como o reflexo que passa
rápido no negro da pantera
assim teu desenho suporta
meu corpo – tão suporte
quanto uma abortada fuga
paro um instante como
param as pequenas tartarugas
levadas pelas águas, das que
preferem não voar, das que
querem tua mão, reflexo que
passa devagar no tigre branco
– luz confundida com a pele
assim desejo teus dedos do
lado de dentro: como quando
se sente levemente o mar bater
na altura da boca, sem a agonia
dos lagartos dançando para pular
do bico das aves que tiveram medo
de atacar algo maior, porque o voo
é leve, o cigarro acaba, a dose se perde
no corpo. quero que dose as mãos
com a tinta da dor inventada e comece
a riscar meus pés, primeiro passo
no mar. depois suba como sobe o sal
ao sol, ardente, bronzeando o pelo
da pantera na cor do tigre branco
mas quando chegar à boca não afogue
empurre o corpo na onda que dá espaço
para outra anatomia, por não poder
jamais tocar apenas uma única pele
***
Maria na Procissão da Penha
oca em
sua oca
foi oferenda
devolvida
ardida
pelo sal
da praia
da penha
***
cirurgia
admiro as utopias que o cineasta
berri fez falar galeano
por dizer, sem ensaios, que
os sonhos impossíveis servem
para nos fazer caminhar
admiro a sensatez de borges
que narrou um encontro consigo
pois narrar é muito íntimo
admiro quem não precisa
de religião para negar o vinho
admiro as ginastas que parecem
ser o vinho quando dançam
em suas taças, de tão sangrentas
e leves, como a dor que se
esvai ao adormecermos cansados
admiro quem desaba porque deve
ser boa a sensação de reconstruir
às vezes admiro o silêncio dos
bichos presos só porque podem
fazer isso, aquietar-se
em mim a sensibilidade opera
está como a metafísica do vestido
que rasga sem querer e desnuda a pele
bisturí é o tempo. às vezes o corte sangra
***
energia
teu ódio não resta
no resto de capim
raiz inalcançada pelo
cavalo de madeira
não regressa
o dente
de leão solto
pelo tempo
não despedaça o
barco de papel
que navega
nas profundezas
não cerra
a pálpebra
daquele que
nunca dorme
não ergue
o feto
forçado
à forca
teu ódio é grego:
sangra
e em vão cava
a cova dos 300
é flecha que foca
o calcanhar
mas volta
às mãos de páris
constrói o oco
que em ti faz eco
e refazendo-me
se desfaz
no olhar da velha
com alzheimer
que carregou pedras
pras três pirâmides
mas num suspiro
de lembrança
sentou na areia
africana
e por algum
motivo
esqueceu
***
infância apodrecida
cresci ouvindo gatos
no telhado da casa
e fazendo as goteiras
inquietarem sonos
cresci ouvindo ratos
no telhado da casa
e sentindo goteiras
adormecerem sonhos
***
paixão
a asa se viu
pousada no costume
de ser mirada pelo caçador:
quando a ameaça
se aproximava
penava, mas não voava mais
***
fóssil
teu crânio em minhas mãos
e a imagem do canto mais
escuro de olhos
que tocam brancos
como se a liberdade
deixasse de ser sensação
e passasse a ter ossos
que ficam quando
a alma já não cabe
na estrutura da carcaça
Jennifer Trajano é natural de João Pessoa-PB, professora de Língua Portuguesa e revisora textual. É autora do livro de poemas “Latíbulos” (Editora Escaleras, 2019). A leitura do texto literário para ela é uma espécie de borboleta amarela (referência: Cem anos de Solidão) que pousa no imaginário para anunciar um novo mundo capaz de fazer chorar, sorrir, revolucionar etc..
dentro da música que
conta aquela vez
encontrar encontrar algum
espaço para a quarentena da
calma – prorrogo vossa estúpida santidade –
***
quem sabe o tempo
disso tudo um jovem muito
mau costureiro quem sabe
o dia em que
suavemente
a emenda perceba a outra
para
além do confisco lacrimoso
sonho com um casaco feito
dessas penas
***
vai passar
continuarei a odiar continuarei
a trombar o coração nas quinas
dos móveis que se mistificam
da primeira letra do seu
nome
***
sola circular
que lugar é o lugar
de frente para a janela você pensa
outra janela à parte o lugar
será diagnosticado em tempo é
o lugar é acreditar a noite molhada à
janela esmigalhar entre os dedos enrugados
um perdido de grande amor
dormir cheirando os dedos é o lugar
***
solavanco
rendem-se os calcanhares ao
isolamento agora o projeto é
a sombra a obediência é dançar o
contra das outras vezes em que
nas pontas dos pés estava a partitura
do solavanco
***
um silêncio e meio
a duração do perfil da pomba
três pombas e um quarto
a
duração da sombra
nove sombras e um meio silêncio
peso e altura da espera
cor e resistência da minha janela
***
empilhar luas
a flecha ideal de quando
um antigo amor está e está a dizer
você
você é a flecha e a boca não
é
você é você o tempo
da flecha rente
à língua a flecha original e o vaticinado
furo
Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Escreveu Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), bater bater no yuri (livro on-line pela Enfermaria 6, 2017), A Munição Compro Depois (Cozinha Experimental, 2018), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (Casa Mãe, Portugal, 2017/Edições Macondo, 2020).
“... e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.”
(Guimarães Rosa)
Gosto das paredes emboloradas
Do lodo nas quinas das garagens escuras
O capim-gordura crescendo no vão do cimento
O calor claustrofóbico das cozinhas oleosas
Das rachaduras nos tijolos
A carne da construção revelada pela negligência
Do tempo
Das gentes
Dos desencontros
Gosto dos sentimentos sem nome
Das saudades que são também repulsa
Esquecimento
Do amor que é também raiva
Que é também amor
Das nojeiras inconfessáveis
Cativas nos instantes de solidão
Ranhos lambidos com a ponta da língua
Unhas mastigadas
Cascas de feridas partidas na força dos dentes
Gosto dos bichos que não são estimados
Piolhos dentando a pele do crânio
Baratas gordas se espremendo no estreito do ralo
As antenas por último
Prenúncio de tudo que é imundo
Gosto das ausências
Os cantos não preenchidos por móveis
A cama não repartida
O prato vazio
Sem farelo de comida recente
De tudo que não é recente
Lutos petrificados pela austeridade dos anos
Casas erguidas por braços mortos
Há tantos anos mortos
Gosto da morte
O silêncio das alamedas de sombras
As filas das formigas alargando as trincas dos túmulos
O cheiro mineral das fendas
Não me interessam as flores violetas
Crescendo na sombra das amoreiras
Nem as amoras
Cajus suculentos
Cactos ostentando folhas
Que também são caules
Que também são folhas
Eu quero o escuro do debaixo da terra
Pretendo a fundura
O miolo do acontecer
Ossos ocultos
Mortos de ninguém
Nem cruz, nem placa de bronze
Não me importa a superfície
O lado de fora do chão
Anseio veios subterrâneos
Lençóis freáticos
O magma fervendo no coração do mundo
Nada me vale o mar turquesa
Ondas esfarelando na areia
Desmanchando conchas
Eu quero o oceano profundo
Peixes abissais de couro transparente e sexo hermafrodita
Enguias elétricas sem olho nem boca
Contorcendo a escuridão
Não me comove jardins semeados
As filas simétricas das rosas e das margaridas
Árvores podadas em círculo
Gosto das florestas indômitas
Cipós estrangulando troncos
O chão úmido do musgo apodrecido
Camadas de folhas secas dando abrigo a aranhas fluorescentes
Escorpiões, formigas ruivas, lacraias de mil pés
Não quero o cruzeiro do sul, a via láctea, saturno
Não me interessam cometas e a composição do solo da lua
Tenciono matéria escura, as bordas de fora do universo
O buraco negro e a gula que engole o tempo
O passado obliterado e o futuro cindido em um milhão
Doze milhões de futuros
Não sei em que possibilidade me perdi
No destino estilhaçado em que eu era
Uma camponesa na revolução mexicana
Um padre na inquisição
Uma corça de pata fraturada
Um peixe remando o rio
O rio
Eu era o rio
Era morna e fresca
O limo das margens
As águas cáusticas matando carpas
Botos
Lontras
E aguapés
Depois eu era os aguapés
Era o fundo e os barcos de papel
As crianças brincando na beira
Sete crianças soltando barquinhos
Uma delas era eu
A menina de vestido azul
Escapulário
E olhos líquidos
Chorava pelas orelhas
A vida escorrendo nas fendas
E de novo rio
Para sempre eu era o rio
***
E NÃO TEM ESTRADA QUE EU NÃO QUEIRA
Quero a vida de cara limpa
Não quero maconha, yoga, sertralina
Quero hoje e muito
O ontem e o atrás
Quero dor sem intermédio
Maternidade sem consolo
Não quero vírgula, hiato, camisinha
Quero onde e nunca
O longe e o depois de amanhã
Quero Líbia e Guatemala
Esquimós e aborígenes
Quero sal, umbigo e quinta-feira
Quero ontem o que não quis amanhã
Quero dentes firmes e coxas flácidas
Quando não quero nada quero muito
E quero muito cada quando
Quero lá-aqui-nunca e dentro-fundo-depois
Quero o através, o avesso, o atravessado
E não tem estrada que eu não queira
Nem caminho que minhas pernas não pretendam
Quero o reverso da falha e o verso da perfeição
Quero dormir de cansaço e acordar sem sol
Quero sonho sem sono
E sono povoado de estrelas cadentes
***
AGORA QUE TEM ÁGUA EM MARTE
a segunda de manhã me escorreu com a urina
e a noite de quarta evaporou no suor das minhas axilas
o tempo é alguma coisa tão líquida
que escorre e evapora
de um jeito que só os líquidos fazem
ontem eu quis ser uma pessoa melhor
hoje me esqueci
descobriram água em Marte
e é água mesmo
não é gelo, gás metano, prata derretida
o tempo de Marte também deve escorrer
pelos rios subterrâneos
lotados de bactérias marcianas
microrganismos de antenas azuis
agora que tem água em Marte
não dá tempo de ser uma pessoa melhor
o ser humano anda pela terra há 200 mil anos
o universo tem a idade de 13,7 bilhões
o ser humano é o microrganismo de antenas azuis
do universo
agora que tem água em Marte
a gente precisa deixar de ter insônia
e culpa
agora que tem água em Marte
a gente está absolvido para sempre
até os próximos 3,8 bilhões de anos
quando não vai ter água aqui
só em Marte
agora que tem água em Marte
eu nunca mais vou deixar de sentir sede
***
EU ERA PRIMATA E SEGURAVA PRIMATA
Não me lembro o que eu era antes de ser mãe
Alguma coisa entre tijolo e rã
(sólida e escorregadia)
O tempo de antes ficou sujo de uma coisa
que eu não sei
A vida principiou naquele dia
e depois só futuro
E era um futuro tão velho que parecia passado
Quando eu coloquei no colo minha filha
Era como se carregasse minha mãe
Ou a mãe da minha mãe
Ou a primeira mulher do mundo
Que era gente e era macaco
Ali eu era primata e segurava primata
E doía tanto
***
PONTES DE EINSTEIN-ROSEN
Para Gabriel
não, não parece que foi ontem
foi há dois séculos
talvez três
a gente se encontrou numa dessas dobras do tempo
quando o passado é também futuro
e é também passado
não há dia, nem ano, nem verão
o tempo é só um tecido vincado
vai ver a gente sempre esteve lá
no passado que não é passado
no começo do mundo e também no fim
você me salvando todos os dias
eu morrendo todas as noites
Maria Fernanda Elias Maglio nasceu em Cajuru-SP. É escritora e defensora pública, trabalha fazendo a defesa de pessoas pobres que estão cumprindo pena. Seu primeiro livro, “Enfim, imperatriz” (Patuá, 2017), venceu o Prêmio Jabuti 2018 na categoria contos. Em dezembro de 2019, lançou “179. Resistência” (poesias) também pela editora Patuá.
o anjo da morte me chega, olho de cobra
sua pupila ardente me retalha
meu foro íntimo é um corte de navalha
o mundo por inteiro é uma dobra.
2.
nasci agora e o meu amor nasceu
da tua pele feita madrugada.
quando eu escrevo é que a emoção morreu.
***
aqui, eu, jovem cão, enclausurado
bebi da fonte amarga do pecado
meu barco torto, bêbado, ardente
cortou a minha alma de indecente
em tudo fez-se a dura melodia
aguada do meu corpo que fugia
no fel dos candelabros dos infernos
ardi no fogo de 40 invernos.
***
que eu fosse a mulher do meu espanto
a minha alma fêmea destravada
a minha alma rígida se encanta
com a minha alma vivida de espanto
quando a paixão caminha sobre o nada
se a paixão que bebo no meu canto
forjar a minha mão enclausurada
eu mulher vívida que peso cada pranto
relato bêbada a paixão que me embriaga
tomada da miséria e do quebranto
que pisa a minha alma depravada
eu verto sobre a carne o meu encanto
que eu fosse todo o corpo em que eu levanto
que eu fosse a paixão mais do que vaga
que eu fosse a mulher do meu espanto!
***
ítaca e áfrica
de ítaca roubei helenas tantas
em áfrica montei os sete mares
casei-me com mulheres todas santas
cobri meu corpo gasto de alamares.
as vidas são mais tantas e mais quantas
em muros e desejos sacripantas
castrados e vertidos pelos ares?
poetas são delírios bem vulgares.
***
a língua de camões
1.
mais amaríeis meu cortado canto
se mais soubésseis como sois amada
e navegásseis pelo meu espanto.
2.
se me amásseis tamanho eu vos diria
da dura solidão dos precipícios
da falsa imensidão dos sodalícios
da cortada razão dos meus ofícios
se me amásseis por certo eu vos diria
e a minha voz em voz por todo canto
decerto iria quebrar-vos em espanto.
3.
senhora, eu vos amei por tanto, em tudo
que de camões busquei o meu primeiro
estado de um estado verdadeiro
e vos cantei canções que são veludo.
4.
se os arcabouços meus em vós levásseis
e se dormísseis no meu louco porto
e mais amásseis o meu antro torto
e se acordásseis meu poema morto
faríeis meus duelos bem mais fáceis.
***
“eu que já fui cavalo e cavaleiro”
eu que já fui cavalo e cavaleiro
rangi os trapos num cerrado chucro,
pavoneei às feras meus intentos,
sofri imensidões como se gotas.
cavalo e cavaleiro que já fui
por anos repisados de novilhos
brandi os versos como fossem trilhos
de intensa solidão. agora rui
o meu intento de quixote e sancho
ter uma dulce, marília, o que me leva
a ser cavalo, cavaleiro e treva
pelos adros das ilhas que não sei.
eu que já fui cavalo e cavaleiro
de tronos abissais em que entorpeço
arranco os estilhaços de um berreiro
e me destravo, nu, no meu avesso.
cavalo e cavaleiro fui.
cavalo, cavaleiro e rei.
Romério Rômulo é professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto, MG. Poeta e editor, tem publicados os livros de poesia “Bené para Flauta & Murilo” (1990), a caixa “Tempo Quando” (4 livros, 2 volumes, 1996), “Matéria Bruta” (2006), “Per Augusto & Machina” (2009), “Si yo fuera Maradona”(bilingue,português/espanhol, 2015), entre outros. Tem uma coluna semanal de poesias no Jornal GGN, editado pelos jornalistas Lourdes e Luis Nassif. É um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar, com sede no Rio de Janeiro.
Tocam, as mãos – esse aparato para o tato
o meneável frênulo – primeira manufatura
E dedilham, como abertura, o úmido períneo
inundando os vasos e nervos
de assoalho tão delicado.
A palma abraça o prepúcio: esse movimento lavrado
modula a temperatura das manilhas e falo
Como instrumento meu, corda e sopro
toco também com a boca
dentro o membro, prenhe, dura.
A língua, à viscosa água, saliva:
_Arfa. Espasma. Goza.
Chama o meu nome.
Depois reclame que me abra
sobre a carne, novamente, dura.
II.
Encontram os pés – planta semeadura em solo
um outro casco – pele fora da pele
e desliza o dorso, em toque pouco preciso
de metatarsos e falanges, nessa espessura
tateando, entre sono e vigília, nas rachaduras
a anatomia de estranhos calcanhares.
Os ossos livres das dimensões do sapato
amoldados na entre curvatura do arco
como concha, nessa postura se ajustam
vacilam no movimento, como pêndulo
nas margens até encostarem, titubeosos
as dobras de desconhecidos dedos.
Essa fricção em estrutura tão íntima
é deambulação por todo corpo – ranhura
marcando sobre um palimpsesto
a fundação de uma arquitetura segura.
III.
Arde sobre escorpião a minha prematura fome
farejo sob a armadura, onça descendo a rugosa fundura
tensionando_ rastro aroma sombra pureza, e encontra:
_dá-me a via do excesso, há anos-luz tem que espero
sóbria penetro com os dedos e retenho: esse antigo desejo
e já o encontro pronto, labirinto aberto sem pejo
mandíbulas na cartilagem tudo a minha boca come
sobre o teu sexo tocando a minha voz implora
que venha dentro: fecunda primeiro a última dobra
e cresço madura em seiva bruta folha nova.
IV.
Dobram-se as costas – como garças canoas
em remanso abandonadas, os braços remos
distraídos tocando, minúcia, leveza, delícia
a superfície de águas sopesadas, o descanso
Mas somente depois de força e loucura
essa dobradura se aceita: porque o amor
não compreende brandura que não seja
impudência arrefecida mornando alheia
sobre todas as nossas profundas fissuras.
V.
Repousa o pescoço sobre a fímbria do colo
[o faro preparado para todos os ciclos do cio]
as pernas arqueiam uma moldura para os quadris
é breve esse intervalo.
O ombro como alavanca se inclina e acrobata
[é a intimidade inesperada tua singular diferença]
junto à cintura sincroniza a rotação das vértebras
até a extensão dos braços.
De joelhos me segura de quatro, como potro bravo
É por trás que captura a cavidade e me suspende à altura
grassando absurdo e teso mais perto dos testículos
uma pintura na projeção do espelho.
Sobre os cotovelos suporto o peso, a tortura de tê-lo
no equilíbrio instável dos artelhos e sob o teu nariz
me devolve ao mundo mais madura e safo
sempre por um triz.
Fernanda Nali nasceu em Vitória, ES. É autora de “território inominado” (Cousa, 2018, Prêmio de Obras Literárias da Secretaria de Cultura do Governo do Estado Espírito Santo), atua na elaboração e execução de projetos culturais e cursa doutorado no programa de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.
Deus criou nas trevas
os vinte dedos do homem
e sua caligrafia cinzenta.
Cego, imaginou
o som do sangue.
Num súbito lampejo,
investiu no sujo da têmpora;
teceu chumbo nas escápulas
da criação.
Impedido de voar,
o homem consumiu o céu
com olhos vitralizados;
expeliu todo o fogo herdado.
Inferno abaixo da terra nunca existiu.
Esse peso de Sísifo…
Esse vislumbre do voo…
Desde então o homem
segue agradecendo diariamente
a falha nas asas.
***
SACRAMENTO
Abandonar o pó
e esquecer a terra,
quebrar o corpo
e esconder espinhos:
somos o sal
de um deus barroco
temperando intervalos
entre pedras.
***
ALONGAMENTO
Alongo os olhos
nesta manhã
e curvo a mão
sobre o teu peito:
frêmito de asas
que toma a forma
do chumbo
da cidade.
***
CAVIDADE
Coloca meu nome entre dentes
e trinca.
Amacia o escuro
que nele mora e rememora
o gosto acetoso:
uma manhã envernizada
e virgem devorando
a extensa e já vazia noite.
***
MILAGRES
Os céticos anunciam não existir milagres
que comprovem uma santidade ou fé.
Tudo é matéria oca e sem divinização.
Somos duros e ácidos e inventivos
em nossas brumas.
Construímos uma religião
para o desespero do pão.
Entretanto, abrimos diariamente um mar
ao observar nossa rasteira plenitude
de extremos — fuligem na carne.
O silêncio atravessa o raso
à procura de novas terras.
Não seria milagre
o som dessas salgadas águas?
***
SOBRE FICAR
Lacerar a pele
e manter as
sensações expostas.
Fender a epiderme
e ferir a cicatriz
do tempo.
Angel Cabeza nasceu no Rio de Janeiro. Cursou Letras e Jornalismo. É poeta, cronista, coordenador editorial e produtor gráfico. Autor de ”Canção para os seus olhos e outros castanhos” (Urutau, 2019), participou das antologias “O Casulo” (Patuá), 29 de abril, o verso da violência (Patuá), Qasaêd lla falastin — Poemas para a Palestina (Patuá) e das revistas Odara, Escrita Droide, Vício Velho, Literatura e Fechadura, Gueto, Germina, Zunái, Subversa, Cuarto Propio (Porto Rico), Verso Destierro (México), Generación Espontánea (Madri), entre outras.
Ouvi-los.
Fixa no tempo
a forma
remediando …………………..o branco.
Guardá-los.
Quantos forem os bocados.
Deixa na planura
um gesto,
mais parece socorro.
Ouvi-los
depois que o repetir
sob o acorde
de aranhas.
Um nexo.
Um corrimão avulso.
***
Pior, no plano
do cordeiro,
sabendo o homem,
eis o lobo.
O cruel da carne,
acredite,
zero a zero,
imenso o rosto.
Amadurece,
podendo advir
quando um bote
ave de rapina.
E o que retorna
ao sabor das mãos:
livre é o medo
no intercâmbio das coisas.
***
Mas como fugir dessa linguagem
impoluta, sufocada dia após dia,
intercedendo sobre tais minérios?
E como, arrisco-me por conhecer
nenhuma lei, alivia-se a boca
sob a estase dos ventos? Mais se parecem
do que negam, o verdadeiro valor
da conta, cântico dos quânticos
no descortinado meio-dia; aliás,
Sofia engole a cidade, convenhamos
que Sofia é morta e nos atende por Antônio
Gonçalves Dias, nosso primeiro narciso.
***
Primeiro arrebenta,
desemparelhado em sua fúria.
Um problema comum
ao ministério de todos, até mesmo
em suas abstrações: um galho que venha romper;
depois, no dia seguinte, análogo
ao anterior, você o encontra, naquela posição
inócua, promíscua, reposto ao ministério
da árvore. Como reagiria a esse beco?
Encerra os olhos, ali, na hora
de encontrá-lo, como um galho que pensou.
***
Quero da palavra sua ruga,
a mancha da camisa sem sossego,
os tempos louros
que só cheiravam a jasmim.
É sempre o mesmo desespero,
o mesmo pé de valsa
sobre o capim.
Quero a palavra ‘carne’,
verbo que ilumina,
labirinto sem Deus.
Quero a palavra ‘morte’
o terreno da sorte
zero à esquerda
até nos momentos de gol.
Inescapável
como a fome
baixo e vil até no nome
é certo que o Rio não é mais.
A regra
é o que reza pedir.
Quero a palavra ‘cobra’
com suas
dobras e rugas.
***
Eu sou o chaveiro, mais do que a chave de Só se passar por mim
O que atrai a tantos ou é tão covarde que morde os donos?
E tem também o oráculo de Delfos esculpido em tuas mãos.
No canto da página como água parada
o amor – sob custódia.
André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, leciona na FAETEC e SEEDUC. É autor de: “Flor à margem! (1999), “Um brinco de cetim / Un pediente de satén” (Maneco, 2003), “Primeiro de Abril” (Hedra, 2004), “ISTO” (Espectro Editorial, 2005), “Ao léu” (Bem-te-vi, 2007), “Terno Novo” (7Letras, 2012), “Mas valia” (Megamíni, 2016), “Nós os Dinossauros” (Patuá, 2016), “Migalha” (7Letras, 2019) e, em parceria com Armando Freitas Filho, “Na rua” (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema para os documentários “André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu” e “Autobiografias poético-politicas”, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.
O poema nasce da dor
Da indizível dor
A dor precária e suja
O poema é a própria dor
Narrada em desespero
A dor calada e velha
O poema traduz a dor
Sem rimas
A dor miúda e desvalida.
***
Giroscópios
Entretanto vigio a frase
Escorregadia membrana
Sob chuva de amarelos
Que preparam o dia
Vai-se o corte, a espera
A frase de magnólia
Que apodrece
As plantas, os giroscópios,
A escama, o chumbo do dia.
***
Faca do Sol
Me fiz rio navegável,
Faca do sol.
Nasci peixe feio
Sob as trovoadas de junho.
Banho as patas do gado,
Alimento seu existir.
Converso em água e sal,
Convulso o caminho
Em que me arrasto.
Sou verde, castanho ou negro.
Dependo dos olhos que fitam.
Sou agora rio: antes e depois.
***
Hábito
Onde os meus olhos
Eram noite e transitórios,
Julgo a tessitura do tempo
E transitório serei
Aos teus olhos suspensos.
Perdoa se me invento
A cada espelho,
A cada sumo da rudeza.
Ao arrepio dos pelos
Desprezo a demasia do hábito.
***
Nu
Durmo nu
Apesar dos latidos.
Sou ermo e rotina,
Spleen nos ilhéus.
Durmo nu e
Ninguém me anuncia
Mesmo que grite
O líquido da rua.
Durmo nu
E invisível.
***
Vento agrário
Quem detiver o tempo nos dentes
Irá quedar o desejo,
Conduzir águas ao extremo
No sereno em furta-cor,
No desmaio sumário do sol.
Quem guardar as ruas nas unhas
Irá dedilhar os rastros da noite
Antes que a morte navegue
O seu barco sírio.
Há um vento agrário no ranger da flor.
André Rosa é Ilheense, nascido na Maternidade Santa Isabel. Autor de “Morte e gênero: um estudo sobre a obra de Jorge Amado” e “Quintais do Tempo”. Coordena o Prêmio Sosigenes Costa de Poesia e compõe a comissão organizadora da Festa Literária de Ilhéus. Atualmente está presidente da Academia de Letras de Ilhéus.
a Augusto Soledade, a partir da lenda yoruba recolhida por Pierre Verger
certa feita, o Rei de Ifé,
vulgo Olofín Odudua,
como era de costume
fez a festa dos inhames,
proibindo que seu povo
comesse desse alimento
antes da celebração
mais esperada do ano
não que fosse um rei cruel.
essa tal interdição
se fazia necessária
garantindo que a colheita
fosse próspera e seu povo
tivesse acesso ao alimento
importante para o reino
que hoje fica na Nigéria.
e eis que chega o grande dia:
Olofín estava sentado,
vestido pra ocasião,
cercado de suas mulheres
– um rei podia ter muitas –
e também de seus ministros
cujos conselhos valiam
tanto quanto uns bons inhames.
como fazia calor
que atraía muitas moscas
os escravos de Olofín
– um rei podia ter muitos –
ao mesmo tempo o abanavam
e espantavam as tais malditas
de modo que o rei tivesse
o conforto merecido
e pudesse apreciar
toda a beleza da festa,
tudo feito em seu louvor:
os tambores que tocavam,
os cantos que entoavam,
os incensos que queimavam,
as mulheres que bailavam,
homens dançavam também.
todo mundo reunido,
conversando alegremente,
fofocando e paquerando,
festejando a vida farta,
comendo os novos inhames,
bebendo vinho da palma,
uma bebida africana,
até não mais aguentar.
só que um fato muito estranho,
antes nunca acontecido
em nenhum reino de África
se abateu sobre essa festa.
de repente escureceu
quando ainda era dia
e quando olharam pro céu
todos ficaram espantados
um pássaro gigantesco
sobrevoando Ifé
resolveu, assim, do nada,
pousar bem exatamente
sobre o teto do palácio
justo no prédio central
onde ficava o pátio
em que a festa ocorria.
acontece que o abutre
lá não estava por acaso
ele obedecia as ordens
das terríveis feiticeiras
as Ìyámi Òṣòròngà
donas de todos os pássaros
que usavam ao bel prazer
pra fazer suas maldades
logo que caiu a ficha
de onde veio a maldição
mais ainda apavorado
o povo de Ifé ficou.
o conselho de ministros
logo se reuniu com o rei
para resolver de pronto
a terrível situação.
matutaram, matutaram
e lembraram dos “odé”
– em iorubá, “caçador” –
que também são os “oxó”
– “guarda”, em língua iorubá,
já que o caçador tem armas
e a destreza para usá-las,
deles vinha a solução.
foi então que convocaram
o temível Oxotogun,
caçador das vinte flechas,
oriundo de Idô,
que chegou paramentado
com uma bela vestimenta,
seu grande arco e suas flechas
miradas ao alvo em vão
mas alguém lembrou que tinha
outro odé mais temeroso.
foram buscar em Moré
o bravo Oxotogí,
o das quarenta flechadas
atiradas para nada.
nem de raspão uma delas
atingiu o grande pássaro.
a terceira tentativa
veio lá de Ilarê:
o das cinquenta flechadas
chamado Oxotadotá.
igual aos anteriores,
chegou se achando o tal,
tirou onda e prometeu
o que não logrou cumprir.
acontece que uma caça
não depende tão somente
de destreza e habilidade
de um nobre caçador
tem de pedir proteção,
saber a quem de direito,
que comidas, que palavras
entoar e oferecer.
foi quando Oxotokanxoxô,
o de uma flechada só,
veio acudir Ifé
ao tempo que sua mãe,
lá na vila de Iremã,
pediu a um babalaô
que protegesse seu filho
e que o mal não lhe abatesse.
na consulta ele lhe disse:
“o seu filho está a um passo
da morte ou da riqueza,
faça uma oferenda e a morte
há de se tornar riqueza”.
ela pegou uma galinha
e a ofertou em sacrifício
às terríveis feiticeiras.
fez a oferta na estrada,
abrindo o peito do bicho.
com o respeito à natureza
e às ordens do Orun,
ela repetiu três vezes
o que o sábio lhe ensinou:
pois “que o peito do pássaro
receba esta oferenda”.
e foi que na mesma hora
que ela despachava o ebó,
seu filho lançava a flecha ,
a sua flechada só.
e eis que o pássaro gigante
abre o peito pra oferenda
feita pela mãe do Odé
de modo que relaxou
e ao invés da oferenda
recebeu de peito aberto
de Oxotokanxoxô
a sua flechada certeira
se debatendo de um lado
caindo pesadamente,
fazendo a terra tremer
e logo depois morrendo.
foi assim que o odé oxó
aclamado pelo povo
foi chamado popular,
que é o que quer dizer seu nome:
“Caçador é popular”
Oxóssi, okê arô,
caçador que é Rei de Kêtu,
viva Oxotokanxoxô!
eu era muito jovem e escrevia
poesia e as minhas poesias… tinha
poesias românticas, de protesto
contra o regime. eu era um poeta
razoável. depois eu desisti.
escrevia poemas que cobravam
dos generais, dos coronéis e tal…
escrevia sobre a libertação
do Brasil, sobre a liberdade, sobre
a tal democracia… até que um dia
ele me pegou, que dia foi, não
lembro…me despiu, me colocou
em pé sobre uma poça d’água, o fio
desencapado e atado em meu corpo
foi ligado por ele, que chamou
pessoalmente a tropa, a sua turma:
torturadores, uns soldados que
tomavam conta ali, eis a plateia,
a quem supostamente eu deveria
fazer declamação de poesia.
uma sessão de poesia para a tropa
na qual eu declamasse o que escrevia
contra o regime para os que a favor
me escutassem. e ficou lá por horas
com uma vara na mão que eu não lembro
exatamente o que era: um cipó,
alguma coisa com que me batia,
ele mesmo, pessoalmente, ali,
enquanto coordenava os outros a dar
choque, o fio desencapado e atado
no corpo do que era então poeta
recebendo telefones que não
aparelhos de comunicação,
mas muitos tapas dados com as mãos
sobre os ouvidos em posição côncava
numa sessão de poesia e eletrochoque
em que não declamava, mas ouvia
zumbidos de tortura e as risadas
que hoje só escuto parcialmente.
uma democracia por um fio
desencapado e atado em um corpo
que já não mais escreve poesia,
porém ouve os zumbidos da tortura.
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[1] shorturl.at/np489
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damarianas
I
se o habitat faz o monge
quem visitou a oca do poeta
outorga-se o habite-se da taba
onde a palavra mora se não nela
mesma pergunta que outra me deflagra
II
se a casa da palavra fica ao longe
lá onde mora agora o que não nela
a moça barda que é uma monja às pressas
se não habita lá a vida é bela
ela inter(p)ela:
longe de onde?
III
eu nem sabia nada
nada de onde aquilo ia dar
o que importa é que ele estava lá
antes que eu era
grafando nos cartazes mal me lidos
por entre umas vitrines tinha livros
e uns versos feitos pra dependurar:
deu-me origamis de papéis dispersos
não só suspensos: fáceis de(s)dobrar
IV
poemóbiles
orai pros natos nobilis
e as folhas podres dos bares avulsos
postando cibersóbrios veredísticos
sobre a nossa eterna embriaguez
de que só doma a razão em sendo louco
caso algo morra que não seja a plêiade
que só tenho certeza o seu talvez
V
e pelo exposto me interessa menos
acertar de onde viemos
do que errar para onde nós v(o)amos
***
pólen de flor
para Blande Viana
uma vez a
professora de botânica
estranhou
o fato de ter visto
uma placa
que dizia
VENDEMOS PÓLEN DE FLORES.
“de que mais haveria de ser?”,
ironizou.
o que me fez pensar primeiro
em polens das flores de plástico
alimentando gerações de abelhas mecânicas,
substitutas das suas matrizes
em adiantado processo de extinção.
elas, as extinguíveis, vão nos levar a todos,
dizem
.
.
.
um par de semanas depois,
lembrei que livros de poemas
gostam de miolos com papel
pólen ……………………………….soft ……………………………….& ……………………………… bold
nome que talvez se deva a sua cor
amarelada
e que reflete menos luz,
proporcionando uma leitura mais confortável.
oxalá
estas palavras percam sentido
num futuro cheio de
polens
de
flor
abelhas
&
leitores.
***
era
para Antonia Avelina Ninha, in memoriam
era
3 anos mais velha
10 quilos mais gorda
um tanto mais alta
gostava de me pegar pelos braços
girar girar girar ………………………………& …………………………………..s…………o…… l……t…..a…..r
um dia ……………………..as costas na pedra grande da rua
estrelas piscando num fundo vermelho
soltaram faíscas
e então
perdi o medo ……………………..de
re ……..vi ………….dar
***
A Educação pela Pedrada
para Jorge Augusto
Porque a pedrada é pra: pegar visão;
para aprender na tora, é uma bala
a queima-roupa, um cachação verbal
(um cínico litotes, uma fala
neg-afirm-ativa, pedagogia
da dura, do chepo, não burilada,
nem bostética, a ideia reta
sem nada de caô, que vai na lata),
lição da pedrada que vai pro centro
da periferia e a tudo empala.
Outra pedrada educativa: o não,
(do centro pro gueto, bem antipática)
pra aquele que não sabe se ligar
(e talvez não adiantasse nada)
que dar pedrada na selva de pedra
é faísca no paiol da barricada.
alexsim é um poeta criado na avenida Bahia, número 1, Fazenda Grande do Retiro, Salvador, meu amor, Bahia. é também performer, professor de português para estrangeiros e revisor de textos alheios, entre outros. publicou alguns livros, o último intitulado trans formas são. às vezes traduz, critica, resenha, edita e torna público o que faz. às vezes, troca de pele e de nome.