Ouve
E aproveita
O silêncio do qual
A pessoa é feita
***
A gente nunca erra
Quando faz da paz
Nossa arma de guerra
***
Viver eu suponho
É montar a realidade
E chicotear o sonho
(Alvaro Posselt nasceu em Curitiba. É professor de português e revisor de texto. Participou de antologias de poetrix, haicai e miniconto. Já classificou haicais e miniconto em concursos. É colaborador do Jornal Memai – Letras e Artes Japonesas. “Tão breve quanto o agora” é seu primeiro livro. E-mail: alvaroposselt@yahoo.com.br)
sobra de todo o silêncio
o raro acorde
do teu nome
a que solidão altíssima
me entregas
quando te deixas morrer assim
no abraço faminto
do tempo?
***
claríssimo lugar
e chega-se ao lugar
do saber
ao claríssimo lugar
de tudo se nos correr no coração
como luz
como um animal devotado
e louco
branco, muito branco
caído nos olhos fechados
no outro lado
como se fosse enfim
a morte
***
caçar a água
caçar a água
no veludo escarlate da sede
pela madrugada
no coração tenro
da neblina
antes que a maré suba
os labirintos
aos pássaros
revelar a pedra
ensinar o lado de dentro
do musgo
a curva macia
dos seixos
porque a loucura
deve ser rasgada por dentro
com as mãos cravadas numa ponte
acesa ao abismo
***
é preciso dizer
é preciso dizer
que não há mais nada a celebrar
nem os homens
nem as ideias
nem o tempo
essa fenda
que te atravessava a vida
esse rasgão generoso
que te aproximava os céus
fechou-se
estás perante o escuro silêncio
das coisas mortas
não abandones os espelhos
ainda que quebrados
eles são o palácio derradeiro
o último jardim
a gota impossível
de secar
guarda aí a semente
as palavras
as vozes
as imagens
porque o amor
é um minucioso trabalho do tempo
em direcção à morte
(Gil T. Sousa (1957) nasceu e reside em Vila Nova de Gaia e é Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Escreveu: poemas (2001), falso lugar (2004) e água-forte (2007), edições privadas do autor. É autor dos blogues: poesia,falso lugar e exercícios de esquecimento)
as coisas são o que são:
o copo-de-leite sobre a mesa
o botão amarelo na caixa de costura
a espera da carta que você mandou
no mais, o mar
e as ruas vazias
a solidão e suas ilhas
visto daqui
o mundo é tão plano
***
Minúcias
desde ontem arrasto móveis
molho plantas, aparo pontas
cato minúcias
só não lembro
onde deixei aqueles brincos
aqueles que pesam
como os silêncios que saem da tua boca
***
Rotas
ontem refiz seus passos
guardei seus gestos
depus sobre a pedra
a solidão e os sapatos
nas mãos, o buquê de amarílis
nos olhos, antigas ternuras
na carne, os mapas em que traçamos
as mesmas rotas de silêncio e fuga
***
Amuletos
tenho pra mim que você me veria
num café ao largo do mundo
remoendo o azul das coisas
no centro de uma cidade cinza
tenho pra mim que você me teria
lábio vermelho, branco pelo
pó de arroz, rímel, cabelo
e dentro uma cidade cinza
tenho pra mim que você viria
com seus amuletos e orquídeas
e seríamos qualquer coisa
entre o belo e o absurdo
(Autora do livro Boneca Russa em Casa deSilêncios (Editora Patuá, 2012), Daniela Delias nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul. Tem poemas publicados no Livro da Tribo, em revistas literárias e no blog de poesiaDo Lado de Cá. Apaixonada por literatura, música, fotografia, cinema e psicanálise, é também psicóloga e professora universitária. Mora na Praia do Cassino, em Rio Grande, extremo sul do país)
Às vezes, volta ao breu,
como a bruma se afoga
num rio.
Seus olhos são mais
claros que os olhos
claros.
Ele é o gato anterior
ao fato anterior.
Mesmo anterior ao fato
anteriormente dado
a ele mesmo,
gato.
Isso não se explica:
acende-se uma vara
de incenso de mirra.
Nasce e existe,
salta e volta a
saltar, do início.
Salta sobre o meu colo e,
de novo, volta a saltar do
chão, sobre o meu colo.
Se eu me visse
pela primeira vez,
pelos seus olhos anteriores,
não me acharia humano,
nem me acharia.
Mas saberia da dor
de não me saber,
se multiplicada
por cem
pulos.
Ele veio por entre as
teclas do piano de
tampo fechado.
As copas das árvores
as sombras das árvores
se dobraram,
em arco.
Patas postas na soleira
da porta, sem pó.
Unhas arranhando
o chão de terra.
Ele me ensina névoa
de musselinas.
Ele é o gato anterior
ao fato
anteriormente dado.
Roça o tampo do piano
como se fosse
vidro.
Tira escamas
dos meus ouvidos,
e medo dos meus pés.
Ávido, porque
sem lugar
no mundo.
Seu lar é a fresta da música,
o intervalo entre as teclas
branca, preta e branca.
Listras, ele não tem:
qual lince, cor de
laranja.
É o gato anterior a mim,
anterior à minha volta,
anterior à minha
dúvida,
anterior à música,
anterior à pauta.
Zaratustra.
***
Chão Absoluto
A respiração presa. Desde que perdi a noção do amor e o sentido da distância. Desde que não pude mais [nem soube mais] atrair as flores, comandar o vento. Desde que me vi no Exílio antevendo, da morte, a antecâmara. Deveria ser amplo. Poderia ser. O sentido do ar me dando sentido [e estufando o plexo]. Deveria ser sol, e o céu não pareceria tão alto. E a terra não seria O Abismo. Deveria ser Amor, e não Intelecto. No entanto, é a este Chão que estou preso.
***
Acrílico
Ninguém tocará teu rosto
por detrás da máscara de
acrílico [onde há fumaça,
há fogo].
E o coração, muitas vezes,
parece ser órgão cansado e
estúpido. Clange e se arrasta
e plange, como carro de boi.
E ainda que não te possa tocar
a face, posso ouvir [e devo dizer
que ouço] esse roçar de carroça
em chão vermelho e pedregoso.
Olhe pra cima e respire
fundo: Aquilo é o Sol.
(Sou psicólogo por formação. Já trabalhei em AMEs e UBS nas periferias da zona sul de São Paulo, em ONGs [SOS Aldeias Infantis, CVV], consultório particular. Sei das artes um tanto, do mundo cão sei também um bocado. Escrevi alguma coisa que está espalhada na web [Corsário, Cronópios, Mallarmargens, Casa dos Poetas – Portugal -, dentre outros] e em alguns blogs. Publiquei o romance Cidade de Atys pela Ateliê Editorial, em 1998. Por escolha e ideologia [discordância com as regras do mercado editorial, fundamentalmente], só escrevo na net, agora. Assumo a escrita como ofício sem fins lucrativos)
Tomasse eu o seu eco,
nua ao som do seu corpo,
espalharia por sua saliva
a ferida presa aos meus lábios.
Tomasse você
o que se esconde
sob os meus olhos fechados,
perceberia os cacos do amor inutilizado
e o quanto guardava esperanças
o indefinido retrato.
***
Parapeito
Na inevitabilidade
da memória
não há reparo.
O parapeito
do desejo é
como um cárcere
cimentado
em desmedida
solidão.
***
A condição indestrutível de ter sido
Arranca do interior
a pele do meu livro,
escrita inconstante de um silêncio
incerto como os movimentos de meu corpo,
como as cápsulas guardiãs
dos mitos e dos suspiros,
das linhas que não ultrapassam e
não respiram
a condição indestrutível de ter sido
por alguém
um amor perdido.
(Helena Terra Camargo é jornalista e escritora. Nasceu em Vacaria, mas mora em Porto Alegre. Participou da Oficina de Criação Literária ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil (com publicação na coletânea Contos de Oficina 23) e participa dos seminários de criação literária de Léa Masina. Participa do blog Falsidade Ideológica e administra o blog coletivo Mínimo Ajuste)
cego
aceno o diálogo de poucos
porcos especialistas em pérolas
mudo
de discursos e sílabas
ora teimosia de um barco a velas
ora colossal
qual monstro ou surdo
ritmando mínimos tremores de terra
cajado inimigo
tacape em punho
invisíveis cirurgias nas vértebras
***
detrator azucrino
atravesso a paciência
com a pontinha dos dedos
calcifico as desvantagens
faço cafuné e coço
do cóccix ao meio do céu
pernas inquietas em síndrome
de reclamar mil calcanhares
bem antes do salto o chute
e infecção no canal da lágrima
só dando nó em agulhas
é que massageio os ossos da face
***
o duro nódulo
parto
no muque
ou com uma gafe
desdobro
os laços
canhestro
trombo
nas etiquetas
rasgo
com o sabre
devagarzinho
faço butim do sumo
arrebato só o recheio
escambo sem bodas
brindo a quem
só nos receita
ir ir e colisões
(Marcus Grozaé poeta, dramaturgo, professor e devoto do céu violado. Autor do livro de poemas Do Buraco à Poça (no prelo – Editora Patuá), escreve regularmente no blog Pelas Ventas e Membranas. Além de literatura e teatro, interessa-se por música experimental e intervenção urbana. É Mestre em Artes pela Unesp e graduado em Filosofia pela USP)
preciso te avisar que sei carpir segredos e tateio silêncios
porque ouço em braile e à medida que teu sono inspira inauguro
arcabouços postes na altura dos teus poros, pequenas cidades.
eu quero estepe e riso e gota e vidro
e na esquina do teu cílio enredo um poema tátil. quero aparar tua
reticente vírgula. e confundir o teu cenho enleio passo.
mas eu preciso prevenir teu vão. que desenho til na linha do teu
lábio. que detenho o vil da tua fineza. que aparo gotas do teu olhar
quedado.
eu quero carpir a tua pele dentro.
quero expandir as tuas verdades.
quero escalar as paredes mornas do teu berço ilhado.
advirto ainda que meu toque é leve, não quero acordar o teu
silêncio indócil. eu só quero as portas do teu só sem chaves. tirar
pra dançar essa fresta tênue, que descansa a falta de uma brisa
torta. o meu hálito venta janelas de miras.
enquanto a tua vigia dorme, inscrevo o alfabeto das tuas retinas.
eu quero acordar a tua alma fóssil
e bocejar na boca da tua angústia
e quem sabe dizer bem baixinho e rente: despe o teu medo o frio o
passado o espinho que meu leito é quente e minha sede é ninho.
(Dheyne de Souza está em Curitiba, escreve poesia, prosema, caos e guaritas)
(chamo-a minha mulher por puro disparate
sabemos: não pode ser de ninguém se é sua)
princesa de copas, agoniza uma imperícia com os dedos
não obstante goze as pombas que alimentamos
meticulosa em tudo, não sabe desses seres
que precisam de um cuidado desleixado:
as violetas sedentas por esturricar ao sol e os peixes
megalomaníacos que insistem não se serem, ser beta, oscar:
sozinhos e só, como em resposta ao mundo que os paralisa
o querer ser outro – mamífero e rastejante; neurastênicos
da família poulain, brincam com ela em saltos mortais…
adormece minha mulher quando venta teu nome em minha língua, amor
em tudo o mais é desperta. poderia minha boca
num absorver de fôlego, fazer jus à sua natureza terrestre entre as águas?
mil imagens se deslindam desde a sesta até agora
cantando estorietas de quando eu era feliz e sabia alguma certeza.
***
kammerspiel, metáforas pra voglia, 6
separada da alegria do mundo
não escrevo. se me dão grafites, soutiens
dou um passo contrário às velocidades
e não vou ao mar
aonde escondi-me a mim
suspiro. boneca inflável
rasante de ogivas, sobejo
– a última gargalhada não é estática
uma panaceia cortante.
***
nouvelle vague, minhas sextas com ela, metáforas pra voglia, 7
antes que se dê nomes às coisas, as experimento
como uma mulher que nos momentos de transformação permanece
em casa, que derruba o chá por não ler as instruções
da lata, o desvelo das certezas. espaço decodificado em coro
pelos evangelizados e aberto ao espanto, por ser reto
movimento das dúvidas ao conhecido, vem o verbo a mim
milagre das câmeras que habitam o silêncio e o escuro
carregado pelo peso de seu momento, a sensação pré-objetal
de que resta tudo a ensaiar, pôr à prova, ser ex-
perimentado. amálgama de desesperos e paixões, transferência das lógicas
e peripécias à emergência do único: levantada nas mãos a própria cabeça.
mesclamos nossas peles
com a pleura da palavra
somos sílabas singulares
sem sofismas plurais
somos os mais cúmplices
parecemos os mais complexos
possuímos o mesmo álibi
o teu veneno é mel
o meu tanino é céu
meu e teu o suor sob
um sol de meia-noite
teu e meu o soro sobre
o húmus dos insones
só nosso
o endereço do segredo
confinado em um quarto
crescente
[fonte das sedes
foco das fomes
fólio de sucessivas mortes]
e mudos e desnudos
e completos
seguimos rumo
ao cimo do sigilo
pátria dos prazeres
secretos
solo do intraduzível
língua onde nós
nos confundimos
***
viúva negra
para cada boca
que me sorve
sirvo
o mesmo veneno
vario
conforme o beijo
a dose de ar
cênico
***
Reverso
O homem certo
decerto não é esse
que amo a torto e a direito
com todos os seus efeitos
O homem a contento
por certo não é esse
que favoneia carícias
nos anéis de meus cabelos
Esse é o homem incerto
inserto em mim como um vício
ou um defeito genético
Esse é o homem inverso
revés do vento brando que invento
– Zéfiro ao avesso –
(Valéria Tarelho, natural de Santos/SP (1962), residente em São José dos Campos/SP, separou-se da advocacia devido a um caso com a poesia. Seus primeiros escritos datam de abril de 2002)