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103ª Leva - 06/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Nilcéia Kremer

 

Ilustração: Caroline Pires

 

Antiga

 

Tenho cabelos que alcançam o teto
a ordem inversa das coisas cravada no peito
a gravidade do gozo
o temor dos pés no chão
o último suspiro além boca

Trago gotas de alcatrão na memória
e uma pífia retórica
coisa de quem nasceu antiga
blefa com a vida
e não tranca as portas da alma

 

 

 

***

 

 

 

Adicta

 

Não menos que o vento
que te lambeu agora
não mais que as horas
que custam passar
soo o interstício
principio o precipício
que dorme em cada célula
libélula diplomada
em jornada atemporal

Adicta de insetos
veto monstros alheios
meu veio é agridoce
como a vida
qualquer semelhança
não é mera coincidência
é conivência de sol
e sal

 

 

 

***

 

 

 

Auto retrato

 

Tenho esta espera
estampada no rosto
um lusco fusco na voz
martírio de inquietos
fechadura conferida mil vezes
praga que não se entrega
Sou o que fica
a tiririca na grama
sou o acordo necessário
quando todos foram
o voluntário das palavras
a larva dos dias
a agonia sabor chocolate
que late late
e abocanha vazios

Sou o cio em carne
promessas descumpridas
feridas cicatrizadas
desvarios

 

 

 

***

 

 

 

Ungida

 

Ela gritava impropérios
cacos na boca
rouca e descabelada
Ela gritava impropérios
não há critérios em desanuviar
cingiu a testa marcada
saiu da engorda
negou o abate
fez alarde
acertou o tom
batom na boca
vermelho na veia
quente
Ela gritou impropérios
e o império de ajustes caiu
Ela juntou os pedaços
de coração quebrantado
desajustada e desmedida
ungida em amor
Próprio

 

 

 

***

 

 

 

Nômade

 

..pinçar coágulos encravados
redesenhar alentos
rede
moinhos de todos os matizes
perder a conta que acrescenta
sustentar-se por tentáculos
abraçar variáveis que mudam de estação
um porto volúvel
um corpo aparente
de crescentes naufrágios
imensidão de rascunhos
um ser inscrito em palavras

 

Nilcéia Kremer é gaúcha, ariana nascida em 80. Das Letras por formação tornou-se conjuradora de palavras. Apaixonada pela arte já provou um pouquinho de várias linguagens, e descobriu que o melhor sabor se dá no encontro entre elas. Crê na arte comunhão. Tem poemas publicados nas revistas Plural (Scenarium), Mallarmargens, Limbo e O Emplasto.

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Janela Poética V

ENIGMAS CIRCULARES

Floriano Martins

 

Enigmas circulares 01
Imagem: Floriano Martins

 

 

1.

Eu leio nos teus lábios que a noite não virá
A noite não se deixa molestar por ti
A violência com que te resguardas de ti mesmo
Tática jurídica ou religiosa para que permaneças entre nós
O teu êxito precário e a evidência desproporcional de seu vazio

Saímos contigo inocentados para a noite
Não há negação de nada em nossa convivência
Perdemos uma boa razão para nos educarmos a todos
A noite revelada como um sacrário de conveniências
Nossas preocupações desaparecem ao minguar do dia

Não vemos vantagem alguma em nos atingirmos
Somos uma desordem guardada em vantagens
Eu quero rir de tudo à noite inteira
O teu silêncio não me recupera senão o riso
A tua ausência me estimula a rir por todos nós

A sombra é como uma morte acidentada em frases
Aos poucos te alimentas da tragédia que há em ti
O teu corpo cansado de rir de si mesmo
A tua noite querendo ser a negação de teus sentidos
A máscara de êxitos de uma noite envergonhada

 

 

Enigmas circulares 02
Imagem: Floriano Martins

 

 

2.

Eu estou diretamente caindo em ti e não sei como evitá-lo
É tão rápido o movimento que mal posso identificá-lo
Nós todos precisamos de uma vida mais lenta para saber que é nossa
Estamos sempre à espreita de nossas falhas
Um perigo comum a todas as angústias

A sorte desfalecida

Por onde as linhas de tua lucidez começam a se desentender
A noite sem saber ao certo se é falta ou excesso
Em que parte de tua harmonia pode haver um inferno
Eu rio de tuas noites de horror que se imaginam esplêndidas
Seguimos caindo porque não encarnamos a queda
Como alguém que não consegue matar-se

A ideia da morte como um refúgio onde o riso não tem abrigo
A morte se ri ante a preocupação de leito ou túmulo

Eu beijo a tua noite sem repouso
Tuas lágrimas riem da tempestade de meus anseios
A noite não exige para si nenhum poder
Eu não sei por onde passas com tua queda desatada em sorte
Não conheço senão o infortúnio e sua falsa glória
Os versos com que cobres o olhar
A miserável alegria com que te renovas

Cair por um momento
Rezar além das forças
Tomar armas
Meter-se no cultivo mesquinho de piedades
Desfigurar a ingenuidade

Nenhum de nós sabe quantas noites pode morrer esta noite
Temos esta dificuldade milenar
Jamais eliminaremos todos os inimigos

O homem está composto pelo que sabe e o que não sabe de si
Não há outra ciência

 

 

Enigmas circulares 03
Imagem: Floriano Martins

 

 

3.

O idealismo da morte de Deus é um bom verso
A metáfora do eterno retorno se confunde com a do eterno pecador
Agora eu não quero senão beijar-te
Tua morte cai por terra a cada beijo meu
Por onde a noite cai já não se pode amá-la e em meio a tantas
…..quedas não há triunfo da parte de obra alguma

O equilíbrio é sempre uma maneira de negar-se
Como quem intimamente salta de uma ruína a outra e não se satisfaz
…..com os espectros de sua derrota que lhe vão corroendo a alma
…..inteira

O inferno nunca foi uma boa temporada para nenhum de nós

Eu pude ver a agonia encharcando teu olhar enquanto meu corpo
…..explodia e se misturava aos destroços de tudo quanto me cercava
Eu vi a tarde toda refletida aos bagaços em teu olhar
O lugar inteiro sendo refeito em estilhaços
A loucura de um gesto arruinando as nossas vidas
Meu corpo mil vezes abrindo crateras de ódio

Vítimas por traduzir

Não haverá uma única pergunta
Nenhuma obra jamais soube remontar os retalhos daquilo que
…..destruiu
Muitos nem sabem a qual espécie de sacrifício aludir quando ostentam os símbolos de sua arte

Eu vi o meu corpo detonado por dentro e nenhuma visão foi mais
…..íntima daquela tarde se extinguindo em multiplicadas explosões
Nenhum fragmento percebeu a dimensão do sacrifício
Nenhuma nova tarde se reergueu dos escombros de meu corpo

Nós somos os pedaços de Deus retalhados dentro da linguagem
Nenhuma farsa consegue destruir-se por completo
Ainda carregamos conosco o resíduo de toda fé

 

 

Enigmas circulares 04
Imagem: Floriano Martins

 

 

4.

Enquanto escreves me ponho no interior de teu corpo inacabado
Vejo como me corróis por dentro em meio à vitalidade da crença nas
….imagens
Teu pensamento se ocupa de sacrificar minhas convicções
Habito-me em plena consumição de princípios
Nenhuma evidência se livra de suas faíscas de agonia

Em tuas anotações percebo o quanto te perturba riscar os pontos
….trágicos em que a escrita não se realiza como uma saída além da
….assiduidade do presente
Talvez por isto não me reconheças em ardis que ainda imaginas
….poder suprimir
As vertigens se multiplicam a lotar comboios em tua imaginação
Eu tenho que te sufocar por dentro até que divises o abismo a que
….nos entregamos
Não terás como ignorar meu esforço enquanto segues escrevendo em
….espantoso frenesi as tuas supostas ciladas

Eu grito um nome enquanto escavo o horror de tantas crônicas
Uma estranha palavra que repercute como quem se desgarra de si
….mesmo como se fôssemos elucidados por tudo aquilo que nos falta
Já não se trata de uma simples bordoada do acaso e sim da intrigante
….rede de sofrimentos que o jogo requer
Nenhum de nós pode mais simplesmente dizer o próprio nome

O que escreves aos poucos se revela como sendo a morte de nossa
….secreta identidade
Um punhado de imagens debilita tua relação com o mundo e já não
….te encontras aqui para confirmar quem

 

 

Enigmas circulares 05
Imagem: Floriano Martins

 

 

5.

Se não estás aqui eu já não tenho como desamparar-te
A astúcia é uma lancinante categoria da linguagem
Confundir a imensidão com um pequeno tumulto
E agora abrigar teus escritos em meu corpo enquanto a solidão se
….precipita sobre tua garganta a ponto de rasgar-te o vozeio dos
….nomes
Deito meu corpo para que sondes o que ali faz sentido

Qualquer um riria de nós agora que se descobre que não temos o que
….dizer
Ensaiamos a miséria humana até que ela se estenda ao sol e
….dissimulada anote os assuntos que jamais entenderemos
A singeleza de meu corpo nu pode ser um atrativo para a escrita sem
….que desesperes e queiras me transformar em método de tua
….solidão
Nós somos os nossos diferentes erros sempre conciliados da pior
….maneira
Meus olhos correm por dentro da falsa imagem que fazes de ti

Eu não posso beijar-te agora porque me evitas
Os corpos saltam de uma presunção a outra e as dores resvalam por
….um corredor sem fim onde a vontade é sempre negada em nome
….da natureza
A dor não vai acabar nunca e não me dirás teu nome
Eu não passo de uma vida explosiva que te acoberta
Adormecerás entre uma deformação e outra de teus sentidos e
….seguirás sem me dizer teu nome

 

 

Enigmas circulares 06
Imagem: Floriano Martins

 

 

6.

Bater e bater e esganar segredos e espancar infortúnios e arrasar
….pequenos ideais e violentar e arrombar e retorcer e avariar
….angústias e depredar tolices e torcer o sentido de miudezas e
….sequer rir de tudo isto como se fosse um requerimento da ordem
….local
O meu corpo gélido não passa de uma evidência
A memória se mostrará imprevisível sob tortura

O meu corpo está ali dizimado por reticências e sem que aceites teus
….limites
Um instante que seja eu não me poria de pé senão para saudar-te a
….dedicação ao extravio
Mensagens são transmitidas de uma fonte a outra e já ninguém pode
….dizer que não sabe o que pensar a respeito

Estás diante da pobre sociedade de teu corpo vitimado
Os teus meninos fora de cena
Longe de tudo, a dor do mapa foragido de suas dimensões

O desastre noturno de gemidos vigiados e gritos derramados na mesa
….dos limites
Aqui se pode morrer à exaustão e compartilhar a morte como um
….estranho vício
O olhar se arrasta por uma imensidão voraz que escama vícios como
….peixes migratórios que alimentam a sofreguidão do mundo

Quando o mapa se esvazia das marcas de tua perversão então
….podemos tatear as pequenas sombras fatigadas que
….espantosamente resistem

 

 

Enigmas circulares 07
Imagem: Floriano Martins

 

 

7.

O mundo progride por um efeito de perspectiva
De onde me vês eu posso garantir tua revolução ou quebrar a banca
….de apostas ou denunciar-te a alguma agência de notícias ou tornar-
….me comparsa de teu fingimento ou:

Trata-se de uma roupa sinuosa a da perspectiva e quando me despes
….teus olhos imensos podem não me encontrar mais em parte
….alguma
Não é certo que jamais sabemos para onde caminham nossos mortos
Estamos devastando tudo dentro de nós

As tuas ilusões se deixaram impregnar por imagens plantadas
Um mesmo catálogo de bustos anônimos e o esplendor da miséria
….com suas igrejas sepultadas no descampado da memória

Um fósforo à espera do incêndio
Um beijo à espera da conspiração
Árvore cujas folhas são olhos de serpente

Um novo cenário de vísceras pré-moldadas estimado para que todos
….nos sintamos bem
A câmara focando o rosto desfocado dela – meu nome é rosa eu fui
….espancada porque vi três homens um deles colocava algo no carro
….pipa que veio abastecer o bairro outro me batia muito e espalhava
….sal por onde me doía no corpo todo e nem precisava me dizer nada
….eu fui afligida pelo que compreendi – um rosto de evidências
….quebradiças

Não há um eu sublime
Identificamos crimes pelos quais não podemos responsabilizar
….ninguém, nem nos cabe amenizá-los
Não há justiça sem justiceiro ou regime político sem a saciedade de
….seus métodos

Eu tenho um nome um eco um fala-me e ninguém me diz nada
Há um relógio que brota de cada suspiro e me distrai com horas
….suspeitas como se a minha vida estivesse por um fio

 

 

Enigmas circulares 08
Imagem: Floriano Martins

 

 

8.

Há uma cobiça de gozos degenerando um jeito mais livre de ser
Uma fiação de regras que são a base de todo constrangimento e
….fonte de aliciamento
Teus mortos esperam em longas filas por pequenos volumes
….indecifráveis e suas pétalas de racismo e genocídio
Prosperam à espera desses pacotes de vômitos e ejaculações
….ressecadas

Flores famintas mastigam os restos calcários de tua memória
Corpos arrastados sob medida
Calvário de pratos concebidos com seus lamentos elétricos
A miséria ressumando como um abismo acidental

Ninguém sabe mais por que nome chamar a si mesmo
Nem mesmo escavando em escombros encontraríamos a
….transparência perdida
A dor multiplicada por mares descorados que se agitam em
….casarões de formas emudecidas

Lugares que se desfalecem aterrorizados por apenas soletrarem teu
….nome
Postos de comando & faixas de greve & cercos policiais
A humanidade já não guarda segredo de si

 

 

Enigmas circulares 09
Imagem: Floriano Martins

 

 

9.

A memória se reparte ao visitar escombros negros e índios em seu
….paiol metafísico
Habituada à sedutora condição de modelo vivo acabou por desterrar
….efeitos contrários

De que lado a carne se espelha no real sentido de tudo quanto toca é
….algo que não se sabe
O que foi repartido devorou a metade que ingenuamente aceitou tal
….condição
Falso dualismo que orienta a existência quer tenhamos ou não razão
E não a teremos nunca
Toda razão perdida se transfigura em deplorável quando reabilitada
É alto o preço que pagamos por haver sempre esperado alguém que
….indicasse o caminho

Eu espero
Tu esperas
As vísceras passam por aqui
O morticínio bate à porta invisível

A angústia afia seus estiletes e sonha com safenas fantásticas
Nós esperamos a espera perder o controle das horas
Em um mundo assim até os relógios oscilam entre a insônia e o
….pesadelo

 

 

Enigmas circulares 10
Imagem: Floriano Martins

 

10.

Desfigurados pelo nome e sua circunstância
Lições de abismo com endereço certo
Ensinar aos filhos que a história se faz assim

Um enxame de deuses aguardando a noite
Eu queimo de vislumbres que me descrevem com uma minúcia de
….desapontamentos
A noite não foi parar em parte alguma enquanto estivemos aqui

Eu tenho essas marcas em meu corpo que são as tuas palavras
….queimadas em vão
Revelar o teu nome já não resolve nada
Não há código civil ou justiça divina

O flagrante sempre foi o grande prestidigitador
Morremos exatamente aqui: dissidentes: relutantes: indecisos:
As versões cinematográficas se expandem

O grande negócio das quedas
Jurisdição de trevas
O Estado sou eu em qualquer estado

Eu olho em teus olhos buscando meu erro
Não nos molestamos mais
Destilamos uma frialdade absoluta

Qualquer que seja a metáfora desenhada por um de nós
Um resquício último de humanidade
Eu leio nos teus lábios que a noite não virá

 

Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, tradutor, ensaísta e editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e o selo ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara F. Costa

 

Ilustração: Caroline Pires

 

As regras de Tagame

 

senta-te na vida
como no suicídio,
somos feitos de metal febril,
responde-me com a garganta iluminada,
és o espectro nómada
das noites que passo com o tagame,
um Rimbaud cansado
já aos quinze.
existes-me nos becos sinuosos
da mente, não sei se
o teu espírito rodou pela direita ou pela esquerda
mas foi Dante quem te ensinou a subir montanhas.
ainda não consegues compreender
o esforço que Max Brod fez para divulgar Kafka depois da sua morte.
és a penumbra secreta
quando te vigio a morte.
um amigo nas trevas
que percorre caminhos transparentes
onde a solidão se transforma
na música demorada dos teus pensamentos.

 

 

*** 

 

 

 

Há uma luz selvagem

 

há uma luz selvagem que me percorre o nome
e que enlouquece lentamente
no interior húmido da memória.
o espaço da voz
expande-se até à idade irrespirável dos objectos.
sento-me a observar a praia
e a forma como a água tem medo de se aproximar demasiado
e pousar nas perguntas.
as pálpebras escorrem-me até aos nervos.
há um frio insuportável na passagem escorregadia das horas
no gesso de cada nome,
e um sítio febril onde a inteligência consegue deteriorar
todos os vestígios decifráveis de vida.
cada nome, no interior imóvel do seu ventre,
no sangue fervido das noites,
transporta uma luz pesada,
impronunciável.

 

 

 

***

 

 

 

Cheguei demasiado cedo

 

ao colo da floresta,
quando falei,
falei extremamente baixo
sobre as mitologias
da linguagem.
se alguém me ouviu
foi porque este oceano pedestre
a que chamas existência
me deixou mergulhar
nas vertigens dos campos.
deixa-me conduzir
esta voz

até à intimidade do céu.

 

 

 

***

 

 

 

Anuncie aqui

 

anuncie aqui,
temos o que procura,
clientes de existências quentes,
astros estendidos no comprimento da boca.

anuncie aqui a sua solidão
o seu medo assimétrico,
o seu bom coração.

havemos de lhe encontrar
alguém sensível
com ossos audíveis,
botões em zonas estratégicas,

onde pode parar ou começar
os violinos,
as cortinas,
a paisagem.
a cortina paisagística
e um soneto capaz de cobrir a visão.

anuncie aqui
e anuncie ali
quanto mais se explorar
mais hipóteses tem de ganhar.

tudo amadurece,
até o silêncio
aquele que ressoa por esta febre
febre que se arrasta pelo poema,
poema que se verga
para o seu interior de mar.
as rosas brotam
o leite envenenado
dos nossos direitos mais antigos.
o avião transporta o peso
da luz
e a água da manhã atravessa
o brilho abandonado das mulheres
selvagens que te tecem o sono.
amanhã as fábricas recomeçam
a queimar os seus mortos
e deus ressuscitará entretanto.

 

 

***

 

 

 

A conquista da Polónia

 

a tua fala loira desdobra-se em pedaços brancos de pele
esta música goteja com o teu sangue,
o apetite dela do tamanho do meu.
orgulho-me das tuas veias tão salientes,
da altura assustadora dos instintos.
chove por dentro do desejo
e eu quero enterrar-te ainda esta noite,
quando passar o próximo comboio
terei o teu peito molhado,
os teus ossos transpirados
por aquela vontade de viver
mas antes do comboio passar
navegarei na tempestade azul dos teus olhos
e terei os teus lábios gelados
como o norte,
sentir-me-ei a rainha da Polónia.

 

Sara F. Costa (1987) Natural de Oliveira de Azeméis, Portugal. Licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho e Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Prêmio Literário Serra da Lousã, Pé de Página editores), Uma Devastação Inteligente (Prêmio Literário João da Silva Correia, Atelier Editorial) e “O Sono Extenso” (Prêmio Literário João da Silva Correia, Âncora Editores).

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Samuel Malentacchi

 

Ilustração: Caroline Pires

 

“E sempre no meu sempre a mesma ausência”
Drummond

 

 

Um soco
….na cara do estômago
ele sentiu cedo
….aos três anos da tarde

levantou torpe
….destituído de fins
desastrando goles
….contra a gravidade

pois se sabe grave
….das agudezas císticas,
….rotundas profundezas
das cavernas malabitadas
….que cultivou
….no tempo escorrido
….& sem parentes
….daquilo que foice;

estancado, além
….dos vazamentos rudes
ele se sentou
….& abraçou o estar entre.

 

 

 

***

 

 

 

Variações Grotescas

 

“O poeta canta/mesmo morto/ a carta da morte.”
Eduardo Lacerda

 

 

I

é encaixotado pra dentro
e retendo meus medos
que ;paradoxalmente; exponho
-n’um tipo de tomografia estranha-
a metalinguagem do meu horror,

eu repito repeço reflito reitero
o excesso que repito repeço
reflito reitero; repeadicção
dos repeditos que lambi
durante toda a existência
entesourada dos meus cortes;

 

 

II

/colori o dolorido do mundo
que conheci sem dó alguma,
dolori como que vindo
daquilo que eximi no enigma
colorido de mim, exibido
em noite de fala, na grande hora
da novela que nos enforca\

 

 

III

;algo como foliões desesperados;
………(…)
a folia indo
folha por folha
a outro destino que não
o fruto da fruição multicor;
………(…)
sou o ator doado à coisa carne
caolha, homem clandestino
e refratário de toda conjugação
e traduzibilidades; do molde
rimístico cancioneiro-cansado
ao que multifaceto no ilusório
receptáculo d’um eu que dói,

(tenho noção disso, da
ilusão, nem tanto da dor)

há o depósito,
pandoresco e limitado,
de minhas tripas desditosas;
escrevo com elas agora;

;desespero – algo como folia;

 

 

 

***

 

 

 

Formas de Chão

 

De quando em vez me acode o avesso
e vejo o lado desexposto da existência,
este exuberante erro bem colocado;

nas derrotas que pratico predico pedidos
para, quem sabe, vestir a insistência panta-
nosa e aveludada de todos machucados vivos;

na melhor das hipóteses, sigo; ferido; sibilino,
silabando fulgores cínicos por duro desejo
impuro de destino. Sem cura, cuspido,

(no entanto ido), fragmentalmente .
Em vez dos quandos me veem os prantos,
é no buraco que me atravessa que sou visto.

 

 

 

***

 

 

 

não tenho pretensão de querer saber tudo;
no que me ensinaram |ensimesmaram| não fui cooptado;
eu apreendo das nuances desavisadas,
é na insinuação que desenraizo o mundo;

flerto com a fresta dita em linha reta;
faço curvas na sombra da tarde rubrica;
brinco sedento de morte empoçada para
,quem sabe |quem abre?|, morar na eternidade;

trago comigo um gole de abismo
daqui vejo & vou ao corp’alma do universo;
se volto serei poeira se volto espaço consideral
se vejo: destino sempre em desatino
………………………../mas ainda Destino\

não tenho a ambição de saber querer tudo;
o que sei? desensimesmar versos suores
nudeza lírica duvidosa rima-matriz-lúdica;
& desatar des(a)tinos para o caminhonar-me;

..:laço poesia para fazer instantes no momento do próprio acontecer:

 

Samuel Malentacchi Marques, 30 anos, paulistano, dentre poucas-muitas coisas soul poeta; cometi três crimes de fazser poesia & o quarto está no p(r)elo; ei-los: poemas nortunos/autofagia/minimáximas  & miscelâminas, respectivamente; no maiscommenos: também costumo existir enquanto músico, baterista da banda chalk outlines & psicanalista; e1/2: malentacchi.samuel@gmail.com.

 

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102ª Leva - 05/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Matheus José Mineiro

 

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Foto: Ana Pérola

 

ALERGIA A COR CINZA

 
a vida manuseia a gente com foice e facão, fervoroso boia fria.
Sabe que o coração
é material corrosivo o qual exige-se luvas para tocá-lo.

Desembestada, a vaca erupção.
…………………………esmaga verduras e hortaliças,
…………………caniveta a carótida, lesiona a panturrilha ,
………………………..gás propano no olho da faísca.
Contudo
……………………………..cotidianamente
…………uma força resistente, com ímpeto de búfalos e bisões,
prossegue subindo a minha cabeça
………………………esta ladeira com o calçamento de terra e bloquetes de pedras.
O medo a insegurança são substâncias tóxicas no fígado da gente.
Entre o suflê e a fuzilaria entre o mudra e a lâmina da serraria
…………………………………..aturamo-nos.
amor, rapé alucinógeno no meio do coma e dos transtornos do alumínio.
………………….o poema é aquele que oxigena o sangue
………………………..quando encontra-se esmagado
……………entre os ferrões de aço inoxidável da formiga saúva
…………………….que mede o tamanho de uma cidade.
……………….o poema é o analgésico o poema é o sedante.
…………………..vida, diária colheita de jiquiris e urtigas.

carreta que transporta querosene tombando numa rodovia .
…………………………..Com esta sensação prossigo
sensação de barranco e chuva
diante do galpão da indústria de material bélico;
…………………esfregar de folhas de cansanção nas mãos ;
………..fogos de artificio chuva de raios piruetando na sobrancelha ;
………………………..uma outra espécie de horizonte
………………………mais cor mostarda no nascer do sol
…………………………mais cor beterraba no por do sol
…………………mais cor de jabuticaba estelar na madrugada
…………………….chovendo debaixo dos seus supercílios.

 

 

 

***

 

 

 

FULIGEM ESMURRA AS SAMAMBAIAS

 
..o operador da retroescavadeira, a caixa de e-mails
..o fuzuê de bytes o pau a pique eletroeletrônico
sondas radiofônicas, quilohertz & farmacologia no furdunço cotidiano
maquinário industrial na beira das nascentes do meu rio;

atrito, abrupto abutre
…………………….no silêncio vermelho do pós parto de uma rinoceronte branca.
Como o sossego do minério encrustado no intestino do rochedo
.o estresse almeja
…….milhões de volts, noventa mil cavalos, trinta mil gigabytes
que há no tráfego calmo sanfonado cor de cores fantásticas da lagarta .
Arco íris apresentando-se na Terra com o seu formato que rasteja.
..enquanto a vida trata a alma e o coração da gente
……………………usando movimentos de um açougueiro .
…………………………Disso o estar-se sempre ensopado
……………………….com a alucinação de um carvoeiro
………………….encantado ao ver o canário chover amarelo
………………………e o azul babar verdes maritacas no céu.
..locomotiva movida a vapor e euforia fumegando dentro da espinha.
solda durex durepox
naquelas coisas que já não aproximam-se mais por meio de um abraço.
………………implante de tártaros e arames farpados na boca
………………..e luxações em algum tendão da silaba mão .
……………..retorno a missa de beatificação da palavra Ânimo
……………….este analgésico, este sedativo, este entorpecente
……………….em meio a massoterapia e o alicate de pressão.
…..Pretendo ser medido por um sextante e ser visto por telescópios
e mesmo com esta tarântula de bário
…………………………………..metal alcalino
………………………cuja picada causa febre e delírio
…………………..é corte no supercílio do meu horizonte.
sobrevivo,
momento de estalo que a nuvem descarrega uma chuva de raio
………………ou mão que desfolha um galho de manjericão.

 

 

 

***

 

 

 

PARTÍCULAS DA GALÁXIA PUPILA

relâmpagos, raios e trovoadas se hospedando no céu da minha boca.

*
aqui por dentro de mim
está tão luminoso
que até mariposas me sobrevoam.

*
dentro do pão sovado não se passa mais manteiga de Minas,
depositam fios de gilete e navalhas.

*
estou no quadril de uma zebra, e sinto
pressionado pelo maxilar de uma onça parda inoxidável.

*
um rinoceronte branco entra pela axila
para ir rugir no castanho das pupilas

*
ouço um rottweiler apelidado de cidade
com seu metálico ranger de ferro
milimetricamente mira um bote na minha coxa.

*
às vezes
o verde musgo do meu peito
fica comprimido dentro da mandíbula de um jacaré do papo amarelo.

*
que as verduras e as estrelas nos usem como vastidão.

*
já que o silêncio, enfermo e abandonado no branco sujo
cirúrgico do mundo
deita agonizando sobre a maca hospitalar.

*
procuro uma bicicleta Poti
para pedalar dentro da palavra afeto.

***

 

 

TODO DIAMANTE BROTA NO ESCURO E PERPASSA O ESMERIL

 
todas estas inquietações e apreensões,
……….cromado tatu canastra que escava a região do pescoço
………………………..Máquina triturando nossa calma.
dentes de titânio de um labrador
e a mandíbula de brita da moreia
disputam a primeira mordida na textura deste coração crocante.
ser cãibras
..na mecatrônica pata deste javali que pisoteia nossos alfaces e nossas rúculas.
…………………….embutir o sono de um carrinho de bebê
………………….e a procissão de um jabuti nas vias públicas
……………………..onde o sossego é desossado por hienas
………………………..e olhos são arrancados por abutres .
…..Toda vez que sangro ou me queimo junto com o diesel de um caminhão
…………………………o Poema aproxima-se de mim
………………………………….me coloca na garupa da sua bicicleta
…………….e pedala pelas estradas de terra da palavra Ânimo;
velotrol colidindo com um tanque de guerra israelita;
…………………………………….desengordurante;
enxada roçando este terreno íngreme que é a vida;
água mineral lençol freático escorrendo do tórax diante da aridez dos dias;
proteína esmurrando a enfermidade;
…………..embrião fervido nas caldeiras da Usina da Jatiboca.
Até aquele momento de não sentir mais a sua altura,
…………………comprimento e nem espessura no Planeta,
………………ver o corpo como propulsão de um jato de luz
………………………………………………………………………….de calor de cor parda.
…………………………Em meio a anemias e toxinas
………….abocanho a vida com ímpeto de maxilar de hipopótamo.
……………….Nuvem que pela primeira vez relampeja.
….dentes empolgados de cabra diante dos grãos desta ração que é viver.

 

Matheus José Mineiro é autor do livro A Cachoeira do Poema Na Fazenda Do Seu Astra (2013, Selo Petrópolis Inc.). Produz os fanzines Estrondo Na Bolsa Fetal, Galáxia Pupila, Apologia Poética, Mais Um Cadim de Poesia Aí, Costelinha Com Quiabo e Poesia.

 

 

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102ª Leva - 05/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Michelle Mendonça

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

Uma breve energia dessas células,
amor, mortas, geneticamente
sua própria eletricidade.

Enquanto

você dizia o gato lambe a pia,
debaixo o porteiro conspira.
Éramos linhas paralelas à espera do infinito.

 

 

***

 

 

 

decidia de vez aquele dia!
na sua melhor roupa
de loucura, enquanto
marcava os passos
de mágoas, e adeus.
do lado montanha,
do lado água,
tudo se movia, e ela parada.

 

 

 

***

 

 

 

além high tech, tele transporte, e ciborgues,
chipes, discos rígidos e vigiam;
escrita dura sobre a vida, surras de
realidade, doenças progressivas.
o material humano. subempregos, chefes
hostis, acabou tomando água do banheiro.

 

 

 

***

 

 

 

pulsação, sangue e respiração nunca saberei o
que se deu em minha garganta a maré se
fechou em um abismo de pedras da onde as
folhas caem das árvores e a areia dança para
o fim.

 

 

 

***

 

 

 

vazio entre os móveis
as ausências passeiam
é o que essas páginas
sabem há várias tardes.

 

 

 

***

 

 

 

Assim a superfície se via
Tomada de antíteses num
mergulho retilíneo.

 

 

 

***

 

 

 

Poema de pedra
Pedra restante de espera;
do tempo que se imagina
de alma habitada, viva!

Você é Pedra estendida
esfera larga em sorrisos
para o céu em seus aclives/declives.

O que há em mim de minério é você,
pois pedra há de estar no céu e no mar.

 

Michelle Mendonça (São Paulo, 1983) é licenciada em Letras e Estudos Literários. Técnica em Processos Fotográficos. Já participou das exposições Casa Mafalda, Parque Gabriel Chucre, Mostra Samsung SP 2013. Publicou dois títulos literários independentes: Intervenção Urbana e Fotografia de Paisagem e Arte Urbana. É colaboradora da Revista Escrita Pulsante.

 

 

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Janela Poética VI

Camila Charry Noriega

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

La palabra ha muerto,

 
sin ella
¿Cómo nombrar a Dios?
En el silencio,
en la ausencia de palabra
el mundo flota como una idea
ensombrecida, virtuosa
y también Dios,
su lenguaje hecho de capricho humano
de humana incertidumbre.
Ahora, cuando no hay palabra
cuando el lenguaje abandona
su servidumbre,
su súplica, aún digo:
–Dios, sálvame de tu furia, dame luz y sed
protégeme de mí misma,
aunque sea haz que en mí las palabras digan algo
traigan algo
revelen alguna verdad
si es que acaso existes–.

 

 
***

 

 
El Aro

 

Rodaban por la montaña
eran un solo río
que atrás dejaba
la carne flagelada de sus padres.
Como un río eran una sola herida
que vagaría por las ciudades
hasta la época de la ceniza.
Un río que florecía como un largo puñal eran.
Traían en las manos
amados
afilados huesos
armas o amuletos
tallados con el brillo de los dientes
por si la sombra los volvía a encontrar
ahora huérfanos,
curtidos.

 

 
***

 

 

Se acostumbra el cuerpo a ser muñón

 
y desea de lo perdido su verdad, su belleza fulminante.
Se hace más presente el deseo que el muñón,
su latencia de carne mutilada.
Esta cruel servidumbre:
descreer del hombre,
para otros,
esperar al Buitre
dios, de todos,
el domador más cruel,
negrura del pan
el otro continente, el muñón que palpita
atado al cuerpo roto.
Una palabra en llamas para el hambre de este mundo.
Un escupitajo contra el andén caliente.
El pan que en las manos del que espera
se descompone,
hiede.

 

 
***

 

 

Bojayá

 
Les trozaron las manos
y en el pellejo de otros muertos, los labios les hundieron.
Para comer
después de tres días
les llevaron las tripas de sus perros.
Detrás de los árboles
unos cerdos esperaba las sobras
las falanges
los tendones quemados
que aún temblaban
pues las balas
dentro de estos pedazos de cuerpo,
de mundo,
seguían calientes y sacudían la piel partida
por el plomo final.

 

 

***

 

 
Entre la red el pez aguarda,

 
estaca la red que impide su huir.
Agua y pez socavan el hueco del tejido
en un bello intento de fuga.
Perpetuidad su vuelo entre la nube de mar que lo consume.
El pez reconoce pronto en la entraña del agua
el espejo que lo reclama;
bebe su instante de verdad
sin alegría.
Vuelve del otro lado de la red cocido.
Igual los hombres acá,
regresan del otro de la calle
cocidos, su hambre intacta.

 

Camila Charry Noriega nasceu em Bogotá, Colômbia.  Tem formação em estudos literários e é professora de literatura. Publicou os livros “Detrás de la bruma” (Común presencia editores, Bogotá, Colombia), “El día de hoy” (Garcín editores, Duitama, Colombia), “Otros ojos” (Elángel editor, Quito, Ecuador) e “El sol y la carne” (Ediciones Torremozas, Madrid, España). Participou de diversos encontros de poesia na Europa e América. Alguns de seus poemas foram traduzidos para o inglês, francês e romeno. 

 

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Janela Poética I

Susanna Busato

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

 

Cindida no tempo resgato o meu rumo no passo a descoberto das pegadas sempre invisíveis que faço nas pedras. Caminho rota entre as rotas que traço louca no papel de riscos: linhas sobrepostas às margens violadas pelas letras, sempre enormes, abastadas de esperança. Cindida pelo tempo do fim gasto meu rumo descompassado às margens frescas da próxima folha de papel, namorando a tenra superfície de pedras invisíveis para as pegadas dos trilhos que me levarão a você.

 

 

 

***

 

 

 

Socorro

 

Ao menos uma fresta,
um ar, uma réstia,
uma salva de promessas.
Qualquer coisa qualquer
que salve bem
depressa.

 

 

 

***

 

 

 

A aguda serpente finca e dobra o corpo dormente nas tramas da pele fina e branca, linho de algodão, leve no vento e no roçar da fria camada serpentina da agulha que se finca a cada hiato da pele, dócil trama que plasma o leve e a aspereza do toque e se entrega à aguda e violenta investida do seu roteiro de estradas e trilhos a céu aberto.

 

 

 

***

 

 

 

on part

 

 

part
ida

à espera e à deriva
como um lenço ao longe
a cena assina

sino úmido
lusco-fusco
som pregueado no branco
punho abrupto de pedra

réstia de tempo
que se engole
sem pressa

 

 

 

***

 

 

 

Éramos nós em cada ponta do lençol. Nas dobras, as sobras de nossa pele. O dia ia longo e o branco do tecido cada vez menor. O gesto repetia o compasso. Olhares de corpo. De um avança o segundo que retorna. Lento o lance das mãos. Leve o lençol entre os dedos. Nas dobras feitas, o tecido de nós.

 

Susanna Busato é uma gaivota no rastro do rasgo roto da palavra. Com a poesia na rota da vida, constrói seus voos e só consegue aterrissar nas pedras, única terra firme que lhe oferece a verdade de que tudo é fingimento até mesmo a realidade. Deixou suas pegadas no livro “Corpos em Cena”, Patuá, 2013, que lhe valeu figurar como finalista do Prêmio Jabuti de Poesia em 2014. Deixou rastros em outras terras como nas páginas da Revista Cult, Revista Brasileiros e nas revistas eletrônicas  Zunái, dEsEnrEdoS e Aliás.

 

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Janela Poética II

Ricardo Paião

 

Foto: Ana Pérola

 

Drama-
tis personæ — mão — inversos toupeiros sem corpo — zuze — varanda aqui ao lado — Solitude Alfa — couraças múltiplas da insónia

 

27’6—2014

 

 

A
mão estende se abertamente, es-
tende-se na plenitude dos cinco dedos desocupadíssimos d’objeto,
estende-se a tatear com muita força o vazio inteiro, estende-se
enquant’as falangetas fremindo acerca de superfície nenhuma.
Perfeita ausência de texturas. Perfeita ausência de queimaduras.
A
mão estende-se abertamente, es-
tende-se a idealizar afagos no amplo dorso
do indomável nada.

 

 

 

31’12—2014

 

 

De-
monstrar
que as virilidades funcionam num modo subterrâneo
que as asas são escavando o vento
que as nuvens consistem no cérebro
d’inversos toupeiros sem corpo.

De-
monstrar
as profundas galerias do surdo olvido sideral
onde os cânticos se abortam
eternamente.

De-
monstrar
o interior do peito
o bunker do coração.

 

 

[3] 19’1—2015

 

 

Chamava-se
zuze simplesmente zuze

um raio de nome
tão fácil
tão onomatopeico — insetí-
fero.
Chamava-se
zuze simplesmente zuze

e na sua extrema gula cumpriu de-
vorar cidades inteiras.

 

 

[3] 27’1—2015
receando o inestético

 

 

Quão
luminosa a manhã.
Na
varanda aqui ao lado
uma abundância de cuecas estendidas
a querer ridicularizar-me o poema.

 

 

[4] 10’3—2015
Solitude Alfa

De
que vale alguém como eu rascunhando Solitude-Alfa passageiramente na muita azáfama de um caderníssimo diário oh perguntinha filhadaputa cuja resposta sabe-se lá. Nunca alcanço as importâncias daquilo que escrevo.

 

 

[4] 13’3—2015

 

Con-
juntura de
pálpebras sobre pálpebras sobre
pálpebras
couraças múltiplas
da insónia
ou arremessos de fosforescência
contra o noturno estuque
situacional.
É
como que o próprio quarto a regurgitar-me
nunca saberei
dizê-lo de outro modo
que resulte menos sísmico.
Os
meus cobertores
num vértice de tudo e de nada.

 

Ricardo Paião Oliveira nasceu a 23 de maio de 1983 em Lisboa.

 

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Janela Poética III

Carla Diacov

 

Carla Diacov
Arte: Carla Diacov

 

ela anda com as solas das
mãos para fora
vermelha
anda como quem pede
e se dormir andando
e se espirrar andando
ela dorme como quem peca
vermelha
e se um caco de vaso a segurar pelas mãos?
e se um rouxinol a atropela?
e se lhe resolve pesar o vermelho no coração?

 

 

 

***

 

 

 

a leviandade por ser presença
fica
teu vulto evolui e se encrespa a ser novo vulto através das pontas dos meus dedos
há já algum resíduo
na inocência e na violência é minha
a pressa
envelheço me ajoelho tiro a sorte na posição dos dias
você vem?
na inocência e na acedência
a leviandade
você vem fica
há o resíduo penando no fundo do poço
você vem?
há um pássaro em repouso
se você não chega
como tudo que vibra por baixo do gesto
respira voa é violenta inda cisca
há uma ave que eu não
há alguns metros que eu não
há uma esferográfica e há um século e meio sobre
a mesa se você chegar antes

 

 

***

 

 

o raio é posto, parada e rio
não chegam os olhos ao nó da garganta
quando de lado a vida
o corte é trilha carcomida e zarolha
inda me sobra te dizer assim:
venha comigo, deixe o cavalo ao meio, de nada adianta, deixe o cavalo comigo.

 

 

 

***

 

 

 

Anatomia Forense

era pra eu ser mulher de morar, mas sou amável.
era pra eu ser deparável.
mas sou odiável.
sou serial e sou adjetiva demais. era pra eu seu de morar, mas sou oxidável.

 

 

 

***

 

 

 

pela combustão

 

o vento enche a minha cara dos fios dos meus cabelos
tento outra posição
porém o vento
me agacho
junto ao tronco da palmeira

carco fogo nas velas
o céu da boca não orna com a boca que não souber o que é uma boa fogueira
eu por exemplo ou falsidade envernizada
sou essa capela em chamas
à beira-mar
desejo redes e só sei queimar

 

 

* Os poemas integram o livro AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA pela Douda Correria (Portugal/ Abril, 2015)

 

Carla Diacov (1975), São Bernardo do Campo – SP. Publicou “Fazer a Loca” (e-book) pelo selo Ellenismos. Tem poemas na Coyote número 25 (Kan Editora com distribuição pela Iluminuras).Integra a coletânea 70 POEMAS PARA ADORNO, Editora Nova Delphi (Portugal).Em Abril de 2015 lançou AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA, livro de poesias pela Douda Correria (Portugal).Tem participações no site Cronópios, nas Revistas Germina Literatura, Zunái, Mallarmargens, Usina, Diversos Afins, Ellenismos, Cruviana, Musa Rara e integra o Escritoras Suicidas.