Wilton Cardoso é poeta e ensaísta. Mantém o blog O engenheiro onírico, onde disponibiliza toda sua obra para download. É autor de nAve aleatória (poesia), publicado pela Editora Kelps. Nasceu em 1971, mora em Goiânia e é funcionário público estadual. Formou-se em Jornalismo e é pós-graduado em Estudos Literários pela UFG.
nas horas de espanto me soterra
[o grito
sussurro caprichoso que espeta
minh’alma cala ao infinito
carrega esmola dispersa
um chão me calça
o céu insano
insônia que abrasa por dentro
encontra o gasoso desatino frouxo
objeta ……….transversa ….enganos
palavra desencalha verbos
sente um ais imaturo acirrar
enfada a nirvana vibrante
anseia cifrar ecos
que brotam
ferindo o ar
***
ruminância
Para Philippe Wollney
ruminância dentro do teto-retrátil do meu peito lavra o úmido egoísmo na dor dos meus instintos. suas vozes prefaciam um térmico-temor que percorre minhas correntes e carrega para si a infâmia de minha pequenez de gente; desenha um incolor infinito no meu ínfimo cansaço, bramando um raciocínio atômico entre os meus gemidos. ruminância, dentro desse vento assanha o intrépido firmamento e deita seus sons gélidos na antessala da minha morte; despreza meu coração amante, calcificando na libélula das minhas ramas este vagamente.
***
nas embarcações
no fio dessas dores ancestrais
do teu corpo-morno
nas vozes do teu bruto peito
existem vários rios
dentro do rio
labirintos copas casulos
z u n i d o s
que atravessam
de dentro pra fora
furando a carne
d e s a l o j a n d o
que rasga o tecido da terra
e espera esbarra inaugura
que arranca o leme
dessa carapaça verde
dos redemoinhos-portais do tempo
dessas bolhas
no barlavento direcionado
nas embarcações
ecos mudam de direção
***
iv poemas perdidos
para Luiz Fernando Cheres
e a sua descendência
existem iv poemas perdidos
dentro do tempo-ausência
e uma faixa clandestina na memória
existem iv poemas
que carregam a densidade das horas
e um temporal de silêncios-infensos-sibilantes
existe uma madrugada calma
nas vértebras da noite fantasmas
sussurros e grilos habitam as praças
enquanto descansa o barulho
da palavra não dita
***
o verbo i
para Casé Lontra Marques
aquilo que não queremos calar
– em nós –
é o que nos cala.
inabilidade dada
aos dias,
às horas.
ecos e suas ressonâncias,
suspiro, transbordamento,
distanciamento consanguíneo
rente ao orifício
(tudo passa pelo crivo que
silencia).
verbo que vemos
ao nos vermos.
reflexo do espelho que somos
– do lado de fora –,
não do que sentimos.
representações
[apenas representações]
só
existe palavra:
a palavra que existe
quando a palavra ainda não existe.
***
o voo do pássaro azul
para Luíza.
arde
alma, coração.
brilho ofuscado de negros olhos
que morrem [abrasa o leito do tórax]
na soma infinda de pequenos óbitos
eternos que
renascem em sentimento novo,
vestem-se, balbuciantes, agitados.
amores que não são amores festejam
no hipotálamo de uma cor
de ouro;
percorrem a noite da província;
queimam-se, porém,
divertem-se.
um vapor
no sumo da corrente:
– eu gosto é de quem provou do doce
e do amargo.
– eu gosto é do pesar da vida,
de aflição nos dias de inverno.
sente-se a liquidez.
o bater de mãos trêmulas
enseja a ribanceira do tempo
– úmidos dedos, fios que conduzem.
e o pequeno pássaro azul
logra, consagra,
no sobrevoo de asas,
acaricia o medo.
Tiago Rabelo é um jovem escritor brasileiro, poeta e estudante de licenciatura em História pela Universidade Estadual do Piauí [UESPI]. Têm poemas publicados na “Antologia Poética Gritos Contidos” (Coruja Escritora, 2017), “Antologia Poesia Agora” (Editora Trevo, 2018), e-book “Brinquedos do Infinito Poemas a dezesseis mãos” (livro disponível para download na plataforma digital VER-O-POEMA, 2018) e nas revistas literárias: Literatura & Fechadura, Mallamargens, QUETETÊ, Revista Prosa Verso e Arte, Ruído Manifesto, dEsEnrEdoS, A Bacana, dentre outras. As Vozes desse Rio (Editora Multifoco, 2018) é o seu livro de estreia na literatura.
quase uma hora do dia primeiro
o bordado ainda sem forma
tiro a mancha do calendário
afundo na água sanitária
uma hora e meia do segundo dia
carícia nos dedos
os dedos no corpo
o desembaraço dos cabelos loiros
quatro horas do terceiro dia
e reconto o prazo
peço que diga sim
giro em torno do rabo
quase amanhecer do quinto dia
sem o rumo da palavra
sem o ponto ensaiado
com o medo
puxando o fio
ao contrário
***
ESCOLHA
com a cabeça e o desejo no meu colo
entregou-me o buquê e os espinhos da escolha
eu, depois, no cais
não me virei
ele, depois, contou até cem
à espera dos meus olhos ―
jogou cara e coroa e guardou sua vida
***
FICÇÃO
no tempo passado
o pão do domingo era o trigo
ou o corpo
e são bartolomeu se refugiou
com o terror na sua noite
naquele tempo quase inventado
a dúvida se esgueirava nas bainhas
embutidas na pele
no tempo masculino
cada animal da casa cumpria seu papel
atento ao punhal desembainhado
***
INVENTÁRIO
procuro as sandálias de minha avó
em corredores de ariadne
evito o porão e seus castigos
a obrigação de comer berinjela
encontro seu precioso caderno de receitas
a secreta preparação da delícia de ameixas
pergunto o que é meu
meu mesmo
daqueles grudados
***
SÃO PAULO DOS NÁUFRAGOS
checar os monstros do armário
o tigre debaixo da cama
os pés bem guardados
a estratégia para a fuga
as perguntas arquivadas
e a capa da invisibilidade
***
SICÍLIA
são as palavras
aquelas guardadas
ou as outras
ditas aos solavancos
fugidias
são os silêncios
que permanecem
templos antigos
mal restaurados
é a grama
que cresce
ao redor
em cima
dentro
Inês Campos nasceu em Belo Horizonte, onde vive ainda hoje. É poeta e advogada. “Geografia Particular” é seu primeiro livro, publicado em 2017 pela editora Cas’a’screver. Possui poemas publicados nas revistas Gueto, Ruído Manifesto, Germina, Acrobata e na iniciativa Mulheres que Escrevem. Atualmente trabalha na finalização de seu segundo livro.
eu sou bicho
sou cavalo, sou cachorro
sou alce, sou raposa
ando pelos prados e bosques
por ruas e becos
na noite fria
corro pela beira do mar
meu sangue é tinto
meu corpo é quente
a palavra é só um eco.
***
Na praia com pedras
na praia com pedras
dois caranguejos e um cachorro
brincavam
eu era um menino pequeno,
me lembro bem
a onda passava por cima
dos caranguejos
minhas pupilas negras
cheias de ondas do mar
os olhos dos caranguejos
duas bolinhas molhadas
as pupilas escuras do cão
globos sensíveis de lágrimas salgadas
Um casal sacudia a toalha
de praia
mais para trás
por causa do avanço do mar
***
É que hoje não dá mais para
ficar ofendendo
ficar insultando
ficar engolindo
sair atirando
ser racista
ser misógino
ser fascista
ficar incógnito
ser cínico
compactuar
achar que tudo foi lula
quando no gabinete senta agora uma mula
(Sem cabeça)
simular que está tudo bem
crer que o problema é além
fingir que a lama do rio é natural
achar que o loiro é angelical
acabar com a natureza
dar razão ao ministro
confiar num sinistro
não demarcar T.I.
sair cortando mato por aí
roubar verba de escola e universidade
abrir alas para a calamidade
é que não dá mais
não dá mais para
só aliviar a coceira
epiderme cheia de verme
não dá mais a parvoíce.
***
Vazio dentro de mim
vazio dentro de mim
pau-oco, vácuo, limbo
o espaço entre dois vagões de trem
bateria descarregada
me sinto arriada
quando vai passar?
quando vai voltar o ânimo?
não tenho medo do monstro
ele só faz eu querer
vomitar
Não é ensaio
é a cegueira mesmo.
E o que brecht escreveu em 1938
vale agora 2018
poeta alemão me consola e
uma música do tom:
é o fim do caminho
é pau…tanta paulada
***
Poema sobre dor
a foto que vi no jornal
me doeu como um soco
no estômago
o menino de quatro anos
afogado
na beira
de um mar
seu pequeno corpo estendido
sua pequena alma voando
pessoas fugindo
da dor e do medo
em barcos infláveis
cheios de pessoas
fugindo da dor do medo
um soco no teu estômago
topada no joelho, pancada na cabeça
a bomba
e o medo da dor não ter fim
Valeska Brinkmann nasceu em Santos, 1972. Estudou Radio e TV na FAAP (SP). Escreve histórias para crianças, contos e poemas, tem textos em Antologias na Alemanha, Brasil, e Portugal e em sites literários como Stadtsprache Magazin, Literaturabr, escamandro (traduçoes). É integrante do coletivo GLENSE (guerrilha literária espontânea na sala de estar. Publicou em 2016 O livro infantil bilíngue “Pedrina- a perua que queria ser pavão”pela editora Bübül Verlag Berlin.
Os poemas a seguir foram inspirados nas colagens dadaístas, na eletronicolírica de Herberto Helder e no cadáver esquisito do surrealismo.
….I. no mundo terá aflições, mas tem bom ânimo,
eu venci este mundo
onde tudo dilacera e emudece,
onde tudo mente e separa
em meu tórax se faz uma ideia de Deus que não gangrena
é fácil recolher as pedras do caminho
é fácil contar o alfabeto em carneiros e amansar
porque eu mesma sou esta devastação inteligente regada
de malmequeres fabulosos
porque Deus chamou-me de filha e eu pude criar
letras que se amam como cordas afinadas de um instrumento celestial: uma harpa esguia de bondade e amor
e um ódio de pura navalha
o coração arrancado do peito
e exposto no balcão do açougue
pulsando, mugindo
….II. a mulher, quando está para dar à luz,
sente tristeza, porque é chegada a sua hora
engole um tenso terço de mãos,
sob um teto escuro de edícula sem estrela
depois de ter dado à luz a criança,
já não se lembra da aflição, pelo prazer de haver nascido um homem no mundo
tudo vive nela, tudo se entranha
ela ama como a estrada começa
quer só andar nua debaixo do vestido
respirando debaixo das saias, pois de sua intimidade saiu
outra vida
e a bexiga próxima do útero já não faz mais sentido
o estômago ardente já não faz mais sentido
só seu coração de mendiga comido pela lepra materna
….III. a carne redonda e perfumada do teu coração
enfrenta um minúsculo regato de silêncio
a garra bêbada do átrio esquerdo tudo quer da vida,
tudo quer da fome!
não preste satisfação de suas loucuras
só abra a porta para estranhos
enfie as 400g de seu coração na bolsa antes de girá-la na esquina
ofereça o ventríloquo direito àqueles homens de terno
e contraia.
….IV. Deus possuiu meus rins e me cobriu no ventre de minha mãe
os meus ossos não foram a Ele encobertos, quando no oculto fui feita, e entretecida nas profundezas da terra
Ele me deu o sangue e o maná e disse-me que era bom
quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar
onde o poema é de sangue: vermelho e espesso
grito de pássaro atravessando a noite
pássaro feito de veias, criaturinha feroz encarnada de bicos e coágulos
um pássaro em sangria absoluta, tingindo as cabeças dos sortudos
arma que se mete para dentro e transborda no sono que vem dos céus
quem morre, morre, tão fulgurante nas mãos e na testa
que ali não há mais noite,
nem a necessidade de lâmpada nem de luz do sol,
os outros ferem nossos corações de moqueca de camarão
nossos corações de cartilagem e Moçambique
….V. Você, que me tem feito ver muitos males e angústias,
me dará ainda a vida, e me tirará dos abismos da terra
há palavras escuras, guardadas dentro de outras arcas
roxura é ânsia, roxo imundo na fissura da rocha,
na fissura da boca
o mar suga essa fenda, essa garganta,
é preciso o revólver de um só tiro na boca
é preciso o amor de repente de graça
o estrídulo o roxo o palavrão o dedo do meio
os poetas imaginam sempre suas próprias rosas
nunca fui senão uma coisa híbrida
aquela que não te pertence por mais queira
a rocha lírica de engasgo na tua moleira
a fina flor de nitroglicerina
….VI. seu coração é uma jaula de luz fechada
um silêncio de alma atormentada
se o seu canto soar bonito,
cuida para que não seja um grito
entre o beijo e a renúncia, tempere com violência
este jantar
nos oitenta buracos de fechadura, aquelas almas subirão ao céu?
não escolha o passo que flutua, mas o cimento que pesa
em seus pés
nessa jaula o coração definha, embora
os laivos de fúria mintam que você ainda é capaz de unguentos
eu sei que suas pernas tristes não te levam
a um palco de amor
por trás destas grades existe um homem vestido de bicho
apenas aguardando o clique do ferrolho
para beber o sangue de quem passa
Priscila Hoffmann Merizzio. Curitibana. Tem dois livros publicados: “Minimoabismo” (ed. Patuá, 2014), semifinalista do Prêmio Oceanos 2015 e “Ardiduras” (ed. 7Letras, 2016). Mestre em Estudos de Linguagens, escreveu sobre os matizes surrealistas num poema de Herberto Helder. É idealizadora e coordenadora do projeto Pulmões Versos.
Odor.
Revelas-me o mistério do que é táctil.
Do que existe para além de mim,
e que regressa mudo,
entranhando-se na pele,
o maior órgão
do corpo
humano.
Ainda mais humano.
Aqui.
Em contra mão.
Em contraluz.
Ondas.
Sete até ao rebentamento.
Esquecer as listas,
o léxico,
a lengalenga das preposições,
a dor nas mãos
quando havia esquecimento.
Descoberto
O significado último
de apontar para o céu.
Aqui.
na pressão variável
do teu peito.
No ritmo doce
de dois pulmões,
transcreves
a mais cândida estrofe
sobre
ser.
***
Hemofilia
Passar-te nos dedos os papéis em corte.
Deglutir sincera na direcção oposta.
Por um triz levaste nos bolsos um esboço sorrindo.
Uma quase neblina que em raiz perdura.
Estancar-te na ferida que abres ainda,
Na generosa oferenda cálida do magma
antes de explodir,
Em sabor bélico,
Difuso e torto na mucosa efervescente.
Repete-me:
um corpo nunca é apenas um corpo.
É antes um choque em cadeia numa auto-estrada coberta de chuva,
a um domingo.
***
Café Curto
Cortada e sorvida metade da laranja,
passei os dedos na aplicação.
Esquerda.
Direita.
Repeti. Infinitas vezes.
Tu em nenhum quadrado.
Só naquele quadrado tão teu,
tão pendurado no avesso
da nossa interrupção.
***
Ilusão de óptica
O poema surge da justaposição dos corpos.
Das arestas erodidas pelos fluxos em contacto.
Preparo a passagem do testemunho.
Evitando ouvir as tuas mãos trémulas a cair em caixas.
Cantando-te no desaparecimento sôfrego dos náufragos.
Aperto o volume indefinido da estafeta.
Tapo os olhos túrgidos enganando o pragmatismo das listas.
Repetindo a sede paciente do que é inevitável e intemporal.
O início tosco do verso resistirá na penumbra da raiz.
Respirando em segredo segundo os compassos do nosso encontro.
Vai descendo o testemunho pelos teus olhos que se afastam.
Temos apenas um segundo antes de tudo ser já estrofe e harmonia.
Um rasgo subtil de instantânea clarividência.
E aí saberemos.
Sim, somos um novo poema.
***
Linha Mestra
Não sei se da pálpebra,
ou da coxa,
augúrio ou despedida.
misturas,
ou um eco
pálido
das suturas quentes.
linha vermelha.
O alarme dissipa
a óbvia pergunta sobre disparidades.
mão que se pousa,
ou se imagina pousada.
ténue.
segurança proscrita.
linha vermelha.
Não sei se sorrisos,
ou silêncios.
na surpresa só o atraso.
o atraso de ter,
ou de nunca ter tido.
de saber que se foi,
que se demora no regresso,
que na forma se engana.
linha vermelha.
Faz-se da espera um verbo.
Os caminhos são curtos.
Os narizes rectilíneos.
Nem uma sílaba se toca
entre os nomes e os
versos.
A linha não quebra,
nem aproxima.
apenas existe.
e revela.
***
Acto Sétimo
Nos padrões pulsão que paralisa.
Abstraída nos cortes transversais,
ser-se mono ou dicotiledónea apenas.
Puxar lustro a imaginados cones,
Pressentir os dedos húmidos
na destreza lenta das folhas.
Permanecer quieta na certeza de que só cresce
suave.
Ser a rainha do meristema apical.
Dominar assim a latitude e longitude.
Prender amostra na lamela.
Ser-te no corte e fixar-te o meio.
O prazer condensa-se pelo recorte oculto.
um secreto decifrar ambíguo de corantes,
ora parede espessa ora comunicante.
Excitação que cavalga nos contrastes,
labirinto redondo de células côncavas e convexas,
fixar a ampliação e rodar o foco,
soltar a cada mês o acto redondo da origem.
Nem meristema nem membrana vegetal,
toda eu animal
em vertigem compulsiva
de rebobinar e premir play.
Gastar toda a actividade mitocondrial
em overload sensorial
sem conquista ou consequência.
Fascinada pelas palavras e a sua musicalidade e ritmo, Denise Pereira começou a escrever os seus primeiros poemas aos dez anos. Em 2011, começou a publicar regularmente os seus poemas e textos no blog “Janela Inquieta”. É doutorada em História, Filosofia e Património da Ciência e da Tecnologia, pela Universidade Nova de Lisboa, tendo escrito uma biografia do Psiquiatra Luís Cebola (1876-1967), um dos pioneiros da arte-terapia em Portugal. Em 2015, escreveu uma performance músico-poética original – Marioneta Inquieta – que, desde então, já foi a palco inúmeras vezes em Lisboa e em Berlim. Em 2016, mudou-se para Berlim, onde reside atualmente. Alguns dos seus poemas foram traduzidos para alemão pela tradutora e autora Christiane Quandt, a propósito do festival e publicação Stadtsprachen.
ansiedade
é a gente surrupiar toda a sensatez
sugar o ceticismo
se sabatinar, auto-sabotar
serpentear por futuros absurdos e quem sabe possíveis,
mas improváveis.
suportar sozinha as situações sonhadas de desalento
é desesperar no abismo
insegurar nas possibilidades
se saciar na insanidade.
***
O período mais duro
Mais trôpego, mais triste, mais traste
Foi aquele inverno nos jardins
De Sophia de Mello Breyner Andresen
Em que esqueci os instantes que vivi
– e os que não vivi –
Junto ao mar.
O Porto era então todo cinza
Todo cinzas
Gélido, úmido, sufocante
Tinha mesmo sido
Um lar?
E mesmo nos jardins
De Sophia de Mello Breyner Andresen
A trégua era só para um suspiro
Um soluço, um sussurro
Uma contemplação das roseiras já murchas
Que um dia pertenceram a Sophia
– agora já éramos íntimas, separadas apenas pelo tempo –
Sophia que um dia disse:
“O Porto é o lugar onde para mim começam todas as maravilhas e todas as angústias.”
***
Poesia
versos podem ser
analgésicos
nostálgicos
(cômicos) incômodos
icônicos
nas costas insustentáveis,
curvados
versos são
etéreos, instantes
materiais, estantes
***
até ontem à noite eu não sabia como era
urrar de dor
até perder a voz
animalesca,
assustar o meu gato
abandonar minhas introspecções
acordar os vizinhos
fazer tremer os móveis
pôr o peito pra fora
junto com a garganta
o som voraz
desfísico
mais veloz que a luz
urrar até raiar
urrar na aurora
uma dor crepuscular
***
por que tanto temor do tempo
e seus tentáculos tentadores
que te enterrarão tiranicamente
a trote e a galope
em grutas de topázio e turmalina?
medo, não
qualquer terremoto, aterramento, desastre,
casulo, desfecho
vale mais que esse deserto
***
hipocrisia
uma crise no hipocampo
direito – esquerda?
sinistros vórtices vívidos
vertigens em
versos
vertigo
Luísa nasceu em João Pessoa (Brasil), onde se graduou em Letras e concluiu o mestrado em Linguística. Contribuiu com artigos sobre literatura e cultura em geral para os portais Diário do Centro do Mundo e Prosa Mirante. Atualmente, é estudante de doutoramento em Literatura e Estudos Feministas da Universidade do Porto.
Para que a pressa
se a vida inteira se tece de acasos?
chove sobre as ruínas do castelo
como outrora terá chovido
sobre as pedras recém-erguidas
para que a pressa
se apenas lento …………………………..lento ………………………………………….lento
o cinzel do tempo
nivela e repara?
À minha revelia
todo ponto é feito e desfeito:
sou um detalhe que passa
assim como – vista do trem –
toda a paisagem.
Como arrancar das pedras
a verdade que encarnam?
tudo agora é anódino e pálido
(até mesmo o pálio
no centro da praça
que de graça se oferece
a nossos olhos desarmados).
Onde o esplendor medieval
que colorimos de bandeiras e de cavalos?
levianamente
pisamos as pedras há séculos dispostas
e nosso coração nem sabe
dos suspiros e das noites
nem sabe da beleza
nem sabe.
***
Deixa sentar a poeira do tempo
debruça-te sobre mim.
Foi de conviver com a luz e com a água
essa minha lucidez esse lodo
esse gosto amargo demais
esse meu lado avesso e morto.
Não tenho margens nem porto
não possuo uma única ilha
mergulha em mim
não mais que tua mão
e acompanha minha vigília.
Velar é preciso
(é como navegar)
teu rosto impermeável
Não se molhará.
***
INVENÇÃO
Para que mais do que já temos?
nossas roupagens humanas
nossa fragilidade
o areal que atravessamos
nossos parcos segredos:
tudo é a vida que vivemos
deveria ser suficiente.
Para que inventarmos
o Amor e seu desassossego?
***
NO ESPELHO (II)
Eu te acendo
e me vejo:
sonhos de infinito
esse jeito tosco
meu andar comprido
meu olhar tão fosco
o amor perdido
– não vivi de todo.
Perdi minha ambição
(lembrança antiga)
já não brinco de poemas
algo se desfez
perdi – razão da vida –
o meu canto.
Já não me comovem sonhos
nem sonhos há que me movam.
Sobra a noite
e em teu vidro – aceso –
o meu espanto.
***
HOMO LUDENS
Lúdico animal o homem
e esse ludismo o transforma
em carta marcada embora
ele nunca saiba a hora
certa xequemate (o rei
morreu? outro rei é posto)
nada se mostra em seu rosto
que não esse jogo vário
de mil nomes – estuário
de todos os seus desejos.
Que mar, que mar os espera?
Não há. O que existe é mera
ilusão – regra do jogo:
pensa-se tirar a sorte
porém morre-se no fogo.
***
Uma
duas
três taças
e o poema se derrama
– vermelho e ácido –
queimando minha garganta
toda palavra é um pássaro escarlate
que voa sempre
(ainda quando me calo)
no tempo escasso da tarde
Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.
A resistência
é um gato branco
numa noite
de blecaute.
Muitos pastores
um só holocausto:
Deus nos salve
de Deus.
***
CARTEIRA DE TRABALHO
para André Luiz Pinto
Folha de prata
que cai,
qual raiz no húmus
inferno capital.
Ínfima
renda per capita.
Todo dia
o mesmo esquartejamento.
Em lodo
o lobo rapina
o sol, bois
& relhas riscam
o pasto.
Não faltam homens
que comem feno.
Adão, tu ganhas
o pão com o suor
da tua tarde,
mas muitos dos teus
filhos comem
a nossa carne.
***
TEOLOGIA NEGATIVA
Nas maçãs do mistério um louco
morde a sombra
do sol.
Sob o peso
da solidão
é o meu número.
Hoje a comarca não me compra.
Uso sapatos
de chumbo para o vento
não me roubar.
Mostro a imensa substância
das noites escuras
de San Juan de La Cruz.
Na fuga
do hospício etéreo
a realidade se salva em porta:
arranha-céu.
***
GÊNESIS
Deus, como verbo,
é criação. Pecadores
são santos em potência:
universo em ebulição.
Antes do homem,
os peixes brincavam
nos grânulos da linguagem.
Celebramos o que nos falta.
A poesia é o brilho
de uma estrela
fora de época.
Em tempos implumes,
esqueço os dialetos
falados na Torre
de Babel e brigo
com homens e demônios.
***
REVELAÇÃO
Falta um afago
nas ruas
que pavimentam
as multidões.
Quando o artista briga com
a tirania do horizonte,
salta um sentimento
de beatitude entre os pulmões.
Vidas destroçadas:
desencanto
pelas metrópoles.
Dostoiésvski embriagou-se
do sermão da montanha,
lembra um teólogo,
diante da divina intuição:
o inferno não
é um lugar das almas
non gratae,
é a indigência de amar.
Tito Leite (Cícero Leilton) nasceu em Aurora/CE (1980). É autor do livro de poemas Digitais do Caos (Selo edith, 2016). É poeta e monge, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É curador da revista gueto. Têm poemas publicados em revistas impressas e digitais.
se tal não vai à montanha à que vão já as montanhas
“A menos que con afán, que con afán conserves Tus inquietudes y así nunca envejecerás”
transtorna as geografias
os planaltos as planícies
as depressões
as intempéries vêm em dois tipos
de dentro
pra fora e de fora
pra dentro
pega de punhado
tudo o quanto geomorfa e deduz pra si
um rosto não inquebrantável
que soe quase como se fora
manufaturado por um deus perspicaz
ou assim parecesse ao menos
a maturação um dos envelheceres mais inacabados
longe dos céus tanto almas quanto pássaros
livres e já próximos muito próximos
do paraíso como todo o resto
um silêncio de milhos nas calçadas
e chega
tremem
as rótulas quando querem tudo
não me dói
nos joelhos a montanha
agachada em perjúrio
***
ab sentia
“[…] a mão é um pentagrama, mesmo morta.”
(Andréia Carvalho Gavita)
e foi que perdi
e fiquei só
com aquela parte mais bonita
tipo
uma música
e o silêncio que ela provoca
***
contra conjunto ou neon sobre fumaça
“Olhos míopes inúteis obrigam-me […]”
(In: “Inconfidência primeira”, de Natália Ribeiro da Conceição)
o olhar mais se detém mesmo é quando falha
noutras vistas as minhas
descansadas param com isso de
ultrapassa pelo acostamento
vai
tatear os mundos pelas suas córneas e pelas suas cordas
pois
dói na garganta o tanto seu nome nos pulmões
e nos descansos
e nos cenários
e numas pedras com umas sílabas
à tiracolo
ficar perguntando pra janela
quando a gente nem tá mais no carro
já chegou
não não
falta ainda alguns aniversários
ver mais mesmo é quando longe
leio
claro tipo
um miopismo inexato
na fumaça do cigarro toda a esquiva tragada
o cotovelo na mesa a cabeça entre os tabacos
como num balãozinho de hq daqueles de pensamento sabe
uma interrogativa
ou uma inlabial desleitura
faz quanto tempo desde a última
vez que sua boca nunca
***
garganta do diabo
“[…] I finally died which started the whole world living Oh, if I’d only seen that the joke was on me […]”
(Single by Bee Gees, 1968)
desse teu imenso e venerável e húmido
não era dizer ainda
da nossa alma olhando pra dentro
enquanto grandeza mensurável a fúria do mundo tem mais peso
e ainda
em nossos
estados mais primitivos é que nos tornamos
mais rápidos mais furtivos
do sublime ou da lição de arquitetura dos tempos
silêncio
***
fraturar as raízes duma ilha
“[…] Ou a enxuta memória de quem não sofreu, não morreu – apenas olhou.
E gravou a visão do demónio no quintal.”
(In: A dolorosa raiz do Micondó, de Conceição Lima)
daí uma vez
não
não gosto do
era
uma vez ela me perguntou
se você pudesse ser alguém
da literatura quem seria
respondi eu seria
a susan sontag
a conceição lima
a hilda hilst
a carolina maria de jesus
a paulina chiziane
eu seria
a stela do patrocínio
e era só isso mesmo
histórias à parte e também entropias
encontramo-nos noutra forma
encontramo-nos noutro modo
encontramo-nos noutro sítio
***
Ordália
“Se deus der rolê com cartão magnético nem por marca de nascença reconhecem no exame médico […]”
(-In: “Direto do campo de extermínio”, Facção Central, 2003)
menos o ônibus chacoalha mais livres as mãos
perceber não só com o corpo mas
com o corpo inteiro
a organização dos ódios ainda que desses de pequeno porte
e a maneira lenta
lentíssima bem lenta pela qual nossas formas a um só tempo
abrangem a terra e desatam da terra
as maneiras pelas quais os determinados chãos onde cremos nem sempre
funcionam nos mesmos termos ou permitem
os embarques os desembarques aqueles
aos quais queremos
o aviso é claro o aviso é objetivo
fale com o motorista somente o necessário
bem como os outros do tipo
esse assento é de uso exclusivo e ou preferencial
ou fique atrás da faixa amarela
talvez soassem melhor se fossem não pisoteie lugares místicos
de caminho no corredor vamos uns aos outros
nos evitando mas nos ouvindo
oh
que será de nossos filhos de cem anos depois de tudo isso
terão eles também alguém nos acentos aos lados pra dialogar
perguntar e aí valeu
mas por que um céu tão baixo
mas por que abaixaram tanto esse céu
é pra poder tocar sem as ajudas de aparatos levadiços será
e ainda que o céu se quebre não condenaremos nossos
opa no próximo eu desço satisfação te encontrar
precisamos nos ver com mais tempo
queride fica bem agora com licença enquanto eu mato o céu
ali espia
o gambé com o negócio coldre neh que fala
desabotoado
aham
dizem nos transportes públicos eles têm que tá sempre de pé
menina mas cê ouviu quando ele falou
do milagre do barro como portento divino
mas se há todos esses outros de porte pequeno
as fomes as sedes as linfas
e o principal deles esse milagre
o da brita
oxe pior ainda
e se o enquanto vamos apertando botões puxando cordinhas
é o enquanto vamos anulando-nos uns aos outros enquanto criaturas
de caminho no corredor aniquilando-nos
pois é
ainda que aqui donde a gente tá
parece tudo meio calmo um pouco
ih olha lá
o pivete estrebuchando no chão esse aí
deve tá na abstinência da pedra
certeza
ou não
pode ser na abstinência do pão talvez
tomara chegue logo nosso ponto
que de bucho cheio talvez a gente expia umas certezas
dessas mais bestas
os quinze minutos de rango hoje deu nem pra metade da marmita
no pano de fundo desses diálogos muito muito imprecisos
um cão pixa com mijo ao pé da letra no poste
estamos será a quantas refeições do colapso cívico
debaixo desse sol tremendo
Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Graduado em Letras na USP, desenvolve (ou não) projeto de mestrado com interesse em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos de Gênero. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), entre outras. Participou das antologias “Os pastéis de nata ali não valem uma beata – antologia de 2017” (Enfermaria 6, 2018), “29 de abril: o verso da violência” (Editora Patuá, 2015), entre outras.