desconheço cada resistência/ os golpes em vão
o grito amargo dos cavalos ao meio-dia
a impressão inexata do que é cáustico
louco
a inexpressiva exatidão do que é risco
sombra/ espasmo
livre ressonância do espelho fragmentado
opressivo/ esfacelado
mil cacos pontiagudos na face do nada
na face do nada
e em frente ao rever os cavalos & seus gritos
o meio-dia fragmentado exposto cru entrelaçado
corte recorte sombras opressivas
gritos despojados em arestas.
***
ESPECTRAL XV
Poucos espelhos se mantêm intactos
e em cada rosto que se quebra
a marca fria da cicatriz disforme
caleidoscópio antigo em que outras faces
se cruzam como espectros soturnos
Apunhalei girassóis com minhas palavras trincadas
e os dentes servis degustaram ódios e crimes
com pompas de quem salpica a noite com versos do mais impuro sangue
mas estive mesmo pleno – em vôo e concisão
nessa lua avulsa e desmedida:
traga teu punhal para desferirmos juntos os golpes precisos
nessa poça avermelhada em que todo sangue derramado
encarna a luminosidade branca do satélite rústico
que paira inútil sobre nossas ocas cabeças tristes
como a demarcar as imaginárias fronteiras.
***
RAÍZES
Escrevo torto em desmedida decomposição
Não tarda abreviarmos tudo
Reinvento desenhos com simetrias descentralizadas
Não descendo de nada
Agora apenas traduzo as formigas e o que mais arrastam
Ciprestes imóveis em horas mudas
Descascados túmulos em que os insetos adentram
Para criar raiz nos mortos.
***
MORDAÇA
Sem cor, sem tez, sem pulso
Rareiam as palavras
Mas não os golpes/ a tortura
Receio
Cada outro porto que não se atraca
Cordilheiras de um fauno intacto
Despojados de sua carne e vísceras,
Como outras requentadas agonias fúnebres
Homens chegam sedentos, cuspindo fuligens-terçãs
Em San José um mártir recita versos e se cala subitamente
frente ao muro caiado
Em San Martín uma camponesa estende a sopa rala
para quem puder pagar
Depois recolhe a toalha, pois a noite já vem.
***
METODOLOGIA DO NADA
estendo as palavras no curtume
as que ainda respingam sangue
servem para o poema.
***
ESTETINO (OU NO CAMINHO COM BUKOWSKI)
Anoiteço
Com longos versos de bukowski
Num caminho aberto
de chumbo e cipreste,
Com a boca turva/ calada
mortalha desfiada
pelo uivo da matilha,
Nos golpes precisos/
aniquilada-
matéria finda.
Todos sabem quem são os ladrões
desse inverno.
Quem furta a noite, o soco
E vomita seu limbo
na fresta da lua às mínguas/
lua restrita/ dura,
exilada no porão.
Todos sabem.
Ou fingem saber
dessa tragédia monótona/ manchada
desprovida de carne/ esfacelada
pelo antepassado açoite de metal,
ranhuras profundas/ espirais de aço
jardins de fuligens.
dos galhos secos enfeitados
o grito aflito-presente/ ressente
poema torto – em alto-relevo,
desdobrada agonia/ ………….. ..corrosivo-desprezo,
………………………..nas obscuras pétalas de óleo ………………………..improváveis marcas de sangue ………………………..da cidade muda/ disforme.
Leandro Rodrigues nasceu em Osasco, São Paulo, onde reside. Formado em Letras – Pós-Graduado em Literatura Contemporânea. Professor de Literatura Brasileira. Sua poesia busca traduzir parte da fragmentação e fuligem de uma São Paulo sombria, opressora, mas efervescente. Também é autor do blog poético nauseaconcreta, e um dos autores da Revista Zona Da Palavra. Possui poemas publicados em diversos sites e revistas literárias.
Algumas obras parecem ganhar vida própria e chegam a superar as intenções do artista, produzindo sentidos nem mesmo imaginados por seus criadores. Geralmente, quando isto ocorre, temos como resultado pequenas obras-primas. “O Quarto de Jack” pode enquadrar-se neste perfil. A situação apresentada pelo filme surge apenas como um pretexto para que se exponha todo um universo de percepções e sentimentos que permeiam o espírito dos homens. Ele assume, assim, uma linguagem metafórica, tornando-se uma peça em aberto cujo sentido não cabe mais nos limites de uma tela ou nas quatro paredes que conferem título à película. Ela alcançará uma linguagem universal que falará de uma forma íntima e evocará questionamentos e respostas particulares em cada espectador.
A produção começa de forma despretensiosa e, em pouco tempo, assume um clima claustrofóbico e sufocante que vai fluindo até que cada peça do quebra-cabeças venha a se encaixar lentamente. Tudo é feito com grande elegância na condução das câmeras e no enquadramento de cada mínimo objeto disposto em cena. Aos poucos, envolvemo-nos em uma intrigante trama até termos a dimensão do horror a que seus personagens estão submetidos. Contar um pouco da história certamente irá comprometer o caráter surpreendente do roteiro e os completamente desavisados irão aproveitar bem mais as nuances que o filme tem a oferecer. Os que já conhecem a sinopse da trama, contudo, podem seguir a leitura deste texto sem maiores problemas.
Brie Larson, vencedora do Oscar de melhor atriz por seu desempenho neste filme, interpreta uma jovem sequestrada aos 17 anos e vive, há sete, confinada em um minúsculo cativeiro que divide com seu filho de 5 anos. O garoto, representado por Jacob Tremblay, traz as mais tocantes cenas do filme. O exíguo quarto é o único mundo que ele conhece e, através do seu olhar, somos convidados a considerar que as limitações do espaço e das circunstâncias não são suficientes para eliminar a magia e beleza de cada coisa. Isto não serve, contudo, de artifício para apresentar uma visão romanceada dos acontecimentos. A realidade é mostrada em toda a sua crueza e complexidade, demonstrando que não há soluções simples para casos assim e marcas profundas estarão sempre expostas na vida dos personagens.
Brie Larson e Jacob Tremblay em cena do filme “O quarto de Jack”/ Foto: divulgação
A obra é baseada no romance homônimo, lançado em 2010, pela irlandesa Emma Donoghue, também responsável pela adaptação do roteiro para o cinema e, embora este não seja fundamentado em fatos reais, inspira-se em casos similares amplamente noticiados pela mídia. Lenny Abrahamson, compatriota da escritora, realiza uma direção segura e consegue fazer um filme muito eficiente com um custo relativamente baixo para os padrões atuais da indústria cinematográfica. Tanto a autora quanto a direção receberam a indicação para o Oscar em 2016 e a produção concorreu à categoria principal de melhor filme.
A película traz questões caras ao nosso tempo como o isolamento, a construção de laços afetivos, o sentimento de inadequação, a busca pela essência e, em algum ponto, acabamos por nos identificar com os seus personagens. Enfim, deparamo-nos com sentimentos à flor da pele em uma das obras mais contundentes dos últimos anos.
Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana.
terras sob terras ocultadas de mim
se alçam à magia do visível
sem aviso sem aviso
de você olho paisagens por mim ignoradas
tingidas de luz fervescente em indecifrável brilho
espetáculo do oculto secreto segredo
agora desvelado aos meus olhos
em inacreditável fulgir
desde sempre para sempre
ah me cegam! cegam tanto!
os meus vacilantes olhos desavisados
de tais ondulações frenéticas luz enigma
a habitar em terras de você subsolo longínquo
por mim dantes nunca visitadas
***
AURORA E CREPÚSCULO
sou eu a aurora plena de luz
o iluminado dia sou eu
poucos segredos guardo
olhar aberto ao mundo
acolher o outro espero
o crepúsculo é você percebo
em penumbras e horas silenciosas
noites chegando sem fim
em sombrias névoas esvoaçantes
segredos secretos segredos
nebulosas esquinas ocultas
vezes há que percebo intuindo
escura nuvem sorrateira invadindo
entrando em porta da solar luz
não quero resisto suplico
aurora é o meu iluminar penumbras
aurora é acolher o crepúsculo em belos dias
***
OCO DO MUNDO
era você aquele anjo escondido atrás da porta envenenando minhas horas tão encoberto parece que era esse anjo assustado fugindo de mim talvez me querendo ainda escondido atrás da porta me olhando em fugas em retornos no tempo que escorre pelas paredes da vida do anjo enfeitiçado vindo de algum inferno detrás de outras portas ocultando de mim maléfico segredo nem sei nem sei ainda nem sei se saberei algum dia se era você aquele anjo de asas vermelhas a voar a voar voando até se perder em mim até o oco do mundo
***
SEM ASAS
há palavras assim saudades…lá nem sei onde é…longe sempre muito longe…lá ficam
as saudades sentidas….aqui no meu coração pulsam apressadas saudades feitas de
carne e sangue….sendo a eternidade que insiste em ficar parada…qual qualquer nada
me envolvendo em vazios ofegantes…..saudades de você confundem atropelos dos
meus pés alados…assim estando sem voos….sem asas
***
SENTIDO OPOSTO
enquanto escrevem pedra
corpo eu escrevo
enquanto escrevem morte
asas eu escrevo
enquanto escrevem vazio
coração eu escrevo
corpo asas coração
a vida resistindo persistente
no sentido oposto à vaga frieza
e vazia e endurecida e morta
do mundo petrificado em múltiplos nadas
***
EM ABISMOS DE SER OUTRO
a dança dos meus leves poemas livres velas ao vento
aporta em distantes países enigmas de você!
azul seta a levar suave meus estilhaços poéticos a teu triste coração ferido
em alegrias jubilosas em graciosas palavras doces
assim são acolhidos os meus líricos versos
no regaço do teu intenso coração
e sei bem que isso acontece
para mim porém o teu coração em melancolias desfeito está
eis você inalcançável em abismos de simplesmente ser outro
ah amado amor desconheço como caminhar para bem pertinho
até tocar o teu sensível coração solitário
desejo tanto lá aportar hora qualquer em madrugadas talvez
igual aos meus românticos versos
Lelita Oliveira Benoitaproximou filosofia e poesia. Escreveu tese de Doutorado na Universidade de São Paulo – Sociologia comteana: gênese e devir, publicada no Brasil (Discurso Editoral, 1999), com indicação ao Prêmio Jabuti e vertida ao francês (Harmattan, 2007). Publicou o Livro da Madrugada (e de outras enigmáticas horas amorosas) (Iluminuras, 2013). As incursões na filosofia e na poesia resultaram em estudos no Instituto Sedes Sapientiae e na formação em psicanálise na Clínica Lacaniana de Atendimento e Pesquisas em Psicanálise(Clipp).
Deixei minha covardia alimentar-se das decepções; não fui mulher pra te encarar, fazer de ti o homem que eu queria. Na cama e fora. Porque eu adoro quando seguras firme meu quadril e entras em mim, deixando que eu sinta cada milímetro do seu pau enrijecido e babado, num incontrolável desejo de ir além e gozas dentro ou em cima de mim, e, com a cara vermelha, dás um lindo sorriso despencando ao meu lado.
E você me dizia coisas doces no ouvido e me fazia surpresas, me deixando a mulher mais encantada e encantadora do mundo. Ficava segura quando pegavas em minha mão pra atravessar a rua. Assim, atravessaria cegamente qualquer avenida.
Mas meu orgulho não pode ser ferido desta forma, Lelo. Sou, como você chama com seu machismo, descontrolada. Faço qualquer loucura em autodefesa. Mas quando a lucidez do passional volta, Lelo, ela chega como uma ressaca moral sem remédio.
Você era a ponte da felicidade, o problema de todas as razões e a solução de todos meus distúrbios. A cura de feridas antigas, e a abertura da cárie do amor. Duvido se, onde estiver, não sentirá falta das minhas lembranças sobre os horários dos remédios, saber se você tinha lanchado de acordo com o que recomenda uma vida saudável.
E deves, neste exato momento, sentir falta da minha mão acariciando levemente seu braço, suas costas, te dando a certeza que há uma mulher de verdade ao seu lado. Eu sinto saudade da sua pele, dos seus pelos, do cheiro do seu perfume no pescoço.
Mas eu não sou submissa, por mais que ame e por mais que tenha te amado. Eu não aceito certos desmandos, de homem nenhum. Nunca aceitei, Lelo. E olhe que te amei e assim continuo. Tenho meus olhos cheios d´água e não sei exatamente porquê.
Por alguns milésimos, o arrependimento vem e, junto com ele, lágrimas salgadas de derrota, de covardia. Mas, por outros milésimos, penso que foi melhor assim, pra que não haja mais machucado na alma, nem sangue na mão.
Eu não quero fazer deste momento um drama, nem uma comédia, nem uma terapia mórbida, isto não é do meu feitio. Mas, enquanto te falo algumas palavras, meu coração se enche e eu tenho um imenso desejo de que me ouça. Ao menos, uma vez na vida, me ouça, Lelo, perceba o mal que você me faz em poucos minutos; em comentários desnecessários; em condenáveis faltas de atitude.
Mas além de tudo, quero muito que saiba de uma coisa: você vai estar dentro de mim, sempre. Dos meus gestos, da minha cabeça, da minha alma, da minha pele, de tudo que dirá respeito a mim como mulher. Porque assim me fizeste e me tornaste uma dama com seu cavalheirismo e companheirismo. Mas tudo se acaba em segundos.
É o momento de eu olhar seus olhos fechados, descansados, sua expressão de dor, e pensar nos bons tempos, pra achar alguma piedade em meio a esta cratera no meu orgulho. E encontro. Facilmente encontro, Lelo. Encontro bons tempos na nossa história. E tudo isto me faz sorrir. E é um sorriso diferente de todos que já experimentei. Do orgulho de mulher bem amada e o sorriso de mulher bem vingada. Eu vejo um anjo neste momento, que há pouco era um demônio algoz da minha feminilidade.
A saudade virá de tempos em tempos, arrebatadora como um tufão. Mas logo logo algum cavalheiro macho dará mais áurea a meu orgulho feminino e me fará ainda mais mulher, deixando-te apenas como especial. Alguém especial na minha trajetória. E nada mais. Talvez, Lelo, eu nem pense mais em você como homem.
E como sei que estará para sempre dentro de mim, vais ver os homens bonitos com os quais dormirei em Bali. Vais se banhar comigo nas praias paradisíacas, beber drinks com guarda-chuvinhas na borda do copo e azeitona. Se algum dia pensar em você com muito carinho, Lelo, prometo fazer-te a graça que sempre quiseste e deitarei com outra mulher. Que achas?
É estranho não sentir suas mãos acariciando as minhas de volta. Cada passo sem você, pelo menos neste início, vai ser muito estranho, tudo se tornará opaco, vazio… falta seu delicado toque de dedos em minhas mãos agora e falta sua voz em meus ouvidos e seu pau na minha buceta.
Você está quase gelado. Sinto seu dedo duro. O sangue está secando e fazendo uma gosma nojenta e eu esfrego em meu nariz, numa tentativa de colocar pra dentro seu cheiro, seus nutrientes, seus anticorpos – a química que equacionou com a minha e resultou em cumplicidade.
A temperatura do seu corpo alcança meu coração e me traz uma sensação de medo horrorosa. Eu queria de verdade era ficar ao lado do seu corpo pelo resto da minha vida. Mas com você assim, Lelo, sempre quieto e enrijecido. Frio, pra não ferir meu orgulho de mulher.
Não sei se tenho forças pra continuar, não sei se estou mesmo a fim de ver o mar de Bali ou tsunamis da Indonésia sem você fisicamente comigo. Meus desejos estão postos à prova, sendo encurralados, interpelados pelo machismo que carregas.
Eu não vou sozinha pra Bali, Lelo. Eu vou me entregar aqui mesmo. Tenho que engolir o sangue do meu orgulho, respirar fundo e voltar à vida real. Preciso olhar-te nos olhos e encostar minha taça na sua, respondendo-te a nós, selando ainda mais minha condição ao seu lado.
Sinto-me livre nestes pensamentos que insistem em cercar meu universo interno cada vez que vejo seu olhar cínico; sua arrogância machista. Imagino o que o destino teria nos reservado, caso estas cenas de despedidas, que insistem em rondar meu cérebro, fossem reais. Bom, o seu futuro não seria difícil de adivinhar.
Busco em você tudo que não podes me dar.
Então, eu saio destes pensamentos loucos que se fazem e desfazem em segundos da sua arrogância e brindo com você, Lelo.
Meu homem. Meu companheiro.
– Aos dez anos de casados. E que venha a segunda lua de mel.
Bali!
Tim tim.
***
Dose Fatal
Eu havia pedido apenas uma xícara, algo leve, o suficiente para me manter de pé e seguindo adiante, não tinha tempo para marcha ré. Foi meu amigo Grático quem me serviu dizendo que eu tomasse cuidado, pois era uma dose pequena, mas era uma dose forte. Eu falei a ele que estava acostumado com xícaras daquele tamanho e ele me disse que o problema não era a xícara, era a colher. A colher era pequena por demais, bonita até, quase sumia na mão dele antes de me entregar. Eu sorri quando a vi e perguntei que mal algo tão diminuto poderia provocar, até porque quando eu a usasse ela sumiria de vez e junto com o conteúdo da xícara e com a própria xícara, tudo entraria em mim e faria parte de mim, eu absorveria aquilo tudo e manteria meu caráter. Meu amigo riu e disse que não era bem assim porque eu não estava acostumado com a concentração de palavras, letras, ciências, astrologias e orgias que tinha ali naquele recipiente. Na hora, eu levantei a sobrancelha, peguei na colher fazendo-a sumir entre meus dedos e rodei, lentamente, a xícara. Vi aquele emaranhado de dizeres e regras e verdades misturar-se, pronto para encarar meu suco gástrico e meu amigo disse novamente que aquela pitada de matemática poderia me deixar infeliz, mas eu o tranquilizei porque disse que cinco mais cinco era vinte. Mas logo ele ficou nervoso de novo porque quando coloquei a ponta da porcelana na minha boca, ela era tão ácida, que queimou um pouco do meu lábio e meu amigo Grático mandou eu ir mais devagar e eu disse que não tinha tempo para marcha ré nem para paradas muito longas e deveria tomar aquele conteúdo de uma só vez para continuar andando, prosperar e nunca parar. E foi então que tomei a decisão, sem rima nenhuma me atrapalhando, de virar de vez para imaginar aquela acidez, que não tinha tempo para rima, digladiando com a acidez do meu ácido gástrico que chamam de suco, mas me faz mais mal que suco de laranja. E o conteúdo ácido e humano brigaria com meu suco ácido e biológico, transformando-me num homem desumano e cartesiano. Imaginei gregos e troianos, e me vi diferente e foi então que virei a xícara perdendo todo meu lábio, engolindo minha língua, minha acidez e o conteúdo quente que, imediatamente, esfriou-se dentro de mim, deixando-me uma estátua gelada e repleta de acidez, letras, ciências, astronomias, matemáticas e brochadas orgásticas.
Thiago Mourão é redator e escritor. Tem artigos assinados no Brasil Post, Gazeta dos Búzios e Jornal O Globo. Cursou cursos de pré-admissão para o mestrado em Literatura e Escrita Criativa da Harvard Extension School e está com o caminho trancado devido à alta do dólar. É especialista em Divulgação de Ciência pela Fiocruz RJ e é autor do livro Java Jota (ed. Patuá).
manhã onde ao sul o sol se abole
revoam folhas ao rastro frio dos teus pés
chuva amarga, acinzentada, ziguezagueia
de perfil, teu rosto, austero sob a marquise
espera a volta de horas perdidas.
***
BÉLA TARR
A Torinói Ló
para Attila Szalmás
teu filme
é uma foto
que para o vento
acena
um lance
de claro-escuro
e carbono
as cenas
como cinzas
apenas
no tempo
se espalham.
***
RÉQUIEM PARA PAUL CELAN
outrora ou agora
teu silêncio encerra meu canto
para sempre, e além do antes
socorro, te rogo
suplico:
dá-me a flor
que das cinzas renasce
fênix.
***
TUAREG
atai aos lábios, ..o silêncio de mil desertos
moldai aos ventos, ……………..dois olhos de areia.
***
YAO CHEN
— labora
a flor, que desfaz-se
em melífluas
pétalas, tua
face.
***
BERN
prenhes de neve
iluminados
ora, estreitos
ora, largos
seus telhados ………….perfilados.
Israel Azevedo (São Paulo – SP, 1979). Integra as antologias: Seis Poetas Jovens no Papel de Rascunho (Lumme Editor, 2006) e QASAÊD ILA FALASTIN – Poemas para a Palestina (Selo Zunái Edições, 2012). Publicou a plaquete Breves Postais do Oriente (Lunar Books, 2013). Prepara seu primeiro livro, Dragão de Rá.
Som, palavra, imagem. Tudo amalgamado a um surgimento de novas dimensões. Outros territórios onde os sentidos avançam e a percepção atenta conduz a experimentados cenários. Eis o grande espaço de vivências tidas a partir da música, lugar preenchido com nuances, detalhes, sabores e, principalmente, arremessos da alma.
É artífice dos sentimentos quem se atira ao desafio de vislumbrar canções. Trajeto que permeia momentos difusos da existência numa tentativa de captar o que está em suspensão diante dos instantes todos. Como materializar a conjunção entre letra e música diante do dissipado turbilhão de janelas que dão para o mundo?
Talvez um artista como Sylvio Fraga possa nos trazer algo a lume, tendo em vista que suas abordagens sonoras erguem um consistente universo de possibilidades. De início, importa dizer que um delicado filtro reveste os olhares sobre todas as coisas circundantes. Uma capacidade de conferir evidência a pequenos grandes gestos cotidianos, muitos deles espalhados por uma rotina que julgamos acostumada pelos matizes do tempo.
Em Sylvio Fraga, verbo e som redimensionam a ciranda da vida. Um mergulhar nas imagens que se perdem despercebidas por nossos sentidos quando estamos mais preocupados em reter coisas que estão muito além do nosso mero alcance.
Andamos bem se tomamos Cigarra no trovão como sendo uma verdadeira ode às coisas simples da existência. Nele, Sylvio, na esmerada companhia de seus músicos, acerta em cheio quando formula um ambiente diferenciado de sonoridades. Por todos os cantos do disco, o conteúdo das letras vem fazer par com um cuidadoso aparato instrumental. Se o discurso fala por si e prima pela sugestão, tudo ganha ainda mais relevância diante dos arranjos e melodias ali presentes.
Sylvio Fraga / Foto: João Atala
Com um álbum autoral nas mãos, Sylvio mostra que suas letras têm uma aproximação muito grande a outro ofício seu: a poesia. Podemos observar isso em canções como Quartinho, Pedras Brancas (parceria com o poeta Eucanaã Ferraz), Samba da Cigarra e Fiquem calmas as senhoras. Há ritmo, síntese e profundidade bem próprios do labor poético. Numa faixa como Ciclotímica, por exemplo, a escolha das palavras, seu fluxo e encaixe dão vida ao que é cantado com dinamismo, bem típico do andamento de um trem que passa e nos conduz adiante dentro dum cenário de alternância de sensações. É tradução da existência em si, com seus altos e baixos.
Mesmo sabendo que há uma forte influência jazzística dando conformação ao disco, é difícil determinar um gênero específico para ele. E muito provavelmente isso nem ocupe as preocupações do quinteto, tampouco do seu mentor em si. Assim, o sublime curso do álbum também flui pelas vias de vertentes como o samba e MPB, configurando um resultado equilibrado e notadamente orgânico.
É fundamental destacar o papel do trompete de José Arimatéa, o piano de Lucas Cypriano, a bateria de Mac William Caetano e o baixo de Bruno Aguilar, músicos que, juntamente com Sylvio, estão harmoniosamente entrosados em torno de um projeto que ganhou um definido corpo.
O título do disco em si já nos permite vislumbrar significados. O principal deles pode nos remeter à conclusão de que ainda existe e resiste certa ternura e leveza na vida. Diante da dispersão e dos ruídos a que estamos submetidos incessantemente, todos eles formas de opressão nalguma medida, também será possível buscarmos a serena experimentação dos sentimentos.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
Se há motivos, eu queria começar te dizendo que odeio dias de chuva, mas não vou. Dias chuvosos me deixam tão triste que não tenho nem forças para odiar, na verdade, eu só tenho vontade de escrever. Não, vontade não, urgência. Só que acontece de, como hoje, eu estar ilhada em lugares distantes da minha casa, do meu computador, das minhas coisas de escrever, ou impossibilitada de alcançar meu caderninho e minha inspiração. E me dou conta de que estou com os pés encharcados, numa rodoviária, parada de ônibus, rua alagada, pensando em tudo o que eu poderia estar fazendo que não estar molhada. Ao mesmo tempo, se não acontecesse de chover, eu não teria essa vontade tão urgente. Aí eu fico mais triste, porque ouço no rádio a defesa civil falando sobre alagamentos, resgates, desabamentos, famílias perdendo tudo o que mal tinham em casa, bebês quase se afogando dentro do próprio quarto, idosos que enquanto dormiam foram levados pela correnteza e todas essas calamidades que vêm junto nas enxurradas, anunciadas pela voz muito dramática e bem articulada de um locutor. Hoje, especificamente, estou na rodoviária de Porto Alegre, e tu deve entender a implicação de caos nesse fato. Estou ilhada. A média de atraso é de três horas. As estradas estão alagadas e sofrendo interdições intermitentes. Acabo de ver, numa tela ensebada de televisão que a rodovia está parcialmente alagada no sentido Porto Alegre-Canoas, o que significa que não vou para casa tão cedo, por isso, no momento, eu não sei se há algo para gostar em dias de chuva, mas não quero dizer que os odeio.
Eu não gosto do barulho da chuva quando estou nela, nem das vozes que oferecem guarda-chuvas a dez ou cinco reais, esses guarda-chuvas não são honestos e se destroem logo na primeira rajada de vento que quebra na esquina. Eu não gosto do lixo que se acumula mais visivelmente nas calçadas e sarjetas, não gosto das pessoas que caminham com o guarda-chuva aberto sob as marquises, sendo que poderiam dar espaço para quem não tem um, não gosto de carros que avançam sem dar preferência para pedestres ensopados e não gosto do cheiro das pessoas também, especialmente aquelas que fumam, o cheiro de cigarro se potencializa na umidade. Eu odeio cheiro de cigarro, mas eu detesto ainda mais cheiro de cigarro molhado. Eu tinha uma colega que chegava de manhã cedinho na faculdade com o cabelo lavado e cheiro de cigarro. Cada vez que ela se mexia, na minha direção se espalhava uma nuvem meio doce, meio azeda, meio suja talvez com aquele cheiro detestável de cigarro e condicionador de cabelo.
Hoje o dia está especialmente triste, porque amanheceu sem promessa de sol. Sabe quando tu olha para fora e tem certeza das limitações do clima, tem certeza que o céu não vai te presentear com azuis e dourados, tem certeza que tudo o que vai ver é a cor cinza? Pois então, esse é o dia de hoje. Mas eu sempre tento me enganar com alguma coisa boa, como meias secas, almoços ou um programa tosco de televisão. Tomei dois cafés e dois canos hoje e a culpa foi da chuva. Assim como é culpa da chuva que todos os ônibus, que me levariam para casa, passem pelo box de embarque número três sem menção de parar. Acho que fico mais do que três horas por aqui.
Escrevo essas frustrações úmidas nas margens de um jornal.
Nesses dias de chuva, tudo fica meio bagunçado dentro e em derredor, e é difícil para mim, já que sou meio triste naturalmente, digo, não sou uma pessoa alegre, sou engraçada, mas isso é diferente, mesmo quando seca e quente, tenho esse tipo de humor melancólico que dizem combinar mais com dias chuvosos e por isso talvez eu os despreze tanto, por conta das potências. De qualquer maneira, é difícil para mim controlar essa espécie de choro que vem. Na verdade, são só umas lágrimas silenciosas que nem chegam a escorrer até o fim da minha cara, ficam ali paradas, pelas pálpebras e apenas marejam nas bordas. Algumas descem pelos cantos ou avançam pelas bochechas, mas acabam secando antes de fazer a curva final. Não pingam como choro de verdade. Por fora é só uma tristeza baça. O grosso do desânimo com a vida fica dentro, e me cava no coração uma força de melancolia, que eu tento cobrir com outras mentiras. Talvez eu não devesse ter dito isso assim tão meramente, tão explicado, mas é assim que acontece. Tudo o que meus olhos enxergam fica borrado como numa lente que tenta amaciar a realidade, mas não cumpre a fantasia, apenas borra. Nesses dias de chuva, tudo fica meio bagunçado dentro e ao redor, como disse. Talvez eu te entregue esse jornal, talvez eu jogue fora, talvez eu faça um barco e largue sarjeta abaixo até que ele entupa uma boca de lobo.
Tu me disse que em dias de chuva não consegue ficar lendo e bebendo café e eu acrescento, nem fumando cigarros ou esperando encontros fortuitos. Nos dias de chuva, eu existo, porque não posso não fazê-lo. Não quero morrer num dia de chuva. Não posso morrer em todos os dias de chuva e voltar apenas nos dias de tempo seco, nos quais os pés estão sempre quentes. Então eu imagino.
Eu imagino que em dias de chuva tu pensa no desenho que o parquet faz no chão da sala de aula e de longe ouve a voz monótona do professor, imagino que deseja estar mergulhada, imersa nas poças que se formam caudalosas lá fora, ou talvez, num bloco de chuva espessa que cai de uma só gorda nuvem, uma tromba d’água. Eu imagino que o professor fala de wasserkur, e tu perde o fim da frase, porque se distraiu com a vidraça, mas sabe que a frase era sobre arte e transitoriedade. Pensa. Não existe. Te imagino numa conversa sobre dentes e paredes.
Eu me sinto triste quando longe de ti, mas hoje, mesmo mais perto, continuo me sentindo triste. Eu não sei se é culpa da chuva agora, deve ser ainda. Mas por um momento me passa pela cabeça que tu mandou chover no nosso encontro. Eu sou meio desconfiada mesmo. Mais ainda quando sinto sono e dor de cabeça, talvez por isso o pessimismo todo e a desconfiança. É que eu passei a noite em claro pensando se nos veríamos e tive vontade de te encontrar porque gosto de ti como se há muito fizesse parte de mim. E a minha preocupação é criar um amor no espaço dessa distância que hoje, por conta da chuva, não se comprimiu. Agora eu olho para o chão embarrado da rodoviária sem ideia de como farei isso. Eu sei que essas coisas acontecem, talvez já estejam acontecendo. Eu não quero te proteger de nada, mas não quero que nada de ruim aconteça com teus dentes, como paredes em lugares errados. Só que eu sei que em dias de chuva, com o campo de visão diminuto, a gente pode muito bem dar de cara com algum empecilho, seja buraco, parede ou negativa para convite.
É que essa chuva me atrapalha as urgências. Isso é engraçado, né? Porque, se não fosse a chuva não haveria nem vontade e nem tristeza em potência, e aí está o paradoxo: ao que ela impede, também propicia.
Mais que um lugar seco e silencioso agora, eu queria ter os pés dentro d’água, talvez porque tenha lembrado de longe a voz monocórdia do professor dizendo que isso é um tipo de cura. Pés na água curam ansiedade, gripe e saudade.
Amanhã já é dezembro, depois outro ano e em setembro volta a chover e eu vou ficar sozinha. Então eu tenho vontade de mergulhar para me curar do amor que ainda não tenho e não sentir a saudade que nem existe.
Por isso, eu desisto de ir embora. Vou fazer dessas folhas de jornal um barco e das outras folhas um abrigo. Vou comprar cigarros para fumar debaixo de uma marquise, soprando fumaça nos apressados. Vou encharcar as meias para depois ver meus pés brancos e murchos. Vou inventar razões para amar e odiar a chuva, e o dia de hoje e, talvez, te odiar também. Até te encontrar naquele café que, em todos os dias chuvosos, tu vai para que ninguém te veja lendo e tomando um pingado, porque saberiam que tu mentiu quando disse que não conseguia fazer essas coisas em dias de chuva. E eu, eu vou te desmascarar.
***
Molotov
Que pena. É uma pena mesmo que esse encontro tenha acontecido assim tarde, assim tão tarde da noite. Já com os copos vazios e as cabeças cheias, que pena. Vai e vem de bilhetes inconsequentes, ou melhor, com consequências trágicas, não fossem patéticas. Essas ninfas, essas musas, essas mentes – torço meus dedos e suspiro pensando no coquetel molotov que veio a propósito de beijo de boa noite. Quando me dei conta, a garrafa já tinha explodido e o quarto pegava fogo – labaredas entre nós – senti os cacos de vidro me cortarem a cara. Abri a boca para respirar, os cacos na minha boca, mastigo. Vidro quente. Lábios, dentes e língua machucados. Fico com a boca cheia de sangue, engulo tudo. Pedaço de dentes, língua, lábio, vidro, gasolina e fogo e tento te alcançar com as pontas dos meus dedos. Tu está queimando. Tua pele arde e teus cabelos tomam um negror de carvão antes de ser brasa. Tu está imóvel, impassível, impenetrável. Vejo um homem surdo que sorri e me estende a mão, e por ser surdo não se afeta nem com o barulho do fogo, nem com o que em mim se faz mais estridente. O homem me abraça, eu me desvencilho, corro na tua direção, enlaço teu corpo que, abrasivo, me faz bolhas. Meu corpo dói inteiro. Sou carne, estou viva.
Natalia Borges Polesso é escritora, professora e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS. É autora de “Coração a corda” (2015) e “Recortes para álbum de fotografia sem gente”, obra vencedora do Prêmio Açorianos (2013) na categoria contos, e também da tirinha tosca “A Escritora Incompreendida”, publicada via facebook.
Foi-te uma espécie de perda
Começo como se perderam os dias
De uma infância. Falo-te assim como
Quem se despe do corpo e chega
Recém-nascida. Aprendestes a respirar
Debaixo d’água e anos depois
Quando as folhas mudaram as estações
Mesmo emergisses dos ares
Para pousarmos em teu abstrato
Tudo que fosse relativo –
Os segredos encolhiam-se nas areias
– o mar inteiro dentro da voz – Se venho
De uma espécie terrestre, é por conhecer a terra
Se me confundo com as ostras, é por guardar
Demasias de sentimentos. Mudos e silêncios.
Uma longa história de pirâmides e desertos
Furtos às montanhas. Mas nas ruas todos seguiam
Acontecimentos decadentes, quando a ciência morria
Outra espécie de perda, você disse
Nos fica uma assombração
Uma disritmia respira sobre os pântanos
Essas botas enlameadas a efêmera partida
Hoje, voltaríamos com as chaves para a casa
Pela rua do sol da infância.
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Monotonia submersa
Entrar no teatro pelas portas dos fundos
Esperar até que as cortinas se fechem
Sentar-se numa cadeira detrás do palco
Baixar os olhos e soletrar um verso
Heroico com as formas de adeus.
Mas o que queríamos era antes acreditar
Saber que detrás do palco se encenam outro
Espetáculo: vida, suas
Guelras sanguíneas em separações
Entrar pela casa sem que a soleira
Conte-lhe a presença de seu ranger noturno
Os objetos tão presentes querem ser olhados
Pela ausência e ter nome de pertencimento.
A carnadura dos móveis estala
É um estar em si
Que já é de si esse saber
De estar inteiro
Diante de nossa presença
Mas o que queríamos eram seres abissais
Abismos, no corpo
Filamentos imemoriais
Que sem voz estalam
Feito a lenha seca, o fogo da lareira
Essas coisas falam e destravam
Os porões da memória
Ir até a parede de azulejos frios e suspirar
Roucamente sem que fosse você
Que pronunciasse a perda
Antes que os olhos estivessem partidos.
Entrar pela casa como se fosse todo dia.
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Estrangeiro
Em mim o outro lado
Metade enigma quando do atlas
Os países me acobertam em ruas
Embandeiradas de meus refúgios
O gosto de nata nas algas de alguns sonhos
Como se ao abrir a janela as neblinas fossem
Respostas das antigas máscaras da sinceridade
Amanhecendo azul e alguma ilusão de calma
Recordasse a expressão branca do último personagem
Que morreu em mim. Antes da gaveta aberta o outono
Quase-memória escorrendo por tudo que ainda não fui,
Mas é vida esse elo perdido, dentro de mim o rosto
A espera da mão que adormecerá meu sonho.
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Contornar o fino fio
Eu não sou o que digo
Mas é como se fosse
Digo gaivotas asas feridas
Em queda dentro de duas brancas
Pupilas ao vento. Elas voam.
Num ato de deslocamentos
Entre o instante e o antigo
Entre a terra e o céu
Como se dizer estivesse fora do que eu digo
Como se quando eu falasse
Algum recorte de mim
Fosse um fio sobreposto de imagens
E fosse esse céu
Onde avisto gaivotas
Regressando dentro da língua
Essa espécie de duplicidade
Presentes em duas asas abertas
Presentes ao dizer assim contornar
As sílabas pelo fino fio
Será um jogo de alegrias
Seria jogo de tristezas
Ou um jogo de alma e corpo
Prévia anunciação
A algum recorte que fita
Dentro desse meu olhar, teu olhar.
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As dádivas entregues
Quando pensas no mundo
Aonde levas o destino de delírios
Ou curva-te serenamente
Às dádivas entregues?
Amanhece como a forma condensada
Em chão de terra vermelha
Segue a orfandade
Espelhada pelo mapa
Onde fumaças de nuvens como mísseis
Eram países entre um oceano
A linguagem destituída da origem
Em que se apreende
No teu próprio corpo.
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Desterro
Teu canto
Território de raiz
No arquejo das estações.
Em pousos irregulares
Ouço o murmurar
Encosto a face ao solo ancestral
Ressoando a língua
Tateando no escuro
A terra morada
Gruta de movimentos
Ondulantes no céu da boca.
No corpo, entre fogos e canções,
O rapto das danças selvagens
Incessantes passos erigem ruídos
Nos refúgios da noite.
Entre o gesto e o risco no ar
Aparição do instante
Moldado ao barro,
A espera do nascer de um sol
Uma ilha sem rota sem mapa
Desliza ao centro
Onde se ilumina,
O canto, alquimia remota
Um mar indiviso rio.
Maria Carolina De Bonis é autora do livro Passos ao redor do teu canto (Editora Patuá, 2015).
palco é precipício
passo raso falso risco
quando possível
incerto e plástico
de impacto previsível
ou talvez
dor inteira
no instante mínimo
em que se faz laica ………………….a vida
entre risos, rumores,
vaias, choros, mitos,
é ainda assim
o silêncio interno
fingir explícito
a múltiplos cúmplices
e por fim
sedento de aplausos
o pé tão firme
em chão descalço
exige de si
o alívio, o delírio
de ir além do recuo
– à queda imprescindível.
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Leitura neon-reciclada
Despetalo
do olfato
o gosto pelo cheiro
de livro velho
livro novo
e adapto-me
a um novo formato
do qual a brochura
– outrora
imprescindível
enfeite cabível na estante – já ñ vincula páginas
pq hj
discorro os olhos
sobre a luminosidade ………agressiva
sem cheiro ou tato preenchido posto q a matéria
ñ mais palpável
morre
imune
a rabiscos riscos
dobras rasuras
fixada que está em tela
luzes cliques
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assim é caetano
vez ou outra ..amargo
avesso a quase …..tudo
e até no papo
solto
que se bate
qualquer murmúrio
uma frase.
amar ..o caetano
dom de poucos
pq difícil
separá-lo
da arte
tragá-lo
sem som
deixar o público ……sujeito
à parte.
e quando cai
caetano
no júri moral
do populaço
o que fora amado
em singelas canções
sofre agouro …..inflamado
de quem detesta
quando ele testa
numa ideia
num compasso.
preferem vê-lo
ao mar
naufragá-lo
para se houver
talvez braços
achar ilha
em que se ache
[isolá-lo]
ver o caetano
delirado
mirar-se n’águas
a perguntar:
e pq não amá-lo?
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Quentura
Esta quentura
suor e queimaduras
q o sol impõe e apavora
nos dias de verão
só não me causam
o subversivo gosto
de reivindicar
paulistanas garoas
ou horário marcado ….preciso
das chuvas q assolam
Belém do Pará
pq a luz q irradia
em Salvador
torna suave
meu olhar cansado
nas esquinas
de onde brotam
seios
quadris e coxas
q me convertem
o ensolarado grito: “Não acabe na mulher a menina ………………………….– Deus queira: a deleitosa estação ………………………….– nunca termine.”
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Sem brechas para Brecht
Ter a irresponsabilidade
de Dalton Trevisan
– sem a necessária Curitiba –
é mais revolucionário que a bandeira de Brecht.
O cinismo urbano de Machado de Assis
é infinitamente mais oblíquo
que qualquer personagem proletário
de Brecht.
Até mesmo a proposital podridão de Bukowski
fede mais que os uniformes nojentos
dos dramas de Bertold Brecht.
(tudo,
pisando a grama,
como quem não sabe de placas).
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Ofício
poesia é ofício de alto risco
que aos dedos do poeta
sofre embaraço
do inacabado esboço
teimosia do diamante …………quase pronto
sempre apto a ser lapidado
ou por desacerto
súbita menção a dilacerá-lo
lançar sem pudor
todos os versos ao lixo
pelo nobre motivo
do eterno recomeço
– nunca desperdício.
Cazzo Fontoura é poeta e escritor; escorpiano corrompido; pai de João, filho de Eva, tem uma mulher que é só dele; publicou um livro de poemas: Leitura neon-reciclada (editora organismo, 2014) e um de crônicas: Anticarta de Dona Lúcia – crônicas da fatídica copa do mundo no Brasil (Amazon, 2014); assina hoje o projeto Selfie Poesia (entrevistas com poetas), no youtube.
só este pássaro perdido
que ainda insiste suas asas.
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Uivo
Já não escuto o que é agudo ou grave
Mesmo as aves são mero voo obscuro.
Ouço apenas os mudos,
estes lobos de olhares ocos
a percorrer bosques de fome,
onde tateio uivos.
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De como morder
Meu amor não me beija os pés.
Ele morde meus calcanhares.
Eu nunca escapo, embora tente,
e quase sempre engasgo
de também o ter entre os dentes.
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Tudo que sei
Posso saber do mar distante
Pelo barulho longe
e do sol que brilha
pela sombra que o esconde.
Posso saber que a terra gira
só de olhar para o alto
e, tonto, olhos fechados,
ainda o sangue em correnteza
pela erosão do corpo gasto
na marcha da vida,
sei o que você não disse
na hora da despedida:
– Somos nossa única certeza.
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Mensageiro
Era como um guerreiro
por entre as farpas do destino,
ia perdido e em seu caminho
colhia espadas que caíam,
o fio cortante de uma lembrança,
a lâmina cega de uma paixão,
o corpo em talhos de quem curar-se
sempre e em vão ainda tenta,
nesta sina de mensageiro
que em si leva a sentença.
Marcus Vinícius Rodriguesnasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014) e “Arquivos de um corpo em viagem” (poesia, Editora Mondrongo, 2015). Seu conto “A omoplata” venceu um dos concursos Newton Sampaio, edição 2009, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná.