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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Ellen Maria Vasconcellos

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

O espetáculo da pedra

 

selvagem ela
levanta, cuida das folhas das plantas
tira os nós dos cabelos
as raízes dos dias cheias de umidade
trabalha em silêncio
até a noite quando avança
pelo chão da sala e olha o teto
dedos entrelaçados atrás da cabeça
cresce sem perceber
também se alimenta de luz
até que não se cabe.

 

 

 

***

 

 

 

Sereníssima

 

Sento e espero. Não posso respirar fundo. Me dá tontura e sinto que se antes de afogar, desmaio. Escuto desde aqui a máquina fazendo seu trabalho. Ela gira a um lado e outro sem sair do lugar, as roupas magicamente clareiam. O volume baixa e depois volta a subir. Enche o tanque e mergulho de olhos fechados. Tudo submerso em água macia. Não sinto minhas lágrimas desde o chão da sala. Veneza. Parto limpa a torcer peça por peça. Vou ao quintal. Estendo em corda bamba e outra vez, me estiro. A forma como o vento leva em gotas este silêncio das mangas não se repete.

 

 

 

***

 

 

 

Mergulho impossível

 

Tem um pouco de lava
Tem um pouco de gelo
lava endurecida
gelo derretido
e o silêncio das pedras reina
na encubadora das perguntas
sobre o início e o fim de tudo.

 

 

 

***

 

 

 

Poesia menor

 

Quando estou meio cheia
uso canudos em casa
Bolhinhas no fundo do copo
de requeijão

E a certeza íntima
E a dúvida exposta
Parte de mim, líquida
Outra, gasosa.

 

 

 

***

 

 

 

Dança ou Luta (girl power)

 

Eu já tenho o não antecedido
a indiscrição da inércia
o “privilégio” da derrota
o enunciado aceso que impõe o passo
e a verdade herege do tablado
que teima em tentar me controlar.

Mas eu também tenho
a possibilidade ainda que reprimida do sim
a força que desacata o fracasso
a vingança que corta a memória
o movimento entre o improviso
e o fandango que insisto, delicada e furiosa, em bailar.

 

Ellen Maria Vasconcellos. Natural de Santos, formada em Letras na USP, onde finaliza o mestrado em literatura contemporânea. Autora do livro de poemas Chacharitas & gambuzinos, publicado bilíngue (português e espanhol) pela Editora Patuá (2015). Tradutora do livro “Ângulo de guinada”, do autor Ben Lerner, publicado em ebook pela e-galáxia (2015). Tem seus textos publicados em diversas revistas e antologias no Brasil, Chile, Espanha e México. Toma fanta uva e café sem açúcar. Acredita em fantasmas e desconfia dos vivos. Enxerga muito bem, mas às vezes fecha os olhos. Não tem o coração de pedra.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Tanussi Cardoso

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

PAISAGEM INÚTIL

 
porque não haverá segunda vez
meus domingos hão de ficar
plantados
na terra ou nos fios
onde se aninham os pássaros

errar não é humano – é santo

pecar é carregar nos ombros
os erros de Deus

 

 
***

 

 

 

AUTORRETRATO

 

 
O tigre, em silêncio,
é o que penso.

Quando ataca,
é o que posso.

 

 

 

***

 

 
A HORA ABSOLUTA

 

 

“Sou como o corifeu medieval
que percorre as aldeias e vai embora.
É necessário que quando eu partir
o palco não fique vazio.”
Franco Basaglia

 

 

Estranhos
meus mortos abrem as janelas
penetram em meu quarto
e me sufocam.
Insinuantes
me beijam e sangram em mim
alegrias e pecados
acariciando, sem pudor
meus sonhos, minhas partes
e meus ossos.
Meus mortos e seus gemidos
têm rostos, sinais
e olhos que fagulham
calafrios.
Ousados
vêm no breu do sono
e dormem em minha cama
e me despem
e se debruçam sobre meu corpo
silentes e queridos
e rezam
e choram por mim
como a lua clamando
sua outra metade
como um espelho
colando os próprios vidros.
Meus mortos sem censura
meus delicados mortos
que, à noite, penteiam meus cabelos
e, solidários, preparam o meu jardim.

 

 

 

***

 

 
QUADRO

 
As moscas impacientes
da rodoviária
espantam o sono
das estátuas.

 

 

 

***

 

 
RETRATO

 
Sou o que escrevo.

A busca permanente
da palavra exata.

E sua ausência.

 

Tanussi Cardoso nasceu e vive no Rio de Janeiro. Formado em Jornalismo e em Direito. É poeta, crítico, contista e letrista de MPB. Tem poemas publicados em diversos países e 11 livros lançados.

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Alex Simões

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

oh ménage

 
porque existe a meta física
e é tua carne que procuro
foda-se a tradição lírica
saio de cima do muro
e se a reta é meio oblíqua
e viver não tão seguro
lhe proponho uma promíscua
relação a dois e juro
sermos tão multiplicados
nosso encontro tão fictício
que bastamos prum animado
sexo grupal vitalício.
quantos vivem em você?
com quem posso me entender?

 

 

 
***

 

 

 

meu canto pras paredes

 
o preconceito é uma parede enorme
contra a qual desde sempre me empurraram
mas se tentaram e não me executaram
é que aprendi bem cedo que não dorme
o apontado: preto bicha pobre
no paredão cresceu e ficou forte
em que pese a dor que o véu da morte
bem do seu lado alguns amigos cobre
e é por eles que não me vitimo
nem quero mais derrubar a parede
apenas canto para além de um íntimo
desejo: reforçar rizoma e rede
cheia de nós, que não estou só, sou vivo.
picho a parede: verso afirmativo.

 

 

 

***

 

 

 
e viva à liberdade de opressão
na terra onde quem tem muitos direitos
exerce o seu direito à opinião
de ser melhor que quem não tem direitos
porque direitos há, não pra insolentes,
aqueles que reclamam sem saber
que nesta terra os bons e os inocentes
são assim definidos ao nascer
e quem nasceu no meio de pessoas,
que são consideradas de segunda
classe, tem chances de viver de boa:
falar a língua deles ou da bunda
viver mexendo pra escapar do abate.
entre a guerrilha e a festa, deu empate.

 

 

 
***

 

 

 

se queimamos
(soneto alexsandrino e vândalo)

 
se queimamos neurônios fazendo poesia
em manifestação, em protesto, em-progresso,
deitado em rede em casa no sofá congresso
no altar no chão da praça, bar, tabacaria
sim queimamos neurônios fazendo poesia
ganhaperdemos tempo bloqueando o acesso
ao projeto do decréscimo do ingresso
do contingente em excesso à perolaria
porque escrever é contra porque escrever é incerto
porque o poema só existe em um livro aberto
e não há nada que cale a boca do poeta
não há juiz que dê um outro veredito
se o poeta-réu deixou em seus escritos
um pouco de sangue ou Pandora, na boceta.

 

 

 
***

 

 

 

bursite, tradição e tá lento, o individual

 
doem-me os ombros, tantos são os pesos.
línguas mortas e vivas misturadas,
a plêiade no peito embaralhada,
os esquecidos como contrapeso.
mil vozes confundidas no desejo
de ter consigo a minha entrelaçada
e o medo de parar na encruzilhada,
entre rimas ideias e solfejos.
a folha em branco amarelada está.
há sempre um risco de perder-se, há
sempre um mesmo fantasma em breve assomo.
o mundo derretendo-se em milênios:
poetas trôpegos, prestos boêmios,
eu e você cantando velhos nomos.

 

 

 

***

 

 

 

sóbria declaração

 
não me inspiras vãos clichês caducos,
versos de amor com intenções de morte,
linhas inúteis mas com tom de porte
palavras tolas para o amor de eunucos.
não me inspiras mais do que tu és
e és o que vejo, nada mais que isto,
sou o que quiseres e por ter-te visto
lanço-me a ti, mas não te beijo os pés.
é que no amor não me contenta a espera
nem mesmo a dor inútil de não ter.
prendo-me à vida, não curto quimeras,
dou-me por partes, se tiver prazer.
neste soneto que a ti dedico
peço que leias o que não, escrito.

 

 

 

 

***

 

 

 
à literatura em si

 
este soneto não quer ser a obra
de um autor desesperado e circunspecto
que produz aos magotes poemetos
para neles caber o que foi sobra
de outro poema que não se quis sobra
do nariz entalhado por Gepeto.
este soneto não é um soneto
e este quarteto não é do outro a dobra,
nem sexteto os tercetos em sequência
de rima interpolada, aqui cosendo
a virtuosa e vazia inexperiência
em um registro que vai, num crescendo,
da língua que se fala sem ciência
a um saber que se constrói: fazendo

 

 

 

***

 

 

 

os versos? esconderam-se no escuro.
portanto, sempre dizem mais, que eu saiba.
esperam decantar, para que caiba
a poesia nos corações duros.
palavras não significam somente
o que delas esperar. poemas
não são meras conjunções de monemas.
não os entendas, apenas os sente.
abre o coração mais que os ouvidos
e recebe a poesia com amor,
sem pressenti-la, deixa-a, por favor,
pronunciar-te o mal dos consumidos
e ainda os prazeres incontíveis.
e expurgarás a dor com que convives.

 

Alex Simões é poeta, tradutor e performer. Publicou “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). Tem participações em diversas revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Os poemas aqui publicados integram o livro “Contrassonetos: catados & via vândala”, lançado em 2015 pela Editora Mondrongo.

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Fernando Naporano

 

deborahdornellasum
Desenho: Deborah Dornellas

 

Sem Os Limites Do Círculo Terrestre

 
Juntos sabemos a cor do silêncio de Deus
que Nerval nos trouxe em ouro fervente

Respiramos em azul incerto-aberto
o odor da claridade ágil,
em passos muito rápidos,
arremessando clareiras na mata

Seu sono em essências de rocha
ao meu chamado respondendo
com rosto de margarida-sem-fim
contrário ao pó de todos os conteúdos

À minha despedida, um lacinho de ternura
acalenta o prazer em ver-te no metal do sonho

 

 

 
***

 

 

 

Luz. Speedball.

 

quisera mais e mais a introspecção da montanha branca

lá donde as coisas diminuem…………………….diminuem
os silêncios mudos não mais que claras………passagens
a vida estremece…………………..é uma recusa a respirar
ao perfil das feridas…………………………….sem pranto

Da sede branca………………..outra sede branca

a alma aberta……………………..sem dificuldade
o corpo é pequeno……  .a dimensão transitória
sobremaneira…………………………é o incêndio
o músculo………..(!!!)………………..no deserto

deslumbrante…………serenidade branca íntima
tudo é claro……completo, o espelho acende-se
nenhum reflexo escapa
nenhum reflexo….arde

 

 

 
***

 

 

 
As sujas maçanetas da razão
finalmente estavam todas avariadas

As tempestades reclináveis do espírito
eram a varanda da grande festa da solidão

 

 

 

***

 

 

 

Dai-me, oh horizonte-em-dardos, o crepúsculo brancovioláceo
ou a maré das luzes libertas.
Não permita-me contemplar o céu azul-claríssimo
que se agarra, sem sutilezas ou tempestades, nas pro—-
——-fundidades do Vazio.

Dai-me, leito escuro do alto, algo além do lodo de vidro
da estrela que não veio.
Não proiba-me de inundar-me no mecanismo das lágrimas,
sem pressa nas roldanas, tisanas da dor,
na claridade de teus olhos que cegam para O Sempre.

 

 

 

***

 

 

 
Uma espécie cobalto de amargura
vaza-me as entranhas
nas valas do sol a se por
no extremo desolado do Tejo

Ainda há luz
nas janelas
des
pe
da
ç
adas
da alma
. algum resquício de cor,
ardor do suplício
em melros trucidados nos campos da memória.

 

Fernando Naporano cursou Letras em São Paulo e Lisboa, mas sempre atuou como jornalista, radialista, label manager e músico. Gravou três Lps com sua banda Maria Angélica Não Mora Mais Aqui.  Entre seus principais livros inéditos de poesia estão “Abandono Devolvido”, “Estrelas De Gin”,”Uma Lâmpada Entre Os Lábios” e “Nas Colinas De Valdemossa Com O Fantasma De George Sand”. Tem um anti-romance – também inédito- chamado “Não Era Uma Loira Era Um Garrafa De Cidra”.
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106ª Leva - 09/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Roberta Tostes Daniel

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Deus me abre a corcova de pregador
esqueço parábolas.
O ódio acumula no tempo, nos móveis pesados.
Tudo perdi. No entanto, o amor das coisas breves.
No entanto, a ancestralidade.
Com os olhos desfolhados, as mãos cheias de feitiço
póstumas as mãos, a rondar o real além do real.
A neve suja do sol, Simenon, três vidas
a mancha o eixo infinito
do homem ordinário.
Quisera esvair o deserto
chamar de norte o começo
traficar palavras.
Tornei-me a arma
que me cala.

 

 

 

***

 

 

 
Uma casa perto
de um vulcão
pode ser
um rastro da gente
jamais extinto
a ciência nega
mas a lógica subvulcânica
do povo sustenta
evidências de nós
uma casa-oferenda
há quarenta milhões de anos
lava oceanos
e um barco de orixá
faz a vez de vaso
de planta
subvertemos o risco:
imergir e germinar
são movimentos
inerentes às casas
às gentes
e aos vulcões
um subúrbio ou iguaçu
nada é novo no epicentro
desse rio
que não nos suplanta
somos o alicerce
a planta da casa
nasce dos pés.

 

 

 
***

 

 

 
Rio-Niterói, 1973

Os senhores me veem derrubando pistas
como se desmonta estrada
como se inventa ponte
emerjo de nada a nada
cresço com minha surdez.
Feita desaparecida
santa metálica
dos lábios de esterco
baía, vem me dizer
por caminhos de resvalo:
uma mulher ou uma cidade
se arrastam por enigmas.

 

 

 
***

 

 

 
Retrato

 

Algo da dureza dos séculos
lança sobre meu rosto
os faunos da tarde.
Lívido ante laranja
mágicos, incautos
traços – traçantes.
Sabem sazonalidades
zonas de sombreamento
contornam o queixo
regam a fome –
entorta a boca.

 

 

 

***

 

 

 

Escrevo para satisfazer o desejo de Deus.
Este que aponta – Nonada.
Escrevo para ser Deus.
Com a fortaleza dos dedos fracos.
Dos dedos sós, dedos de vício
dedos brincantes.

 

Roberta Tostes Daniel é carioca nascida em 1981, cursou jornalismo, mas se formou em Letras. Escreve em blogs há mais de uma década. Já colaborou com diversas revistas literárias pela internet e participou de algumas antologias. Não tem livro publicado. Mantém o blog Sede em frente ao mar.

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Janela Poética IV

Ana Peluso

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Enquanto teces maledicências
e enredas as saliências dos rumores nos teus cantos

entôo cantiga antiga, versejo mil idiomas
não te vejo e não te sinto
há muito o nada não existe

tua essência arrefece ante o tentáculo que suga
e sorve a si
as insossas tortillas de amora
deferidas no ontem após o jantar

enquanto a distância que te sucumbe em êxtase
e que ecoa em catedrais de gesso
te faz face

te vês são
no grande espelho invertido

pelo hábito
monge
que a ti consagras
nesses dias em
que não amas

 

 

 
***

 

 

 

Você sabe o amor
quando ama o ruído
o abalo
o obstáculo
a falta de sentido

e ainda é amor

 

 

 
***

 

 

 

Filosofia da seca
metafísica das rochas
um punhado de sal
no éter
oito sóis apagados de Andrômeda
uma mulher vestida de seda

a palavra amor enterrada
na areia, no coito
um camaleão cinza
…….a ciência do abandono

outro dia te vi
absorto
fazendo as contas do teu pessoal
dando baixas no teu pessoal
……porque o coração é um músculo breve

 

 

 
***

 

 

 

A fera
detalhe incômodo
em abrigo tímido
sufoca
todas as ilusões a respeito da calmaria

da infinita falta
…………………….do ar de outra fera

do atrito do ontem que cisma com hoje
desalinha o agora
dissolve a cor, a forma, o cheiro

de dentro de tudo que é a alma da fera
de tudo que é o coração da fera
que é a vontade da fera
os dentes da fera
é o sal da fera

assola sua boca
seca sua baba
e soçobra a carcaça
ressoando falta

 

 

 
***

 

 

 

Um barco
uma nau sem leme
o mundo todo aberto e sem paredes
o infinito fazendo arruaça
um medo desgraçado da desgraça
a espera sentada por um príncipe-peixe
o céu sem recortes e sem redes
o real estampado sem escrúpulos
a solidão dos pescadores e dos brutos
e uma âncora do tamanho do mergulho

 

 

 
***

 

 

 

Ser ousado como vento
destelhar ideias
forjar rumores
varrer as águas
confundir os olhos
conduzir o fogo
multiplicar palavras
separar amantes
exaurir a terra
esquecer o homem
libertar um deus

 

Autora do livro 70 poemas, Ana Peluso, 1966, abandonou Letras e Psicologia pelo Desenho Publicitário. Não deu certo. Aos treze anos sonhava ser Alquimista. Aos cinco, Bailarina, Pianista, Pintora. Aos sete, Professora. Costumava reescrever Novelas mentalmente. Livros, jamais. Catalogava Folhas colhidas na Rua. Esculpia Bonecos em borracha, Papel e batata. Imaginava um mundo feito de Palitos de Fósforo. Escrevia Diários. Hoje faz Sites em html1, retrô-total. Sempre foi Pisciana, só Parece que não. Os versos aqui publicados são do livro “70 poemas” (Ed. Patuá).

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Janela Poética V

André Rosa

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Flor e espinho

 
E vem o amor com seus rompantes
Suas ausências, seus sofrimentos
Trazendo seus zelos, suas impaciências.

E vem o amor, martelo agalopado,
Estragos irreparáveis
Com seus olhos de redenção.

E vem o amor, como se pétala,
Flor e espinho.

E vem o amor, como se desejado hóspede
De farta mesa.

E vem o amor, então.

 

 

 

***

 

 

 

Hegel

 
Minto para tecer palavras,
Inventar dialetos.

Minto como um livro édito
E sua tradução de cogumelos.

Minto como a noite insuspeita
No alvorecer dos instintos.

 

 

 
***

 

 

 
Cristal extremo

 
O algo tranquilo e pérfido
Jantar que esfria, asséptico.

O vinil estanque no risco,
Estrofes de um mesmo ruído.

O copo, cristal intrépido,
No muro que insiste extremo.

O tapa que não levo, mas percebo.

 

 

 
***

 

 

 
Feltro do universo

 
Eu,
Absurdo concreto,
Findo-me em camas
De feltro.

Minhas mulheres,
As abduzo.

Eu,
Universo.

 

 

 

***

 

 

 

Pedras e quintais

 
Toco a tua pele esquecida nos quintais
E alcanço os teus gestos inatingíveis
Que habitavam a minha rua de pedras.

Beijo o teu ouvido aberto em rosas surpresas
E em páginas escritas a vinho.

Conjugo o teu verbo peculiar
E amasso entre meus dedos
O barro escuro do teu olhar.

Desfaço os pedaços do Cristo
Suspenso e trajado, imagem de madeira.

 

 

 

***

 

 

 
Fragmento

 
Quando os versos do equilíbrio soam
Nos degraus rangentes
As imagens quebram-se.
Imenso gesto solar de um dia público.

O fragmento arqueja
Ávidos e únicos,
Seus instintos de pedaço sobejam.

 

André Rosa nasceu em Ilhéus-Ba. É  graduado em História com Pós-Graduação em História regional (UESC). Fez Mestrado e Doutorado em História social (UFBA). Autor dos livros: “Ilhéus: tempo, espaço e cultura” ; “Família, poder e mito” ; “Memória e identidade”; “Quintais do tempo”.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Rita Medusa

 

sinisiaconi in
Foto: Sinisia Coni

 

 

Lâmina para o menino nu

 

Doura um colar de ossos
Na tua tormenta

E o trânsito desta fome
Desola jugulares

O ranger da tua arquitetura
arruinou meu sorriso

[Meu coração
no retrato 3×4
lambe tua porta]

 

 

 
***

 

 

 
Uma cama pra ninar teus colapsos

 
você é o sonho dentro do sonho
uma pérola te cuspiu depois de uma viagem de ácido
Banido dos alarmes
já não pode contrabandear usinas internas
e maquiar formigas
Teu lençol canonizado é a casa dos aflitos
Bebem da tua cicuta os desavisados
exalam da tua doçura uma espécie de ferida
e fazem da tua língua uma lança

Caem na tua cilada os lascivos
e eu que não sou diferente, decorei os passos até o oráculo
fui tomada por um êxtase cego
Contornando fantasias de tigres com os cílios
enquanto as aves de rapina te observam
envenenando a gravidade dos meus sonhos
Me preparo para o próximo salto
nas escadarias da saída de emergência
Não finjo indiferença
prolongo a tessitura solar
com devoção maníaca
é o que me restou de essência
pra te cantarolar as delicias terríficas
enquanto você deita no colo da tempestade
pra parar de me sonhar

 

 

 

***

 

 

 

A identidade das mãos

 
somos bombas ambulantes que adoram
.detectar a identidade das mãos
nossa cama de colapso
a inspiração das ruínas que nos protege
somos belas catástrofes cativando um odor de esquadros
com nossas armas e delírios de controle
arrastando corações sombrios e uma forma de amar inconveniente
instrumentos musicais, trapos sujos com orações, apelos e a violência do nosso olhar
a identidade das mãos pode ser um borrão avermelhado
que não sabe dormir
porque o hoje é um cansaço que o sono não cura.

 

 

 

***

 

 
Infâmia escarlate

 
exausta
de não ser lida
de não ser despida
estranhamente interpretada
cuspida e desastrada
fermentada na tua bebida
cultivando línguas inventadas
era escândalo e desabamento do carrossel das injúrias:
atropela-me novamente com teu desejo
não me deixa dizer mais nada

colecionadora de fracassos
e dos céus inflados
da lascívia roubada
antes de lavar a carne
para não dormir

 

 

 

 
***

 

 

 

Cadernos de esgrima

 

imagina enquanto costura danos no papel
a ausência da carne, da água, do amor, das armadilhas
das ilhas que surgiam entre eles quando as portas se fechavam
havia janelas por onde a corda os enlaçava
havia porões onde esconder as meias verdades
mas nunca mais houve saída
e eles exerciam o amor ao som da grande desolação
com seus serrotes e violinos e batuques coronários
o verbo da pele empurrando os nervos
escada abaixo
para o mistério da espiral
na sombra da estrada paradisíaca
pela profundidade do canto das cordilheiras
no soco que transformamos em medalhas
e os beijos que se revelam chagas
depois que o livro fecha
e eles escorrem como tinta
andando desencarnados nas fronteiras
entre a palavra e o silêncio
um hiato de desejo
desatina

 

Rita Medusa, paulistana, nascida em 1980, formada em Psicologia. Escreve para sobreviver a si mesma. Os poemas selecionados fazem parte do seu primeiro livro de poesias, “Hipnose para um incêndio”; a ser lançado futuramente.

 

 

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Janela Poética II

Airton Souza

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

excomungo a dor do desamor
eclesiástico o coração bailarino
deixa para trás o compasso

rego a carga amarga
que traz esse girassol solitário
repleto de semântica
& nenhum resíduo metafísico

intento fuga

ditoso na perdulária
insinuo sutilezas
com a invenção
tácita das rugas

é certo que ainda não percebemos:
a madrugada?
é só um varal teimoso.

 

 
***

 

 
te veste de enseada, fende
a geometria das flores, veja,
o ilusão é um barco de auroras
orbitado de cinzas
adubado jardim
revestido de inverdades

contemplar a loucura
é mais selvagem
que aplaudir o louco

por isso cultivo mentiras

pelas tuas Iris
recolho arbustos
tenho neles
a mesma mania
de girassóis amanhecidos.

 

 

 

 

***

 

 

 
traçaremos o teu itinerário
a rota exporta
em um compêndio
………………………………..estranho

acomodado
para viagem de retorno ao pó
& renúncia

penso que agora
sabes escutar silêncios
mais que a noite
enquanto eu bebo
a cronológica infância.

 

 

 

***

 

 

 
tecemos um porto atomizado
& sem a cor dos enredos
………………………………….absurdos
das rotineiras cidades acetinadas

segredamos o medo do escurejar
quando as mãos ainda
não tateavam sentidos

um campo nos convocou
apressado fortes sem dizer
……………………………………….(a)deus
agora deixo sempre a porta aberta
e o peito em riste
ca(n)tando paradigmas.

 

 

 
***

 

 

 

chegaremos de corpo & alma
ao outro lado
da metafísica emparedada

mastigamos até aqui
………………………………………inquietações
[sa(n)grada idade]
no tenso mundo

avesso a dialética
com sua carga interdita
a forjar caminhos
vagamos aventureiros
no que funde perenidades

pela certeza:
há melodias e cartilagens
na árdua tarefa de ser humano.

 

 

 

***

 

 

 
impossível recompor o homem
decomposto pai
plasmado com o brando da casa

nas minhas costas
incrustaram os sóis dos dias

se configuro fatalidades
não suicidarei a inteira frequência
de cenas & centelhas
diariando ressentimentos
iguais aos dos navios
envelhecidos com as cicatrizes das águas

esvaziado de emoção
descobrir que a infância aflige
o recôndito espírito na existência de mim

levo ressentimentos desiludidos
de atormentar destinos.

 

Airton Souza é poeta e professor, nasceu em Marabá, no Pará. Licenciado em História e pós-graduado em metodologia do ensino de História, além de licenciado em Letras – Língua portuguesa, pela UNIFESSPA – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Tem participação em mais de 60 antologias literárias. Publicou 20 livros de poemas.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

George Pellegrini

 

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

 

O Pai (Paisagem amorfa sobre superfície plana)

 
1. [a desculpa]
Por todo esse caminho de ódio
por todo esse chão de abandono
creiam-me, meus filhos
havia uma intenção maior de acudir o mundo

Por isso
tirem-me da cabeça
o perfume das baleias
e o seu candor

Não quero
em inferências
amarrar o tempo
Não quero ditar
com que madeixas amarrar o vento
porque de sol, a vertigem
porque de chão, o suor
porque de lastro, o falar estreito
o fulgor desfeito
o farol

Por isso, filhas de meus caminhos
abracem as estrelas
que passem ao seu alcance
porque viageiras de outras vertigens

Abracem os meus cabelos azuis
meus olhos autóctones
porque únicos
no despenhadeiro da perdição

Abracem as tímidas lágrimas
que um dia irão brotar
como prova do ensinamento aprendiz
Acompanhem seu nascimento
e sua caída louca
como uma intenção suicida

 
2. [a verdade]
E quando todos olhavam
as marginais imagens
produzidas por meus gestos

E quando todos traziam
por baixo das pálpebras turvas
dos olhos comandados
as armas da censura

E quando todos diziam
em inoportuna voz
dos possíveis erros cometidos

Eu lhes ofertava a parede
com a paisagem à óleo
de brincadeiras ao ar livre

Eu lhes ofertava o livro
com histórias da selva
de animais encantados

Eu lhes manchava de amarelo:
um único ponto
na superfície negra
para que explodissem em luz

Eu lhes entregava
o vaso de flores frescas
roubado da mesa contemporânea
de minha tia Anita
de meu tio Orlando
de minha tia Carmélia

 
3. [o castigo]
Vieram sobre mim
os lábios poucos de pão
as mãos ávidas de Maria

Vieram sobre mim
as pedras de Madalena
o golpe na única face
o cuspe ácido das estrelas
a corda cheia de cortes

Vieram sobre mim
a culpa pela insônia
por dias de pesadelo
pela agonia da noite
pelas lágrimas de Ester

 
4. [o discurso]
Há que sair um sol
no céu de infinitas bocas
para incrustar as espécies mínimas
de intenções prosaicas
de todas as línguas
que ao comunicar
transmitem o vírus
da intolerância servil

Hão de perder a coerência
todas as ideias vis
todo discurso alienado
todas as manifestações
em prol da paz e da ordem
de um tempo deserdado

Hão de esvair-se em sangue
as veias abertas pela tormenta
a jugular do medo
a inaproveitável lágrima

Mas há, também
que se encantar com o trivial
os ouvidos autocensurados
por tambores apáticos
por gritos estereotipados

 

5. [o conselho]
Meus filhos
busquem meu perdido rosto
nos velhos álbuns de fotografias
nos antigos negativos embaçados
guardados por suas famílias

Procurem meu desconhecido rosto
nas paisagens bordadas
por suas avós,
onde sempre constarão um girassol
uma casa, uma cerca, uma árvore
uma montanha, um sol

Busquem meus submergidos rostos
nas ações revolucionárias das crianças
quando saltam as pedras
quando inventam rios
quando constroem cidades imaginárias e fantásticas
quando conseguem enumerar as estrelas

 

George Pellegrini vive em Castanhal, no Pará. É professor de Literatura Hispanófona da Universidade Federal do Pará e Mestre em Literatura Espanhola pela Universidad de Sevilla. Tem contos, poemas e artigos científicos publicados em jornais e revistas. O poema aqui publicado integra o livro “As Confissões de Plomo” (Ed. Resistência – 2015), vencedor do Prêmio de Poesia Belém do Grão Pará 2014.