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88ª Leva - 02/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Vagner Muniz

 

Foto: Ozias Filho

 

SERENIDADE

 

Algo de água no ar
uma suspeita Na pele

das coisas a busca de marcas
em contraluz, de sombras
(a face escura da ínfima gota)
a mão pela janela: o que não se vê

Respira-se água o vento
(vivência primeva de peixe)

Chuva-não
vem.

 

 

***

 

 

MERGULHO

 

Bicho pequeno lambendo
água na margem
Um gole e o gesto rápido (a fuga)
um gole um gesto mudo (tanto medo)
E um e outro se muito Apenas
a leões dá-se o direito
de enfiar a língua.

 

 

***

 

 

A CAUSA DO TEMPO

 

O tempo para
fazer-se presente
veste e reveste
as paredes da casa

O tempo para
ocupar um espaço
investe-se
nas paredes da casa

O tempo para
fazer-se vivente
(e não ser para sempre)
ergue paredes em si
para morrer pela causa.

 

 

***

 

 

ÚLTIMO SOPRO

 

Então ao tom da flauta a flor se abriu:
era de o som escoar pela pele de pétala
– Gélida pele da pétala
(repete em trote um eco)

Mínima breve
pétala ao pulso de lâmina –
grave (é um corte)
Do alto da pauta
o hálito alisava cílios, pálpebras
Cerrados
Vê de perto ao rés da pele os sinos.

 

 

***

 

 

DESAGUAR

 

para Miguel

Plantado por ele
fosse a terra
antes uma água

água em ondas
braço de mar, do pai
um mar, o maior de todos

Defluente
a vida à sua margem
não nadei de peito

(monstros marinhos
à espreita sob espumas
dos meus olhos)

E hoje manso meu mar
mais lento o pulso
anoitece

as águas
mais deitadas
quase um rio

(ainda vejo a linha
onde a onda nasce:
no espelho d’água, um mar acima)

Rebento enfim mergulho
além da linha, mais ao fundo
antes tarde.

 

Vagner Muniz (São Paulo – SP) é poeta, designer e professor universitário. Tem poemas publicados na Germina – Revista de Literatura e Arte, no Portal Cronópios – Literatura Contemporânea Brasileira e na Mallarmargens – Revista de Poesia e Arte Contemporânea.

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Tadeu Renato

 

Foto: Ozias Filho

 

Alêntodo

 

o poema não
esconde
………..nem responde
se depois da vida
põem-se as dúvidas

não clama no claro da noite
o aro ralo da lua
……..relendo as ruas da cidade
cala os verbos diante
das cortantes realidades da
………………fala

o poema entre
tanto
atormenta de espanto
……….todo momento de trevas
e faz de sua glória
um atrevimento

 

 

***

 

 

Salivaginádegas

 

um pássaro-poema passa
da minha
para
sua língua, com alívio
de saliva

voa entre dentes
seios dedos
bate asas na vagina

com instinto cor de vinho
resplandece a flor
que faz
num instante
este seu cultor
esquecer o fim de tudo

 

 

***

 

 

Das obras

 

No canteiro de obras,
as flores que brotam são flores de pedras.
Nem tanto, nem flores:
espelhos e torres que riscam e impedem
e perdem-se as linhas
e as vilas e as ilhas que são as pessoas.

Levanta a montanha
na manhã das pontes
– no horizonte, o sol vem à tona.
Migalhas de sim e de não,
minha mãe, seus irmãos,
desconhecida gente
descendo à cidade:
de todas as partes
vem trabalhadores
e pombas e graças
e atores de praça e a fome tropeça
pé de maravilha

A força do espanto
(mareja suor
da máquina-mundo)
pergunta e segreda:
será um bom dia?

 

 

***

 

 

Corte Certo

 

senhor impostor: sei que tem
andado por aí
dormido com minha mulher
usando o nome que tive
tomando benção de vó
corrido com os cães:
canalha

aproveite a morada
no corpo que não te presente

não demora nada
outro ocupa seu lugar
despedaça seus membros
sem tempo de se despir
aluga os amigos
imposta a voz navegante:

navalha

 

 

***

 

 

Legenda

 

ainda é insuficiente
dizer
palavras nos colecionam
sustentam toda estrutura
no caos das horas

revela pouco mais que nada
o trabalho transformando
pedra em casa
casa em lar
lar em vida
vida em morte

o tempo que passamos ocupando
mais cala
quanto mais
………fala

quase o quê
é essência ou criação
no que somos?

desde os primatas
até a hora passada
carregada de lendas e teses

nada serve de legenda
para esta tarde em que fervem
esta chama sem nome
estes sons pela casa
nossos corpos na cama
sob a luz deste sábado

 

Tadeu Renato (1981) é formado em Filosofia. Professor, compositor e contista. Tem palavras escritas, cantadas e faladas por aí. Dramaturgo do Coletivo Quizumba, entre outros grupos. Seu primeiro livro,  Alêntodo (letras para melodias corporais),  será publicado em 2014.

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Danilo Gusmão

 

Ilustração: Vera Lluch

 

sol

 

– não sei vocês,
porque cada um tem seu destino,
mas eu que sou pobre e sou fraco
não consegui viver em são-paulo
Antônio Estrela
(contador de vida e morador de Ribeirão de Areia)

 

num dia quente
desse inverno

sobrevivendo
sem descanso
na cidade
à revelia

dou graças
(coagido)
à sombra
que os prédios
………..simulam
impunes

…………….e dela
…………………..me desvio
(de olhos semiabertos)

 

 

***

 

 

cavalo solto

 

a passear o peito de quem ama
Carlos Drummond de Andrade

 

meus poemas, os dos outros,
especialmente os de
amor que lhe dedico
nunca servirão de nada
não provocarão um suspiro
só que seja

e você nem vai lembrar
do que eles dizem

porque
por mais
….que eu creia
assim,
………deste modo tão secreto,
….que um poema
……………possa
………..carregar amor

o amor, esse asceta
……………………….,
..não se locomove
 …………….por essas
…………e nem
 ……………..pelas
………………………..mais frias
…………e férreas
 …………………..maquinarias humanas

 

 

***

 

 

mandíbula

 

vou me sentar aqui
nesses cacos de vidro
nesse tapete de lanças

e esperar que a
pele endureça
que a carne
envelheça

a tal ponto que
nada penetre
que a língua
amorteça

e sua tinta
– a de minha
única caneta –
jorre
na atmosfera

esquivando-se
dos significados
dos nomes
dos quais padeça

e comunique

até que cometa
o crime negro
de adentrar
esses pulmões à volta
veia a veia

gerando insuficiência
(respiratória, cardíaca, horária)
………………………….temporária
e necessidade
de se sentar
aqui ao lado
para descansar
em silêncio

até que não haja desejo
que os verbetes
…………se esfacelem
que as verdades
…….se confessem
que as ideias
………….. se enraízem

e todas as coisas,
…………..sem saída,
….tenham que renascer

 

 

Autor do livro Contíguo, Danilo Gusmão nasceu em Limeira-SP, em 1990. Vive em São Paulo desde 2009 e cursa Letras na USP. Seus textos estão no blog Poemismo, o qual mantém ativo como principal via de publicação autoral até os dias atuais. É um dos integrantes e idealizadores do coletivo A Mandíbula, com o qual disponibiliza seus textos e os de outros autores em revista, blog e intervenções urbanas.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Fernanda Pacheco

 

Ilustração: Vera Lluch

 

prazer, você

 

dentro de mim mora o infinito
e dos olhos pra fora,
um íntimo enquadramento
do desconhecido,
da ilusão condicionada
e consumida pelo hábito do absoluto
que desobedece minha imaginação,
tão genuína e desabitada.
isso me acostumou a ignorar os detalhes,
fez do meu corpo aliado do tempo,
calou meus sentidos
me colocou os olhos de outro
que nunca me reconheceu
e eu solucei por isso:
por ter me reconhecido
como se eu tivesse nascido postumamente.

 

 

***

 

 

marcha da cronocracia    

 

as árvores de raízes velhas
marcham na pista molhada.
as velhas cobrem o rosto,
viram as costas pra puta calada.
a intransigência disputa espaço
com o bafo do inevitável disparate,
do desassossego que me aponta o dedo,
que me crava a alma no ponteiro.
cada moleque de pé no chão
já me afronta com a rouquidão de um reencarnado
enquanto eu deformo meus dedos
com golpes de ansiedade.
por mais que viver seja um alento em hipótese
o regresso do mundo cão é evidente:
agora parou um homem cego
me pedindo em nome de deus uma aguardente,
implorando por um sono que dure pra sempre.

 

 

***

 

 

Em nome do santo

Meu desejo é a falência do tempo,
A cristalização do escorrimento da vida,
O estancamento dos passos dados absortos no fim,
A conformidade com as injustiças do tédio.

Multiplicam o silêncio em troca de conhecimento
E alcançam o fundo do poço num grito errante
Que não satisfeito com a agonia de ser sozinho
Cava ainda mais fundo com as mãos o prelúdio da morte.

Não há crítica que perfure tal desolamento.
A dor deixa de se superar para virar rotina
E o que ultrapassa a retina cansada
É o reflexo de uma luz incompleta.

Imagino a solidão como a finitude do mar
Num dia frio de abandono da vida
Deitada na fronte encolhida
Aguardando a eternidade do ponto final.

 

 

***

 

 

sem título

 

de copo
em corpo
amo
e sofro.

 

 

***

 

 

A culpa é do Chet Baker

 

Seu rosto é todo neblina.
Apaga esse cigarro.
Deixa que eu me apago
Sozinha.
Agora vê se destoa de mim
E não me encare à toa.
Que embaraço essa coisa
de ter que amar como quem adivinha.

 

 

Fernanda Pacheco é professora, tem vinte anos, mora em São Paulo e é formada em História. Seu primeiro livro de poemas, “A culpa é do Chet Baker”, será lançado pela Editora Patuá em fevereiro. Admira a crueza, o desequilíbrio e o improviso da poesia. Sua primeira publicação saiu pela revista Mallarmargens.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Caio Carmacho

 

Ilustração: Vera Lluch

 

livre-me III (ensaio & conclusão)

 

livre-me como um pedido do livro-objeto
um mendigo que dá moedas no semáforo
um slogan de modess

livre-me como passe de mágica
oferenda de réveillon
abolição da autorreferência

livre-me: um mantra
uma proposta
um estratagema

livre-me dos rótulos
dos complexos
olheiras
correntes

literárias ou não

livre-me dessa cruz pesada
leve-me para casa
lave-me com buchinha

and love me
como se não houvesse amanhã

 

 

***

 

 

porção para dois

 

amar
é substância estranha
insuficiente quando não boba
desnorteada

porque
antes de tudo
é palavra avulsa
solta no boçal
da boca louca

vai se metendo em tudo quanto
é brecha – clara e escura

por presságio,
quando damos conta do estrago,
já era

virou coração viajado

e uma romântica porçãozinha
de frango a passarinho

 

 

***

 

 

ESTE LADO PARA CIMA

 

não se deixe enganar caro leitor,

para ler este poema é necessário
CUIDADO
muito cuidado

sua arquitetura branca e
FRÁGIL
pode não impressionar no princípio

afinal, para compreendê-lo a fundo é preciso
familiaridade e um manual prático
para interpretação de tipos

porque nem toda surpresa vem embrulhada
em papel de presente

nem toda surpresa
inclui pilhas

nem toda surpresa
chega lacrada com um
cartão: de: para:

que nem todo entregador não
consiga violá-la

porque o poema, caro leitor,
é um eterno convite

conteúdo que cabe
numa embalagem que se abre

 

 

***

 

 

informe publicitário

 

é necessário dizer
em caráter de urgência
que a vida não é só alarde

que a coisa mais sensacional do universo
está em falta no mercado

que o horário de funcionamento
varia de acordo com o feriado

que o preço da prateleira
não corresponde com o do caixa

que ser eleito o bebê hipoglós amêndoas
é uma vergonha desnecessária

que a promoção relâmpago
do amor-próprio
encerrou semana passada

 

 

Caio Carmacho  nasceu em São Paulo, cresceu em Paraty e mora, atualmente, em Piracicaba. Publicou Livre-me (2013, Editora Patuá). Escreve no blog Noutratez, organiza todo ano o sarau poético Picareta Cultural e é um dos curadores da OFF FLIP de Paraty.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Beatriz Bajo

 

Ilustração: Vera Lluch

 

INFINITIVOS

 

e se meu coração estiver na boca?

um beijo para assaltar o tempo perdido
na esquina canalha da navalha
desafiada
da rua sem saída

acordar a flor intacta e sonolenta
simulacro encantado no caule tortuoso
da árvore primitiva no sertão
úmido dos meus lábios sábios

a cor da arma de voo da libélula incrédula
é irresistivelmente a brancura infinita
das rendas tramadas nas fibras líquidas
âmagos imantados pelas intimidades luminares

 

 

***

 

 

TÊMPERA

 

ela roga entre escândalos dos sândalos
que exalam de seu rosário
raízes misericordiosas que se enovelem
por todos os segredos
tato intacto alma nua concreta pra ele
a cintilância que se curva ante o amante
todo despertar é fiança enfiando-se
na agulha do tempo desfeito de amor
aço da têmpera costurada
de esperas

 

 

***

 

 

LUX

 

um homem constrói sua mulher
pela beira de si, pilares
altares de singelezas
arquitetados de aleluias

por milênios dentro
dos momentos
acende colunas e
tonifica músculos
no peito aberto
para o sempre

inventa hélices
alianças
amálgamas

assim
eternamente
apalavrados
– no franco
caminho
de seus corpos –
despertam a linguagem
intraverbal
que os ultrapassa:

“nós
nos
vivemos”

 

Beatriz Bajo (São Paulo/SP, 1980). Poeta, diretora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são domingos em nós (PR), publicado em 2012 pela Rubra Cartoneira Editorial, a face do fogo (SP) e : a palavra é (PR), os dois de 2010. Mantém o blogue Linda Graal e o Esquina Literária, de ensaios, resenhas e divulgações.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carina Castro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

Cartográfica

 

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efêmero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduz a lancinante latitude
do teu entendimento

envias de volta um papel em branco

 

 

***

 

 

Esfinge

“es el espejo que devora espejos”
(Octavio Paz)

 

esfrego entre minhas mãos a memória,
e ela não se esfarela

avisto o abismo, mas ele não cabe em meus olhos

minúscula perante a esfinge, circundo-a
e me perscruta a sensação de que desmoronará
sobre mim a qualquer momento

erige-se um rosto em meu destino,
um rosto ancestral e desconhecido
tateio de cisma embotada

afunda-se um corpo estranho
em meu pensamento

entra-me pelos olhos signos minerais,
ciscos na alma

por que o vento não te leva?
que raízes invisíveis te prendem ao tempo?

move-se a paisagem frente seus olhos fixos
mas é sempre a mesma a paragem
de onde repousa, reina e observa
não sei o quê

uma boca alada se aproxima

minha boca está muito seca
me dissolvo em sua saliva

 

 

***

 

Miragem

 

podem-se alongar as retinas ao infinito
e ver a estrela que brilha no peito de deus que nem existe há tantos anos luz
ver a poeira cósmica se levantar sob os pés rachados na fenda de uma ilusão
arder nas têmporas o desejo que a vida seja leve e se satisfazer com o silêncio

não notar o peso da bagagem, ter as mãos livres, ter os sonhos pássaros
ter os pés náufragos num mar de bálsamo, afogar as mágoas num mar de rosas, beber a                                                                                                                                                                                                        [sede

cair como pluma, ancorar o corpo às nuvens, e no impacto com a terra abarcar o universo

ir além
ver poesia

 

 

***

 

 

Caravana

 

homens e mulheres
passaram pelo buraco da agulha

e a caravana percorreu os tempos
os solos
as línguas
os olhos

no infrutífero de sombras, quedamos plantados
esperando a queda dos frutos
o repouso dos corpos

esquecemos os pés

pelo túnel  da garganta
perpassavam vozes velhas
memórias amornadas

arrefece-nos as pálpebras

os retalhos estão impecavelmente membrados
e as mãos já esperam por afagos e fuga do trabalho

mas de longe se vê que não se trata de apenas
um tecido

[o sol levou o calor consigo, e a noite
nos impõe cobertos]

e que importa se somos indistintos?
na beleza nos atemos

 

 

Carina Castro (SP, 1988) é poeta e pesquisadora na área de Literatura Comparada. Escreve também Literatura Infantojuvenil, com um conto que recebeu o Prémio Lusofonia de Portugal (2012). Estudante de Língua e Literatura Árabe na USP. Assina a coluna Infante Ingente na Revista Ellenismos. Reminiscências do mar a embalam a estar perto da poesia, do canto, do sopro, orientar-se pelo que diz o desconhecido. Estes poemas integram Caravana (Editora Patuá, 2013), seu livro de estreia. Coleciona e escreve algumas coisas em Tudo é Coisa .

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Ana Elisa Ribeiro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

 

Peças em pau-marfim

 

A linha dos olhos
faz flechas
da cor de futuros

As mãos formam conchas
de pegar contentamentos

Os pés são grandes
como as telas
holandesas realistas

O corpo inteiro
é um tabuleiro
de jogar jogos de azar

As costas quadriculadas
As coxas quadriculadas
A boca quadriculada

Onde eu me finjo
de dama

 

 

***

 

 

Raso

 

Não me movo
neste espaço
por acaso.

Entre um lado e outro
destes braços
tem um raso.

Ímã, fivela, argola,
nada disso
cola.

 

 

***

 
Desvão

 

desvão esconso
tonto

cérebro torto
corpo oco

seu rosto flagrado
no topo
no cume mais morto

do meu próprio
torso
em fogo

 

 

***

 

 

Crise

 

É sempre por dois trizes
Que desistimos dos passos
Dos dias, das tentativas

Sempre por um triz de perder
E outro de ganhar
e não saber manter

 

 

***

 

 

Foram pingando umas estrelas no céu preto
Pintando umas nuvens no céu breu
Uns desassossegos, entreveros
Você, o abismo e eu

 

 

Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte e faz 39 anos em 2014. Publicou Poesinha (Poesia Orbital, 1997), Perversa (Ciência do Acidente, 2002), Fresta por onde olhar (InterDitado, 2008) e Anzol de pescar infernos (Patuá, 2013), todos livros de poesia. Tem poemas em diversas antologias, no Brasil, em Portugal e no México. Na crônica, publicou Chicletes, Lambidinha & outras crônicas e Meus segredos com Capitu, pela editora Jovens Escribas. É professora do CEFET-MG.

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Inês Monguilhott

 

Foto: Bruno Kepper

 

Pedra

 

Na terra
como n’água,
tudo que em mim vibra
quer erguer onde afundo,
fosso,
líquidas muralhas.
Concêntricos,
inúteis labirintos.

 

 

***

 

 

Pomar

ao meu filho

 

À distância de um braço,
sumarento,
o  mundo se oferece
fruta.

Convém não esquecer:
se vai polpa,
vão casca e caroço.

 

 

***

 

 

Brechó

 

Escolho vestidos habitados,
decotes bambos,
curvas desbotadas,
barras invariavelmente puídas.

Recolho na concha dos sapatos, a marca,
outra pisada.

Caminho com fantasmas.

 

 

***

 

 

Tarde

 

Hoje me visitam as cigarras
das folhas verdes de antes.
Bocas sujas de terra,
segredam raspantes fios de facas.

Tardam
os dias no tempo esgotado.
E é só isso, é só isso,
é só.

Ferem
os seres mitológicos exultantes
de sussurros e estrondos que traspassam.
Sangue e raízes, dizem desses dias,
são só esses dias, só esses dias,
conformados.

 

 

***

 

 

A outra face

 

Aprenda a dar-se,
inteiro
feito um tapa,
esgotando-se por completo
a cada safra.
Grãos na mão aberta,
bagas aos insetos fermentando.

Os dias,
todos,
todos os dias,
laudas, vésperas,
e completas.

Assim, dá o mundo a outra face,
dando-se
e perdendo-se.

 

(Inês Monguilhott nasceu em Recife, Pernambuco. Passou grande parte da vida na Paraíba e há mais de vinte anos reside em São Paulo. Publicou “natural” e “de mim”, ambos editados pela Ofício das Palavras

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Nydia Bonetti

 

Foto: Bruno Kepper

 

há um jardim qualquer
em qualquer
canto
onde uma flor qualquer
brotou
de qualquer
cor
de qualquer forma, flor
e eu a oferto
a quem souber cuidar

 

 

***

 

 

que gosto tem o verso e que
textura?

só sei da cor – vermelha
do coração na boca

da alma – na palma da mão

 

 

***

 

 

silencioso e raso passa o rio
não posso ouvi-lo
pressinto
a canção das águas
que se despedem das nascentes
e seguem — ávidas
de lua e mar

 

 

***

 

 

hoje nada me move – sou pedra
perdidos
……..olhos
……………no vazio
que cresce em minha face feito
………………………………..musgo

 

 

***

 

 

quando chove – desejo de não
……..chover
e quando faz sol – brilha
desejo  de chuva
……..a vida
parece mesmo ser
………..uma questão de tempo

 

 

***

 

 

o pássaro – com seus olhos de céu
me olha

buscando em mim – as asas
………………que já não tenho

 

 

***

 

 

assim, então dentro de mim
nasce um poema
enquanto
outro morre
moto perpétuo
roda d’água
que move a lâmina
que faz serrar a pedra / bruta
e faz brotar a flor

 

(Nydia Bonetti, engenheira civil, nasceu em Piracaia, interior de São Paulo, onde reside. Colaboradora na Revista Mallarmargens. Tem poemas publicados em revistas e sites literários e culturais: Revista Zunái, Portal Cronópios, Musa Rara, Eutomia, Germina Literatura, e outras. Publicada em 2012, pela Coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo, na antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos), organizada pela poeta Marceli Andresa Becker. Oficialmente, o Sumi-ê será lançado em janeiro de 2014, mas já se encontra para pré-venda no catálogo da Editora Patuá)