A vida me causa espasmos
E eu permaneço ao chão
Um caco que não quer adentrar – e não vai!
Uma ferida aberta, que jorra
Que glorifica o prazer de
Ainda suspirar – e sorrio!
A vida me intensifica
E sobretudo,
Acredito e cicatrizo – continuo!
***
fragmento
Achava legal a superficialidade porque a comparava como as bordas das coisas, como as cascas das frutas, onde, por exemplo, fica concentrada a essência do sabor. Depois, aprofundar qualquer coisa que fosse, era preciso coragem. Nem todo mundo está disposto a espinhar-se. Os dias soltam venenos. Os dias superam. Amanhã o céu será mais azul, e mataremos a sede no suor que escorre sal-ga-do!
***
22:22
toco o breu, meio ao jardim na sua cabeça de rosas ……………………………………………………………………………..sangrentas ……………………………………….e salivo.
paladar só assim.
infinito.
***
Ela queria ser seu casaco inúmeras vezes. Não! Não falo deste grudado no seu corpo que insiste substituir a quentura da minha alma, aquecendo sua meia-estação. Ela se refere ao que você leva nas mãos em caminhadas noturnas. Ela fala deste, deste que te faz decorar cheiros.
(Ana Pérola Pacheco (RJ – 1988), mora em Florianópolis, é poeta, fotógrafa, tem ensaios publicados na Revista Ellenismos, exposição fotográfica e conto na Revista Cruviana. Além de escrever em redes sociais e em seu blog Sentidos, é colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica e no projeto infantil Para Qualquer faz de Conta e atua também na área de Recursos Humanosma qual é graduada)
Eu tenho medo, confesso.
Juro que confesso meu medo
Meu medo
Meu medo é que se calem meus olhos.
Que meus olhos se calem o que há muito já não diz minha boca
Tenho medo que já não me caiba em meus olhos um mundo
Um mundo que em mim já é submerso, absorto.
Eles já calam as despedidas, meus olhos.
Outrora tão serenos, meus olhos cerrados, doídos.
Agora inertes trôpegos de uma maldade relutante
E uma saudade relutante
E eu não queria
Eu não queria que alguma coisa em mim
Como os olhos
Se tornasse finita.
Tudo é finito.
Desgostoso, admito o fato.
Tudo é finito aos olhos de Deus
E aos olhos do estômago.
Meus rins doem
E riem.
Meus olhos já nada
Nada em meus olhos
Pela tortura da dormente sensação de sofrimento por antecipação
Não sinto meus olhos.
E ao fim, que a eles pertence.
Que chegará sem que eu sinta.
Meus olhos morrerão no meio da minha preocupação medíocre
E eu não o saberei, mediocremente, justo por querer sabê-lo.
É justo.
Calar-se em meio disso é justo, é nobre.
Por isso falo, falo sem pensar, sem parar.
Ajo sem pensar, sem parar.
No fundo no fundo acho que o que eu quero é dessentir.
Por medo de provar do sabor de realidade que ludibrio.
E eu sinto tanto, sinto muito.
Sem sentir nada.
A vida é justa aos que a vivem plenamente.
E eu acho que nunca a vivi.
Minha vida é nada, minha poesia é nada.
Eu nunca vivi.
Tudo é falsidade, porque nem me permitir sentir, de forma íntegra, eu consigo.
Eu não sei ser íntegro aos olhos que falam.
Aos olhos que cantam
Aos olhos que cegam
Aos que cerram, à noite, em paz.
Os que cerram pra sempre.
Eu não mereço o olhar de nenhum cristão falso
Ou pederasta.
Matei meus olhos, sufocaram.
Sufocaram de tanta dor não sentida
Eu sinto um vazio no peito.
Eu sinto um vazio.
Vazio é vazio.
Vazio não se sente.
Assim eu adormeço, jurando pra mim mesmo que mereço outro dia.
Há sempre outro dia.
Há sempre outro dia
Há sempre outro dia
E é o que eu mereço.
***
IV Lächeln und Verzweiflung –
Para Carla Diacov
Feita
Seleciono silenciosamente gritos
Sempiternos e silenciosos gritos
Ditos no oco de minha alma estática e muda
Onde já não há estática forma
De se dissimular verdade.
Que verdade o acaso me espera saber responder, corresponder, adivinhar?
Se não me caibo equilibrar para além dos poros qualquer tropeço
Se a minha carne trêmula veta a possibilidade dos tremores cardíacos.
-Os tremores cardíacos os quais calo-
Que razão desmensurada me propõe tamanho lirismo?
Que conveniência me propõe tamanho gozo?
Que proficiência assentida pressupõe-me?
Chega de dúvidas.
Ao descaber-me dessas, curvo-me ao escuro.
Que ameniza, juntamente aos cigarros.
-Os limitadores de afã- Cigarros.
Porque afã cansa
E eu me sinto cansada.
De espera.
O mirone da vida teimou em dizer-lhe:
Olha como falha, demente, ao que tanto anseia.
Viciada nas parvoíces do devir.
Viciada na espera.
A paixão já lhe descai naturalmente fugaz.
Sou o acúmulo dos sentimentos néscios.
Eu que me deixo lograr.
E digo assim complexamente, pois fujo.
Que não me permito perceber.
Licença poética das medidas provisórias…
É onde me arranjo, porque meu ganho nessa corja de ideal é quase nada.
Minha cara dada a tapa somente ao vento, que muito maliciosamente bagunça os meus cabelos.
Quisera eu, quem sabe, perceber metade de mim nessa realidade que criei por cima da pele.
Ah, titubeando pro nada a graça de um brado valoroso.
Como sou mesquinha
E leve.
Avessamente bem quista pelos extremos de mim mesma.
A revolução por dentro da pele
O apaziguamento para além dos poros.
Como quisera eu ser pra dentro
O que pra dentro eu queria fora.
(João Urubu é músico, poeta e compositor da cidade de Belém – PA, graduando de Licenciatura Plena em Letras com Habilitação na Língua Francesa pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Dos três anos como poeta e compositor, passou um ano especificamente trabalhando como compositor de trilhas e diretor musical de teatro)
a poesia
lambe minha cara
engole a vergonha
e despe a alma
sem espelhos
as cicatrizes
são marcas
do que não me partiu (…)
feriu
em golpes mestres (…)
ou me pariu
num gozo de estrelas (…)
a sobra camufla a falta
não condecoro a dor
aos meus vazios
janela e ventania
***
(in)verso da metáfora
sua língua
segredo que dissipa
palavras em paladares
antigo diálogo amante
verbos complacentes
ordens sem imperativos
diminutivos ais
ditos sem rima
reinscrevo a estrofe
quando deita em mim
o mote
sou o (in)verso
da metáfora.
***
arremato
minha solidão a sua
alinhavo vazios
moldo minha pele
no contorno dos seus braços
dobro o tempo e amasso
ajusto o amor
espeto o dedo
esqueço que esgarça
***
não aceitam devolução
inexato
traço no lábio
ensaio
esboço de riso
quebrou o grafite
nasceu torto
no rosto
inacabado
porém
expressivo
o riso torto
(Karinne Santiago é sergipana, mãe de um menino descabelado, poeta e psicóloga. Escreve em redes sociais e em seus blogues: Poeticaria e Poesia Veneno antimonotonia, como colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica. Atualmente, envolvida no projeto de poesia infantil onde convida outros poetas a se aventurarem no universo lúdico das palavras)
A saudade queima os campos interiores
crepúsculos ardem na garganta.
Minhas paisagens estão ficando para trás
as cinzas do ontem transpassam-me
o tempo tem fome do meu corpo
fontes soterradas me gritam
as cadeiras pairam no pensamento
esburacando o enxame de ausências.
Acendo o fogão a lenha
o rio em meus olhos ficou poluído
dentro os corpos apodreceram
os rostos límpidos fecharam-se nos espelhos
dói-me os passos encravados no antes.
***
Tereza
Os dedos molhados na luz
escavam a pedra de sal no coração
abre fendas no espelho calcinado
em busca da fonte.
Existe uma porta em cada silêncio
uma janela onde pousa a ave branca
flores de arame guardam a paisagem
rosas em chamas trancam a passagem.
Nas pontes escorregadias
desliza o nome pronunciado no bosque
plantado dentro da fome.
Atravesso com os passos cansados
a praia do silêncio
estendo as mãos feridas
escavo
dentro da pedra existe um lírio branco
dentro dos olhos uma estrada esquecida.
As palavras grávidas semeiam lâmpadas
desejam parir um caminho
arder a solidão em outra solidão
fazer crescer um jardim por dentro da fome.
***
Navegantes
“Desveladas correntezas para aportar”
Roberta Tostes Daniel
Desértica palavra veste o meu canto
tenho sede
cobertores de areia envolvem meus lábios.
Agacho os ouvidos
tento ouvir os sussurros de Deus
agasalhando meu cansaço
é inútil
ele se nega a dizer o meu nome
enquanto isso
o fogo consome meus passos
as tábuas da vida queimam lentamente
um pouco de mim escoa sem rumo
tenho pouco tempo
a chuva tarda em beijar os meus lábios
meu coração rachado não comporta flores
espero ansioso chegar o jardineiro
plantar as ramas da luz na escuridão
cultivar lírios brancos
onde crateras empoeiradas avançam.
(Sandrio Cândido (1991), reside em Curitiba (PR) onde cursa Filosofia. Possui poemas publicados na Mallarmargens revista de poesia e arte contemporânea, Zunái Revista de poesia e debates e em outros espaços virtuais. Edita o blog A alma e a rosa. Email: sandriocp@yahoo.com.br)
Um pouco a dormir, um pouco a cochilar;
outro pouco deitado de mãos cruzadas, para dormir.
(Provérbios 24:33)
Não me lembro bem
quando cruzei
as pernas
pela primeira
vez.
/Talvez os corpos
aprendam
com
os seus extremos:
É impossível
(pedindo)
cerrar os punhos
cruzando os dedos./
Sei que sempre, e
antes, já cruzava
os braços com
alguma
habilidade.
Cruzar.
O corpo é indeciso
com seus vários
defeitos.
O corpo, e seus
muitos medos
contraindo-
se sobre
-si
mesmo.
Este é o momento final
(apocalipse
do corpo)
a que chegamos
em pecado:
cruzar o amor
ao corpo
do ser
amado.
***
A Última Ceia
Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.
/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda
dos pais.
Restos do pequeno
que sentavam ao meio
da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /
Já não me encaixo
depois que aprendi
a olhar de lado
e sair por baixo.
***
Desistência
Como à cama há pouco tempo
nos olhávamos em silêncio
hoje, nossos ossos, esqueletos
encaram-se, em paralelos.
Comungados da mesma hóstia
repartida e azeda / dois exércitos
negros, iguais, porém divididos
por um mesmo tabuleiro
: o ódio
, encarnando-se por este alimento
toda parte de um corpo
tanta carne sobre
ossos
que a vida é quem nos indaga:
– Ainda haverá sangue?
/ a tristeza
é que
na vida não se
pode,
como no jogo
o roque /
***
Por um Fio
Para Aline Rocha
Esta pálpebra revela,
quando se fecha, que se
ajoelha ao que deseja
e se curva ao que espera.
Ela não vê, está cega.
E ainda que esfregue
os olhos, ela mesma
não se enxerga.
ela esconde, de sua retina
que se arregala,
e brilha (como cortina
que uma festa encerra)
tudo aquilo
ao que se destina.
O seu destino.
(ela está presa, pele
cárcere que se repete
Sísifo.)
/ Carrega em sua cabeça
cada peça do que pede:
tímida como quem reza. /
Cruza os dedos, arranca os cílios.
Ela realizará à força
o que é pedido,
mas parece promessa
Chora?
É um cisco.
(Eduardo Lacerda,autor do livro de poemas “Outro dia de folia” (Editora Patuá),nasceu em Porto Alegre, mas vive em São Paulo, cidade que ama, desde os dois anos de idade. Cursou Letras na Universidade de São Paulo, mas não concluiu o curso. Como um legítimo geminiano, também não conseguiu concluir nada até hoje. Atualmente, é coeditor daEditora Patuá, onde acredita que livros são amuletos. Tem poemas publicados em revistas eletrônicas e impressas. Não se considera poeta. Sua paixão, editando, é fazer nascerem livros e poetas)
trilha escondida
labirinto sem mito
passagem secreta para mundo
onde a voz tem som de mar
límpido
sem ondas
sem sal
sem naufrágios
e o olhar é gaivota
à espreita da hora certa
de mergulhar.
***
latrodectus
sei o que tens
em tua íris
palavra
de instinto aracnídeo
tece
prende
mata
devora
digere o bardo
com tua libido
***
guizos e mordaças
laços dão-se
nós e pesam
no estômago
a profilaxia
atordoa
o bom senso
a ebriedade
não brinca
de bacante
reza o mito
desconsagrado
e impuro
: o amor
finge-se fingir
***
matéria
a mesma carne
que ama
é vil
quando rejeitada
líquor
: o outro nome
da alma?
***
lírica explosiva
o hipotálamo
rende-se
ao olor
da úmida
flor
que lhe acena
entre coxas
e erotizado
fode com
meu juízo
(Joelma Bittencourté paraense. Formada em Letras pela Universidade Federal do Pará. Dedica-se ao ensino de Linguagem. Sua relação apaixonada com a poesia dá-se pela necessidade de exteriorizar sensações e imagens que lhe acometem. Além de assinar os textos com o próprio nome, utiliza o pseudônimo Acqua, quando aborda temáticas mais densas. Publica seus poemas nos blogues pessoais Transfigurações e Negrume, e nos sites coletivos Poesia: Falsidade Ideológica, Dardo, Poetas Vivos)
A poesia não aceita algemas
nem acredita em bombas ……………..de efeito moral
madona ou doidivanas
a espada de Dâmocles
madrasta humana
tremula o horror
nos lábios de uma menina
tremula o horror
na face de uma criança
no lado acordado peito
tremula uma flâmula
tremula uma bandeira
no quintal da infância
no lado açodado do peito
tremula um fleuma
e mais que infla o inflama
novamente o arbítrio
a tutela – cinco dedos
tatuados na cara
e os chutes na canela
colar de medos
adorna o tornozelo
os guizos no esqueleto
pedem ao novo ilustre
um lustre na caveira
limpem as botas pois
os novos soldados
aonde vai a insensatez
essa bala de borracha
se o espaço é infinito
e o átomo está dividido?
está dividido o homem
o peito está dividido
e o coração endividado
despe-se em inexato leito
madona ou doidivanas
a espada de Dâmocles
madrasta humana
a poesia não aceita algemas
nem acredita em bombas ……………..de efeito moral
***
SOLUÇO SÍSMICO
Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos
soluço sísmico
na contração do parto
pende um quadro
trêmulo
na parede do útero
Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:
deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado
Jacobina
não é apenas um retrato
na parede
um berço
a ser embalado
***
A TIBIEZ DA PAISAGEM
Eles estiveram aqui
trouxeram antiga mala ……………em espécie …….sob auspícios
de Pandora
foram afáveis
com a minha mulher
e acariciaram
a fronte do meu filho
eles estiveram aqui
com uma grande mala
abriram seu coração
com cédulas perfumadas
– fixaram uma etiqueta –
tinham dentes retocáveis
como um sorriso de Hollywood
& tinham olhos comovidos
com a tibiez da paisagem
dóceis ……..porta-vozes ………………….do agouro
um dia estiveram aqui
& diante dos seus olhos
abrimos aquela grande mala
incrédulos: todos os pássaros
foram libertados
como borboletas em chamas
***
HARAKIRI
todas as manhãs
afia a lâmina
de matar o tédio
tira-a da têmpora
– aonde ..a forja arde –
e divide a tâmara
essa lâmina ……………luminar
eletricidade …………..e nuvem
não a porta ………mas
a comporta
………. não a porta ………. mas ………. a transporta
na baínha da alma
na cerzida ….bainha da alma
essa lâmina
fotossintática ………tética
para ……enfim ………….guardá-la
entre pétalas
na floração do umbigo
(Heitor Brasileiro Filho é ensaísta, cronista e poeta. Natural de Jacobina, Bahia, reside em Ilhéus desde 1994. Licenciado em Letras, é pós-graduado em Estudos Comparativos em Literaturas de Língua Portuguesa.Integra os livros “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum); “O Triunfo de Sosígenes Costa” (ensaio – Editus UESC-UEFS), e “Bahia de todas as letras” (conto – Editus – Via Litterarum). Acaba de lançar o livro de poemas “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo – 2013))
sei que as mãos se mantêm
no mesmo lugar subliminar,
adiante das palavras e mais perto
do poema que gira
sei que há uma árvore
e que existem troncos que dizem da
árvore [dizer é caminhar incólume
entre os versos]
sei que há palavras,
mas não digo delas
senão para decifrar
que tudo o que escreve morre cedo.
***
a língua lembra e purifica. mas não diz dos orgasmos, da pequena sombra plantada junto à árvore branca. não diz do corpo quando se toma de decadência e horror ao esplendor. não diz dos silêncios que não são silêncios. [debaixo da raíz, apenas fico eu e um enorme deserto vermelho]. a língua não diz da semente e da grande voz que alcança. do inverno, da ânsia das flores, do pecado que aberto é à vida e ao desarranjo dos olhos. a língua não pode suportar pernas, braços, sexo, liberdade de sentir e entregar-se ao chão. a língua abre-se e encolhe, escolhe as vontades, escolhe as sílabas certas, o modo único de dizer o nomeado.
o inominado tem um pecado único: não suporta a fala e diz que o poema é uma cobra gigante, plantada na base do sexo. o resto são as pernas e o que fica entregue no acto da raíz.
***
poderás ter a experiência da carne,
mas apenas tens o chamamento da
palavra viva,
aquela que, de artéria em artéria,
vai construíndo o ramal das sílabas:
ordem geométrica do sangue.
a experiência chama
e o oceano transforma,
trazendo o poema de volta
à sua raiz de árvores:
ao cimo do vento
e abaixo da copa dos dedos.
***
destrói o poema
aniquila toda e qualquer possibilidade
do livro transpirar palavras
o poema não foi feito
para a estante desarrumada,
para os limites que as páginas impõem
à memória
constrói uma nova realidade,
em que as coisas sejam apenas coisas,
em que as palavras não representem,
nem tenham significados nem conceitos
explora do corpo o seu devir
explora da vivência a tua memória
e do saber oceânico da pele
o teu antro de sílabas.
(Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Mestrando em Ciências Documentais e em processo de formação na Escola de Biodanza de Portugal, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas. Participa activamente nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. O seu primeiro livro de poesia, Ascensão do Fogo, foi publicado em 2008, sendo seguido por Hierofania dos Dedos, editado sob a chancela da Temas Originais, em 2009)
Os murmúrios das ondas martelam
molhando os lençóis amarelados
de areias mescladas em branco e preto
Vaga a grande asa do barco no ar
e o céu escurece as ondas do mar
indo o rastro do mastro diluir-se
Moroso o pescador move o leme
sem medo do vento ventando alto
busca o consolo do leito límpido
E ruidosas as águas o bebem
sorvendo o seu sossego no mar.
***
Deserto
Canibalismo no deserto, aridez dos astros. Não há mágoa numa névoa. Somente a faca é minha carne. O desejo se escondeu num olhar amargurado. Facas e garfos não são sensações. O astro cresce à minha volta. Não é possível contornar a outra margem, o deserto é meu silêncio. A névoa cai nos meus braços, sustento-a até a capacidade do meu olhar. Olhar de deserto, não espero estações. Na virada das poeiras que oscilam ao vento quente do deserto, pássaros se comem antropofagicamente. Formigas, maçãs, garfos, facas na sua ordenação neblinam minha face. Face neutra na passagem da névoa. Névoa paira, cai, se esbarra nos ventos da minha passagem pelo deserto, anímico, auditivo, mais do que a minha vida.
***
Confusão
Deus habita o castelo de meu devaneio noturno
Abnego a abulia de um ser inconsequente
A alavanca contorce pêssegos na estrada da razão
Não sonhe com anjos e demônios em contenda
O camundongo toca a campainha da loucura
Casta, a moça fia a rede de uma agonia
Angústia de uma cômoda sobre o solo vazio
Concerto de uma concha no ouvido de um menino
Eclode a doçura de uma vértebra quebrada
Não há paixão numa corda esticada por Deus
Infecta, a pele queima ilusões de monstros
Madrigal eterno ecoa no cérebro de um vegetal
Opulenta manobra de um orangotango no escuro
A poeira sacode as núpcias de um casal
Preta é a cor de sua urina, carvão soturno
Uma prisão de um feto na coxa de um deus pagão
Ferramenta de um escriba é um feixe de seu cabelo
Não deixe a memória esvaziar a sua solidão
Devoto, um peixe apanha sua isca
Retrato de uma cova na abertura de seu crânio
O coveiro joga a pá num mar de serpentes
Cisne deixa o castigo inverter sua cicatrização
Cego, o homem censura a postura de sua demência
Doure um pedaço de carne podre com o sol de seu saber
Confusa, a mente não escolhe a esfera de um poder.
(Alexandra Vieira de Almeida nasceu no Rio de Janeiro. É agente de leitura, tutora de ensino superior, poeta, contista, cronista, ensaísta. Publicou o livro de crítica literária Literatura, mito e identidade nacional, pela Ômega Editora, em 2008. Tem vários ensaios literários publicados em revistas acadêmicas e livros. Participou da Antologia Scortecci de Poesias, Contos e Crônicas, em 2011. Tem dois livros de poesia publicados pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel” (2011))
em algum lugar
não cabe o todo
há muito mais de mim
em cada poro
ainda há o choro
o consolo
.
.
.
ignoro
***
DESENCANTAMENTO
para Antônio Adriano de Medeiros
Primeiro é preciso encontrar a fome,
a necessidade. Porque todo poema é
alimento. Os versos são pão e vinho.
O poeta precisa aprender que o seu papel
não é colher a uva, mas se deixar embebedar.
Não é devorar a casca, o miolo,
mas aprender a semear o solo e o verbo.
Ser poeta é saber crescer na miséria
de carne, de pão, de uva.
É descobrir-se sedento e esfomeado
toda vez que um verso lhe ronda a face.
Um poema não sabe nada de Vida e de Morte:
ele é a magia, em si, que, se decifrada,
vira palavra no papel.
***
EU TENHO UM RIO
eu tenho um rio que brota de dentro
e traz à tona o que foi sedimentar
tenho margens estreitas, correnteza furiosa
sem escolhas, apenas desaguar
invado e erodo, aliso cascalhos
até escorregar no limo do verbo
eu tenho um rio que leva as paredes
que se erguem em meio ao lixão da poesia
e soterra a palavra viva
eu tenho um rio de inundadas faces
e chovo poemas de sangue
eu tenho um Rio de Janeiro no peito estiado
e expio a falta da lembrança do teu rosto
***
POEMA ESTÉTICO
Preciso urgentemente de um poema estético
eliminar a gordura localizada da palavra,
depilar o verbo e limpar a pele da poesia.
Necessito impreterivelmente de uma rima cirúrgica,
da assepsia do olhar sistólico,
laquear o peito lacerado.
Careço remover os resíduos de ossos triturados
na medula da saudade,
suturar a deiscência da canção.
Uma incisão limpa no músculo entremeado de versos,
cujas paredes bombeiam ausências.
Por fim, a cicatriz imóvel e cintilante
com o traço fino da pena.
(Lílian Maialé carioca, médica, escritora e poeta. Publicou, em 2000, “Enfim, renasci!”, com 135 poemas, e teve participação em dezenas de antologias, desde 1999. Coordenadora Regional no Rio de Janeiro para o MIP (Movimento Internacional Poetrix), teve poetrix publicados em “Antologias Poetrix”, de 2002, 2007, 2009 e 2010, além de ter organizado um e-book com poetrix de 10 participantes do MIP. Filiada à REBRA (Rede de Escritoras Brasileiras), participou de 04 antologias lançadas nas Bienais do Livro de São Paulo)