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137ª Leva - 04/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Ricardo Thadeu

 

“Desespero”: Claudio Parreira

 

VOZ

 

Está tudo aí:

Os discos de heavy metal,
O último discurso do condenado,
O recado na agenda do ministro,
O bem, o mal, a torpeza
E a bunda em rede nacional.

Somos abonados pelo futuro.
E não há tropeço.

Há caminho.
………………Apenas um.

E seguimos por ele, em fila indiana,
Adiando o regresso.

 

 

 

***

 

 

 

BAQUE

 

Aposentei o velho discurso.

De longe,
Acompanho o curso da história.

Há tantas célebres frases
E nenhum acelerador de partículas.

Há tantas formas de amoldar
E nenhuma de embrutecer.

Penso nos debates, nas contendas,
Nos homens minúsculos,

No mormaço dos becos;
Penso na sorte dos imaculados

E no monge, na montanha,
A descobrir novos silêncios.

De longe, muito longe,
Acompanho o cerco da morte.

 

 

 

***

 

 

 

REALEZA

 

A corte do passado
Passou dessa
……….Pra uma pior:

O príncipe pop
Virou ator pornô;

A rainha do rebolado
Mendiga likes e views;

O imperador
……….Do reality show
Foi achado morto.

A corte do passado ─
Quem diria? ─
Passou dessa
……….Pra uma pior:

Subiu às nuvens
Em arquivos virtuais.

 

 

 

***

 

 

 

ESCONDERIJO

 

Só acredito no que não sinto,
No mistério, na pergunta eterna.

Inferno? Deus? Extraterrestres?
Creio no enigma que os cerca;

Creio nos poemas não escritos,
Na poesia que emana do engano.

Não espero respostas definitivas,
Nem que um sábio dê o Veredito.

A face oculta das coisas táteis:
Eis aquilo no que (só eu) acredito.

 

 

 

***

 

 

 

MAKE DEATH GREAT AGAIN

 

Não estamos na Idade das Trevas,
Mas não estamos
……………..No Século das Luzes:

Estamos na época

Dos homens fartos
……………..De coisa alguma,
Das cruzes que viram espetáculo;

Dos celulares incríveis,
Dos dedos sujos apontados pro errado;

Dos argonautas virtuais
Presos em suas bolhas,
……………..Barcos naufragados;

Das dietas malucas,
Dos corpos de fast food,
Dos que não comem carne
…………….E dos que não plantam
…………….Uma só semente.

Não estamos na idade das trevas
Mas já não temos
……………..Tanto tempo assim.

 

 

 

***

 

 

 

ENCHENTE

 

Inquilinos tiram móveis
E rezam pro Santo de devoção.

Além das histórias,
Dos homens cobertos de lama

E da bondade dos abutres,
Há uma falsa esperança:

As águas do Jacuípe
Encontrarão novo caminho.

 

 

 

***

 

 

 

DAS MEMÓRIAS

 

Vejo tudo com bastante nitidez,
Mas não posso revogar o tempo:

Minha mãe mexendo o café,
Seu rosto sumindo entre nuvens;

Meu pai estacionando o Chevette,
Toda tristeza embaixo do bigode;

E eu, desperto, nutrindo planos
Que não realizo antes de morrer.

Vejo tudo num fio de memória
Tão nítido quanto não deveria ser.

 

Ricardo Thadeu (1989), nascido em Riachão do Jacuípe-Ba, é mestre em Estudos Literários (UEFS), professor e escritor. Publicou diversos livros, sendo “Você não deve pensar nessas coisas” (Penalux, 2020, poesia) o mais recente. É integrante de mais de uma dúzia de antologias, dentre elas: “Tudo no mínimo: antologia do miniconto na Bahia” (Mondrongo, 2018, miniconto).

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Elizabeth Hazin

 

“A insustentável leveza da rosa”: Claudio Parreira

 

MORTE

 

Morte não é quando se morre apenas
quando os dias já não tornam
e a música cessa:

morte é sempre
ou de repente
é vez por outra

morre-se para tantas coisas
não só para a vida que escorre em fios
(por vezes entrelaçáveis)

também morre a palavra
se não diz o novo
se ao atingir a forma cristalizada
não a dissolve.

 

 

 

***

 

 

 

ENIGMA

 

O poema não chega à mão
quando se quer
movido pela fria
aragem do pensamento

mistura de nuvem e armadilha
tampouco nos salta do coração:
as palavras têm seu preço
e muitas vezes só nos resta
o sonho da noite anterior
fragmentado e mudo.

 

 

 

***

 

 

 

NOTURNO

 

Noites, a difícil travessia:
são manhãs escuras
compridas de silenciosas
e vazias. Vazias de tudo.
Sobretudo de sonhos
única possível alegria
em tempos de miséria.

De tanto não dormir
começo a discernir no escuro
o cinza das horas
matizes do tempo
e cavalgo a noite de pouca lua
adivinhando a cada instante
a manhã salvadora.

Acompanho no céu o percurso de Júpiter
ou dos resquícios da lua minguando sempre
e sei:
a de hoje não é a de ontem
e a de amanhã será menos
(uma ambulância rasga o espaço da rua).

Como não durmo, descubro:
as noites não são iguais
cada uma tem seu nome
e o traz no dorso
impresso
( por que não o leio?)
Do lado avesso do sono
resta-me apenas meu verso.

 

 

 

***

 

 

 

SILÊNCIO

 

Fio de silêncio o meu amor
(só o silêncio é permitido)
e aturdida escuto o eco
do silêncio mesmo – ó castigo –
reabrindo sempre a ferida
– a mesma – em que ponho o meu dedo
ó sangue esse rio corrente
em que – de medo – afogo o medo
de excluir para sempre o silêncio
com que fio o amor e desfio
as cordas que batem no peito
essa canção afogada no rio.

 

 

 

***

 

 

 

EU E BORGES

 

A cada noite
repito o gesto
de abrir os olhos
………………no sono
e – pelo avesso –
olhar e ver
– por dentro da noite –
do outro lado
o descomeço.

 

 

 

***

 

 

 

URGÊNCIA

 

sempre escrevendo
alguma coisa mentalmente
sem coragem de mergulhar a cara no papel
e me perder no emaranhado de linhas
sempre
essa vaga necessidade de escrever
(de dizer algo
terrivelmente essencial à minha vida)
jamais concretizada

preciso anotar
todas as minhas lembranças
todos os meus sonhos
todos os livros que li
todas as brincadeiras da infância
todas as receitas de minha avó
todas as luas que vi
antes que tempo e pó
tornem ilegível a página.

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Dalila Teles Veras

 

Imagem: Roberto Pitella

 

provisão

 

nas réstias
fugidias
a mariposa
tonta, voa
………….à roda
………….à roda

sombras
sobradas
da tarde

efêmeros
desenhos
ilusões
de luz

provisão
……/
acalanto

para a noite
insone
que se avizinha

 

 

 

***

 

 

 

morte asséptica

 

nos hospitais
a morte
chega
de madrugada
(morte asséptica
morte a sós)

pela manhã, o
comunicado
e (a seco)
as instruções

o corpo
a burocracia do corpo

a família
:
diante do nada

 

 

 

***

 

 

 

poeminha pseudomístico

 

confrontar-se
com o invisível

(pedras
,,,,,,,x
entidades)

embate
nas trevas
arrepio
(sinais?)

 

 

 

***

 

 

 

sob os ditames do (meu) tempo

 

experimento
desconfio
testo
provo
entranho
arcaísmos e tecnologia
manuscritos e digitação
papel, cartas, selos
blog, e-mail msg
whatsapp, live
alternâncias
velocidades

minha alma
antiga
protesta
a consciência deste
tempo me diz
:
problematizar
(para compreender)

 

 

 

***

 

 

 

marinhas

 

Mas, se vamos despertando
Cala a voz, e há só o mar
Fernando Pessoa

 

havia manhãs
em que, ao abrir da janela
era só o mar e o mar
………………………o mar
………………………o mar
………………………o mar
aqui e além, barcos
quebravam em dois
o azul
inauguravam o branco
desenhavam a espuma

e não havia palavras
só as ondas
.,,,….as ondas
..,,,…as ondas

via, ouvia
………….calava

 

 

 

***

 

 

 

esquecimento pela fé

 

romecleide, a diarista
arrimo de família, marido
bêbado e desempregado
sete filhos, agora cinco
enlouqueceu pela primeira vez
quando perdeu duas filhas
no passeio à praia grande
(afogamento)

pelos vizinhos evangélicos
confortada, rendeu-se à fé
e aos ditames canônicos

romecleide, a neopastora
(a casa transformada em templo)
prega
a fé que lhe foi ensinada

prega e esquece
esquece e prega
pregada que está
na segunda loucura

 

Dalila Teles Veras, nascida em Portugal, vive no Brasil desde a infância. Escritora, editora e ativista cultural. Publicou mais de duas dezenas de livros nos gêneros poesia, crônica e ensaio:  “tempo em fúria”, 2019, “a mulher antiga”, 2017; “SETENTA anos poemas leitores”, poemas escolhidos por 70 leitores, por ocasião dos seus 70 anos, 2016, “solidões da memória”, 2015 e “estranhas formas de vida”, 2013, os mais recentes, todos de poesia.    Dirige a Alpharrabio Livraria, Editora e Espaço Cultural, em Santo André – SP, desde 1992.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Laisa Kaos

 

Imagem: Roberto Pitella

 

A+

 

Minha cara trazia segredos pálidos
Ouvia de longe os passos arrastados no corredor
Todos curando suas dores aos gritos

Havia um corredor de azulejos brancos
Cada quadrado com seu cheiro de éter
A cara da morte me dava beijos frios na espinha
Passava quase sexualmente a língua pelo meu rosto gelado
E se lambuzava com o pavor que escorria da minha testa

Acordo.

Foi um sonho ruim. Ainda.

 

 

 

***

 

 

 

39

 

Quis sair da fossa. Mas não.
Preferi mergulhar
Escancarar até o pescoço
Afogar soltando espumas
Rasgada, afundada, assumida

Dor cravada na carne é pior que gripe mal curada
(e ambas causam um mal terrível para os pulmões)

E eu.
Morro de medo de morrer.
Ou viver sufocada.

 

 

 

***

 

 

 

ESPASMO (PARA LER COMO QUISER)

 

Em mim tudo é escândalo
Histeria
Doença nervosa
Convulsão uterina
O afago afoga
O peito berra
O abraço sufoca
O corpo inunda
Em mim tudo é múltiplo
De sofrimentos a orgasmos.

 

 

 

***

 

 

 

Lábios abertos
Poros abertos
Peito rasgado
E a poesia – vida – corrente
Que me pulsa
Ventre
Adentro

 

 

 

***

 

 

 

(PARA OS MEUS 50 ANOS)

 

Se soubesses tu dessa tal inquietude
Engoliria com afinco
Todas as inseguranças que não te cabem
E guardaria para mim a tua pele
Não tão pura, não tão calma, não tão minha
Leve como tudo breve
Por onde passei lábio e língua
Tatuando em ti baixos poemas

E gozos d’alma.

 

 

 

***

 

 

 

Carta de não-amor para um não poeta

 

Síndrome
Bukowskiana
Contemporânea
Quarentenária

Só que sem a originalidade.

Já que a mesma morreu lá em 1994.

Desculpe “baby”
Sofro da mesma síndrome
Mas assumo somente a parte da sinceridade
E possível alcoolismo

Não existe fé no sucesso póstumo
Não existe fé nas leituras pagas
Não existe fé.
Só o amargo da verdade me convence.
Mas não existe fé
Nas tuas
Verdades.

 

Laisa Kaos é poeta e publicou “Lábio Aberto”, seu primeiro livro, em 2019. Nascida em Belém do Pará, graduou-se em história e cedo encantou-se pelas possibilidades das palavras e das artes. Mudou-se para São Paulo, onde estudou as expressões artísticas. Atualmente é pós-graduanda do Instituto Federal de São Paulo e trabalha em seu segundo livro.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Lorena Ribeiro

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Suas letras passam rápido
Mal consigo ler o que elas têm a dizer
Se são de verdade,
ou de mentira, como saber?

Sempre que as encontro
Sou levada a um momento inexistente
Nem passado, nem futuro
E de tão breve, nem presente

Um estado de graça
Que mora numa farsa
Onde me vejo imersa
Cada dia um pouco mais

 

 

 

***

 

 

 

Transita suavemente
………entre a superfície
e a profundidade,
……………….o simplório
…….e a complexidade,
como dois seres
…….habitando em um.

….Um deles vaga livre
entre ocasos e auroras,
………enquanto dorme
o que espera o amanhecer,
……………. não do dia,
…………………..mas da vida.

 

 

 

***

 

 

 

AS PALAVRAS DO SILÊNCIO

 

No silêncio dessa noite,
volto em muitas outras
…………noites,
……………………madrugadas,
…………………………….alvoradas
Cheias de barulho,
desse que de fora não se ouve
Mas há de estar lá,
Gritando dentro da cabeça
Escorrendo pelos dedos
Saltando palavras despretensiosas
…….Agitadas,
…………….fugitivas
Esse é um jogo interessante
Uma disputa que ninguém ganha
Nem quem grita
Nem quem corre
Nem quem salta
Uma fuga temporária
Dos laços,
………..traços,
…………………pedaços
Que, ao final, se unem aos cacos
E voltam todos para a caixa.

 

 

 

***

 

 

 

Sentir era tudo que estava
………Presente na saudade,
…………………………..palavras,
………………………….nostalgia.
…………..Presente na ausência,
na permanência da imagem.
………..O sentir parecia intenso,
………………tão grande.
…..Ora restos, sobras demais.
……………..Fazia trocas de verbo
……………………Do sagrado verbo
…….que ousaram pronunciar.

 

 

 

***

 

 

 

Como provar do tão abstrato
…… e.n.c.a.n.t.a.m.e.n.t.o ?
……………………Seu brilho,
……………….luzes e cores,
…………….vejo da sombra.
…….A que torna o dia noite,
……………………….todo dia
…………….L.o.n.g.o.s dias
……….a prever o teu sinal.
…………..Rastro de medo,
…………………fuga,
…………………… saudade.

 

 

 

***

 

 

 

Incompleto

 

Guardo-me incompleto
na prateleira
meio bebido,
meio consumido,
meio gasto
um tanto preenchido,
um tanto abastecido,
um tanto conformado
Ora destilado velho,
recipiente empoeirado
Ora bebida cara,
de raro sabor
pelo tempo aprimorado
Um meio cheio
do que se acha valer
Um meio vazio
do que ainda quer ter
Um tanto ausente
do que deixou de ser
Um incompleto volátil
que não se pode conter.

 

Lorena é licenciada em Física, Mestre em Ensino de Física. Tem pela escrita encantamento e curiosidade. Procura nas palavras aconchego, distração, refúgio dos cansaços diários

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Dheyne de Souza

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Memória

 

memória, essa lâmina que não vem só com corte mas o cheiro dos móveis o vapor do olhar a temperatura do dolo
as horas em torno

memória, esse som
que escava
regurgita
apodrece
o urro mais largo
o vazio da prece

memória, essa língua dentada
esse punho tombado
essa voz sem assento

memória
esse eco sozinho
esse tempo sombrio

a saudade de cada

memória,
esse espólio de guerra

 

 

 

***
 

 

nãos tempos

 

não temos tempo de perder o trem
olhar no olho
parar ouvir
não temos, tempo, veja bem as horas
veja bem a
veja

não temos saldo paz joelho asilo
temos fome miséria temos filhos
não temos tempo de pedir à mãe ao pai à amada
pátria, não temos tempo de dizer
não

não temos tempo de tratar a morte o açoite a voz
não temos tempo de temer
sequer

 

 

 

***

 

 

 

ontologia

 

o que é isso que a vida
tem feito conosco

passam-se os anos
fincam-se as farpas

o que é isso que o tempo
crava na pele
enrugando a coragem
constipando a voz

o que é isso que a gente
tem permitido
jazigos de sonho
esses nossos co
pos

o que é isso amigo
você está longe
aonde foi que embarcamos
ou

o que é isso que há
feito fumos lúcidos
tragamos
o que mais podemos

o que é
escute
não olhe no espelho

em que ponto da rua
nos

 

 

 

***

 

 

 

amor dest’era

 

o nosso amor tem o som de um animal sofrendo

o nosso amor, eu não sei, anda puxando uma perna
ou talvez tenha deficiência de sol

o nosso amor, parece, dorme no enorme vão de ar que atravessa nossas espinhas
à noite

o nosso amor tem visto demais e escutado palavras extremas

o nosso amor perece
não sei
perdendo
até aqui

o nosso amor tem uma bala
no ventre

 

 

 

***

 

 

 

à meia voz envio
um sorriso
um alento
uma mão
uma linha
quem sabe para guardar, quem sabe para sempre, quem sabe em algum lugar virtual onde a memória suspende onde compartilhamos a vida quem sabe pra gente com certeza pra poucos que sentem mas os bem poucos e seu poder imensurável que se querem sabem de tudo e usam sem rastro a vida moldando a memória soterrando o bagaço ameaçando a mão esfumando o alento apreendendo sorrisos
essa meia voz não
é o nosso presente
não cala

 

 

 

***

 

 

 

ah a vida e esse cheiro que vela
como um cavalo no escuro no pesadelo da espora
como uma grama que acorda molhada pra ser pisada
como um refém que habita o esconderijo da porta
como uma escolta. paulatina. versando que a vida há

 

Dheyne de Souza é goiana, está morando em São Paulo e sustém um blog. Tem um canal de leitura de poemas, em parceria com Helô Sanvoy. Os poemas desta seleção estão no recém-lançado “lâminas”, pela Martelo Casa Editorial.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Jorge Elias Neto

 

Imagem : Roberto Pitella

 

FOLHAS SECAS DE OUTONO

 

Paixão, esta folha de outono,
luz incerta de raio obliquo,
que desperta viva no entorno
do fogo, o tremor de um aflito.

Sou um ser do outono, de um crepúsculo,
que faz brilhar o olhar dos loucos,
e faz o horizonte fecundo
ao germe melancólico

dos suicidas, dos sem afeto.
E a carne, arfando, sem um rumo,
em busca de um pouso, de um teto,

tem no rubro da tarde o lúmen,
a medida de tudo, o concreto
do frio, da origem do Mundo.

 

 

 

***

 

 

 

SONETO SEM TETO

 

O tédio faz brotar o Eu perverso,
nos cantos esquecidos dos escombros,
e da sombra, o rugido do universo
surge na boca imensa do ser manso.

Pois se o calor emana da tristeza,
e a paixão é pólvora do selvagem,
o sopro faz tremer a chama acesa,
e a urgência é a medida da voragem.

E nada sobra que se preze e guarde
àquele ser que se debate firme
contra uma vida que esmaga e late.

Resta o engate ao cerne da maldade,
sem esperança, se atirar ao crime,
e ser centelha no porvir da tarde.

 

 

 

***

 

 

 

TERCEIRA MARGEM

 

 Para Flávio Viegas Amoreira


A terceira margem, fundo do rio,
aguarda, sob as águas, cada corpo
que pesa e se desprende em voo tardio
tal sonho derramado por um sopro

que faz pesar as pernas, os embustes,
esfacelar espelhos, cortar pulsos,
rogar com desespero por abutres
de voo carniceiro sobre os justos.

E se de tanto nada faz-se o vulto
que tomba do lajedo, da encosta,
se faz estranho o peso, absurdo

o baque sobre as águas maculadas,
é que há um segredo em cada bruto,
levado para o fundo da jornada.

 

 

 

***

 

 

 

O CORADOURO ETERNO

 

O mais é esta pressa interrompida
pelo abraço apertado da tormenta,
na engrenagem que faz fluir a vida,
que traga corpo e tempo na sarjeta.

Mas a luz, que rompe as nuvens convictas,
jaz corando a réstia do que foi presa
de si para si, predador e vítima
do extinto céu, e se tornou soberba.

E o curtume divino ressentido
do rebanho que se danou no Mundo
conta as perdas das reses que, perdidas,

romperam cercas, bem a esmo, imundas
de desespero retinto, suicidas,
buscando espaço nos varais da culpa.

 

 

 

***

 

 

 

SONETO EM CRISE

 

O perdido traz a marca na testa,
esboço do nome, falso retrato,
um corno – caligrafia da besta -,
revolta e um perfil de semblante amargo.

A fala que se esforça em verso, ofensa,
um desmentir inútil do absurdo
que transpassa o ser fútil e enlaça
a criatura com seu silvo agudo,

é um fruir da morte, certeza amarga,
disfarçada em hóstia, na boca posta
do infiel na catedral, mãe das gárgulas,

pois ser temente a Deus é fuga justa
ao que nega à morte sua carne e alma
e segue, hipocondríaco, em meio à turba.

 

 

 

***

 

 

 

SOBRE CASAS E PAIXÕES

 

Para Oscar Gama Filho

 

As casas têm segredos, todas têm,
e não é por medo que silenciam.
Suspenso, nas ranhuras, o desdém
das paredes frente à paralisia

de atores ausentes, sempre despidos,
carentes de desejos, de paixões.
E as casas, sempre lá, ao pé do ouvido,
propondo encontros, vultos, revoluções.

Cada verdade tola, cada cheiro, desperdício,
faz ponderar a casa: uma mudança…
Mas só engodo surge, de novo o vício

do estalo das palavras, vis lembranças,
que nos cantos da casa, feito lixo
do não mais viril, mas da vingança.

 

Jorge Elias Neto (1964) é médico , pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria: Verdes versos (Flor&cultura editores – 2007); Rascunhos do Absurdo (Flor&cultura editores – 2010); Os ossos da baleia (PRÊMIO SECULT – 2013); Breve dicionário poético do boxe (Patuá-2014); Glacial (Patuá-2015); Cabotagem (Mondrongo-2016); Breviário dos olhos (Edição do autor – 2017); O ornitorrinco do pau oco (Cousa-2018) e Sonetos em crise (Mondrongo-2020).

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Wesley Correia

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Teu homem

 

………………………..Teu homem não virá.
A melodia que, há pouco,
semeaste pelos sulcos da tua pele,
enquanto, aflito, tentavas te limpar
………………………………………………..de ti mesmo,
………………………………………………..não brotará,
………………………………………………..mas restará, seca,
….no fundo das mãos vazias, quedará num
canto do cômodo rarefeito,
e a partitura, então ininteligível,
…………………………………….se executará
………………………………no adverso da regência.

………………………..Teu homem não virá.
Do desejo que imprimiste às ervas aromáticas,
do amor-quase-morte com que,
devotamente, temperaste
.o peixe para o jantar, permanecerá,
tão somente,
..o espasmo de uma premeditação,
…..o sintoma de uma precipitação,
………..a réstia de uma palpitação,
……………….uma deletéria ilusão,
……………………..e uma excitação,
….que nunca tarda em dissipar-se.

………………………..Teu homem não virá.
Recolhe, pois, os pratos, os sapatos,
……………………………….os gatos, os gastos.
Recolhe tuas ânsias, teu querer bem,
………………e tua boca ardente a morder
…………a carne improvável da alegria,
………………………………recolhe-a, também.
E recolhe teu pelo eriçado,
os teus arfares, ai, os teus arfares,
recolhe-os todos!,
e recolhe-te, enfim, a ti mesmo,
quando a chuva, tua confidente,
vier anunciar a noite comprida.

………………………..Teu homem não virá.
Nem hoje
……………nem amanhã
…………………nem depois.
Ama-te, por fim, e sê tu teu próprio homem,
e escandaliza-te com as seivas
de teu corpo transbordante, e ria-se da entrega, e
beije-te a boca, e envolve-te no teu próprio
abraço, e aquece-te no teu calor,
……….e goza contigo, que teu homem aí está.

 

 

 

***

 

 

 

Galope

 

O bêbado levita sobre a maciez
de teu dorso bravio
e tu relinchas.

Ele guarda na mão direita
o redemoinho das caatingas impossíveis
e traz no pé esquerdo
o Décimo Nono Arcano Maior.

Teus olhos são
de esfinge alada
reluzente.

Tu galopas o chão etéreo,
e bebes a secura da terra,
o bêbado ri das profecias mortas.

A vida é sentinela.

 

 

 

***

 

 

 

Noite

 

À noite, tinjo-me de estrelas
e penetro, com o salto
do meu sapato de verniz,
as pedras da cidade.

Fecundo as rochas.

Gasto meu batom azul
em corpos efêmeros,
dou a todos eles os tons
do riso e do prazer.

Pela manhã, volto à rotina:
pego ônibus lotado;
bato ponto;
carimbo dezenas de papéis,
que engendram a máquina colossal,
e chego, sem memória,
ao final do expediente.

Vou pra casa, pintado de constelações
com meu coração sem estrelas.
……..Meu coração sem estrelas
……..tem parido luzes cintilantes.

 

 

 

***

 

 

 

Imaginário

 

Pende entre minhas pernas pretas
um mito gorduroso,
quase impossível de carregar.

E na sua plena atividade,
na diabólica plasticidade,
me arqueia o dorso,
me alquebra o corpo
até interditá-lo.

E na sua robustez de mito,
me debilita a frágil saúde
ainda mais,
nas suas dimensões de mito,
me diminui a forma
ainda mais,
na sua centralidade de mito,
me reduz a toda solidão
do cais.

Por isso, não morram
se eu resolver
extirpá-lo amanhã.

É que minhas pernas pretas
marcham melhor
sem o seu peso incômodo,
minha cabeça preta
se equilibra melhor
sem o seu peso incômodo,
todo o meu corpo preto
se ergue maior
sem o seu peso incômodo.

 

 

 

***

 

 

 

Memória do sol

 

o sorriso
a beleza,
a luz, a pluma e a comoção.

arde-me a fantasia deste sentido querer-te.

 

Wesley Correia nasceu em 21 de Outubro de 1980, em Cruz das Almas, Bahia, e aos dezessete anos publicou seu primeiro conto no Jornal A Tarde. É autor de “Pausa para um beijo e outros poemas” (2006), “Deus é negro” (2013) e “Íntimo Vesúvio” (2017). Atualmente, é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia – IFBA, onde ministra aulas na Pós-graduação em Estudos Étnicos e Raciais, e outros cursos.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Lílian Almeida

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Crisálida

 

Grávida do ser que me habita
vou parir a mim mesma.
Outra.

Quando a lua anunciar negruras
já serei o que sou.

Mariposas cintilam lilases
voos e auroras.

 

 

 

***

 

 

 

Costuro palavras
no assoalho dos dias
a ver se liberto
os pés
de existir entre homens.

 

 

 

***

 

 

 

Fênix

 

Para Rita Santana

 

No chão, os meus restantes.
Estatelei-me no voo.
Esfacelada, a altura era o solo.
Uma asa esmagada
um pé quebrado
os olhos parados
o tronco desconjuntado.
Restantes em fragmento do que te dei inteiro.

Recolhi as partes.
Lavei com lágrimas
sequei com rotos sorrisos.
Secreto unguentos de sangue e muco
e cicatrizo os cortes.
Suturo as dores com o preto fio dos meus cabelos
para deixar marcado, no corpo da fênix,
a porção mulher que há em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Abaeté

 

A água escorre dos olhos
sobre a face escura.

A água escorre das roupas
dentro das mãos negras.

Escorre dos olhos
das mãos da mulher
a dor dos dias.

A água escura da lagoa
lava as roupas
e a alma.

 

 

 

***

 

 

 

De cor

 

na cidade alba
os olhos brilham retinas cegas.

entre alvos passos
e braços
o invisível caminha.

 

 

 

***

 

 

 

Cio

 

A fêmea exala
o cheiro rubro
da vida

 

 

Baiana de Salvador, Lílian Almeida é professora adjunta na Universidade do Estado da Bahia e doutora em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Participa de “Além dos quartos: coletânea erótica negra Louva Deusas”, “CartoGRAFIAS” (Funceb) e “Profundanças 2: antologia literária e fotográfica”. Publicou “Todas as cartas de amor” (ficção) em 2014, pela Editora Quarteto. Venceu o prêmio Edital Caramurê de Literatura 2019 com o livro “Pulsares”.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Maria Clara Escobar

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Essa cadeira, que fica na sala
Eu escolhi com medo
De não combinar
Com a outra
Que escolhi com medo
De não combinar com essa
A mesa, o sofá, foram negociações medrosas
Em que dividir no cartão me dava medo
De depois não poder pagar
Me inscrevi no curso com medo
De me constranger
Afinal estou velha
Afinal terei que conversar
Melhor nem ir
Da prova de condução desisti
Ele ficava lá só pra me ver errar
Melhor
em casa?
Acompanhada da cadeira, da mesa e do meu sofá
Que do medo conquistei
E com o medo pactuei
Esse medo que vira objeto
Não um elefante no meio da sala
Não um hipopótamo de sainha
Mas uma mulher, gigante
Que agora olha pra mim

 

 

 

***

 

 

 

do lugar que não há horizonte
do lugar que me querem ver morta
decidi não morrer
entro nela, sinto ela
meu corpo e o dela
eles querem nos matar
foi o que eu disse
eles querem nos matar
chorei
sonhei essa noite que ela me dizia que eu estava doida
acordei
com ódio
eles querem nos matar, ela disse
mas
eles não vão?
conseguir
estou dentro dela.
moro aqui agora.
e essa casa, de onde se vê o horizonte extenso, cheio de gente, de árvore, de água,
de coisa e de vida

também medo
mas não é
morte

 

 

 

***

 

 

 

a solidão é uma coisinha chata
um dia se acorda bem
e de repente ela está na sala
as mulheres perguntam se não dá medo ficar sozinha em casa
o dia todo sinal de coragem
não pela solidão
mas pelo ladrão
que pode entrar
e elas nem sabem que o pior é a solidão
que é do tamanho da quantidade de ar
que o ventilador faz circular e é densa
como paredes antigas
como a muralha da china

 

 

 

***

 

 

 

Na rua escura
Apresso o passo
Um homem virou
Apresso o passo
Agora vem, dois
Do outro lado da rua
Já não dá pra atravessar
Finjo calma
Depois, apresso o passo
Esses passaram
O que está atrás de mim segue
Ele também anda rápido
Sou obrigada a apressar ainda mais
O passo
Melhor correr agora do que
Se arrepender depois
Apresso o passo
Ele também tem pressa
Mudo a rota
Viro a esquina, respiro
Depois lembro, com um novo homem cruzando a esquina
Que estou na rua escura
Volto a andar
Rápido
Eles vêm de todos os lados
Eu sou uma corredora
A marcha atlética é o estilo feminino noturno

 

Maria Clara Escobar é roteirista e realizadora de cinema. Dirigiu e escreveu os filmes Os Dias Com Ele e Desterro – selecionado para a Tiger Competition do Festival de Roterdã, 2020. MEDO, MEDO, MEDO é seu livro de estreia.