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122ª Leva - 07/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Vladimir Queiroz

 

Foto: Bárbara Bezina

 

VALADO

 

Existe ali ao lado
um buraco profundo
que se divide em temores:
um que berra e se oculta;
um que se transpõe
invade
vai ao longe
nas asas
no voo da catapulta;
um dominado
que rumina
o lume indigesta,
que passa pelo trato
como um jato obscuro;
um que transpassa o valado
de um pulo, em solavancos
mancos, de bengala
e se rala nos joelhos
no farpado embolado,
cumprindo uma penitência.
Sangrando sorri
um riso largo
nas mãos brancas
de um teclado melodioso,
vai mancando
arrancar os tocos
……………….trecos
…………………….tascos
da alforria prometida de um ser alado.

 

 

 

***

 

 

 

ABISMO

 

Resvala-se o louco pelas frestas,
respinga a borrasca pela testa
que lhe empresta o balanço do mar
para navegar sem rumo
à espreita do horizonte que lhe foge….

Um mouco que lambuza na fronte
as cores e segue pelas nuanças
à beira do abismo.
Numa mistura de cataclismos,
em desalinho cisma pela noite,
pelos ventos aguçados
de sentidos.
Adormece após os uivos
e gemidos.

 

 

 

***

 

 

 

LILÁS

 

A curva do rio é um anúncio,
prenúncio da correnteza.
Prepúcio tosco a desvestir o reinado
que coroa o bem-te-vi.
No jornal a manchete desregra a balburdia
criada no matagal:
torrenciais as chuvas estrondam e ocultam
o choramingo dos ninhos que repousam sob a várzea.
Nem se ouve o gemido germinado da gema
de um cristal puro que prende o grito de vida:
jaça a ir-se colérica no sopro do vento,
acompanhar a curva do rio que mastiga o bambual.
Indefeso caminho do leito
que na tormenta indigesta sucumbe.
Um obituário genérico nas mãos de um bérbere
hedonista, a moldar com as mãos a ânfora,
que recolhe a água que molha a margem,
que muda a cada instante
e flui:
pretérito sujeito de Éfeso em profecia.

Vem o perfume lilás aos olhos,
cai pétala por pétala o aroma
adubando a sola pé ante pé,
curtida de um couro denso, passa.
Uma rês que se desfez.
Não se compraz e segue,
fica o perfume estendido:
perdido jaz
…………….na praça.

 

 

 

***

 

 

 

MUXARABIS

 

Vejo a beleza que se espalha
por detrás da treliça
escondida,
a resguardar a formosura.
Só a réstia e o caminho lunar
podem beijar-lhe a face,
adernar sobre a pelve roliça.
Só a treva a rondar-lhe a boca,
despregar o véu da doçura.
Só os dois a comungar o amor,
entrelaçar os segredos.
Desvendar os devaneios,
os arquejos
e anseios guardados em jura.

 

 

 

***

 

 

 

TROMBETAS

 

As trombetas são ouvidas
para anunciar a estreia sem ensaio.

Vai pelas escarpas rolando o corpo
até despencar pelo barranco a alma,
e com calma repousar a crina,
lacrimejando.

As trombetas são ouvidas
para anunciar a estreia sem público,
e no púlpito desfazer as injúrias,
póstumas.

Vai pela campina forrar de madrasto a pele
que lhe permite o passo.
Despedir-se da culpa
que lhe mantém preso aos mistérios.

Sáfaro indigesto a berrar
ao Deus Hefesto:

Escrever com o ferro da forja a fala!

 

 

 

***

 

 

 

BARBA

 

A barba a crescer-lhe aos pés,
a tocar os caminhos nos passos
em desalinho que ficaram construindo o por vir.
A barba a roçar-lhe a mão, que pensa
segura o afago a gestar a ânsia da pele.
A barba, um invólucro de algodão
a ocultar a expressão das marcas
estiradas pelas macas que passam
e levam o tempo num suspiro,
desnudo de tudo,
num susto oculto da leve brisa
que roça a barba.

Um soluço a descer-lhe pela face
e mergulhar nos fios
escondidos na sofreguidão.

 

Vladimir Queiroz nasceu em Feira de Santana, Bahia. É membro do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Européias (CLEPUL) – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou os livros de poemas “Seres & Dizeres” (Pórtico, 1996), “Apokálupsis do Sertão” (Luripress, 2008), “Instinto” (EGBA, 2010), “Muxarabis” (EGBA, 2015), “Brasileirança” (EGBA, 2016), dentre outros.

 

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Janela Poética IV

Rafaela Ferrari

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Se do meu púbis nascessem asas, talvez esse peso no colo também aprendesse a voar,
talvez a necessidade de preenchimento com algo que molda meus pensamentos místicos necessitasse de somente mais um livro mítico para recuperar
esse vazio
essa completude de bebidas alcoólicas e fumaça enquanto fecho os olhos, e minha existência se resume a apenas um mexer da alma na caixa craniana, como se nem a gota mais pesada de chuva pudesse matar a sede
do púbis

sem luz
mas com esperança

 

 

 

***

 

 

 

o peso no peito na penumbra do quarto
o vestígio do vento nas veias
na minha orelha
no lago
O do ré mi fa das partículas subatômicas
nem a mais doce rosa de Hiroshima saberá cantar o adeus à pátria

 

 

 

***

 

 

 

Entre vidas e vindas
Descubro que a partida é a mais rápida das mortes
aos quarenta não sou
aos quarenta serei
mais pó do que hoje me descubro ser

 

 

 

***

 

 

 

gravidade igual empuxo
me encontro flutuando em mim mesma
pernas e braços algemados unicamente ao meu próprio ser
apnéia em minha própria consciência, que me afoga
que me sustenta
que me prende
que me algema
que me proíbe de conhecer o infinito pó das estrelas numa tentativa de conhecer o finito pó do eu.
Às pressas nado

em mim

 

 

 

***

 

 

 

Ausên…cia

 

Ainda bebia dos cachos ausentes , a curvatura do sorriso, o vai e vem do toque , o vai e vem da alma. Bebia do Abraço ausente , o calor dos átomos , o frio do vento , a beleza de um mundo sem sapatos.
Bebia do beiço ausente , a pureza do laço cardíaco , a sujeira do caminho , da passagem entre o corredor
e a estrada
perdida
encontrada
Bebia dos lenços a própria lágrima.
De todas as ausências , o cheiro era o que mais falava

 

 

 

***

 

 

 

Olhou pro céu
e reparou que o eterno é uma vulgar onda eletromagnética chamada de luz.
Com forma
amada
Conformada
Sem Theo.

 

Rafaela Ferrari cursa Relações Internacionais na Universidade de Brasília. Natural de São Paulo e parida na Avenida Paulista, começou a se interessar pela arte durante o Ensino Médio, em um curso para jovens escritores (CLIPE) da Casa das Rosas.

 

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Janela Poética V

Ana Freitas Reis

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Horas doces.
Um segredo, sem som, sem enredo,
Só silêncio segredado num espaço isolado,
Dentro a luz e movimento plano.
Nem um dano, nem um toque, nem uma dor,
O segredo revelador do que se tem suspenso, pontas de voo leve.
Sem greve, sem grave, sem agudos, Só os mudos que se querem em viagem de olhos abertos e fechados,
Sem machados, sem armas, sem pecados, só planície, só paisagem.
Horas de paragem.

 

 

 

***

 

 

 

O tempo suspenso do criador. Sabemo-lo do pássaro a elogiar a horizontalidade. Um gesto que amacia a possibilidade de um longo campo para fertilizar. Junto à montanha a urgência da geração. A homenagem ao minúsculo. O espaço da transformação. Como se apenas fosse necessário permitir que cada ponto pudesse encontrar o seu lugar entre os outros. Regressamos sempre ao encontro.

 

 

 

***

 

 

 

corpos emprestados
em roupas roubadas
de encontros furtados
entre mãos mentirosas
textos perdidos
em prazeres fingidos
bocas enganosas
entre sonhos adormecidos
lençóis mal lavados
em dormidas vazias
dos quartos alugados
entre noites vadias
radiografias marcadas
costelas partidas
pernas engessadas
carnes agredidas

 

 

 

***

 

 

 

Não quero nada mais óbvio do que os azuis de um céu escuro, do que uma casa abandonada e do que um livro que não se sai da capa. Não quero nada mais óbvio do que vozes de cigarros de prata, do que uma passadeira de memórias e do que ninguém que passa por essa estrada. Não quero nada mais óbvio do que uma janela partida, do que os ventos daquela despedida e da morte a assoprar no caminho. Não quero nada mais óbvio do que um carinho, do que ouvidos que se assobiam e de silêncios que não são óbvios.

 

 

 

***

 

 

 

O ser em contração
Sem combustão no interior
Devagar, bem devagar
Lento, bem lento
O calor
Dissipa-se pela luz
Cessa os movimentos
Fizeste de mim o ausente
Estou em vão

 

 

 

***

 

 

 

Vai
e vem
a morte
o ciclo
a espécie
tem contínuo
Norte
O ponto
O repouso

 

 

 

***

 

 

 

Sobressalto
Cada vez que os meus olhos amarrotados se fecham
O preto protege-me da luz
São camadas, muitas camadas.
A porosidade, a cor e a textura fazem parte do nosso solo.
Passamos por ele sem palavras.
Embaraço
Cada vez que os teus olhos espantados se abrem
No campo, a nitidez da profundidade e o encanto na cristalinidade da pedologia.
Esclareço-me
Cada vez que há olhos que se fixam na geografia
Perdemo-nos entre as cortinas meridianas maiores que o território.
Não consigo codificar porque
Distorcemo-nos
Cada vez que os nossos olhos se atravessam.

 

Ana Freitas Reis vive em Lisboa e é criadora. Cria programas de desenvolvimento de pessoas e poemas. É graduada em Psicologia pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Há 10 anos que é sócia-gerente da Progma, um projeto para o desenvolvimento de competências comportamentais, onde é responsável pela inovação dos programas e faz a coordenação e produção de espectáculos teatrais e programas de formação para outras empresas. Colabora semanalmente com o radialista Ricardo Mariano e o fotógrafo Alípio Padilha, no programa de rádio Em Transe, onde escreve parte dos seus poemas. 

 

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Janela Poética I

Teresa Coelho

 

Foto: Bárbara Bezina

 

estarei distante nos próximos 100 dias

 

[sem magia]
crio rituais para ser sozinha
como se a solidão
quisesse jantar
todas as noites
mas nunca chegasse a tempo
ela encontra meu corpo
recolhido
e
deita
em silêncio
como se cavasse uma cova
para uma multidão

desconhecida.

 

 

 

***

 

 

 

Construção

 

Este é o corpo
que funciona com
cordas suturadas
por andaimes
imaginários

o aço o sonho
o esquecimento
o sol o quadrado
o dia o estômago
o sexo o suor
as flores do outro
lado da rua
dançam todos
pendurados
sem grandes
promessas

—- Ouve o teu corpo
nascendo dos arcos inflamados
do fim de todo caminho
—- Ouve o teu corpo
nascer

Somente o que é possível
ser criado no vazio

– recitar poetas vivos
– boicotar o sex shop
– pular de viadutos esquecidos
– expectativas alcançadas.

 

 

 

***

 

 

 

a apoteose dos anos é o silêncio.

 

a última partida

quando soltei
a tua mão
descobri que nunca
gostei de futebol

perguntar sobre o jogo
era uma forma de
te amar
longe de mim
– hoje vago
como se estivesse
numa arquibancada
vazia –

[aquela escada
já desmoronou
pensei que tuas costas
fossem minha babel]

o último letreiro da partida:
“a felicidade é uma arma quente”

quando subi no ônibus
vi as janelas todas
decidindo
a loucura
o desastre
o grande desencanto final

rezei com todos os idiomas
do desespero
“protège moi
protège moi”

despi a cidade
com a violência
de uma criança

destroçada.

 

 

 

***

 

 

 

Isabel é codinome para partir

 

08h ela me acordou
08h30 eu assoprava o café
o café
doce demais
fraco demais
ausente
08h35 ela ajeitava a toalha da mesa
repetidamente
08h46 eu respirava mais baixo
09h ficaríamos em silêncio
perpetuamente

09h43 ela me comeu

11h57 eu ouvi o portão
gritar
entendi todas as cores
do mundo
todo o cheiro
desapareceria
todo o céu
seria uma parede rachando
uma rua em desencontro
um vulto do futuro

11h59 ela havia partido
definitivamente.

 

 

 

***

 

 

 

o outro lado do mundo alguém acerta sem saber

 

o amor devia ser assim feito preparar cuscuz
a gente mede a quantidade
com a xícara preferida
tem gente que nem precisa mais
mede pelo olho
pela boca
pelo cheiro
vai molhando aos poucos
e aperta
aperta
fica com a mão toda cheia de pequenos
cuscuz
porque antes a gente não podia
tocar
primeiro a gente molha
e desmancha as partes brutas

daí precisa esperar

porque o amarelo não vai brilhar
só vai absorver aquela água
não me pergunte como

a gente prepara a cuscuzeira
deixa uma outra água separada
porque o tempo vai fazer a gente
esperar
que essa outra água se transforme
mude de corpo
e encontre o cuscuz
para aquecê-lo

porque o amor deveria ser
o cuscuz na cuscuzeira
porque a gente sabe que não pode sufocar

o jeito que ele cai
nessa cuscuzeira
é determinante

não pode apertar desta vez
presta atenção
às vezes ele fica seco
às vezes ele fica molhado
às vezes ele vai embora
pelo ralo
porque

veja só

é muito complexo
encontrar alguém que acerte
pode ser a senhora da barraquinha de café
pode ser uma estrangeira
pode ser a sua vizinha

mas é muito difícil.

 

Teresa Coelho é recifense criada em Bonito (PE). Acredita no vulto dos desconhecidos, gosta de beber cerveja sozinha e lê poemas para as paredes. É graduada em Letras – Português/ Licenciatura pela UFPE. Publicou poemas na mallarmargens revista de poesia & arte contemporânea (RJ), no livro A TORRE: antologia de poesia confessional, cartas e diários íntimos (Castanha Mecânica, 2017), nas revistas Malembe (PB) Garupa e nos zines NAUvoadora (PE) Lambadaria (PE).

 

 

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Janela Poética II

Hilton Valeriano

 

 

UM TESTEMUNHO DE DOR

 

Há um horizonte humano de
esquecimento
onde palavras
não proferidas
guardam o silêncio
de ruínas e lamentos.

Um testemunho de dor
sob o céu da Somália.

Entre a esperança e o tormento,
ruínas e lamentos,

a história aguarda
seu julgamento.

Seu inaudito
veredicto

sob um horizonte humano de
esquecimento.

 

 

 

***

 

 

 

PRIMORDIAL

 

Como as oscilações da chuva
nas alamedas

Eu poderia lhe dizer
sobre o tempo,
sua inconstância,
de palavras ditas
e perdidas
sob o vento frio
de setembro

Mas tínhamos a certeza
dos pormenores da vida

das oscilações da chuva
das alamedas

onde
caminhávamos

lentos passos intercalados
como legítimos filhos
do século passado.

 

 

 

***

 

 

 

NOTURNO

 

As razões de quem ama
não são argumentos.
Estratagemas para sentimentos
no amor não se pode tê-los.
As evidências de quem ama
são fatos secundários
como as alamedas
no mês de maio.

Os amantes sabem
do improviso
– flor casual do destino.

É possível que o amor seja
mesmo sem a convicção dos teoremas.
Leve – como no sono se propaga
o sonho em Marta.

 

 

 

***

 

 

 

ALGO

 

Eu cumpro protocolos
sobre o túmulo das roseiras!

Eu cultivo solos
sem eira nem beira!

Meus sonhos?

Restolhos
de um vilarejo
abandonado

onde olho a vida
e digo algo.

 

 

 

***

 

 

 

LAMENTO

 

Onde posso estar
que não seja
em mim
mesmo?

Parada
tumulto

Avenidas
que se cruzam

Vazio crepuscular
de um vulto

Onde posso estar
que não seja

mendicante argila
sob o firmamento

pó e lamento?

 

 

 

***

 

 

 

PRIMORDIAL II

 

Eu poderia dizer
das circunstâncias adversas
da escassa colheita
do riso sem primavera.

Eu poderia dizer
da dor e da espera
do tempo sem fim
da noite deserta.

Mas seja em Atenas
ou Alexandria

O amor seria

E eu poderia lhe dizer
dos revezes da vida
das coisas que ficam
e das coisas que passam.

Como do tempo sem fim
da noite deserta

Nasce o dia
o riso
e a primavera.

 

Hilton Valeriano é poeta, professor, formado em Filosofia e História. Autor do livro de aforismos “Margens”, publicado pela editora Mondrongo em 2017.   

 

 

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Janela Poética III

Celso Yokomiso

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

GAIVOTAS

 

Palavras
não voam.

Se te entendo
não é por verbo.

É por vício
de planar

em teus vales
de voz alguma.

 

 

 

***

 

 

 

PASSEIO

 

alças vôo
no subir
dos pés

e pisas
como pólen
em pouso

faz
dos céus
teu convés

alvoroço
entre pássaros

 

 

 

***

 

 

 

SENTENÇAS

 

naquele nada ainda
coube uma tristeza

naquela queda ainda
coube uma rasteira

naquele incêndio ainda
coube uma centelha

naquela dor ainda
coube uma doença

coube ainda aquela
perda naquela ausência

naquele erro ainda
coube uma sentença

 

 

 

***

 

 

 

A TÚNICA

 

furtar um rosto
por trás da túnica

saber dos vincos
e das surras

colher nas rugas
a verdade

que lhe dói

 

 

 

***

 

 

 

O ERRO

 

calo a conversa
que vem ao caso

castro a vida
que vai dar certo

calco o veto
que vem a acertos

cedo aos erros
que vêm à vista

 

 

 

***

 

 

 

INSOLENTES

 

a sombra
que se faz
ao meio

a clareza do
centeio onde
a luz desvela

— teus seios
são um eclipse

 

Celso Takashi Yokomiso nasceu em São Paulo. Graduado em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Mestre e Doutor em Psicologia Social pelo IP-USP. Docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Escreveu LIMITES (prêmio Festival Universitário Xerox do Brasil e Livro Aberto, publicado pela Ed. Cone Sul,1998) e HIATOS (prêmio Nascente – USP  e Editora Abril, 1999).

 

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Janela Poética IV

Tassyla Queiroga

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Vácuo

 

é possível convencer um corpo a entrar em movimento
desde o ventre
e se arrastar pra onde queira
o ponto que divide dentro e fora
é uma órbita
o umbigo é a primeira mamadeira
um oco enfeitado
que nunca se preenche
o buraco
precisa se manter limpo
o conceito de caule e seiva
nasceu da primeira
mãe
feita de instinto
em tempos tão remotos que nada tinha nome
cordão umbilical virou ponte
por onde o fermento entra
a coragem nasce na placenta
e não abandona
o umbigo
feito criança
precisa se manter limpo.

 

 

 

***

 

 

 

Tipo 9

 

da horizontal da cama à cozinha conto 12 metros
de poeira e coisas por arrumar. a vitrola
travada em Caetano denuncia: tudo
fora da ordem. me dissolvo em
preguiça, tal qual prego
enferrujado e da janela
do quarto vejo a
disposição do
vizinho
na varanda
varrendo e fumando
cigarro marlboro às 9 da manhã
acordar cedo no sábado é a nova revolução russa
eu ativista da paz
dissidente volto
a dormir mais.

 

 

 

***

 

 

 

Disparo

 

qualquer palavra é gatilho pro poema
o pensamento-som
viaja na velocidade da luz
e qualquer som é também gatilho
pra trilha sonora do poema
basta um batuque
pra se inspirar basta estar
vivo
e atento
como uma roleta russa
basta um disparo
pra que eu não durma
e o gatilho dos meus sonhos é o teu nome.

 

 

 

***

 

 

 

Terceiro andar

 

construir paredes com fendas
te dar a chave da entrada
empurrar os móveis pro canto
sala palco pra te ver dançar
bolero de frente pro espelho
arrumando a mala ao contrário
todo dia esquece uma peça
todo dia um convite pra aquietar no meu peito
o felino insaciável
leão rouco rindo de velhas piadas
roubando seu lado da cama
e nem existia lado antes da sua visita
você toma muito espaço
mal respiro
o cigarro na varanda é retrato
em preto e branco
do teu corpo
que eu rego todo dia
aluguel de uma história como essa não se paga
conjunto de talheres de prata
bibelôs de porcelana
mobília de dentes expostos
o muro frágil que construímos
entusiasma meu sarcasmo
distribui meu sangue em tua artéria
e veja: a matéria prima
dos encontros
é feita de saliva e cerveja
na calçada suja de um bar vazio
o assunto da conversa é teu nome
pronunciado pela minha boca
doze vezes antes da primeira vez em que você penetrou
a casa onde morava
a velha senhora tímida e seus gatos famintos.

 

Tassyla Queiroga é escritora paraibana, residente em São Paulo. Já participou de alguns saraus e reúne poemas para a publicação do seu primeiro livro.

 

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Janela Poética V

Eunice Boreal

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

E me disse coisas

 

com o espanto
de quem não sabe
o que diz

Toda vez que tentava falar
Dos seus sentimentos
Sentia serpentes saindo
Dos seus poros
Em gritos contínuos
Enquanto apenas tentava pensar.

 

 

 

***

 

 

 

Elucubrações

 

Prometo apenas ser
Desenvoltura do laço.
Quando não, silencio,
Já não grito. Escuto
Labirintos que me vivem.

Vem! Se aceitas o meu lado secreto
Que nem sempre de encanto se mostra.
Vem! Tu, que sabes da Medusa,
Dos tempos, do grito…
Mas, alto, escutas o amor.

 

 

 

***

 

 

 

Partícula

 

Na origem do mundo
Quem sabe um neutrino
Que agora
Me atravessa
Também tenha
Vivido
Algum
Movimento
De todo
O início.
Talvez alguma espécie
Que me antecede
Tenha lembrado
Do primeiro
Sol nascente.
Talvez algum traço
Da minha pele
Teça o mapa
De todo
O caminho.
Mas
O que importa
A memória
Deste corpo
Físico
Se tudo
É sempre
Muito mais
Belo
Do que a gente
Imagina?

 

 

 

***

 

 

 

Tabuleiro

 

Dentro do jogo

De palavras

Nem todas

As peças

Foram

Dadas.

Dado

A essa

Partida

Nada volta

Tudo é

(A)I(N)DA.

 

 

 

***

 

 

 

Sentido

 

todas as estações revelam
os filhos e as flores dos fractais.
pedir licença ao novo e ao velho
não te invalida em nada
pois os sábios não precisam
se impor nos degraus imaginários.
há muito que o tempo sabe
todos dançam
circulares
mesmo enquanto se levantam.

 

 

 

***

 

 

 

Fronteira

 

O corpo é o único território
Que não precisa de cercas
Elétricas.

Mas também é possível
Você diz
Que alguns sons cheguem
Ao seu pé
Do ouvido
Como palavras-bomba.

Sim
Mas diferente
Da política
O corpo ainda está vivo
E permite reações diversas.

 

Poema-imagem de Eunice Boreal

 

Eunice Boreal é uma Poeta Multimídia. Começou os estudos da arte aos 9 anos de idade. Desde então, realiza trabalhos com a escrita, o desenho, a música, a interpretação e as filmagens. Além disso, une a sua prática artística aos estudos filosóficos, realiza palestras sobre a arte e também já trabalhou em parceria com o Cnpq. Parte da sua obra está presente na internet, em exposições individuais e mostras coletivas, como por exemplo a Vídeopoéticas II, que aconteceu no Centro Cultural São Paulo.

 

 

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Janela Poética I

Lilian Sais

 

Pintura: Cláudia R Sampaio

 

três da madrugada
amplia tudo

conheço de cor
o silêncio

palavras batem
no fígado

e estouram no céu
da boca,

mas não ultrapassam
a barreira

dos dentes
cerrados.

como larvas,

sambam sobre tumba
pretérita.

bebo uma taça
de vinho,

profundamente,

e meu olhar agravado
denuncia:

esse inventário
não está

completo

 

 

 

***

 

 

 

apenas por hoje:
não existir.

todo hoje é
provisório,

todos os dias
é excessivo.

os apelos são sempre
abandonáveis

mas quanto pesam as presas
do elefante?

as pálpebras pesam
o inverossímil

das manchetes.

apenas por hoje:
calar as urgências

e adormecer
(quase) em paz.

 

 

 

***

 

 

 

nascer em são paulo
sempre é prematuro,
começo da ponta
de um peso, buraco
que não é túnel,
que chuva não
inunda, que cheiro
de café não
preenche, edifício,
fístula, santo:
quanto maior a pedra,
maior o câmbio, traste,
a vida em ricochete,
uma cadeira vazia na sala,
uma corda que pende
(e a cortina
do quarto
está sempre
fechada)

 

 

 

***

 

 

 

não foi em troia
nem na rússia:
quando sucumbi
de grandioso só
havia mesmo
solidão & silêncio.
restava tão pouco de mim
que nem era possível
sair à rua.
três toneladas o cigarro
entre os dedos,
e nenhum choro ou grito
na despedida.
desisti de tudo, salvo
da saudade:
quando sucumbi
soletrei infância
em maiúscula.

 

 

 

***

 

 

 

todo dia acorda todo dia toma banho
todo dia escova os dentes todo dia a comida
e o barulho todo dia o despertador tiro certeiro
certeiro o tiro todo dia existir ser gente
existir todo dia deixa para amanhã todo dia
ler todo dia os índices mas não os capítulos todo
dia toma omeprazol em jejum toma fluoxetina dá azia
todo dia toma ácido valpróico pra ficar boazinha
todo dia toma risperidona que é antipsicótico
remédio de louco mesmo você toma
remédio de louco mesmo o psiquiatra disse
todo dia 2 mg antes de dormir todo dia
toma o remedinho que é pra você ficar boazinha filha
não achar que o quadro da sala tá te perseguindo
na rua todo dia não achar que você vai morrer
todo dia conseguir sair da cama todo dia
o dia começa com tiro certeiro todo dia
o despertador toca com urgência todo dia
todo dia hoje parece demasia todo dia a mesma coisa
nenhuma o despertador tiro de trinta e oito todo dia
todo

 

 

 

***

 

 

 

eis a vida: produzir,
primeiro apenas fluidos, dos olhos,
sistema excretor,
para depois mais,
produzir objetos, relatórios,
projetos, máquinas,
massa, fumaça,
nota fiscal paulista,
e inequivocamente produzir
também paixões, declarações de amor,
laços, lágrimas, silêncios,
e se nada mais der certo,
produzir poemas,
esse vício, essa mácula,
esse consolo torto
ao qual me rendo
enquanto em algum ponto
entre o quarto e o sofá
você exerce seu pleno direito
justo, inteiro e irritante
de não mais se lembrar de mim.

 

Lilian Sais é doutora em Letras e pesquisadora e tradutora da área de grego antigo. Paulistana de nascença e fumante assídua por opção, é também leitora voraz da literatura brasileira contemporânea e coeditora da revista Libertinagem. Tem poemas publicados em Mallarmargens, Revista Gueto, Saúva e Zona da palavra. Gosta de samba, cerveja e poesia e é defensora da boemia, de piadas ruins e das conversas descompromissadas de mesa de bar. Os amigos dizem que é uma peste, mas que cozinha bem. Ela nega.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Helena de Andrade

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Sangue

 

Essa urgência
acomodou-se ao redor das unhas
nas costuras de todas as roupas
paira como poeira levantada
Goles de ansiedade pela manhã
excretadas pela urina à noite
o motor é a esperança de que nada permaneça
mas os pés cimentados
Cinco litros bombeados
oxigenando cada partícula cismada
Universo derramando-se sobre a cabeça
escorrendo pelos braços
pingando dos dedos

 

 

 

***

 

 

 

Insones

 

É tarde
Enterraremos um ao outro
à sombra do esquecimento
Teu universo aflige
atordoa as certezas
Quisera a sinceridade ampla
É tarde
o tempo haverá de fechar as noites
Desejo que parta imediatamente
furte a ousadia
Aceito o desamor
à luz do passo do teu compasso

 

 

 

***

 

 

 

Pele

 

Atrai o que há por baixo da pele
Entre ossos e músculos
raivas incontidas
prazeres descabidos
Atrai o passado
martelado na cabeça
imoralidade dos erros
ideias frouxas
O que desejo está onde reside
a tua vontade
por dentre entranhas
Anseio pelo que vai atrás dos olhos

 

 

 

***

 

 

 

Trem em curso

 

O trem leva ainda que eu resista
Quando desce o morro desvairado
por pouco não me cospe janela afora
Cabelo ventado vedando a boca
fiarada adentrando as narinas, pintando o rosto de caracóis
por vezes, súbita felicidade
mas vertigem
Será implacável o tempo
há tantos cursos entrelaçados, vias cruzadas
se você fechar os olhos escutará a onomatopeia do riscar nos trilhos
A viagem, curta
morro a cada estação, deixando os meus pedaços
e colhendo cactos
certeza de que o florescer não dependerá de nós
Quanto à história, esta sim, cobre-se de nossa pele e suor
Impõe-nos um mundo e nos exige a coragem para movê-lo
O trem nos corta ao meio

 

 

 

***

 

 

 

Cavalo tonto

 

Esse desejo soa como cavalo em disparada
Trota tonto
Nada dito dará cabo ao frenesi
O coração à altura da cabeça
flor roxa tatuada no peito
e no sexo
O que fazer com a tua humanidade?
Não o selei, nem alisei teu pelo grosso
Arrebata meu sossego
atordoado, entorpecido
Arrebata-me

 

Helena de Andrade, fotógrafa amadora, montadora de vídeos, poeta, feminista. Trabalha no terceiro setor e é formada em Ciências Sociais, com Mestrado em Sociologia da Educação.