De aço e seixos são meus lábios.
Misturo-os com os lábios do homem-mulher
e da mulher-homem
Giramos na mesma rotação até rompermos
o que de mais precioso possuímos
Então a miséria nos suspende
O amor se espalha em nosso sangue
e segreda: não se imobilizem
Daí a luz entra e já somos outros:
subterrâneos para os subterrâneos
translúcidos para a ternura
A coragem se mostra entre plátanos e feras
(na estranheza a bondade ancora)
[…]
A verdade é mesmo só um grão nunca visto?
[…]
Sonhei com o céu azul em meu ombro
e nele o meu rei estava
Suas árvores e seus segredos agora são meus
Tudo dele irradia e sobrevive em mim
Aonde ele foi?
Aonde irei?
Nenhum e todo lugar te espera
diz o meu coração enquanto se entrega
ao enigma mais distante
[…]
À luz de spots pavões esperam, o desejo lateja
Seivas de dríades deslocam-se
Na ilha de Circe, redefino-me
Em páginas secretas escrevo o que me golpeia:
terra e céu clareiam quando me esqueço
terra e céu agonizam quando te esqueço
Ouço os olhos do silêncio:
aquela mulher te ama porque te quer míssil
aquele homem te ama porque te quer pântano
Mãos imperfeitas libertam sépalas
Mulheres mancas e macias espraiam-se em areias remotas
Elas sabem: nada terá tido lugar senão o lugar
Em amor, território primeiro e último, vigio a morte
Ergo-me queimada entre campânulas
e restos de êxtase trazem-me de volta
(aprendi a deixar nascer as coisas)
[…]
Depois procurar o céu e exigir uma saída
para este país de sol e morte
Eis que com a tempestade a delicadeza surge
e guarda em cântaros de aço palavras como
pélago, guirlanda, alabastro
À noite lembro que a poeta Liu Xia
continua presa e seu homem amado está morto
lembro que Marielle está morta
e permanece sendo assassinada
– nove balas não são suficientes –
Monstros nos gabinetes ordenam:
destruam o êxtase e a verdade
São eles os inimigos, gritam os atrozes
[…]
À margem e sempre abismada, pergunto:
quem ouve e beija minha alma neste tempo
de enorme gravidade?
o garoto que no trânsito se banha em cristais?
a amiga que no alto da colina sorri, estratosférica?
o menino despido na casa que alcança o céu?
a outra miga que se afoga no mar?
o rapaz trans que me oferta o sexo?
Busco a lanterna mágica de Tsvetáieva
Aquela que amou loucamente as palavras
seu aspecto
seu som
sua inconstância
sua imutabilidade
Sim e sim: amar com o mesmo amor
– nossa bênção e nosso anátema –
(tudo suave e ácido, cintilação e sombra)
Em mútuo desamparo, amantes sussurram: …………………………………………Tânatos é puro
Um claustro se abre
e línguas de argila e ardor são arremessadas
na superfície do mundo
Seu coração em minha boca, minha boca em seu coração:
sorvo e ascendo
Marize Castro (Natal-RN, 1962) é autora dos livros de poemas Marrons Crepons Marfins (1984); Rito (1993); poço. festim. mosaico (1996); Esperado ouro (2005); Lábios-espelhos (2009); Habitar teu nome (2011) e A mesma fome (2016). É graduada em Jornalismo, tem mestrado em Educação e doutorado em Estudos da Linguagem. Editou nos anos 1980 o jornal O Galo e, nos anos 1990, a revista Odisseia. Edita seus livros por sua própria editora, a Una, que define como deliciosa e desamparada viagem.
Flanar distraidamente é um tesouro. Perder-se em pensamentos. Absorto. O corpo em piloto automático. E ao voltar à tona, encontrar-se no rumo certo. Sem desvios enganosos. Mas desta vez, não. Devo ter exagerado nos devaneios. O caminho era desconhecido. Tudo me parecia estranho, remoto. Estradinha de cascalho. Lembrança distante. Não tenho certeza. Pode ser o cheiro de barro molhado. Cinzeiros de argila na escolinha. Meu pai os recebia com sorriso medido. Talvez antevendo o enfisema que lhe consumiria os pulmões. O cansaço sobrepesava minhas pernas. Não escutava nada. Nenhum rumor de humanidade. Só minhas próprias pisadas naquele chão pedregoso e escorregadio. Sequer lembrava de onde parti. O sapato deve ter sido emprestado a mim. Me escapava o calcanhar a cada passada. E estava sem meias, coisa incomum. Depois de quase uma hora andando por aquela trilha rudimentar, avistei uma luz acesa. Era um bar, vazio. Um homem de idade avançada cochilava atrás do balcão. A TV ligada mostrava o padrão em cores. Há tempos eu não via aquilo. Os canais costumam varar a madrugada exibindo programas religiosos. Pastores negociando terrenos no céu. Ou prosperidade ainda na terra. Pagamento adiantado, irmão. Glória a Deus.
Dei umas batidinhas no balcão, como fazemos à porta. O velho acordou e me olhou com espanto. Corri a mão nos bolsos, mas não os achei. Usava uma calça sem bolsos. Ele se levantou, e perguntou se eu estava com sede. Respondi que sim, mas não tinha dinheiro. Eu não queria entrar em detalhes e explicar que não sabia o que fazia ali. E além de perdido, ainda estava sem nenhum documento. Ele me serviu uma água mineral em garrafa de vidro. Olhava desconfiado, me examinando de cima a baixo. Isso me deixou um pouco tenso. Bebi a água lentamente, aos tragos. Num giro de pescoço, corri os olhos pelo ambiente. Examinei as paredes a fim de encontrar algum indício que pudesse me localizar no mapa. Deparei com um telefone público, vermelho. Daqueles que utilizavam fichas.
“Ainda funciona?”
“Claro. Quer ligar para alguém?”
Respondi de modo afirmativo, meneando a cabeça. Temia que ele me perguntasse se eu estava perdido. Certamente eu exibia um semblante extraviado. Uma cara de quem não estava ali. Como se minha alma e meu corpo tivessem se desencontrado. E foi exatamente o que ele quis saber. Meio ressabiado, achei melhor negar. Inventei que estava numa festa. Aborrecido com a bebedeira geral, resolvi cair fora antes do fim. Precisava apenas entrar em contato com alguém que pudesse me buscar, ou chamar um táxi.
“Era uma festa à fantasia?”
Esbocei um sorriso. Julguei que fosse uma piada. Ele olhava detidamente para minhas vestes. Eu não havia me tocado. Estava usando uma espécie de farda. Cinza, semelhante a do pessoal de “serviços gerais”. Uma sigla bordada na camisa, SSP. Uma mentira nunca vem sozinha. Sempre precisa de outras para sustentá-la. E no arrepio daquele clima inamistoso, forjar uma farsa plausível não era tarefa das mais fáceis. Peguei a primeira roupa que vi pela frente, falei. Dito assim, mais parecia egresso de um grande bacanal. Arrumei uma piscina, churrasco e todo mundo em trajes de banho. O cenário estava devidamente montado. Era só evitar os detalhes. É neles que a gente tropeça.
Ele desligou a TV e ligou o rádio numa estação AM. Pediu para que eu ficasse à vontade. Iria lá dentro e já voltava. Sua voz gutural ecoava por trás dos engradados de Crush. Conversava com alguém que, ao contrário dele, não se podia ouvir a voz. Tentei escutar a conversa, mas o rádio atrapalhava. O locutor esbravejava contra o comunismo, subversivos, terroristas. De fundo, o hino nacional. Ele voltou, expressão ainda carregada. Disse que não passava táxi àquela hora.
“Eu aceito aquela ficha que o senhor me ofereceu.”
Eu não conseguia completar a chamada. Tornei a perguntar se aquele aparelho funcionava. Até o início da noite haviam feito várias ligações nele, me respondeu. Após dezenas de tentativas, eu desisti. Meu dedo estava doendo de tanto de discar. Agradeci e deixei a ficha sobre o balcão. Ele continuava a me fitar de modo inquisidor. Eu mal conseguia disfarçar o incômodo que aquela situação estava me causando. O céu estava apagado. Nenhuma estrela ousava cintilar. O tempo se arrastava. Há quem acredite que universo conspira a seu favor. Ou a seu revés. A segunda opção parecia se anunciar. Tudo estava harmoniosamente combinado contra mim. “Fique atento aos sinais” – me disse minha mãe, poucos dias antes de atear fogo ao próprio corpo.
“Tem certeza que discava o número certo? Parecia ter número demais…”
“Tenho sim. O senhor não teria um celular para me emprestar?”
Ele apertou os olhos, como se não tivesse entendido o que eu havia perguntado. Um telefone celular, o senhor não tem? Voltei a dizer, frisando bem cada palavra. Continuou me encarando, cenho franzido. Olhou para o relógio e, de forma um pouco áspera, respondeu peremptoriamente: “não”.
Eu cogitei sair dali. Continuar andando, ver se encontrava alguma rodovia, pista, canal, o diabo que fosse. O embaraço das mentiras me corroía. Não conseguia mais encará-lo. De repente, um barulho de motor. O dono do bar saiu de trás do balcão. Ficou perto de mim, em posição ostensiva. Apesar de bastante nervoso, me recostei no balcão. Queria aparentar tranquilidade. Tomei mais um gole de água. Quem sabe, alguém que pudesse me dar uma carona.
Dois policiais entraram. Sem falar nada, vieram em minha direção. Coloquei as mãos na cabeça e perguntei o que estava acontecendo. Me mandaram virar de costas. Fui revistado. Em seguida, me algemaram braços e pernas. Conduzido ao camburão, percebi que era inútil fazer qualquer questionamento. Nem eu mesmo sabia o que fazia naquele lugar, àquela hora. Ir a uma delegacia não era mau negócio. Assim eu saberia onde me encontrava. Poderia ligar para um conhecido, me identificar. Estaria tudo resolvido. Do fundo da Veraneio, ouvi o dono do bar falando com os policiais:
“É do São Pedro, com certeza. Procurei saber se era funcionário, mas ele inventou um monte de coisa. Falou que tinha saído de uma festa numa piscina, ligou para um número inexistente e perguntou se eu tinha telefone celular.”
“Telefone o quê?” – indagou um dos guardas.
“Telefone celular”.
Caíram na gargalhada. Um dos policiais disse que não haviam recebido nenhum telefonema de “lá”. Mas tudo indicava que era mesmo um “fugido” do São Pedro.
Sim, a sigla bordada na minha camisa. SSP. Era óbvia a constatação: as duas últimas letras significavam São Pedro. Mas, e o primeiro “S”? O que significava aquele primeiro “S”? O carro arrancou em alta. Comecei conjecturar as possibilidades. Salão? Sindicato? Simpósio? Seminário? Com assombro, a incógnita se desvelou. Um portão imponente se abriu. Acima dele, a inscrição em ferro trabalhado formando um arco. Entrei em pânico só de pensar. Injeções, choques, camisa-de-força. Huxley falou em abrir as portas da percepção. Eu tive a percepção das portas abertas. Deram um enorme vacilo. Certas oportunidades não cruzam duas vezes o nosso caminho. Haviam me tirado as algemas. Deixaram o fundo do camburão aberto. O portão, escancarado. A liberdade gritou meu nome. Saí em disparada. Pela frente, um blecaute absoluto. Nem sei se havia algum caminho pronto. O breu não oferece alternativas, é a ausência delas. Correr de olhos fechados era mais seguro. Eu podia vislumbrar o trajeto. Dar lume à fantasia é a melhor forma de evitar as armadilhas da escuridão.
Não sei dizer por quanto tempo corri. Só parei quando estava esgotado. No limite das minhas forças. Ao abrir os olhos, uma estradinha de cascalho. Cheiro de barro molhado. Aula de artes no primário, trabalhos em argila. Meu pai carcomido pelo vício. Tudo me era incrivelmente familiar. Aquela claridade lá adiante. Uma espelunca metida a vintage, bar 24 horas. Atrás do balcão vou encontrar um velhote de cara amarrada, tenho certeza. Enfim, posso respirar aliviado. Achei o caminho de casa.
Marcus Borgón colaborou com a revista de cultura e literatura Verbo21. Publicou textos em jornais, sites especializados em literatura, e coletâneas de contos. É autor da novela juvenil O Pênalti Perdido (P55 edições, 2016).
Dizer das coisas em imagens: eis uma definição possível para o ofício de um fotógrafo. Representar um universo de seres, objetos e lugares, tendo a luz como norte da criação. Ter a fotografia como o flagrante da vida que se manifesta em cada desavisado instante, propondo a quem contempla o resultado dos registros um mergulho também sobre o indizível.
Talvez o maior desafio para quem se proponha a captar a luz de um tudo seja o de apresentar recortes que mobilizem em nós algo de diferente. E aqui explico melhor para considerar que tal manifestação artística, quando foge da gratuidade e do óbvio, parece repercutir nos apreciadores o gesto da surpresa e de algum arrebatamento. Já que o mundo tem nos oferecido uma enxurrada de possibilidades imagéticas, podemos arriscar que os artistas que costumam sair do lugar comum produzem mais impacto com suas obras, pois se recusam a ter suas expressões diluídas no marasmo uniformizante dos excessos.
Foto: Joice Kreiss
O que chamo neste texto de corpo do mundo é, na verdade, todo um conjunto de possibilidades a alvejar sentimentos e percepções em torno de pessoas, gestos, coisas, lugares e fenômenos da natureza. E é nestas frentes vastas de observação que se espraia o trabalho de Joice Kreiss, artista sobre a qual ouso me debruçar agora e que evidencia em sua criação o ímpeto poético das representações.
Joice é fotógrafa de temática abrangente, pois perpassa o humano e também tudo o que o constitui interna e externamente. É, como ela mesma nos diz, alguém que tenta contar histórias através de suas lentes. No percurso narrativo proposto pela artista, temos uma profusão de movimentos ligados ao corpo humano, sinais que emanam de formas e gestos, de um ser e estar captado em meio ao turbilhão da rotina.
Foto: Joice Kreiss
Há também a Joice que vislumbra poesia e encantamento em diferentes paisagens do mundo, sejam elas urbanas ou marcadas por uma noção de bucolismo. Nesse seu trajeto, a fotógrafa parece eleger o silêncio dos lugares como algo que transborda para além das imagens captadas. Nos domínios da abstração, o olhar sobre a fisicalidade das coisas ganha contornos de reflexão sobre aquilo que parecemos enxergar como concreto, mas que nos é devolvido sob a forma do algo intangível.
Vivendo em Montenegro, no Rio Grande do Sul, Joice Kreiss sempre foi marcada pela fotografia e tem colecionado em sua trajetória participações em exposições, bem como premiações por alguns de seus trabalhos. A artista confessa que, nos últimos três anos, o estudo da fotografia se tornou algo mais consolidado em sua vida.
E assim temos a fotografia que enaltece variadas apreensões da luz. Há a luz que baila através dos corpos, outra que atravessa recantos de cidades. Vem à tona a luz que comunica o alvorecer dos dias e o fluxo das águas naturais. Também nos é permitido vislumbrar a luz que contempla as palavras esquecidas num canto qualquer da vida. Cada um destes fragmentos é instrumento da poesia de Joice Kreiss.
Foto: Joice Kreiss
* As fotografias de Joice Kreiss são parte integrante da galeria e dos textos da 142ª Leva
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
a vida escorre pelo ralo dos relógios
no inferno de cimento e piche
gases e automóveis
os sonhos derretem no asfalto
o alto dos edifícios é um abismo
no fundo: rio do esquecimento
em brancas nuvens
cocô de cachorro pedaços de
copos plásticos folhas secas
rolando sobre a grama seca
no ar quente e seco de setembro
canteiro
no meio da avenida
o sol martela a pele manchada
a imundície dos cabelos
a cara-cadáver noias
putas mendigos (de)ambulantes
viajam as vias (s)em volta
da rodoviária
***
Haicais crepusculares
folhas secas
bailam no asfalto
ao ritmo do vento
ruído
fiel companheiro
por horas a fio
é tarde
só poentes
brotam no horizonte
***
Paisagem muda
Rua 57, C 137
O lote limpo dos detritos:
retângulo de concreto
entre três muros
e a calçada.
Quem quer se lembrar
da dor que irradia
da cápsula ao corpo,
do corpo à alma?
Do muro dos fundos
um grafite grita
a dor soterrada
no concreto do lote.
Um grafite grafa
as letras de Leide
que não vai mais andar
em nossa cidade.
Só um grafite
(arte de negros)
corta o silêncio
de concreto do lote
e desenterra a dor
(grito invisível)
dos que não têm voz.
***
A alma podre do poeta
Do lado de dentro da máscara
burocrata, um solo putrefato
gesta uma flor feia e ex-
uberante, um poeta etílico
de rosto lúcido, límpido,
barbeado e banho tomado.
Do lado de dentro uma flor
suja, um olor fétido, enraizado
na face sombria da alma e, mais
ao fundo, se afunda no lodo
podre da cidade, alma de asfalto
e cimento, vidro e plástico, corpo
atravessado de horários e cifrões.
Do lado de dentro da fantasia feliz que desfila
no carnaval do dia a dia (de patrões
e labuta, dos negócios, do gozo
cinza e furioso do consumo) se dis-
semina a onda bacante, a erva
daninha, praga sem serventia,
a poesia.
***
A noite que vem
A noite tem a cor do medo e do ódio
A noite cheira à tristeza e vingança
A noite com sangue nos olhos
é mais escura que o breu
O coração das trevas da noite
exala um hálito verde-oliva
A noite e seus campos ressequidos
na terra que definha
A noite e seu rebanho de bestas-feras
A noite dos chicotes
tangendo o rebanho ao abismo
A noite dos pastores ensandecidos
À noite
o pastoreio da morte
***
Alguma coisa
Alguém
presta atenção às folhas
na praça dançando ao vento, ao vento
que entra pela janela e acaricia
os poros, na memória lenta dos mortos,
no emaranhado de fios sobre a avenida,
no vai e vem sem sentido das formigas
humanas, às ruas do dia cheias
de carros, nas ruas vazias
da noite, à noite de luzes
e gatos da cidade, ao mendigo
que dorme na calçada, à letra
da música, em alguma
poesia?
Wilton Cardoso nasceu em 1971 em Morrinhos-GO. Formou-se em Jornalismo e cursou pós-graduação em Estudos Literários pela UFG. Trabalhou como programador de computadores e professor de língua portuguesa e literatura. Atualmente é servidor público do Estado de Goiás e mora em Goiânia. Além de poemas, escreve ensaios e mantém o blog pessoal O engenheiro onírico, onde disponibiliza as suas obras sob licença copyleft.
Mas eu já sabia
Só não tinha coragem
ainda
de falar com as coisas
E tinha menos coragem
ainda mais
ou ainda menos
de ouvir as respostas das coisas
Mas não
Coragem de ouvi-las
não tenho
ainda
Para tanto
é preciso saber
ouvir o dentro
As coisas não se ouvem de fora
***
PERNAS
As pernas da cabeça
bambas e trêmulas
não conseguiram
me fazer conseguir
Machucaram-se
as pernas da cabeça
Foi ataque dos pensamentos:
chutes, rasteiras, chaves de perna
As pernas da cabeça
agridem as pernas da cabeça
e permanecem firmes
torneadas
Nem um arranhão
As pernas da cabeça
agredidas pelas pernas da cabeça
doloridas, flácidas
não se levantam do chão
***
AMPULHETA
Não sei
quantos pontos
são necessários
para estancar
o sangue
de quem se corta
com cacos
de ampulheta
Não sei
quantas pinças
são necessárias
para tirar
do sangue
a areia do tempo
que escapou
da ampulheta quebrada
Não sei
quantos anos
sofridos
são necessários
para que a ampulheta
não se quebre
Há de se saber
que a ampulheta
é por si
torta
trincada
mal lacrada
Embora viva
morta
***
MEMÓRIA
Faz-me falta o que eu não tive
mas que sei muito bem
É coisa que retive
na não memória
É coisa do que não veio
do que não vem
Distraída disfarço
a falta
o cansaço
Retraída
eu perco
esta dança
e o compasso
***
TEMPESTADE DE AREIA
Dor não se mede
Dor desnorteia
Desagrega o ser
que agoniza
mesmo sem morrer
Dor é falta de ar
ventania que sufoca
hiperventilação arenosa
choro seco
de lágrimas secas
Dor é tempestade de areia
é falta de brisa
daquela que
em vez de ferir
alisa
***
FADO
Antes que fosse cedo
já se fez tarde
O tempo rompeu
a velocidade da luz
A vida escoou
aliada do tempo que é
A vida acabou
sobrou foi nada
Feneceu a vida que
como o tempo
é fadada
Mô Ribeiro, ou Mônica Ribeiro, é mineira de Belo Horizonte. Arquiteta de formação, descobriu-se poeta por insistência do inconsciente. Participou da antologia “É Urgente o Amor”, Edições Vieira da Silva, Portugal, e também da antologia “Ruínas”, da Editora Patuá. Foi publicada pelas revistas Caliban, Desvario, Germina, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mirada, Revista de Ouro, Revista Ser MulherArte e Ruído Manifesto, entre outras. Publicou, este ano, seu primeiro livro de poemas, PAGANÍSSIMA TRINDADE, pela Editora Penalux. Nasceu em 1971 e deu trabalho para vir à tona: o parto foi de fórceps. A escrita, ao contrário, vem nas contrações que dão à luz seus poemas. Partos rápidos, mas não sem dor, e depois o cuidado com a cria. Assim é sua escrita.
“A música é o meu chão. É onde eu encontro sentido para as coisas e para esse mundo tão controverso. Fazer música, em sua grande diversidade de sentidos e significados, é a minha razão de viver. Hoje, vivendo de música, nunca imaginei chegar tão longe. E já que tão longe cheguei, chego também ao meu quinto disco autoral, que muito intencionalmente se chama Cinco. Cinco sou eu, Silva, com 5 letras e Lúcio, também com cinco letras (…)”. Numerologia à parte, o fato é que Silva chegou e permaneceu. O menino capixaba e tímido de Claridão (2012) deixou a barba crescer em Vista Pro Mar (2014) e Júpiter (2015) e deixou também de ser promessa para hoje figurar como um dos principais expoentes da nova música brasileira. Lançado em dezembro nas plataformas digitais, Cinco – décimo álbum de carreira, incluindo quatro discos ao vivo e Silva Canta Marisa (2016) – traça uma continuidade natural do seu antecessor de estúdio, Brasileiro (2018). Finalizado durante a quarentena, Silva, que já havia lançado Ao Vivo em Lisboa no primeiro semestre, celebra genuinamente, mais uma vez, o amor e suas facetas: chegadas e partidas, idas e vindas, do encantamento a depois do fim, com serenidade, esperança e um pouco de sarcasmo.
Silva / Foto: divulgação
O ska sessentista Passou Passou, primeiro single divulgado, tem clipe em plano-sequência com o músico equilibrando-se em uma tiny house em movimento, enquanto despede-se – em tom de deboche – de um amor que tem que ir embora de sua vida. O suingue de Sorriso de Agogô (tira essa poeira dos olhos/vem pra ver como nasceram os sonhos/o depois a gente faz é agora/não dá pra adiar) e No Seu Lençol (como se fosse um dia bom/você sorriu e é bem melhor/morar aqui no seu lençol) evidenciam a tropicalidade do álbum composto com o sempre parceiro Lucas Silva, em passagem dos irmãos por Caraíva (BA). Enquanto a densa Pausa para a Solidão (pausa para a despedida/já não sei como expressar/que não encontrei saída) exalta com maturidade o fim de um ciclo, Não Vai Ter Fim (o amor é parte de tudo/é parte do mundo/é parte de mim) parece saída do repertório de Roberto Carlos e se não houvesse pandemia, possivelmente o compositor dividiria os vocais com o Rei em seu especial de fim de ano. A canção de quarentena Jogo Estranho (trancado nessa casa/acendo meu cigarro/e pego um violão/olhando da janela/eu tomo um outro trago/dessa solidão) contrasta com a sensual Facinho (eu gosto e fico tranquilo juntinho/cama, sofá ou de pé, de ladinho/ai, isso é bom, muito bom, já parei de contar), espécie de ska em dueto com Anitta, repetindo a parceria de Fica Tudo Bem, gravado com a funkeira em Brasileiro.
A balada Você (é que quando acordei de manhã/eu tentei te esquecer/e esqueci que o querer é um mar turbulento/não tenho um alento, nem sei velejar) e a bossa Quimera (pra que sentir/coração feito de água/não vou mentir/a saudade me naufraga/quando acalmar/e eu nem sequer te lembrar/vou amar de novo) relacionam poeticamente a saudade aos movimentos do mar. Se a acústica Não Sei Rezar (ainda é cedo pra falar de amor/é melhor fingir não ser/não quero atropelar você, meu bem/e por tudo a perder), ironicamente, mais parece uma prece, tamanha simplicidade e beleza, Furada (eu sei qual o seu perfume/sei que é bom/mas não, não vou mais cair na cilada/você finge ter poderes que não tem/ai, ai, essa sua lábia é furada) diverte como a troca de mensagens com um “contatinho”. O disco conta também com a participação do icônico João Donato no jazz Quem Disse (tem coisas que a vida nos dá/tem coisas que são como um dom/é dom te querer e depois/vou te requerer) – que tem lindos arranjos de sopro e piano – e do profeta do Grajaú, Criolo na “afro-baiana” Soprou (te vejo no céu/te sinto no ar/no vento uma brisa que vem me acalmar). Além de dividir os vocais com Silva, o rapper compôs a segunda parte da letra, com versos como “controverso diverso disperso/tua pele na minha é verbo/minha boca na tua é luar”. O delicioso samba Má Situação(eu nunca me importei/com as coisas que não sei/somente com você/que não conheço/já tenho um grande apreço) dá o tom final em ritmo de amor platônico: que atire o primeiro bilhete único quem nunca se apaixonou por um(a) desconhecido(a) próximo à plataforma de embarque.
Há que se destacar também o projeto Bloco do Silva (2019) – turnê onde o cantor revisitou o melhor dos hits carnavalescos, sobretudo dos anos 90, passando por sucessos do axé, frevo, samba e MPB –, o que lhe rendeu desenvoltura suficiente para transitar com tanta despretensão pela brasilidade de Cinco. O álbum marca ainda o rompimento do artista com o selo SLAP (Som Livre), o que talvez explique o ritmo frenético de lançamento de seus álbuns em apenas uma década de atividade. As 14 faixas do trabalho destrincham com ritmo, poesia e refrão(!) o sentimento mais puro e complexo que carregamos no peito. E os irmãos Lúcio e Lucas, como bons artesãos a serviço da música, traduzem de forma orgânica e atemporal tal engenhoca. Então, tire essa poeira das orelhas e ouça Silva (5 letras), agora (5)!
Larissa Mendes, 13 letras, tem na música o seu céu.
Há um universo de coisas que se abrigam na tessitura dos dias. É dizer de formas que compõem mínimas partes de tudo o que pode ser representando pelas mãos de quem se dedica a mostrar o mundo pelas vias da arte. Nesse sentido, cada contorno e traçado se movimentam em favor da aparição de seres e objetos dos mais diversos aspectos, tendo em vista retratarem porções imaginadas da existência.
Na cabeça de uma artista como Vinha Oliveira, podemos supor resgates de memória, flagrantes cotidianos, delicadezas do ser, constelações de afetos e outros tantos sintomas da vida. Seus desenhos anunciam, de modo especial, uma miríade de mergulhos místicos que reverenciam a contemplação de mistérios inerentes à trajetória humana. Sobre este último aspecto, notamos que a criadora entrega seu ofício à sondagem do nosso âmago, trajetos internos que sugerem um diálogo com aquilo que transcende a materialidade das coisas.
Basta um percurso mais detido pelos desenhos da artista em questão e logo percebemos o efeito marcante que se inicia no engenho das linhas. A partir destas, Vinha desenrola os fios de cada gesto, face, objeto ou cenário apresentado. E tudo gira de modo impactante em tal perspectiva, pois é como se uma espiral de manifestações produzisse um resultado perene de possibilidades. Percebe-se, por exemplo, uma roda vida de expressões das personagens mostradas no enleio dos dias, na pulsação de hábitos, crenças e recortes íntimos.
Desenho: Geometria da palavra
A desenhista, que nasceu no Rio de Janeiro e mora na Bolívia há cinco anos, também é antropóloga e poeta. E foi no que chama de “exílio andino” que Vinha Oliveira, num modo de reencontrar elementos da cultura carioca que mais aprecia e tem saudade, se enveredou por caminhos autônomos do desenho. Estão marcados na memória dela, em especial, o mar, o samba, a música e as festas populares. Como a artista confessa, seus desenhos procuram a essência geométrica das palavras, percorrendo letras de músicas e também os poemas que escreve. Diga-se de passagem, tudo isso foi impulsionado no contexto da pandemia, sendo que o isolamento social levou-a a criar, no Instagram, o perfil Geometria da Palavra, espaço no qual divulga seus trabalhos.
A confissão de Vinha nos põe a pensar também que tudo principia no poder das palavras, pois estas geram a vontade das imagens. Mas é interessante notar que palavra aqui é matéria-prima, alicerce, estrutura sobre a qual se constroem as dimensões da vida representada em linhas, contornos, cores e contrastes. A palavra pensada em sua gênese primeira, que é dentro da mente de quem cria, estimula, projeta, engendra a materialização das formas no produto artístico. Palavra-faísca que dinamiza sensações, observações dos instantes e se constitui também como testemunho dos cenários experimentados na tênue linha entre saberes e sabores.
É de se imaginar porque Vinha Oliveira sustenta que na arte estão todas as respostas. E talvez a artista esteja querendo nos dizer que viver pela Arte é também se lançar num caminho permanente de descobertas, resgates, libertações e outras tantas epifanias íntimas. É renovar o impulso da vida, criar sensações, habitar dimensões outras, ver florescerem os enigmas e emblemas da condição humana. Mais ainda, pode ser forjar um outro indivíduo em nós, aquele que pende mais para as levezas do que para os abismos da realidade.
Desenho: Geometria da palavra
* Os desenhos de Vinha Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 141ª Leva
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
no princípio era traço era rascunho
desenhamos o homem à imagem
e semelhança dos bichos selvagens
caçamos com afinco o dia futuro
em que o rascunho ganharia lustro
e progredindo de forma gradativa
chegaria quem sabe enfim às franjas
da perfeição por ser ele mesmo
braço mão cinzel e obra-prima
porém o que críamos ser qual nenê
que inspira cuidados e pede teta
mas alegria e graça promete aos pais
logo se mostrou nada mais do que
uma tosca versão definitiva
do omi-nenê sub-espécie extinção
progresso nenhum não veio aliás
senão o temporal que se prenuncia
com gestos de velhice e finitude
e avanço só mesmo qual curupira
cujo rastro é tão enigmático
que sherlock nenhum elucida
se no caso retrocedemos pra frente
ou se a vida é do rascunho pra trás
***
vinho manga losna ou cacau
o apetite dos convidados de uma casa em festa
Luís da Câmara Cascudo
é amarga a vida diz um sincero que nem tanat no primeiro gole
no início são fiapos de manga
aguerridos choupos ao vento
é o que respondo pois já nem
praguejo o visgo que se adere
e empedra no vão dos dentes
é uma manga a vida eu digo
é amarga repete o sincero feito losna no dia seguinte
sinceridade é ateísmo açucarado
mesmo entre os mais crédulos
primeiro é tanino que amarra na boca
um gosto forte que água não leva
me lembra quando tudo salgado
da língua à garganta marrenta
como durante o sexo oral
não é sede na boca sedenta
a mim lembra bílis diz o sincero que sobe em refluxo fermentado
e o palatante por fim experimenta assombrações dos antigos manjares
entre arrotos azia e sabor azedo
é amarga a vida então eu penso
verdade é mancha no fundo da taça
o roxo que nos colore os lábios
amargor é vida eu digo
língua travosa cacau 100%
***
vinagre da insistência
…………em toda mesa de trabalho
não só o café esfria …….como cedo ou tarde ……………a ossatura ideal se rompe ……………………emulsão e textura coalham …………..então resta nas mãos …………………o vinagre da insistência
…………………….verter ali nossas lágrimas ………..chorar a linfa empoçada ………………os pés inchados …………..se inda resultasse num afeto-feitiço …………………..mas sequer materializa a prata
………….desaprender ………única tarefa ………………………………começa vertendo o método …………………………em leito sinuoso quando sabemos ……………………..que nos cabe esperar ………………..da seiva extraviada …..apenas uma poeira nos olhos ………um silêncio condensado
***
osso
dentre tudo Q descarna
o amor é a mão suja
dum açougueiro indo pra casa
quando prende o punho
na engrenagem da porta basculante
e os dedos não se magoam
de tão acostumados ao sangue
***
para raquel gaio
dentre tudo Q oxida
embolora e resseca
faço um semicírculo
de flores e folhagens
rejeitos e pedregulhos
Q você coleta
quando andamos
pelos arrebaldes
escombros e estrelas
Q despencam
e você coleciona
cacos informes
materiais imperfeitos
irmãos nossos
servem de pretexto
pra esquecermos
a respiração curta
os invisíveis desabamentos
escombros e estrelas
Q despencam
e você coleciona
***
suor e oração
dentre todos cuja
pele não formiga
e imolam remorsos
com fósforos molhados
Quem me dera
ser todo estômago
movimento peristáltico
bile e refluxo
pra poder vomitar tudo
vomitar nossa servidão voluntária
aos gritos sem delinquência
ao valor moral do trabalho
aos traumas produzidos
em banho maria
no seio das famílias
quisera ser todo estômago
pra vomitar os ritos insossos
vomitar a obediência
vomitar a hierarquia
as ordens cantadas
os papeis de leis escritas
mastigar como uma cabra
a tábua dos mandamentos
e cagar uma merda ungida
Marcus Groza é escritor, dramaturgo, performer e pesquisador. Autor dos livros “Uma pedra em cima disso” (no prelo), “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau – 2019) e dos textos dramatúrgicos “Não Urine no Chão”, “Tambor de Couro Vivo”, “Maré Morta”, entre outros. Participou com oralização de poemas no programa “Manos e Minas” da TV Cultura (São Paulo-SP), no “Eco Performances Poéticas” (Juiz de Fora-MG), no “Inverno Cultural” da UFSJ (São João del Rey-MG), no “Tercer Jueves” (Buenos Aires) etc. O seu ensaio “Para uma poética do esquecimento” foi traduzido para o espanhol e saiu no livro Olvidar – Brumaria Works #9 (Madrid, 2018).
Eutanásia. O último rinoceronte branco do norte está morto. Sudan, 45 anos, se torna parte das espécies e subespécies dizimadas pelo único predador que mata por ignorância, por lucro. E sempre por prazer. Um macho de sorte — mesmo que sorte seja uma palavra estranha de significado. Não foi abatido como caça. Sobreviveu. Capturado aos 10 meses de idade, foi enviado para um zoológico. Por 36 anos agradou humanos. Morre, agora, num santuário. E santuário também é uma palavra de significado incomum. Um cativeiro cercado por boas intenções. Uma fração da história que deveria ter sido. De um jeito ou de outro, Sudan foi uma vida desvirtuada. Deturpada em seu roteiro original. Fecha os olhos cercado pelos soldados que o protegem, pelos cuidadores e pelos pesquisadores que o observam há quase uma década. E quando o seu corpo de dois mil e trezentos quilos — tomado por uma infecção generalizada — segue para o descanso da morte, ainda ostenta, intocado, o cobiçado chifre que fez dele um alvo por toda a sua vida. Sudan é o último macho dos rinocerontes brancos do norte. Mas o seu sêmen congelado ainda é esperança de rebentos. Multiplicados, alimentarão a lenta e difícil tentativa de reverter a extinção da subespécie. Se os caçadores não se reproduzirem como pragas, se a cobiça não caminhar mais rápido do que a ciência, se todos os obstáculos forem superados, talvez seja possível repovoar a savana.
Não há lágrimas pelos rinocerontes brancos do norte. São apenas bichos.
Abril de 2014. Chibok, Nigéria.
Negras. Virgens. Crianças. 276 meninas sequestradas de uma escola em Chibok por fundamentalistas islâmicos do Boko Haram. Em nome do fanatismo, da dominação e do ódio, essa trindade depravada. Afastadas de suas famílias, impedidas de suas crenças, privadas de qualquer dignidade. Pasto fresco para as bestas que justificam atrocidades em nome de um deus falsificado, omisso, cúmplice. Caças impotentes.
47 fugas. 117 libertações em trocas árduas com o governo. Mas 112 meninas de Chibok nunca mais são vistas. Para elas, não há a proteção do santuário. Só o cativeiro. E as curras que não cessam. E a parição de bebês indesejados que crescem ao lado de seus reprodutores selvagens, influenciados pela bestialidade de crenças pervertidas. 112 meninas-matrizes, como as cadelas acorrentadas que cruzam e cruzam sem descanso até a morte por infecção, por inanição ou por maus-tratos.
Não serão resgatadas. Não têm nome ou foto nos jornais. São apenas meninas negras da África. Descarte.
Fevereiro de 2018. Dapchi, Nigéria.
Não bastaram. O sequestro das 276 meninas de Chibok. Os casamentos forçados. A destruição das identidades. O aniquilamento dos alicerces psicológicos, religiosos e morais. As crianças geradas por espermas sem nome. Mais 110 são raptadas em Dapchi. Meninas. Em plena luz do dia. Porque a luz do dia parece ter se tornado uma sentinela inútil e impotente. Em igualdade perversa, as meninas nigerianas de Dapchi são como as meninas de Chibok. E como os rinocerontes brancos do Quênia. Indefesas. Caçadas. Afastadas de suas histórias originais. Exiladas. Cativas. Desenraizadas. Vítimas da mesma ganância. Neles, o que se cobiça são os chifres. Nelas, os úteros.
No mundo, tudo permanece silêncio. São apenas estatísticas ruins do Terceiro Mundo.
2 de setembro de 2015. Costa da Turquia.
Aylan Kurdi não vence o mar. Como poderia? [… as águas são rotas de braços frios / que adormecem bebês / meninas, bebês meninos / para entregá-los, purificados / a um Criador envergonhado]. Aylan Kurdi é só um menino de três anos. Sírio. Como a maioria dos refugiados que fogem das guerras pelo poder. Aylan Kurdi é mais uma criança afogada numa praia da Turquia. Vira notícia porque a turca Nilüfer Demir e sua câmera estão em vigília na areia trágica. Ah, os fotógrafos! Esses seres despudorados que denunciam com suas lentes o que os olhares frágeis das pessoas frágeis preferem não ver. Ver é inquietação. Por isso, talvez, o mundo não tenha chorado por Galip, 5 anos, irmão de Aylan. O corpo dele não chegou à praia. Não foi fotografado.
Não ver é a alienação desejada.
Aylan e Galip saíram de casa para morrer no mar. Sem entender por que deixaram para trás o seu país. Crianças não entendem as guerras. Não deveriam, igualmente, fazer parte delas. Nem deveriam ser arrancadas das suas referências para serem jogadas no cativeiro do exílio.
Aylan e Galip fazem parte da cegueira cômoda. Afinal, são apenas meninos sírios.
20 de setembro de 2019. Morro do Alemão, Brasil.
Morro do Alemão. Ou qualquer outro morro. Desde que seja morro. Ágatha Vitória cai. 8 anos. Tiro nas costas. De fuzil. Coisa de covarde fardado. Mais uma — e já foram tantas. Crianças como ela, meninas como ela. Feitas de sorrisos, de brincadeiras, de fantasias. A de Mulher Maravilha invocando o sonho de um mundo de justiça e de mulheres guerreiras. E o pesadelo da realidade se contrapondo. Ceifando, ceifando, ceifando.
Crianças. Já nem se trata de quantas. Ágathas, Guilhermes, Alanas, Kayos, Larissas, Adrielles. Já nem se trata de onde. Nova Holanda, Borel, Alemão, Guarabu. Faz tempo que essa conta está perdida. E perdido é o que tudo está. Bala. Homem. Consciência. Futuro.
Outubro | Novembro | Dezembro de 2019. Em todos os grotões de pobreza.
Caixões brancos encaixados uns sobre os outros empilham-se em tédio cínico. Aguardam os hóspedes perpétuos que se deitarão entre suas paredes finas. E o cheiro do sangue que, mesmo lavado, se entranhará nas suas fibras fracas como uma droga perigosa, viciante, nauseante. Meninas. Meninos. De algum morro, de alguma comunidade, de algum bairro pobre. De qualquer lugar esquecido ou desprezado pela tal gente de bem.
Há também covas rasas. Esperando os que não podem pagar pela mísera decência de um caixão vagabundo. São bocas indigentes essas covas arreganhadas em espera curta. Sabem que logo será saciada a sua fome ávida. Mais tarde, corpos pequenos preencherão as suas entranhas. Perfurados por balas perdidas. Vítimas dos predadores que somos: os que abatem, os que aprisionam, os que empurram para a morte, os que perseguem até a extinção. Como os caçadores do Quênia, os estupradores da Nigéria, o ditador da Síria. Como os homens e mulheres de farda que atiram pelas costas.
Podemos fechar os olhos. Mais uma vez. Essa é a nossa expertise. Podemos desligar a TV, tampar os ouvidos, cobrir a cabeça. Podemos nos mudar para Paris. Ou para a Finlândia. Quando voltarmos, tudo estará terminado. E olharemos para o genocídio de meninas e meninos pobres com toda a piedade hipócrita que nos foi ensinada pelos nossos pais e pelas nossas igrejas. E nos sentaremos com um copo de cerveja, de vinho ou de uísque entre amigos que também terão acabado de voltar de Berlim ou de Barcelona. E discutiremos planos para reverter a extinção.
Em nossos planos, só uma falha. Não temos o sêmen do rinoceronte branco.
Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. É autora, pela Editora Patuá, de: O sêmen do rinoceronte branco (Contos, 2020) – finalista do Prêmio Guarulhos 2020 na categoria Escritor do Ano; Tudo que morde pede socorro (Romance, 2019); Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) – finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 2015), semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz (Editora Penalux, 2017) e participa de antologias de contos e de poesia. Tem textos e poemas publicados em diversas revistas eletrônicas.
Não passamos pelo mundo sem sermos tocados por algo que nos desafia. Vista assim, de modo apressado, talvez esta frase soe até mesmo um tanto frágil. Quiçá seja melhor dizer que não estamos aqui pelo planeta de modo inteiramente descompromissado, soltos e embalados pelo vento. Somos marcados pelas paisagens humanas que se nos afiguram cotidianamente, impelindo-nos a repensar nosso papel diante do Outro.
A vida enquanto uma comunhão de anseios: eis um propósito possível. E não precisamos concordar em tudo para que convivamos melhor uns com os outros, pois mentes e corações são capazes de nos dar sua contribuição em meio ao engenho da diversidade de pensamento. Estamos aqui a falar do entendimento necessário sobre as nossas diferenças até o ponto em que isso possa representar um caminho viável para uma, digamos assim, lucidez social, esta que também nos faça agir de modo mais harmonioso.
Se utopia ou não, o fato é que um mundo melhor passa por transformações que primeiro partem dos indivíduos, engendradas que estão nas porções internas de cada pessoa. Diante do desassossego que insiste em nos rondar hoje, a palavra resistência nos é por demais preciosa, sobretudo quando ela se inclina a combater os atropelos e insanidades que tanto ferem a nossa dignidade. E é um verdadeiro alento perceber vozes que se insurgem contra os desvarios do presente. Gente como a poeta goiana Dheyne de Souza nos faz acreditar que resistir não é mero artifício retórico, mas uma causa que se respira cotidianamente.
Nas mãos de Dheyne, a literatura é instrumento, palavra afiada que atravessa e sensibiliza, motor de estados da alma, indignação, clamor, escuta, encantamento, espanto e estranhamento. Ler seus versos implica num exercício de mergulhos intimistas que reverberam notícias de um mundo que também é nosso, esse mesmo que exige incansavelmente nossa cota e sangue. Desde “Pequenos mundos caóticos” (PUC/Kelps, 2011), seu primeiro livro, a autora já nos apresenta sua verve existencial a fluir entre as dimensões internas e externas da pulsação da vida. Mais recentemente, ela nos brinda com o seu “Lâminas” (Martelo, 2020), obra que movimenta recônditos líricos com o olhar delicado e incisivo sobre a nossa tão conturbada contemporaneidade. Então, coube à poeta, em seu último rebento, lembrar que estamos vivos e que há, sim, antídotos contra a crueldade e o esquecimento.
Na entrevista que agora segue, Dheyne de Souza é potência, pensamento e ato, principalmente quando divide conosco suas reflexões sobre o agora que tanto nos tem trazido desarranjos de toda ordem. É a poeta que nos fala sobre sua trajetória com as palavras, capaz de nos brindar com dois poemas inéditos em meio ao desenrolar de um diálogo que tenta sondar um pouco do que somos e daquilo que nos tornamos até então.
Dheyne de Souza / Foto: arquivo pessoal
DA – É impossível percorrer “Lâminas” e não notar ali verdadeiros atravessamentos da alma humana. Há o labirinto de paixões que se cruzam, a sondagem dos desejos e mistérios e a conta de um presente insano. O que dizer dessa mescla de sensações a serviço da palavra?
DHEYNE DE SOUZA – Primeiramente, Fabrício, quero agradecer pela presença constante nessa travessia de poesia, pela escuta e também por acolher “lâminas” e ter essa gentileza de olhar esses versos meio cortes. Bem, tentarei responder como posso, e não estamos conseguindo poder muito, não é? Eu tenho achado isso. Então, por favor, releve os hiatos os parênteses as indeterminações. Talvez eu dance pelas perguntas de um modo um pouco errante, talvez disperso, talvez reticente. Ando (andamos?) assim. O que dizer dessa mescla de sensações a serviço da palavra? Nem sei o que dizer, na verdade. Acho que “lâminas” foi se construindo assim, entre a tentativa de dizer e essa parede de empecilhos (o que dizer desses últimos anos no país, no mundo?). São poemas gestados por mais ou menos uma década, em que as sensações (arrisco dizer, sem estar certa se é, aviso) foram se encontrando, cada vez mais, com a insanidade do presente. O livro foi publicado neste fatídico 2020. Tenho dito (ou justificado) que não consigo responder a este ano com reflexões teóricas ou críticas satisfatoriamente objetivas ou sei lá. Só tenho tido (não, não é preciso) respostas estéticas, que vêm, como sabe, no terreno das dúvidas. Acho que “lâminas” (e nisso preciso dizer de mim, não de todos, mas o que eu gostaria mesmo é de saber como é para os outros) atravessa em mim um campo enorme de dúvidas, especialmente, agora, sociais. E a linguagem tem algo a nos dizer da cicatriz que fica nela, acho. O que dizer dessa mescla de palavras a serviço das sensações também, não é? Por que atalho porventura batalha deixamos nossas almas? Deixamos? Sinto que estou mais propensa a perguntar que responder. Não sei. A poesia diz?
DA – Diante das angústias e incertezas que experimentamos, poderia a poesia nos ajudar a suportar a realidade?
DHEYNE DE SOUZA – Eu acho a poesia uma possibilidade. Gosto de pensar não como um apoio para suportar a realidade, mas como uma indignação que confronte, questione, critique esse “real”. O que sabemos do que é real? Não sei. Acho que a poesia nos fortalece as dúvidas. E gosto de pensar na poesia em um sentido amplo, para além das fronteiras de gêneros literários, acadêmicos, enfim. Gosto de pensar a poesia como esse sol corajoso que se põe, o vento que deita as folhas do mato, que movimenta alguma emoção, que nos lembra alguma coisa de nós que está no sem nome, ou o sol o vento o mato a emoção que porventura cai numa linha. Para lembrar que é de todos (acho que nunca achei tanto como agora que somos esse todos, que nós = um & outro). Gosto de pensar que a poesia, esse algum estado do que flui em nós, toca-nos e ao outro, se permitimos, se oferecemos, se aceitamos, se lutamos, são muitos “ses”. Sinestesias. Saraus. Sons. Acredito (ou procuro acreditar) que, com alguma consciência de uma incerta “onipresença” dela, entramos mais fundo nas angústias e incertezas que experimentamos. Enfrentar o medo disso. Daí, de dentro de nós, inúmeras outras possibilidades. Conhecimento. Partilha. Resistência. Lembrança de alguma coisa que não sei exprimir. Talvez a lembrança de que somos queremos ser seremos humanos. O que é o humano? Quero acreditar que sim.
DA – “Lâminas” toca em temas sociais que nos são muito caros. Marielle Franco está ali presente e, só em pronunciarmos seu nome, toda uma simbologia de resistência emerge. Ali também está Evaldo dos Santos Rosa, homem negro que morreu ao ser alvejado com 80 tiros disparados por militares contra o carro em que também estava sua família. Falar sobre tais chagas abertas é também um clamor contra o esquecimento?
DHEYNE DE SOUZA – Acredito que seja principalmente um grito contra o esquecimento. Especialmente no momento atual, com um governo que é uma vergonha para qualquer tipo que imagino de humanidade, são ainda mais essenciais, na minha opinião, gritos contra violências, racismos, machismos, desigualdades, entre outras pautas importantíssimas. Marielle está presente e, de fato, é símbolo de resistência. São inúmeros nomes que merecemos lembrar e registrar na história. Crianças foram assassinadas pelas mãos de policiais, elites, preconceitos. Estamos morrendo a cada dia por quê? Fabrício, acredito que já está passando da hora de mudarmos várias coisas nesta sociedade cujo templo é o capital, de adoração patriarcal. Mudanças drásticas, enormes, pode até ser que utópicas. Mas é esse o tipo de sangue que anda correndo em minhas veias e que sinto escapar de “lâminas”. Às vezes me debruço na janela e penso tanto. Eu sei que são poucos os que têm força e, especialmente, esperança de mudanças tão enormes. Mas eu acho que é o que pode nos movimentar. Não quero achar possível que Marielle morra todos os dias pela falta de impunidade e pela tentativa de apagamento dessa memória. Não. Não quero imaginar que 80 tiros sejam apenas um símbolo debaixo do tapete, porque na verdade foram muitos mais. Não. Nem que o golpe vista outro nome, ou a ditadura militar, ou o genocídio e etnocídio de indígenas, negros, mulheres, LGBTQI+s. E, enquanto não quero pensar nisso, escrevo. Escrevo porque acredito que as literaturas podem lembrar à história… sabe? E porque escrevo como resistência, como luta e com a seguinte utopia alimentando atualmente meu peito (segura esta): vem aí a era feminista. Avante.
(em desespero o eu lírico pede SOCORRO)
clarice, foram mais de 80
carlos, já não há rio doce
manoel, o quintal está vedado
manuel, me recuso a pasárgada
paulo, o opressor está no cio
diadorim, conta a sua versão
macabeia, sem remédio a angústia
capitu, até hoje o bentinho
iracema, anagrama de queimas
marielle, quem mandou lhe calar
mariguella, onde estão vossos filhos
ágatha, quantas balas da escolta
mari, o culpado É o estuprador
(poema inédito)
DA – Como você vislumbra uma vindoura era feminista?
DHEYNE DE SOUZA – Não sei se exatamente vislumbro. Acho que mais intuo ou percebo (e nisso posso até estar equivocada, mas estou aqui dando apenas opiniões… então vamos lá). É o que estou observando e pensando. Eu conheço tantas mulheres incríveis, que têm trabalhado incansavelmente, seja na literatura, nas artes, na educação, na economia, no jornalismo, no lar, enfim, em qualquer trabalho, eu tenho visto tantas mulheres enormes, fortes, cheias de coragem. Estão por aí, em toda parte, suando. Cozinham, cuidam da casa, trabalham fora, criam filhos, sonham, escrevem, dão aulas, fazem lives, participam de saraus, falam, gritam, dizem não. É um movimento grandioso, é o que sinto. É muito trabalho. Porque toda essa indignação está na garganta há séculos. Você já imaginou? Sobrevivemos ao fogo. Estamos falando, fazendo, lutando. O que quero dizer é que acho que, se olhamos bem, em todas as partes, estamos. Sabe?
DA – Isso que você acabou de mencionar é algo muito vivo e poderoso. Parece que temos avançado um pouco no processo de redução de invisibilidades no que se refere a pensar o ativismo de muita gente. E notamos que não basta o empenho apenas daqueles que sempre sofreram os apagamentos, mas também é fundamental a adesão de tantos outros grupos sociais, inclusive os que sempre detiveram privilégios. Reconhecer-se parte do problema e ser vigilante quanto isso é um começo?
DHEYNE DE SOUZA – Eu acredito que sim, é um grande passo reconhecer-se parte do problema e também da história e também das rédeas, não é? A gente sabe que é muito difícil avaliar o momento presente com uma lente justa. E eu tenho sentido que o momento presente tem pedido extrema e intensa atenção. Tenho sentido a escrita como um campo talvez não de batalha (embora a luta seja necessária), mas de movimentação, de questionamentos, de dúvidas, sabe? Não sei se sei explicar. Acho que esse volume crescente (tenho também essa impressão) de atitudes que questionam nossas bases cheias de preconceitos, traumas sociais e desuniões, enfim, carrega uma força de uma luta absolutamente justa e necessária. Vamos?
Dheyne de Souza / Foto: Helô Sanvoy
DA – Você tem razão quando diz que essa luta é deveras necessária. Na Literatura, por exemplo, há várias frentes em ação advogando por vozes de mulheres, negros, pela comunidade LGBTQI+, dentre outros. Como você observa essas pautas identitárias transitando pelas produções literárias?
DHEYNE DE SOUZA – Com bastante entusiasmo, especialmente porque, nas nossas manifestações literárias, estão gritando as vozes de mulheres, negros, comunidades LGBTQI+, indígenas, entre outros grupos minorizados socialmente. Acho esses gritos, Fabrício, importantíssimos. Ouvi-los me dá uma força enorme. Tenho lido autores contemporâneos (dessa contemporaneidade que está aí na porta, aliás ouvindo pancadas fortes), digo dos últimos dois, três anos, por exemplo. Eu fico extremamente emocionada com esse presente explodindo em várias formas (e vozes). Tenho receio de citar nomes e cair no fatídico equívoco do esquecimento (com o qual, feliz ou infelizmente, já estou me habituando), mas gostaria de citar alguns nomes não porque tenho condições para tal (quem é que tem condições para tal em um país desse tamanho com os nossos níveis de desigualdades, me pergunto, mas vamos lá), mas porque estão ecoando forte com nossa conversa. Neste 2020, emocionei-me transbordantemente com a leitura de “N’oré Îukaî Xûéne!” (editora Patuá, 2020), da goiana Suene Honorato. Do tupi antigo, o título do livro faz um convite de reflexão e também de revisão da nossa história (e da potencialidade de nossa garganta): “Não nos matarão!”. Também morri um pouco com a leitura de “A mulher que nasceu sem metafísica” (livro no prelo), da também goiana Tarsilla Couto de Brito. Esse título pede muita reflexão. Tem “Bruxisma” (Urutau, 2019), dessa personalidade humana que é a Pilar Bu. Exemplo de força pra mim e desse som alto que digo que nos espreita, assim como ouvi ranhuras altas quando li “Modus operandi” (R&F, 2017), da Thaise Monteiro, mulher-escrita que é corpo-arte. “Cobra criada” (martelo, 2019), do Mazinho Souza, foi outro livro que me despedaçou o sangue negro que me corre a condição de estar e ser. “Uma casa se amarra pelo teto” (Macondo, 2019), da Viviane Nogueira, é algo que ainda estou desamarrando em mim. Enfim, há muitos nomes, muitos livros que me arrebentaram (e eu digo isso em tom de entusiasmo mesmo, porque acho realmente incrível). Fernanda Marra, com “taipografia” (martelo, 2019); Camila Assad, com “desterro” (Macondo, 2019); Wesley Peres, com “o corpo de uma voz despedaçada” (martelo, 2019); Wilson Alves-Bezerra, com “Malangue malanga” (Multinacional Cartonera, 2019); Lubi Prates, com “Um corpo negro” (nosotros, 2019); Arthur Moura Campos, com “5into” (Selo Doburro, 2019); Tarso de Melo, com “Rastros” (martelo, 2020); Natasha Felix, Ana Beatriz Domingues, Bruna Mitrano, há muitas, muitas vozes em todos os cantos. Precisamos ouvi-las e partilhá-las mais e cada vez mais, na minha opinião. Enfim, são leituras mais recentes que dizem tanto do nosso presente que.
DA – Junto com Helô Sanvoy você mantém no You Tube um canal de leituras de textos literários variados, o Pequenos Mundos. Como foi a concepção desse projeto e como tem sido a experiência, seus desdobramentos?
DHEYNE DE SOUZA – Sim, o Pequenos Mundos. Foi uma ideia que surgiu processualmente, como se fosse um rastro (na virtualidade do nosso tempo) para leituras variadas mesmo. Um lugar para deixar lá essa coisa que tenho achado tão importante, cada vez mais, que é a leitura “em voz alta”, como se diz. Eu sempre gostei muito de ler “em voz alta”, desde pequena (na verdade, fazia leituras em murmúrio, para não chamar muita atenção, que o negócio comigo foi meio que assim muito reservado, digamos assim). Faço isso muito com meu próprio trabalho, avaliando o impacto do ritmo no tema (e vice-versa), procurando achar a rachadura na língua que faz a palavra sair. Quem deu a ideia do registro em um canal foi o Helô Sanvoy, que é meu companheiro de vida e de arte (possível separar?). É um trabalho que tem inúmeras lacunas, inclusive temporais. Às vezes, ficamos muito tempo sem “atualizar” o canal, por forças maiores, como viver cotidianamente e suportar o político que há nisso. Com a pandemia, senti uma necessidade muito grande de ler as vozes contemporâneas, de que falamos há pouco. Com essa vontade, retornou certa frequência de gravações e publicações. Também teve papel importante a publicação do “lâminas”. Quis divulgar alguns poemas em vídeos (também alcançando a índole instagrâmica da nossa época). Ler e publicar as leituras também foi uma espécie de compartilhamento de poesia, logo, quem sabe, de resistência, de fôlego, de indignação, de uma vontade de alcançar o outro de algum modo. Eu também faço parte de um grupo goiano de vocalização de poesia chamado Corpo de Voz, dirigido por Jamesson Buarque e Maria Ritha. Tem um corpo extremamente variado e potente de vozes, uma coisa linda de se ver e ouvir. O Corpo de Voz também tem um canal, em que há leituras tanto dos membros quanto de convidados espalhados Brasil e mundo afora, além de aulas e depoimentos sobre vocalização. É um trabalho muito importante e bonito, na minha opinião, que vem desse coração gentil e generoso que é Goiás pra mim. Tenho notado muitas manifestações assim, em que ler ou performar um texto convida a reflexões críticas e atitudes propositivas. Saraus, slams, batalhas de rap. Estamos vivendo uma época (e isso tem muita relação com o que falamos antes dessa reverberação de vozes representativas de inúmeras lutas) repleta de possibilidades, que não escondem nem minimizam as mazelas, mas arriscaria dizer que partem delas (também) para explodir. Não quero soar utópica nem otimista diante das gravidades sociais, políticas e atualmente sanitárias, mas quero manifestar que tenho olhado para as experiências e experimentações artísticas procurando pensar no que pode estar acontecendo com o compasso da história no nosso tempo. E também (talvez mais ainda) procurar formas de resistir e participar (para mim, escrever é uma forma de resistência, por mais que já se considere isso uma opinião démodé). Sei lá. Quero pensar o presente junto. E dizer disso algo.
DA – Goiás te deu régua e compasso?
DHEYNE DE SOUZA – Adorei a pergunta, principalmente porque pressupõe cortes arriscados (risos). Vou escolher uma via de resposta que pode fugir um pouco da referência, mas a imagem evoca medidas que me instigam a comentar. Goiás talvez tenha me gestado na desmedida do vento, do mato, do silêncio, da imaginação. E quando digo que sou goiana a pretensão é bem elástica mesmo, inclusive em termos geográficos. Nasci em uma cidade situada no mapa, hoje, no estado de Tocantins. Mas em 1983 ainda era Goiás e continuou sendo enquanto eu ainda estava lá. Com dois anos: de lá para o interior goiano, onde cresci conversando (estranhamente, para alguns) com as vacas antes mesmo de desconfiar que existiam medidas filosóficas nisso. Agora mesmo enquanto escrevo, lembro a sensação nas costas da grama da tarde quando deitava para adivinhar figuras nas nuvens. Só muito depois, vieram as nuvens de Baudelaire (digo do texto “O estrangeiro”). Diria que Goiás me deu sinestesias nos descompassos.
DA – O quanto Dheyne de Souza conhece Dheyne de Souza?
DHEYNE DE SOUZA – Nossa, essa é uma pergunta bem difícil. Inevitável: o quanto nós conhecemos de nós? Não sei. Eu olho para a pergunta e me pergunto se você (também) vê duas pessoas ou se vê apenas uma. Logo em seguida, penso que enumerar seria sempre impreciso. Mas, no geral, fugindo desavergonhadamente da pergunta, diria que pouco. Sendo um pouco mais aventureira, talvez, confesso que brinco de algumas camadas nessas identidades relacionadas ao nome, à linguagem. Confesso também que, no meu processo de escrita, às vezes acho que a personagem me conhece melhor do que eu a ela (estou com essa impressão atualmente, na escrita do meu romance, o que dá certa medida de angústia com a personagem). Eu considero um pouco difícil explicar essas situações de uma forma lógica ou sintética. Ou talvez seja um mistério. E se for mesmo, parece que, de qualquer modo, a gente se conhece pouco ainda.
Dheyne de Souza / Foto: Helô Sanvoy
DA – Sabendo que as águas do imenso e caudaloso rio da vida se movimentam constantemente, coloco novamente a pergunta que te fiz por ocasião da nossa última entrevista, em 2012. Afinal, por que escrever?
DHEYNE DE SOUZA – Antes de responder (ou de me esquivar de, rs), gostaria de deixar registrado o quanto fiquei feliz com a edição de “lâminas”. Agradeço muito ao meu companheiro, Helô Sanvoy, por ter feito uma obra especialmente para a capa do livro e com tanto diálogo com os cortes e alinhavos. Também fiquei emocionada com o trabalho cuidadoso e com grande medida de olhar poético de toda a equipe da martelo casa editorial. Agradeço a todes e particularmente ao meu editor, Miguel Jubé, pelo carinho e respeito com o objeto e subjetivo livro. O trabalho da Martelo, como o de tantas outras pequenas e médias editoras hoje no país, e a presença numerosa de revistas virtuais, como a Diversos Afins, têm sido, na minha opinião, sinais de resistência fincados neste nosso presente tão, para dizer o mínimo, difícil. Ter “lâminas” registrado neste 2020 significa muito para mim e me embala uma força para seguir trabalhando, com tantos exemplos de coragem aos redores. Sigamos! “N’oré Îukaî Xûéne!” Bem, sempre acho essa questão difícil de responder. Costumo dizer que é mais importante que comer, para mim. Mas é uma ficção até isso, avaliando bem. E se a gente cavucar um pouco, chega em subterrâneos ainda hoje muito íngremes. Então, se me permite a “leveza” do aparente fim:
esquife
de tudo isto, o que levar
o queixo alto, as páginas viradas
a lembrança amarelada do que latejou
algum sinal que sobrou no cenho, no colo, na velocidade do silêncio
quem sabe nada
nem serenos
hão de ocupar todas as horas
vezes algum lampejo de memória
como um livro em que nunca se banha duas vezes
de tudo isto
quem sabe tudo
não passou de pesadelo
e antes de terminarem as últimas linhas
já foram lavadas
levadas as mãos
e de dor nunca se soube
(poema inédito)
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.