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114ª Leva - 08/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Sandrio Cândido

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

Antífona

 

evoco o teu nome em silêncio
de joelhos entro na linguagem.
debaixo das imagens resiste
algo do que foste um dia.

outra borboleta não soube o oficio
de desatar em mim a melodia.

só por isso ainda creio

 

 

***

 

 
Exílio

 

tenho as mãos sujas,
a flor da vida ferida.

não pertenço a este jardim
regressar as fontes de nada adianta,
a memória trai-me.

só, adiante!
estou esperando por mim.

não posso fugir
não posso adiar o silêncio
não posso desatar os cipós.

aceito a minha condição!
devo deixar cair as pálpebras.

amanhã,
depois de rasgar todas as barcas
talvez eu me encontre.

 

 

***

 

 

Quatro variações imagéticas

 

I

a casa é frágil
cuidar como cuida um pomar
nem sempre é primavera
nem sempre os frutos podem ser colhidos.

antes da flor existe a semente,
é preciso calma ao escavar a terra
deixar o corpo no escuro
adormecer no exercício da espera.

não cortar a asa dos pássaros
ser apenas ninhos
estar inteiro no ventre da prece.

 

II

há flores lâminas aparando olhares.

 

III

eles partiram do meu corpo
ao mar escorreram
fiquei sozinho

ouço os violinos tocarem
“se eu roubei, se eu roubei teu coração, tu roubaste,
……………………………………………………………………….[tu roubaste também o meu”.

é outono
sou a flauta assoprada pelo tempo.

a mesa em meu corpo está vazia
aguardo regressar os deuses
iremos concluir a liturgia da vida.

 

IV

os telhados cantam
debaixo dos alicerces as ruínas
estou cercado de monturos.

chove em meus lábios
o poema trabalha em meu rosto
costura a eternidade.

 

 

***

 

 

Primeira meditação

 

tenho me deixado seduzir pela esperança. espécie de flor agasalhando as chagas. as vezes o tempo é de frio. falta o sorriso de Deus. o mundo fica estranho e triste. há também momentos de alegria. quando a mão de Deus me toma. ao som dos pássaros dançamos. embalando o vento. há dias assim; quando o sussurro do eterno me compõe um jardim. aqui dentro, eu sei: somos sinos dobrando distantes!

tenho morrido aos poucos, estou aprendendo outra música

 

 

***

 

 
Exílio II

 
os mortos regressam ao meu corpo
bebem a minha existência
estendem a mesa na memória

ouço as rosas partirem a terra
já não posso alcançá-las

pertencem a um tempo arcaico
de cirandas perdidas
e córregos represados no corpo

nenhum caminho sabe os passos
para a idade daquela praia.

 

 
***

 

 

Espiritualidade

 

Engoli tantas estradas e nenhum pão
as vezes não caibo nos olhos de Deus.
As rezas sussurram em meu corpo
um longínquo sabiá me chama.
Bendita sina aquela dos desesperados
beber todo o mar e continuar vazio
ser a mão escavando o silêncio
tentando desterrar a lâmpada afogada.
Tem hora para tudo nesta vida
diz o Eclesiastes.
A mão roça que roça os meus cabelos
traz a enxada entre os dedos
carpir é o signo da reza
plantar no silencio algo de beleza.

 

Sândrio Cândido (Minas Gerais, 1991) é poeta e missionário católico.  Graduado em filosofia e estudante de teologia. Atualmente reside em Cali, Colômbia, onde acompanha os processos pastorais da comunidade Afro Colombiana. É autor de Epifania (Ed. patuá, 2014). Os poemas acima pertencem ao livro Breviário dos Lírios (Inédito).  Sandriocp@yahoo.com.br

 

 

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114ª Leva - 08/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Otávio Campos

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

O ESPELHO

 
não se mede
tempo e espaço pelo tamanho da cidade
vila adentro
cidade velha
hoje a tarde e eu
mais velho do que as casas e as ruas de pedra
penso que amanhã
talvez não exista outra solução
que não a fuga

um rio corre calmo
eu não mergulho mãos
pra aprender a calma
eu corro
mais do que os carros
e os anos que ficam trancados
dentro da cidade murada
não cabe
o que pensei em fazer nos dias
em que lá em casa a luz era amarela
e anna chegava dizendo que agora sabia
a razão de eu ser poeta

e era
1. ser mais alto do que as montanhas
que protegem a cidade
(como se existissem montanhas além da linha do mar)
2. ser menor do que a vontade
de desistir do barco e dos furos no fundo do barco
durante a chuva
3. não ter pressa em conhecer os outros
mundos e as pessoas que existem dentro deles
4. conhecer antes de tudo a mim mesmo
e os mundos e as pessoas que existem dentro

por isso hoje
enquanto voltava a casa
escrevi uma carta
que apesar de branca carrega no remetente o impulso grande de voltar

por isso hoje
no caminho de casa
comprei um espelho
e o coloquei na porta
da sala
virado
pra rua

(e envelhecemos a casa
eu e a cidade
enquanto é dia

o espelho não)

 

 

***

 

 

FENDA

 
visitamos cidades destruídas
asilos abandonados nos quintais
teu rosto uma fenda – por enquanto
desistimos de ser tristes

você acredita não existe outra palavra
mais bonita que triste
enquanto isto é uma fotografia,
um postal de Budapeste e suas
cinco mil luzes azuis – será
que ele te encontra hoje em casa:

uma cidade que te povoa na infância
algures teu nome nalguma porta
quem te disse um dia para sair com as chaves
e as coisas que despencam – por enquanto

isto é uma queda
isto é uma seta

quando eu falo em seta você pensa
em seta ou em flecha
você pensa em uma seta como uma
flecha

você pensa em uma flecha como um
desastre

estar de pé tem sido uma aventura,
uma escavação ou uma tragédia
arrancar aos peixes nem tanto,

na data o postal um ano escondido
teu nome alhures: você ouve barulhos
das pedras que descem murmúrios
mas isto é um acidente

uma flecha que atravessa o poema
escuta como ele pulsa devagar

discutimos sobre precipícios
os fados que me ensinaram
de não tornar ao chão – por enquanto
isto é um aviso,

a porta que ainda não caiu
a última casa que resiste irônica
os azulejos que invertem
a ordem do mito.

 

 

***

 

 

ANTIODE AO PAI NATAL

 
deverias ler mais os portugueses e aprender
o que é o poema sério – ainda não sei
muito menos o nome de verdade da Catarina
de Escócia, mas que era uma rainha
que gastou os últimos dias em cima da terra
abençoada pelos deuses escoceses cultivando
um enorme pé de erva
estas coisas são imperdoáveis
ou era outra história que inventavas
para usar o nome de Deus, temer a Deus
a todas as coisas
hoje é dia de condenar os pecados
um vento não fala de árvores empalhadas
nem é vento e não passa
alguns jornais noticiam rituais pagãos,
o euro aumenta nesta época do natal,
montaram um presépio em que o miúdo deitava ao chão
e ninguém sequer sentenciou
as coisas mudam e os homens se perdem todo dia
uns morrem e depois morrem de novo todo dia
e as luzes continuam acesas
e piscam
parece que inventaram hoje, olha lá que ainda
é tempo de cometer absurdos
dar cabo aos jogos das cartas seria uma aventura
imperdoável
ser útil ao amor e aos desejos de fim de ano
enquanto o outro desenha teu nome
na testa encharcada da menina chinesa
que não dorme
é duro feito pedra
a latitude é 3
não se mede a densidade relativa do ar
as asas que me meteram às costas ela confunde
com ironia e a terra da China é fértil
disseram que pra lá já passa de 2016
e já se foi o ano do porco
não se brinca com astrologia
isto não ajuda
isto não perdoa um monte afastado
de cultuar certos deuses

 

 

***

 

 

A ESPERA

 
enquanto o cigarro esvazia e no porto
a temperatura cai sem deixar vestígios
pensamos que a cidade sente por nós
ali não estivemos
mas nosso amor sim

pelo menos em palavras e silêncios
e o que somos hoje não ultrapassa a barreira disso

você de costas para a champs-élysées
uma fotografia clara tão mais bonita do que as minhas
eu deveria te escrever um poema
que terminaria com um desenho calmo e saudações
da vida portuguesa

mas nunca fui bom em desenhar a espera.

 

 

***

 

 

O VERBO

 
já podemos sentir de novo a casa vazia
algumas palavras perderam o sentido
outras arranham as paredes como um bicho
você as deixa fechadas

foi então que começamos a anotar as coisas
nas cortinas me pega a mão faz um desenho
temos um cubo de gelo e escreve: gelo
temos uma casa e escreve: casa

o carteiro já não vem e a isso
somam-se meses pela vizinhança
espalha-se um boato de que aqui
dentro estamos todos mortos

se te desse agora uma fotografia
exatamente de agora
sentada como está
quanto tempo levaria até que
escrevesse na parede
o nome de lugar

algum?

 

Otávio campos é um poeta e editor nascido em 1991. É autor dos livros “Distância” (Aquela Editora, 2013); “Outros tipos de disparos” (Edições Macondo, 2016) e “Os peixes são tristes nas fotografias” (Bartlebee, 2016).

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114ª Leva - 08/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Yasmin Nigri

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

Mais forte que o açoite dos feitores

 

Uma sombra vespertina me contagia
Não se trata de mandar ou não notícias
O único modo de governar cada brecha
Desse tempo falho é interrompendo-o
Minha boca é morada ácida
Quero uma figueira sem pássaros
Para gozar dos frutos e anseios
De querer ser grande
A colher já não cabe no bule
Sua espada já não cabe em meu ventre
E atravessa cortando sua manhã
Perpassa grades
Parte chaves
Assim invisível incorpórea
Vou ao termo
Posto de pé o próprio amor inflamado
Vai a pique
Você se queima
Mas sou eu quem sai ferida

 

 
***

 

 

Até que a fenda desabe

 

Movida por invisíveis galopes
Busca agônica pelo divino
Dentro de mim tudo é tão apertado
Espaço de mundo imenso
Onde me sinto cercada
Você carvalho e seiva
Labaredas em trânsito
Fogo incontido lambendo o peito e tudo
Ripa seca enquanto seus gumes
Inscrevem em mim o impossível:
Aquele que não para de se não inscrever

 

 

***

 

 

De algum modo próximos de algum modo isolados

 

“Onde não puderes amar não te demores”

 

Cada um demonstra amor
À sua maneira
Se o meu ressoa em você
Como trovoada
Inverno noite ou relâmpago
Então me amar não deve ser
Trabalho fácil
Enquanto você se esforça
Quero apenas me demorar
Na sua pele
Celebrar nossa fertilidade
Inventar novos modos
De ser no mundo
Lado a lado
Assistir aos teus cabelos secarem
Compartilhando planos e projetos
Imagino que o futuro a dois
Seja uma felicidade irrecusável
Sentimento doce
Que ressoe azul
Solar e morno
Meu amor,
Aproxima-se e vê
Ou as coisas são claras
Ou não são

 

 
***

 

 

Gaslighting

 
I
Hoje é dia de festa no céu do útero
Ser deposta do trono
Eletrocutada
Catapultada
De mim

 
II
Esse amor
Um luxo
Agua translúcida de Bora Bora
Acalenta e aquece
Enquanto me afogo à deriva
Nessa vista linda e estéril

 
III
Por vezes confiante
Outras tantas catastrófica
Nesse terreno inóspito

 
IV
Nada me consola e seu toque me causa repulsa
Engulo a colher de sopa levada à boca
Sequer gosto de sopa
Talvez eu goste e não saiba
Talvez odeie
De todo modo permaneço engolindo

 
V
Contemplo as ilhas da Polinésia
Lágrima após lágrima
Endureço
Seu sorriso me quebra
Até quando?

 
VI
Me posto exausta em seus lábios
Prenda de gosto agridoce

 
VII
Se ao menos a língua rompesse a barragem desse oceano
Permaneço inavegável

 
VIII
Nesse desejo
Reside a promessa
Vindoura
De um gozo
Que a cada vez
É negado

 
IX
O que em mim se fecha ao seu mais leve toque se te amo?

 
X
Nem sempre o não demarca o fim
Acendo a lamparina
E permanece escuro

 

 
***

 

 

Síndrome de Manoel de Barros

 

Começou no vigésimo quarto aniversário
Apequenei-me de imensidões
Deu furo o meu vazio
Repleta de imanências
Passei a desperdiçar fala
Ocupei-me em desconhecer coisas e seres
Desletrei-me
(Ainda assim chamejava luxúria)
Colecionei desutilidades
Varada de acúmulos
Imprestável para o silêncio
Pessoa apropriada para nadas
Abandonada por dentro e por fora
Preteri ser gente
Pra andar com os bichos
Devotei-me às borboletas que devotam túmulos
Quis ser túmulo
Não sendo pessoa subterrânea
Tentei árvore
Depois ninho
Também não funcionei pra madeira
Ou verso de folha
Tentei pedra
Não fui comum com pedras também
Assumi compostura de água
Me acomodei incolor que é mais que infinito
Haveria de ficar no concluir das águas
Que pra mim tinha sentimento longínquo
Ampliava solidão
De coisa esquecida na terra

 

 

***

 

 

Um poema para Angélica Freitas

 

Uma mulher sem qualidades

Cozinha em tramontinas descascadas

Especialista em largar panelas no fogo

Foi abandonada

No 109º dia de casamento

Ao jogar água fervente com sapólio

Na cara do macho escroto

 

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta, artista visual e bacharel em filosofia pela UFF, onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. Trabalha com mediação educativa em exposições de arte, elabora e ministra oficinas de criação poética, é crítica de arte, integrante e co-fundadora do coletivo feminista Disk Musa, onde trabalha na produção de conteúdos audiovisuais e performance.

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Cândido Rolim

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

FIBRA

 

Arranca do corpo a
camisa listrada levemente
defumada de suor e salga
Nas ranhuras da pedra
água e detritos de um
sabão de cor azul –
tempo inestimável
Até prender-se à grade
da janela deixando que
a gravidade e o vento
refaçam esse afinco: arrancar
fio por
fio
a memória dura de esvair-se

 

 

***

 

 

ESTE CAMINHO

 

este caminho
ninguém sabe onde
começa só
nós – suspensos – entre
um pressentimento e
outro

 

 
***

 

 

Desculpe, but

 

Desculpe, mas pertenço a um mundo desvirtuado
Também não me sinto moralmente apto a
tirar da experiência um lema
Desculpe, mas minha formação musical é promíscua
Desculpe, infelizmente essa metáfora não me atinge
Obrigado, mas não vivo de ênfase
Desculpe, não planejo dizimar a ideia contrária
Desculpe, mas não concluí a tarefa com êxito

 

 
***

 

 

A RAZÃO PERIFÉRICA

 

Esses só
vistos quando e
onde in
visíveis

Esses ausentes
estofos da
razão que os
alveja

Esses que
por motivos bem
diferentes
nascem

 

 

***

 

 

FICHÁRIO

 

Aquela vida que não
serve de presente nem traz uma
lição ou clareza de propósito.
Sem um proceder moralmente aproveitável lições
virtudes adquiridas.
Aquela vida sem fato
digno de nota.
Aquela
vida.

 

 

***

 

 

Essa leveza

 
Tipo peso se
ausenta
da cama
e………….. é
percebida: o corpo desloca
a transparência

 

Cândido Rolim nasceu na região do Cariri, sul do Ceará. Morou em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Atualmente trabalha em Fortaleza. Tem poemas, resenhas e ensaios publicados na internet, em revistas e jornais (clareiranaselva, cronópios, germinaliteratura, corsário, sibila, jornaldepoesia, Continente Sul, etc). Publicou os livros “Arauto” (Edições Dubolso, Sabará/MG, 1988), “Exemplos Alados” (Letra e Música, Fortaleza/CE, 1997) e “Pedra Habitada” (AGE, Porto Alegre, 2002), “Camisa qual” (Èblis, Porto Alegre, 2010). E-mail: candidorolim@hotmail.com

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Liv Lagerblad

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

entrecerro os olhos e o olho trans-consciente gira
cerro os olhos e o estrondo do sonho sacode-me as omoplatas
um pio baixo / um silvo / a nuvem prata no horizonte
deito-me com ícelo e morpheus ao lado
é como deitamos todos mas a metamorfose de aromas
não mente .
animal ferido gane nas redondezas

as coisas respiram em ondas volumosas de calor
em oscilações e um momento é frangalho, outro faca
pudera corresponder à grandiloquência
esse tutano plúmbeo, essa pedra incrustrada no peito
lá fora alguém cantarola um funk

onde útero um concílio de vespas
frequência um marasmo e à volta chistes
coincidente o calo na garganta, foz do bolor no verbo
e a derme arredia de algumas relações poucas

 

 

***

 

 

Amo sem dono / meu corpo-casa
Sem dono a casa que me faz sólida
Desaba qual n’O Espelho
O reboco do teto. Sobre meu corpo nu
Meu corpo nu embaixo das vestes
Sempre, com todas as ranhuras : nu
Retinindo sua marca na terra

Meu corpo nu e sujo sobre a grama
Sobre os ciprestes sujo, nu, repulsivo
Sobre o asfalto, coberto de relva
Na mata, no cimento, no mar
Nu. Imundo. Esverdeante pele clara
Esse corpo ainda & nunca outro.

 

 

***

 

 

todo impropério é o por quê da fome amarga
dia turvo da hora turva como magma que se resfriasse
açoite que se fizesse perene de uma luz abundante
carvão transmutado em diamante
são o mesmo
disse–me joana d’arc palpitando entre as labaredas
o abismo era cavado com os pés
estômago,
é de aço pra caber o plúmbeo dos braços que sopesam
desejar ardente uma chaga
que fizesse parte do estado das coisas latentes
rasgasse entre os dentes
despontar ilesa do outro lado do labirinto
sólida como pedra que há no meio do caminho
há no punho cerrado que se desvela e erra o alvo
há no coice na foice na voz amedrontada e firme
há no vínculo desconexo e frouxo qual laçarote desfeito
ah no fumo que trago e trago como fosse sanar–me o vazio

 

 

***

 

 

quando se espreme uma esponja suja
em cima de um papel, ela:

 

1. mancha as folhas
2. fica mais leve
3. libera um líquido asqueroso
4. continua parcialmente úmida

 

 

***

 
1

honey baby está tão cansada que também não acredita em si
mesma
o livro-cinza ao seu lado exala um cheiro de cera
apareceu na escada um recorte de papel com a letra A
como fazer um texto sem essas premissas?
esse texto branco, como a letra seca da lei se pretende
quando começo, azeda linha
agora plácida, inteiriça
nenhuma língua que eu não possa desossar me é válida
nenhum poeta ganha os créditos no reino das referências
se preciso refaço os caminhos
pra chegar ao mesmo ponto as entranhas
tão um só pedaço de carvão úmido
discretamente secretam certas fuligens opacas
restam algaravias mal–ajambradas
cá estão fleumáticos os grampos como frames que se colam
[às retinas
pudera ser touro me lembro do rapto de europa:
a imagética figura do colonizador era uma musa fragilíssima
e que ornou de flores a testa de zeus
transmutado em touro branco : não tendo medo é que teve
fim posto que dançava nua à beira–mar
e carregada pr’além mar
foi mesmo colonizada, dilacerada

 

 

***

 

 

Today

 
cada um que me passa pela rua é um soco no estômago
demasiado strong
to my sensitive stomach : they say smack they say boa noite e
cachaça
they say num lasco da tua carne eu passo a faca
mai lirou bitxe letis renguin aut togeder
and i’m saindo pela culatra e dizendo no no no
let’s fuck until we die in the moment of the orgasm
diz no meu ouvido
i’m
always
like
no
no
tanks

 

Liv Lagerblad, poeta e artista plástica, nascida em 89, serpente no horóscopo chinês, um livro publicado, com pdf disponível online no site da editora Cozinha Experimental na coleção kraft, onde foram publicadas as primeiras recolhas poéticas de dez poetas. Outro no prelo pela editora Urutau, chamado “o crise”.  

 

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113ª Leva - 07/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Tiago Dias

 

rety-ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Os poemas seguintes são uma singela homenagem a Orides Fontela, o verdadeiro pássaro de sol que ainda existe.

 

Nunca amar o que não vibra nunca crer no que não canta*

 

deixar a porta aberta para varrer o chão
com a voz entardecida ter no canto a cigarra
a escrever um haicai sabido que da vida
leva-se as chances de ter cantado.
no movimento dos braços a fé no suor
a construir a dança fecunda
como os pés apoiados no chão
varrer o chão com a porta aberta
ter as primaveras para lembrar
da procrastinação ou não
esquecer para olhar o céu
agrestes pássaros de sóis

 

 
***

 

 

Ouvir um pássaro agora ou nunca*

 

feitos de fotografias e espadas
penduradas na parede branca
seus gestos são o pêndulo
a oscilar natural
o prego
por detrás das fotografias e espadas
tal como a sacada
as flores de álcool e vozes
sob a sacada ainda
todas as cabeças planetas
sob a sacada axiomas

 

 
***

 

 
Mais vale o canto agreste do que o vívido silêncio branco além do humano sangue*

 

a nossa voz vive
no oco do oco
de onde levanto os olhos
mesmo que ofusque
as retinas e siga
desfocando tudo talvez
essa seja a solução
quero beber da mesma água
em que me banho
a correnteza arando as minhas costas
esfoliando a pele preparando
quero ser solo sempre

 

 
***

 

 
Ouvir um pássaro é sempre*

 

há uma linha indizível
dentro de cada um de nós
por onde escorregamos
um paradoxo que bebemos
comemos como tremoços
não há nada mais fluido
do que a vida uma linha
não virgem
mas intensamente
…………….prenhe
de outras linhas mais finas
que desenham motores
ventanias tufões alaridos
cores até cores

 

 
***

 

 
Mais vale o pássaro mais vale sangue*

 

o anti-pássaro carrega
em suas asas o olhar
sobre o seu tempo nada
é mais urgente nada
do que o seu voo
manipulando a luz
na nossa face e pensa
que é muito fácil ser adorado
o anti-pássaro é o sangue

 

 
***

 

 
A estrela da tarde é infecunda e altíssima*

 

carrego no bolso uma folha
de erva-cidreira para aceitar
o vermelho da rosa entre espinhos
carrego o bolso furado
e o coração atento
para o que posso dar
quando faltar-me o chão
novamente o que posso dar
como pingos de chuva a cair
no mar somos água
enchendo e vazando carrego
no bolso uma folha

 

 (* )Orides Fontela

 

Tiago D. Oliveira, de Salvador-BA, professor e pesquisador, estudou letras na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Tem poemas publicados em blogs, portais, revistas e jornais especializados como Avenida Sul, Canal de Poesia, Cronópios, Cultverso, Enfermaria 6 (Portugal), Escamandro, Hyperion (UFBA), Literatura Br, Mallarmargens, Musa Rara, Revista Saúva, Janelas em Rotação e Jornal Livre Opinião. Em 2014 teve seu primeiro livro editado de poesia, “Distraído”.

 

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Janela Poética IV

Clarissa Macedo

 

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Alguma coisa de fé

 

Eu não tenho religião
(senão a poesia que me leva aos céus)
mas tremo com os sinos
que uivam badaladas
em todo dorso de tarde.

Eu não tenho religião
embora acolha a pompa dos templos
na solidão de algum dilema.

Eu, que não tenho religião,
me sacralizo
com os guizos do tempo
e me purifico
com a ausência de um deus feito de homem.

 

 
***

 

 
Oásis

 

O deserto é uma janela aberta:
o que escapa de seus camelos,
forjados n’água de vapor e sal,
é o calcanhar de todos os desejos.

Nas areias feitas de mistério
conta-se de terras que jamais fui.
Lá, os fantasmas de meu rio seco.

 

 
***

 

 
Aceno

 

Lâmina afiada
dobrada no peito

Fenda aberta
onde escapam
deuses

Lua que derrama
um deserto
de agulhas

Chamas que queimam
estrelas

Tudo reunido:
a dor do adeus.

 

 
***

 

 
Aborto

 

As redes lançadas não trouxeram peixes
Tragaram luzes e pomos abandonados.

Os peixes que não vieram estão mortos
Como o poema que acaba de nascer.

 

 
***

 

 
Fenda

 

Há tempo o menino ficou lá fora.
Espera, espreita a barra da porta,
mas já não pode passar.

Todos os longos anos de preparo –
escola, dentista, boxe –
e a busca pelos jogos de montar,
pelo seio roído da mãe que já foi.

Uma vida de busca e solidão,
a passagem do peito fechada:

só o túmulo aberto da infância.

 

 
***

 

 

Irmandade

 

Qual a cor do teu drama?
Quantos lares saem de teus cabelos?

Com quantos homens se reparte
o último fio de desespero?

Em tempos de paixão e fome
os credos são maiores que as roupas
os voos maiores que as asas.

 

Clarissa Macedo, doutoranda em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e fora do país, integrando diversas coletâneas, revistas, blogues e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas” e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014).

 

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Janela Poética V

Marília Floôr Kosby

 

rety
Desenho: Rety Ragazzo

 

a terra prometida

 

salvem a pátria dessas estrelas
pois minha terra natal acabou de ruir
sem cortejo ou cerimônia
meus mortos me trouxeram
os panos sujos de limpar memórias

vieram até minha casa
não comeram
nem sorriram
verde
como sorriem as serpentes
de tristeza

os mortos rastejaram até a janela
viram que o céu não cabia mais no mundo
e cantaram seu choro cósmico de notas repetidas

esquecer é da vida
o único milagre

 

 

 
***

 

 

 

beduína

 

a cidade leu a minha mão
e descobriu que ela não tinha linhas
que o meu destino era traçado
a pinceladas curtas

impressionando ou não
o que for feito de mim
só se saberá já pronto
só terá sentido pra quem olhar de longe

 

 

 
***

 

 

 
inconveniências

 

coração em pedra
ferida é

me preocupo com
esse órgão vital
no corpo fóssil

 

 

 

***

 

 

 
demônios

 

as sombras tropicais
sobrevivem à hora mais triste do dia
mas só as sombras tropicais

de resto
todo mundo morre um pedaço
entre uma e duas da tarde

à parte a vantajosa desmatéria
há um esconderijo secreto
debaixo dos pés do mundo
onde cada sombra
guarda seu rosto
e o extinto gozo
de poder ser contraditória

 

 

 

***

 

 

 
o beco

 

incólume cometa,
desembainha a tua fábula
e o negro porto do teu hálito
explodirá vestígios
do metro em que nossos passos foram mímica

 

 

 
***

 

 

 
prenda

 

meridional
por força das entranhas de minha mãe,
nasci de onde falo

mediterrânea,
por vazão da honra
que coube aos meus homens,
a mim e as minhas prestou-se apenas a desonra

tocamos no pó de um segredo
o calafrio de um sul febril
o sul das sangrias desatadas
de índios que viraram vento
velando e varrendo esse chão raso

chão que devorou negrinho
solo que carcomeu negrões.

                              

Marília Floôr Kosby nasceu em Arroio Grande, extremo, extremíssimo, extremoso sul do Brasil, em 1984. Poeta, compositora, antropóloga. Entre os anos de 2008 e 2012, alimentou os blogs de poesia Salamancas Supersônicas e A Sanga das Patavinas. É autora dos livros de poemas Os baobás do fim do mundo (2011; 2015) e Siete colores e Um pote cheio de acasos (2012). Os poemas selecionados para esta edição de Diversos Afins compõem o livro “Os arroios não voltam”, obra ainda inédita.

 

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113ª Leva - 07/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Maíra Mendes Galvão

 

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

o que as mulheres fazem aos domingos?

 

as mulheres
como nós
ocultas
aos domingos

vadiam

o quanto podem
a qualquer hora

e sozinhas

conjuram demônios

se despem das peles

furam bonecos

viram sirenas

arpejam

arrastam móveis

afiam facas

desaparelham-se

criam olhos no rabo.

epopteias,

as mulheres
ocultas

aos domingos
como nós

têm um duplo
que maquia a semana

e faxina

e se esmera

e afaga

e se estupora

enquanto
a outra

bebe
disnômica

iâmbica
da várzea
do lete.

 

 

 

***

 

 

 
a broca

“tenho fome de me tornar em tudo o que não sou” – Waly Salomão

 

 

no meio da tarde li essa frase
no meio da noite acordei brotando
em dada hora da manhã, de novo
havia sonhado com alguém a que doravante chamo “você”
mas você não era presente, nem passado
tinha órbitas encauchadas
pálpebras jamais cerradas
uns lábios mastigados e virgens, quase
e um discurso que saía entrecortado
um arremedo de diálogo
naquele cenário multiverso
naquele mundo subjétil
naquela luz insaturada
não sei se era o que sou
constituo ou sou enervante
de fibrosas correntes
de túnel monóculo fitava
sua boca
que dizia coisas, enquanto
saíam bolos, de uma lata,
de carne moída
mais encruada do que cozida
e você, de mancheias
deglutia
destacado
do gesto em si, até do simbólico
aquela massa aflorada
comia e dizia e era homem, era outro
e o apetite não era impulso
não era reflexo
era artifício, era palavra, era método.

 

 

 
***

 

 

 
(ana)crônica de uma ótica ou a eterna moribunda

 

meu sestrodestro
esturdido véu

nele, tão excentro

olho

os modos
as ameaças
as vergonhas

se concentram.

para enxergar, um
só basta

adestro

– olho de fossa
para escoar bofes

– olho de fumaça
para esconder gafes

– olho de faca
para extirpar bifes

– olho de coxia
para elevar fobos

locus horrendus
donde espreita a impostura

extemporal

olho – orco – ôminos.

 

 

 

***

 

 

 
acuidade vulnácula

 
fibromiasma no lugar de leito
a cabeça de penas e lacunas
um aperto nas conas – a de nervo e a de sangue
– melindroso fez visita
impromptuosa
lancina ancora cona-píncara
e retorna, anacruz.

 

 

 
***

 

 

 

cristalografia

 
no crisol, cristalogia que intento acumular
é o avistado que se embrenha e transforma
nas cristas e crenelagens, grisol
o zênite se espraia e, de gris, tinge
de vez, tudo pré-maduro,
sustentando o suspenso sem fim,
adiando a mundos, afora de resolução,
tateando em letras o vocovocífero
do verde de lastro e pedra.
dos limites das sombras e
de seu deslocamento, vejo,
em quase glaceada órbita,
toda a petrologia
e ignitude
em seus recônditos de cumes geminados,
pretenso planalto,
por isso vivente.
aceito, assim,
a topologia,
que, de rompante, iterativa me acompanha
e reconheço essa face das faces,
cresta em toda volta,
com intenção de ser infinda
crostalogia,
fundante assombração.

 

 

 

***

 

 

 

Ersatzspielerin

 
teimo em não acender a luz, encalhada
sem saber se quem – eu ou o mundo
é suplente de algo primevo
se o que existe é a tensão ou
degrau de recursividade.

o violento da memória é a retenção do vazio.

penso em palavras multiportantes, como não me escapa fazer:
merimnologia, ou: considerar é arder.
mermeridade, ou: ansiar é condenar-se.
metameridade, ou: a parte pelo todo.

palavras me procuram, procuram a nós
porque as salvamos de um desígnio adjunto
nos lançamos aos fins da tensão.

me vejo merócrina, exocito
e a elas entrego
qual impostora estertorada
o grau primeiro das coisas.

 

Maíra Mendes Galvão nasceu no planalto central em 1981, estudou Desenho Industrial e Filosofia na Universidade de Brasília. Depois de formada, morou na Inglaterra e passou a dividir seu tempo entre Brasília, Alto Paraíso e São Paulo (e outras cidades nos interlúdios). Trabalha como tradutora e revisora desde 2004 e foi assistente editorial na UNESCO. Publicou na Revista Geni, na Revista Raimundo e escreveu um poema especialmente para a antologia “Golpe: antologia-manifesto”. Realiza oficinas de leitura e criação de poesia e conversas sobre literatura feita por mulheres junto com Jeanne Callegari.

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113ª Leva - 07/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Isadora Pessoa

 

renata-ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

“a paixão segundo”

 

mordo e observo partes duras
movendo-se na oscilação entre
luminosidade e desaparecimento.
mordo,
em busca de algo que reflita luz, sem
pontos de interferência, sem
sobreposição de planos sensoriais,
essa sinestesia opressiva que anuncia
que toda alegria é temporária.
ando mordendo a ponta dos dedos,
mordendo as páginas estrategicamente
abertas
e a essas alturas do quase verão
do rio de janeiro,
eu preciso de neve como quem precisa
acordar de um sonho excessivo,
lindo sim, mas
com a beleza descomunal
dos colapsos e vulcões despertos.
tenho sentido uma compressão lenta
da alma, como se estivesse me tornando
uma pessoa pequena aos poucos, diminuindo
milímetro por milímetro, ainda assim
mantendo as proporções,
como uma anã liliputiana de Rosa Montero,
aguardando o eventual desaparecimento.
“é um engano”, é o que você diria,
e eu ainda estou esperando,
estou esperando que você me diga
“sim, você está enganada”, mas eu não estou.
sim, pequenas surpresas ardem na virada do dia,
mas não estou enganada quanto a isso:
hei de inventar um outro nome para isso que morre
na virada do dia e renasce bicho difuso, ainda sem
penugem, sem consciência
da metamorfose que guarda em si.

 

 

 

***

 

 

 
“síndrome de estocolmo”

 

[ …..isso é o ensaio de algo?…… ]
, você me pergunta na porta
………..do quarto – os hiatos
em meu discurso abertos à tua
observação, ao teu toque ruidoso.
…….centro ….e margem dispostos,
como num jogo de tabuleiro
e eu peço um tempo para responder,
pois não sou boa com cenas, com cri-
anças ou fogões, você sabe e sorri teu
sorriso netuniano. eu meio que desvio
o olhar e busco, nas paredes de cal,
por um orifício, um traço que turve
………o teu corpo solarizado, bruto,
logo você me pergunta, irisado
de repente:
[….. mas isso, isso tem nome?….. ]
……………..não, eu digo.
volto-me para a cama, desolada, pois
estes lençóis freáticos de crisálida
…….em desalinho, desaguam
…….no mar
…….e não retornam jamais.
………………………e esse é o ponto angular
da tua célula terrorista, amor,
cá estamos a lutar pela terrível liberdade
de bater os dentes , tremer de fome,
sede, amor,…………………. hipnotizados
[…. e agora, ainda é um ensaio? ….]
…………….pela oportunidade
de morrer, amor,
de morrer de medo.

 

 

 

***

 

 

 
“nascimento de vênus”

 

 

……primeiro
……………hei
……de lavrar
esse teu mar
guardando
……..na terra
.o que funda
……..o seco

…….é preciso
toda uma era
para indicar
….o nascimento
…………..da ilha
………..e seu eixo

…..imprimo
de ….leve
na tua imagem
.ossos inteiros
…..e tua dupla
Exposição
…..emerge
…….óbvia
..tal qual paleta
…..de cores
….primárias
no auge do verão

cai a tarde
e circulam
..silêncios
como aves
em torno
…….de um
coração
que parte
…..à vela

inteiriço
………ainda que
……curvo

 

 

 

***

 

 

 

“diário do ano da cabra”

 

{caro centauro}

 

decidi ignorar
solenemente
o som de seus
…………cascos

soterrar
essa mulher
de mistérios
alagados
bárbaros

porque isso
NÃO É
um poema

porque o ano
da madeira
[suas lascas
goivas foices]
termina aqui

~lembre-se
de que isto
não é um poema~

………………é que
………………morrer
d.e.v.a.g.a.r.i.n.h.o
……exige fleuma

delicadeza suprema
.uma certa finesse
..que não possuo
…………………:….não é
…………………..fácil cair
…………em…. câmera …. lenta

 

 

 

***

 

 

 

“dos rumores que se instalam”

 

….não posso dizer que
..ignoro com seriedade
a consciência do medo
……………nas gengivas
e a eletricidade que alimenta
o corpo venoso brutal
da vergonha porcamente
equilibrada nos joelhos.
………como é possível
que a despeito de tudo
………as gentes sejam?
que sejam com pavor,
e dentes caninos a mostra,
……………..mas que sejam.
a mim, é impossível
deslizar com graça
por essa existência
de pequenos naufrágios
de impossibilidades rotundas
de quebra-mares.
ouço um fino assovio
…………..que assegura
o cativeiro de muitas feras
nos porões deste navio
……..e sei dos rumores
instalados, pesando sobre
grossas cordas e velas içadas:
o coração batendo vivo
no fundo desta caixa.

 

Rita Isadora Pessoa nasceu no Rio, em 1984, é graduada em Psicologia e não graduada em Estudos de Mídia. Estudou a poeta Sylvia Plath, no mestrado em Teoria Psicanalítica (UFRJ), e é atualmente doutoranda em Literatura Comparada (UFF), onde estuda o duplo em sua modalidade animal. Trabalha como tradutora, revisora, astróloga e taróloga. Seu primeiro livro de poesia, “A vida nos vulcões”, foi lançado no final de agosto de 2016 pela Editora Oito e Meio.