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110ª Leva - 04/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Sónia Oliveira

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

anamnese

 

sofro
de obstipação emocional unilateral
tenho de fazer um clister a uma aurícula e a um ventrículo
e de laquear a veia do nariz
para me vedar a coágulos e a cheiros espessos
e comer uvas
uvas lavadas na água da chuva
e comer maçãs
maçãs lavadas na água do mar
ir
com as marés
chegar
ao contrário das fases da lua
ficar
onde tudo permaneça em movimento
e
terno

 

 

 

***

 

 

 

tudo

 

tapei-te os medos com ligaduras
embebidas em mel cicatrizante
meticulosamente arrancadas
à minha própria pele
dando nós pequenos
quase invisíveis
que não se prendessem na roupa

sorvi-te os grãos de ansiedade
como pólen que transformava em tempo
bebi-te as palavras ínvias
com os meus lábios feridos
que não chegaste a sentir

ficou-me o travo amargo na boca
a ferida no lugar da pele
e o frasco vazio do mel
que hei-de lavar com água quente
para aquecer as mãos
e reutilizar um dia
sem tampa

 

 

 

***

 

 

 
strawberry passion

 

é elástica a dor
expande-se e comprime-se
de acordo com o seu acordo
mastigo-a compulsivamente
receio perder-lhe o sabor
mastigo-a com os ossos com as veias com os pulmões
perfuma-me
emulciona-me
pre
enche-me

 

 

 

***

 

 

 

janus

 

é estreito o corredor desta casa
há que passar de lado
roçando os ombros o peito
as coxas e os calcanhares

a dada altura o corpo é parede e a pa
rede corpo
como se a verticalidade se impusesse
numa espécie de ética física
talas em vez de pórticos
um corredor sem portas
que desem
boca não se sabe onde

a cal cobre a pele de pó
e os dedos deixam um rasto de estrelas
sem frente nem verso

 

 

 
***

 

 

 
frango com esparguete

 

dois corpos
dois copos vazios
um corpo
janelas fechadas
almas escancaradas
dois corpos
a mesa posta
o jogo na mesa
quatro pratos sujos
a televisão acesa

 

 

 
***

 

 

 
dieta

 

no precário equilí
brio das horas
balanço o meu peso
peso o meu balanço
e não consigo andar direita
a dieta não se compadece
do lastro
e a gravidade suga-me a alma
mais do que devia
de dia
arrasto um saco de sombra
que o sol me impõe
à noite
sou toda sombra
e arrasto-me
saco de pele e s
obras

 

Sónia Oliveira  nasceu em Luanda, em 1972. Estudou literatura na Universidade Nova de Lisboa. Traduz livros e filmes. Tem textos publicados nas revistas online Preguiça Magazine, Minguante, no fanzine suíço Milk+Wodka, na antologia de poesia visual, nas revistas Flanzine e DiVersos, Poesia e Tradução, assim como em vários números da publicação Nem Só de Gin Vive o Pinguim. Participou na exposição itinerante Poesia Quase Anónima – A Poesia na Blogosfera Portuguesa, realizada pela associação Mercado Negro, Aveiro. Mantém, desde 2006, o blogue triplicado. Em 2012 publicou o livro de poesia antenas, uma edição pirata da Palavras por Dentro.

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Janela Poética IV

Alvaro Posselt

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

Uma folha cai
Sem pressa a estação começa
dentro do bonsai

 

 

***

 

 

Na ponta do anzol
um isqueiro serve de isca
pra fisgar o sol

 

 

***

 

 

Embala o meu sono
É rede sem ter parede
o vento de outono

 

 

***

 

 

Passa a correnteza –
O reflexo da libélula
o rio não leva

 

 

***

 

 

Nem fome nem sede
O gato em cima do telhado
é só um quadro na parede

 

 

***

 

 

Dias desiguais
Agosto deixa no rosto
uma ruga a mais

 

 

***

 

 

Na pauta tem blues
As aves enchem de claves
os fios de luz

 

 

***

 

 

Repleta de inseto
a casa tem um par de asas
em cada objeto

 

 

***

 

 

Um passo e dois tombos
Sem ai, o bêbado cai
sobre os seus escombros

 

 

***

 

 

Brisa da manhã –
O olhar é mais lento
que o carro de bois

 

Alvaro Posselt nasceu em Curitiba. É professor de português. Publicou “Tão breve quanto o agora” (2012), “Um lugar chamado instante” (2013), “Entre arranhões e lambidas” (2014) e “Kaki” (2015). Alguns de seus poemas estão nas embalagens de Poëse, novo sorvete da franquia Los Paleteros, e também fazem parte de um mural na Travessa da Lapa, centro de Curitiba. Divulga voluntariamente o haicai através de oficinas em escolas públicas.

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Janela Poética V

Clara Baccarin

 

Suzanalatinibarco

 

Terra de refugiados

 

Refugia-se no coração,
que o amor não conhece fronteiras
Migra para a terra do sentir
que ela sabe acolher
com mais humanidade
Mora num poema
que ele tem raízes
em si mesmo
e fala todas as línguas

 

 

***

 

 

Escracho

 

À mulher resta o escracho
Faca fincada na fenda
da concha fechada
Força de esfacelar a lâmina
na dureza da casca
Cacos líquidos
Sangues ruídos
Nas mãos parir
as próprias vísceras
E ver pérolas se dissolvendo
na raiz do desmistificar
À mulher fica a possibilidade
de uma vida cedida ao escavo
de tudo o que não tem nome
e o que não pode ser
À mulher fica a cruel tentativa
de nascer num mundo de abortados
À mulher resta um desobedecer
macerar no peito e nos olhos
o certo e o errado

 

 
***

 

 

 

Escoa

 

Poesia
Palavras sem rédeas
Delatando sentimentos alados
Forma que deforma e aflora
Deflagra uma substância escondida
No buraco negro do inconsciente coletivo
Susto de uma nudez de alma
Que não se conhece do avesso
Mas, mesmo assim, escoa
Num ato desconhecido
De prazer ou de dor

 

 

***

 

 

Instruções para lavar a alma

 

Lavar a alma à mão
Que é de estrutura muito delicada
E assim, manchada de tantas palavras,
Requer cuidado redobrado
Para voltar a ser quietude

Secar a alma em solidão
Estender na linha do tempo
Do próprio quintal
Na parte que bate
Um sol coado, sereno
E faz pendurar as pálpebras
No sono dos que sabem esquecer

Passar a alma a limpo
Cortando os preciosismos
Os excessos prolixos
O peso dos desnecessários
Acessórios

Vestir a alma nua
Na sua mais nova pele
Nos olhos um brilho tranquilo
E uma vontade recém nascida
De ir brincar na rua

 

 

***

 

 

Porta

 

Viver em paz é saber
Entrar nos corações
Sem precisar bater à porta
E sair dos corações
Sem precisar bater a porta

Que amor bom
Entra sem esforço
E sai sem fazer barulho

 

 

***

 

 

Tirei o corpo fora, mas o coração ficou atrasado.
Dei um passo maior do que a velha alma.
Empurrei minha cegueira atrofiada no precipício
para ver se despertava voo.
Quis atiçar a vida com vara curta,
ela acordou e eu ainda tenho medo.
Meus pés são rápidos para descalçar os sapatos,
mas meus pensamentos demoram a perceber
a se deixarem esparramar na alegria da nudez.
Vestida de felicidade ainda choro.

 

 

***

 

 

Um piscar de asas

 

O mundo acaba:
Entre o perigo
E o abrigo
Entre as roupas sujas
E as bem lavadas
Entre os enlaces
E as mãos atadas
Entre as tempestades
E os copos d’água
Nos resta apenas
Um piscar de asas

 

Paulista de Jaboticabal, Clara Baccarin é a moça interiorana e letrada que viajou o mundo e nasceu com a inquietude da poesia nas veias. Escritora assídua nas redes sociais, é colunista de diversos blogs sobre literatura, arte e estilo de vida, escreve crônicas que seguem um estilo livre, despojado e poético. Formada em Letras (Unesp) e mestre em Estudos Literários (Unesp), publicou dois livros, o romance ‘Castelos Tropicais’ (Chiado ed., 2015) e a antologia de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’ (Sempiterno ed., 2016).

 

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Janela Poética I

Mariana L.

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

DE VOLTA DE SI

 

Eis que aqui de volta
de mim e de si, e os dois já dizem:
(eu)
por onde e longe pari,
uma consciência
de sumidouro
ciência de construir o artefato
– a óbvia arte do inexato –
que exaure a hora em aura
(tão calma!)
do Existir.

 

 

 

***

 

 

 

A MAIS ATADA À TUA PALAVRA

 

Presa dela
Garras que cortam, ventando,
Tua palavra é meu interno labirinto
Onde as sílabas
Sonâmbulas
Implodem, balsas no porto do pesadelo.
Que me doeria mais o passo que tua palavra?
Ora, sabes que sim…
Mas a ideia tão deslizante que em um “nós” é tornada
Retoma a luz do que fora dito:
Aquela luz
Lembra-a para mim, ah,
Como no princípio, em que o Verbo erra!

 

 

 

***

 

 
LUZ DE ESPERA

 

A sala era imensa
E se estendia pela avenida
Onde luzes debruçadas nas calçadas
Moviam-se pela insônia indiscreta do crepúsculo.

O último homem da terra nesse instante
Sorriu para um pretenso deus morto
E o sol se desvestiu de luz
Buscando
Perdida já qualquer possibilidade de lirismo
sua última sílaba de vida.
(Passando de o Beco de Ávila, Tijuca, jan, 2015).

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DE VISÃO

 

p/ a poeta máxima Else Lasker-Schüler

 

A voz, mais do que o olhar,
É que é o espelho da alma.

Por isso me calo
Frente ao mundo errático:
Deixo-o soar, enfático
E com meu único existir – sináptico –
Eu Fico.

 

 

 

***

 

 

 

SOUSANDANÇACRUZ

 

Clara, clara, mas de pulsar mortal,
Fria-se o que me dói em tua morte, sem violência
Que a essência é fátua, nua e fantasmal
E tua sorte é dom de ver em sepulcral vidência.

Canto sagrado, rachado ao meio de mim
Teu arado de prata é mãe novata de luzes
Cruzes de vileza
Dorme o sono do profundo sem fim
Sidéria Astarte que nos inocula
Escura luxúria
E Spleen.

 

 

 

***

 

 

 

ALMA-LÂMINA

 

a palavra alma
está estrategicamente (es)contida
na palavra lâmina.

 

 

Marianne Liuba Löhnhoff, que assina literariamente Mariana L., nasceu do Rio de Janeiro. Cursou dois anos de Filosofia na USP e Letras na Universidade de Albstadt-Sigmaringen, na Alemanha. Trabalha como tradutora e professora de Línguas, vive entre São Paulo e Rio. Publicou em revistas como a Germina e a Revista de Artes da Kazuá. Lançou, em dezembro de 2014 pela Editora Kazuá, seu livro “A Mais Atada à Tua Palavra – O Caderno de Mariana L., em Mãos, Seguido de Avulsos do Poeta B”, que tem a organização, prefácio e posfácio do poeta Luciano Garcez. Prepara o lançamento de seu segundo livro para fins de 2016, baseado na lenda de Fausto: “Kleine Faust”.

 

 

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Janela Poética II

Adriana Brunstein

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

A primeira vez que te vi
não teve a Teresa
de Manuel Bandeira
Eram minhas as pernas estúpidas
Eu andava em L
feito cavalo de xadrez
Eu tava com o dedão do pé inflamado
por conta de um alicate não esterilizado
Eu tava descalça
por conta do dedão inflamado
e do alicate não esterilizado
Eu pensava num roteiro
prum filme de ação iraniano
Eu carregava o cartão de um marceneiro
pra que ele derrubasse as certezas
que eu ninava na parte de cima do beliche
Eu quis te fazer uma carícia pela metade
e te receitar suplementos vitamínicos
aqueles cheios de abecedário
Pra que entre nossas palavras
cruzadas
os espaços fossem grandes demais
para fim

 

 
***

 

 
Esse teu gosto por contravenção
Teu talão de zona azul escondido
entre dobras de bebês recém-nascidos
Tua impressão digital no copo de isopor
que apita ardido quando mastigado
Teus retalhos disfarçados
num tom Flicts do Ziraldo
Tua costura remendada
com fios de pescar tainhas
que antes nadavam na banheira
dum velho militar aposentado
Tua mais bonita caricatura:
a loucura
me disse um dia:
eu te amo
Eu não acreditei

 

 
***

 

 

Tenho o nome de outro cara
tatuado no cóccix
caso você queira saber
antes de tirar a minha roupa
que as coisas pra mim
mesmo as que não se apagam
não duram muito tempo

 

 

***

 

 
De esquinas engarrafadas de guarda-chuvas
De porteiros noturnos sozinhos em guaritas
De famílias de policiais abatidos
De trincheiras incorporadas a mapas
De sofás lotados de manifestantes
De máquinas de pinball ao som do The Who
De bilhetes só de ida
De divãs lotados de arquétipos
De roupas pingando no varal
De cem flexões em espreguiçadeiras
De chaves rodando em falso
De sessões da tarde sem Ferris Bueller
De índices bovespa de dores crônicas
De garotos café-com-leite em jogos de queimada
De novas grafias para palavras em desuso
De radares avariados por pedras
De best sellers sem Peter Sellers
De Bruce Willis desistindo
de uma vez por todas
de salvar o mundo

 

 
***

 

 
A gente envelhece
dormindo às dez
acordando às seis
ameaçando pernilongos em voz alta
antes de errar o tapa
A gente envelhece
medindo a circunferência do braço
evitando usar regatas
se cadastrando em site de receitas
e consultando horóscopos
A gente envelhece
dormindo de meias
falando pra manicure
no pé um rosinha básico
A gente envelhece
cantarolando a música
de Ao mestre com carinho
descobrindo na wikipedia
que o sidney poitier
ainda tá vivo
A gente envelhece
recusando convites
lembrando que piqueniques
eram chamados de convescotes
nos clássicos que não lemos
A gente envelhece
gerundiando
esperando uma oferta incrível
da garota do telemarketing

 

 

***

 

 

Os primeiros planos
para saídas de emergência
traçados ainda
nas barrigas de nossas mães
falharam
E completamos
diariamente
40 anos
ou mais
em meio à multidão
que corre
sabe-se lá para onde
nos labirintos arquitetados
da estação
sem luz

 

Adriana Brunstein é PhD em física, escritora, dramaturga e roteirista, com trabalhos em várias vertentes e meios da comunicação. Ganhou o prêmio HQMIX 2008 de melhor roteirista nacional pelo roteiro da Graphic Novel Prontuário 666 – Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão e foi contemplada no 13º Cultura Inglesa Festival pelo roteiro do curta-metragem Olhos de Fuligem. Publicou o romance Estado Fundamental. Vive em São Paulo.

 

 

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109ª Leva - 03/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Yasmin Nigri

 

helenabarbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

Sobre isto, meu corpo não cansa

 
Contornando trilhos que nunca cicatrizam
Nessa eterna manobra

Descubro que se lhes torço
O cenho com ar zombeteiro
Suas lanças caem

Por isso não mais desvio dos gatos pretos
Inquisidores
Ou desse Outro por quem vocês se passam

Escrevo como quem ruma a país distante
E dá meia volta

Só minhas irmãs entenderão

As que se sabem condenadas
À solidão do próprio útero

Que em torno dessa fogueira
Deram as mãos

E hoje rodam com pés emprestados
De nossas ancestrais

 

 

 

***

 

 

 

Não há mais lugar sem ecos

 
Nessa ânsia por decompor imagens
Lanço a mágoa em plano véu

Ainda que pouco deixe ver em mim o que fui ontem

Continuo percorrendo as estações
Cada uma me impele às alturas

E precipito a queda
Vertigem de abismos mancos

Nem as plantas de tão seca fibra sentem sua ausência

Despedaço livros
Arremesso louças
Parto colunas

Para irromper meu mundo do seu corpo
Em mundo menos restrito e mais amplo

Se ao menos pudesse estar onde não mais venho ouvir sua voz

Ainda que pouco deixe ver em mim o que fui ontem
Não há mais lugar sem ecos

 

 

 

***

 

 
Este obscuro objeto do desejo

 
Não bastasse entrelaçados
Você desata

Tentei manter a testa imóvel
Não franzir o cenho

Dar de ombros
Soltar um longo suspiro

Nada que pudesse revelar
Este assombramento

À espera do sono
Onde sonho e realidade convergem
Para que se repare o dano

Antes que assente fundo
Antes que os perseguidores possam reclamá-lo

Preciso fosse, escreveria ao mofo das paredes, preciso fosse,
__________.

Então você chega
E traz consigo tudo que a aurora dispersou

Envolve meu ventre com
O delicado manto que sai da sua pele
E deita ao meu lado o segundo astro que veste a cidade

 

 

 

***

 

 

 

CID 10 – S91.3

 

Em delírio fui copo

À espera do teu juízo

Fui esquecida

Largada no quarto

Durante sua festa

Virei cinzeiro

Estive imóvel e atenta

À espera do seu chute

Cortei seu pé

Fiz sangrar

Causei toda sorte de infortúnios

Da dor

Ao tétano

Nem cruzes ou credos puderam dar cabo

Até seu pé ser amputado

 

 

 

***

 

 

 

Escrevo para te dizer que não tem acontecido nada e passo os dias tomando café ao som do Estrangeiro e tenho procurado emprego e não recebido resposta e tenho prorrogado comprar uma garrafa térmica porque derrubei a antiga e faço aqui uma pequena ressalva: tenho tomado café frio. Quem virá com a nova brisa que penetra pelas frestas do meu ninho quem insiste em anunciar-se no desejo? Toda semana decido ir diante da tua árvore para conversarmos a sós e lembro que tal árvore não existe apenas em algum poema que li e pensei que seria útil se você também tivesse uma e eu pudesse usar uns tempos verbais antiquados pra falar da tua árvore e como me prostro diante do teu signo e sinto tua vida pulsando na sola dos pés. Escrevo para anunciar o desejo que me mandes um mapa ou pergaminho falso para que o tempo aqui passe menos vagaroso e tenha algo para me entreter, tal como Sísifo.

 

Yasmin Nigri (1990), carioca, é graduada em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense. Cursa atualmente o mestrado na linha de Estética e Filosofia da arte. Feminista, cofundadora e integrante do coletivo DISK MUSA, grupo de mulheres que alia poesia e ativismo na produção de conteúdo áudio visual e performance. Montou sua primeira exposição com o coletivo DISK MUSA no final de 2015. É membro da Oficina Experimental de Poesia, que acontece toda quarta-feira, no Méier. Tem poemas publicados nas revistas mallarmargens, escamandro, germina e jornal relevO.

 

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Janela Poética IV

Rodrigo Melo

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

SILOGISMO

 

quem sabe às vezes,
em algum apartamento velho e alugado,
enquanto um moleque lhe pede a janta,
ela por um instante pare e tente imaginar
no que é que o tempo ou a vida
me transformou.

 

 

***

 

 
MA VIE

 

suas ancas largas e a frase de dylan thomas na cicatriz do pulso direito lembrança da noite longa que perigou ser o fim aquela noite fodida e mal paga em que te tirei da banheira como os personagens dos filmes que você assistia e agora este céu estrelado este céu que segue ad infinitum sobre nós e sobre as nossas cabeças mesmo você não estando completamente aqui mesmo você recendendo à porra duma semente de alguma verdura que precisa brotar nesse instante em qualquer outro lugar tem alguém amando tem alguém lavando roupa assistindo tv jogando dominó batendo punheta comemorando o aniversário do cágado do gerente de compras da vizinha que ficou viúva e faz crochê alguém talvez sentindo o mesmo que eu esse tipo meio nonsense e amalucado de melancolia o gosto por perder também um pouco de medo além de todo esse anti climax que é coexistir e isso me coça a alma beibe isso me leva à merda do chão eu te encontrei um dia e sua boca carnuda e os quadris largos me salvaram e fazem falta agora o seu pulso direito com uma frase de dylan thomas todas as suas mágoas nos braços borrada por cima do queloide sua voz rouca a cantar músicas de jair naves i love you but i’ve chosen darkness e o seu jeito de querer ter razão agora a casa em silêncio a cama desarrumada a banheira toda suja de sangue quando fecho meus olhos à noite e tudo volta tudo como uma espécie de gif queria saber se você vai ficar de pé amanhã ou na próxima semana queria saber se a gente ainda vai para algum outro lugar de mãos dadas nesse instante tem alguém pulando de uma ponte alguém comendo pizza de calabresa visitando o avô que está com câncer no pulmão e que morrerá antes do natal comemorando o título antecipado do time do coração aplicando um golpe num caixa 24 horas levando o cachorro para passear assobiando ma vie de alain barriere alguém sentindo essa mesma merda que eu o coração gritando alucinado a cada batida feito um gigante de conto de fadas na hora em que vai gozar.

 

 
***

 

 

 

UMA CIRROSE NO PORTA RETRATOS

 
Dona Nice sente falta do marido,
reza para a santa
e costura tapetes
pra esquecer.
seus olhos são como duas poças de lama
em solo sêco e rachado
e eles se perdem entre a rua lá fora
e a imagem do quarto no hospital.
ele bebia demais – ela diz,
depois dum longo suspirar -,
mas eu gosto do filho da puta
até hoje.

 

 

 

***

 

 

 

MÉIER

 
um apartamento grande,
tão logo vendesse viveria de renda
em um dois quartos no méier, aquele fim de mundo.
a sala em dois ambientes,
a cozinha espaçosa,
três suítes, uma delas com vista para o mar.
alguns pombos voaram ali perto,
num céu azul de domingo
e o sol rasgou as janelas e alcançou
o retrato dos velhos dependurado na parede,
naquele instante em que ela começou a chorar
– e dentro daquele apartamento à venda,
naquele domingo em que pombos faziam a festa,
além dos soluços,
ecoaram também os velhos dias de aniversários
e formaturas,
as bodas de prata,
visitas de parentes,
a primeira comunhão:
a mãe a servir assados e o pai a fazer palestras,
a sala cheia de gente que não via mais.
uma época distante, que não voltará.
uma época em que não havia morte,
nem saudade,
nem vazio,
nem contas vencidas.
e o méier, aquele paraguai,
a devastadora realidade a esmurrar dia após dia
a sua porta,
era só mais um lugar.

 

 

***

 

 
SEU SORRISO ERA COMO UMA HÓSTIA PRA MIM

 

o coração era um velho milionário
no quartinho habitado por sonhos
que se transformaram em queimaduras
de segundo grau.
a vida é um oceano, você dizia ao
jogar suas roupas numa mochila,
e as ondas mudaram de força e direção.
adeus pernas enroscadas,
adeus festejos e conluios,
adeus planos no meio da madrugada,
quando eu urrava como um campeão.
o quarto é um corpo desalmado sem a foto
do reveillon de 98,
sem as calcinhas dependuradas na cortina do banheiro,
sem o cheiro dos cremes para as pernas,
sem o poster da praia que você sempre quis ir
e eu nunca pude levar:
seu sorriso sempre funcionou como uma hóstia pra mim.
herdei lembranças
e o sapinho no canto da boca que olho toda vez que vou ao banheiro,
feito o moleque que chega em último,
mas guarda com todo o cuidado
a medalha de consolação.

 

 
***

 

 
ASA DE FRANGO

 

papai me disse, uma vez,
que escreveria um livro
que nos daria dinheiro suficiente
para morarmos numa casa bem grande e bonita,
uma casa com jardim, piscina, quintal,
onde poderíamos acordar tarde,
chamar uma dezena de amigos,
criar cachorros, cágados, leões, girafas, tamanduás,
nos sentaríamos numa enorme mesa de madeira,
teríamos churrasqueira, forno à lenha,
varanda gourmet,
uma casa como a de um filme que assisti,
em que no final uma garota deslizava pelo corrimão,
saltava lá embaixo
e corria feliz na direção de um lindo jardim,
ao tempo em que a música tocava e os créditos começavam a subir.
mas papai já lançou uns três ou quatro livros
e a gente continua por aqui,
tomando banho de mangueira na laje
e comendo asa de frango nos domingos,
enquanto ele bebe cerveja
e diz que bota pra fuder.

 

Rodrigo Melo tem dois livros de prosa lançados e em breve publicará o seu primeiro com poemas. Vive em ilhéus, sul da Bahia.

 

 

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Janela Poética V

Patrícia Laura

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

solidão

 

precisa-se de uma solidão escolhida
uma bem vinda solidão vivida

precisa-se de uma dor incrustada na vida
vinda desde sempre e não tendo previsão
nem modo nem como sair

precisa-se de uma respiração divina
uma mão que pousa por cima
e escreve por mim

precisa-se enfim
de um começo
jamais de um fim

 

 

 

***

 

 

 

náufrago

 

num barco
q começa a afundar
o pânico ameaça

porque todos e sobretudo
os marinheiros só falam

obstinadamente
a língua das navegações

e nenhum fala
a língua
dos afogados

 

 

 

***

 

 

 

lázaro

 

incinerado
em segredo
sem amigos
em lugar
desconhecido

sem família
sem cerimônia
sem público
sem privé

a morte reinventada
parte imensa calada
queima sem alarde
sem brasa

o amor nunca precisou
de terra nem de fogo
nem de olhos ou choro

o amor
pó enraizado
esfumaçado em canto e mãos
de lázaro
cobriu as pálpebras
e se transformou

 

 

 

***

 

 

 

bambu

 

na altura do coração
nos tornamos surdos

relva bambu vento
surdos fomos o mundo

o templo a areia o irresoluto
semelhantes de esquecimento e ilusão

 

 

 

***

 

 

 

escuro

 
no escuro
tirando
o sapato
meio caindo
abrindo a porta
com cuidado
embriagada
falando baixinho
tropeçando e rindo
chorando um pouco
limpando o rosto
fazendo shhhhhh
com o dedo
no movimento
do corpo
no escuro
da madrugada
me flagrei
irremediavelmente
só e descalça
voltando
pra mim mesma

 

 

 

***

 

 

 

 

em segredo

 
que algumas coisas continuem
nos acompanhando em segredo
que a água entre nossos dedos
que o gesto desamparado
que o murmúrio derradeiro
que o medo o medo o medo

que a recém inaugurada
livraria da cidade
que a ternura do banco
que o desbotado do traço
que o pacto com o silêncio
que a praça a praça a praça

que algumas coisas continuem
nos socorrendo caladas
que a voz enrouquecida
que a vida despreparada
que o beijo que desafia
a infância abandonada

que a fala a fala a fala
que algumas coisas continuem
na coragem da viagem
no encontro com si mesmo
na aliança com o pequeno
na certeza do improvável

que algumas coisas permaneçam
nos guardando em segredo
nos dedos nas águas nas praças
nos gestos na entrega na fala
no consolo do vento
na miséria que apunhala

que a vida que não existia
que a neblina na vidraça
que o papel preto ardendo
que o lamento o lamento o lamento
que o que continua é o efêmero
no anseio no quarto desarrumado

 

Patricia Laura Figueiredo (pat lau), entre São Paulo, onde nasceu e se dedicou à poesia e ao teatro desde cedo, e Paris, onde mora desde 1990, amadureceu seus poemas numa vida dedicada a tornar o poema uma experiência essencial. Publicou o seu primeiro livro de poesias, “Poemas sem nome” (Ibis Libris) e seu segundo, “No Ritmo da Agulhas” (Patuá) em março de 2015. Participou de várias antologias, no Brasil e na Alemanha e também em diversas revistas digitais de literatura e poesia. Acaba de publicar, pela Editora Dasch, seu terceiro livre de poemas  “Poemas Bebês”.

 

 

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109ª Leva - 03/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

José Carlos Brandão

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

A ARANHA

 

A aranha fia o fio da minha vida
com paciência e luxúria, com seu próprio
fio finíssimo e puro, atrás de mim,
não à frente, por onde vou. A origem

é o meu fim. Na minha própria teia
eu me enleio: de angústia e de beleza
é tecido o meu leito, leve, no ar
suspenso, no equilíbrio em que se libra,

caminho frágil para si voltado.
A luz do alto ilumina o precipício
e se me perco em sombras e delírios,
mais me encontro na senda do real.

O claro-escuro se articula, e lúcido
sigo, sem extravio. O mito lírico
revela e esconde o ser que já não sou.
Na minha teia um cego vê o abismo.

 

 

 

***

 

 

 

 

A CABRA

 

A cabra pasta a estrela na montanha.
Bem mais nova que o lago e que o pinheiro
na encosta, o seu balido como um guincho
é um grito perplexo contra o abismo.

A cabra é negra como o carvão negro
das entranhas da terra, funda, seca.
Cega, a cabra resiste digerindo
as pedras do caminho. A cascavel

é um alarme contra o espaço exíguo
no infinito da tarde. Uma águia vê,
de cima, a solidão da cabra, a lâmina
da dor nos cascos, com a luz, que quebra,

de chofre, a árida terra, de metal,
com sua pétala esculpida em pânico.
A cabra fende em duas a montanha,
alta e lívida, sob o sol do eterno.

 

 

 

***

 

 

 

O LEÃO

 

O leão ergue as garras contra as grades
e ruge e urra, com a garganta seca
da espera inútil. De onde vim, para onde
vou? Mais nenhum destino, mais nenhuma

porta. Sem perspectivas, eu caminho.
O meu reino se estende ao horizonte,
onde a terra se encontra com o céu.
Vou quebrar os limites com o meu grito,

vou quebrar os rochedos com o sangue
do meu rugido. Vou romper a prata
do infinito com as chamas dos meus olhos.
Quem sou o céu traiu o sonho vão.

Sou um cego na areia do destino.
O mistério repousa em minhas fauces.
No enigma do deserto e das estrelas,
cavalgo impávido com Deus no lombo.

 

 

 

***

 

 

 

O ELEFANTE

 

É preciso matar o elefante.
A fábula da vida é muito breve,
a viagem é longa, e pesa tanto.
Giram os girassóis entre as montanhas

e gira um sol só, no alto, atormentado.
As madressilvas sangram com a dor
do mundo. E o elefante, as patas no ar,
ergue a tromba ao azul como um anzol

de angústia. Chora sob um mar de lavas
aos borbotões caindo sobre o mundo.
São muitos os trabalhos da existência,
muitos e inúteis. Para que sofrer?

Por que viver? Por que mistério ansiar?
Desci os sete círculos do inferno,
devagar, carregando a minha sombra,
e entoando a minha súplica: me matem!

 

 

 

***

 

 

 

O CAMELO

 

Atravesso o deserto com a areia
nos olhos. É meu lar a noite fria,
com suas sombras e com suas trevas.
Vejo quem sou no espelho do deserto.

A mim próprio carrego nas corcovas.
Que viagem viajo? Que universo
percorro? O meu tamanho no tamanho
do espaço que demarco. Na memória

do que sou, as estrelas e o retorno
do escorpião. Eu sou escuro e concha.
Se a mordida me fere o calcanhar,
indigita-me o rumo, concludente.

Estou aberto para a tentação:
o delírio me cega e me ilumina.
O deserto convoca as demais formas
e eu escrevo na areia o poema-cinza.

 

 

 

***

 

 

 

O TOURO

 

O touro é uma rocha na lua. As janelas floridas
gemem na escuridão, os pássaros da noite
farejam a dor queimando as asas doloridas.
Quem conhece, da dor, a face e a foice?

Os cães latem atrás das pedras em flor.
O louco na estrada sufoca e grita contra a treva.
É estar longe, mutilado nos mares da dor.
A febre do pântano estrangula as meninas de névoa.

A agulha do suicídio dói no ventre do mundo.
A dor é um touro no trânsito, em silêncio profundo.
O touro marcha devagar, construindo o seu caminho
com as patas sangrando, cravejadas de espinhos.

A nuvem oxida a rosa na escada, piche e cimento
nos olhos profanados, antes da lava dos vulcões.
Ainda se ouvem os cavalos, e o touro nos grilhões.
Eu amamento a dor nos cascos do esquecimento.

 

José Carlos Mendes Brandão nasceu em Dois Córregos, SP. Vive em Bauru. Publicou sete livros de poesia e um de crônicas. Ganhou vários prêmios literários, como o da Bienal Nestlé e o Cidade de BH.

 

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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Aperitivo da Palavra II

Voz assombrada por fantasmas

 Por Sérgio Tavares

Julho é um bom mês pra morrer

É possível definir o procedimento narrativo de “Julho é um bom mês pra morrer”, do paraibano Roberto Menezes, num trecho extraído de suas próprias páginas: “um trem desgovernado tentando governar um trem desgovernado”.

Pois, a despeito do argumento central coeso, a contextura tem a diluição de um curso torrencial, “uma enxurrada”, o descompasso de uma voz que, tentando agarrar-se à lucidez, empreende contato com um interlocutor, alguém que talvez não exista, um contato com a própria inexistência. Tal voz pertence à Laura, uma jornalista desempregada, de trinta e cinco anos, que administra um blog em meio à impossibilidade de administrar uma decisão judicial que a obriga a deixar seu apartamento, em razão de o prédio estar em vias de ser demolido.

O romance se desenrola nessas últimas horas de resistência, em que, contra a parede, ela decide escrever uma carta para a mãe que a abandonou ainda na infância, compondo um misto de desabafo, condenação e despedida. Por conta do tenso das circunstâncias, o relato acaba por incorporar a urgência e a ameaça do esboroamento, desmontando o tempo cronológico num tempo da memória, a sequência não-linear dos fatos rebobinados.

A protagonista, desse modo, persegue culpados e acaba por desencovar culpas. Evoca a presença afetiva da avó, do pai e dos irmãos, e descarrega a voltagem de derrotas e enganos na ausência materna, nos fracassos amorosos de idade e gêneros distintos.

O caso é que, no avançar da tessitura confessional, todos vão se revelando, com mais ou menos gravidade, culpados. Inclusive a própria protagonista, que carrega consigo o fantasma de uma perda insuperável. Laura é um oco, um apartamento vazio, uma voz assombrada por fantasmas.

Menezes se arrisca ao construir uma narrativa mobilizada pela tensão, em que os fatos se fragmentam e se reencaixam entre saltos de capítulos, porém há no autor um domínio técnico capaz de transformar a desordem numa leitura instigante.

No que pese o excesso de frases de efeito (“Deus é o vício das coisas”, “Milagre é a poesia do acaso”, “Esperar é o pior jeito de aguentar a dor”), a maioria é bem colocada e funciona na excursão frenética de Laura pela fronteira entre o devaneio e a realidade. De fato, sob esses blocos de escombros, o romance conserva um fino de poesia, um lirismo pego meio de soslaio antes de a palavra chocar-se contra o concreto.

“’Eu sou o vento, você é o moinho; eu sou o monho, você é o vento’. E começava a adormecer, e a voz foi indo indo, e eu só ouvia você dizendo, ‘Vou indo baby, vou indo baby, vou indo…’ O sonho virou um sonho branco. Dormi tranquila.

Não, não nascem asas quando se perde o chão. Nascem outros chãos”.

Menezes ainda demostra habilidade em usar da experiência dramática de sua protagonista para remontar os cenários socioeconômicos que tiveram impacto em determinados momentos de sua vida, numa analogia ao impacto que estes tiveram para o Brasil.

Da abertura política, na década de 80, que trouxe a reboque a hiperinflação, ao Governo Lula e o sobrepeso de crédito para o mercado imobiliário, a escalada dos anos são como estágios de uma longa queda, uma contagem regressiva rumo a julho, a um inferno que, como classifica a própria narradora, é “o reino das memórias”.

Ao leitor, cabe testemunhar a potência desse inferno, então.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.