tantas cobranças. Escrevo por prazer, por impulso, mas noto também que em muitos discursos narrativos certas estruturas textuais aos poucos acabam se manifestando, sendo utilizadas porque cabem melhor em determinados poemas que em outros. Isso tem se apresentado naturalmente com a presença de metáforas, metonímias, sonoridade, sinestesia, que dão fluxo aos versos que arrisco. Ultimamente, tenho me dedicado mais a apropriação da palavra escrita, como registro de sentimentos, me permitido brincar mais com essas palavras num jogo de escolhas e adequação das mesmas na disposição do processo criativo que tem insistido em se apresentar. Em Profundeza eu trago o caráter intimista de encorajamento e desprendimento da poética. Um poema em primeira pessoa, que traz um traço bem característico de minha escrita: muitas vezes uso a palavra com brevidade, como na capoeira regional, que ataca e defende em golpes precisos, que crescem, dilatam-se, destrincham-se, até se concluírem como um só fôlego, ou um trago.
DA – (…) Há lugares que se instalam e me adentram como ostra na pedra fi(n)cam mesmo quando não estou. Há lugares que em mim habitam e me povoam do que já sou. Em Pertença, você se refere à influência que a localização geográfica tem na (des)construção da identidade do seu eu poético. Como este processo de identificação se deu em sua biografia?
TEREZA SÁ – Na verdade, tudo é muito um processo de construção. Como falei, não dá para fragmentar a multiplicidade do que sou. O mesmo ocorre com o processo de escrita. Tenho feito muitas andanças e elas têm me conectado a dimensões cartográficas que têm interferido de forma ativa em minha construção identitária e consequentemente em meu processo criativo. Elas me fortalecem à medida que revelam pessoas e lugares que traçam os paralelos e meridianos que me constituem. Trazem-me os campos históricos da minha essência de mulher afrodescendente. É um rico processo de (re)afirmação que se completa com o sentimento de pertença que adentra as narrativas justamente porque me atravessa. Sinto que vivo um momento abundante, de águas cujos rios confluem e se completam. A força ancestral que determinados lugares e determinadas pessoas me transmitem, me conduz ao engajamento com essas forças que são/estão em mim, fortalecendo a memória coletiva que muitas vezes é ressignificada em minha inteireza.
Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal
DA – Tenho feito muitas andanças e elas têm me conectado a dimensões cartográficas, isso antes da pandemia ou mesmo neste momento? Sabemos que o artista, o criador tem as experiências do cotidiano como respiros para a vida, de maneira geral, e memória criativa de forma específica para as artes. Como têm sido lidar com este momento tão delicado? Há alguma criação poética deste período, em seu repertório? E mais: criticamente, como você visualiza as dificuldades oriundas do momento pandêmico para a classe artística?
TEREZA SÁ – Infelizmente, esse tempo pandêmico fez uma ruptura nessas andanças. As rotas foram interditadas, mas boa parte das trocas permaneceu e até se fortaleceu. Realmente é um momento de extrema delicadeza e não tínhamos proporção do quanto ele remexeria nossas vidas. Eu fui extremamente afetada por essa situação. Passei momentos difíceis, inclusive precisei de ajuda profissional para superar. É triste perceber que o momento de crise, incertezas e instabilidades em vários setores do país estão atrelados a falta de ação efetiva e seriedade política no enfretamento à Covid-19 por parte de nosso governante, em esfera federal. A classe artística foi bastante prejudicada, pois foi atingida em cheio por conta do isolamento social. As casas de espetáculos e os espaços ligados à cultura foram os primeiros a serem interditados, possivelmente serão os últimos a retomarem. Muitos trabalhos foram interrompidos, projetos adiados. Tem uma frase que é atribuída a Che Guevara, mas não sei se realmente é dele, que diz: “hay que endurecerse pero sin perder la ternura”. De certa forma, isso nos descreve, nessa catástrofe. Nós não perdemos a capacidade de sonhar. Fomos verdadeiramente golpeados pela pandemia e toda sua conjuntura nos deixou um tanto endurecidos/as diante de tanto caos. Mas percebi também que em certo momento foram acontecendo determinadas atitudes isoladas e, aos poucos, como onda, foi-se ampliando e contagiando o coletivo. A classe começou a se mobilizar para fazer atuar como dava. Todo mundo se virando, usando a internet a seu favor. Isso nos trouxe novas e desafiadoras possibilidades de fazer arte. Não retomamos o fôlego ainda, pois o processo se estende e não temos a real dimensão de como/quando tudo vai se resolver, mas os artistas se reinventaram nesse cenário, o que foi muito bom. Aprendemos muito com tudo isso, principalmente a não desistir. Sabemos que o auxílio emergencial contribuiu em alguns aspectos, mas faltam políticas públicas mais eficazes nesse setor. Eu sempre afirmo que produzo no caos. Sempre tive dificuldade em afirmar-me como poeta, principalmente por não ter uma disciplina rígida com a escrita. Não sou das que organiza tempo/ambiente. Geralmente, sou arrebatada pela poesia e me flagro criando em momentos inusitados de bastante ebulição de atividades. A pandemia me pegou em um momento de conclusão de escrita de mestrado, o que gerou em mim ansiedade descontrolada. Ainda assim produzi alguns poemas. Um deles, inclusive, foi postado como vídeo-poema na página do Profundanças: Influxo. Além disso, junto com um grupo de visionários, fomos contemplados com Edital emergencial do Calendário das Artes, que resultou no trabalho Corpos Negros Insurgentes. E mais, produzi outros vídeo-poemas para @amataode e Teatro Popular de Ilhéus, em 2020. Sigo viva sonhando com novos momentos de encontros, abraços e aplausos.
DA – Pensando neste momento delicado que requer de nós fortaleza e lucidez, mas também capacidade de olhar além de si, em direção ao outro, como você concebe o valor das palavras humanidade e futuro, na sua criação artística e, de forma mais ampla, no sentimento do mundo? A arte pode ser motriz de mudanças necessárias neste e em outros cenários? Se sim, de que forma?
TEREZA SÁ – A arte tem nos dado respostas, “régua e compasso”, não apenas para esse momento, mas em todas as circunstâncias de crise tem oportunizado condições de superação tanto para quem produz, quanto para quem consome. Nessa situação atual, ela vem, sim, como motriz da vida e do sonho. Dessa forma, edifica e liberta a alma do artista e de quem aprecia e a valoriza. O momento delicado, como disse, fez com que a arte se reinventasse para se fazer chegar ao público, já que a aglomeração de afetos, talentos e aplausos está restrita. Mas o poder criativo não está. A humanidade experimentou o medo, a angústia e de fato a morte. Mas a arte vem como alternativa de vida, fazendo aflorar não apenas sensibilidade do artista, aumentando seu poder criador, mas ascende o sentido da esperança. Esperança no futuro para o público em geral. A arte afeta de forma demasiada. Leva a refletir, entretém, eleva… O amanhã se viu ameaçado, mas o presente se viu validado e isso é bom. A arte é motriz de mudanças quando ela mesma muda sua configuração para chegar ao público sem perder a forma e a estética, quando aborda temas atualizados aumentando perspectivas e dando vazão às neuroses que aumentaram muito nesses tempos. A arte alerta que o que se externa pela privação é uma essência que pode ser melhorada. A arte sinaliza que o belo pode florir e libertar mentes e corações. Não está fácil para ninguém, mas o artista consegue renascer das cinzas. Aliás, Mateus Aleluia nos afirma que “o amor há de renascer das cinzas”. Eu acredito nisso.
Elis Matos é doutoranda em Linguagens e Representações, mestra em Linguagens e Representações (2019), especialista em Gestão Cultural (2017), bacharela em Comunicação Social (2013), licenciada em Filosofia (2009), pela UESC. Com pesquisa voltada à guerrilha literária empreendida pela escrita de mulheres em obras produzidas colaborativamente, a partir da perspectiva da Análise de Discurso materialista. Pesquisadora, professora, produtora, feminista, antifascista, acredita na construção coletiva de um mundo justo e livre.