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105ª Leva - 08/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Monica Marques

 

Arte: Juca Oliveira

 

Traição

 

O segredo atrás da porta:
Olhos
absorvendo
cores e musgos
do mundo em silêncio

Segredo:
A cor sugando
..a vida
pelos olhos

 

 

***

 

 

Cisão

O pássaro não pensa
em seu corpo
O pássaro não pensa
em seu movimento
O pássaro não é dois
O pássaro é uno
É movimento
que se realiza

 

 

***

 

 

Rasgo

 

Trago o tempo entre os dentes
é preciso morder a existência pelas bordas
para que não escape

É necessário rasgar a carne
para o que está dentro
possa vir à tona

Rasgar entre a luz e a fumaça
Mexer as imagens com os dedos
Acordar entre a loucura e poesia
Sonhar até ficar vazia

Não há mais delicadeza
Apenas pólvora queimando sem rima
Poesia frita em óleo sujo
Translucidez

O ser é tempo iluminado
que se desdobra em sua espessura
e vira a esquina

 

 

***

 

 

Púbis

 

Raízes crescem nos pés
sobem pelas pernas
se entrelaçam nos pelos

Enterrando-se no concreto
descobrem a terra escondida

Arrancar toda a pele
Para encontrar-se com o avesso

Desfigurar as palavras
até que não sejam mais de ninguém

 

 

***

 

 

Fragmento

 

Espero pelo raio
na textura efervescente do dia
Os pensamentos
extraviam-se nas folhas

Padeço de fragmento
Hesitado vai o tempo

 

Monica Marques nasceu no carnaval de 1988 em São Paulo. É poeta, formada em filosofia pela Universidade de São Paulo e, atualmente, desenvolve projeto de pesquisa. Com Transversais (lançamento em breve pela Ed. Patuá) foi finalista e recebeu menção honrosa no Programa Nascente 2014 promovido pela USP.

 

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105ª Leva - 08/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Jorge Elias Neto

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

A logística das formigas

 

Reparem no descaso
das formigas
no espelho fosco
das placas de gelo.
Morrem,
…….aos montes,
…………em fila,
……agarradas
à impossibilidade.

 

 

***

 

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

Discurso para o cadáver

 

Teus olhos
não mentem
essa simplicidade
em dizer:
tão breve, a vida,
enquanto saturamos
o ar
com subterfúgios
e preces.

Do ponto
Em que se parte
– se esquece –
o espectro
da carne
………… – do irremediável.

Da carne
à cinza,
do torrão de
terra
ao desprezível
mármore
– questão alheia –
(prevalecerá a vontade
…………..do Universo).
Que os vivos
tratem da espessura
das trevas.
A você, o privilégio
da dimensão
onde se plantam flores.

Agradeço
a sinceridade
azul
em teus dedos,
ao lançares os dados
que julgarão
os versos
impossíveis.

E o que disse
da memória…
A memória sem lar,
desnecessária,
posta a ausência
cúmplice.

Se pudesse
te acenderia um cigarro…
Deixaria a guimba
………….pendurada.
em teus lábios.
(Como é bela e
…………..inútil
a última centelha…)

Logo
chegarão.
(A boca aberta da cidade
…………..despeja
………………..suas crias.)
Vestirei a máscara
e restarei
um momento – breve –
(o tempo de observar a indecisão
das chamas perante o choro
……….humano).

 

 

***

 

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

Clandestino

 

A verdadeira clandestinidade
se pratica simplesmente mantendo-se vivo
Jorge Elias Neto

Acorda-se do último sonho
em uma esquina vazia,
e o que se acreditava
se dispersa
além dos olhos.

O contorno das montanhas
desfez o sentido
das encruzilhadas
(desvios
só interessam aos apressados;
………….. e já não se tem mais pressa).

 

 

***

 

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

Os raios oblíquos da manhã

 

Poesia
não é encosto,
não é escora

Na primeira manhã
foi um entregar-se à dádiva
da escolha.
Passam os dias,
e as encostas
escorrem sob o peso
do que se repete.

 

 

 

***

 

 

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

Matilha

 

Amor: quantas palavras necessárias para
que um gesto se torne inscrito no tempo?
Hilton Valeriano

Nomeados
os lobos,
desembanhei os caninos
…… – incógnitos –
e ensaiei a dança
solitária
do uivo
na imensidão austral.

 

 

***

 

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

Fração do indizível

 

O branco desse gelo
é todo poema –
…….verdade possível.

Entre o amor,
e outras alucinações,
o inefável me acena
caridoso.

(A grande face
e sua biografia
…….de renúncias
e equívocos.)

Minha distância
não é exercício de retórica,
apontamento
de um ególatra,
tons pastel despejados
na boca de lobo.
Não há indiferença
quando parto
e retribuo
o aceno.

 

Jorge Elias Neto (1964) é médico, poeta, cronista e ambientalista. Capixaba, reside em Vitória – ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010),Os ossos da baleia (Prêmio SECULT 2012), Glacial (Editora Patuá – 2014) e Breve dicionário poético do boxe (Patuá – 2015). Colabora com poemas em vários blogs e na revista eletrônica Diversos Afins, Germina,  Mallarmargens e no Portal Literário Cronópios. Membro da Academia Espirito-santense de letras, onde ocupa a cadeira de número 2.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Camila Passatuto

 

Arte: Juca Oliveira

 

 Sobre Poemas

 

Nada contemporâneo
Há um arcaico olhar em mim
Que não sabe ficar de fora
Adentra qualquer alma que passa

Não há nada de moderno
Ainda amolo o poema
No fêmur
E descolo a métrica na mandíbula

E se a morte vem
Matuto que sou
Ofereço um café
Para a transa durante juventude

Nada de Andy Warhol
Tem Monet na minha testa

Nada de nada
E você vem
Prova e reprova

É que sou sujo e amargo
Velho em inédito

Nada contemporâneo
Há um poema, leitor,
Brotando no teu peito.

 

 

 

***

 

 

 

Das Guerras

 

Todo ensejo que orvalha da alma
Vem metralhar quem passa.

E olha…
Tua fé
Já não é.

Eu amiúdo
Versos
Para que não vá
Sem um doce (se quer).

Gritamos.

Sujo tua roupa
Com leite materno
Enrolo tua alma
À minha,

Nada por perto para se agarrar.

Filho,
O que sobra da coragem
São pequenas ervas daninhas,
Que nascem dos olhos
Dos que choram demais.

 

 

 

***

 

 

 

Bombardeios

 

Os bombardeios seguem a rotina,
Destroem e constroem.

Não sei meu choro
Já faz tempo.

As ruas vastas…
Ainda.
E repouso
Minha desilusão
Pelo batente

Observo tanta ganância

Minhas mãos sujas
De amor

E o mundo acabando
Com o pouco do eu
Que me resta
Na janela.

 

 

 

***

 

 

 

Manger un Réactionnaire

 

Por onde saliva
É caminho obscuro
Se o faz
Por más línguas.

Ontem um corvo
Açoitou minha sorte
Levou em algemas
As revoltas.

E deles, tão pertencentes,
O descaso calcifica
A frívola passagem
Por essa vida.

O mundo geme
E pede
Em jarra
Nosso sangue.

E nada a alcovitar
A perfeição
Com as almas
Incisas em sistema
Errôneo.

Ladram as partituras
Falsas
Da valsa sem reação,

E gritam em meio
à barricada:
“Homens
Que propendem à política
Matam sufocadas
As pobres poesias!”

 

 

 

***

 

 

 

Infante Moral

 

Eu recuso o tratado que o mundo oferece
Quero meu próprio tormento
Com os ventos que minha mente reproduz.

Paz. Edifico, desmoralizo,
Não adquiro sua cruz.

E o que você julga eterno
Na minha vida perece,
Muita lei e muita regra.

Olha o cheiro da liberdade…

Tem gente que até esquece.

Empurram um sofá e a arte de trena.
Vão medir minha letra
E criticar o poema.

Esqueci o clássico
O marginal
O cubismo em poesia

Não pude lembrar
Já que alienaram
Minha vontade,
Por pura hipocrisia.

(Quero mais esquina)

Eu confundia as letras
Gritava tudo errado
Era o feio certo
Mas entoava meu passado.

Hoje o mundo me concertou
Na falha da perfeição
E tento a cada brisa
Voltar à pureza daquela
Vadia claudicação.

 

Camila Passatuto nasceu em São Paulo. Escreve desde os 11 anos e começou atuar nos meios digitais, com blogs e participações em revistas digitais, em 2007. Entre os seus principais trabalhos publicados, podemos destacar: 2010, e-book “Apenas o Necessário”, co-autora da Antologia de micro contos reunidos pela Poesis, em parceria com a ETC Bienal, Fundação Volkswagen e Governo do Estado de São Paulo; 2012, Antologia “Nossa história, nossos autores (Editora Scortecci); 2013, escritora exposta na mostra de Twiteratura no Sesc Santo Amaro.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Germano Xavier

 

Arte: Juca Oliveira

 

OS PESOS

“Dame ilusion, esperanza, ganas de vivir y no me olvides”.
(Frida Kahlo)

 

 

sustento apenas
o status de sobrevivente
o dia que é azul no alto
a febre na maçã do rosto
o dito que por medo não saiu
o ar filtrado em filme termoplástico
são sintéticas as redes em que me fabrico

há um adesivo em meu peito que diz:
não modular a vida

tudo transparece quando violado
o amor o perdão a mágoa o inferno
conservar-se irrita e descontinua
a origem do cuidado pode ser o ferimento

elefante e pomba têm o mesmo peso nas nuvens

 

 

***

 

 

 
A CONSTRUÇÃO DO DIA

 

para Ana Lúcia Sorrentino

 

 

seja como for
tomar a arma dos punhos
e cometer questões

contra toda possibilidade
exigir de si o plano essencial
dos tentares

a tal grau de cuidado
dotar o coração de pássaros
para refratar os prontos

ser vivo o bastante
para morrer pelo êxtase
das coisas até mesmas

servir abismos aos olhos
nos esmagos de inverdade
e padecer de interminâncias

 

 

 

***

 

 

 

FERIDAS FERIDAS

 

na vastidão do que vivemos
(os dias correm sem nos consultar),
há algo que não nos deixa ser pó:
um rumor contínuo dentro de nós
(só o amor desafia a morte da alma).

os pés caminham para o incerto,
o coração para o único destino que conhece,
o amor é a graça de ser simples e
o privilégio das lágrimas não é dos fracos.

o amor não passa ileso
(passamos amor nas feridas
e ferimos o amor com mágoas).

olhamos além e o medo não foge.
resistimos (vamos comemorar as nossas resistências?)
e cambaleamos em sonhos.
os olhos cansados não nos deixam ver
a flor no asfalto, ao dobrar a esquina
o texto é o mesmo na boca do morto
que nos alarga a esperança
(“o mais sórdido dos sentimentos?”).

vagueamos em vertigens sãs.
a alma pedindo pão,
os olhos pedindo céu,
os ombros pedindo chão
(pelo correio: nuvens de papel).
desabamento de chuva sem fim:
o amor pedindo perdão.

 

 

 

***

 

 

 

O SIMPLES AMOR

 

amor meu imaculado
única matéria irretratável

impossível de ser detida
manipulada ou destruída

amor meu
céu de proporções ideais
canal de abismos
acesso de revoluções

de amor

 

 

 

***

 

 

 
ESSAS TARDES NENHUMAS

 

na implacável badalada das horas
(agredindo o universo com agouros de morte),
ouve-se um tímido ressoar de rebeldia: o corpo
(ora desperto, ora entorpecido por repetição)
regurgita o cansaço e – vomitando regras –
ensaia uma humilde resistência.

em segundos, une-se à alma dizendo não.
as mãos afrouxam os laços, os pés deixam
os sapatos: olhos contam nuvens.

e quase que se consegue chegar a si.

mas as horas gritam derrubando os ombros,
espalhando náusea. então pisamos o chão das coisas mortas.
o relógio bate forte, as horas levam o sangue.

 

Germano Viana Xavier, 31, nasceu na Chapada Diamantina, é mestrando em Letras, bacharel em Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios e licenciado em Letras/Português e suas Literaturas. Possui textos publicados em diversas revistas eletrônicas. É colunista nos portais Página Cultural, Entrementes e idealizador/coordenador editorial do Jornal de Literatura e Arte “O Equador das Coisas” (ISSN 2357 8025).

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Clarissa Macedo

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

SETE ABISMOS

 

A alma relincha
na estrebaria.

Macho de cavalo
que galopa trovas
do pensamento,
engole as águas
de pasto e de feno.

Há terror nos ventos
do cavalo magoado,
que perdido rompe,
alado, as trincheiras
e cai como anjo
de tormento.

Há éguas rondando
pratos de esquecimento.

Há rodas e correias
na carruagem violenta.

Naquela crina
de ferraduras negras
um cavalo
de patas ralas:

Os sete abismos da vida.

 

 
***

 

 

DA INVENÇÃO DA VIDA

 
Do mar que se inventa
emerge uma rocha.

Do que se inventou fora disso
há rumores de um tempo
há cavalos de água
que nunca pude galopar
heróis de alga
que nunca me salvaram.

 

 
***

 

 

FÁBULA

 
No teu aprisco imenso
sempre houve uma ovelha
pequena, cinzenta, desajeitada

aquela que frente ao cajado,
ao latido do cão também imenso,
fugia e não se guiava

aquela que diante do espelho d’água
não cria na imagem que se revelava
nem na eternidade de que ouvia

aquela que nua, de lã cortada,
sussurrava cantos às irmãs.

Uma ovelha: tal qual tantos bodes.

 

 

 
***

 

 

 
SEGREDO

 
Pouco sente o ruído das sombras
ou a linguagem dos pássaros.

A língua é matéria adiada
assim como a morte
é a queda dos que divagam

o velho magro adotado
penetra na mesma terra
em que heróis choraram.

Segue a vida: sutil perenidade
mesmo timbre, mesmo lamento.

E o firmamento que nos cobre
não ouve a língua das sombras
ou o ruído da morte.

 

 
***

 

 

UMBILICAL

 
As casas que me habitaram
nunca disseram adeus.

No meu corpo de desenganos
cada madeira, cada farpa.

Entre o menino que se foi
e o homem que não chegara,
impõe-se cada cômodo…
alguns sonhos, ambas fraquezas.

Às vezes penso que quem
me pariu não foi a mãe ida,
mas o concreto com frestas
que iluminou planos de pipas,
minha última barba.

A casa que agora me vive
é um cubículo, um palácio
de pedras agras.

 

 

 

***

 

 

CONCERTO PARA CAVALOS

 
Despidos de crinas que não se reconhecem
Cravados de marcas de ferro
Fugidos pela palha que nega o que desejam
Mortos pelas pirâmides que migraram
Surdos pela sinfonia que não se nomeia
Loucos de manadas de dragões que cospem estrelas
Vivos pelas correntes que berram astros
… assim são os cavalos do concerto do meu coração
crianças que preparam o primeiro verso,
feras que não se sujeitam.

 

 

***

 

 
LANCINANTE

 
Guardados os tentáculos
o que aflora no orvalho
são os males indivisíveis,
cicatrizes não costuradas.

O que tumultua a partida
é o horário errado, um
relógio de ponteiros gastos.

Lançadas as sombras no lixo
guarda-se para a próxima coragem
um depois que não virá.

 

Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Os poemas aqui publicados fazem parte do mais novo livro da autora, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).

 

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Janela Poética IV

Edson Valente

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

PÊNDULO

 

Poço químico
Tristezas em risco
Limpo, águas em fúria
Deixar o socorro à natureza
Ou pintar estrelas no muro
Monte de nervos à solta
Em desonra à criança
O vício da cólera
Contra a própria cabeça

Peito trancado cuidado: risco de morte
Diz a caveira
Navego onde não posso aportar
O cínico embargo
Do desejo sem fronteiras

Noite, casa vazia
Alguém me bate à janela
Teu beijo
Ou a doce chama
Do fim

 

 

 

***

 

 

 

ANTICRISTO

 

A ferida que tenho na mão
Não é de um prego, eu mesmo a puncei
Em outra circunstância aguda, em meio
À perturbação
Não perdoei ladrões, prostitutas, o desvalido
Juntou-se a eles para roubar um banco
Mas sem render ninguém, que somos
Gente de bem
Quero ser julgado apenas pelo que não fiz
Definhar entre paramédicos
No espelho negro de Alice
Doar meus órgãos pra quem não me suporta
Deixar livros e discos para os amigos
Entre as incertezas que sigo
As águas andaram sobre mim levando
Alguma coisa que restava de esteio
Sei que quando Lázaro,
Violinista bêbado falido que toca em frente ao
Conjunto Nacional,
Viu-me chorando sorriu
Dei-lhe dois reais para que tocasse a
Música de meu cortejo
Como oração de um infeliz
Que se esqueceu a que veio
E se perdeu por aí –
Ao final do passeio
Enquanto se fechava um olho
O outro viu o sinal se abrir
Quero ressuscitar em teus braços
Assim como morri

 

 

 

***

 

 

MONTANHA-RUSSA

 

Cume: teus olhos
Linha do chão: o que sempre fui
Antes de teus olhos
Esse ir e vir infinito
Entre estrela e poeira morto
Na velocidade do que não me
Pertence

Na insaciável mudez do verme que
Espreita
Expectativa enquanto trajeto
No pé da colina
Ultrapassando nuvens como pedras no limite
Da trilha

No instante em que tudo se
anula
Entre voo e queda
Enredo e cisma
Arrebento redes e cintos
Morte vencida

Criança
Em nave-balanço
Que olha acima
Por sobre os ombros do espaço
Estrada além do cume
Ponto de partida

Teus olhos, meu chão: o que
Serei
Sem volta
Em longa estada
Novo impulso de
Vida

 

 

 

***

 

 

I – ABSTRACIONISMO

 

(Sortilégio)
O que o osso
Apreende da carne
E incorpora à sapiência
Do chão
(há chão, enquanto)

Reentrâncias
O não dito do caule
Brota nas folhas
Umidade esquecida
Prenúncio
Voz da partida

(eterno retorno: pintura refeita)
Arroubos pictóricos do clima –
Saúda-te ao chegar
O paralítico entorno, campina de
Tua revoada
(o ajoelhar de um pôr do sol)

Perplexidade, miasma
(Teu pouso faz o meu voo)

Era eu natureza morta
Sombra a pinceladas

Redivivo
O além-esboço
Perfeição falseada
– um traço que se regenera –
Preconizados na paleta
Vermelho que ornamenta a fala
Moldura ciliada que pisca e entrevê
A dinâmica do abismo
– então, essa, verdadeira –

Insensatez da ponte
Nunca dantes cruzada
E as quedas do mesmo, incontido, inconteste
Ecos da explosão primária
– tudo você e eu e o sol e o osso surgidos do nada –
(a cegueira do contraluz)

Cor o persistir na procura
Do original perdido
No tom inapreensível da tua
Arte abstrata

 

 

 

***

 

 

 

PONTES

 

Abstrata
Aquela minha pergunta
Esqueleto da conexão
Sem lastro

De um verso solto
A métrica imaginada
O vão sem os pilares
Letreiros apagados
No acostamento
A contramão dos fatos

O desnível
Entre o corredor e o quarto
– Hiatos –

Quem amou bem sabe
Que a resposta ao amor
Está fora do prumo
No que a moldura esconde
Daquele trecho não restaurado
Do quadro.

 

Edson Valente é jornalista e autor dos livros Refluxos (Ateliê Editorial, 2010) e Pow-emas e outros jabs líricos (Editora Patuá, 2014). Seus poemas e contos já foram publicados nas revistas literárias Arte e Letra: Estórias, mallarmargens e Walking in Briarcliff e no jornal mexicano Despertar.

 

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Janela Poética V

Mulher gato

 

Olhos que gritam
Miados de amor
Noite gelada
Meus seios serpenteiam
Enroscam
Nosso fogo cruzado.

 

Cristina Arruda 

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

             

Lamento

……………

.mia
vasculha muro
carteira vazia
esquece a lua

odeia o miado
do gato, engole o rato
sapo no furo do queijo
espera

lata vazia
agrada
ronrona a gata
enquanto só
e vadia
arranha brisa.

Adriana Aneli

                       

 

 

***

 

 
Mulher polvo

 
Cabeça forte
Na luta do cotidiano
Tinge o mundo
Que não quer
E foge para se esconder
Na força de seus braços
que desejam.

 
Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

Ultrapassagem

……………………

sai da toca
cruza mares
caprichosos pensamentos
escapam
………………..presa
ou caça
mimetiza
fundo de céu
………………………em mar de
estrela
a sua hora.

Adriana Aneli

***

Mulher Pássaro

 

Flores no corpo
Penas que cobrem
Braços não tem
Chegaram asas
Acordou o afeto
Que motivou o voo
Pode saltar.

 

Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

 

constrói poesia
com pés de vento
grito cortado
coração a pena

silêncio fala
cala
a vontade
em sonho
peixe do mar
….nada?

: voa.

Adriana Aneli

***

Lagarteio

 

Aonde vai mulher?
Com estes olhos de borboleta
Se ainda vive lagarta
Morreste sem perceber
Arrastando asas
Por um amor qualquer
Aonde vai mulher?

 

Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

Cilada

despejada do casulo
aposta em asas
rotas
costura destinos
fabrica redes

felizarda
desde menina sabe
cair.

Adriana Aneli

***

Sobrevivência

 

Corpo de mulher
Recortado se esvaindo
Alma ferida
Num lento ritmo
Move a nova vida
Protege a cria
Diz adeus
E entra no mar.

 

Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

Corpo lunar

onda gelada
castelo de cartas
perdoa
e não esquece

um dia volta
casca quebrada
para recuperar o ninho.

Adriana Aneli

 

 

Mineira de Belo Horizonte, Cristina Arruda é formada em ciências biológicas e odontologia pela UFMG. Artista plástica autodidata há mais de 15 anos, vive em Belo Horizonte onde realizou exposições individuais “Universo Feminino” e “Rebento”, ambas no Centro Cultural Lagoa do Nado, além de exposições coletivas.

Adriana Aneli é escritora e dramaturga do grupo Baila Comigo. Membro Correspondente da UBE-RJ e do Coletivo Marianas. Idealizadora do projeto Tempestade Urbana, comunidade que reúne artistas e trabalhos de várias partes do mundo. Ao lado de Chris Herrmann, é editora da página literária Boca a Penas. Formada em Direito pela USP e pós-graduada em Direito de Família e Mediação de Conflitos familiares.

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Elizabeth Hazin

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

PRINCÍPIO DO FIM

 
Por que nada permanece inteiriço
em sua casca,
protegido?
um dia racha
e pela fenda
passam peixes e navios
fantasmas que na noite ganham vulto:
fogo, chama, fumaça

nada permanece inteiro
tudo se esgarça
assim é o intervalado texto do destino,
forrando a mesa

por que não se estende eterno,
se é tão fino?

por que não dura a inteireza?

 

 

 
***

 

 

 

FELICIDADE

 
É essa sombra que me passeia
essa possibilidade
………………………de ser
esse ser não sendo

alforje quase cheio
(menos que isso. Menos.)

nuvem oblíqua
em um céu de papel e tule

é essa consciência, talvez, de incompletude
ou da vida, reticente e vaga

é esse fio de navalha em que me equilibro
……..sem asa que me suspenda
……..ou mão que me segure

é essa trama em ouro e cobre
…….que na solidão do quarto se urde.

 

 

 

***

 

 

 

MAR DA CHINA

 

a minha mãe

 

 

Por sobre as ondas da China

onde se inscrevem palavras
todo o alfabeto navega
só pra você e pra mim
no oceano amarelo
–- puro caminho de água –
tudo é papel e nanquim
da China toda a beleza
(não fosse o mar, que seria?)
passa ao Japão das cerejas:
a porcelana e a seda
as invenções e a arte
(que norte enfim haveria
não fossem bússola e letra?)

 

 
***

 

 
POUR CAMILLE

A Camille Claudel

 

Quem modela a vida

(se tudo é forma
e belo
como flui o Sena) ?

Olha quanto é duro o mármore
e quebradiço
mas teu cinzel
sob o martelo o dobra
– é teu feitiço –
revelando segredos lá fincados.

Quantas vezes olhaste o rio
em frente à tua casa
e em que pensavas
rebelde menina apaixonada pelo Amor?

Esqueceste que não se molda o Amor:
sua matéria é vil
sua matéria é o nada.

Mas não estás só.
De certa forma
enlouquecemos todos
………………………..em asilos
………………………………..exílios
…………………………………………idílios.
Somos todos loucos
não tu só
com teus olhos azuis escancarados
olhando-nos do lado avesso do vidro
– tolo artifício:
não existe abrigo
contra a luz da loucura.

Deixa queimar até os ossos
(e não será tudo mesmo
reduzido a cinzas?)

Deixa arder fundo
pois só essa brasa
– que nos traz a morte –
nos ilumina.

 

 
***

 

 
LUX DELENDA EST

 

 

LUX DELENDA EST, alguém disse

e houve a escuridão

……………………..esse apocalipse –

manhãs e noites em confusão.
Era chegada a vez do Homem
– oh quão dessemelhante! –
homem e mulher, deles chegara a vez.
Onde o Paraíso
…………………………….– esta maçã –
no melhor pedaço, arrancada aos dentes?
era tudo agora pelo avesso
e viram como a vida é vã
……………………………………….. (é sempre vã)
e que tudo tinha fim
………………………………………. (como começo).

(Fosse um domingo talvez?)

Alguém sentenciou:
Não mais multiplicai-vos
e que não haja mais ódio sobre a terra
nem amor.
Dispersai-vos dispersai-vos
sem todavia esquecer a minha imagem!

Restavam, porém, os bichos
e o mesmo alguém falou:
Não mais seres vivos
………………………………………. – basta com tudo isso! –
não mais voem aves por sobre a terra
nem haja mais serpentes rastejantes
………………………………… ….segundo sua espécie.
Não mais animais domésticos
………………………………… ……………nem feras
de olhar faiscante.

Alguém achou que isso era bom
e como tudo mesmo fora já confundido
e já não havia precisão
de lua sol e estrelas
…………………………………… – a governar luz e trevas –
com um gesto
todos os astros foram abolidos
………………………………… ……….eternamente.
Aí cessou a erva verdejante
e não houve mais árvores
nem frutos com sua semente,
…………………………………. nem flor.
E as águas tornaram a mergulhar nas águas
não mais houve mares
………………………………….. – nem lágrimas –
nem terra de continente.

Desfez-se enfim o firmamento
e só aí então
esse alguém descansou.

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Kleber Lima

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Que resvala de você
sem deixar rastros
que não compactua com o cotidiano –
a música inexecutável
a promessa inexequível
a víscera mais escondida
incutida no hálito de café e cigarro

Que não te nomeia
os muitos braços e pernas e bocas e gritos
aquilo que às vezes se traduz em lágrimas
algo embaçado que te fixa o olhar
num dia comum de semana

Que foge e te retém
enquanto você ri e sangra
e me olha
e me abraça
[já são tantos lenços ensanguentados]
ato-me a moldes fugazes
da tua alma inestancável.

 

 

 

***

 

 

Toda vez que for escrever
colocar ao lado este porrete

bater à toa
de olhos vendados
como o choque dum corpo no mar
à deriva

Toda vez que for escrever
bater forte
como aquilo que abriu minha cabeça
outro dia

uma pancadaria
cujo barulho
infernal
é tanto maior silencia.

 

 

 

***

 

 

 

Verhoeveniana II

 
Despi uma estação indomada
com protuberâncias de infinito na pele
e afora as violentas mordidas
a desintegração dos átomos da boca
as bifurcações luminosas das nádegas
as secreções nervosas como piche quente
o consentimento convulsivo
dos dedos entrelaçados
era mais um episódio
de um peito escavacado
pelo amor.

 

 

 

***

 

 

 
Por onde tua presença me chega
não sei
uma música incrustada na parede
dos ouvidos
um país arrancado de algum autorretrato

Não sei mesmo dos teus
passos mordidas
violentas insolações
não sei como cospe
leopardos sanguíneos em meu peito
nem de como em minhas virilhas
maçãs podres acumulam à revelia

De toda febre
em meus pelos
teu rosto muito forte
se contrai em arpões
rixas taras arrepios
vermelhos
líquidos magmáticos
pássaros coagulados
trepidando na ponta dos dedos.

 

 

 
***

 

 

 
Abertura para um sol em tuas costas
um pomar na ponta dos teus dedos
tua cútis uma música sibila arrepios
a boca transeunte trespassada de águas
as palavras ardendo em silêncio eriçadas
motim de dilúvios enluarados lábios
assento de frêmitos olhando atônitos
teu rosto esta costura em meu coração
assediado por minhas vísceras famintas.

 

Kleber Lima. Teresina. 1984. Escreve no blog Apontando para mim.

 

 

Categorias
103ª Leva - 06/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ana Horta

 

caroline Pires
Ilustração: Carolione Pires

 

Estou sentada no limiar da casa
Inteira e magra
A rua abre-se no vidro cheio de reflexos
Tecidos por aranhas diurnas
Anoitecendo

Seguro o quotidiano quieto
Como um bicho de asas frágeis entre os dedos
Um pássaro de porcelana viva tinge a manhã
Do ocre da parede imaginado abre-se um esgar de humidade
O sorriso de uma velha ausente
Ou o caminho deserto descendo

O gato jaz no centro inavegado da sala
Dentro dos meus ossos faz imenso frio
Já só poderia segurar uma violeta nas mãos descarnadas
E atrás de mim uma amiga nua
Um sonho desenrolado
No papel roto da parede

 

 

 
***

 

 

 

Desabrocha-me uma flor no estômago
Um lírio expandido de água morna
Que me marca o centro líquido do corpo
Depois arquejo e solto-me no umbigo de água
Meridiano em volta da terra
Em volta da bolsa minha dos alimentos

Isto não é a escrita
Uma massa cega murada ao verso

Tão só a linha brilhante

Um nascimento inteiro pedindo água

 

 
***

 

 
Mastigo a maçã…
O dia é polido como um espelho
Mas impuro
Tingido pelos sons da minha boca
Pela curvatura voluptuosa do fruto que o preenche

Na quina dos dias há sempre o redondo de uma forma comestível
Não posso estar sentada que uma folha me não fira os dedos lisos
Clorofila indelével marcando a pele

Se a sombra da maçã é suave e fria sobre o solo
O estômago desfaz o suco amarelo do fruto
Os intestinos lavados
Prendem-te ao sulco lavrado na terra

E tudo isto é talvez uma mesma luminosidade
Ancorada debaixo dos olhos

 

 

 

***

 

 
Arte Poética

 
Sono
Abro o olho silente da palavra
As coisas monologam infindavelmente consigo próprias
Opacas com o halo vaporoso do meu sono

Reconduzo as palavras ao seu lugar mais ínfero
Mas deixo-as sujas de terra: inteiras
Esse é um desenho pleno, rugoso,
Um desenho de barro e cal em que nos sabemos
Sem nome
Entre as linhas
Esse pequeno toque
Sombreação ligeira da mudez

Um cavalo desenha-se no vidro fosco do meu sonho
Mas não lhe sei o corpo
Isso
O flanco
Era já só pressentimento lasso da mão
Dor
Talvez memória côncava de pele
Mas ainda…pertença
O vácuo dos dedos aflige o futuro inteiro com o interior opaco do animal
E este era o momento presente

 

 
***

 

 

Nenhuma dor latente nos mina:
Somos apenas percorridos por um pequeno animal agudo.

 

Ana Horta nasceu em Lisboa, em 1975. Estudou Filosofia e Literatura na Universidade Nova de Lisboa e Fotografia e História de Arte no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual). Escreve poesia desde que se lembra e nunca mais conseguiu parar. Estes poemas pertencem ao seu primeiro livro: “Inventa uma voz no rodopio do corpo”, Black Sun Editores, Lisboa, Dezembro de 2002. Tem colaborado em diversas revistas de poesia e um segundo livro de poemas no prelo: “Ínfimo Vento, Volta d’Mar”, Outubro de 2015.