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154ª Leva - 02/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Luciana Moraes

 

Foto: Marcelo Leal

 

00:00 ou À Meia-noite

 

Devorar as cores em nós, destacar outro tema para o futuro. Hoje, vai
transplantar a palavra que não acordou no corpo inteiro. Passos, no
corpo inteiro, as mais de cem mil vidas, agora, Silenciadas. Inaceitável:
esquecer o dia em que se nasceu (corpo inteiro). Na profundidade de
11km, numa fossa do Oceano Pacífico, a vida quer ser Plenos pulmões, lá
onde o jogo esteja vencido pelo suspirar.
Rente ao chão, nada com os pés, continua assim: inatingível,
distanciado, limítrofe: o natural é já um mistério e AR. Boca aberta,
marulhando ~ ~ ~ faz parte do tempo enevoado. Se encara talvez tanja os
in.vi..ve.is
………………………………………………….g.r.ã.os

 

 

 

***

 

 

 

Compenetrado olhar do Abismo

 

A meta do veado alvejado
é ser mutação e desova
desencarne das flechas
numa ação Cor de Ouro

Não há beleza nem altura maior
do que suas Quatro pernas abertas
empostadas no caminho
galopando o idílico desconhecido
Ressurgindo…

Ele comporta o peso (é)
depois mais nada:
leve e sereno pu(lu)lar de páginas

Como se a chuva
__________________ se expandindo
e toda gota lavando
a dureza da fibra na Cabeça

A ferida na vida
Pausa de quem recebeu Nove
flechas rasteiras cravadas
na carcaça mais fina

gritante e certa
que pudemos
V E R

 

 

 

***

 

 

 

Peregrino no PandeMundo

 

Tu não lês o trabalho deste sangue
corpo catando sonhos reciclados

Tem que abrir a janela para ver

Ar noticiando o fim do começo,
pois só há possibilidade de
início no fim dos
meios-limites

Uma coisa infinita a cada dia
Aqui morre também

O das ossadas, O da carne viva
……se faz
Cotidianamente em seu jardim
, cintilante e cariado,

Nosso pranto inoculado do Agora
Corpos jovens ou não
Garranchos e papagaios de toda
….c………..o……………r

 

 

 

***

 

 

 

Sobre atravessar o horizonte partido

 

Há fome desde a Antera,
onde se poliniza galáxias
Há flor de ideias na tinta espacial
chegando ao exoesqueleto e
em nosso túnel compacto roçando
claras espirais

Se palavra é gasta, sombra túmida de si
malícias negam desfibrilação de estrelas
demônio-um representante
saturação de cores invertidas num dragão marítimo
branco, pouco comum ao olho nu

Nossos pássaros inquilinos
frementes, em desvio
colisão da vida que pulsa
em nós, sem pergunta

Se o peixe feroz, informe e ilegível à claridade
Leviatã New-artífice do exício
do enredo sem rumo
cria o mundo anônimo
noite em todo o corpo, debalde,
carregando as rédeas do tempo nas compotas
de falácias
As sépalas em preto em branco contraem o passado
e assumem a sustentação de toda a flor até o estigma central
parem borboletas luzentes
mitológico sabor do vento
yvytu em zênite
tu e tal e tal e tu
formam-se tessituras de vida

Entre uma cabeça de serpente e outra
não ponderando termos
carregando em sua joia ruína
sua mortal comprovação

 

 

 

***

 

 

 

Tigre de Champawat

 

Quando a chuva
perde sua cor marrom
e tocamos no mistério
de suas entranhas de tigre
o sangue cristalino revela
numerosos feixes de luz
abrigando nossos desenganos

Na claridade do desamparo
ainda tiros intrépidos
e desenfreados
pelas vítimas que ainda vemos
em nosso Habitat

é doloroso morrer, e ainda morremos
porque não somos tigres

 

 

 

***

 

 

 

Rastro 8

 

Após o silêncio
a mulher falava com o sangue
Ela: céu e terra
com a ternura em sua face
sempre se
ajustando
à fala do sangue

Após o sono
na manhã
sem cabelo
com sangue
sem sono

Após o silêncio
seus gestos bailavam os braços
e entravam na Odisseia
entrementes

 

 

 

***

 

 

 

No decorrer da noite

 

Agapanto no peito. Uma Ofélia em água funda. Ainda viva.
Na fuga de novembro. Rasgos de mim.
Mesmo assim, amiga das procelas em fúria.
Uma nova janela aberta. O dossel ao vento nos espalha.
[ Juntas passeamos nas cinzas.

(Você não finda)
Nemorosos
vaga-lumes

 

Luciana Moraes (1993) é poeta carioca, graduada em Letras pela Unirio. Integra a equipe do portal “Fazia Poesia” e o coletivo “Escreviventes”, pesquisa o figurativo do inominável e o hibridismo nas artes extemporâneas, além de atuar como revisora e tradutora literária. Foi tardiamente diagnosticada, no final de 2023, com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Participou do coletivo “Oficina Experimental de Poesia” (2017-2018). Tem poemas publicados em revistas como “Mallarmargens”, “Capivara”, “Aboio”, “Caxangá”, “Torquato”, “Cassandra”, “Letras Salvajes”, “Zunái”, “ONavalhista”, entre outras. Seus livros: “Tentei chegar aqui com estas mãos” (2022) e “Flor de sangue” (2024).

 

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Janela Poética IV

Bianca Monteiro Garcia

 

Foto: Marcelo Leal

 

PÊNDULO DE FOUCAULT

 

deitada na poltrona de frente pra cama
ensaio um luto te vejo segurando um pedaço
de amora adormecida com as mãos no abdômen
carrego no peito um pêndulo estático
e atento aos teus ponteiros
varro os olhos pela casa e a casa despeja
uma canção sem resposta:
tua pele este tronco de madeira antiga
será capaz de carregar ainda
a textura do teu tempo
quando a raposa que à noite te fareja pela janela
decidir enfim saltar em tuas pernas?
o ruído que tua pleura orquestra
ferve na sola dos meus pés um aviso
a noite se esconde da aurora
e o rastro deixado pela areia
forma um longo tapete antiderrapante
a raposa mais uma vez adormece
debruçada nas patas de um cavalo

 

 

 

***

 

 

 

QUANTO AO QUARTO BALDIO

 

tão irônico este quarto
com estes lençóis branquíssimos
impedindo a poeira a olho nu
embora persistente debaixo do nariz

a parede alva e sóbria adornada
uma longa flâmula vermelha
e dentro
uma citação de madre teresa
– paz
– longevidade
– amor
– paciência
fincado ao leito
o silêncio decora tudo com letargia e raízes

tão irônica esta cama sem cabeceira
presa à parede e ao chão
a cinco passos de uma porta sem fechadura
encostada por um chinelo preso em sua fresta
meu único alarme de segurança

ontem mesmo uma vizinha às 2h da manhã
tensa como as cordas de um violino
pediu pra dormir embaixo da minha cama
por medo da colega de quarto
atacá-la com o pente de cabelo

qualquer um pode invadir o espaço
até o vento entra sem permissão
e eu mesmo sem precisar de chave
não consigo sair à revelia

 

 

 

***

 

 

 

HIPOCONDRIA

 

cresci rodeada de plantas de plástico
não me lembro de arnica em machucados
a mesa da cozinha
sempre costurada por uma mini-farmácia
nimesulida paracetamol privina
hoje teimo fazer sabonetes de argila
e vitaminas de banana com linhaça

 

 

 

***

 

 

 

RELEASE

 

acordo com 25 anos e olheiras salgadas
preciso logo-logo mexer nas pastas
as máquinas me perguntam
– tua data de nascimento
– o nome do pai
– o nome da mãe
– os três primeiros dígitos do cpf

as máquinas me questionam sem pudor

eu lembro, pai
durante os almoços de sábado
das nossas conversas atravessando o som
do rádio
de como as mexericas são
pequeninas
de como as tangerinas são
grandonas
perto de ti eu era eterna
criança
que dormia com as mãos cruzadas no peito
e pedia a um deus qualquer que fizesse do pai
um guerreiro imortal
como highlander
mas sem morte no final
oh dear dad can you see me now?
i am myself like you somehow

 

 

 

***

 

 

 

TRIAGEM

 

cymbalta para suposta fibromialgia
aos 14 esporadicamente alprazolam
aos 16 nos dias de insônia clonazepam
depakote receitado devidamente aos 20
aos 21 a cama dobra de tamanho com lioram
para queda brusca de libido e apatia de sobra:
oxalato de escitalopram
o coringa do hospital psiquiátrico:
sertralina e quetiapina
não peça s.o.s na enfermaria

 

Bianca Monteiro Garcia nasceu em 1994, no subúrbio carioca, onde vive desde então. Fundou a Macabéa Edições em 2019, editora focada em publicar autoras mulheres de diversas regiões do país. Publicou “breve ato de descascar laranjas”, seu primeiro livro, em 2023, que foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2024, no Eixo Inovação, categoria Escritor Estreante – Poesia. Lançado em parceria de coedição entre Macabéa Edições e 7letras, o livro fala sobre luto, loucura e solidão. Participou do World Poetry Day Festival, de Washington, representando a jovem poesia brasileira, em março de 2024. Em janeiro do mesmo ano, integrou a publicação La Juventud de la poesía en Brasil: muestra de poesía contemporánea, da Fundación Cultural Esteros (Uruguay – Argentina).

 

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Janela Poética V

Jussara Salazar

 

Foto: Marcelo Leal

 

ars memoriae

 

Tenho uma vaga lembrança
De um pássaro [De um mar
De lembrar essa vaga [Essa água
De reprise de ondas
Filmes desbotados [De sombras
Marcas [De patas úmidas
De animais ao redor da casa
Peixes de celofane
Tenho uma vaga
Que se vai
Que se vem
Alga caravela de fogo
Boiando [Como uma chaga
Essa água
Chamada lembrança
Vagando chegando

 

 

 

***

 

 

 

sobre amanhecer no agreste

 

nessa aridez que tudo ocupa
terra semeada à faca_ iamanaka’ru
como se em terra sua
lança suas bordas afiadas
fere a pele de sua pele quando rasga
em si_ como se nasce_ sem água
essa terra que lhe serve de morada
e se lhe sustenta a epiderme_ é para
quando a sede que lhe bebe lhe serve
nas noites de frio espelhe-se
em galáxia de órion que vaga
lá do alto como a fruta violeta
_ a polpa breve
no céu da noite ao amanhecer
fúria
que o sol no catimbau floresce
_recrudesce_ em meio ao nada

 

 

 

***

 

 

 

visão de n.s. da feira do Arcoverde

 

En roscas de cristal
serpiente breve não vês?
pois ouve
seu farfalhar quando
resbala uns
guizos preguiçosos
arabesco
vivo venenosos
rodeando o barro das
vasilhas e moringas
esticadas ao sol gongórico
entre pés
idas e vindas
os peixes
presos ao calcário
gasto há mil anos
pétreos sob o sol
em duro calvário
não despertam
nem
à castanha passagem
ruidosa passagem
de cabras e trens
um cão
o vento
o vento
os bois
o tempo
a água
pingando
na lata
as mulheres
os homens
a montanha xukuru
a mata
e a procissão das
vestes negras o
corpo santo que
atravessa ao dia
o corpo
ornado de velas
vai ardendo a
parafina
à revelia
tão morno
tão fria
tão morna latomia
tão morna latomia
tão morna latomia
enquanto um tambor
ressoa
o som tortuoso
a ladainha ao
longe não é
senão
a luta de um vivo
e de um morto
timão fiado
santos
santa
barrueca bendição
eu e
minha avó
ali
temos
cem anos
de sertão
um cão
o vento
o vento
os bois
o tempo
a água
pingando
na lata28
as mulheres
os homens
a montanha xukuru
a mata
a terra castanha
como
as cabras
exibe suas
cicatrizes
sem
água
a terra
seu chão29
eu e
minha avó
na solidão
ali
temos
cem anos
de sertão

 

 

 

***

 

 

 

O sal

 

essa sílaba
mínima
marítimo oceano
um grão
cristal
pedra d’água
o sal
essa sílaba
para lavar pés
e derramar
sobre a cabeça
do santo
como o batista
um dia o fez
o sal
essa sintaxe salsugem
para a onda
levar
e trazer o cão
a escama
translúcida
essa bendição
o sal
de queimar o mar
das águas vivas
das pedras lavadas
das ervas nocivas
do encarnado
multitudinoso
rubro carnoso
oinopa ponton
homérico salobro sal
para sangrar o mar33
para levar
a onda
para trazer
o corpo
e cobrir as conchas
o fundo do barco
como mínimos
diamantes
para te parir
por um instante
o sal

 

 

 

***

 

 

 

das manhãs na rua das moças

 

sobre a mesa antiga
marcas
ranhuras
mapas riscados
rotas marinhas perdidas
……..[antigos oceanos]
entre panos
da costa
cauim
papéis recortados
as frutas
respingam um frescor
como as folhas brilham
nas mãos que as colhem
na tábua que as acolhe
e sangram seu sumo
como no andor36
de procissão incensada
sagradas
as frutas
as folhas que Nhá
com mãos escuras
lava
eleva
lava
mergulha
na ágata
e bendiz
as manhãs
da morada

 

Jussara Salazar é doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade de São Paulo [Fapesp, 2016], é mestra em Teoria Literária pela Universidade Federal do Paraná (2010). Escritora, tradutora e artista visual, pesquisa ainda alguns mitos relacionados à oralidade e ao feminino havendo publicado “Inscritos da casa de Alice” [1999], “Baobá, poemas de Leticia Volpi”, [2002], “Natália” [2004], “Coraurissonoros” com tradução de Reynaldo Jiménez [Buenos Aires, 2008], “Carpideiras” [2011] com a Bolsa Funarte, ficando entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom na edição de 2012, “O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas” [2014], “Fia” [Projeto Funcultura, 2016], “Corpo de peixe em arabesco” [[2019], “O dia em que fui santa joana dos matadouros” [2020], Prêmio Hermilo Borba Filho e finalista do Prêmio Jabuti e Bugra [2022].

 

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Janela Poética I

Rita Santana

 

Foto: Marcelo Leal

 

Escrita

 

“Por afrontamento do desejo.”
Ana Cristina César, 27

 

 

Com que tormento sento
sobre noites secas e quebradas
onde estalam estrelas, e fachos
quentes rompem horizontes.

Não há nada diante de mim,
senão o vazio no espaço,
o aço sobre a mesa,
a lâmina da língua
que elimina o hálito
e ordena a ordenha
da Criação.

Ouço uivos de ouriços
dentro do poço
e me curvo
à pena e ao punhal.

O Outono risca o céu
de cinzas e incertezas e quedas.
Eu espio a escuridão do rio [Joanes].

 

 

 

***

 

 

 

Austeridade de Modigliani.

 

Tudo é uma jarra d’água derramada sobre o sossego:
um vazamento opressor na descarga,
um vazamento opressor na pia da cozinha.

Concederia pêssegos frescos ao mancebo
que me trouxe orgasmos
em seu bornal, em sua vassalagem provençal,
e
foice.

Nunca terei a austeridade geométrica de Modigliani.
Talho o verbo e, no poema,
labirinto o Minotauro.

 

 

 

***

 

 

 

Eu, Sapho!

 

Quando chega do céu,
veste-se então todo de púrpura.
Visto-me de âmbar, abro janelas
e veredas que murmuram águas
à sua passagem.

Danço à sua chegada com festins,
rituais de camaradagem, banquetes de Babette,
alvíssaras, alfaias e entregas.
Nada usurpa a vaguidão dos sentidos,
o estado de languidez daqueles dias.
Resfregam-se amor e medo em meus colapsos.

Há sismos duradouros na carne,
quando cataclismo gozo consigo.
Ante seus olhos istmos, olhos de cereais,
sobre os quais cambaleio e desnudo-me exata,
ritmo versos e estimo arritmias.

Assim como sou: a que envelhece,
a que pende sobre o nordeste dos sentidos.
Aquela que, sobre os telhados, observa sua vinda.
São candelabros acesos na escuridão,
quando chega do céu. Nuvens invadem
os cômodos da casa por alguns dias.

Os cobogós se dilatam!

 

 

 

***

 

 

 

Cortesia

 

Enólogos avaliam
a acidez das rugas,
cuidam do envelhecimento
das esperas em carvalhos.
Dialogo com a Sombra,
refugio-me no fugidio
e aceito trazer o candeeiro,
pois tento tocar o que me escapa.

Orvalho refinamentos,
dilato nuvens no crepúsculo
e corro na amplidão dos céus.
Homologo alguma alegria
no porvir das correntezas.
Osculo lábios perdidos na lembrança.
Afianço amar a quem já não quero
no ofertório da Casa.

Alumbra-me a sapiência
daquele homem que estila
o Desejo, sem atentar ao telhado
das horas, sem aceder às vigas
céleres dos ponteiros.
Sobejo-me
em seus beijos.

Oxalá eu possa ser cristal
para acolher os aromas do dia, os tons
das aveniências que surgem no contato
com quem está do outro lado do rio,
e ordena romãs no leito da velha jangada,
dispõe os figos e as amoras sobre os bambus,
a fim de que eu, um dia, desatenta e casta,
saboreie as dádivas da sua Cortesia.

 

 

 

***

 

 

 

Papoulas na Fotografia

 

Mulheres afegãs,
entre a plantação de papoulas,
colhem e ofegam desejos,
com seus lenços rubros,
sua exaustão que plana sobre o cinza
que cobre o horizonte.

Papoulas na
província de Balkh.
Daqui, não vislumbro risos
entre as folhas e os botões que ainda dormem.

As papoulas não querem nascer.

Mulheres vestidas de cinzas,
numa paisagem de chumbo,
também de plúmbeos desejos,
refugiam-se na lavoura.

Herméticas, as papoulas adormecem.

Sequer
um verde-solidão vibra
a cena.

A Loucura sentou na cama
e olhou para as mulheres.
Era preciso arrancá-las da dor
e levá-las ao outono dos dias,
ao pasto da fome,
ao descampado da razão.

 

 

 

***

 

 

 

O Silêncio de Bach

 

O que amo em Bach
é o seu silêncio.
O vazio de som
das sonatas,
a trepidação das suítes.

O que amo em Bach
é a sua engenharia
do nada.
O que amo em Bach
é a música que não existe.

 

Rita Santana  –   Escritora e Atriz. Graduada em Letras pela UESC.  Em 2004, ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos “Tramela”. A partir daí, publica: “Tratado das Veias”,  “Alforrias”, “Cortesanias” e  “Borrasca”, além de participar de eventos literários e de antologias.

 

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154ª Leva - 02/2024 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Karine Padilha

 

Foto: Marcelo Leal

 

Quase

 

Estamos prestes a alcançar o fim, num suspiro de quase nunca
Pegando fôlego nos dias de quase lá
Nos sonhos que vem tarde para os sonhadores
Onde o tumulto que fala
É também o que faz calar.
Nas linhas de chegada,
Nos postos de largada,
Um sufoco rumo ao quê.
Estamos prestes a alcançar o nunca, num suspiro de quase fim
Pegando fôlego nos dias abandonados
Nos sonhos que vem tarde para os sonhadores
Onde a mão que toca
É também a que perde o tato.

 

 

 

***

 

 

 

Tudo se consome

 

Negam-nos sempre um pedaço
Falta-nos sempre uma coisa
Extraviam-nos sempre uma parte
Tamanha dor, arrancam-nos sempre um membro:
O tempo.
Os brincos nos assoalhos
Os descuidos
Os anos
Os erros
Esperamos aflitos
Que se desfaçam
Que Deus perdoe
Que não se percam.
Tudo se consome.

 

 

 

***

 

 

 

O que se inscreve também se esquece

 

Deixar escapar
Pela ponta dos dedos
[como quem luta contra a lembrança]
Uma pista qualquer
Que leve de volta
Ao começo do poema:
Sonhar de corpo inteiro.

Sonhar
De corpo
Inteiro.

 

 

 

***

 

 

 

Aqueles que caem

 

Eu escrevo para os homens que não sabem ler
Mas desconfiam
Do que dizem os poemas.
Eu escrevo porque tenho urgência de enunciar aquilo que a palavra não segura
Que não é letra nem vocábulo
Que não cabe no espaço
Que é o outro não visto, e bem conhecido.
Eu escrevo porque há um declive não mapeado no mundo
Não um lugar, mas um jeito de cair
Que derruba os desconhecidos a cada segundo
Eles desabam pra sempre
Desabam a sós
Sem ler os poemas
De boas novas
Por que os poemas
de boas novas
Não são feitos
para aqueles que caem
E é, também, porque posso cair,
que eu escrevo.

 

 

 

***

 

 

 

As coisas do mundo

 

As coisas do mundo estão todas espalhadas cercadas, escravizadas.
Foram cedidas e foram negadas
Negociadas
Esquecidas
Escondidas
Empoeiradas
Incendiadas
Esbanjadas
Suplicadas
Negligenciadas
Os donos das coisas do mundo
A troco do giro da manivela
Apossaram-se do tempo
-Que passa
Da vida
-Que passa
Agarraram-se com as mãos à terra, ao umbigo, às suas mulheres, aos seus pertences, aos seus chapéus e à ventania,
Porque do outro lado do muro os puxava a morte.
O cabo de guerra da imortalidade:
O desespero de provar-se vivo pelo peso que se carrega
O pavor de sentir-se morto pela entrega.
As coisas do mundo,
Toda e cada coisa,
Consumida
Consumada
Não salva o homem do fim do homem
Não salva, no fim, o homem de nada.

 

 

 

***

 

 

 

Distâncias

 

Quão seguro é percorrer a distância de um homem
E que aterrorizante é chegar ao fim do percurso.
Um trilho de trem comprimido por um incidente.
A proximidade de um longo intervalo de tempo.
Um fio de vida
Onde a morte pendura os sapatos.
Tentamos enxergar do outro lado
Tentamos atravessar os lados,
Mas todas as pontes cedem sobre os abismos.
Nunca
Corremos
Por essas
Estradas
Que são os outros.

 

 

 

***

 

 

 

Coragem

 

Enfrentarei a metodologia
A burocracia
As reuniões de trabalho
As oposições políticas
As exposições artísticas
O dólar
A cor dos olhos
O ego
O desencanto
O desacato
Por uma bagatela de quase nada aceitarei de bom grado
A confusão que me causa a felicidade.
Não minto que perdoarei as mentiras
E as dores
Que o ser humano provoca sem admitir que lhe sejam infligidas.
Sobreviverei ao homem que deseja casar-se comigo,
à omissão de minha mãe
Aos golpes de desafeto
Ao tiro disparado em vão contra mim
Pelas mãos de meu melhor amigo
[esfolado pelo ombro daquele que me odeia] Serei acusada
Perdoada
Santificada
Esquecida.
Seguirei em frente, enquanto louca
Sem vias de ida ou retorno
Cheia de ter com o vazio
Disputando um braço de volta.

 

Karine Padilha está no espectro da dupla excepcionalidade (autista com altas habilidades), é artista visual e neuropsicóloga brasileira. Ao longo de sua trajetória escreveu para o grupo editorial multimídia de poesia brasileira Aboio, para a revista nacional de arte e cultura Pixé, e para a revista internacional de arte e cultura Trama. Seu trabalho integrou mostras nacionais e internacionais, entre elas Universidade Federal de SC – UFSC, Art Lab Gallery (SP), Salon Caw (Portugal), CAM (Espanha). Com uma escrita contemporânea, inspira-se em autoras como Ana Martins Marques, Aline Bei e Matilde Campilho para explorar temas existenciais e psicológicos. Seus textos e produções visuais aprofundam-se em questões de identidade, memória, vulnerabilidade, e efemeridade, criando uma atmosfera nostálgica e introspectiva.

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Julia Sereno

 

Arte: Zô

 

teste

 

meu corpo faz perguntas o tempo todo
mesmo sabendo que as respostas estão escondidas
debaixo do tapete que meu coração esqueceu
na sala de espera.
a visita não veio mais uma vez

 

 

 

***

 

 

 

espelho

 

juntou todos os caquinhos

um
por
um

e com eles cortou o silêncio dos dias

que calados não faziam mais sentido

 

 

 

***

 

 

 

rota

 

suspiro de medo
e alívio

ou será apenas meu ar
comprimido
que escolhe
em silêncio
deixar meu peito doído

e levar um pouco
do tempo perdido

para onde eu consiga
respirar

 

 

 

***

 

 

 

ano-novo

 

fincou os pés molhados no passado.
levantou os braços dormentes de aperto.
abriu as mãos secas de carinho.
fechou os olhos cansados do ruído

 

 

 

***

 

 

 

meio

 

desloco-me e
atravesso

do avesso
retorno e
parto

mas não preciso
chegar a lugar nenhum

o entre-lugar é meu

 

 

 

***

 

 

 

ela

 

a dor escreve o texto
e logo se desespera

desalinhando os cabelos
descamando a pele

a dor exige ser lida, recitada,
engolida

e depois reescrita
pela autora do não

 

 

 

***

 

 

 

pressa

 

hoje a minha espera acordou inquieta.
saiu apressada sem se olhar no espelho.
até o café esqueceu de fazer.
queria encontrar as pistas antes do fim do dia.
mas elas estavam cansadas e não disseram nada.
seguiram caladas sem olhar para os lados.
pois o caminho de casa mudara outra vez

 

Julia Sereno é natural do Rio de Janeiro, mas vive em Lisboa desde 2020. Doutora em Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Publicou o seu primeiro livro de poemas, “As Outras em Mim”, em 2022. 

 

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153ª Leva - 01/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Camila Passatuto

 

Arte: Zô

 

Enquanto recolho o que é real e apinho esquissos de corpos inconvenientes, a ronda cinza do alheamento contabiliza as dores.
Apesar da infame fuga ministrada a cada conjunto vil de tempo, entendo os meios poéticos dos dias.
Trancam meu eu.
Libertam, dizem,
O que me é espírito.
Café, clozapina, saliva e mulher.
Envolvo verbos por aliterações travadas e ninguém se importa.
E tudo faz sentido
Quando os pulsos
Doem
No apertar
Das cordas.
Recolho o que é real e turvo, amor. Socorro.

 

 

***

 

 

Rupturas, cores quentes, risos hiperbólicos, pálpebras arrancadas.

E continuavam a galopar pela cidade, sem objetivo de ser. Dedos mornos, pele azul, olhos secos, crianças fatiadas.

E a cerveja descia travada, a malandragem apoiada em solavancos de grades-janelas, nada tinha rumo, rima, remo ou graça.

Alguns diziam sábado
Eu gemia quarta
Foi-se dia de fim
Gritou a moça.

Mais um dia.

 

 

 

***

 

 

 

Você disse que meus olhos de exu danam as vielas dos que passam por mim.
Eu recolhi o troco que espalhava um prateado tímido no balcão estreito de um bar caro. Retruquei em dar o último gole no drink exagerado e pueril para meu paladar.
Escorri as mãos para o alto, no percalço de matar a gravidade em ti.
Você, beata dos cálculos imaturos de fim de mês, vênus assustada na cela dos cães raivosos, imaculada na nudez dos seios firmes. Disse que meus freios falham sempre na última curva, no verso exato de salvação.
Os tiros, que nascem no crânio de alguém, longe daqui, batucam em meus tiques nervosos na perna esquerda. E ninguém abençoa os filhos do medo em noites mal cultuadas.
Você insiste em imprecar os maldizeres ao meu olhar.
Das culpas vermelhas que estendo na varanda, os véus que cobrem o descontrole matinal é o que me alinha ao mundo.
Desculpa.
Abandono o lugar que me entedia.
Atravesso ruas avulsas, como quem desbrava o próprio peito à procura de alma.
– Meus fantasmas se afogam na minha bebida. Versam dos meus gritos o gênesis de uma nova era. Ninguém escuta. –
Você disse que meus olhos de exu enxergam a morte em tudo, minha linda.
Ela. Morta em 1937, La Paz. Ainda não sabe do desencarne.
E diz, ao desviar dos carros, que sou sua guia.
Somos a literatura do caos
No ventre das pontes
E gosto de chão
Na boca quebrada.
Na paz
Ralada
Na fuga
Dos torturadores.
Extremos e roucos.
Laroiê,
Meu amor.

 

 

 

***

 

 

 

O zimbro inocente dos quereres, por maviosidade do caos, fez germinar, no antro da civilização seca, um olho em broto, um encabeçamento de era.
E as crianças despertaram mais cedo, os dentes rasgaram a fome de pão, pés tortos marcharam liberdade e senhoras se tocaram rubras em praças públicas.
Um olho em broto, um encabeçamento de era.
E ela fumou um último cigarro, afastou as cortinas como se fossem mechas de moça, adentrou um fino espasmo de nós e foi correnteza por toda cidade.
Meu olho em broto, meu encabeçamento de paz.
E as crianças abriram caminho
E meus poemas ruíram o mal
E tudo era ritmo, aliteração,
desculpa pra mar.

Flufenazina e um tanto
de Rhapsody in Blue.
E tudo começa, amor.

 

 

 

***

 

 

 

Lama

 

Não quero escovar tempo
ou mesmo injuriar
tuas pernas
alguém tacou fogo
na lixeira da esquina
e vi deus
comburente
afetado
descalço entre as moscas
agitadas pelo calor.
– é outono –
Não quero bravejar
sou cria à toa
de condoimento
exagerado
e quebro os dentes
amarro os dedos.
Ontem
alguém lambeu
minha ira
e vi o diabo
exaltado
colostomizado
aformoseado no brilho
dos destituídos.
Hoje
fodo a testa
no barranco
– é outono –
minhas meninas,
no sustentáculo
de choro, miudam
acalmo o tempo.
escovo palavras frias.
é dia
após dia.
Alguém tacou fogo
na lixeira da esquina…

 

 

 

***

 

 

 

O monstro corre no tosco riso salivado, nos olhares de homens afervorados pela maldade infértil do comum e por vapores de ideias abortadas em assembleia geral.
Oremos.
O monstro instala seu verde ruído em vozes metálicas, nas vagas salinas do bairro médio de uma cidade média capada à miséria de capital lúcido.
Compremos.
O monstro fode a lógica dos desavisados no ritmo de um roteiro aborrecível no ato lânguido de poder.
Morremos.

Postula o que te é rebelde
No verso seguinte
Da escrita
Laica
E mata
O ignavo
Da língua cortada
Pelo homem histérico
Liberta-te
O verbo
Morto
Na manhã
Do teu fim.

Voltemos.

 

Camila Passatuto (1988) nasceu em São Paulo. Autora dos livro “TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada” (Ed. Penalux, 2017) e “Nequice: Lapso na Função  Supressora”. Escreve desde os 11 anos e desde 2007 participa de diversas antologias e revistas culturais com seus poemas e textos.

 

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153ª Leva - 01/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Christian Dancini

 

Arte: Zô

 

ELEFANTES SONÂMBULOS

 

Não consigo esquecer a faca que
……….rompe o papel para além do obscuro.
……………………….Meus poemas
são a subversão palpável
……..de elefantes sonâmbulos, criando
vasos sanguíneos telúricos.
…..Eu devoro santos e malditos e os trituro em palavras, quase como
…………………um pássaro azul perdendo seu fôlego.
………………………………….À noite, um amálgama de interjeições:
………………………….meu deus! Quem sou eu?
…………..A música é azul, os mares, verdes; inclino minha
………………………………………………………….cabeça em vertigem,
oceanos transbordam da minha
………………………………garganta forrada de espinhos.
……………………………O poema é para ser, longe do sentido.
………………O poema deve existir e alcançar quem precisa.
……..E eu sou um poema tremendamente ensandecido, incontrolável,
tal qual deuses selvagens,
………..que impelem aos milhões para fora da ejaculação precoce
………………………………………..de um espírito em desordem.

 

 

 

***

 

 

 

CRESCER PARA DENTRO

 

Quanto mais cresço para dentro,
………..maior é a luz que eclode do fim;
maiores e mais fortes os ventos
………………— rajadas de fúria e caos.
Porque teus ombros largos,
……….que emudeciam suor e fogo,
……………….embruteceram a casca de uma árvore.
……………………….Porque é um lírio tombando dinamites;
um tornado sem ferro nas estruturas.
………..Abreviar a palavra na velocidade da vida.
Jorro, pelas retinas, malmequeres convalescentes que pretendem
………………oscilar o sereno inquebrável das montanhas.

Bebo um café. Acendo um cigarro.
……………………………………Mais um dia se queimando na ponta
chamejada e cinza do fumo.
……….Passo a caminhar em passos redondos, circulares;
……………….de ponta cabeça, seguro o mundo com as minhas
……………………….mãos, mãos que ardem,
mãos que pesam, mãos enrugadas de tempo,
………desprovida de som, sós.
Até que encontrei teu ermo ser,
…………..vagando pela tempestade do deserto.
Teu corpo inebriante.
…………………..Tua voz intumescida. Tua pele fina, camada de tecido
que cobre a alma. Teu pé, branco, é incapaz de sonhar.

……….Então agora quero inserir a infância na cólera que se expande.
Rosnar para o perigo;
……..dividir o peso do medo com o expansivo amor.
Procuro na madrugada,
…………………………bitucas para acender.
………………………O breu se volta para o silêncio
do abismo;
.crânios humanos esmagados pelo pé sangrento de um demônio que
ri.

Ah, e a melancolia que,
……….muitas vezes, em um amplexo,
……………….acalentou minha sanidade,
……………………….transbordou éter e álcool para fora
……….dos campos verde-palavras, verborrágico.
Para fora, a ideia, o breve dia do pensamento,
…………………o fluxo que corre como sangue nas veias.
Todo o mistério único de deitar
………..ao teu lado no crepúsculo das alucinações.

O sonho termina.

………………….Só se vive para fora
&
……………só se morre para dentro.

 

 

 

***

 

 

 

O TOMBO EM CHAMAS

 

Um dia, tu serás rei.
Por um dia, tu serás rei, Chris.
A gema mole do teu ovo — amarelo tal sol;
as paredes de dentro eclodindo mofo…
tua impaciência prepotente te levará ao cume.
Mas, por apenas um dia,
serás rei. Rei das trevas que te cercam,
rei do campo aberto — qual gritas,
rei do transcendente, rei do ovo
da gema mole — amarelo tal sol,
rei do mofo das paredes de dentro.
………Marinando, marejando, morosamente,
se possui a palavra, tal gota no oceano.
São incorruptíveis, os poros dos peixes-palavra.
É incapaz de erigir uma sílaba no breu da noite.
Nada irá me salvar e eu serei rei!
……..Rei — principalmente — do nada que me aguarda
…………….no tombar para fora desta vida.

 

 

 

***

 

 

 

SUSPENSOS NO AR EM SILÊNCIO POR UM INSTANTE

 

Eu olho para as fotos como que procurando o destino.
Não sei exatamente onde eu me perdi.
Não sei exatamente onde a encontrei.
Não sei sobre o pavio aceso do tempo que nos esmaga como insetos.
Eu olho nos teus olhos e te procuro.
Em todos os olhares eu te perco.
Porém, eu prometo, que na noite mais escura, do céu mais vazio,
das estrelas mais fustigantes, fugidias, eu estarei segurando a tua mão,
suspenso no ar, em silêncio, por um instante.
Eu procuro tua mão à noite, ao amanhecer e ao entardecer.
Em todas as cordas me emaranho, enrosco o pescoço na forca.
Entretanto, te perco, nas lâminas de aço pungentes,
no segredo que o céu não soube guardar.
Eu escrevo poesia para alcançar o teu nome, que já diz tudo.
Eu olho para as fotos como que procurando a ti,
mas encontro as tuas últimas palavras cravadas em seda:
“tu jamais alcançarás a lua se não saltar o precipício”.

 

 

 

***

 

 

 

NO DIA DO ANIVERSÁRIO

 

Escrevo palavras de ordem inatural.
……….Quando deixei tua vertigem alumiar meu corpo inteiro,
banhei-me em chuva dourada.
………Seria capaz de vórtices, de fome voraz. Assim que teu negror
intumescia meus olhos, uma luz pungente descia dos céus,
…….e eu continuava seco em todos os membros, em todos os órgãos;
um corpo vazio vagando na cólera da noite. Úmido, apenas nos olhos.
.Escrevo como caio, de peito aberto ao mar, como se o sal fosse fogo.
Invoco das palavras soturnas um instante de graça; um instante
………afastado da beleza do dia, qual eu mijo em cima.
Tua beleza é carnívora, engole minha luz feito fotossíntese.
……Beligerante, destemida, aprazível apenas pelos lobos taciturnos que uivam.
É distante a água salgada que corre em tuas veias; implodir para dentro
……do mundo inteiro, um maldito homem,
………com a cabeça estourada por uma espingarda,
……………às 7h da manhã, aos 27 anos,
………………………no dia de seu aniversário.

 

 

 

***

 

 

 

NA DANÇA XAMÂNICA FRENÉTICA DE CRISTO COM LÚCIFER

ao poeta Antônio Cícero.

 

1.

Edifícios tombam, ferozes.
Uma criança a sonhar estrelas.
Céu de anil, boca bocejante de cachorro negro — Anúbis.
Escuridão escorrendo nos dentes podres.
É inerente às plantas, o outono. Assim,
a asa de um anjo está vulnerável; minhas
palavras dão rouquidão aos cavalos, a sonhar
com centauros dançando pow wow ao derredor,
como se fosse o suficiente para ser feliz.
Paredes de concreto árido, com rachaduras secas
de poros nasais. Um raio esparso perpendicular,
perpétuo socorro de uma constelação que
brinca de faz de conta no dilúculo pulcro
do sorriso das camélias, das putas que balançam
a bunda ao som do funk e ao Cristo que habita
todos os portões do inferno,
exatamente como deus o fez: embriagado de crepúsculo,
atônito…

……………..e demasiado humano.

 

Christian Dancini de Oliveira é um poeta nascido e residente de São Roque, São Paulo, que escreve poesia desde os onze anos. Com 15 anos lançou a obra “Fragmentos de uma aurora” em PDF para baixar gratuitamente através do site Projeto Livro Livre, de Iba Mendes. Aos 22 anos, publicou seu primeiro livro chamado “Reminiscências”. Além deste livro, que lançou de forma independente, ele já lançou pela editora Opera o livro “Pleroma” e pela Patuá “Dialeto das Nuvens”. Christian Dancini já publicou na revista portuguesa Quiasmo, na Mallarmargens, Ruído Manifesto, Acrobata, pela revista espanhola Kametsa etc. Seu livro “Dialeto das Nuvens” foi semifinalista do prêmio Oceanos 2024.

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Nívia Maria Vasconcellos

 

Arte: Zô

 

o corpo é uma foto no escuro

 

meu corpo
desumanizado
de impossibilidades

meu corpo
recomposto
na postagem

meu corpo
desfeito
pelo seu olhar

é escrito
com luz
porque tudo é escuro

 

 

 

***

 

 

 

maremoto

 

sophia mello breyner andresen
me sopra versos sobre o mar
enquanto o oceanário se distancia

o dragão-marinho-folhado
veio comigo na porção de coisas
que não se podem esquecer

seu corpo carnívoro
não é folha
não é cavalo-marinho
não é peixe-cachimbo

é uma das criaturas
que vieram desestabilizar
o que parecia pacificado no mundo

[como meu amor por ela]

 

 

 

***

 

 

 

3Poema

 

poema
é
..
de diferentes tipos

com
diferentes
modos
……de des/amarração

 

 

 

***

 

 

 

pequenas violências cotidianas I

 

cadê o namoradinho, minha filha?
entre uma colher e outra de sopa
indaga minha mãe
que faz parecer isso
uma mera curiosidade
olho para minha mulher a seu lado
largando o talher sobre a mesa
a sopa esfria em segundos

/numa pergunta tão simples
a negação de um mundo/

 

 

 

***

 

 

 

memento

a sónia brito

 

tudo se vai no
esquecimento

tudo nosso
tão digno
de lembrança

estilhaçado

ainda temo
cada tremor
de tua memória
que tropeça

o terremoto destruiu
a biblioteca real
e mais de 70 mil volumes
lá armazenados

por aqui também
presencio destruição

sou tirada
……..do corpo
de minha mãe
mais uma vez
todos os dias

como poemas que
se atiram aos cães

 

 

 

***

 

 

 

vascular

 

tenho que andar ainda que a casa não tenha água e o suor escorra em meu corpo ainda que o sol nunca vá embora mesmo à noite a secar a lagoa e suar o meu rosto tenho que andar ainda que cansada esteja ainda que não tenha pernas e acabe o fôlego ainda que os quilômetros nunca cessem ainda que a boca seja seca tenho que andar ainda que me faltem passos ainda que os líquidos a percorrerem meu corpo não matem minha sede ainda que o rio que ladeia minha casa não mate minha sede ainda que eu seja secura tenho que andar ainda que ao meu redor tudo que açude seja miragem tenho que andar pois a casa não tem água e meu lar está distante

 

Nívia Maria Vasconcellos é artista da palavra, atuando como poeta, ficcionista, letrista e declamadora. Entre outros livros, publicou A paixão dos suicidas (Selo João Ubaldo Ribeiro, Ano II), Cãibra de Nó (Prêmio Jorge Portugal, 2020) e OCORPOÉUMAFOTONOESCURO (Patuá, 2023). Lançou o álbum A Vênus de Willendorf com o grupo Mousikê, com o qual realiza apresentações literomusicais. É doutora em Literatura e Cultura pela UFBA e realiza pesquisa sobre poesia brasileira contemporânea, autoria, campo literário e oralidade.

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Constança Guimarães

 

Arte: Zô

 

sapiens

 

um homem é preso
arrastando crânios nas ruas de belo horizonte

errantes quatro crânios humanos amarrados
numa corda de varal azul
o homem andava pelo bairro da saudade à luz do dia

no inverno mais quente da capital mineira
o homem preso em flagrante está
à disposição da justiça
os crânios
foram recolhidos
dizem os jornais

 

 

 

***

 

 

 

engrenagem

para Flávia Péret

 

ela amarela quando dia quando tarde quase noite de repente. escuro quase depois escuro total. de noite caldo grosso sono forte. azul claro ainda sono ainda leite café pão café. trabalho trabalho trabalho. mão nas costas nas cadeiras pescoço dor. ela amarela tão forte o sol muito forte mão na testa suor. de repente chuva muita água a rua cheia de poças sombrinhas guarda-chuvas. esbarrões muitos esbarrões pisões tropeções. sapato molhado fila no mercado almoço atrasado. trabalho trabalho trabalho. mão nas costas cadeira velha o chefe. tarde amarela ela tão cansaço. a rua cheia ônibus cheios pessoas cheias dessa vida. azul quase escuro ela quase forte ainda respiro sapato molhado ainda gato no telhado suspiro. todo dia todo dia. gato cinza bobo pra dentro gato pra dentro. azul escuro quase noite depois noite quase alta caldo grosso cama corpo esticado exausto sem dormir.

 

 

 

***

 

 

 

Inventário

 

parafusos franceses com porcas sextavadas, quarenta
parafusos e roscas soberbas, quarenta
soberba
dobradiça
ciúme
remova as películas de proteção
puxador com parafuso philips, quarenta
os nervos cardíacos formam um corpo neural com quarenta mil neurônios
vai me matar
a medula espinhal comanda os atos involuntários, eu obedeço
abaixo cedo sofro vergo
sistema nervoso autônomo

autômato
ele me esmurra na cara
me atira ao chão
chuta barriga pernas costas
verifique todos os componentes
eu tenho dor
parafusos franceses com porcas sextavadas, quarenta
parafusos e roscas soberbas, quarenta
roscas
aorta arritmia válvula batimento martelo

meu coração vai parar de bater
bate em média oitenta vezes por minuto
quatro vezes mais quando me assusto
eu me assusto o tempo todo.

me assusto com o ar que passa gentil, eu desconfio

tenho dor
metros de conduíte
rejunte rebite de alumínio. dejeto

eu me ajeito me ajeito não há
desisto verifique todos os componentes
prego telheiro, quarenta
parafuso atarraxante, quarenta
remova as películas de proteção
ele vai me esmurrar de novo
autômato
rejunte rebite de alumínio
rejeito

 

 

 

***

 

 

 

plantei uma cebola envelhecida

 

a descobri
no fundo da gaveta na geladeira
numa limpeza feita entre reuniões
o tempo passado
tão rápido

a cebola velha babada
no fundo da gaveta tinha raízes enormes

 

 

 

***

 

 

 

em gavetas não se morre de frio

 

moramos em gavetas
você tem razão, wislawa
gavetas com divisórias
mas veja há teto
e o vento circula quando deixamos
as janelas abertas
também há banheiros
e podemos nos limpar
morei em espaços
de engenharia primária
ou negligenciada
construções planejadas
por quem nunca habitaria
um quadrado de poucos
metros divididos

em quadrados menores
de tamanhos diferentes
ali também havia teto
e banheiro e janelas
que eram fechadas no frio

um lar com sol e afeto
encanamento e telefone
hoje o quadrado é um pouco maior
com recortes internos mais ou menos diversos
uma gaveta divertida em família
que chamo lar e assim ele se faz
caixas de papelão
não são gavetas
cobertores rotos
tampouco salvam
o sol quando vem
não é belo queima

 

 

 

***

 

 

 

dulce veiga meu bem, fala comigo

para as mulheres que eu amo

 

ninguém contou para o sol
que hoje é sábado e não vale a pena
queimar o quarto a tarde toda
estou empenhada em não arder mais

por enquanto
deixei o pó nos móveis
o chão todo marcado
roupa de cama na máquina
fiquei de pijama velho
aquele que não usava mais
com medo de ser internada

 

 

Escritora mineira e jornalista, Constança Guimarães lançou em 2024 ”Não quero morrer enquanto durmo” (editora Urutau).  Autora dos livros “Como se fosse possível medir o tamanho do escuro”, (Urutau, 2020), “Ombros caídos olhando para o inferno” (Urutau, 2017) e “A sereia da contorno e outras histórias” (Leme, 2017). É coautora de “Aleatórias” (plaquete ilustrada por Sofia Nabuco, Leme, 2022). Tem poemas e contos em revistas como Rascunho, Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em Guerra), Diversos Afins, Ruído Manifesto, Acrobata, Mirada, Germina e Laudelinas. Participa da antologia “Não há nada mais parecido a um fascista que um burguês assustado” (Hecatombe/2020).