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116ª Leva - 01/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Taís Bravo

 

Foto: Antonio Paim

 

Escavando areias com sede de oceano

 
escrever um romance
pela transcrição das nossas mensagens
dedicar uma página em branco
à cada hora
em silêncio
até que
a densidade da espera
altere
cada segundo
ocupe
uma
página mais
uma
agora
uma
dezena
sem nunca ser
a mesma
o feitio das somas
as raízes que avançam pela calçada
o acúmulo faz o objeto
intransponível
o livro forma estacas
debruço meu ouvido
ao que é sólido
.
um ponto é mais grave

do que a ausência narra
ressoa

os ruídos das minhas mãos

 

 

 

***

 

 

 

Meus desejos são guelras

 
para me localizar
os efeitos da ausência
não há um áudio

Perco:
a minha carne insiste
em renovar o sangue
até que a forma da sua boca deixe
o início das minhas pernas

o seu contato
foi nada
além de alento
agora torna-se
bem diante de mim
fora do meu alcance
algo que se decompõe
na quina de uma memória

o seu abraço

e, por último, a história
a espera da segunda pessoa
do plural
supus
e sempre foi minha

me cabe o trabalho:
analisar vestígios
esvaziá-los de nostalgia
ou fome
acertar meus parâmetros
com essa média inequívoca
e insuficiente
o que alguns chamam de realidade
uma convicção temporária

é isto que move o embate.
meu corpo resiste porque conhece
a aridez que me aguarda
na volta à superfície
o que respira é carcaça

 

 

 

***

 

 

 
Millennials quase amam

 
Eu tiro uma foto da sua janela
com isso já anuncio uma despedida
porque quero me lembrar
como era a brisa na sua janela
depois te pergunto se venta assim até no verão
como quem se prepara para os dias difíceis
e espia o futuro
você me diz que depende da direção dos ventos
eu nunca entendi como se usa uma bússola
penso que aqui poderia ficar
fazendo nada
feito os que esquecem dos trajetos
e se distraem com o que há
indiferentes aos movimentos obsessivos
idas e vindas
de quem insiste no desgaste
para justificar a perda
se entreter com o que há
aceitar mais um café
diante da direção propícia
longe do que pode ser ou não certo
guardo o recorte azul
para quando voltar
partida
porque conto mais com a nostalgia do que com a sorte

 

 

 
***

 

 

 

Treino

 
eu ando
precisando
de alguém
que deseje
meu corpo
enquanto
ando
em busca de
um corpo
pode ser até
menos
um pedaço de pele
não contra
sobre
ou melhor
entre
a minha pele
sou eu
raspando o tempo
enquanto ando
a minha pele
cobre minha boca pernas ouvidos
engole
retira
todas as células mortas
seu pezinho macio
novamente
anuncia uma voz
distante dos meus olhos
é oferta
não é um corpo
enquanto ando
há em torno
incontável fluxo
meu quadril
treinado
a fronte
contida
o olhar
desvia
o corpo
não é meu
à rua
eu ando
precisando
não ser
um alvo
no Largo do Machado
por exemplo
um pedaço
de pele
sobre a minha
pele
é alarde
não é como a sua
mão
a sua mão
é você
a minha pele
sou eu
o contato
entre
as células mortas
é este ponto
a insistência de infinito
a tentativa
de puxar um fiapinho
e estender o limite
em alguma medida
entre
as paralelas
enquanto me toca
entre
raspa o tempo
entre
a confusão de carnes
que sou eu
que é você
a sua pele sobreposta
ao meu desejo
é algo fora
da precisão dos passos
ou do refúgio dos pronomes
a invenção nunca garantida
o imediatismo inevitável
das partidas
o que significa:
ir

 

 

 

***

 

 

 
Partida

 
A espera
alguns supõem coisa estática
plácida
frígida

A espera
imobilidade de quem está disponível

A espera
as histórias esquecíveis de Penélope

A espera
a qualidade de um gênero

A espera
estou em um barco
que parte ao mar
retorna à ilha
volta ao mar
busca qualquer
aceno pedido bandeira fogo
e encara

o infinito

A espera
estou aos pés
de uma dormideira que pisca
a cada agitação das marés
e ela se faz imóvel
estou obcecada em existir
despida de qualquer olhar
estou em busca
de algum registro
o rastro da partida
no entanto é logo engolido
pelo risco
exato do mar

A espera é
luta
conflito
embate

O silêncio do que não procura não deseja não ocupa qualquer parte de mim

estou alheia quando toda minha pele é isenta de fantasia
estou alheia quando a nudez é um lugar inexplorado
estou tão alheia quanto este território que aprendi a chamar de meu
corpo com a falsidade própria de cada palavra

A espera
não ter a possibilidade do abandono
espiar todas as páginas suspensas
neste silêncio

A espera
se dobra diante da perda
uma mão costura
a outra rasga
o sentido
para além das rupturas
é movimento

 

Taís Bravo é escritora e tradutora em formação. Autora do livro digital “Todos os meus (ex) heróis são machistas”. É uma das criadoras e editoras da Mulheres que Escrevem. Co-fundadora da revista Capitolina, desde 2014, escreve para veículos como a revista Ovelha, a Alpaca Press e a TRENDR. Suas poesias já foram publicadas na revista Oceânicas e na Subversa. 

 

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Janela Poética IV

Myriam de Carvalho

 

Foto: Antonio Paim

 

Teoria da Música

 

Por vezes, a minha Fada ausenta-se. É
caprichosa, vagabunda, peregrina.
Fico de mãos a abanar, menina
perdida, sem pátria nem lar.

Mas quando regressa, cantam as ervas
na beira da estrada,
as gaivotas desafinadas,
as andorinhas estreloucadas!
Até as ondas na balaustrada,
até as pedras pisadas da estrada.

A minha Fada regressa. Um dia ao acaso, sem aviso.
Não bate à porta. Entra naturalmente, instala-se.
E os versos saem, de improviso, num sorriso impreciso mas
conciso.

A minha Fada, minha Deusa, minha mãe
e minha irmã
Essa mãe que não tive
E me tem valido – sábia como um divã

 

 

 

***

 

 

 
O chiar desesperante dos pardais
e o grasnar das gaivotas
A leve aragem marinha,
os ruídos da autoestrada
Despertadores infalíveis
da manhã da praceta

Ainda descolorido, o sol
começa a aquecer as vidraças da janela
Um avião cruza com estrondo o céu
ainda embaciado

Calam-se os últimos pardais
Fica no ar o chilreado de alguma andorinha
Os primeiros carros começam a arrancar
da garagem nocturna sob as estrelas

Mas eu tenho a minha estrela
Uma, que brilha sobre os tectos dos prédios
Haja sol ou haja vento,
Seja dia ou seja noite
Senta-se comigo ao computador,
diz-me as palavras certas
Maternalmente, afaga-me os cabelos
“aqui está bem”,
“aqui, é para alterar”
E bebo mais um golo de água, e
vou roendo uma maçã

 

 

 

***

 

 

 
Escolho as palavras como quem escolhe
as pedras da calçada que não magoem os pés,
ou como quem escolhe as pedras menos
escorregadias por entre as poças de chuva,
ou como quem escolhe as passadeiras
mais seguras para atravessar a ribeira…

As palavras existem anteriores a nós… dádiva
das gerações passadas… antigas
como o Tempo…

Têm Fogo nos pés como Mercúrio,
Têm Música no coração, como a Noite,
Fazem amor entre mim e o papel

As palavras são violetas de estufa…
Precisam de Ar, e de Luz suave
para não lhes queimar as folhinhas

As palavras fazem-me dançar
Batem-me o ritmo no contraste
das oclusivas,
Adormecem-me os passos na toada
das nasais,
Abraçam-me
no jogo das vogais…
Dão que pensar nos símbolos e
nas metáforas…
Esmagam-me se rimo.

As palavras têm que estar maduras
como as uvas para a vindima

 

Myriam Jubilot de Carvalho, 1944, portuguesa. Foi professora. Representada em várias antologias e revistas. Divulgadora da cultura e poesia do período do Al-Andalus. Colaboradora no jornal “O Autarca”, de Moçambique. Publica no site brasileiro “Recanto das Letras”. Três livros de poesia publicados.

 

 

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Janela Poética V

Casé Lontra Marques

 

Foto: Antonio Paim

 

O calor da nossa falta de hora

 

Foco na nuca da noite o calor da nossa falta de hora (desejando que a noite seja densa); quase estanco sua seiva — e deixo pingar das gengivas o acidente de uma voz. Os copos que caem, as pedras (ou cidades) que despencam não são mais os meus dentes. E daqui a pouco não sobrará muito o que engolir. Um dia, ouve. Um dia tudo aqui vai flutuar: um dia — será logo — a gente vai flutuar, simplesmente flutuar. Como a criança
que cresce
em mim (como a criança que
cresce
contra mim). Juntando
as mãos
nas amígdalas. Reencontro este limiar — jardim? fronteira? deserto? encruzilhada? — indiferente a qualquer pacificação. E apesar de toda a atrofia: reencontro este limiar (uma elipse; outra elisão) em que o acirramento
da linguagem
deixa marcas fecundas no corpo — deixa marcas (ou ventosas ou queloides ou asas) fundadoras de um corpo. Metalurgia
molecular: o corpo, a mulher que ainda serei
diz
para meus intestinos. O corpo testemunha a nossa inconsistência. Mas não só: o corpo — com seus sonos e suturas,
seus
pombos e praias — eletrifica o tempo quando nos expomos aos signos/sabores/sintomas das contusões (dos desconhecimentos) que não prevenimos
nem
promovemos. Não deflagramos
(não
delimitamos) porém
de
-batemos. Sem domesticar
a desorientação dos povos à volta ou
no
centro do deslumbramento. Do atordoamento por onde a gente distribui — dopa depois distribui — o suor
que
talvez se torne
fala.
Fome e
fala.
Fúria e
fala.
Ou
fenda ou farpa
ou
fagulha.

 

 

 
***

 

 

 
Nomear os sons na dissolução

 

Nomear os sons na dissolução
conserva
um pouco das sílabas ofensivamente estendidas

ao
espanto

inicial?

quase esqueço
o
que responder — enquanto nos arrastam —

até
o fundo

das retinas:

sustentando (pânico após pânico)
a
fabricação da apoteose

— minto —

da
metamorfose

corporal;

com
súbito prazer;

insisto:

assim
que o bulbo — depois de algum silêncio —
mas
antes do acaso;

assim
que o bulbo (o bulbo)

esfriar

no
asfalto:

acordaremos — ainda dentro da precariedade —
ao
redor dos poros: outra vez:

por
que logo

eu tentaria coibir

uma
qualquer

intrusão?

nascemos para a língua:
alertas
ao tempo — sem a exatidão da voz —
contra
essa espessa mudez:

nascemos
para o que nos ressuscita

— arremessando um rosto —

nos
cristais
da
cica

 

 

 
***

 

 

 
Também o apodrecimento incita à insistência

 

Também o apodrecimento incita à insistência
……….. (por mais
que procure
………..despencar do desalento)

Embora combalidos, não apodrecemos

……….. sobre
………..os gestos

com que perturbamos o tempo —

………..sobre
………..as frases com

que
consumimos

……….. o desconhecimento

……….. (as ruidosas
……….. referências convergem

………..para
………..o vértice que expõe

………..a vida
………..ao
………..ventre

………..de nossas vertentes)

 

 

 
***

 

 

 

As dobras das mãos

 

Terei uma única vertigem: um nome — desde o nervo — gravado na nuca, um nome formado por imagens colhidas ao largo de um ossuário (de vozes em que avultam vidas vociferantes): a paisagem que progride por horas íngremes: quando dorme — sem idade — os dias ardem sobre seu dorso como cristais de sal; adiante, o declive: chama-se o verão (provoca-se o exílio) com sons (entre ganidos) que o ladeiam — da mesma maneira que se ladeia um crânio — receando seu cerne: chama-se — o verão, chama-se o que desvia o curso do pulso: arquejante: deita onde há trauma, onde há tumulto — contamina a camisa, a água, a manhã, a palavra arrastada pela raiz:

tudo
quanto devemos

fazer
desaparecer: (pulsando):

dias
de cinzas

na
saliva?

Terei o crivo, a clave, o claustro de uma última crueldade: conservarei — por não saber controlar — a cratera, o cancro; conservarei o cancro no pulmão desta última crueldade: no pulmão — até então inesperado: porque, no nervo deste cancro, o diafragma expande suas malhas, seus planos, mastigando a cartilagem, a areia, a gangrena, a engrenagem de uma carne cáustica, até fermentar — nas ogivas das gengivas — um liame de misérias (cujas contorções obedecem, apesar da exaustão, a um programa de insuficiências que sustentam o sobreaviso, sem provocar, no entanto, sequer um princípio de precaução):

tudo
branco sísmico

espanto

(renascer): pulsando:

ogivas
de
dias

entre

mímicas

não

emitidas?

(Debruça a cabeça pacificada. Entrega os nódulos de magma incrustados entre as dobras das mãos cansadas de edificar armas com destroços de casas; entrega — junto com os nódulos de magma, junto com um embrulho de mãos calcinadas — a vigília coberta por camadas de cantos inúteis, de imagens engessadas, de ritmos diluídos, de falas despedaçadas)

 

 

 

***

 

 

 

Se a língua aprovasse

 
Se a língua aprovasse
apenas

os prazeres do desastre: o paladar

passaria
sem este esquivo

horizonte

— entre
vivido — no alvo

(compacto)

da
voracidade

(como um

aço

no cio

do

ácido).

 

Casé Lontra Marques nasceu em 1985. Mora em Vitória, Espírito Santo. Publicou “Enquanto perder for habitar com exatidão” (2014), “Saber o sol do esquecimento” (2010) e “Mares inacabados” (2008), entre outros.

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Janela Poética I

Vanessa Dourado

 

Foto: Antonio Paim

 

GENTES

 

retiro a carne deste corpo
que de corpo
sequer corpo é
e exponho ossos
sobre este rosto
que reluz a máscara
que eu nunca quis,
que eu nunca aceitei usar

não são maus os homens que roubam
nem as mulheres que choram
pelas esquinas da fome
pelas ruas do hoje
não cabe
sua vontade de ser gente.

 

 

 

***

 

 

 
CORPOS ABERTOS

 

Abrem
Lapsos sem regras
Vívidos tatos
Pupilas dilatadas

Dilatam
Grampos em pernas
Límpidos bálsamos
Mãos entrelaçadas

Entrelaçam
Bocas servas
Segundos grávidos
De prazer sem calma

Mundos recíprocos
Lascivas mostras
De corpos abertos.

 

 

 

***

 

 

 

VOCÊ MEIO FIM

 

e lá
quando chego
………………. ..no meio
de você

e aqui
quando logo
……………. ..no fim
de mim

chega logo
aqui e lá
…………..no meio e
………………………no fim
de você em mim.

 

 

 
***

 

 

 
CHÃO

 

Desterritorializo
O liso mundo
não me serve

Absinto de si
Coágulos de outros

Alquimia delirante
Religião sem hão

Tudo é

Sondo limites
Embriago o mundo
Chão é sempre chão
Os pés têm memória.

 

 

 
***

 

 
LIBERTUS

 
Não amarrarei
uma fita colorida
ao rabo do gato
Ser livre,
liberto,
libertino
Dói
Nem sempre
é lindo.

 

 

 
***

 

 

 
UM DESTINO É POUCO

 

Nunca tive morte tranquila
todas elas foram desesperadas.
Um tiro de desilusão no meio do peito,
uma facada de solidão no fundo da alma.
Vi as tripas da minha tristeza por tantas vezes
que perdi as contas.
O afogamento é sempre o mais comum,
o gosto do sal desidrata.
O encontro com o chão da realidade
depois de mergulhar no amor do trigésimo andar,
levantar com as costelas da esperança quebradas.
Nunca foi fácil.
Eu sigo morrendo,
sou o pior dos vasos
porque ressuscito.

 

 

 
***

 

 

 
PANTERA

 

Lampejos de vida sem frio
Sem freio
Veias abertas no seio da fera
Feitas a ferro
Olhos fundos e sem beleza
Profundas brutezas
Corpos sobre a mesa
Servidos à francesa
Tiro único e certeiro
No meio do peito
Prova não ser passageiro
Ainda que sem leito
Cobre-se de miudezas
Enche-se de sutilezas
Dança sem presteza
Morre sem nascer.

 

Vanessa Dourado é escritora e feminista latino-americana. É autora do livro “Palavras ressentidas” – Editora Giostri, 2015e colaboradora na Revista Berro, vive em Buenos Aires.

 

 

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Janela Poética II

Lucas Rolim

 

Foto: Antonio Paim

 

desejo rupestre

 
um desejo rupestre
viaja no fio vermelho do corpo,
em seu zodíaco de sigilos luminosos,
na fauna barulhenta dos cabelos.
decifra a linguagem dos sinais
por meio de sílabas incendiárias.
amanhece um artefato do amor
na confusão da matéria.

um desejo rupestre
assume as formas de um abraço
& demora um pouco mais;
descobre o endereço da ternura
& trocam cartas de fogo;
retorna ao silêncio onde habita
& desarruma o tédio da casa.
ordena lembranças com o som
de um gemido.

 

 

 
***

 

 

 
visão do infinito

 

 

vejo o terrível corpo de alguém que não conheço
deitado na terna música das pedras – no som arfante do lodo
na severa melodia dos alísios

um terrível corpo – paisagem antrópica na película vegetal

a dança estarrecida dos sóis sobre o ventre negro
meus pequenos sonhos loucos na manhã carnívora
– as primeiras vibrações da ternura mais remota

gestos de um rito diário – adorno cinético da antiga alquimia

deslizo pelo túnel das costelas – pela ferrovia óssea da noite
meus olhos chovem na dureza de uma nuvem torácica
cruzo as cicatrizes no campo risonho da memória

agora rasgar a plumagem opaca dos segredos
descer ao recôndito maquinário das corridas & chutes
fazer girar a doce roda das vontades à mercê de um abismo azul

a visão é um sentido egoísta – o tato é um garoto obsessivo

desemboco na roupa das vísceras & entoo a litania do amor
contemplo nos fragmentos de nudez a visão do infinito

 

 

 

***

 

 

 

lições sobre o silêncio

 

para Demetrios Galvão

o poeta me disse

que o silêncio é uma lição valiosa.
que na pressa do mundo não cabe a poesia
& que a natureza tem múltiplos disfarces,
mas um único gesto para a liberdade das aves.

o poeta me disse

que este mundo anda viciado nas próprias sombras.
que a língua dos homens é uma lâmina de ódio
& que da areia que cobre os sentidos
brota uma paisagem arcaica de cactos raivosos.

o poeta me disse

que um dia também cultivou na pressa sua voz,
mas um calendário de vazios o puxou pelos cabelos
& lhe mostrou que nas pedras do caminho
habitavam ensinamentos perdidos.

o poeta me disse

que o ato da paciência evita golpes imprecisos.
que é pela visão que a sabedoria primeiro se achega
& que o peso do voo é mais leve que a pena
que empluma o olho do vidente em seu sonho.

o poeta me ensinou

que na peregrinação há riscos muito maiores,
mas que somente assim é possível aprender o tempo
& voltar-se mais vivo à bagagem de afetos.

 

 

 

***

 

 

 
wake up, mr. L!

acompanhado de John Cage

 

 

quando despir-se o místico por trás dos muros,
haverá uma turba de segredos aguardando passagem.
não existem falsas proposições. é preciso um ato ligeiro.

atravessar o ciclo dos vinte:
reencontrar infâncias num artefato muito antigo.

arrastar as cortinas da tarde:
enfrentar o pandemônio das ordens com Lentidão.

visito um oráculo asteca à procura de desvios na memória.
(devoro presságios para esquecer do futuro)
 

 

 

 
***

 

 

 

pelas cercanias

 

 

desiludidos,

cruzavam a espera
levando um mapa de ausências,
uma distância inquieta.

ruínas
e compulsões revisitadas.
desertos povoados novamente.

(as trilhas guiavam
a antigos hedonismos)

eles herdavam o sigilo
de seus quartos e recordavam
conversas aflitas.

em seus corpos
ardia a inscrição da noite:
os piores dos cegos. os piores dos cegos.

era tempo de saber
o paradeiro da angústia
e abrigar-se no conforto das conchas.

tempo de habitar
silêncios.

 

Lucas Rolim é poeta e fez algumas traduções. Nasceu em Teresina, onde habita e é habitado. Membro do coletivo “Tensão, Tesão & Criação” com o qual espalha a palavra poética pela cidade. É autor dos zines de poesia “Tetrapoemas” (três volumes, 2015), “Esquizofrenia” (2015), “No Panorama do Tempo o Menino se Alarga” (2016) e “Mr. Mojo Risin’” (tradução, 2016). Tem poemas publicados na coletânea “Baião de Todos” (fundapi, 2ª ed., 2016). Edita desde julho de 2016 o zine “Besouro”, em parceria com o poeta Demetrios Galvão.

 

 

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115ª Leva - 09/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Alexandra Lopes da Cunha

 

Foto: Raul Krebs

 

A minha morte

 

Será um dia a minha morte.
Ou noite, tarde, um instante
cravado, remate em meu tempo,
minhas horas findas, neste momento
até então desconhecido, impreciso,
imprevisto, mas sabido desde sempre.

Será e eu deixarei de ser.
Será e eu calarei o fluxo contínuo
de minhas palavras profusas,
o fluxo pulsante de meu vasto sangue,
o ar exalado será frio, insignificante,
carregará resquícios de mim.

Os meus olhos, que foram outrora
tão bonitos!
Janelas despertas…
Abertas
agora ao nada.
Fechados agora para tudo.

 

 

***

 

 

PreTérito

 

Não é. E não somos mais que destroços,
trastes cobertos de ferrugem
e da poeira dos séculos.
Mariposas exaustas
a flutuar
na imobilidade rarefeita
do ar antes da chuva.
Já somos pretérito,
amor morto.
Já somos.

 

 
***

 

 

Definição

 

Sou mulher sem qualidades.
Desqualificam-me os adjetivos
e os advérbios ignoram-me,
solenemente.
Substantiva até a medula dos ossos.
Também abstrata, se me convém…
Dos verbos imperativos, mantenho distância.
Prefiro os condicionais, hipotéticos.
Pretéritos? Sempre imperfeitos.
Artigos indefinidos,
pronomes impessoais,
não sou amiga de coletivos.
Só eu, poeta,
em algumas horas do dia.

 

 
***

 

 

Criador e Criatura

 

Criaste um demônio
ao pousar em mim teus olhos
escuros de pólvora.
Queimei, incandesci,
desabrochei em primavera antecipada,
rubra flor carnívora,
expectante de ti.

Deste luz a este ser faminto dos teus afetos
e te foste,
irresponsavelmente desavisado,
as mãos nos bolsos, aos lábios,
uma melodia sibilante.

Me fiz em teus olhares,
deste forma ao meu corpo
na dança de tuas mãos,
moldaste-me ao teu gosto
e te foste!

A cria que iluminaste
com o fogo do teu desejo
consome-se,
devora a si mesma,
grita, urra sua dor
de amante órfã.
Por que te foste?

 

 
***

 

 
Ressaibo

 

Deixo que descansem as palavras
no dorso úmido de minha língua.
Molhadas na saliva amarga
dissolvem-se, feitas em água
tépida, espessa, algo repugnante.
Devia cuspir o caldo abjeto que tenho à boca,
vomitar as palavras que represo,
que me fecham a garganta,
e causam náuseas.
Ao invés disso, inspiro o ar
pesado de todos os dias.
Insisto e se abre a glote.
Engulo todo o veneno das palavras fermentadas.
O que resta sobre a língua é o ressaibo,
o travo triste de engolir fracassos.

 

 
***

 

 
Vórtice

 

Desejei com a ânsia dos amantes
alcançar-te e prender-te nos meus braços.
Servir-te de meu corpo, calabouço,
afogar-te em minha boca, fundo poço,
e prender-te entre as pernas, duplo laço.

Exaurir-te num tempo sem começos.
Em embates intrincados nunca findos
e as tréguas momentâneas eram hiato
a separar o que eu almejava unido.

Amaria assim até a morte,
a tua, por suposto, esgotado.
Entre os meus desejos consumido,
entre os meus abraços acorrentado.

 

Alexandra Lopes Da Cunha nasceu em Brasília, DF. É formada em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tem mestrado também em Administração pela mesma instituição. Tem dois livros de contos publicados: Amor e Outros Desastres (2013), Vermelho-Goiaba, vencedor do prêmio IEL 60 anos, na categoria autor estreante, e Bífida e outros poemas, pela editora Kazuá, lançado em 2016. Aluna do programa de doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde mora.

 

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115ª Leva - 09/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Weslley Almeida

 

Desenho: Re

 

OCULAR

 

Enxerga a flor
com toda tua retina.
Apalpe-a
com toda pálpebra tua.
Assiste – nas pupilas –
todo o seu desabrochar.
Pois não se sabe quando
a cegueira da candura anoitece.
Nem
se em fruto a
manhã será.

 

 

 

***

 

 

 

INAUGURAL

 

Há-me um paladar
de fascínio inaugural
pelos abismos, rotas de dentro
pela nova ciranda: dança de redemoinhos
movendo-se em espiral
nos tantos brotos tormentos
da aurora
e do ocaso (que é dia-noite a dentro):

plúmbeo lábio de cima
beijando
o outro baixo ocre
lábio feito.

 

 

 

***

 

 


URBICÍDIO

 

A cidade é um templo:
arranha-céus.

A idade
nela
é um tempo

átimo veloz.

O zumbido dos carros
(catarros)
é o mesmo zumbido de dentro.

Para onde,
…….anônimos,
………..antônimos
……………perdidos corremos?

Para onde
os assombros
escombros
destinos que havemos.

 

 

 

***

 

 

 

PASTAGENS

para Alberto Caeiro

 

Cada poema
é um rebanho
…….berro de palavras
pasmo essencial

a sintaxe das emoções
a semântica do intelecto

descendo o olhar por flores
em novilhos de versos
e lã
grudada em carne

o súbito relâmpago relance
voo (insight de aves)
onde se cruzam os cantos
trôpegos pensamentos:
fluxos de pastagens.

 

 

 

***

 

 

 

NA CASA DOS MEUS TRINTA ANOS

 

Na casa dos meus trinta anos
concebi o tempo
por furacões

cada átimo
encarnava-se-me veloz

e passei a alijar superficialidades
aglomerar o intenso

por paladar de flor
e entrâncias de espinho

pegando o travo e o doce
por dentro

sabendo
como o limo sabe da pedra

no grude gesto
……..do tempo.

 

 

 

***

 

 

 

A TRAMA DO BORDADO

 

Olhares sobre o tear inacabado
a guerra sem fim inconsumida
Penélope e seus dedos finos falhos
Ulisses e o retorno: e ainda

Ainda a Tróia maldita distante
e a solidão no novelo em Ítaca.
Ainda o flerte dos interessados
o cavalo que vai — e que fica

O arco duro, tão rígido
só quem o deixou
pode bem a(r)má-lo

E como flecha
pelos machados
a trama do bordado se finda.

 

Weslley Almeida nasceu em Feira de Santana, Bahia. É poeta, compositor, e formado em Letras pela UEFS. Atua como colaborador e revisor do Jornal Fuxico (do Núcleo de Investigações Transdisciplinares – NIT/UEFS). Os poemas aqui publicados integram seu livro de estreia, “Memórias Fósseis” (Editus), vencedor do Prêmio Sosígenes Costa de Poesia 2016.

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115ª Leva - 09/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Leandro Jardim

 

Desenho: Re

 

Represa (Aceno)

 

Essa palavra que me estrangula
………………………..As pernas
É generosa apenas
…………………….com as ideias

E a distância que nos separa
……………………Um passo
É mais próxima do que um
…………………………Aceno

Mais distante do que um
…………………………Abraço
Mas eram ideias os braços (lembra?)
…………….Que nos enlaçavam

O desvelar mútuo
……………………Da linguagem
Que é também linha
……………………E tece
Me aconteceu de bordar
…………………..Vestir
A roupa que palavras suas
…………………..Costuraram

Coberto delas então encaro
………………….O reflexo
Nada mais é do que o meu reverso
………………….Obstáculo

É quando você me vai
………………….Despeço

 

 

***

 

 

A pequena semente infinita

 

A semente
Tão pequena é
E leva por dentro
A vida

A vida
Também tão pequena
E guarda no centro
O infinito

O infinito
Com tudo contido
É, ainda assim,
Invisível

 

 

***

 

 

desaconselha-se

 

vai girando
a vela e leva
de bom grado
o vento

vai graduando
a fala (e leva)
sem tanto crer
o argumento

e aumentando
a idade caia
a fé e faça
por onde um dia

te alcance crua
a companhia
inútil e grave
de alguma graça

 

 

***

 

 

Tudo se mexe

 

Tudo se mexe
Ao redor da sala
E no centro
Eu me sento

Tudo ao redor da sala
Sou eu sentado
E esse movimento
Que diviso por dentro

A criança cruza
O cachorro salta
É a televisão
Verborrágica

O silêncio canta
E descreve o mundo
A lápis no verso
De um formulário velho

Catalogado, o ser
É as frases no inventário
Do que vê a sitiá-lo
A mesa esquiva e eu

Um tapete movediço e
Esta porta uma boca afoita
Que me chama de verdade
Imaginária e inventada até

 

 

***

 

 

Engarrafado

 

Engarrafado
Como o trânsito
O álcool
Não do carro
Ou do ônibus
Que ele toma
Pela manhã
A caminho do trabalho

 

 

***

 

 

Ilusão de crítica

 

O homem que parecia (de pé)
um certo crítico (no balcão)
literário (bebia algum trago).

Seu olhar pesaroso (fixo)
e uma pobreza excessiva (na roupagem)
que o denunciava (mais um)
um engano (meu).

(E eu sem meus originais à mão,
ainda pensei)

Acenamos um brinde, afinal,

à distância.

 

Leandro Jardim publicou a novela “A Angústia da Relevância” (2016), “Peomas” (2014) e o livro de contos “Rubores” (2012), todos pela Editora Oito e Meio, “Os poemas que não gostamos de nossos poetas preferidos” (Orpheu, 2010) e “Todas as vozes cantam” (7Letras, 2008). Possui contos publicados nas antologias “Veredas – panorama do conto contemporâneo”, “Para Copacabana, com amor”, entre outras. Em parceria musical com Rafael Gryner, lançou os EP’s “O Sonhador” (2014) e “Sementes musicais para um mundo cibernético” (2011).

 

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Janela Poética I

João Gabriel Pontes

 

Desenho: Re

 

entre certos instantes de brahms e uma cloaca, III

 

O curumim se pendura no avental de Hera
para tentar escalar suas tranças graciosas.
E são fundadas acrópoles a partir dos inefáveis
desejos humanos,
as caçarolas de alumínio
sobre bocas de dragões furiosos.
O contorno da romã se desfaz
em linhas,
e o curumim consegue, afinal,
vislumbrar os paralelos que fatiam
a superfície do planeta.
Como é fácil se encantar pelos Trópicos!
Gira-se a torneira
e a água molda o espaço,
e a água molda as ideias & os sentidos
do curumim.
O ralo da pia bebe vastos açudes de provações
e desaparece.
A carne plástica das dobras do sifão
recobre o túnel de aros de uma tranqueia
esganada.

………………………………. “Incêndio em mares de água disfarçado!
…………………………………..Rio de neve em fogo convertido!”

Hera senta
o curumim à mesa, serve
o almoço e reza
pela alma do marido,
que deu o couro às varas
faz poucas semanas.
……………………………………………………………..Sim:
todos respondemos pelas escolhas
daqueles que pisaram estas campanhas
estéreis antes de nós.
……………………………………………………………..Sim:
nossos escritos são medíocres
reproduções dos palimpsestos que abarrotam
a biblioteca suspensa pela sobreposição
dos anos.
……………………………………………………………..Sim:
este cheiro de serragem molhada,
que tanto me incomoda as narinas
sensíveis ao fracasso, também atordoará
os belos deuses do futuro.

E o curumim marcha entre trovões.

 

 

 

***

 

 

 

Copérnico

 

Com o intuito de estancar a sede irresistível
que me pôs acordado
………………….no momento exato do alvorecer,
recorro ao catálogo das variedades
………………………………anarquicamente dispostas
…………nos compartimentos da geladeira.

Deparo-me com uma jarra de vidro
…………………………………………quase vazia.

No fundo desse crisol ilegítimo,
………….a emular o resultado
………….de ensaios químicos frustrados,
………….o resto do suco de laranja
………….que eu mesmo havia preparado
………….antes de dormir.

Uma quantidade ínfima do líquido
em cuja acidez estão concentradas
……………………todas as minhas perversas manias.

…………………………….Ralho comigo.

Por que não bebera tudo de uma só vez?
Por que guardara o último gole
………………………………para depois?

Preocupo-me somente
……………………com as sobras,
……………………com os resíduos,
……………………com os resquícios.
……………………A abundância das horas, deixo-a

aos que ainda esperam muito da vida,
aos que anseiam por algum clímax
ou por alguma absolvição,
aos que não puderam estar presentes
no velório de Ivan Ilitch.

Meus inimigos dizem que não tenho ambições.
……….E eles têm razão.
……… (Eu não quero ter razão.)

Prefiro o resto do suco de laranja
à revolução da laranjeira,

…………………..espécie ímpar em um bestiário
…………………..de leviandades,
…………………..utopia petulante a servir-se
…………………..de uma filigrana lexical

que ora descreve
a mecânica dos corpos celestes,
ora retém
o anelo dos corpos históricos
por mudanças drásticas.

Mal sabem os filólogos ocidentais que,

em termos ontológicos,

não há diferença
entre a lente arguta do telescópio
& a lâmina implacável da guilhotina.

………………………………A tradução da liturgia
………………………………na diagonal deve ser feita
………………………………porque graça não há
………………………………em seguir da ordem canônica
………………………………a tradição (da liturgia).

……..Se a guerra & a poesia
……..constituem, por excelência,
……..os espaços de negação
……..do tempo e dos arquétipos
……..partidos que veneramos,

……………………..os restos já são, por si, revolucionários.

 

 

 
***

 

 

 
Apocalíptica

 

O silêncio da madrugada & minhas confusas
vaidades inundam a sala de jantar.
Sobre a mesa de tampo redondo, o copo
farto de uísque.
Apenas o odor do malte já me embriaga.

Meus pensamentos se transfiguram
e você surge diante de minhas vistas
cansadas.
As pernas como colunas de mármore,
os braços em um abraço de fogo,
das ancas, larga baía,
& a boca convidativa
& os olhos que me desafiam, esfíngicos.
Sua voz, suave melodia de realejo.
Seu perfume, o escrúpulo dos oceanos.

Ouço as trombetas de mil anjos caídos
e você chove de fora para dentro.
Quimera bamba. Falsa musa.
Sua beleza me leva a descumprir todas
as promessas que fiz a meus fantasmas.

 

 

 
***

 

 

 

Relógios

 

All those times I was bored
out of my mind.
Margaret Atwood, Bored

 

Em cima do piano, eis um relógio. A cada rotação,

………………………………..seus ponteiros
……………………………………….me massacram.

………Alguém me fala sobre doenças
………e sobre consultas médicas,
………sobre planos de saúde
………e sobre seguros de vida.

Alguém me fala sobre os preços dos remédios,
………………que aumentaram por causa dos altos índices
……………………………………………..de inflação.

…………………….Alguém me fala sobre meus amigos;
e, ao que parece, quase todos já honraram
…….o famigerado axioma bíblico: ao pó retornaram.

……………………Alguém me fala sobre reencarnação.

……………E salienta que, de acordo com determinadas
…………………………………………………… [religiões,
o fenômeno do crescimento vegetativo a nível mundial
………………………………explica-se
………………………com base na transmigração dos espíritos.

………Confesso: com o fim do espaço público,
………a ideia de um amplo câmbio interplanetário de almas
………(versus a intimidade de minha casa)
……………………………………….me tira o sono.

……………..Prefiro ser enganado pelas manchetes
……………..e pelos anúncios publicitários
……………..de meu próprio planeta.
……………..Prefiro os mortos
……………..de meu próprio planeta.
……………..Prefiro também os relógios cruéis
……………..de meu próprio planeta,

muito embora suas engrenagens,
gáveas de presas anônimas,
ainda conspirem por minha capitulação,
independentemente de qualquer teoria fabulosa
acerca do além-túmulo.

……………………..A arquitetura da tabacaria
……………………..é rude, quase vulgar,
……………………..mas preciso reconhecer: tê-la,
……………………..em sua frouxa metafísica, põe
……………………..minhas cicatrizes em estado
……………………..de graça.

……..Olho para mim.
……..Olho para meus mortos.
……..Olho para o relógio em cima do piano.
……..Que tédio.

 

João Gabriel Madeira Pontes é um poeta carioca nascido em 1992. Seu livro de estreia, “Indiscrição”, foi lançado este ano pela Editora Kazuá.

 

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Janela Poética II

Hanna Halm

 

Re
Desenho: Re

 

Vão

 

Fecham-se em tamanhos miúdos
caixas de desgraça e poeira, rotas claves
do passado em pausa.
Lágrimas marcadas no negativo da fotografia,
São as dúzias de brincos perdidos em festas
como a fase terminal da doença
Embrulham-se em milhas de pacotes nunca postados
elásticos apodrecidos
Brilham como cacos remendados
no espelho escuro pelos fungos da casa vazia
e pastos inteiros incendiados.
É morte gratuita, sujeira presa
nos olhos do vento, desvairado.
Falta lei e proteção devida às unhas que sangram…
o dinheiro corre as ladeiras da rua
como o pó caído de um cinzeiro.
Fica a pólvora do armamento esquecido nos arquivos.
Punhos fecham-se em tamanhos miúdos
sem direito de guardar escolhas em armários de aço
nem se podem levantar por covardia
a exemplo dos homens que escrevem mudos
sobre suas mesinhas demasiadamente limpas
da liberdade moderna. Do sonho popular
calados diante o som oco que se faz
nas palmas das secas mãos
presas pelo descuido dos símbolos de perda
e das músicas jamais tocadas nas rádios.
Fecham-se em tamanhos miúdos
são como as línguas soldadas ao céu
das bocas frias e incapazes
Escondem-se pelas calças de bolsos fundos
e se alcançam, por uma estranha ventura, as lâmpadas
que pendem nos postes de cada espasmo necessário
às bambas pernas, petrificam-se na recordação do músculo
como um tumor gerado no infinito.

 

 
***

 

 
Cabide

 

depois de tanto morder meus olhos e
proteger os pés da minha frieza,
falava de mim feito fantasma
envenenada em seus próprios dentes
na escuridão dos seus dias
completos, ricos de palavras
incompreensíveis.

e corria estórias
pelas esquinas,
estrofes e gargalhada
em vão, batuques
nas panelas de casa

como fazia crer
falava de mim
e ouviam os desconhecidos
doenças anciãs de minha carne
dita suja
odiosa
carne

falava de mim
sorrateira como o trigo ao vento e
sufocada em meu seio
cuspia bolas de pelo roto

seca

falava de mim, rouca
invalida pelas garras de
um carma inventado

nua
exausta
falava de mim.

 

 
***

 

 
Ramal Japeri

 

se tão cedo sou massa
me aquieto
no canto que me cabe
em trilho reto sigo
curvo meu caminho ao
ganha pouco, pão
indigno dos dias tantos

ossos gemem,
estalam pobres
a febre embalada a
vácuo.

finda a tarde, gado
me atiro à não-vaga e
com menos pressa chego
a casa, permito graça a noite
já se afasta prum dia

aplico
a favor de mim e meu bem
sonhos órfãos
surreais
a posição que me
agride o trem.

 

 
***

 

 

Deixem abertos os meus olhos

 

deixem abertos os meus olhos, e
sobre o meu peito
feche minha mão
como uma cuia a espera de
lágrimas repreendidas.
compreenda minha altura,
metragem antiquada de índia
(misto de sangue e confusão)
calce-me com botas moles
gastas pelo couro judiado
que andei a vida.
quero sussurros de adeus
ditos ao pé do ouvido surdo
quero meus cabelos penteados
com a calma da escrita
e minha camisa branca
de botões e gola livres
casando minha
íris fosca,
seca feito a boca
que se há de morder.
não hei de perder no breu
tal antropofagia
declarada no berço
que cedo me deitei
e retorno em perímetro maior
para até onde dura
a poeira na vista
que agreguei durante os dias.

 

 
***

 

 
Clandestina

 

sim. eu quero ficar
o refúgio nesse caos é a sua própria construção
não pretendo descolar a marca úmida
a entrega da sua pele a minha estadia
pode ser que encontre num terreno impróprio
mas nunca em rotas paralelas da vida
um termo entre o meio e a desgraça
nesse labirinto estreito
de estar sempre respirando as tuas sobras
em copinhos de café expresso no corredor escuro
e manhãs corridas para não ser vista
passo os moveis estalam junto minha coluna
dolorida, a calma já não parece alternativa
se desço de carros apressada e deito
sobre lençóis a serem trocados
sem força para desvendar o koyosegi do nosso futuro
adoeço pretensiosamente ao escovar os dentes
e ouvir conversas de uma voz e meia
em silêncio morro um pouco a cada racionado toque
mas morro esquecida no espelho do armário do banheiro
ao provar a pasta de menta
e saber de ti em outro quarto
arquétipo que não me cabe, reconheço
meu espaço entre as quinas da caixa
sufoco toda vez em minha permanência

 

 
***

 

 
Sexta-feira

 

perdi as contas dos telefonemas
você dizendo que viria ao meio
dia de mala e cuia
pra bater na porta e me chamar
exclusivo, único
as unhas arranhando a madeira
cantareira batucando o
tempo que levo apressado
do sofá da sala ao armário
da cozinha onde deixei
a cópia das chaves
que já eram tuas
faz mais de um mês
fiz na esquina de casa
acompanhando a maquinha
compor pra você o poder
de entrar quando quiser
pantograficamente
sem ser chamado
mas vi tantos sois a pino
quanto pude enfrentar
a superfície lunar
trezentos e oitenta e quatro mil
quatrocentos e três quilômetros de
distância pro nó de nossas pernas
sobre a cama descoberta
ainda assim contei minutos
chequei as pilhas do relógio
voltei a vestir minha camisa
de dormir e liguei
a tv no canal nove
a mesma coisa, desimportância
inquietação interna
a extravasão das pálpebras
conta-gotas no travesseiro
fronha branquinha que troquei cedo
de manhã, os pombos batem na janela
arrulham a pior música para a
reforma que não programei,
mudei armário de lugar
aquela mesinha fica no canto, agora
mas talvez eu jogue fora,
ocupar a cabeça é difícil – o que houve?
até te comprei sobremesa
mais uma vez – pra
preencher a geladeira e
colecionar embalagens de papel – choveu forte
tive problemas com o carro
o pagamento não caiu na conta
não tive folga
tá uma confusão, chegando aí te conto – sim…
mas quando você vem?
eu espero.

 

Hanna Halm (1993) é poeta, musicista e historiadora nascida em Queimados, Rio de Janeiro. Participa do coletivo de publicações independentes Drunken Butterfly e do selo fonográfico fluminense Efusiva. Tem poemas publicados no blog Poema Diário, no jornal Plástico Bolha e na revista eletrônica Avenida Sul.