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139ª Leva - 06/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Alexandre Pilati

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

[O amor]

 

Eu te dei o nome do fogo
E todas as ruas se tornaram
Urgência por aquilo que inventas.
Desde então, os anjos sobre a cidade
Desatinaram enlouqueceram rebentaram.
E todo instante em meu corpo
É um cristal em febre
Que tece a marcha doce
Da luz azul que se chama amanhã
E se apossa das palavras que inexistem.
E meus olhos são essa corrente
De flores estendida entre a lua
E o pequeno coração dos pássaros.

 

 

 

***

 

 

 

[Bate outra vez]

 

ei pombos de aço
de pedra que habitam
elétricos dentro do meu peito

aquietem-se acalmem-se
esta gaiola de carne e pejo
prende-os e todavia os ama

juntos vamos ao fim do caminho:
é certo é justo eu quero e eu preciso –
sem estes arrulhos sou uma coisa sem revolta

mas não vistam tantas patas de cavalo
não cisquem não sapateiem tanto
assim as cãs do meu coração

prestem atenção neste corpo
de pinho que vem agora ao meu socorro
sintam este abraço de calma

em que me segura o violão
com que disfarço o desespero
em que me abrigo do tempo

 

 

 

***

 

 

 

[Caracol]

 

livros que li

esta casca
de peles e palavras

esta casa
de danças e dilema
que me fiz

patuá de afetos
que me protege
por dentro de mim

 

 

 

***

 

 

 

[Crescente]

 

Venha como a tatuagem
Que se faz às costas do medo
Venha como o risco da fantasia
Que nos acode na noite
Venha como o sorrir sutil
Que é estigma do segredo

Venha, deflua, passe
O mês é longo, a arte é breve
Mas, ante tudo, venha e grave
Desfaça o desespero
E nunca vá embora
De dentro do céu
Esteja nos lugares-espaço
Nos mais distantes ângulos
E no aqui afim aos cantos também

Como o amor
que nunca muda
Que nos fica escondido
Ainda que eterno
Nas carnes do miocárdio
Seja aí em cima
O pólen que as mães agitam

Abra-nos as mãos
Talhe o não e o talvez
Venha, seja em nós:
Que queremos tão pouco
Que estamos mais humanos agora
Com seu pequenino reino de luz

 

 

 

***

 

 

 

[Réquiem pequeno]

 

à janela
impassível arrepio
olho o jardim feito o vidro
os olhos
bem abertos
à bela imagem do desamparo
a flor
pétala dormente
aponta os pés para o zênite
só eu
sou capaz
de guardar essa flor aqui dentro
jardim outro
não há onde caiba
a eternidade que se eletriza no perecer
 

 

 

***

 

 

 

[Noctâmbulo]

 

a palma da mão é silenciosa e longínqua.
a paisagem dorme em nossos olhos independentemente.
não está parada a forma rígida que ampara o amargo olhar.
a paisagem é um ângulo de guinada apenas calor.

as árvores estão em fogo e não dormem jamais.
e não morrem jamais as árvores em fogo.
a palma da mão tem a agonia da ação, da febre.
o fogo enlouquece e solta sua vida.

as árvores são rochas, estátuas, de sono.
as árvores dormem dentro da paisagem e não sofrem.
a palma da mão não salvará as árvores e sofre.
as árvores queimam sonâmbulas na paisagem de fogo.

ardem, aceitam, não fogem, dormem
as árvores: sonham rigorosas com a liberdade
que sabem parir de dentro das cinzas.

a palma da mão, em sua ânsia,
é pura plástica; inútil geometria da vigília
– coisa que se queima distante do fogo.

 

Alexandre Pilati nasceu em Brasília – DF em 1976. É poeta e professor de Literatura Brasileira na Universidade de Brasília UnB. Publicou quatro livros de poemas: “sqs 120m2 com dce” (NTC, 2004); “prafóra” (7Letras, 2007); e “outros nem tanto assim” (7Letras, 2015) e “Autofonia” (Penalux, 2018).

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Helena Arruda

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Corpo-cicatriz

 

meu corpo-mundo é conquista diária,
ponte entre a natureza e o caos:
desejo-essência-sofrimento-luta.
[resistência]
moro em cada corte do caminho:
no meu ventre, nos meus seios,
no meu assoalho pélvico,
nas minhas entranhas, na minha voz.
meu corpo, cartografia de quereres,
é um mapa,
paisagem milimetricamente desenhada,
cicatrizes que dão a exata direção:
rios e montanhas e
mares e oceanos e
planícies verdejantes e
areias quentes e
vales profundos para sempre tatuados por um bisturi,
para estancar minha dor
[não estancou].
meu corpo-cartográfico hoje é pele suada por seus sais,
palmilhado por suas mãos generosas, calmas.
corpo demarcado por seus beijos e
guarnecido por suas palavras macias, amáveis.
[corpo-multidão].

 

 

 

***

 

 

 

Roupa sem corpo

[ou releitura]

 

hoje,
o melhor corpo para minha roupa
é aquele descoberto
das exigências
que o tempo traz.

 

 

 

***

 

 

 

Roupas velhas

 

minha dor são flores descoloridas
[do meu jardim]
que duram o tempo necessário
[saturação]

parto e permaneço aconchegada a mim

meu corpo, pedra áspera
à mercê das águas da cachoeira

[espera]

equilíbrio e falta,
estar e não-estar

sou pedaços de roupas velhas
cerzidas pelas agulhas do tempo

vejo todas as veias pulsando
na imensidão do meu corpo:

[pulso-sangue]
[mundo-pulsa]

vivo na emboscada da vida

minhas mãos envelhecem
à medida da minha dor

meu corpo é dor e desejo,
viço e cansaço

[grito]

na feitura do meu poema,
desfaço nós,
construo espaços
e atravesso sombras
[enxergo]

 

 

 

***

 

 

 

Amor

 

sei que é possível transcender pequenezas
transcendo o azul-griverdoso dos seus olhos baços
e sigo
[lutando]
a vida é mais que existência
a vida, meu amor,
é resistência.

 

 

 

***

 

 


Espaços

 

quando começo a pensar no espaço que ocupo,
penso nas palavras
e folhas em branco

meu espaço então se torna habitado,
porque o azul do infinito sobre ele
o preenche de riscos
que se entrecruzam
e formam palavras

se as palavras fazem sentido?
não sei, arrisco

aprendi a inventar mundos
e a ocupar espaços
com a tinta da imaginação
e o borrão da memória

nada mais.

 

 

 

***

 

 

 

Istmo

 

ela trazia o azul do mar
na vastidão da alma
[corpo]

e as montanhas,
entre o istmo e o coração
[sentido]

curiosa, escalava
incessantemente a vida
na tentativa de encontrar
o sol.
[liberdade]

 

 

Helena Arruda nasceu em Petrópolis, RJ. É mestra e doutora em Literatura Brasileira (UFRJ). Poeta, contista, ensaísta, é autora dos livros “Interditos” – poemas (2014); “Mulheres na ficção brasileira” – ensaios (2016), ambos pela Editora Batel; “Corpos-sentidos” (2020), Editora Patuá; “Há uma flor no abismo” (poemas) e “Mulheres de A à Z” (contos), com lançamentos previstos para 2021. Suas publicações mais recentes constam do livro de ensaios, “Ficção e travessias: uma coletânea sobre a obra de Godofredo de Oliveira Neto” (7Letras, 2019), do livro de poemas antifascistas, “Ato Poético” (Oficina Raquel, 2020) e da antologia “Ruínas” (Patuá, 2020).

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Samantha Abreu

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

IV

 

Os pelos de uma mulher crescem tão silenciosos
que
não sabem deles os grandes debatedores políticos,
os educadores de biologia,
os poetas inspirados pelas musas.

Nenhuma legislação precisa ser criada para que os pelos cresçam inabaláveis,
não precisam de autorização para tomarem o corpo como se conquistassem um reino.

Não escutaram seus ruídos os compositores que foram capazes de finalizar o Réquiem,
não são perceptíveis aos cineastas iranianos nem cabem no silêncio do menino Antoine Doinel olhando as franjas das ondas.

Os pelos brotam no rosto de Clémentine Delait
sem que os bichos sintam inveja, sem que um gato se arrepie diante do mistério,
Senhoras Doloridas enfim não precisam inventar encantamentos para seus rostos de cavaleiros.

Os pelos de uma mulher crescem tão silenciosos
que
somente ela os sabe
quando se observa e se acarinha,
a aspereza das pontas abrindo os poros.

Algumas profecias dizem que
todas as vezes
que uma mulher corta, raspa ou depila seus pelos
– tomando para si o disfarce da lisura -,
seus restos descem pelo ralo e alimentam os monstros que um dia invadirão o mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Putas

 

Elas passam pelas ruas de todas as horas arrastando pedaços de seus corpos anteriores,
pedaços de suas trompas,
suas pontas de astros.
Passam altivas carregando o peso de antigos seios de tantas mamadas,
braços marcados por unhas e barbas,
genitálias explodidas por muitos nãos que foram ditos entre berros,
cabelos enozados por coágulos e vômitos cuspindo dentes.

Caminham juntas, passo a passo, cantando dolorosamente sua elegia da carne viva, enquanto as ruas as observam
quase vivas,
garantidas por um mandado de segurança: cem metros de distância
e maquiagens de alta definição – uma renovação pela graça de grandes laboratórios dirigidos por homens cientistas.

As boas pessoas que assistem ao cortejo rezam de cabeça baixa pedindo
a benção do esquecimento, mas as mulheres seguem
ensanguentadas
em direção ao espaço reservado aos que pagam penitências e culpas: putas!

 

 

 

***

 

 

 

Uma mulher é uma imagem em pé

 

Uma mulher caminha roçando suas asas nas pernas dos sonhos
e as asas flamejam e estalam,
as asas chicoteiam quando a mulher se levanta pisando no acolchoamento de nuvens.

Sempre que a mulher se ergue
– de dentro do vapor suado que circula o mundo –,
sempre que ela se mostra, sempre que a mulher caminha

eu entendo que anjos e demônios usam seu corpo,
que anjos e demônios se irmanam

sob as formas que ela encontrou de entender o mistério.

 

 

 

***

 

 

 

As rezas que inauguram o dia

 

Há algum tempo eu me convenci de que poemas estão no início e no fim.

Então me levanto pela manhã com metáforas enroladas na língua; com visões plenas de abismos.

Não respondo um bom dia sequer,
mas já repeti dois ou três versos em silêncio, um ritmo mental,
a incandescência do dia.
O poema do início, uma fundação.

Quando as lutas se acalmam e se abaixam as espadas,
eu volto ao poema em busca do fôlego, o fim da fadiga.
Abro os vãos da casa e avisto um descampado,
infinito campo de unguento.

O poema que é fim de tudo,
o impronunciável: um soluço que interrompe a lágrima.

 

 

 

***

 

 

 

Da incapacidade de matar o poema

 

Você mira a boca aberta do poema e mete nela meia dúzia de tiros;

Você observa a ontologia do poema enquanto espana o ar com as mãos para dissipar a fumaça dos tiros;

Você quer se vingar da arrogância do poema que decorou as sagradas escrituras do seu tórax;

Mas você mal suspirou aliviada e o rabo do poema já concedeu a ele um novo corpo de matéria pegajosa;

O poema rasteja e imobiliza seu assombro quando você dá de cara com o fenômeno:

O corpo asqueroso do poema é sua própria mão.

 

 

 

***

 

 

 

Eu tenho nas mãos o coração de um pássaro

 

Eu abro o peito do pássaro: sinto o coração bater na ponta do dedo
e tenho penas de todas as dores
enquanto o pássaro me observa segurando seu coração.

O pássaro ainda se debate com violência
mas não pode voar
e eu já não sei mais como devolver-lhe as palpitações,
pois a morte agarrou minhas mãos e está tentando fechá-la.
Ela quer esmagar a beleza do coração que pulsa,
a beleza,
ela quer parar o coração do pássaro.

Eu não resisto e esmurro fortemente o chão,
deixando que o sangue dos meus dedos se misture ao do coração dilacerado.

O pássaro emudeceu e não me olha mais.

Então eu sepulto seu pequeno corpo sob todas as formas que tenho
de gritar em silêncio

 

Samantha Abreu é escritora, professora e pesquisadora, mestre em literatura brasileira pela UEL. Participa e organiza eventos literários e publicou os livros “Fantasias para quando vier a chuva” (Orpheu, 2011); “Mulheres sob Descontrole” (Atrito Arte, 2015); “A Pequena Mão da Criança Morta” (Penalux, 2018). “Debaixo das Unhas (Olaria Cartonera, 2020). Também já foi publicada em antologias, sites, revistas e teve textos adaptados para o teatro. Integra o Coletivo Versa, que pesquisa e divulga autoras londrinenses.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Tales Pereira

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

ÓBICE (1)

 

Deitei sob a terra
Medos infundados
Geleiras afundaram-me
Em fractais anseios

Tudo faço em ciclones
Tumulto na sala de estar
A anfitriã opaca
E o café frio do sono
Convida-me ao deleite
Bolos mofados
E sonhos escatológicos

Revirei o celeiro
Entre plumas e palhas
Para enterrar-me no agulheiro
Pântano de pontas soltas

Subi ao sótão
E aspirei as lembranças
Bati tapetes
Amamentei traças
Servi pulsos aos cacos de vitrais
Fiz guisado de tempo
Com sobra de ossos
de meus antepassados

Varri a varanda
Inaugurando passagens
Entulhei pecados
No tapete surrado da porta
Dancei com folhas vencidas
De qualquer outono

Plantei heras e horas
Na murcha véspera da tarde
Reguei-as com águas de soluço
Cortei videiras atrevidas
E suas hastes indevidas
Colhi azevinhos
Na espera infértil
De quem sabe um beijo seco

Talhei entranhas
Com a faca da cozinha
Mil cortes
Em minha espessa pele
Com bílis aspergi os cômodos
Cruzei o corredor
Em tudo untando
E bendizendo
Risquei no chão
Áspero alicerce
O início da chama

 

 

 

***

 

 

 

PILATOS SE BANHA

 

Eu hoje volto
Com as mãos sujas de sangue
E não sei de quem
Já secou e mancharam
Vestes brancas e encardidas
Da sujeira do mundo

Tentei alvejá-las
Mas o cheiro fica
Entranhado na mente
Inundando as narinas

Ouço as vozes
De corpos que gritam
E o pavor me acorda
Em noites insones e nebulosas

Olho para as mãos
E estão rubras
Um alerta indelével
E as cubro com luvas
Para esquecer o sangue

Saio nas ruas
Paralelepípedos violentos
Jogados contra um crânio qualquer
Lançam-me num mar sangrento
Vejo vísceras e miúdos
Numa carnificina aterrorizante
Mas fecho os olhos
Tapo os ouvidos
Emudeço…

Sobram delitos
Para cada morte sentenciada
Tento convencer-me
Há no silêncio a virtude dos justos
E quem se resguarda
Tem o privilégio da vida

Sigo pela rua deserta
Não pela falta de gente
São seres de retidão
Que não gritam e nem se aborrecem
Inofensivos e cheios de bem
De branco trajados
E com luvas
Mesmo distante o inverno…

 

 

 

***

 

 

 

ARREMETIMENTO

 

Faço compêndios
Arrisco inscrições
Dentro de páginas ariscas
Eu sangro letras
E cada gota
Já é minha parte
No pacto maculado

Embaraço lãs
Entre agulhas agonizantes
Meu tear tem pressa
Em capturar
O fio do nada
E sua tenuidade
Na tapeçaria do tempo

Lavro atas obscuras
Cego no labor de sectários
Assino no anverso
O lado de fora
Da minha pele fugidia
Meus dias são documentos
Arquivos do morto passar

Corto a fita de cetim
Inaugural arquitetura
De voltas retorcidas
Abro esse mesmo caminho
E o pavimento
Sob o que em mim
Desiste e não recomeça
Curvas precedem
Diagonais flutuações

Abro imensas galerias
Nessa terra que há
Em busca de cínicos cristais
E nada do que busco
Minera a dor
Já o magma flui
Tão denso queimor
Meu solo alcalino
Ferido em ravinas

 

 

 

***

 

 

 

A BOTA ACIMA DOS PESCOÇOS

 

A bota acima dos pescoços
Brilhante e ilustríssima
Engraxada na melhor saliva
E com panos caríssimos
De decentes cidadãos

A bota acima dos pescoços
Dizem que é cega
Tal qual a deusa da balança
Mas tem forte predileção
Por tingir-se de sangue retinto

A bota acima dos pescoços
Curtida em puro couro militar
Orgulho da pátria
Item customizado na nação
Uma bela babá para o sono das elites

A bota acima dos pescoços
Pisando vigorosa no chão
De favelas e subúrbios
O solado tem fome animal
E devora ossos marginais

A bota acima dos pescoços
Pisa em folhas flutuantes
Balé adestrado e perfeito
Quando dança nos salões
Dos bairros da nobreza

A bota acima dos pescoços
Sabe de toda a carnificina
E sente-se orgulhosa
Do seu idioma de dor e violência
Abatem presas para um deus odioso

Os pescoços debaixo da bota
Ouvem a sinfonia macabra
De ossos partidos
E seus gritos desvanecem
Há falta de ar no país
E os pulmões precários
Tentam capturar
Qualquer sinal de vida

 

 

 

***

 

 

 

À NOITE NO BATEKOOL

 

Vejo línguas infames
Mortais verbos
De afiar navalhas

Esparramam na rua
Closes certos
E muito atrake
Abrindo esparcates
Em pernas longuíssimas

Giro pombagiresco
Voam as mechas
Das laces alucinantes
Cabeças como rodas da fortuna
E o futuro é tombamento

Magias profanas
Antigas conjurações
Ocultação dos mistérios
E o universo acuendando
E tudo sumindo
Num buraco negro

A Super Lua montada
Do céu brindava
E fazendo o lipsync
Banhava todas
Criaturas insubmissas
Na fronteira
Da folia
Daquelas que apenas
Deslizam

 

Tales Pereira. (Ar)risco versos desde os nove anos e até agora tenho essa maquina rota de fazer versilharias. Trago também meu corpo de beesha para esta tessitura, e uso desse verbo viado para enviadescer palavras e conceitos. Tenho vários palcos para uma multidão inquieta. Às vezes Thallyz Mann vem rodar essa gira comigo, ou eu com ela e vice-versa. E vamos todas girar: a doutoranda, a aspirante a performer, a cantora de chuveiros e tantas outras.  

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Léa Costa Santana

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

Urgência

 

Desistir enquanto há tempo e ensejo
Da casa sem frestas, das portas fechadas,
Das flores murchas e seus vasos quebrados,
De todos os domingos em branco e preto.

Desistir enquanto há tempo e ensejo
Das mãos que prendem sem nenhum abraço,
Das palavras mornas, do amor minguado,
Do sexo sem nenhuma estrela acesa.

Escrever cartas para o Papai Noel,
Fazer pedidos a estrelas cadentes
E aos santos meninos rezar novenas.

Aprender a pular as sete ondas do mar,
Construir torres e castelinhos de areia
Para neles se abrigarem as sereias.

 

 

 

***

 

 

 

Testamento

 

Ela bem sabia não fora amor.
Porém, casada. Por onde a coragem?
Não poucos lhe diziam: “É bom moço”.
Que pensasse nos filhos e no lar.

Ela bem sabia não fora amor.
Porém, calada. Por onde a coragem?
Era trêmulo o amarelo das dores
No recôndito do peito sangrado.

Ela bem sabia não fora amor.
Corpo tomado, rasgado, calado.
Os filhos distantes, partira o esposo.
Restaram as grades e os cadeados.

Ela bem sabia não fora amor.
Olhar tíbio, desejos sufocados.
Como ser corpo após tanto repouso,
Ferrolhos na voz, o riso guardado?

Ela bem queria ter sido amor.
Como bicho, como puta. Gozar
A liberdade de se prender ao outro
Em delírio: língua, dedos e falo.

Ela bem queria ter sido amor.
Como bicho, como puta. Gozar
As delícias do sexo sem pudores.
Amar sem limite, amar sem recato.

Ela bem queria ter sido amor.
Juiz impiedoso, amarelado,
O tempo, agora convertido em flores,
Espiava a urna a ser lançada ao mar.

Ré sem culpa, morreria de amor
Como bicho, como puta. Gozar
As delícias de se entregar ao ardor
Do corpo que para si resgatara.

 

 

 

***

 

 

 

Corpo calado

 

Por que tão tarde na rua?
– Ela desejava: era puta.

Por que tão curto o vestido?
– Ela provocava: era perdida.

Por que o rebolado e a cerveja?
– Ela queria: era rameira.

Por que tão feliz e risonha?
– Ela pedia: era piranha.

Estava sozinha a devassa.
Batom vermelho, talvez drogada.

No beco, no escuro:
Vestido rasgado,
Corpo violado.

– Puta, rameira, perdida!
Em deboche a polícia.

Na maca, às escuras:
Corpo sangrado.
Feto gorado.

– Acaso não merecera?
Em potestade a Igreja.

No túmulo, às claras:
Um corpo pálido.
Calado.

 

 

 

***

 

 

 

Urbanidades

 

A moça não parava.
Corria de um lado para o outro.
Arrancava os cabelos.
Dizia palavras desconexas.

Pintava-se de azul turquesa.
Pegava carona na lua.
Comia nuvens de algodão.
Brincava com os anjos do céu.

Era de vidro, de tons incolores.
Chovia lá dentro, no peito.
Alguém levasse suas águas.
Era o clamor da moça na rua.

Que se chamasse o padre.
Ela queria confessar seus pecados.
Que se chamasse a polícia.
Ela queria confessar seu delito.

A moça sangrava.
Franzina, quebrada.
O trânsito parado.
Todos absortos.

Fumaça.
Trinta e três.
A cola e os pivetes.
Meninos e meninas.

Picolés e chicletes.
Tesourinhas e bonés.
Um real.
Dois reais.

Sinal vermelho.
Pavor e medo.
Luzes apagadas.
Vidros fechados.

 

 

 

***

 

 

 

Escrevivências

 

Num canto da sala, estava Nininha.
Nunca, dos lábios, um som ou palavra
Para que se percebesse a menina.
Dizia-se: “Nascera muda, coitada!”

Tudo, porém, era voz em Nininha.
Os olhos choviam e as mãos sangravam
Inscrições da cálida pequenina
Nas mobílias e paredes da sala.

Pura maldade: ceifaram paredes
E queimaram a madeira mofada.
“Tragam papel!”, implorava Nininha

Para compor registro de segredos
Escondidos nas ruínas sangradas.
Narradora de enredos, a Nininha.

 

Léa Costa Santana é doutora em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestra em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Especialista em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Professora de Literatura Brasileira da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Integra as coletâneas “Contos de Natal” (Lura Editorial, 2019), “Natal com poesia” (Biblio Editora, 2019), “Canarinho” (Porto de Lenha, 2019), “Toca a escrever” (In-Finita, 2020) entre outras.

 

 

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Janela Poética I

Michaela v. Schmaedel

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

NATURALIDADE

 

Todos os poemas agora
são habitados por você
e também as montanhas,
os rios, as árvores desfolhadas
deste inverno rigoroso
e também o sol,
o fogo que arde na floresta,
as notícias tristes.

Você vem disfarçado,
então de repente você é
um livro, um animal que escapa,
um filme antigo, uma música.

Você está na palavra aparição,
na palavra afeto, na palavra gesto.

Você é este terror, esta avalanche,
esta luz, esta onipresença selvagem.

 

 

 

***

 

 

 

MAR ABERTO

 

Naquele dia
em que você me puxou
pelo braço
com força
para cima
eu já não respirava.

 

 

 

***

 

 

 

VISÃO

 

Te encontrar numa praia
de areia muito branca e mar muito azul.
Pegar os teus dois olhinhos marrons
e colocá-los num vidrinho em cima
das pedras brancas da encosta.
Ficar ali a ver o mar
e a olhar os teus dois olhinhos
e a lembrar que nem tudo
o que está posto no mundo
é para se pegar com as mãos.

 

 

 

***

 

 

 

AUTORRETRATO

 

Imaginas que, também aqui, no frio absurdo do museu, acompanhada do barulho excessivo das marteladas do andar debaixo, da minha total descrença no mundo, do meu coração cansado, até aqui, ou melhor, também aqui, estou a ver o autorretrato de Lucian Freud e, por qualquer semelhança boba (rugas fundas, olhar parado, cara perplexa), estou a pensar em ti. Teriam então que acabar todas as pinturas de homens tristes para acabar também isto: a lembrança de ti em lugares estapafúrdios.

 

 

 

***

 

 

 

ZEN

Para Tito Leite

 

A vida ligeira das moscas
ensina tanto quanto
a cerimônia do chá.

No Tibete ou aqui na cidade
de São Paulo
o mesmo calor infernal
a mesma desilusão
o mesmo trabalho pesado
(nesta tarde, desisti da poesia).

É sempre isso:
a vida, esta artimanha
eu, a mosca morta.

 

 

 

***

 

 

 

MINIMALISMO:

 

o cheiro da toalha que seca ao sol
o cheiro do sol
o sol.

 

 

 

***

 

 

 

VISTA (II)

 

É preciso ver um ponto à frente

seguir
seguir
seguir

como um camelo
esperançoso
no deserto.

 

Michaela v. Schmaedel (1976) é jornalista de cultura, nasceu e mora em São Paulo. Nos últimos anos, tem se dedicado à poesia, além de escrever resenhas sobre literatura para jornais e revistas. Cursou o Clipe (Curso Livre de Preparação do Escritor), na Casa das Rosas, e oficinas de poesia com Angélica Freitas, Tarso de Melo, Ismar Tirelli Neto, entre outros poetas brasileiros. “Coração Cansado”, lançado pela editora Penalux em junho de 2020, é seu primeiro livro de poemas.

 

 

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Janela Poética II

Ramayana Vargens

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

FLORESTA DE MIM

 

Tristeza, tédio ou transbordamento.
O desespero solitário da noite
aprende na espera penosa
da aurora ou crepúsculo.

Tronco, galho ou raiz
faço folha, flor e fruto
.do sumo da terra que sugo
e do vento que bebo da lua.

O sangue que me faz
viva planta verdejante
.viçosa
é seiva de sol derretido,
ouro em pó das estrelas,
fogo e luz no sereno do mar.

 

 

 

***

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

Filho da palavra
trabalho
o estilhaço do verbo singular

Irmão de órbita
exponho
a vez no espaço do salto pessoal

Companheiro do triz
frequento
a invenção desigual do saber

A lâmpada perpendicular do sol
não apaga manchas suspeitas
na bacia das estratégias de emergência

 

 

 

***

 

 

 

FRUTOS E VÍNCULOS

 

Fugidia e frívola alforria
é tornar-se refém sem futuro
ou fiel funcionário afetivo
dos laços ferozes
das paixões fugazes

 

 

 

***

 

 

 

DITOS BRAVOS

 

Ricos versos
côncavos convexos
complexos íntimos
tímidos reflexos
curvos riscos
sádicos perversos
.ínfimos trapos
fixos nas tripas

 

 

 

***

 

 

 

VIM DE LÁ

 

O mundo é o resto
do quase nada que sobrou
quando o universo aconteceu
no buraco negro que explodiu
no vazio da inexistência

 

 

 

***

 

 

 

!?…

 

Moro dentro da minha cabeça
nunca tirei férias do coração
Ficar pensando é meu desemprego
Permanente

 

 

 

***

 

 

 

FAUNA DOS VERSOS

 

O lado bicho do poeta
guarda instintos animais
misturados
no seu espírito de gente

Nas invenções
é macaco esperto
ferramenteiro improvisador
No salto
se faz felino adestrado
no tino da distância precisa
O impulso persistente
quando ousa
vem dos cães que vigiam montanhas
Na potência preferiu ser cavalo
não touro

O bicho poeta se veste de camaleão

 

Ramayana Vargens é Jornalista, professor de literatura, contista, poeta, autor e diretor teatral. Carioca, naturalizado baiano. Membro da Academia de Letras de Ilhéus.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Galvanda Galvão

 

“Muita fumaça na cabeça”: Claudio Parreira

 

3la

 

ela acendia todos os cigarros
adorava a memória dos dias
a pressa e as caixas
globos de fogo nas mãos, a corrosão

no burburinho do barco ouvia-se toda a família
a mãe o irmão da mãe o pai numa fotografia obscurecida
não se falava ali
ela insistia numa cantilena
não a conheço e a amo
inventava sinais pra abrir labirintos
vozes nos corredores
a indeterminação
a sombra
a repetição  –  fica
demoro-me numa obra aberta
espero o mar

 

 

 

***

 

 

 

se você me encontrar? atravessa-me

 

ela sob a muralha da China
instinto de liberdade diz
a companhia presente de solidão
mão pé um corpo nas manhãs
a noite não tem cor
grafava as linhas caídas do papel
abstraía vendaval com barbitúricos
a massa gritada no comercial atrás da porta
a raiz quadrada
o fazer
havia um nome no indeterminável
não ser ela resquício de existência
meudeus
triturava as correntes o sal
a barbárie no giro do relógio
quebrar a cabeça
soprar as minhocas

estamos e não estamos
num mundo voluntariamente sibilino
precisão de certeza

 

 

 

***

 

 

 

protocolo clinico e diretrizes terapêuticas
essas palavras ecoaram quando desenhava o risco
Michaux num alfabeto não nomeado
todas as letras escapavam
davam-nos sinuosas sombras
fechava os olhos
círculos birutas prolegômenos ou introdução
o feminino são dois
pedras adensavam a ventania
meu suor e medo estáticos
raízes em doses homeopáticas

um bárbaro pinta Beatriz vermelha
performance erótica de um anjo
contra uma identidade trágica a violência da serpente
rasgava a bula
não acentuava palavra

 

 

 

***

 

 

 

ela pensava as trilhas com K
no Egito o sol tem os braços peludos

nos mínimos detalhes
o pertencimento
a realidade no caos reverbera

perto desarranjava
a língua os objetos
fora de lugar
único e multiplicado
pele transparente
pulsa ante a força aquática
o que está junto se mistura

palavra-mão
o infinito
pergunta insistente

sem pressa continuar

o vão o silêncio a montanha
na pedra o deserto
superfície, abismo
memória instantânea
o corpo extraviado
o que fica da aparência
vigor destilado
cadente morte
…………………………………………. [outra

 

 

 

***

 

 

 

o peixe elétrico
saltava Sodoma
em verso Dionísio
havia de beber
uma precisa liberdade
cogitava montanha
era rio
singular obsceno
tocava estrelas
viragem
explodia num corpo seu outro
guelra sangue coadunado
na pedra penetrava
lusco fusco burburinho
memórias acendiam o presente com cara de homens
a rede a morte
estendia olhos e dentes
ele sabia voar guardava um desassossego

 

 

 

***

 

 

 

Ela n.2

 

as mitologias nas prateleiras
num não lugar, diz-se, virtual
ela observava catálogos
páginas abertas para uma expressão singular
uma repetição contínua
a obsessão e o jogo
amianto na cidade, sufoca e protege

pulmões, árvores condicionados
o destino não enxerga correspondência
uma cartomante entrega muiraquitã numa piscadela
lembro de Levi Strauss
as palavras dela são as primeiras apagadas
vício de linguagem, sobrevivência
esta carta deve ser enterrada
afirma
já nem sei quem fala
os funâmbulos em páginas
mensuraram questões pontuaram
voltava às prateleiras

não lembrava o nome do deus

 

 

 

***

 

 

 

eu era Ana
avesso Cesar
cigarros e bombas
pensei
imaginava estrelas
queria enxergar longe
tocar estações
galo e sol enredados
cartografar continentes
carregar questões
ruminar o vazio na barriga do rei
varar geleiras
adentrar a pele
colar a sombra
descabelada voar

 

Galvanda Galvão, videoartista, colagista, fotógrafa, professora e escritora do livro UMLANCEDEDENTES da Edições Do Escriba & uxi.cão, 2017, reedição, 2019 e AMENINAANOLIMOC da editora uxi. Cão, 2013. Sou pesquisadora do PPGARTES-UFPA em Cinema sob orientação do Prof. Dr. Orlando Maneschy.  Participo do Projeto plataforma Kaquiado do Preamar de Cultura e Arte da Fundação Cultural do Pará coordenado por Felipe Pamplona 2020.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Wesley Peres

 

“Angústia”: Claudio Parreira

 

 

tatuagem
sonora nº2 para
criança de seis
anos e oboé

 

……………………….O  HOMEM COISA CÓDIGO  alguma
invertebração   recifra a  angústia  substância  limítrofe
e análoga ao  silencioso  gozo  sonoro   em  sua  morte
instilada  nos poros gemidos  bordas  erógenas  fazem
vibrar os  átomos  até  sangrarem  também  o  lugar do
corpus   da    palavra    minério   inervado  resto  vivo  o
nada   dos  corpos  ancestrais, rastros ventos pássaros
passaram     alando    túmulos    de    cadáveres    vivos:
palavras.   Gerações   passadas  restos  de cotidiano  e
restos     pelos    sonhos    sonoras   vertebrações   em
vértebras  vértices   remoendo o corpo parolando com
a morte esse eutro na sala enquanto o meu pó da pele
ele                     se iluminam de objetos

 

 

 

***

 

 

 

atoms at work

para Campos de Carvalho

 

A maçã sobre a cadeira.
Uma noite, dentro da maçã.
A criança, sequer vê o vento,
senta-se, trincando a noite
da matéria
(Os cães, sim, latem —
..os únicos a escutarem o instante
..em que o mundo se torna o mesmo).

 

Um homem esperando o trem

adivinha a criança

é mais feliz do que o outro
aguardando a eternidade.

 

A chuva imóvel contém
nossos possíveis passos.

A infância é mesmo indestrutível.

 

 

 

***

 

 

 

Poema gerado de implosões  do
Levítico      e      de    impressões
deixadas por haver   acontecido
o que não acontece em Goiânia
1987

 

 

E   ACONTECEU  O  QUE  NÃO  ACONTECE  E  DESCOBRIU-SE   QUE  AS  foices
também  podem    ser      azuis  e   foi um pássaro   amitológico   mortoabertorasgado
pela invisível  lâmina  azul que simulava  cidade  vista  de   cima  e à noite no corpo nu
da mulher  de longos  cabelos   dona  do   pássaro  amitológico   mortoabertorasgado
e  foi   na  cidade  de   sol   sólido  e  em  setembro  e  o sol  sólido  da cidade  e  tudo
permanecia   quando   alguma   pessoa   tocar    em   corpo   morto    ainda   que   não
soubesse,    contudo   será   ele  imundo  e  culpado. Culpada,  esse  o veredicto dado
pelo    polvo   de   mãos   alando   e  espedaçando  lápides  sobre  o  caixão da menina
eviscerada   pelo   azul  que  não  se  vê.   Porém  pode-se  usar da  gordura  de corpo
morto,  e  da  gordura  do   dilacerado  por  feras,  para  toda a obra, mas de nenhuma
maneira   a   comereis.  Invisível   e  sem  cheirodor  esse azul  esse maldororazul  que
captura   vísceras   e   lambe-lambeu   por   dentro  o  corpo  da menina  eviscerada  e
apedrejada    por     vozes     uma    verdadeira    aletria    sonora   corpodecão   outros
vitupérios singulares e  plurais.   E  aquilo  sobre  o   que  cair  alguma   parte   de  seu
corpo morto,  será  imundo;  o  forno  e  o  vaso de barro  serão  quebrados;  imundos
são.  E  quem   comer  do  seu  cadáver lavará as  suas vestes,  e   será  imundo  até  à
tarde; e quem levar o seu   corpo morto  lavará  as  suas vestes  e  será imundo  até  à
tarde.   E   todo   o   homem  entre  os  naturais,   ou   entre   estrangeiros, que comer
corpo  morto  ou  dilacerado,   lavará   as  suas  vestes  e se  banhará com água e será
imundo     até    à   tarde   e   depois   será   limpo.   E  devorada  de  azul  e   pedras  e
vitupérios   tentaram   fazê-la   ela   a  menina  eviscerada  morrer  uma segunda  vez,
assim como Judas  morreu    uma  segunda  morte  ao  trair  Cristo  antes  mesmo  de
morrer  a  primeira.   O  corpo  morto  e  o  dilacerado não comerá, para  que  não   se
contamine com ele.

 

 

 

***

 

 

 

AGORA SÓ ELA E SUA CAMA SÓ ELA  E seu
corpo    decalcado   na   cama.  Fala  decerto a
língua dos  mortos, decerto menos deserta do
que a língua dos  vivos.   Ela,  só,  na casa-de-
receber-enfermos.    Enfermo,   essa   palavra.
Recobre  apascenta a boca da palavra ausente.
(O homem crê em Deus e nas pedras. Sonhou
a clareza  de seus olhos implodidos densos de
um  imenso sol soletrado pelo calmo ninguém
que habita o homem só com o seu corpo).

 

 

 

***

 

 

 

HOMEM, SUAS MORTES
iluminam Deus e os seus restos.
Guardo-me em qualquer silêncio.
Coleciono matérias.
O corpo é um Deus sem nome.

 

 

 

***

 

 

 

FALAR É OUVIR O VÔO DE UM pássaro que
não  há,   deslocar   Deus  de  casa  e  não dar
nome.  Falar é  experimentar  entre o olho e a
coisa dada  o  que há não há. E o pássaro que
voa, voa na  polpa seca da  chuva  que  aresta
os   sonhos.   Falar   é   haver  morrido,  tocar
outra voz.

 

Wesley Peres é escritor e psicanalista. Autor de As Pequenas Mortes (Rocco), Casa entre Vértebras (Record), Corpo de uma Voz Despedaçada (Martelo Casa Editorial), dentre outros. Mora em Catalão-GO

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ângela Coradini

 

“A prisão da alma”: Claudio Parreira

 

29.

 

há coisas tão bonitas
ditas com seus olhos
que devia,
como já faz,
desenhá-las na minha história
e mais,
em mim

 

 

 

***

 

 

 

31.

 

e prendo na memória
o vo-lu-me
das suas palavras
reouço, ouço,
lambo
o tom da sua voz
e a graça
nunca se gasta

 

 

 

***

 

 

 

32.

 

o que mais desejo
é que o que me toma
sobre você
seja só desejo

que seja uma piada espúria
um rouco choro
uma tristeza forasteira
uma sede de saliva
que me nega todos os dias

que seja apenas efêmero
e que me coma
só agora
um pedaço de vida
do riso
do cérebro

que suas ignorâncias
dias sim, dias nãos
me arranhem a sensatez
como você
me arranha
a carne

que me aperte
ao invés de entristecer
que deixe suor nos corpos
e não sombras sob meus olhos

que esse seu maldito riso
endoidecido
quando me mira doida
sobre você
embebede
minha língua
minha vida

que você seja corrosivo
e que com seu grito leve
sua voz breve
deixe sob as minhas unhas
sua pele

desejo de infinita sorte
que se chame apenas paixão
que seja, assim só,
espasmo de pequenas mortes

que será árduo
e irresistível
que leve de mim a luz
me tire do silêncio
que cobre cada curva
me arranque o medo

desejo que tudo que saia de mim por você
seja perto daquilo que leva o nome de ligeiro

que me consuma
o sexo
em fogo
e ausência de ar

que me rasgue
o dia
que me queime
e deixe para o vento
só pó
e mais nada

e se só você me deixar
a ruminar esse desejo
rogo que não sejam seus dentes
irreversíveis
porque quero poder enfim
num dia, talvez,
soprar suas cinzas
todas elas
de mim

 

 

 

***

 

 

 

e
prendo
na memória
o ritmo
dos versos
de todos os teus
não ditos

 

 

 

***

 

 

 

o tempo desafinou
e você estava lá
estando apenas em você

 

 

 

***

 

 

 

que não eu

 

era meio da tarde,
e sob a luz esbranquiçada
que criava sombra sob os seus olhos,
testemunhei sua boca explodir numa curva festiva
um leve balanço no rosto
um riso mudo
desacelerando em uma expressão de ternura

e eu senti ciúmes

ciúmes do emaranhado de coisas
atrás daquela tela para a qual você sorria
que não eu

 

 

 

***

 

 

 

não venha mais

 

trazia um bilhete entre os dedos
deixou-se no centro da sala, soturna
sem soluçar, sem desabar sobre nada
escorregou o papel pela mesa
três palavras escrita
“não venha mais”

adorava o passado do papel na madeira
odiava a alma molhada na face dela
ultimas palavras, última atenção
tudo ressoava a mesma agonia

e no verso do mesmo bilhete
com o lápis de alumbrar seu olhar
ela escreveu, no verso da dor

“(…)
e são horas mortas
nós vencidas
cada nota dessa lamúria
dá cor a minha sangria
ritmando a farsa dela

e no embalo do que nos toca
entrando pela fresta dessa porta
sinto a amargura apertar

entregue e pedante ela
emparedada eu
presa na minha mania de amortecer
e enquanto ela se vai em tempo
peço perdão, mais uma vez, ao medo”

 

Ângela Coradini é uma contadora de mentiras na poesia, na teoria e nos roteiros audiovisuais. Tem doutorado em Cultura Contemporânea (UFMT) e é editora na revista eletrônica Ruído Manifesto. É autora dos livros “…já não podem ser amanhã” (Carlini Caniato, 2020), “Imagens-Espectro de Futuridades no Amplo Presente” (Edufmt, 2020) e “Quatro nós” (Carlini Caniato) no prelo.