Há um alçapão no fundo do mar
Subsolos imaginativos de orquídeas
Que ardem e submergem ainda
Mais fundo
Onde a luz é dilatada pelo rumor
De algas mortíferas peixes ferozes
Ao brilho gasto de cada grão
A areia traça nas mãos um indelével
Golpe
O sangue emerge
E o mar incendeia-se
Num sobressalto
Ecos vindos das planícies sob
Dunas marítimas
Dizem que há pássaros
Mais além e que ainda se pode voar.
***
No começo
De um luto
Lavado,
Impuro,
Tecer
De pano
As cinzas
De uma
Teia,
Há flores
Vindas
De longe
Que escutam
Os meus passos
Em branco
Como o assentir
De outras mortes,
Que inclinadas
Sobre vidro,
Quebram-se.
***
Ficou do meu corpo
Apenas o ensaio das curvas
A pressa de ir ao fundo
Onde a porta se fecha
A boca de anzol
Onde morrem as perguntas
Translúcidas e vazias de vago
Em cada respirar.
***
No começo da linha
Há uma curva imaginária
Uma sombra incendiada
Um sofisma gritante
Uma estrofe muda
Um desistir veloz
Que nos perpassa
O ponto de início
É uma flor em cinzas
É o amor essa emergência
Que pulsa
Veias para o garrote
Estreito
A linha perde-se no contexto.
***
As mãos descuidadas
Os dedos mordidos
Como um Inverno quente
Em que estalam as folhas
O corpo uma extensão de areal.
***
Na pressa de queimar cicatrizes
Deixo-me ficar na penumbra.
***
Só tenho um sentido de vida:
O do caos.
Leonora Rosado nasceu no concelho de Sintra em 1971. Desde muito cedo revelou interesse quer pela leitura assim como pela escrita, poesia, sobretudo. Teve o privilégio, de ainda em criança, cruzar com poetas nomeadamente, Ruy Cinatti, Joaquim Ferrer entre tantos outros… A escrita é a sede que ávida tenta saciar incessantemente em eterno retorno. Insaciedade de Tântalo. Em vertigem constante.
Esta esplanada não existe
é mais um sonho marcado
para acontecer talvez num Setembro
mas entretanto avista faróis
do último piso de um estacionamento.
Clandestinidade de luxo
que a cidade sabe oferecer
ao delírio de sair de si
nas horas mortas
encontramo-nos aqui
em lugar abusivo
o único sítio onde te consigo
Quando arrancares
o relógio da carne
não te esqueças de sorrir
ao virares
a clepsidra do oblívio.
E depois lava bem as mãos
que está um tempo sujo cá fora.
***
A vida às tantas se parece com aquela grande loja de artigos para o lar
que toda a gente conhece na Baixa mas entretanto
alguns sobem ao último piso para aproveitar a vertigem do panorama
e beber uma imperial no reino das águas furtadas
enquanto outros só procuram mesmo a secção das flores de plástico
e compram cascatas de glicínias
para enfeitar a sala e eventualmente um gancho
que prenderá o cabelo em dias bonitos
e todos juntos
uns e outros
encontramo-nos no espelho do elevador
e sorrimos.
***
Vício, forma mais violenta de estar vivo
A lei do espanto mandava em tudo
e nem tudo obedecia às leis.
De resto nada tenho a assinalar
Eu quis
voltar a entretecer-me de raiz
com outra curiosidade.
***
Um lugar ao sol e um tempo na sombra
Eu vim pactuar com o crime a esta praia
porque a geada aperta no hemisfério
do continente gasto
aqui no cérebro.
Porque sair de casa a meio da noite
em busca de sacrilégio
é arte
de aventureiro
que se deve provar
uma vez pelo menos.
Por essa gota de adrenalina suja
que fomenta a inconsciência
de Prometeu
como um revérbero
ao sair de si.
Eu vim
desafiar a imortalidade
do mal
que havia em mim.
***
Quantos cais este oceano permite?
Como um papel de parede
que descolando amarrota na queda
todas as vidas anteriores
e repõe no espaço dos fantasmas
a candura das paredes nuas
perfeita casa
como
tabula rasa.
Paola D’Agostino aprendeu a caminhar por volta de 1976 e desde então nunca mais voltou para casa. De momento reside em Lisboa. Seus livros chamam-se “Largo das Necessidades” (2006), “Este Frio e Outras Histórias de Amor” (2011), “Dançam; Dançam” (2014) e o mais recente “Catar Catataus”, um diálogo ideal com o Catatau de Leminski (três últimos poemas desta seleção). Tem textos espalhados por revistas e antologias em Itália, Portugal, Alemanha. Um dia tocará acordeão, talvez.
Parece-te mais uma faca
cravada em meu crânio.
Quando levanto-me do teu sonho
não ouço o rumor dos ………………………. [pássaros.
Como beijos embotados,
tua boca lança silêncios ao vazio;
palavras morrem antes que tu as balbucies.
Parece-te uma avó desalmada
com o agravante do assassínio letral.
Estavas ontem mesmo em minha estante;
eu a fitar-te e tu, brilhante, de soslaio,
a comer-me a visão.
Se plantasse cheiros nenhum deles daria em ti.
***
O espantapássaros
qual o lar do espantapássaros?
quem sorri a ele? os senhores? os vermes? as viúvas?
se ele trocasse de roupas, nós o reconheceríamos?
na capa do jornal de domingo
escondido entre as feras, alheio
ao reto do caminho, caminha
o espantapássaros.
mastiga ele a areia fina dos temporais
e sua caixa de fósforos
está encharcada de visões solitárias.
alguém ouve o espantapássaros? suas fendas?
seus fecundos sonhos intranquilos?
as sensíveis assembleias camponesas
ouviram seus apelos por um guarda-sol?
se a solidão torce os ossos dos não-vivos
o que faremos com quem tem coração?
***
Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo
Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo.
Jogarei no lixo os buquês de flores cor de vinho.
Apagarei todas as imagens coloridas.
Nada disso, no entanto, afagará a ferida aberta
pelo escoar do tempo no corpo.
Um corpo todo desmedida,
todo bifurcação de possibilidades,
todo abraço dado ao acaso.
Nada disso dá conta das fissuras vazias na tal parede
do tempo – nem mesmo mil pás de cal estancariam essa hemorragia.
Passo em frente a uma boutique:
manequins me olham e seus olhos não guardam expressão alguma.
(Uma mesa diante de mim expõe uma laranja partida em duas)
***
O espantapássaros II
O espantapássaros pendurou seus ossos
nas janelas ocres do seu passado.
Longamente meditou sobre a dor que o crucia.
Um escravo tísico, desses sem-vida,
perguntou ao espantapássaros
em qual braço do horizonte o sol faz a curva
que nos queima a pele eternamente?
Um homem comeu minha língua, ele disse
enquanto volvia os olhos às colinas
que mantinham entre os seios hirtos
os últimos dedos de luz.
Sem os acenos da noite, em qual cômodo da casa
o espantapássaros chora seus dias?
qual a sua bússola? e seu relicário?
sobra-lhe mãos e tempo para espantar as moscas
que lhe cobrem a face lúgubre?
ou seu senhor lhe ordenou que mantivesse
os braços abertos mesmo em dias sem abraços?
***
Parassempre
Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos
Paulinho da Viola
Enquanto vivermos
seremos parassempre
bem como as canções, o engano e as pedras.
Pedras não são provisórias.
Tudo o que se pode ser, um pouco menos,
um pouco além, um pouco lago, é
impreterivelmente no tempo, que alumia.
Não se vê só com os olhos
mas só com os olhos é que se vê.
Rebento incréu, pobre e
marginal
lodo e nicotina
vias falais meio entupidas.
Por vezes
um entardecer.
Vander Vieira é poeta, mineiro do interior do estado e tem 25 anos. É bacharel em Filosofia e vive em Vitória/ES desde 2009. Venceu o prêmio UFES de Literatura Portuguesa 2013/14 na categoria Coletânea de poemas, tendo 10 poemas publicados na coletânea de mesmo nome, oriunda do prêmio. Tem também poemas publicados em revistas literárias como Samizdat, Desenredos e Mallarmargens.
O meu tórax é a catacumba
onde se empilham os esqueletos
de todos os males e monstros.
Quando praguejam em tosse seca
a tua mão,
catedral universal da pequenância,
absolve-os com pancadinhas côncavas
transforma-os em passarinhos e voam.
Ofereço-te o espelho que me resta
– bebe-o.
***
Escultura fantasma
A pele ventilada adquire malhas
as mucosas arenecem
de tão estrábica
a consciência deixará de questionar
quando perderás a paciência
e começarás a gritar-me rente ao tímpano
aspergindo-me o perfil esfíngico ………………….. …..o sorriso bovino
dormirás com um cadáver
porque terei um sono de olhos vítreos
serei incontinente e esfregar-me-ás fezes na cara.
Por isso mudo-me já para
uma morada isolada
numa encosta escarpada
numa ínsua porque-não-atlântica
rodeada de galinhas e carpas
azedas e acelgas
atabúas e maçãs bravas
salinas e beterrabas
enquanto sou um freddy krueger
mínimo e híbrido que aprecia
fermentações e aves canoras.
***
Arca
Pedes licença
trancas-te no lavabo
tocas-te e é o dilúvio nas instalações sanitárias
– ossos do ofício inegociáveis –
sais com girinos e moreias numa enxurrada
chamas a tua meia-cara
“escancara-te, temos de ir de viagem”.
O que tens para oferecer são
intuições penduradas da pestana da alma
onde conseguirás reservar florestas várias
culturas esquecidas da grande ásia
novas estirpes do vírus da malária
enxertos para preservar vinhas roxas hereditárias.
Esgotadas, fechar-se-á a pálpebra.
***
Plutão
A oriente
lambia o sol
da manhã aliviava
o rubor da queimadura
com um gole de água fria
e um fio de azeite na língua.
Perseguia-o o resto do dia
até tombar na distracção
do mar
sem vertigem
sem veneração.
Sonambulismo
e nada mais.
***
Baço
O sofrimento afunila-te.
E depois mergulhas na lagoa ou ……………………..;…as mãos em cabelos amantes.
E depois escalas a montanha.
E depois rumas ao Oriente.
E depois tens uma criança.
Curas o corpo como quem
atravessa uma ponte.
O absoluto de ontem agora perspectiva.
Tu descansas.
Catarina Santiago Costa nasceu em Lisboa, em 1975. Frequentou o curso de Comunicação Social na Universidade da Beira Interior (Covilhã) e licenciou-se em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa (Lisboa). Desde 2005 publica os seus poemas num blogue pessoal. O site português Enfermaria 6 (e sua respectiva revista Caderno) divulgou alguns dos seus poemas.O seu primeiro livro será publicado este ano, pela editora portuguesa Douda Correria. Dele farão parte os dois últimos poemas desta seleção.
que se lança em todas as direções nas Regiões Escuras: Agora
oO Círculo
cintilante
que te envolve
E nos limites da Esfera,
se te voltas para te ver Fonte
que se jorra,
vê:
o Outro,
Água que no Centro da Esfera ainda Lá és tu de novo, murmurando:
Tu
és o Livro,
que se lança: Chama
***
Celebração das fontes fatigadas
há Desesperos circulares, Tu sabes desesperos
como o do animal no Escuro escuro
Girando
contido no Centro que seu giro gera
E a cada giro, Pura
emissão de intensidade busca as margens para Além das margens
E a cada giro, o Não
Escrita de grades: a palavra Dor não é a palavra Sim
Mais um giro, e eis: a Queda
Luz fenecendo
o Centro que des
morona, des
falece em centro Oo
E se esmorece
o Desespero, e se
se apaga: Se sob a pele Negra olhos se ocultam,
na harpa de grades a pausa é breve e não há Música
pois foi escrito no Bosque Sem Ternuras, em nossa Face: Que os olhos que uma vez se
fechem outra vez se abram,
e eles se abrem,
Cílio sem paz se
acende o Desespero
e Testemunha: as Grades permanecem Lá
E se adormece para os Sonos dos Alívios? Sem
remédio Sem
remédio,
porque sonha Grades
ah, tudo oculta em sonhos a Catedral de cinzas
as Margens
o Círculo
e a chave perdida
Animal escuro,
te tornaste o próprio Centro escuro
Tece teus cílios de Hera sagrada
Cintila
nas noites Sonha
com a Alvura
Não sabes que Outro centroO
te Ilumina,
mais Escuro?
há Desesperos circulares, Tu sabes
***
Asa dos olhos
Quando um Lago
for lançado num Círculo
fora do tempo
por mãos vazias antes do gesto
Quem
estará na Margem
para receber, sem mãos,
as Doações do Centro adormecido
que Se amplia
despertado
em gratidões gratidões gratidões
em Cinzas Cinzas Cinzas
Vicente Franz Cecim é autor de Viagem a Andara oO livro invisível – Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista da Críticos de Arte/Apca, 1988. Edita seus livros no Brasil e em Portugal. Nasceu e vive na Amazônia, Brasil, Belém do Pará.
quando os pés adoecem
e esquecem os caminhos
o corpo precisa inventar voos.
os peixes nadam na profundidade da costela direita
na obscuridade do entre-ossos
migrando para o aconchego do litoral carnudo.
……..(a língua quando bem plantada ……..atinge veios profundos ……..manancial voluptuoso de fabulações)
busco então, a sobrenatural beleza:
as ancas africanas, a envergadura monárquica,
a anatomia incendiária.
me visto de asas e de lâmpadas
e vou ao teu encontro
com uma palavra-mágica adornando os olhos.
***
pescaria noturna
olho tua pele como uma estamparia do infinito.
Floriano Martins
embarca tua forma épica ……..– delgadas linhas-curvas de alumbramento.
……..era de gozo que teu olho escorria ……..o perfume do primeiro encontro aniversariando ……..eram as terras novas: anônimas: sendo conquistadas.
……..nossa pescaria na madrugada ……..e o alimento festivo armazenado por anos na memória. ……..o tecido-de-peixes nos fez cardume na fileira dos meses, ……..nos fez náufragos de carnes unidas.
infante, tu me aprisionou no baralho como carta-salva-vidas.
tuas armas são atalhos úmidos
teu vocabulário: indomável: …………………..revolta de mar solto.
o que se escreve do teu corpo não tem nome: …………………………..esôfago de veludo …………………………..onde me dissipo por tuas cavernas-entranhas.
……..se usasse brincos eles seriam satélites ……..rodopiando em volta de tua existência celeste.
teu peito-abajur vibra uma luz rara: ……………………cor de céu medular.
teu riso é vitral bizantino flamejante ……………………na arquitetura dos gestos translúcidos.
………………– ainda te guardo nos dedos daquele dia –
***
o silêncio, o barulho
ao som de philip long
para assis, lara e hilda
o silêncio do sono é trabalho de imagens profundas.
o barulho das ruas são palavras praticando o alfabeto.
o silêncio da menina lara é uma ideia danada sendo gestada.
a cor do sol faz um barulho que arde na pele.
quando o violão toca, estremece o silêncio que vive dentro do peito.
o barulho é bom quando feito com amor.
o silêncio das fotografias traz um passado que, às vezes, amansa a alma.
o ronronado da hilda é um barulhinho que traz felicidades.
o silêncio de um olhar perdido ecoa na orelha do espectador.
o barulho é gostoso quando estala no rosto.
o silêncio do escuro é um segredo em absoluto.
o barulho do alfaiate é roupa nova no armário.
o barulho do menino assis é
o silêncio que vazou da barriga da mãe.
***
esticar o mundo
para marcelino freire
ainda é possível esticar o mundo com a palavra poética
se aliando ao balé das arraias
aos porteiros que abrem os caminhos do mundo
às armas de misericórdia dos infames
aos livreiros da diáspora
às mercearias que sediam confrarias fugazes
aos tuaregues mensageiros dos ventos-suburbanos
aos engenhos e cachaças mágicas
aos taxistas sobrenaturais que detêm a arte dos atalhos
ao cinema do oriente abandonado
às musas que habitam os labirintos da memória
aos andaimes dos cemitérios da carne
aos carteiros que espalham pontes silenciosas
às chuvas que inventam estradas aquáticas
aos jardineiros que curam e fazem partos nos canteiros
aos gatos que amaciam os recantos da cidade
aos pintores alados que enfeitam os muros
aos bem-te-vis arquitetos do assovio
às crianças que dominam gramáticas horizontais
… é possível esticar o mundo.
***
para uma criatura encantada vol. 5
hoje o carteiro entregou infâncias na casa do poeta.
era cedinho quando inaugurou existência cremosa
fez apostas e arremessou expectativas
gastou verbo edificando mansidão ……..– seu perfume é como o som perdido que enche a casa.
é de uma timidez imperial
carrega um mapa de 2 pintores – encontro difícil de avaliar
sabe um pouco sobre receitas, vive pela cozinha entre temperos ……..– seu mundo é vocabulário em aprendizagem.
não manipula números, mas inventa sorrisos particulares
desde muito cedo aprendeu a domesticar cactos
provinciano é seu esconderijo infantil: o casulo mimético ……..– seu rosto é lua-cheia-de-poesia.
não tem tias ou avós, pertence a uma família incomum
do pai, herdou os sons graves e, da mãe, o gosto pelo efêmero:
são gestos refinados e aconchegantes ……..– sua herança é um limiar tênue na percepção.
é sempre mais afável pela manhã
momento em que enterra segredos em cofres vigiados por bromélias
e ensaia uma virgindade aristocrática sem tradução ……..– sua beleza é violência estalando pelas praças luminosas.
em seu canto arrebata o sentimento das palavras e lança: ………………………………….a felicidade é uma invenção macia.
***
para uma criatura encantada vol. 7
não viveu na companhia de uma única pessoa
tinha uma movimentação instável.
seus meridianos quase sempre desalinhados
não favoreciam um mapa astral seguro, solar.
de personalidade selvagem, demonstrava uma simpatia sussurrada
frequentou uma escola nômade-heterodoxa
colecionava sermões do sub-mundo e liturgias marginais
quase nunca tinha bagagem e nem falava de sua família.
só teve lares de fantasia e uma casa que existia em sonho,
que lhe visitava com frequência, aquecendo sua esperança.
exibia um olhar ansioso e uma tristeza erosiva
se gabava das cicatrizes eloquentes.
em conversas, pronunciava sons graves, dissonantes.
nem sempre tinha razão
sabia quase nada de poesia, era displicente com as palavras
não se interessava pelas intimidades desbotadas dos outros
vivia a ambiguidade de um passado caótico e de um presente incerto.
foi a festas que tocavam david bowie, lou reed e se embriagou
sua gentileza insólita era uma marca latente
carregava um fogo indolente como amuleto protetor
nunca foi a um médico. tratava suas dores com solidão-analgésico.
antes de desaparecer, comentou que a saudade é ………………………………….privilégio dos que amam.
Demetrios Galvão é habitante da província de Teresina (PI), historiador e poeta. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011) e Bifurcações (2014). Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012). Tem poemas publicados em diversos portais e revistas. Atualmente é um dos editores da revista Acrobata.
Às vezes,
quando os cotovelos apontam em direcções
opostas,
impelidos pela força de um espreguiçar,
gostava que as minhas costelas se abrissem
e a carne se rasgasse
e eu, feito petroleiro,
a derramar-me pelo ar.
***
poema em forma simples como um quadrado
poema em forma simples como um triângulo
poema em forma simples como
a dor que trago no sapato
que é novo
não de hoje
tem semanas
mas andou pouco
andar é simples
quando não se tem um pé quadrado
ou um sapato em forma de triângulo.
***
todos os silêncios caminham para
o abismo sentimental e eu que sou
morte permaneço apenas
pesado pelas ideias que constroem
de mim
em mim
a carne torna-se pedra
o tempo perda
crescem-me vazios nos olhos
e sombra no estômago
e eu que sou morte
duas vezes
não distingo as coisas das outras coisas
e as coisas do que não são
fico
quieto
seguro
da infinitude
***
Os dedos pousados sobre o dorso da loucura.
Memória do elefantário plantada à janela.
Mil vezes matei a criança que me urticava.
Cresci velho.
Segui o lado de dentro do caminho.
Desenhei cavernas em redor
e esfreguei o sexo para manter o fogo.
Ficcionei-me.
Deus abandonou-me.
Eu agradecido, fiz-me maior.
***
Hoje sonhei com a tua boca.
Sonhei que ela era uma casa,
onde víviamos nus e mudos.
As paredes cobertas de palavras
escritas por nós, com as unhas.
Todas as palavras de que precisaríamos
até ao fim da tarde.
Era uma casa húmida
como todas as casas onde a vida acontece.
Havia uma simplicidade branca no sentir.
Tu beijavas-me as mãos pousadas
no teu olhar.
Eu desenhava silêncios na tua pele.
E estremecíamos a cada brisa irregular.
Não pares, não agora.
FS Hill (Portugal) – Com formação superior em Teatro, decidiu, em 2011, dedicar-se à escrita poética, para tal abriu um laboratório poético online, através da rede social Facebook, onde a escrita e respectiva publicação do seu trabalho, numa perspectiva de experimentação, permitiram um diálogo direto com o público. No início de 2014, viu o seu primeiro e único livro – “Livro das Coisas Breves” – ser publicado pela editora MEDULA, de Coimbra. Tem publicado nas revistas Flanzine e Nicotina Zine e participa, em 2015, de dois livros coletivos: 70 poemas para Adorno e Mitoblina. Em 2014, foi um dos autores do POEMANIFESTO da editora Flan de Tal.
Descabido no orvalho, penso diferente
do que sonho porque o inefável me acena
palavras que me fazem tão leve, por acaso
mais leve do que claro, sem que firam o ser
ou o corpo que contraio. Logo, não me aferro
ao sonho, ao amor da existência que me
fere a pele, que aguça a minha sede, aflige
o meu sono e me abandona às margens
dessa vida em que me diluo sem saber
se o que estava em mim me subjugava
ao nada ou é o excesso que se move como
um rio ou é uma febre que só a si mesma
se compara, movendo-se dentro de mim,
distendida, como se fosse um par de asas.
***
Qualquer dia que me cale fundo, …….paciente,
seguirei o teu chamado
Será um mergulho por esplanadas
e um livre entender …..das ondas de dentro ……..no curso de um rio que se pressente…
***
tudo o que ela queria
era um flash,
um instantâneo
nada, nada mais que isto,
ou talvez, quem sabe,
tudo isto.
epígrafes nas páginas ímpares,
escritas ao léu,
filmes
gibis
baralhos
tarôs
bricolagens
ou imagens bruscas do Aleph de Borges
ou um bouquet de Simone de Beauvoir
no café da manhã
e o coração bumerangue
não estaria nem aí
para a histeria de Freud com pane
no seu imaginário
ou para as linhas tortas do império romano
sem as agruras de César
e, mesmo assim, para um Balzac caricato
o que ela faria do seu diploma
de anjos radioativos,
se o levassem a um cruzeiro
em mar constelado
cheio de metáforas de incertezas?
o que seria da maquete
de frutas silvestres adornando o salão de arte?
o desvario do seu idioleto é
a estupefação da sua poesia
Ah! e como ela oscila nos lapsos
da reinvenção da palavra.
***
Meus olhos compassivos andam postos,
Em minucioso silêncio e vínculo perfeito,
Sobre um horizonte de estrelas tatuadas
Que alumbram o signo traçado do mundo
E soletram palavras para a mão da noite
Que repousa sobre o dorso de uma lua
Prata, pasmada em céu aberto, a revelar
Uma alegria imensa a correr por suas veias,
Como a urgência de um rio, venturoso,
Liberto do jugo incerto, sem temer
As ribanceiras. É nessa serenidade ante
Os ritos de passagem que a mão do Pai,
Substantiva chama oculta, ensina a este
Peregrino as razões do ser para essa busca.
***
Afastar-me é o remédio para livrar-me do convívio
com esse vírus ignominioso, de palavras ásperas,
insensatas, dizer não à caverna, ao deserto aberto
fechando a porta ao vento de areias premeditadas;
apagar os frágeis sinais da ponte, dos cipós, da lua
feroz erguida dentro de vós porque a tua doença
faz desmoronar tudo num instante, sem que a arte
aceite esse veneno em sua raiz; deixar que outro sol
cante em minhas entranhas como a sombra da tarde
pois, uma vez decepada a minha haste, o sangue
espesso jorra ao ouvir a sirene de uma engrenagem
muda. Morte e movimento se esbatem nessa margem;
minhas braçadas não aguentam o tamanho desse rio.
Quase morto, visto-me a rigor para a noite de luto.
José Carlos Sant Anna é professor aposentado da Universidade Federal da Bahia. Atualmente é o editor da Quarteto. E já andou publicando os seus alfarrábios pela vida afora.
farto de engolir restos de nós
o que como tumor
sem ver se consumiu,
e menos que os restos o todo restou.
Uma teia no canto
formada reformada por uma aranha,
órgãos tecem e anseiam, enquanto
longe o macho ainda
inútil respira,
enquanto bêbada ………………….entre os
prédios uma …………equilibrista
na corda bamba hesita.
***
Ode ao edifício Ricardo
para Roger Alberto Meluso, in memoriam
Eu, sozinho, no prédio todo
não ouvi os estertores:
ia ao banco, quando ………………………quase
tropeço no
cadáver.
Correndo desesperado o pobre diabo desceu os degraus
delirante perdendo
a calça a perna falsa toda
dignidade
o caco que restou na calçada deitou, a Deus
clamou que não morresse
e como chama em cachimbo de crack nos becos da noite
apagou.
E eu
quase tropeço no cadáver.
***
Camus nos infernos
Há muito que as mãos
são mordidas pelas bocas que alimentam.
Entre as sombras não há nome
nem rosto:
se cansadas, revezam-se
como tratadoras de Cérbero.
E fumam nos intervalos,
apagando bitucas nos asfódelos,
foi para o treino desses momentos
que afinal viveram.
Feridos, os dedos levam
o cigarro aos lábios
num fumacento suspiro,
sonho invejoso, ser Sísifo.
***
Ode à serpente
Baixo demais para a virtude, ………………………..rastejar
sobre vidro, palavras
de ordem …………de ódio, …………………rastejar
tragando borras do amor
como rato ……….serpente
que devora o rato,
rastejar ……….sem pranto
que uma a uma essas gotas salgadas fracassaram
em redimir as gotas amargas
o gosto ………de ferro na boca,
rastejar …………..a espinha sustentando a verdade
quebrando no meio
o pescoço ………quebrando no meio
o rosto preso virado pra baixo ………………………………….rastejar
seria talvez canção
este resto de voz ………………….alhures,
sem suas plumas de corvo ………………………..estes versos
pobres e feios.
***
Um dia qualquer
A tormenta sobre o
centro cemitério
de guarda-chuvas
retorcidos nas sarjetas e lixeiras
e as poças
sempre mais que o previsto
profundas.
Uma sombrinha intacta
descartada
a desistência
essa coisa tão humana
inunda os bueiros.
Adriano Scandolara é poeta e tradutor, nascido em Curitiba em 1988. É graduado em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFPR, onde atualmente desenvolve um doutorado sobre poesia e filosofia da linguagem. É um dos editores do blogue e Revista Escamandro. Seu livro de estreia, “Lira de Lixo”, foi publicado em 2013 (São Paulo: Editora Patuá). Seu segundo livro, PARSONA, de poesia conceitual, e sua tradução de Prometeu Desacorrentado, do romântico inglês Percy Bysshe Shelley (1792 – 1822), estão no prelo e deverão ser publicados este ano, respectivamente, pelas editoras Kotter e Autêntica.
o que as sereias O disseram. O disseram voz, O disseram peixavesávidas palavras líquidas estruturas, lâmina dáguaçólida, O disseram inscrições no corpo dele, palimpsestensionaram sua carne de açores e penínsulas, O disseram ruídos sutis habitantes da carne do cérebro e O disseram cérberos com plumas e outras figuras de linguagem infernais convexaconcavidades de formações violíneas de mulheres anjas bestiais d´avilas santas desejando travessia da própria carne por setas e cítaras dolorosas alegrias escorrendo pelas coxas adentro aforando as vísceras até dar de beber aos pássaros e a qualquer homem de nome ninguém
***
OS SONS ASSUSTADORES QUE OS PÁSSAROS CONSTRÓEM
Qualquer constelação que lhe ocorre num lapso, lembra-lhe as modulações do corpo, as pequenas rangeduras, nem escutadas, que inscrevem, na memória gelada do mundo, a mortificação tão viva dessa mulher, para quem olho, sabendo-a bela e jovem e que mesmo uma bela jovem é velha o suficiente para morrer. Ela olha para o mundo e sabe bem que só da coisa inerte a morte se ausenta, então, ela sorri e agradece a alguma divindade ausente (pleonasmo), o fato de a decomposição onipresente ser o mecanismo principal de todo e qualquer palimpsesto orgânico. Hoje pela manhã, quando ela me ligou, conversamos sobre futebol e origamis e obviedades do sr. Assange, sobre o vinho que não tomamos ontem e os olhos inexistentes do monstro do lago Ness e sobre os sons assustadores que os pássaros constróem cotidianamente no espaço entre a minha casa e a dela, o que, naturalmente, nos levou ao assunto “decomposição de todas as coisas vivas”. A ela, é bom que saibam, nunca lhe ocorre Deus, o que lhe diz respeito são as artérias das pedras, as rugas dos lagartos, a torção do tornozelo de Maria Sharapova (mulherzinha antipática, ela diz) e alguma chuva leve na tarde de Amsterdã ou de Araxá. Seus lapsos, nos quais lhe ocorrem constelações de todas as estirpes, sempre produzem, em mim, articulações sintáticas e sinápticas que desabam, líquidas, sobre o meu corpo, produzindo uma espécie de chuva que dissolve, parcial e momentaneamente, este nódulo duro — ser a coisa-homem.
***
Queira chamar esta taça de vinho de presença de Deus ou de o-nada, beba-a assim mesmo, acenda depois um cigarro ou um pássaro, caminhe por uma rua vazia ou pela constelação de letras que compõem o limiar de para-onde a mulher, na mesa ao lado, olha. Mais do que isso, se puder, deixe de lado essas coisas de Deus ou de o-nada, deixe que as palavras pensem, deixe-as em sua liberdade e seu aprisionamento que as unem e as abismam, as palavras. Fazendo isso, é possível que desista dessa história de salvação e, então, poderá beber esta taça de vinho, livrando o vinho (e a taça) de sua necrose-simbolismo-cristão, bebendo esse líquido de igual cor que os mares de Homero, sabendo, assim, que apenas ele lhe dará o gradativo sono, que imita a gradativa morte que experimentamos diariamente sem nos darmos conta disso.
Wesley Peresé escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance Casa Entre Vértebras, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: Palimpsestos (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, Rio Revoando (poemas) USP/COM-ARTE 2003; Água Anônima (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL. Em 2014, publicou As pequenas mortes (romance) pela Rocco. No prelo: O corpo de uma voz despedaçada (poesia, a sair pela Martelo Casa Editorial)