x
sobreviventes deitados trocam
figurinhas repetidas
experiências amorosas repetidas
de bruços trocam
feito meninos que tocam trocar
sorrisos enigmáticos repetidos
trocam até cascalhos repetidos
balançam os calcanhares no ar repetido e trocam
viram as barriguinhas para o céu
trocam o curso das nuvens repetidas
trocam andorinhas repetidas
repetem TROCO NÃO TROCO TROCO
trocam as pernas de lugar
trocam o lugar de estado
os joelhos com os joelhos dos joelhos mais jovens
o de joelhos tortos repetidos
trocam hálitos repetidos
trocam ar
sobreviventes trocam tudo
apontam calor nós nos cabelos
trocam fluidos inevitáveis repetidos
furos de guerras ecoadas
trocam repetida a terra de lugar
dormem com raízes parecidas a joelhos
sobreviventes dormem repetidos
de repetidas mãos dadas a sonhar
incertas repetições mais
exatos epílogos mais
***
:
não me sinto tão
bem nunca me senti tão capada
não tenho a memória de estar
vibrante “As they say on my own Cape Cod”
sinto que deveria ter me dedicado ao
arco e flecha como dediquei o pescoço
à leitura de teorias UFO
acordo com essa pança cheia de melancolia
olho minha mãe me olhando
minha cachorrinha me olha olhando minha mãe triste
já fui pega olhando uma lata
de molho de tomates no lugar errado
o rapaz me pegou pela mão perguntou meu nome
perdida mora por perto está sozinha
entre ervilhas eu disse
o molho entre ervilhas
comprei caqui mole e bistecas de porco
comprei a serralheria dos ouvidos açougueiros
nunca me senti tão amputada
o caminho me levou até minha mãe
minha cachorrinha olhando minha mãe triste me olhando morta
acho que seu pai tinha isso que você tem
e isso veio da conversa com a psiquiatra
isso não tinha CID e eu tenho pensamentos mágicos
trocamos a cidade a psiquiatra
me sinto bem pior
agora que sei ser vibrante com a não compreensão
do tigre CONVIVER
sei e posso e alcanço falar sobre minhas deficiências
sobre meus distúrbios
e isso assusta muito quem não me vê babando
errando as pernas letras assusta não conhecer
devo ser mesmo esse caqui mole olhando
a lata errada nos mercados
carla
ninguém fala moléstia no poema
carla é só uma lata fora do lugar
carla “As they say on my own Cape Cod”
a vida é bonita e cheia de coelhos com trevos entre os dentes
o rapaz mais famoso da minha estante
me puxa pelos cabelos
perdida mora por perto está sozinha
uma lata errada
“a loucura é portátil”
é claro que a lata não é errada
carla e a lata “As they say on my own Cape Cod… partners in prosperity.”
***
x
o sobrevivente estende as mãos à estátua
o ritmo dos joelhos
o pão ainda cru
obscenidades
algumas razões
quinas duns pensamentos
mas chora
o sobrevivente estende as mãos à estátua
mas chora
o sobrevivente teme o caminho da lágrima na mão embrutecida
chora toda a sede da goela
mas estende as mãos
mas contorna
um ponto além do contorno duro
contorna
imita
estende a biografia do nariz
o sobrevivente afia a moela e cisca o assoalho
ESTOU PERTO ESTOU BEM PERTO
o sobrevivente e algumas razões
o pão ainda cru
mas pão
***
:
estender a asa norte e
sair feito uma garça rodada
eriçar a última pluma e sair
feito uma pavoa mentecapta
esticar as unhas e sair feito
um galo tarado espichar o sal
e sair feito um flamingo excessivo
arrepiar o bigode e sair
da moita em espasmos apaixonantes
o pescoço é o pêndulo da coisa penada
abraça um queixo meu peito pombo
bica uma pena que me coça a chaga da coisa penada
mania ave
de quantos bigodes precisa uma mulher para sair?
***
:
tenho uma memória inquieta
tenho um pescoço de criança
conforto em lã com cheiro de avô
lavanda
canela com leite morno
nada mau
diriam
para uma casa abandonada
nada mau
dizem
nada nada mau
comenta quem acabará por morder meu pescocinho mofo
***
:
no inverno
vou jogar meu pescoço para trás
largar um pensamento horrível no cúmulo
de uma pedra sob o sol
faço por você
mostro um pedacinho da minha arquitetura
por você
para que você não fique com a impressão
e sim com a certeza:
não sei lidar com meu próprio sumiço
com a destruição
palmo a palmo
daquilo que em nós dois
soma estações tectônicas com
flores daninhas entre os desencaixes
Carla Diacov [@diacovcarla] nasceu em São Bernardo do Campo em 1975. Lançou os livros “Amanhã alguém morre no samba” (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), “A metáfora mais gentil do mundo gentil” (Edições Macondo, 2016), “Ninguém vai poder dizer que eu não disse” (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), “A menstruação de Valter Hugo Mãe” (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017) e “A munição compro depois” (Cozinha Experimental, 2018). Os poemas aqui apresentados estão no próximo livro de Carla Diacov, : “pescoço x sobreviventes”, que sairá pela Garupa.
Vida é sopro que circula, povoa seres e lugares, atravessa as dimensões da concretude para depois aportar no indizível mistério. Esta senhora, pois, aninha suas crias e as envolve com seus destinos de ser pelo desejo atravessado dos tempos. Na espiral dos instantes, há sempre uma faísca a movimentar tudo, ideias, laços, ímpetos, tons, gritos, dores, êxtases e paixões. E ser artista em meio a tanta coisa que mobiliza o olhar é missão sem par, desatino que se traduz em exercício de presença no mundo.
Há um infindável número de adjetivos que podem ser utilizados para esboçar alguma definição sobre o que representa o trabalho de uma fotógrafa como Lu Brito. Suas imagens podem ser desejo de liberdade, anseio de existência plena, clamores, preces, lampejos de prazer, gestos contemplativos, arremessos de serenidade ou mesmo algum anseio de conexão com o todo que nos rege.
Nos interstícios do cotidiano, Lu Brito sonda as expressões do humano através das sinalizações emanadas pelo corpo. Nas capturas da fotógrafa, eis que testemunhamos olhos sinceros de pessoas no enleio das suas rotinas pessoais, mãos que afagam o engenho das horas, rostos que trafegam entre o sonho manso e os delírios da realidade. Nesse vasto abrigar de sentimentos, habitar um corpo também é se deparar com as zonas fronteiriças da solidão, é mirar o horizonte posto nas paisagens buscando respostas em meio ao silêncio. Gente, para Lu, é motor que principia ações, as tais investidas sobre tempos e espaços dos seres que se equilibram entre a quietude e o alvoroço.
A arte imagética de Lu concebe os espaços físicos como verdadeiros mananciais de sensações. Desde o que remonta às paisagens naturais até aquilo que marca acentos urbanos, o voo da artista percorre cenários ricos em temáticas, todas elas a assinalar um olhar que se curva aos desígnios do instante observado e, por assim dizer, também experimentado em sua fruição. Em quaisquer desses universos, a chama da vida resta anunciada em gestos de presença e ausência humana.
Foto: Lu Brito
Mas eis que o apelo das cores transborda a dinâmica dos sentidos expostos, chama atenção pela necessidade da ênfase, daquilo que pretende ser marcado por sua vivacidade espontânea. São múltiplos tons que estão ordenados segundo uma lógica própria e inerente a cada ser ou lugar retratados. Seja operando na via dos contrastes ou na harmonização com os ambientes e corpos, as cores em Lu Brito inauguram a poética das marcações e nos fazem lembrar que muita coisa conflui para a vastidão das peculiaridades.
Confessando-se uma amante incondicional da fotografia, Lu Brito já desbravou muitos cantos do Brasil à procura de imagens. Com a mesma intensidade, também esteve em algumas dezenas de países aprimorando o seu ofício com a imagem. Muitos trabalhos seus podem ser encontrados em várias galerias de arte e casas de decoração e arquitetura de Salvador. Seu currículo abarca exposições individuais e coletivas nacionais e internacionais, bem como algumas premiações, dentre elas, Menção Honrosa na Bienal Brasileira de Fotografia 2016, Primeiro Lugar e Menção Honrosa, na categoria PB, no VII Salão Internacional de Fotografia de Ribeirão Preto (2019), além de Menção honrosa no Concurso Photonature Brasil 2020.
Com seu olhar ávido por captar o mundo e suas singularidades, Lu nos oferta instâncias especiais de contemplação da vida. E esse exercício de observar os trajetos humanos e de se deter pelos mais difusos espaços torna a experiência visual um tanto mais completa. Para além do que se vê numa primeira mirada, outros tantos sentidos se desdobram em favor da poesia que se refugia nos instantes flagrados pelas lentes da artista, mostrando que o mundo não é somente um palco de subjetividades, mas também de fenômenos espontâneos sobre os quais talvez jamais exerçamos alguma espécie de controle.
Foto: Lu Brito
* As fotografias de Lu Brito são parte integrante da galeria e dos textos da 144ª Leva
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
O mundo e seus sinais. Gestos por todas as direções apontam um pouco do que somos, esse misto de espanto e estranhamento no terreno desavisado das descobertas. O vento carrega tudo, desacomoda poeiras, certezas e segue seu curso de transformações. Somos esquina quando divisamos um rumo e outro das escolhas a serem sentidas e executadas. Somos substância fluida, tal como águas que apontam sempre para a mudança, ainda que esta se manifeste à revelia de nossos desejos mais profundos.
A ideia de se estar vivo vem como sopro que atravessa bem mais que o organismo que possuímos. O corpo, por si só, é expansão, morada que projeta a liquidez do sonho ante a visibilidade e concretude da matéria. Cada passo dado é sintoma da consciência, muitas vezes submersa em razões imprecisas. E o que pode a arte diante dos nossos lampejos e arroubos existenciais?
Tentar achar respostas parece não ser tarefa que esgote as possibilidades. É olhar para todas as direções e também para o que está em nossos arredores e perceber ali correspondências com o que pulsa dentro de nós. A arte se materializa a partir de um estado de atenção sobre as coisas, o mundo e seus fenômenos. É esse tipo de percepção que atravessa o trabalho de Marjorie Duarte, artista que ressignifica o caos interior a ponto de forjar a partir dele condições de produção.
Ilustração: Marjorie Duarte
Falar do caos que assoma alguém é também perceber que um novo sentido é dado às coisas e situações. Um turbilhão, quando não paralisa, conduz à aparição de outros rumos. E foi justamente esse tipo de movimento que norteou a trajetória artística de Marjorie. Sob o ponto de vista das tensões urbanas, o motor da ansiedade foi capaz de fazer com que, por exemplo, a artista desse azo à invenção de uma personagem muito cara em seus trabalhos, a menina-mulher Síndrome.
Um olhar detido em Síndrome parece nos revelar que sua materialização em imagens vem constituída por um conjunto de sensações que transbordam os desdobramentos do real. Ela é, então, a porta-voz de uma existência inquietante e crítica, mas também o reflexo da busca de uma ternura enevoada pelos desafios da vida prática. E a saída para as tensões da personagem é pensada por Marjorie através dos usos poéticos que a autora não abre mão de utilizar.
Ilustração: Marjorie Duarte
Em Marjorie Duarte, a imagem é vontade da palavra e vice-versa. Na interface entre desenhos, textos e colagens, a artista remonta a seu modo os fragmentos de um mundo acelerado, prenhe de verbos que saltam aos olhos pela urgência em comunicar. Seja na conjunção de frases ou na solidão das palavras, o imperativo de dizer algo sobre o ato espantado de existir é gênero de primeira necessidade para a ilustradora. E tal gesto se abriga na poesia dispersa da vida, condição de olhar a tudo com a avidez da descoberta.
Professora de Literatura e Artes no ensino fundamental, Marjorie também se dedica a ilustrar livros. Adepta do que chama de pensamento acelerado, que é esse estar perceptível ao instante, ela abraça a tudo com o ímpeto de agarrar o presente e aquilo mais que tal investida pode gerar. E deixar o agora se esvair pelos desvãos da memória parece uma perda incalculável para a criadora. Nessa dinâmica de uma atenção permanente aos sintomas do mundo, verdadeira recusa em dissipar o laço com a vida, o compromisso com a arte é exercício que revela um extremo teor de sensibilidade, epifania com causa pungente que abriga as paisagens mais íntimas da artista.
Ilustração: Marjorie Duarte
* As ilustrações de Marjorie Duarte são parte integrante da galeria e dos textos da 143ª Leva
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
E não há tempo
Para as coisas fúteis
Para as discussões inúteis
Já foi-se letra pra pouco argumento.
Não há mais sentimento
Só se formulam lamentos
Sanidade espalhada no chão em um manicômio urbano
Poesias pisadas até saírem sangue. Esse é o movimento.
E de praxe, eu estendo a bandeira da minha própria sanidade e des-rimo os versos proferidos
Queimo parte por parte
Depois me jogo nas cinzas e rolo
E rio
E choro.
Pois é a vida, não é mesmo?
Após disso morro lentamente nos braços da cidade
E soluçando, clamo à vida, a perda, as perdas.
E apago, acordo e não me encontro.
Vou pra onde não vou e ando por onde não ando.
Morro de novo aos pés da poesia.
E está consumado.
***
Limite
a cadência dos clarões fantasmas
os monstros geométricos
a quimera gigante no céu
árvores em negativo fosforescente
um pedaço de sorriso morto uivando no mar.
um trem fantasma só de ida sem nem mais voltar
o sugador de almas com fome
o canibal demoníaco poliquântico
o terror sanguinário de barba e dentes
e os pedaços do espelho que espalharam-se no chão ao atravessar
e as paredes que te fecham pra te esmagar
e o seu corpo que te prende e tenta te devorar
até desmaterializar
prendendo o limite das coisas que trancamos pra não mais lembrar.
***
Barulhos
quando se escreve um artifício
o peso das palavras fura o leve do ofício
há quem diga que o poema é feito de ar
eu digo que o poema é feito de alma
de uma alma pra outra alma.
há quem diga que o que há no poema é barulho.
eu digo que o que há no poema é erupção mental.
seja corrosivo, colorido, carnal
matéria visível, palpável e espiritual.
***
Cortejo Fúnebre
enquanto todos dormem
nas ruas, fantasmas caminham calados
em pares, braços juntos ao corpo
no meio panorâmico, caixões levados pelos ombros.
os borrões seguem cabisbaixos.
e vão aumentando.
o cortejo assombra a cidade
e vira um carnaval de sombras.
***
Brisas Continentais
Mais uma vez não cumpri as coisas que jurei prometer
Tanta coisa na minha lista e eu não sei o que fazer
Tô tentando seguir reto para não enlouquecer
Não gritar de madrugada pra ninguém me ver morrer
Pois até no meu último suspiro só me vem você.
Sua voz no meu lado chamando pra ao seu lado permancer
O sonho é tão real que até posso tocar o céu
De mel são as minhas asas e tão alto eu sei q vou alcançar
Minhas brisas tão inertes me levando de volta para o mar.
E do alto dessa vista, meu impulso me faz voar
No meio da fumaça do cigarro que tenta me cegar
Imerso nas brisas continentais que me deslocam de lugar.
***
Pedaço de Corpo
dos olhos da felicidade
nada vaza, nada escapa
pelos vãos, os sonhos vis
as pontes deixadas pela nossa imaginação.
talvez o amor fosse apenas uma invenção
uma história, um peso, um erro, uma superação
nunca escolhemos o que cegos, nós vivemos
apenas temos mudas noções.
e se cegos vivemos, nada faz tão sentido em nossas direções
perdidos estamos, vencidos ficamos ultrapassando nossas próprias invenções.
JP Schwenck é um artista multimídia carioca nascido no ano N⁰ II do século XXI. Proveniente de uma geração hiperativa e explosiva, ele escreve desde os 12 e produz conteúdo independente e efusivamente. Em 2020, publicou “Opus”, seu primeiro livro por si próprio e lançou seu podcast experimental “Alma Mastigada”. Inspirado na arte contemporânea e no seu cotidiano, sua missão é expor a sua visão do mundo que lhe absorve e transpor sua liberdade artística.
Não é de hoje que estudiosos e autores de ficção discorrem sobre o impacto da tecnologia sobre nossa sociedade, seu uso para o bem ou para o mal. Seremos capazes de evoluir a ponto de erradicar guerras, miséria e mortes desnecessárias ou a tecnologia nos escravizará, difundirá ainda mais a estupidez e potencializará nossos instintos de autodestruição? O estado de coisas atual não nos dá muitos motivos para otimismo. Imerso em questionamentos como esse, o autor Rodolfo Guimarães Neves lança suas preocupações sobre nosso futuro e nossa democracia, sem se esquecer de onde veio e das peculiaridades do cotidiano do presente.
Conheço Rodolfo desde que éramos adolescentes, nos anos noventa, quando ambos morávamos no Espírito Santo. Desde aquela época, já era perceptível sua tendência para a erudição, sua sensibilidade e seu amor por Pernambuco, sua terra natal, e pelo Brasil. Através dele, foi a primeira vez que ouvi falar de Chico Science, de quem não tardei a ouvir e me tornar um fã, assim como de todo o movimento Mangue Beat. Lembro de nossas conversas sobre história e sociedade na biblioteca da escola na hora do intervalo, quando a maior parte da turma se entupia de refrigerante e salgadinho ou jogava futebol.
Cada um seguiu o seu caminho e, para Rodolfo, veio o curso de Direito, os empregos na Universidade Federal e no Tribunal de Justiça. Mas havia um autor dormente, um observador de costumes e um poeta que gradualmente emergiu, além de uma história épica que pedia para ser contada, se insinuando através da leitura das páginas de Asimov, das sessões de filmes que expandiam a imaginação sobre o futuro e de uma formação humanista e, sobretudo, curiosa sobre o mundo e suas instâncias.
Alguns de seus contos apareceram em antologias divididas com outros autores: “Conto Brasil” (volume 1, 2018 e volume 2, 2019), ambos pela Editora Trevo; “Veraneio”, da Editora Jogo de Palavras (2019); “Paraty”, da Editora Gaya (2019) e “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie (2020). Sua poesia já foi publicada em “Poesia Agora – Edição Inverno 2018”, da Editora Trevo e em “Concurso Nacional Novos Poetas 2018 – Antologia Poética”, da Editora Vivara.
Seus maiores voos literários, agora solo, aconteceram recentemente. Em 2020, a coletânea “Eles, Outros Contos e Poemas” e o romance “A Dinâmica Orgânica”, incursão na ficção científica, foram publicados pela Editora IGP, do Recife. Enquanto os contos e poemas mostram uma visão mais pessoal e cotidiana, mas sempre oferecendo uma sensação desconcertante ao leitor, é nas páginas do romance que a imaginação de Rodolfo alcança um nível poucas vezes visto. Por trás da sua ficção científica, com direito a viagens no tempo e o protagonismo de Pernambuco, quase um personagem por si só, há uma preocupação sincera com os rumos da democracia e com o uso da tecnologia contra o interesse público. “Eu me orgulho muito do livro. Foi uma conquista na minha vida, uma das coisas mais alegres, uma realização”, festeja Rodolfo, e com motivos para tanto.
Já em 2021, mais duas publicações: a adaptação para quadrinhos de “A Dinâmica Orgânica”, feita em parceria com o quadrinista Pedro Ponzo, um dos grandes nomes da cena pernambucana atual dos quadrinhos, e a peça teatral “Ressentimento”, na qual as experiências de Rodolfo no mundo do serviço público serviram de grande inspiração.
Para minha grande satisfação, Rodolfo aceitou conversar com Diversos Afins sobre sua obra. Sentindo-se com um alto nível de satisfação pessoal e autorrealização, ele manifesta seu grande agradecimento “à minha atual namorada, a Maria Luciene, que me dá todo o apoio para escrever mais coisas”. Uma longa conversa que passa não apenas pela literatura, mas também pela filosofia, administração pública, cinema e política.
Rodolfo Guimarães Neves / Foto: arquivo pessoal
DA – Sua obra transita entre o texto em prosa e a poesia. Há alguma hierarquia entre essas formas de escrita no seu processo de criação literária? Você se considera um poeta que também escreve em prosa ou um ficcionista que eventualmente usa o verso?
RODOLFO G. NEVES – Eu me considero, antes de tudo, um escritor iniciante. Fiz alguns cursos, três deles ministrado por Rodrigo Gurgel, um escritor do Rio de Janeiro, e outro de Pedro Bial, “O ato de escrever”. Eu comecei escrevendo poesia para um site chamado Luso-Poemas. Os poemas em “Eles, Outros Contos e Poemas” são mais antigos do que os contos. Já participei de alguns saraus em Olinda, mas não é habitual. Mesmo tendo começado com poesia, a prosa também me atrai muito, pela fluidez das ideias e pela necessidade de escrever. Participei de alguns concursos literários com poemas que foram selecionados para compor antologias, acabei mandando contos também, alguns dos quais estão no livro. O conto “O mal iluminado” me deu maior visibilidade, pois foi selecionado para a antologia “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. Nessa questão de transitar entre prosa e poesia, fico dividido. Também escrevo peças teatrais, uma delas se chama “Ressentimento” e teve uma resposta muito positiva de membros da Academia Espírito-Santense de Letras. Outra peça, que deve sair em breve, chama-se “Resignação”. Eu transito entre a dramaturgia, a poesia e a prosa, não me considero nem melhor, nem pior em nenhum dos três. Ainda me considero alguém que está aprendendo. Mas pretendo sempre evoluir e aprimorar meu texto.
DA –Em seus contos do livro “Eles, Outros Contos e Poemas”, há a descrição de situações, cenários e emoções que pertencem ao cotidiano do meio urbano, narrando episódios insólitos ou até mesmo banais. Ao mesmo tempo, “A Dinâmica Orgânica” traz uma organização urbana completamente diferente, com uma proposta radical. Como é transitar por essas duas dimensões narrativas? O que há de uma na outra?
RODOLFO G. NEVES – Todo escritor tem a necessidade de contar histórias. No livro “Eles, Outros Contos e Poemas”, retrato as coisas que vejo no cotidiano. Seja um podcast, a vida de um amigo, as relações interpessoais, a vida urbana… há até um conto um tanto quanto zen-budista que destoa do restante. Tento fazer tramas, aventuras curtas, são contos muito curtos, o maior deles é “O Império de Momo”, que fala do carnaval de Olinda, o qual conheço bem, e também de questões morais. São coisas que eu vivencio e que outros vivenciaram e cada vez mais surgem ideias para escrever sobre coisas novas. Sobre “A Dinâmica Orgânica”, é algo mais escapista. Eu procuro ver um futuro mais utópico, mais justo do que a realidade que a gente vive. Enquanto em “Eles…” o mundo é como eu o enxergo, há as relações entre as pessoas, relações de poder, relações de amor, coisas banais como, por exemplo, o concurso público. A ficção científica é uma paixão pessoal. Uma das maiores alegrias era quando, aos doze anos, meu pai chegava em casa com uma fita VHS de “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”. Era uma alegria aquele mundo de naves e planetas. Ver a sociedade como um organismo é uma espécie de “tara” que eu tenho desde criança. Peguei um avião uma vez e vi a cidade de cima, parecia um organismo, aqueles prédios públicos e particulares. Ver o mundo de forma diferente foi algo muito estimulado pela ficção científica. E eu a vejo como um escapismo meu diante de tanta miséria e corrupção, para imaginar um mundo melhor. Até a ficção científica mais distópica, como “Mad Max” (1979), nos faz pensar no que pode se tornar a humanidade. Então, eu quis eu mesmo escrever a minha própria ficção científica, de tanta paixão que eu tenho pelo gênero.
DA – “A Dinâmica Orgânica” traz uma história futurista num ambiente muito brasileiro e muito pernambucano, o que não é algo tão comum na produção cultural mainstream nacional. Você acompanha a produção brasileira de ficção científica?
RODOLFO G. NEVES – Eu acompanho o blog de Alexander Meirelles da Silva, um dos maiores especialistas de fantasia, ficção científica e terror do Brasil, tenho contato com ele e com outras pessoas do meio através do Facebook. Mas não acompanho tanto assim a ficção científica nacional, procurei “Fractais Tropicais” (2018), uma coletânea de contos brasileiros de ficção científica, mas não encontrei para venda. Eu escrevi “A Dinâmica Orgânica” porque eu tinha esse impulso. E fiz de uma forma regional porque eu sou apaixonado por Pernambuco. Em uma ocasião, comentei com amigos da minha então esposa que eu estava escrevendo um livro de ficção científica. Me perguntaram: “e onde vai se passar?” “Em Recife”, respondi. A reação foi de um riso abafado. Fiquei indignado. Aí pensei comigo: “agora que essa porra vai se se passar toda em Recife, não quero saber” (risos). É bem regional, mas também bem brasileiro, tem passagens na Ilha de Marajó, menciona São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Tem personagens da Paraíba, de Mato Grosso… Na minha concepção, o Brasil seria um baluarte do mundo livre contra as nações que decidiram seguir o processo da Dinâmica Orgânica e se tornarem um organismo vivo.
DA – Há citações de Philip K. Dick e de Isaac Asimov na epígrafe de “A Dinâmica Orgânica”, sendo que uma das personagens leva o sobrenome de Asimov, numa clara homenagem. Quais suas outras influências dentro da ficção científica?
RODOLFO G. NEVES – Eu consumo muita ficção científica, mas não sou um grande leitor do gênero, li “Admirável Mundo Novo” (1932), de Aldous Huxley; “Fundação” (1951) e “O Fim da Eternidade” (1955) de Asimov, “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” (1949) de George Orwell… Mas sou um ávido consumidor de cinema de ficção científica, até de filmes mais antigos dos anos 60 e 70, como “Colossus 1980” (1970) e “Solaris” (1972), de Andrei Tarkovski. Impossível não falar de “Blade Runner” (1982), “Matrix” (1999), das irmãs Lily e Lana Wachowski e “Interstellar” (2014), de Christopher Nolan, que me chamaram muito a atenção; e também da franquia “Star Trek”, inclusive os mais recentes. “THX 1138” (1971), de George Lucas, que é baseado num curta anterior do próprio diretor. A animação “Æon Flux”, cuja adaptação em filme não é muito boa, mas a série é excelente, tem uma abordagem filosófica subliminar bem interessante. Filmes surreais como “Cubo” (1997), “O Poço” (2019). Tenho uma pilha de livros aqui em casa esperando para serem lidos, mas meu tempo é ocupado por várias atividades diferentes, estudo economia e lógica da argumentação, faço parte de organizações filantrópicas, tenho que dar atenção a membros mais idosos e fragilizados de minha família. Também leio outras coisas como misticismo, rosacrucianismo, a sincronicidade de Carl Gustav Jung, que é um tema que me interessa muito, estou lendo “Jung, o Místico” (2010), de Gary Lachman, que foi membro da banda Blondie, de quem li também “A História Secreta da Política Ocidental” (2008). Tudo isso influencia você e, como disse Chico Science, “enche a imaginação de domínio”. Eu fui criando aos poucos, tinha um caderno de notas e ia anotando. Um dia, fui rever “Blade Runner” com minha ex-esposa. Depois do filme, contei para ela a premissa de “A Dinâmica Orgânica” e ela me incentivou muito a escrever e publicar. Hoje sou grato a ela, foi uma grande incentivadora. Passei quatro anos escrevendo o livro.
DA – A meu ver, a melhor produção de ficção científica parte de assuntos sócio-políticos-filosóficos relevantes no tempo do autor e os projeta em um contexto tecnológico e/ou futurista, propondo um desenvolvimento que pode ser utópico ou distópico. “A Dinâmica Orgânica” parece transitar simultaneamente entre ambos. Quais as questões atuais que serviram de mote para a criação desse universo?
RODOLFO G. NEVES – Boa pergunta. A nanotecnologia, a hiperconsciência, esses conceitos científicos mais novos. A Brainet, uma internet cerebral, que é abordada pelo Miguel Nicolelis. Isso me leva ao seguinte: o fascismo tem muitas faces. Ou melhor dizendo, o totalitarismo, já que o stalinismo não é algo que me agrade. Essas tecnologias em mãos erradas podem transformar um país em um monstro, literalmente. Isso vem me preocupando. Li o livro de Yuval Noah Harari, “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade” (2014) e estou lendo do mesmo autor “21 Lições para o Século XXI” (2018) e “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” (2016), que aborda os desafios atuais da humanidade com a disponibilidade de recursos tecnológicos. Quem imagina que o totalitarismo é algo afastado na história, está muito enganado, o que é reforçado pelo contexto atual, pelo que estamos passando. Não vou citar nomes, mas estamos em uma situação em que o fascismo não foi obliterado. Meu medo é a ascensão do totalitarismo com esses recursos tecnológicos, seria algo muito mais brutal do que o nazismo de Hitler. Pode se ter o controle total de uma população, de uma nação inteira através de algoritmos do Google ou do Facebook. Isso nas mãos erradas, sem controle, sem liberdade, sem o garantismo do poder judiciário… me fez pensar muito sobre o futuro. Em contrapartida, imaginei como seria um mundo melhor, com uma internet chamada de Mindnet, que tem um lado místico, de energia vital, não seria idêntica à Brainet de Nicolelis, mas que seria usada para o bem. Então tem os dois lados: um quando a tecnologia ajuda a fazer uma sociedade mais justa e outro quando é usada para a opressão. Há um conceito no livro chamado “economia por energia” que eu levo tão a sério, detalho tanto como funciona, que passei a estudar economia com um certo sonho de explicar isso para a linguagem econômica, propor uma economia sem dinheiro.
Rodolfo Guimarães Neves / Foto: arquivo pessoal
DA – Você já adiantou esse próximo tema um pouco, mas eu pergunto: com a recente escalada neo-autoritária em várias partes do mundo e a “algoritmização” do indivíduo do século XXI, com manipulação de dados e disseminação de informações falsas para fins comerciais e políticos, você acredita que a sociedade atual caminha para algo similar ao “organicismo” descrito em “A Dinâmica Orgânica”?
RODOLFO G. NEVES – O risco do ”organicismo”, da maneira em que está no livro, é real. É como numa passarela de desfiles de moda, onde são exibidas roupas extravagantes. Não quer dizer que as pessoas vão usar aquelas vestimentas, o estilista aponta as tendências, um salto maior, um chapéu com uma aba diferente. A ficção científica funciona assim, se exagera um pouco para dizer onde podemos chegar, como em “Mad Max”. Talvez nunca iremos chegar a esse cenário, mas é um futuro plausível. Se acabarem os recursos naturais, vamos nos matar uns aos outros por água, por petróleo. O que eu quis mostrar é um lado onde a tecnologia oprime e os seres humanos são aperfeiçoados geneticamente, inclusive intelectualmente, criando uma casta. Talvez o fosso entre ricos e pobres se torne totalmente intransponível, como os estamentos da Idade Média, porque os pobres não conseguiriam pagar por essas intervenções médicas. A ignorância e o obscurantismo são direcionados para as classes mais baixas. Isso, de certa forma, já foi abordado em outras obras, como no livro de H. G. Wells, “A Máquina do Tempo” (1892). É algo ainda distante, mas é uma ameaça real. “A Dinâmica Orgânica” é minha contribuição para despertar esse alerta no público. Eu quis fazer um livro regionalizado por ser apaixonado por Recife, mas também porque sonho com que o Brasil seja esse baluarte do mundo livre, eu não sonho com o Brasil de Bolsonaro, eu sonho com um Brasil livre, democrático. Eu sou um democrata e o totalitarismo, tanto com os expurgos de Stalin quanto com o nazismo de Hitler, já provou que não presta. Sou um democrata ferrenho, na verdade, um social-democrata, algo que seria um meio termo. Muita gente não gosta desse termo por causa do PSDB. Eu não sou do PSDB, sou filiado ao PDT, do espectro trabalhista, do espectro social-democrata, de Leonel Brizola. Enfim, meu medo é esse, de ser criada essa casta super evoluída e se degenerar. Como coloca a “Política” de Aristóteles, os sistemas políticos podem se degenerar. Com o uso da tecnologia, a tirania talvez se converta em um ser vivo. Por isso eu faço um trocadilho na divulgação dos quadrinhos de “A Dinâmica Orgânica”: é a história da luta contra a pior “espécie” de totalitarismo. “Espécie” aqui serve tanto como “tipo” quanto como ser vivo.
DA – Você falou sobre a economia por energia, me pareceu um conceito com alguma influência de princípios orientais, como o Chi, por exemplo. Você chegou a estudar algo dessas filosofias?
RODOLFO G. NEVES – Eu li “Tao Te Ching” de Lao-Tze e “O Tao da Física” (1975), de Fritjof Capra, mas li sobretudo literatura espírita. No Nordeste, há muitos nomes de origem eslava. Há uma certa profecia espírita que fala que o nordeste brasileiro iria acolher os eslavos. Peguei isso como mote e coloquei nomes eslavos para várias personagens: Asimov, Sokolov, Dmitri. E outras leituras como experiências de quase-morte, anjos, literatura rosacruz. Embora tenha lido vários livros, eu não sou um grande pesquisador, sou alguém que vive bastante da imaginação. Dentre todas essas referências, seleciono aquilo que serve à minha tese. Nos crimes de ordem energética, que estão no livro, tive muita influência do espiritismo.
DA – Sua formação acadêmica é em Direito e Gestão Pública. O que foi incorporado desses saberes na sua produção literária?
RODOLFO G. NEVES – Em “Eles, Outros Contos e Poemas”, há um conto bem antigo sobre concurseiros, onde acontecem coisas um pouco surreais quando a luz apaga durante uma aula noturna de revisão, um “madrugadão”. É algo que não existe, mas que poderia existir. Eu mesmo estudei muito para concurso e fui aprovado em alguns. Minha vida de servidor público influenciou o conto “Talentos Entre Escaninhos”, a partir de uma observação da estrutura de poder numa estrutura burocrática. Em “A Dinâmica Orgânica”, aproveitei minha formação em Direito para tipificar os crimes daquela sociedade do futuro. Também me inspirei na estrutura hierárquica de um órgão público, tendo um Diretor, um Supervisor, um Supervisor Assistente e o “peão” que vai fazer o trabalho. Eu trabalho em um Tribunal, então tem o Desembargador, o Juiz… uma hierarquia muito forte. Eu nem conheço nenhum Desembargador porque sou alguém da baixa burocracia, não sou nem do segundo escalão. Já fui Diretor por um ano e nove meses, no núcleo de auditoria e prestação de contas. Fiquei doente por um período e pedi para sair. Voltei como Supervisor de licitações e contratos. Você já viu “The Corporation”? É um documentário sobre o comportamento de organizações, como empresas. Há uma comparação entre os traços de uma empresa que só visa o lucro com os de uma pessoa. E essa empresa, se fosse uma pessoa, seria um psicopata. Cita empresas que geram danos ao meio ambiente, empresas cujos produtos causam câncer. Fazem seus cálculos e decidem que é melhor gastar com indenizações do que fazer um recall do produto, por exemplo. A sociedade luta contra isso, tem a figura do garantismo do poder judiciário, que com defeitos ou não, é o último recurso que nós temos contra essas forças. O constitucionalismo, os direitos, o garantismo, todas essas coisas, não podemos abrir mão de jeito nenhum. Se não houver controle, o check-and-balance, se entregar o controle a uma casta de pessoas, não vai dar certo. Eu trabalho com controles internos na administração pública, eu sei como funciona. Isso também me inspirou. Se não houver controle, as coisas degeneram, começam a falhar, vira uma luta contra a entropia. No livro, tem uma fala dos habitantes do mundo livre: “nós já somos um organismo, mas os alemães levaram a sério demais” [Nota: na trama, a atual Alemanha é um dos países que passaram pelo processo de Dinâmica Orgânica]. São como glóbulos brancos em nosso organismo, temos instituições como o Judiciário, o Ministério Público, a Polícia, as ONGs… temos órgãos de defesa da sociedade lutando contra um impulso natural de acumulação, de destruição, um impulso predatório do capitalismo, uma força entrópica do ser humano. Infelizmente, chamam o servidor público de “parasita”. Parece que não sabem o que o mercado financeiro faz com a sociedade, muitas vezes gera riqueza sem produzir nada e fica na mão de poucos, concentra. É um parasitismo danado.
DA – Como se os especuladores não fossem parasitas…
RODOLFO G. NEVES – Especulador, um cara que está com dinheiro em Xangai, depois manda para Nova Iorque, trocando dinheiro, não produziu nada. Como no filme “Wall Street” (1987), em que o pai, que era dono de uma empresa pequena, fala para o filho: “Eu produzo, não vivo trabalhando com isso de mercado financeiro”. Existe um impulso natural de as pessoas quererem acumular, tem coisas muito mais complexas em jogo. Esses instintos primitivos, se não forem domados, podem acarretar em algo muito sério no futuro. Tem exemplos na história em que não se podia contestar. Eu não quero viver em uma sociedade em que não se pode falar mal do Presidente. Claro que respeitando a integridade moral. Mas eu quero ter o direito de dizer: “Meu amigo, você está equivocado. Estamos numa pandemia, se reporte decentemente, você é um Chefe de Estado, tem que prestar contas”. Então, esses sistemas de defesas que nós temos, como auditorias, servem para frear esse impulso.
DA – No prefácio, você relata que a ideia central de “A Dinâmica Orgânica” nasceu de um debate com um professor de filosofia. No que a filosofia influencia a sua escrita? Quais as suas leituras nessa área?
RODOLFO G. NEVES – Nesse prefácio, eu relato que durante uma conversa com esse meu amigo professor aqui de Pernambuco, fazíamos um jogo de palavras sobre as ideias de Platão sobre o bom, o belo, o justo e o verdadeiro. Se tudo o que é bom é belo, verdadeiro e justo, o que seria uma sociedade boa? Seria uma sociedade em que uma minoria extremamente culta e inteligente domina uma casta de ignorantes e brutos? Em “A Máquina do Tempo” há o questionamento: “quem é você para questionar oitocentos mil anos de evolução?” Será que é nisso que vamos nos transformar? Em seres brutos trabalhando para seres ultra desenvolvidos? Eu quis mostrar os dois lados que a tecnologia pode nos oferecer, um bom e outro ruim. Isso é algo pouco mostrado na ficção científica, uma luta entre utopia e distopia. Dentre os autores que já li, tem Nietzsche, Schopenhauer, a Fenomenologia de Edmund Husserl, algo de Giovanni Reale.
DA – Quais as suas principais influências no romance, no conto e na poesia?
RODOLFO G. NEVES – No romance, Fiódor Dostoiévski, “Crime e Castigo” (1866). “O Castelo” (1926), de Franz Kafka, é fantástico. Um livro que me encantou muito foi “A Morte de Ivan Ilitch” (1886), de Liév Tolstói, até chorei com o livro. Confesso que já li livros de Dan Brown, não tenho preconceito com livros de aventura. “As Aventuras de Tom Sawyer” (1876), de Mark Twain. “O Grande Gatsby” (1925), de F. Scott Fitzgerald. “O Apanhador no Campo de Centeio” (1951), de J. D. Salinger. Machado de Assis com “Quincas Borba” (1892) e “O Alienista” (1882). Me influenciaram e me ajudaram a contar minhas histórias. Na poesia, o que eu li mais recentemente foi Hilda Hilst. Mas não tenho exatamente um poeta favorito. Estou lendo João Cabral de Melo Neto, “Morte e Vida Severina” (1955) e Ferreira Gullar, “Poema Sujo” (1976). São meus livros de cabeceira, chego em casa morto, mas leio alguma coisa antes de dormir. Paulo Leminski, acho muito interessante, li a antologia “Toda Poesia” (2013). Augusto dos Anjos, li toda a poesia dele. Aquilo me chocou bastante, é misterioso, é sinistro, eu gosto bastante. Lembrei de “Notas do Subterrâneo” (1864), de Dostoiévski, outro livro fantástico.
Rodolfo Guimarães Neves/ Foto: arquivo pessoal
DA – Cujo protagonista, aliás, havia sido um servidor público…
RODOLFO G. NEVES – Exatamente, ele é mesquinho, todo preocupado com o que os outros pensam. Olha, minha peça “Ressentimento” é sobre coisas que vi no mundo do serviço público. Há muito ressentimento no serviço público. Tem muita gente cuja vida se resume àquela função, só faz aquilo. Você precisa se realizar em outros meios. Eu já fui um pouco ressentido também, mas isso só me deu mais vontade de sair desse ciclo. Eu vi pessoas de órgãos que eu já trabalhei muito entristecidas, deprimidas, e não se sabe por que estão deprimidas. Deveriam fazer dança de salão, escrever poesia, participar de saraus… a vida não é só aquele meio burocrático.
DA – É muito alienante…
RODOLFO G. NEVES – Não me refiro ao meu setor, tem um pessoal maravilhoso lá. Mas as coisas a que a gente assiste, as notícias que chegam… uma mulher que se suicida porque não cumpriu a meta… um técnico que briga com um analista por causa de salário… Por que essas pessoas estão adoecendo no serviço público? Por que tanto ressentimento? Na minha peça eu abordo isso, esses ressentimentos e a forma de lidar com isso, de maneira um tanto ilusória.
DA – Você trabalhou em uma adaptação em quadrinhos de “A Dinâmica Orgânica”. Para (re)contar sua história e produzir um roteiro de HQ, quais os principais desafios em fazer essa transição entre a linguagem literária e a dos quadrinhos?
RODOLFO G. NEVES – É difícil. É um livro de trezentas páginas e chamei um dos melhores quadrinistas de Pernambuco, Pedro Ponzo. Eu acreditei tanto na história que pensei: “isso vai ser escrito e desenhado para que as pessoas entedam”. Essa transição foi difícil porque tivemos que fazer todo o roteiro da HQ, pegando as principais partes do roteiro do livro e verificando o que realmente valia a pena ser contado, concatenando os principais pontos. Muitas coisas foram cortadas, a revista acaba sendo bem mais pobre do que o livro, mas há um ganho no desenho, na arte. Eu participei desse processo de roteiro, além de escritor da história original também sou co-roteirista dos quadrinhos junto com Ponzo, que desenhou maravilhosamente bem.
DA – Em “Eles, Outros Contos e Poemas”, há uma epígrafe com citação de Clarice Lispector no qual ela se pergunta “para que escrevo?” Para que escreve Rodolfo Guimarães Neves?
RODOLFO G. NEVES – É uma necessidade. Uma vontade de contar uma história. Vem na sua cabeça uma história tão interessante que você pensa: “eu preciso cristalizar isso em um escrito”. Eu escrevo para me autorrealizar, fazer uma obra que impacte, que tenha potencial para transformar. Fazer, quem sabe, uma pessoa ver o mundo de uma forma diferente. Fazer as pessoas conhecerem a minha forma de ver o mundo, uma forma de comunicação. É um impulso que não consigo controlar, a vontade de contar uma história é muito grande. Pedro Bial fala que todo escritor deveria se perguntar se a história vale a pena ser contada. Todas as histórias que eu contei, eu considerei que valem a pena ser contadas, senão não teria escrito. Eu fiz o meu melhor e espero que o público goste.
* O romance “A Dinâmica Orgânica” e sua adaptação em HQ, a coletânea “Eles, Outros Contos e Poemas” e a peça “Ressentimento”, todos da Editora IGP, estão disponíveis na Livraria Imperatriz do Shopping Recife ou direto com o autor pelo e-mail rodolfogn@hotmail.com
Rogério Coutinho é oficial de comunicações de alguma nave estelar, de onde colabora eventualmente com Diversos Afins, transmite o Podcast Gramofone e emite notas sobre aleatoriedades no Twitter.
Assim começava minha autobiografia: Eu gosto das aves de rapina. Eu herdei da minha mãe esse gosto um tanto funesto. Mas, só há pouco tempo descobri que corujas são aves de rapina. Às vezes, na infância, durante a catástrofe, e naquele tempo quase tudo era catástrofe, frequentemente me pegava observando o voo das corujas. Não me lembro das coisas que passavam naquele corpo de criança, sem músculos e com tetas invisíveis, porque não sabia nomear e sentimento sem nome perde o rumo, os adultos se referiam àquelas horas como a época das tragédias. Não sabia o que aquilo significava até o meu corpo espichar e eu soar tão trágica quanto todos os adultos da minha infância. De repente me dei conta que os relógios não contavam horas, contavam desastres.
Mãe quando voltou de uma de suas internações recorrentes sentou ao meu lado e disse: eu também gosto do voo silencioso das corujas. Nesse dia tive minha primeira epifania (o nome descobri muito depois), percebi que não eram as corujas que me fascinavam, mas o silêncio das suas asas. Mais tarde percebi que não eram os homens que me despertavam paixões, era a escassez de suas bocas e uma certa convicção que saia delas. Mais tarde ainda percebi que o amor também chegava silencioso antes de abocanhar suas presas… Embora, de fato, talvez nunca tenha encontrado o amor. Contudo, um dia quase trombei com ele…
– Quando te vi chegar fui assaltada por um espanto.
– Eu gosto da palavra espanto, pode ser tanta coisa e não sendo nada ainda nos faz boquiabertos.
– Sim, essa palavra parece nome de animal selvagem.
– Quer uma carona? Talvez possamos fazer desaparecer o espanto, conversaríamos e nada mais nos espantaria.
– Vai em qual sentido?
– Para o norte e você?
– Para o sul.
– Sendo assim, já que iremos em direções opostas, podemos ir juntos.
– Não nos perderemos ou desviaremos do nosso caminho?
– Acredito que não.
– Tem certeza?
– Como poderia?
– Você fala com um tanto de firmeza.
– Na vida precisamos certa entonação, fingir alguma convicção, mesmo que nunca tenhamos esbarrado com ela.
– Não te parece muita arrogância seguirmos juntos se procuramos lados opostos?
– Nascer já não é uma arrogância?
– Quem sabe? Há um fantasma encarnado no ventre de cada mulher, por vezes, nos assombra.
– Se desenvolver dentro da segurança do ventre da mãe não te parece pura arrogância?
– Talvez um espanto…
– Os pássaros não te soam bem menos pretensiosos? Afinal, eles se desenvolvem na fragilidade do ovo…
– Também não há alguma arrogância no prenúncio do voo?
– Estamos numa bifurcação, acho que agora não é mais possível seguirmos juntos…
– Tem certeza? Não há nada a fazer?
– O que acha de dobrarmos o mapa?
– Dobremos o mapa.
Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979. Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Foi uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro, do canal Pílulas Contemporâneas e do projeto Pinot Noir Literatura. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” (ed. independente, 2009), “As mãos mirradas de Deus” (Multifoco, 2011) e “O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas” (Appaloosa, 2018). Entre os romances figuram “Mosaico de rancores” (Terracota, 2013) lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), “A Puta” (Terracota, 2014/Reformatório, 2020), “O enterro do lobo branco” (Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e “A casa das aranhas” (Reformatório, 2019), finalista do Prêmio Guarulhos e semifinalista do Prêmio Oceanos.
Do conceito
nasce a palavra
perdida, indefinida,
sintaticamente
inexistente.
Em vozes vertida
ganha uso, ganha vida,
desfaz e refaz
a sua morfologia.
Variável em geografia
mal atribuída
confundida
semanticamente
dependente.
Evocada por mestres,
Drummonds e Severinas,
enuncia e anuncia
a sua polissemia.
***
Endotérmica
Permita-me ser,
na discrição de meu canto,
este pequeno espanto
em velado e tímido pranto.
Aceita-me
na minha inteira delicadeza
no meu balançar modesto
na minha insonora leveza.
Deixa-me
embrenhar-me em meus versos
misturar-me às rimas
metrificar-me
até que eu lhes seja ímã.
Exponha-me
somente em palavras
quando eu não mais houver;
quando as sobras
de mim
forem brasas.
***
Corpo-linguagem
Ao mundo abstrato renuncio
para concretizar-me
em palavras.
A todos os deuses renego
para cultuar-me
entre linhas.
Costurei-me poesia
– sou inteira cicatriz.
Eu só existo
por escrito.
Sobrevivo
à flor do lápis.
***
Não quero cantar o medo, não quero cantar a morte. Não quero ser autora deste tempo e espaço. Não quero ser um retrato da época, a cair pelo mesmo buraco.
Quero um corpo transcendental, que exista e escreva d’outro lugar. Quero simular vidas de outrora. Quero narrar memórias de outrem. Quero apartar o tempo vigente da minha palavra inocente.
Quero ser a poeta dissimulada – e não esta (ao chão acorrentada).
***
Meu grito é gravado. Minha luz é elétrica. Planto flores de plástico. Tenho olhos envidraçados.
Meu cérebro tem radares, mas não sente, não reage. Fui cultivada in vitro.
Protótipo da humanidade, sou projeto aplaudido.
***
Às vezes penso que a vida acontecia antes.
Comecei tomando diariamente algumas doses de tempo passado, de forma a anestesiar o presente. Notei que, à medida que as engolia, os membros do corpo lentamente adormeciam. Fui perdendo minha habilidade tátil. Meu olhar passou a beirar pelas laterais, as pálpebras semicerradas. As memórias resistiam e se derramavam, paralisando cada órgão. Um minuto a mais e eu me desacontecia.
Hoje, inebriada de passado, sou apenas uma lembrança ambulante, sonâmbula. Não há mais um corpo presente para morrer. A vida já aconteceu.
Bruna Salgado Baldez nasceu em 1992, é natural do Rio de Janeiro (RJ) e reside em São Paulo (SP) desde 2019. É graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em Língua Portuguesa pelo Liceu Literário Português, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atua como preparadora e revisora de textos na Universidade Paulista (Unip). É autora do livro de poemas “Armadura lírica”, recém-publicado pela Editora Patuá (2021). Participou da Antologia “Ruínas” (Ed. Patuá, 2020), foi selecionada no Prêmio Poesia Agora Outono (Ed. Trevo, 2019) e premiada no 1º Concurso Literário AMCGuedes de Poesias e Contos (Ed. AMCGuedes, 2015).
A teoria da felicidade é o sétimo livro de Kátia Borges, primeiro de crônicas, publicado no final de 2020 pela Patuá. O livro ideal para uma hora tão desidealizada como a da pandemia em que todos nos metemos e não sabemos como sair. Mas o que à primeira vista pode parecer algo escrito com tino comercial para a sobrevivência nesse contexto, é na verdade fruto de alguns anos de exercício semanal da autora na crônica, conforme podemos acompanhar no jornal Correio da Bahia.
Quem conhece a poesia de Kátia, reconhece seu estilo, temas e atmosfera. E até pode confundir alguns dos textos com poemas – o que não seria errado, já que a crônica é um gênero eminentemente fronteiriço e híbrido, misto de jornalismo, literatura, memorialismo, comentário e, entre os melhores, poema em prosa. E o Brasil a elevou ao estatuto de arte no distante século XX, com nomes de peso praticando-a, de João do Rio a Drummond, passando por Bilac, Bandeira, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e Rubem Braga. Nas últimas décadas, quando o pragmatismo neoliberal assumiu nossos desejos mais íntimos, a crônica perdeu espaço nos jornais para o artigo de opinião, transbordando sangue nos olhos, urgência político-institucional e descartabilidade crítica, tão típicas do nosso tempo de iscas para o agressivo debate público.
Daí eu sentir uma profunda lufada de ar fresco durante a leitura da A teoria da felicidade. A promessa do título se cumpriu à risca e abriu uma janela na sufocante quadra em que vivemos. A “teoria” anunciada se faz na contemplação e observação (do grego, “theoría”) lançada para os minúsculos instantes que só notamos se suspendemos o fluxo ininterrupto do tempo e detemos nosso olhar na captura dessa felicidade. Logo em seguida perdida.
É, portanto, do tempo que Kátia fala. Não do “nosso” tempo, da nossa “contemporaneidade” compartilhada, mas do que há de contemporâneo a todos os tempos, entre todos os tempos. Aquele átimo de poesia que a fotografia consagra nos instantes eternizados. Kátia os captura pelas palavras, transformando-os em imagens. Em crônicas. Em poesia.
Há qualquer coisa de fragmentário nessas imagens escritas. São mesmo fotografias, não filmes. Em vários fragmentos, percebo Kátia costurando assuntos como quem caminha pelo centro de Salvador, não com o objetivo de chegar a qualquer lugar que a coloque à salvo e em melhor posição (impossível nessa cidade), mas desejando se equilibrar (física e emocionalmente) em meio ao violento giro das informações, das vozes, da memória e dos acontecimentos. Numa única crônica, os assuntos se sucedem com inteligente fluidez, sem qualquer pretensão a esgotá-los, ensiná-los ou dar lição de moral crítica. A quem assim deseja, ela apenas diz, no início de “As pequenas vilanias do cotidiano”: “Entrego a vocês a nobre missão de tomar conta do planeta. Fiquem com ela, resolvam todas as pendências seculares, revolvam os arquivos e os acervos, estabeleçam um novo cânone. Se preciso, lutem para subir algum pódio imaginário. Reservem espaço em suas estantes para expor os troféus colecionados, providenciem um armário com muitos cabides para o alinhamento das medalhas”. A poesia de suas crônicas está em fazer do fragmento a melhor forma para representar a felicidade que jamais se realiza por completo. É como se Kátia soubesse que conquistar completamente a felicidade arrisca a se confundir com o show de autoritarismo que presenciamos crescentemente. Por isso, apenas fragmentos de felicidade. Essa, sua teoria. E prática.
Por isso, também, certa melancolia nessa teoria. Tristeza mesmo, pois “para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”. Aquele tipo de nostalgia do perdido que faz da memória lugar privilegiado das crônicas (de Cronos, desnecessário lembrar) que dizem da passagem do tempo. E as memórias fazem desses textos de Kátia solo ideal, alternando o que há de pessoal, geracional e cultural, às vezes misturados a ponto de não conseguirmos discerni-los muito bem. Exemplares são “Sobre a fragilidade da esperança”, “Uma menina vinda de Marte”, “A aerodinâmica dos pássaros”, “A nostalgia, esse demônio”, “Felicidade a gente aprende; é preciso treino”, “O casaco esquecido de Janis Joplin”, “Na malinha do meu coração”, “O grande circo lírico”, “Sobre andar em silêncio”, “Dez coisas a fazer quando se está exausto”, “Civilidade e inutensílios”. Todos recheados de referências pessoais, coletivas, literárias, musicais e cinematográficas. E em tom distante do pedagógico, mas próximo do afeto reflexivo. Como é típico seu.
Nosso mundo – e não me refiro apenas à Covid ou ao sujeito que ocupa a presidência (eles são os últimos avatares de um longo processo) – tornou-se refém da ação produtiva e do desempenho performático. Ambos misturam no mesmo gesto trabalho e consumo e os mascaram como política e cidadania. Daí que ler alguém capaz de parar, olhar, pensar e escrever sobre isso com delicadeza, inteligência e comprometimento é coisa rara – ao menos para mim, e para quem fez das redes sociais seu habitat na última década.
Na crônica que dá título ao livro, Kátia apresenta-nos a teoria da felicidade de Albert Einstein. Ele teria escrito um bilhete a um camareiro do Hotel Imperial de Tóquio dando um conselho: “uma vida calma e modesta traz mais felicidade do que a busca de sucesso e a inquietação constante”. O bilhete fora dado como uma espécie de gorjeta ao camareiro e depois vendido por 1,5 milhão de dólares por seus herdeiros. A seguir, Kátia passa aos conselhos que Rainer Maria Rilke dá ao jovem Franz Xavier Kappus para que se torne poeta: “confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever?”. Depois dos dois exemplos famosos de conselheiros, a autora apresenta-se como “conselheira compulsiva” e dispara o seu: “‘Cabeça erguida, sempre’, dizia minha mãe, diante de qualquer derrota”. Escrevendo com calma e modéstia, Kátia Borges reúne os conselhos de seus dois ilustres personagens e nos dá a melhor síntese do que é seu próprio livro: calma em tempos inquietos e modéstia em tempos soberbos são os ingredientes de uma escrita capaz de formular a teoria da felicidade possível nesta nossa época derrotada.
Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.
Um autor é esse ser que engendra mundos a partir do mundo, mobiliza cenários, personagens e narrativas capazes de corresponderem aos desígnios da palavra gestada. Aquele que tece histórias, posto que é observador, cúmplice ou até mesmo o que vive as situações transpostas para o texto que brota do branco, por vezes angustiante, duma página nascente.
Mas eis que escrever pode ser resistir ou capitular, como disse certa feita o escritor Julián Fuks aqui pelas bandas da revista. Quiçá para muitos seja ímpeto de uma espécie de sobrevivência que intenta suplantar os efeitos da realidade em nossas vidas. Pode ser enfrentar antigos e comezinhos fantasmas, mergulhar em outras personas ou simplesmente inventar tudo a partir do absoluto nada. Pode ser um desejoso exercício de liberdade, instância em que criadores abandonam certos fardos que atravessam suas trajetórias pessoais. Indo mais além, talvez escrever não careça mesmo de explicação alguma.
Alguns escritores acendem em nós uma instigante vontade de compreendermos um pouco dos seus processos criativos. Nesse ínterim, importam tanto aspectos ficcionais quanto aqueles que guardam alguma correspondência com a explosão da chamada vida real (se é que podemos classificá-la assim). Um autor como Renato Tardivo nos provoca, com sua obra, a pensarmos um pouco sobre tais questões, sobretudo no território das experiências que podem servir como alimento às narrativas materializadas em livro.
Tendo na bagagem os livros de contos “Do avesso” (Com-Arte/USP) e “Girassol voltado para a terra” (Ateliê), o momento presente reserva a Renato o experimentar dos desdobramentos tidos com seu primeiro romance, “No instante do céu”, recentemente lançado pela editora Reformatório. Em seu novo rebento, o escritor chama atenção para alguns sintomas de nossa contemporaneidade, principalmente aqueles que perpassam o território complexo das relações afetivas. Com sua narrativa ágil e que dialoga com uma espécie de legado das memórias, a temática do amor aparece marcada pela própria noção da instabilidade do sujeito diante da compressão tempo-espaço e de outros fatores mais.
Renato Tardivo também é professor colaborador do Instituto de Psicologia da USP e atua como psicanalista. De forma bastante gentil e atenciosa, ele acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre seus caminhos literários, especialmente aqueles relativos ao novo livro, além de refletir em torno de algumas questões que também implicam num breve olhar sobre o mundo. O resultado do diálogo ganhou substância e corpo na entrevista que agora segue.
Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal
DA – “No instante do céu” apresenta uma estrutura que chama a atenção logo de imediato. São três instâncias narrativas que se entrecruzam, embora em tempos de ocorrência distintos, e que se prestam a dar corpo e ritmo ao romance. O que dizer dessa escolha?
RENATO TARDIVO – Eu vinha perseguindo a escrita de um romance já há algum tempo. Mas as narrativas terminavam em conto ou novela – e foram publicadas (o conto “Silente”, do livro de mesmo nome, em 2012, e a novela “Castigo”, que saiu em e-book, em 2015). Uma das instâncias narrativas de “No instante do céu”, em sua primeira versão, foi escrita antes das demais, também com o intuito de resultar em romance. Quando a concluí, notei que poderia ter no máximo uma novela – e nada contra esses gêneros, muito pelo contrário, mas queria mesmo experimentar o romance. Daí, aproveitei um aspecto dessa primeira instância (de onde aquele narrador em segunda pessoa escreve e revisita suas memórias, no presente, no instante da escrita) e mergulhei nesse outro tempo, desenvolvendo uma segunda instância. Concomitante a isso, já que seria um livro fragmentado, intuí que o eixo das redes sociais e mesmo a inclusão de textos literários produzidos pelo narrador (que também é escritor) poderiam fazer parte dessa unidade fragmentada que, entre outras coisas, tematiza separações, atravessamentos entre biografia e ficção e o próprio tempo.
DA – A ideia de fragmentação, por sinal, é muito associada às experiências que vivemos hoje, sobretudo no terreno da interação através das mídias sociais. E você lança mão desse recurso no livro, quando, por exemplo, insere na narrativa conversas de whatsapp. Acredita que, numa era influenciada pelo excesso de informações e outras tantas urgências, a noção de sujeito aparece desestabilizada sob o ponto de vista emocional?
RENATO TARDIVO – Creio que sim. Há, por um lado, o excesso de informações, as muitas janelas, o tal encurtamento das distâncias, mas, por outro, via de regra majoritário, a desimplicação dos sujeitos, a banalização das experiências, algo que talvez seja, a um só tempo, causa e consequência dessa desestabilização emocional a que você se refere. Nesses tempos pandêmicos, aliás, temos vivido essa tensão como nunca, não é? Retornando, então, ao romance, acredito que a fragmentação da narrativa, aí incluídas as interações via mídias sociais, se insere tanto na crise que o narrador vivencia – ele se fragmenta – como também em seu processo de reconstrução. Ir encontrando esse narrador à medida que escrevia o livro foi uma experiência bastante interessante. De certo modo, o narrador procura ir contra a corrente, quando tenta inserir comunicações autênticas, carregadas de afeto, em postagens de Facebook ou mensagens de WhatsApp, por exemplo. Há nesse movimento uma procura por diálogo, tanto que ocorre uma inversão importante para a trama ao final, envolvendo a instância narrativa das mídias sociais… Mas se falasse mais a sobre isso, daria spoiler.
DA – É no entrelaçamento das memórias que o seu romance encontra uma boa medida para seu fluxo e encadeamento. Isso sugere uma provocação, qual seja a de vislumbrar como lidamos com nossos sentimentos no território volátil das lembranças. Podemos supor que o sujeito contemporâneo é este ser que vai se dissolvendo diante das situações vividas e das traições da memória?
RENATO TARDIVO – Obrigado pelo comentário sobre o fluxo e o encadeamento do livro, bem como sobre a provocação que a narrativa pode sugerir. E talvez haja aí um paradoxo interessante: o fato de nos constituirmos no território volátil das lembranças implica o reconhecimento dessa circunstância, de modo que possamos desenvolver recursos para lidar com isso sem que nos dissolvamos. A noção do “instante do céu”, esse tempo que já não é, mas por meio do qual as relações se estabelecem, também toma essa direção. De resto, o reconhecimento das traições da memória é, também, assumir que a vida em certa medida se constitui enquanto ficção. E isso não significa que biografia e ficção devam ser tomadas uma pela outra, o que seria muito problemático, mas que a mera oposição entre os dois registros é tão problemática quanto.
Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal
DA – Pensar autobiografia e autoficção, por exemplo, sempre rende debates nada pacificados. Acredita que as fronteiras que perpassam tais termos são bastante tênues e ao mesmo tempo problemáticas?
RENATO TARDIVO – É isso. Há quem afirme que toda ficção é sempre uma autoficção. Analogamente, há quem diga que toda biografia se constitui enquanto ficção. A obra cinematográfica de Eduardo Coutinho, que venho pesquisando nos últimos anos, é um prato cheio para encaminhar essa questão. Seus documentários, sobretudo a partir de “Santo forte” (1999), parecem transmitir a impossibilidade de se filmar a verdade. O que se pode tentar fazer, dizia Coutinho, é explicitar a verdade da filmagem. No filme-ensaio “Jogo de cena” (2007), ele levou esses questionamentos ao limite, por meio da própria linguagem do cinema. Creio que o mesmo vale para a discussão sobre autobiografia, biografia, autoficção e ficção. Devem-se respeitar as fronteiras – há, evidentemente, especificidades entre os gêneros -, mas mesmo a mais respeitosa biografia (ou autobiografia) passará pelo filtro de quem a escreve. E se toda apreensão da realidade é atravessada pelo ponto de vista, pelas fantasias, em suma, pelo lugar de quem a apreende, sempre haverá algo de ficção no processo. Da mesma forma, toda ficção guardará em alguma medida correspondências com a realidade material, histórica, de quem a cria. Talvez por isso eu procure trabalhar os mecanismos de construção da minha ficção no âmbito dos próprios textos. “Ah, mas isso de metalinguagem já está tão batido”, dizem alguns. Eu tenho cá minhas dúvidas quanto a isso.
DA – Sua lembrança em torno de Eduardo Coutinho é bastante pertinente. No documentário “Santo Forte”, por exemplo, o cineasta tem uma sacada genial sobre como representar depoimentos que narram manifestações espirituais ocorridas em alguns lugares. Ele simplesmente filma os ambientes vazios, ou seja, sem a presença humana, onde tais fatos ocorreram. E isso não deixa de ser uma provocação sobre a representação da verdade em situações que demandam um suporte imagético aos relatos que estão sendo expostos diante de lembranças debruçadas sobre o intangível. Essa, digamos assim, saída pela linguagem é reveladora tanto para o cinema quanto para a literatura, não?
RENATO TARDIVO – Concordo com você, ainda mais no cinema que Coutinho praticava, um “cinema de conversa”. A cena antológica do quintal, em “Santo forte” (1999), é a filmagem do invisível. Não por acaso esse filme marca o início da última e, para mim, mais interessante fase da obra dele – evidentemente, não podemos desconsiderar filmes excelentes anteriores a esse período: “Cabra marcado para morrer” (1984), a propósito, é um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro de todos os tempos. Mas, de fato, esses momentos de silêncio são muito reveladores. A sequência final de “Peões” (2004) – quando após alguns intermináveis segundos de silêncio o entrevistado, Geraldo, emerge de uma espécie de poço de angústia e pergunta, triunfante, a Coutinho: “Você já foi peão?” – também toma essa direção. O plano final (um contracampo) de “Jogo de cena” (2007), idem. No caso da obra de Coutinho, tratava-se de uma combinação entre uma série de contingências que ele se impunha na filmagem e um sofisticado trabalho de montagem. O efeito que ele buscava era a descoberta de “personagens reais”. Acredito, dessa forma, na potência da linguagem, como dizia Merleau-Ponty, enquanto silêncio: a palavra que diz ao renunciar a dizer as coisas mesmas. Essa potência indireta e alusiva da linguagem tem a ver com a renúncia de Coutinho a filmar da verdade e pela opção pela verdade da filmagem, ou seja, por abrir-se ao novo, ao inesperado, à alteridade radical, cuja apreensão, no limite, é impossível. É nesse sentido que acredito na potência – poética e expressiva – da metalinguagem também na literatura.
DA – Na sua avaliação, tendo em vista o panorama contemporâneo de superexposição da intimidade em que o público e o privado aparecem um tanto diluídos entre si, a figura do autor foi bastante redimensionada?
RENATO TARDIVO – Uma coisa é a diluição do público e do privado; outra, atentar para sua correspondência, suas especificidades e seus limites. Há uma passagem do meu livro em que o narrador transcreve e-mails que seus pais, personagens do romance, teriam lhe enviado. E no mesmo capítulo o narrador diz algo como nem essa troca de mensagens se pode garantir que ocorreu. Quer dizer, enquanto autor, eu estava interessado em exacerbar as ambiguidades entre realidade e ficção, e não em diluí-las. Cristovão Tezza, em “O filho eterno” (2007), e Michel Laub, em “Diário da queda” (2011), para citar apenas dois casos, construíram narradores sólidos, consistentes mesmo, em romances que vieram para ficar. Nesse sentido, o redimensionamento em curso da figura do autor tem menos a ver com a (ou o que se costuma chamar de) autoficção, e mais com a volatilidade das experiências, o trânsito banalizado entre o público e o privado, a vaidade, a necessidade do mercado em eleger o autor ou a autora da vez, para no ano seguinte ninguém mais se lembrar deles, enfim, tendo a pensar por aí…
DA – Em alguma medida, a sua vivência com a psicanálise auxilia seus processos de criação literária, principalmente no que se refere a pensar personagens e comportamentos?
RENATO TARDIVO – Eu diria que ocorre o oposto: é a minha vivência com a literatura que me auxilia na psicanálise. Nunca me inspirei em um paciente para a criação de uma personagem e sequer preciso me autocensurar nesse sentido: simplesmente não é da clínica que me vem a inspiração literária. São meus fantasmas, os vínculos de minha vida pessoal, enfim, o olhar voltado para dentro e para fora, é daí que surgem minhas tramas. É certo que o sigilo e os cuidados que envolvem a relação tão específica entre terapeuta e paciente contribuem para que eu não faça da clínica uma espécie de laboratório para as minhas narrativas. Mas é, também, inegável que a influência da psicanálise em minha forma de ler o mundo, a cultura, de me ler, enfim, está presente na minha literatura. E isso é meio intuitivo, quase automático – não paro para arquitetar uma trama psicanaliticamente orientada. Por outro lado, a inspiração e sensibilidade literárias, nas condições de leitor e autor, atravessam a minha escuta na clínica, minha forma de ler e procurar compreender o ser humano. Tentando resumir: não parto da psicanálise à literatura, mas da literatura à psicanálise.
DA – O mundo como está hoje lhe causa mais desassossego?
RENATO TARDIVO – Sim, causa muito desassossego, medo, angústia. Mas, por outra perspectiva, estamos vivendo um momento que demanda – e propicia – a introspecção, a reflexão. Caso consigamos suportá-lo, o desassossego pode justamente ser canalizado para a ampliação de representações e para a criatividade. Apesar de tudo, tive um 2020, em isolamento, muito produtivo. Vou citar de novo Merleau-Ponty: “toda tentativa de elucidação traz-nos de volta aos dilemas”. Se encaminharmos o desassossego nessa chave, enfrentando os dilemas e encontrando novas formas para encaminhá-los, então teremos aprendido algo com essa experiência tão dolorosa que estamos atravessando.
Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal
DA – Seria insuportável conceber a realidade sem a Arte?
RENATO TARDIVO – Acredito que sim, como de resto seria insuportável – e mesmo impossível – o contato com a realidade sem mediações. Podem-se incluir aí a religião, o entretenimento, a prática esportiva, enfim, são muitas as modalidades a que podemos recorrer para que a vida seja suportável – e possível. O que me parece central nesse aspecto são a qualidade das escolhas e a sua pertinência de acordo com as especificidades de cada pessoa. É comum ouvir que há quem busque nas artes um respiro. Eu tendo a achar bastante válida essa busca. Mas a questão é: respirar que ares? Nesse ponto, as artes me interessam porque promovem reflexão, movimento, pensamento, e não alienação. Então, se por um lado as artes podem anestesiar um pouco a porrada que é a vida, elas podem também, colocando-nos em contato com a dor, ser um atestado de que a porrada às vezes é suportável e – por que não? – desejável. Sem essa dialética, a realidade seria, sim, inconcebível.
DA – O Renato Tardivo que agora publica seu primeiro romance é muito diferente daquele que construiu seus outros livros de contos?
RENATO TARDIVO – Com certeza é diferente. Cada livro tem sua história e seu tempo próprios. O primeiro, “Do avesso” (Com-arte/USP), que ficou pronto em 2010, reúne contos escritos nos anos anteriores, bem como alguns produzidos já para o projeto do livro. Mas a experiência com a sua repercussão foi fundamental para que eu tomasse contato, ali, com o nascimento de um escritor. De lá para cá, houve um amadurecimento natural. Desse amadurecimento é que surgem os narradores, as tramas e as experimentações com a linguagem. Nesse sentido, sou hoje bastante diferente do que era quando escrevi os primeiros livros. Há, no entanto, temáticas que me acompanham desde o início e que procuro encaminhar de formas diferentes. Em um dos livros mais importantes da minha vida, “Lavoura arcaica” (1975), de Raduan Nassar, lemos que se pode “de uma corda partida, arrancar ainda uma nota diferente”.
DA – Afinal, por que escrever?
RENATO TARDIVO – “Não sei”, eu poderia começar respondendo, e constato que já comecei respondendo dessa forma, não é? Ocorre que esse “não sei” não significa que não haja motivos importantes para escrever e seguir escrevendo. Posso ter, no mínimo, algumas pistas sobre esses motivos. Descobri a necessidade de escrever na mesma época em que a leitura deixou de ser algo maçante (como era durante boa parte da minha vida escolar) para se tornar, além de necessária, prazerosa. A partir daí, creio que retornamos à linha traçada pela pergunta sobre o mundo sem as artes ser insuportável. Escrever é uma forma de me manter vivo. Como já ouvi de Raduan Nassar algumas vezes, ao comentar sobre o tempo em que escrevia, a literatura era uma espécie de “tábua de salvação”. Eu me identifico com essa perspectiva. E, se essa “tábua de salvação” fizer sentido a outra pessoa, a uma outra pessoa que seja, é porque houve diálogo, correspondência. E isso é vida. Agora, se essa forma de sobrevivência (escrever ficção) vale a pena, vou recorrer de novo a Raduan. Em uma de suas raras aparições públicas, na Balada Literária de 2012, organizada por Marcelino Freire em São Paulo, da qual Raduan era o autor homenageado, perguntaram da plateia: “Valeu a pena escrever?”. Raduan fechou os olhos, pareceu buscar a resposta dentro de si e, após alguns segundos de silêncio, disse resignado, voltando-se ao homem que havia feito a pergunta: “Não sei”.
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
Vencedor do Festival de Brasília de 2019, com vários prêmios em festivais internacionais, A Febre, filme de Maya Da-rin, infelizmente não pôde ser assistido nos cinemas brasileiros por causa da pandemia. Infelizmente porque ele é a prova de como uma obra de arte é capaz de premonição, de absorver imperceptíveis sinais de perigo e traduzi-los em imagens significantes. Filmado antes do período pandêmico e concebido há mais de uma década, o filme trabalha com a ideia de uma misteriosa febre que ocorre na cidade de Manaus. Essa febre ressoa no recente desastre sanitário do Coronavírus e a catástrofe das mortes sem atendimento na capital amazonense, bem como da variante da doença gerada na cidade.
O protagonista do filme é Justino (vivido pelo ator Regis Myrupu), de origem indígena da nação dos Tukanos, que trabalha como vigilante no cais das docas do grande porto de Manaus. Justino abandonou sua aldeia há muitos anos, é viúvo e tem uma filha, Vanessa (vivida por Rosa Peixoto), que é enfermeira e sonha em estudar medicina numa universidade pública. Vanessa passa no Enem para a UNB e está feliz com a possibilidade de estudar em Brasília. Deixará então sozinho seu pai com quem mantém forte relação de afeto. Logo após receber a notícia que sua filha passou no Enem, Justino passa a apresentar sintomas de uma misteriosa febre que não encontra diagnóstico. Paralelamente, a cidade de Manaus testemunha misteriosos ataques de supostas feras sobre porcos e outros animais domésticos. Alguns acreditam serem ataques de cães selvagens.
A proposta de ver além do que aparece está inscrita na própria concepção do filme. “O homem branco só consegue ver o que está diante dos seus olhos” é a ideia que faz mover o roteiro. O filme tem forte componente alegórico que contrasta com a descrição realista do cotidiano de Justino em suas idas e vindas de ônibus do trabalho. Mas a característica alegórica busca um efeito de tradução entre mundos incomensuráveis, não só aqueles entre brancos e indígenas. Logo na primeira cena do filme, Vanessa, filha de Justino, atende uma paciente indígena idosa num hospital público. A senhora lhe conta uma história em linguagem tukana que é incompreensível tanto para Vanessa como para os espectadores. Vanessa fala a língua geral tucana, mas essa nação tem muitos dialetos que são estranhos uns aos outros. Trata-se de uma nação de povos diferentes, enquanto os homens brancos veem apenas uma unidade étnica de “índios”.
Regis Myrupu no personagem de Justino / Foto: divulgação
Para traduzir as imagens entre mundos diferentes, a diretora Maya Da-rin se utiliza da força da fábula alegórica. Vemos Justino, também em fala tukana traduzida para a língua portuguesa em legendas, contando uma história para uma criança indígena. A fábula conta de um sonho em que um homem branco se perde na floresta e não consegue encontrar saída. Um casal de macacos então lhe aponta o caminho para o retorno à cidade. Como todo sonho, a história não fala apenas do progressivo desenraizamento de Justino, que na cidade grande vai perdendo o contato com o mundo da floresta. A narrativa também lhe vem como um presságio, como veremos adiante, e como o próprio “fio de Ariadne” que lhe permite se orientar nos labirintos formados pelas fronteiras. Como diria o doutor Freud, todo sonho é a realização de um desejo.
Na montagem de A Febre são figuradas várias fronteiras: a fronteira entre brancos e índios, a fronteira entre línguas, entre cidade e floresta, entre sonho e vigília, entre narrativa oral e linguagem cinematográfica digital. É, por assim dizer, um filme fronteiriço, e uma de suas principais virtudes é permanecer na habitação dessas bordas, simuladas ao enquadramento da câmara. Uma dessas fronteiras figuradas é a do vestiário do cais do porto, onde Justino tira o uniforme e troca de posto com um colega. Este é um segurança branco que chegou de Rondônia e tem enorme preconceito de índios. Debocha de Justino chamando-o de “índio amansado” e diz que já enfrentou e matou muitos “índios de verdade” em seu trabalho anterior. No vestiário, encena-se então as divisões entre o branco racista e o índio oprimido, entre o dia e a noite, entre o trabalho e a folga e entre a lei e a criminalidade. O trabalho de Justino não lhe exige muito. Ele se mantém em vigilância como um “caçador sem caça”, como ele mesmo diz. Mas muitas vezes, com a falta do que fazer, Justino cai no sono e então sonha, configurando então mais outra fronteira entre a vigília e o sono e entre a alienação do trabalho e a polissemia oracular do sonho.
E nas várias cenas de retorno de Justino do seu trabalho, num ônibus lotado, descobrimos que ele mora na fronteira da fronteira de Manaus. Para chegar em sua casa ele atravessa uma pequena mata a partir da estrada, traçando a mais importante de todas as divisas figuradas pelo filme: aquela entre a cidade e a floresta. Sua casa, que tem um quintal bucólico onde Justino pode ficar “à vontade” sem camisa, se localiza justamente entre o meio urbano e o meio rural. A floresta é o “outro lugar” que se estende além da vista e onde o homem branco se perde por não conseguir enxergar através de sua intrincada complexidade.
A Febre / Foto: divulgação
No roteiro, dois eventos cruzam essa fronteira nebulosa. Um deles é a visita do irmão de Justino e de sua companheira. Eles permaneceram na comunidade indígena e se mantêm ligados às suas tradições. Há um mal-estar familiar de que Justino deixou para trás sua comunidade para viver no mundo dos brancos. Eles trazem uma visão estrangeira (para o filme e para a cidade) que é crítica, mas também compreensiva: seu irmão percebe com agudeza o dilema de Justino entre a felicidade por sua filha passar no Enem e a melancolia pela solidão que o espera. O segundo evento se refere aos misteriosos ataques de feras a animais domésticos. Essas feras são animais da cidade como cães ou animais selvagens da floresta? Essa fantasmagoria atravessa a fronteira entre o realismo da narrativa cinematográfica e o imaginário onírico da fábula.
No final das contas, é a capacidade de olhar para além dessas fronteiras que decidirá o dilema de Justino. Essa capacidade exige a sabedoria de reconhecer e decifrar as mensagens desconhecidas que vêm do outro lado. Entre os mundos incomensuráveis não há apenas uma linha, mas uma faixa ou zona de passagem. Interpretar nas entrelinhas significa a capacidade de entender a linguagem do outro ao deixar suas marcas exatamente nessa zona de passagem. A febre é assim a metáfora maior das várias linhas divisórias que o filme apresenta e que se bifurcam: ela abre o espaço emaranhado de coexistência entre a sentinela e o sono e entre o imaginário e a corporeidade. A febre é o sinal de alarme que oscila entre a doença e a saúde. Se é verdade que a palavra “filme” se referia originariamente à pele de animal, a película de A Febre expressa a pele de um corpo febril, o da obra. Na cena em que Justino atravessa o sinuoso rio de igarapés, raízes e cipós e desembarca na outra (terceira?) margem, a câmera se mantém na pequena canoa enquanto o personagem se distancia pela floresta. A grande virtude do filme de Maya Da-rin é sua decisão por habitar e permanecer nessa zona febril, o que faz de seu enredo um tecido entrelaçado de ideias e imagens, uma floresta impregnada de sinais, premonições e augúrios.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.