E os pés inquilinos desapropriados dos sapatos..
Não por ordem de despejo.
Sinal de respeito..
Peço licença e
adentro em corações..
***
PASÁRGADA
Asa quebrada na minha frente,
passo
por cima..!
sem medo
de bico..
voo
sem pedir esmola..!
Ame
ou apedreje-me..
Sou passarinho
que come pedra..!
Voar
pra não chegar..?
Esquece..!
Só quero minha rota de fuga livre..
***
DISPARATE
Minhas borboletas no estômago..
Simplesmente,
resolveram se rebelar..!
E sem exigências;
como negociar com esse nosso amor doido..?
***
(DES)CAMINHO
Perdi minha
certidão
de idade
agora conto
os anos
na gastura dos sapatos!
***
RATOEIRA
Nosso
Amor
é do tamanho
de um elefante..!
Nosso
amor é
parelho – no sentido
figurado..
Marca
atalhos
inesperados..
Tem medo de ratificação..!
Nosso
amor
é uma pata de elefante,
que
por onde passa
fode tudo..
Mas
todas as formas
de amor
me interessam;
todas..
O amor
é uma ratoeira que tem medo..
Seh M. Pereira, poeta nascido no ano de 1981, em São Paulo, Capital, publica cotidianamente sua poesia na internet. Participou da Antologia Sarau O que dizem os umbigos?!! e divulga seu trabalho nos diversos movimentos de saraus da cidade de São Paulo. E-mail: sehmartins.shm@gmail.com.
Reconhecer o ouro do tempo
Que não há mais saída para a mesmice do agora
Que as fábricas acordam de manhã
Do sonho torpe
Do dinheiro hábil
Que o homem não tem vez na roda da história
Que a natureza passa ao largo dos passos
Apressados
Cambiantes
Reticentes
Que o trabalho não alcança nunca um fim
Em si mesmo;
Apenas passa – o tempo
E não se vê os olhos do poeta ………………………………..Na contramão de tudo o que for luz.
***
Escrivão
Minha demanda de amor
percorre a Guanabara inteira
à procura de um colo
uma prece
um sorrio meio largo
ao imaginar a surpresa
em me ver aqui – inteira –
a admirar seu raro talento
– usurpador de ofício.
***
Parto
I
Estou em minha hora mais fértil
Já que não posso te amar,
faço em mim outros filhos
crias do meu sangue
assim como o teu.
Tens parte nessa teia.
No espólio final, ficará
com o bocado mais
hábil.
Eu permanecerei
com as palavras.
II
Sem mais,
retorno.
Ele tem cheiro de alvorada.
***
Brasília
50 anos em cinco.
Tempo do envelhecimento de uma alma.
Um corpo pesa.
A gota cai.
O sol nasce.
Enquanto você fica parado vendo a noite se aproximar
Estático
O silêncio da noite morna com grilos
Entregue a qualquer coisa que seja vida.
Fernanda Fatureto é autora de Intimidade Inconfessável (Editora Patua, 2014). Os poemas aqui selecionados fazem parte do livro de estreia da autora, que também é Bacharel em Jornalismo pela Faculdade Casper Libero (SP). Mineira, vive entre trânsitos pela linguagem.
Gostava de seguir tendências
leu certa vez em uma vitrine
: menos é mais!
despiu-se do cavalo.
***
Rotas
Eu seguia rio lento
de certo, meio assoreado
mas manso profundo calmo
conhecidas encostas.
De repente você vem
me irrompe em fúria
me alaga em púrpuras.
***
Fonemas
Ele inaugura linguagens
no percurso do meu corpo
língua
morfemas
cartografias
e eu sou toda epifanias.
***
Leitura
Eu nunca soube de bússolas ou distâncias
nem sei contar luas
apenas aprendi que elas
vociferam
e sinalizam
o corpo:
seio
calafrio
cio.
***
Etéreo
O poeta sabe
que todo
verso
tem
fome
de gente
e epifanias.
***
Corpo
É sempre inverno em mim
e tudo são sinos, tambores
sina
querência de toque
Coisas que
arfam chispam
olhos que leem
regaço
remanso.
Adri Aleixo é poeta mineira nascida em Conselheiro Lafaiete, mas hoje vive em Belo Horizonte onde presta consultoria em Linguagens. É graduada em Letras pela UEMG. Possui textos publicados em outros sites e revistas literárias. Escreve também contos e literatura infantil. Publicou em 2014, Des.caminhos, pela editora Patuá.
Devorei pulsos em chamas.
Amplamente o rosto envolto por coágulos de sangue luzidio
a trespassarem as veias estanques como a enrolar
as cores existentes
por dentro.
Certo é percorrerem
todo esse ar
que engole o corpo celeste mergulhado
na textura do nosso corpo temporal.
Fico com as mãos
cheias de ossos trancados.
Levanto
a cauda de um espelho
e alongo as vísceras astronômicas,
com bastante força química,
a dilatar numa circulação sanguínea
até a leveza
da garganta se alagar
na sombra líquida
das artérias
contra o alto esquecimento das coisas profundas,
contra os tendões severos a racharem a boca desvairada.
Relembro quando adormecia
sobre todas as
coisas vivas ou mortas
por fora.
Submetia os lábios
a girarem a voz louca
ao lume pedestre
e ardia pelo estremecimento terrível
dos nervos cabeça adentro,
donde múltiplas
estrelas demoníacas
a baterem-se em mim longamente
param, a pouco e pouco, a potência que nunca me sorriu
e vago ou inocente deixo de caber
nos sítios superficiais
à minha volta.
Releio todas as cumplicidades translúcidas
a moverem toda a pele num feixe de pérolas
das salgadas mãos,
aos braços a escorrerem aquele alimento
metidos nas águas sentadas
no túmulo dessas estrelas tubulares.
A destreza deste poema extingue-se quando as unhas
tocarem na carne abaixo, rompendo,
com sinceridade,
a desvastação simbólica
da escrita furibunda
ou silêncio furibundo
a pesar com delicada melancolia.
Ouço o rasgão
do corpo a sangrar
com os tecidos dos versos
a palpitarem porque se nomeiam
e se escrevem dentro
da pulsação ininteligível.
Por cima,
devoro os pulsos em chamas.
***
fecho os olhos
abro-me nos teus como uma balada impune no seu sangue
oscilante
entretido percorro-te, estremeço-me nas veias singulares
depois com a ponta da língua
afável caligrafia reponho as cordas giratórias
e andas no meu imenso chão
um chão embalado p’los nossos sorrisos de cetim
só teu, só meu a transformar-se
porém nunca a concluir ou terminar salvo esse romance
nada súbito a apertarem violetas durante
jactos perfumados
decerto uma bondade eterna
eis donde chegam os meus afetos
e nas artérias de seda cristal
crias novas meigas cores novos ligeiros ares
novos amantes tons
novos endurecidos ruídos
novo auroreal amor para eu continuar a ver
a ver-te debruçada sobre mar transparente
com veludo de orvalho entre os poros
a ver-nos encalhados continuando a moldar
brancos banhos
como numa nossa gargalhada
a dormir no cume de videntes astros adentro
só dessa maneira
estaremos destinados a tais grandes coisas
***
Uma vez
atei lençóis ferrugentos
aos membros lisos
da claridade daquele céu tatuado,
como deslizava lasso ao longo
da corrente sanguínea
de um qualquer envenenamento.
Após sobrepostas vibrações
retalharem a sombra da minha fechadura.
São terríveis os afetos.
***
houve uma ensinada tarde
em que a luz se esticava dentro de mim
agitava-se cruelmente longamente
e eu expandia sem parar
quando subi demasiado humano
por entre avenidas de escadas povoadas
vizualizava esquecidos sábios
quem seriam? quem serão? existirão?
depois da meditação sentado na última abóbada do planeta
descobri a diferença entre a palavra origem e proveniência
essas asas d’ouros em tudo bizarras
acorreram-me uma a uma amando o vento
retina de minha oriunda consciência
outros arrastaram o espaço do meu concreto corpo
e a profundeza do mar a avistar as feridas palavras
eis que me amarram de ponta a ponta
uma infinita espuma movida por rostos
meu coração recluso do impróprio choro doce
contempla o tempo desafinado por raros
perfumes deslizantes
dessas hirtas pétalas ligeiramente oblíquas
e noctívago danço a sinfonia em que morro loucamente
Luís Filipe Marinheiro nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Portugal, Cidade de Aveiro. Poeta.
gelo e formigamento,
covinhas, a ficha
criminal de um amigo,
simetrias no escuro,
a necessidade de uma estrofe,
o prazer em ler Clarice.
***
POÉTICA I
A visão fura a maquiagem de olho aberto
sem rasgar as pálpebras fechadas de leve
Há cães e dedos nesta pequena enxergância
densa como o mundo quando vê.
Uma inocência a pôr óculos em pedras:
Seres maiores e estranhos.
***
O medo que sinto desta chuva baixa e traiçoeira
que a gravidade se casa com o vento para derrubar
das árvores molhadas até o chão encharcado
não me deixa ir ver o buraco que um vizinho fez
para do teto da varanda com um cabo de aço
pendurar um vaso de flor abaixo do chão do quintal.
***
POÉTICA II
O espelho me conta mais uma vez a lenda
deste duplo círculo de cílios vivos, –
mas eu reconheço a morte na ponta de um dedo
quando me deparo com tamanha falta de agulha
negra xenófoba temerária frígida primeiro-batalhão
contra a sedução tátil de qualquer imagem vista,
não este pequeno projeto de sombra platelminta –
que faz do espelho uma sala de espelhos alcova.
***
alinhaves de misericórdia
encerram um animal colérico
contra aquela criança que sonha
um céu inteiriço de nuvem azul
durante tardes nem tão amenas assim
de uma vida um senfim de promessas:
Não chego a cumprir sequer percurso.
***
Pronto a abandonar o navio
pela primeira vez percebi
a ilha de barcos em chama
que era o sol a se pôr
na ânsia do mar, horizonte,
este ciúme incurável
que as ondas regressam contra
tudo que ondula sem sal, mágoa,
esta partilha perfeita que o mundo fez do espelho,
cacos inconsúteis, o marulho das árvores na espiral das
conchas,
a nuvem verde da criança que sonha o silêncio astronauta,
o mar nunca deixou de berrar
e eu só ouço agora no zunido dos meus braços abertos,
meus pés pedalam ainda na órbita do encouraçado estéril,
a vastidão me espera em vão gorada nas orlas
e de uma crueza triste junto ao cerne mofado.
Eu sempre soube que odiaria as gaivotas.
***
QUOTIDIANA
Depois do alento,
há uma vitória ingrata
aos que não sabem cantar,
todos nós, ao fim do mundo
já descalços tropeçamos em saltos
ainda, ruído ainda lamento melancolia perdendo sons por dentro:
desalento descanso desdém dia
até sobrar uma única letra
a ser acrescida antes que tudo fim:
Algo algo antes que tudo some, melodia.
Leandro Rafael Perez nasceu em 1987 e tem a altura da Carmen Miranda com chapéu-coco. Mora quase em Diadema, SP. É autor de Pálpebras Amareladas (pdf, 2008) e Lança além do real só (Patuá, 2011). Turnê a meio mastro será o próximo. Mantém o blogue fumante entre cavalos.
Como de costume,
sem ter hora ou ocasião,
a verve me espreita
os sonhos mais sórdidos.
Ela se debruça sobre mim
e com seus lábios melífluos
me beija
ardentemente.
Somos o próprio caos.
Depois de algumas horas de
gozo trocado,
eu, ainda distante de mim,
me lembro de Dulce,
a bibliotecária que lambe
dicionários.
Recordo-me também de Agenor,
o velho que cultiva bonsais
em torradeiras.
Me vem a mente, por último, a persistência
de Hugo, o menino que empilha grãos de arroz
com um apuro sobrenatural.
O que
por acaso
nos aproxima
é justamente
o fato
de que sonhamos sozinhos.
O que
curiosamente
nos mantém ligados
é aquilo que
nos denuncia.
A consciência de que meu eu
só existe em lírica
não é um incômodo.
Muito pelo contrário,
é o que
dá ao meu aglomerado de células imprecisas
alguma verossimilhança.
O mundo seria ainda mais infindável
se todo espírito pudesse desfrutar do
prazer
de
inexistir.
***
Como fazer
Aos companheiros ourives Renato Silva e William Delarte
Mantenha
em território livre.
O recomendável é que se
refugie na parte da cabeça onde
a verve
nunca anoiteça.
Regue de três em três instantes,
com choro, suor, sangue ou qualquer
outra fagulha humana.
Se possível,
acenda um incenso.
Não são poucos os que apregoam
que o gesto confere ao objeto
um certo ar de efeméride.
Não se preocupe
em lapidar.
Não se deixe assombrar
por devaneios quanto
a forma.
O único desejo que deve prevalecer
é o de que
a joia floresça.
A coisa estará perto de se concretizar
quando estiver menos matéria sólida e
se tornar algo fino.
Mas ainda assim tão tátil
quanto o próprio vento.
E, por fim,
para assegurar
a garantia
de todo o processo,
sem remorso ou indecisão
você deve
atirar a pedra
no meio
do
caminho. Observação pertinente: você deve atirar
a pedra
no meio do
SEU
caminho.
***
A aranha
A aranha,
sempre humilde tecelã,
constrói a própria cama.
Eu atiro-me a minha
sem contestar sua
origem.
A aranha, essa decorosa mãe,
faz da cama
berçário para
acomodar sua
numerosa prole.
Eu abrigo na minha
pesar e ossos cansados.
A aranha, sábia raposa,
sabe que sua cama também
é engenhosa
armadilha.
Eu deito na minha, certo
de que é um santuário
de sonhos concernentes.
A aranha, sempre inventiva,
também faz da cama
um modesto refeitório.
Eu me vigio pra não manchar
os lençóis da minha.
A aranha, indubitavelmente,
sabe se virar.
Eu só durmo de bruços.
***
Sob nova direção
Herdei do velho dono
uma coleção de LPs
e um cão de olhos gastos.
O quadrúpede choraminga
toda vez que a vitrola evoca
a voz de Joplin
ou a juventude inesgotável
dos Besouros.
O cheiro de incenso perdura.
Há dezenas de pinturas mal-acabadas.
Tentativas frustradas
de autorretratos.
Nada é igual.
Nada é unânime.
Tudo se condensa de forma que
cada um dos arredores percorra
uma ala do coração do
antigo inquilino.
Cada um dos móveis,
cada peça que compõe a mobília,
tudo reverbera a falta.
A saudade é um hino estridente
que ressoa de forma violenta e é
cantado por cada um dos tijolos que
integralizam a ossada de
minha nova residência .
As inúmeras infiltrações soam
como veias puídas
que pulsam lembranças
em tom de sépia.
Eu, tão ausente, quanto
o avoengo proprietário
destoo desta alvacenta cenografia.
Sou elemento sobressalente de
uma plástica já sacramentada.
Um fio de azeite temeroso
em meio a um oceano de decomponível
quilometragem.
Não tenho feito nada a não ser
esperar.
Sonhar com o dia em que, finalmente,
hei de me habituar
à maneira indecorosa
com que esta casa
respira.
***
Visita
Servira-me uma dose
generosa
de uísque na xícara.
Corria pelos seus aposentos
ilustrando seu vigor com
gestos efusivos.
Entoava de novo seu
cancioneiro de
auspiciosos
anexins.
A. estava feliz.
Na poltrona,
o acordeão.
Ao que consta,
ele fora recobrado.
Partituras se acumulavam
pelo chão a exemplo de post-its
de toda a sorte de cores
nas paredes.
Minha querida A. dispunha
de um vestido amarelo.
Imitação original da luz do dia
e tão radiante
quanto ela própria.
Valsávamos incautos ao som de um
de seus blues.
Quando, por alguns breves minutos,
ela se ausentou
me aproximei de um
dos coloridos memorandos
que vestiam sua alvenaria.
Em todos eles
estava escrita, com a mesma delicada
caligrafia,
uma audaciosa máxima: o câncer
não sobreviverá
a mim.
Luiz Brener nasceu em Caraguatatuba/SP em 1994. Segundo a cultura de prognósticos, o mês e a hora exata de seu nascimento indicam que ele é capricorniano e o seu signo ascendente é o de peixes. Em outras palavras: Luiz é um obstinado sonhador. Publicou nas antologias literárias O Segredo da Crisálida e Entrelinhas-Vol.2, ambas da Andross Editora. Fotogramas é seu livro de estreia e integra a Coleção Patuscada, premiada pelo ProAC- 2012 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.
Marcelo Ariel nasceu em Santos, em 1968, e vive em Cubatão. É poeta e pensador. Autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados’ (LetraSelvagem), ‘Conversas com Emily Dickinson e outros poemas’ (Multifoco), ‘Cosmogramas’ (Rubra Cartoneira), ‘A Segunda Morte de Herberto Helder’ (21 Gramas), entre outros. Lança em breve seu décimo livro de poesia, ‘Retornaremos das Cinzas para sonhar com o silêncio’, pela Editora Patuá. É colunista dos sites Cinezen e Musa Rara, e um dos editores da Revista Mallarmargens.
…lê-se tarot pelo skype …baixa entidade via download ..cura vírus na força do pensamento …trazacurtidapostadaemsetesegundos
faz amarração no perfil da celebridade ….(de qualquer lugar do mundo)
***
se é sina
elucubrar
a sintaxe
é o máximo
que´se possa´
alcançar
(desafiando a gramática
uma vez necessário)
***
De repente
notou
a pintura
que seria
o céu
não fossem
tantos
pensamentos
***
ascender às alturas
e vez por outra
visitar os grotões
***
Para que tanta polícia, meu Deus, pergunta minha alma.
Porém meu juízo
não pergunta nada.
***
amor
não dá
assim
sem
com
paixão
***
romance pós-moderno
(ou amandhum vitae)
pra se envolver
nos tempos atuaes
é tudo uma questão
de gênero
antes trans
do que poli
saturados
***
oceanos de distância
pelas diferenças
– trocando torpedos
no mesmo ambiente –
teleguiados carregados
em mensagens
de texto
***
Não precisa fiador
poesia
é o aluguel da vida
e quando tiver cansado
da especulação imobiliária
basta se tornar proprietário
de uma obra
literária
***
o maior inimigo
mora do lado
(de dentro)
Caco Pontes é poeta e multiartista. Integrante do Coletivo Poesia Maloqueirista, autor de diversos livretos artesanais e dos livros “O incrível acordo entre o silêncio & o alter ego” e “Sensacionalíssimo”, além de ter textos traduzidos para espanhol e catalão. Recentemente fez curadoria e mediação do evento de abertura da Mostra Tuiteratura, no Sesc Santo Amaro, e do ciclo Epivanias. Pesquisa a palavra nas performances oral, corporal, visual, sonora e musical.
Narrar os pequenos acontecimentos do dia
uma lâmpada que queimou
um conceito lógico sobre a fofoca
cheiros e temperos
a salvação da humanidade
se um novo mar abriu
-se em óleo
os erros mais comuns da ortografia
se os pássaros aprenderão a fugir
se a ciência chega a tempo
se virão tropas de choque
e colidirão imagens sobre todas as cabeças
o ouro das imagens sobre as cabeças
em um dia comum de pequenos acontecimentos
homens negociam
ideias de enriquecimento
homens como novelos
de uma lã tão tosca
***
Muros gelados
como aqueles que separam almas
muros gelados
na polônia gelada
na pelada gelônia
no meio de auxivitiz
no meio de nothingtrix
no meio do nazix
morto – ?
ora, não nos condene por perceber
***
Não fiz as unhas esta semana
gastei-as
percorrendo teclas eternas
formulando perguntas
serrei-as
clicando em cores
formatando
a métrica
da ideia
da busca
de soluções
montei estruturas sem luxo
anéis de saturno
circulares
paralelos
em eterno movimento
olhei-as buscando a palavra
o sentido exato
risquei a pele
na ânsia por respostas
apoiei-as na língua
entre os dentes
e meu olhar se congelou num ponto
o limite
indignada, cortei uma delas
com uma mordida
***
Refém do primeiro verso
a palavra não encontra mais caminho
verbo
não concretiza mais destino
ponto
não aborda reticências
vírgula
não carrega interjeições
não há sujeito
nem provas que houve
o artigo não define mais nada
ou indefine
metáforas
métricas
rimas
elipses
são só dores fantasma
estrofe perdeu a língua
ninguém cogita resgate
***
A incapacidade de compreender o furacão
quando falta o ar
e a devastação é a respiração da terra
***
Fizeram do poeta uma estátua
parada na orla de uma cidade
que não é Itabira
fizeram do poeta uma pedra
parada numa rua
que não é um caminho
fizeram do poeta um ser calado
como sempre fora
e sozinho
agora repouso metamórfico
metálico
de partículas filosóficas do ar
que o rodeia
ele não ri nem de soslaio
antes odeia
***
Intergentes falais
por códigos análogos
semiólogos espiais
pela espinha e sob o dorso
do dragão
a curvatura de um código-fonte
subdesenvolvido para ser manipulado
num grande laboratório de códigos-fonte
epistemólogos e matemáticos decifrais
se o movimento
qualquer movimento
é concebido a priori
se for
e de fato parece ser,
juristas compadecei-vos
das inúmeras rédeas sem dono
que constam nos autos
e
poetas
afundais
porque já é ávida
e movediça
a lavra da palavra
cuja grafia começou
ontem
Autora do livro 70 poemas, Ana Peluso, 1966, abandonou Letras e Psicologia pelo Desenho Publicitário. Não deu certo. Aos treze anos sonhava ser Alquimista. Aos cinco, Bailarina, Pianista, Pintora. Aos sete, Professora. Costumava reescrever Novelas mentalmente. Livros, jamais. Catalogava Folhas colhidas na Rua. Esculpia Bonecos em borracha, Papel e batata. Imaginava um mundo feito de Palitos de Fósforo. Escrevia Diários. Hoje faz Sites em html1, retrô-total. Sempre foi Pisciana, só Parece que não. O livro 70 poemas integra a Coleção Patuscada, premiada com o ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.