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69ª Leva - 07/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Desenho: Rui Cavaleiro

O MURAL DE ALEXANDRE

Marra Signoreli

 

O amanhã é a lágrima de criação do sangue
É o silêncio dos anjos que nos anuncia Ítaca
Vejam a eternidade dessas velas e também os peixes
Como vocês tive medo e também tive carne
Não tive voz quando as correntes me prendiam o corpo
Não tive o além quando o desejo me desfez o mundo
Se tive Aline foi quando o mar me desejou o sonho
E tudo quanto mais voei foi pura inexistência.

Agora vejam, homens que perpassam sem destino!
Esta aurora que se desfez em nada,
Este pó que sou eu nas suas carnes e nos seus rumos
Eu que agora pulso em suas veias pelo sangue dos peixes
Eu estou morto como vocês.

 

 

***

 

 

CANÇÃO DO DESNASCIMENTO

 

Às vezes sob os olhos um pássaro decanta
entardecido aos ossos da gaiola,
assim eu via o idioma de seu rosto
mudo de toda pluma da existência.

As mãos de nunca, que não mais distinguem
a dor e o sono;
as vértebras de mármore, que prendem
as vésperas do pássaro, que evolam
nas batidas de um coração parado
já não me luzem a espera de seus olhos,
nem mais me guardam sonhos de outro dia.
Seu corpo é lâmpada de ausência no mistério
sangrando do céu os anjos de silêncio.

Um dia nos amaremos mais distantes,
mas por hora você dorme noutro sonho
em noite inatingível, enfim sorrindo
a pétala do vôo que me vale.

 

(João Antônio Marra Signoreli nasceu em 15 de dezembro de 1989 e é graduando na Faculdade de Letras da UFG, onde pretende bacharelar-se em literatura. Escreveu o livro “Klívena Klarim”, publicado em novembro do ano passado pela coleção Goiânia em Verso & Prosa, participou do blog Vida Miúda e hoje participa do Mallarmargens)

 

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Desenho: Rui Cavaleiro

UMA ANDANÇA

Raquel Gaio

 

nenhuma sombra pairava em tuas pálpebras
apenas raios de girassol te faziam navegar
nesse escaldante sol de vertigens variáveis.
eu contava os giros de tua andança
e admirava teu suor sem valia
que brotava nesse terreno áspero e doce (que é tua matéria)

minha ansiedade e o tempero do dia
rasgavam teu continente fechado e fronteiriço
que emanava artifícios de um futuro bom.
você ruminava formosuras pra dentro das bocas-desejos
recomeçando assim teu trabalho de escavar juramentos (relíquias da noite)
uma música embalava a vertigem do dia
e você, como era usual, a usava para amordaçar bocas.

 

 

***

 

eu, um invertebrado sem celas,
suportando os caprichos intermináveis dos dias,
engravidando as horas de sonhos,
oscilando entre não-vértebras violetas,
depositando versos no penhasco do tempo,
observando esse corpo irredutivelmente numa estiagem.

é longo o processo das horas.
o arrastar-se ainda comove.
.
.
.
.
.
{desliza inevitavelmente. como os ponteiros}.

 

 

***

 

 

sob a pele de tuas palavras
estremeço nua
/entranhas escarlate/
essas sílabas esses sons esse gozo
amarram-me e me fazem
delirar num silêncio ambíguo
que põe em minha boca
suores ainda não provados
e em meu corpo
uma cama cheia de ecos.

 

(Raquel Gaio é atriz e poeta. Cursa o 8° período da Faculdade de Letras da UFRJ. No ano de 2011, lançou o livro de poesias “O Exercício no Mundo”, pela Editora Multifoco, com os amigos Luis Alexandre e Denise Fraga, que abarcou intervenções artísticas, como performances, desenho, vídeo-poema e intervenções musicais. Também foi publicada nas revistas literárias da UFRJ, “Estrelas Vagabundas” e “Zebra”. Tirou o 3° lugar com “Contágios” no Concurso da Cidade do Rio de Janeiro pela Ed. Taba Cultural, antologia a ser lançada ainda esse ano. Atualmente se dedica a pesquisar linguagens poéticas e visuais)

 

 

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Janela Poética V

Desenho: Rui Cavaleiro

PRIMAVERAS

Helena Barbagelata

 

Quando vieste, primavera
aberçar-te a meu corpo branco,
nascia já o Inverno de entre as
longitudes inenarráveis da alma;
as amendoeiras pousavam em
langor os seus braços perfumados,
e as canções escutavam-se vagarosas
sem chegar; havia já tamanha
brandura no abandono, e a sombra
descansava imperturbável e só, vigiando
as voltas do desassossego; já tudo regressara
então, ao seu leito de lis, e o coração
sereno procurava a fonte.

 

 

***

 

 

HUMOR DA NOITE

 

O jardim permanece inerte em
cestos de prata, a névoa é apenas
uma meditação de espuma que
jaz de rente ao ocidente; submerjo
o nume num derrame adivinhado;
o regaço terno do humor da noite
num acato sigiloso, aluviões de
astros, onde começa a alma, tão
dispersa e impenetrável; procurá-la
na finitude amortecida da vida, no
embalo contíguo do violino;
reencontrada musa, as cordas num
afago milimétrico, os dedos
que choram.

 

(Helena Barbagelata nasceu em Lisboa. É uma artista multidisciplinar, dedicada às artes plásticas, música e letras. Participa em revistas e antologias literárias em Portugal, Brasil e Itália, tendo sido laureada em diversos concursos internacionais)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Mercedes Lorenzo

 

 

 

 

(Mercedes Lorenzo é fotógrafa paulistana, que eventualmente se permite a ousadia de escrever coisas poéticas ou não, e esporadicamente também fixá-las em fotos da própria lavra. Pela ludicidade com que encara a poesia, nomeou esta série de “Poemas Descartáveis Para Superfícies Ordinárias”, que também é o sub-título de seu blog. Não há muito mistério sobre sua pessoa para uma boa biografia, mesmo mínima, embora digam as más línguas que ela se diverte além da conta com muito pouco. Pura calúnia, pois ela tem consigo a dor e a delícia de 50 anos repletos até o gargalo)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Destaques Janelas Poéticas

Dedos de Prosa I

 

Desenho: Rui Cavaleiro

 

 

ANTES NÃO HAVIA ESTE FRIO

José Geraldo Neres

 

Finalmente, encontrei minha sombra. Um pouco de água. A casa está diferente. As luzes não sabem o motivo de estarem acordadas. Sinto o frio das casas vizinhas. São casas ou barcos à espera do próximo dilúvio? Nem calor nem frio. Esse líquido faz os pés doerem. A sombra faz um barulho. Água. Sou capaz de sentir sua respiração ― o Outro a atravessar a parede.

 

 

― Estou à sua espera.

― Cuidado, sou o voo subterrâneo. Procure não demonstrar medo. Os olhos são o corpo do Outro. Sinta o milagre. Somos pó.

― Estou à sua espera.

― Quatro dias, tudo se encaixa, sinta a diferença nas suas chagas.

― A água.

― Pendure-se em minhas asas! As águas não sabem o motivo de existir vítimas ou milagres.

― Vamos, temos que encontrar os Outros. Essa parede nunca esteve aqui.

 

 

***

 

 

ESPELHOS EM SILÊNCIO


Na rua de ontem não há amparo nem homens. O destino tem janelas abertas, mas estava distraído e não percebi a sua face. Ele se deteve por um instante, o tempo necessário para abandonar tudo, até o próprio nome. O passado não precisa de nomes. É um quase-deus a arrastar todas as idades. Não consigo tocá-lo. Um passo, outro passo. A infância, as lágrimas e as paredes têm olhos infinitos. A janela está diferente. Vozes. Uma estrela entra no quarto, destrói o espelho. Seu ar noturno descobre o mistério: era eu pequeno a odiar a noite e seu eterno desfile de cordeiros a conduzir-me pela casa. O silêncio abre seu peito. Não há espelhos quando as crianças se perdem.

 

 

***


 

OS QUE ACENAM DE OUTRA MARGEM

 

Quantas orações saem de seus lábios? Onde são forjadas as sombras? De qual abismo se retiram os espinhos que colocam no seu corpo? Ele acorda. O corpo reclama um pouco de verdade. Paciência. Esta é sempre a resposta. Lutamos em várias tormentas, e não consigo lembrar uma única vitória. Respeite os limites Esta é a sua penitência? Não posso assumir a condenação dos homens. Estou ocupado, já disse, não há tempo para jogos. Tenho marcas pelo corpo, e isso não afeta a maneira de encontrar outros corpos. Não consigo controlar tudo. Existem limites? Preciso respeitar os sinais do meu corpo. Abra a porta. Devagar.

 

* “Olhos de Barro” pode ser adquirido através do site da Editora Patuá

 

(José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual), produtor e gestor cultural paulista. Publicou os livros de poesia: Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, 2007) e  Outros silêncios (Escrituras Editora, 2009). Tem publicações em suplementos e revistas literárias do Brasil e do exterior. É curador do Quinta Poética, projeto que promove encontros poéticos no espaço Haroldo de Campos, em São Paulo)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 

Desenho: Rui Cavaleiro

 

 

SAUDAÇÃO

Clarissa Macedo

 

Hoje enterrei um lobo
de olhos esfomeados.

Na liturgia que devora
as feras, engoli o hálito
esfolado de sangue em
minha retina omissa.

Enlutada na incoerência
da terra, dedilho o quintal
de míticas odisseias.

Nas amarras da fome,
matei aquele lobo
que me cerceava,
inverossímil homem
carcaça de pelo e miséria.

O mundo, e suas lâminas,
decepam a seiva dos anjos
e sugam a heresia do uivo,
são grades de pétalas.

 

 

***

 

 

ALVORECER

 

A fé é rasgo de sol
que entra pela madrugada.

Perdida na melodia dos pensamentos,
cansada da vida nas placas,
busca significados e unguentos
na penumbra dos raios dourados.

Tédio sublime que arrebenta
os fios da amargura petrificada,
dissolve-se no claro do rasgo de sol
que avança machucado pela madrugada.

 

 

(Clarissa Macedo é baiana. Trabalha como revisora, escritora e produtora. Cursa Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Está presente nas coletâneas Godofredo Filho (2010), Sangue Novo (2011) e Verso e Prosa – Oficina de Criação Literária III Feira do Livro (2011). Publicou na Revista Verbo 21, no site Musa Rara, no Barcaças, e em A Poesia do Brasil.  Participou, em 2011, da IV Feira do Livro de Feira de Santana e da 10ª Bienal do Livro da Bahia na abertura da Praça de Cordel e Poesia)

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Foto: Juh Moraes

Viviane de Santana Paulo

 

acredito no ocaso das tempestades no copo d’água
depois das ondas presas no mínimo oceano
dos relâmpagos azuis nas bordas das palavras
da borrasca no reverso dos gestos
acredito no zéfiro alisando o esgar dos rochedos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxno cimo do dia seguinte

 

 

***


quantas frações de instantes até o felino
abater o antílope e enfiar os dentes afiados
no pescoço macio e morno do pulsar exasperado
da fuga    curta
a liberdade que era de  um
passa a ser do outro que se satisfaz
com o andamento prescrito das coisas
com o manejo das mandíbulas
e o rosnar faminto da Natureza dualística
tanto cruel como generosa   e sempre política

 

 

(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Participou, em fevereiro de 2012, do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua)

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Foto: Juh Moraes

EVIDÊNCIAS

Helena Figueiredo

 

Hoje, que nada nos chama,
as horas
xpendem vagarosas no espelho,
xe o corpo
xespanta-se,
nos fatos desabotoados,
na curvatura das costas,
naquela ruga que apareceu num dia mau.
Crescemos numa aparência sem nexo,
e atordoados,
xprocuramos as flores,
a confusão das cadeiras,
os brinquedos que viviam no corredor.
Precisa de óleo a dobradiça do armário,
e os joelhos,
xgritam a idade
esquecida de virar no calendário.

 

***

 

FLASH

 

Escrevo nas pedras um postulado redentor.
Indiferentes,
as árvores
pintam as folhas de um sabor vermelho,
os pássaros
equilibram seus ninhos no vento,
e é tão clara a sapiência deste chão,
que me apetece rasgar as utopias,
e seguir paralelo ao fervor dos insetos.

 

(Helena Figueiredo nasceu e reside em Carregal do Sal, distrito de Viseu, Portugal.  É licenciada em Educação de Infância.  Editou  textos e poemas no site-revista TRIPLOV, da escritora Maria Estela Guedes.  Até agora não se encontra editada em livro. Contato: helena_lopes_m@hotmail.com)

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Foto: Juh Moraes

 

 

GÊNESE DO DIA

Vitor Nascimento Sá

 

Hoje, dia de feras,
xxxxxProcusto me arrasta à sua senda,
xxxxxestrada de aparar arestas.
Hoje, dia de feras,
sou devorado pelo
xxxxxxxxxxxxxcéu
xxxxx– Urano e seus velhos vícios –
xxxxxxxxxxem suas artes de imitar o pai
xxxxxxxxxxem suas artes de imitar o tempo.
Hoje é dia de feras.
xxxxxE eu, vítima de Minos.
E o fio?
Em algum ponto se perdeu entre feras
Em algum ponto se desfez
xxxxxE como não ser eu agora
xxxxxa carne de alimentar os deuses
xxxxxdragões famintos, febres?
Eu e minhas pernas podres,
eu e o meu pouco fôlego,
eu e minhas doenças,
únicas verdadeiras propriedades.

Eu, fera de mim mesmo,
eu, auto-rei, auto-deus,
autófago, autômato, arauto.

 

***

 

TEORIA GERAL DA GUERRA

 

Sangue e terra:
na olaria da morte,
o barro inconcreto do nada.

Diante do abismo,
o fim diagramado dos mapas
sobre a mesa de generais aquartelados:
cada centímetro noturno
arrastado em mil fios,
entesados e enrodilhados,
dentro da trincheira imersa
no fosso da alma do soldado.

Sangue e terra:
barro nos pares de coturno,
morte dificultando a marcha
com todos os medos sufocados
na garganta do inimigo degolado.

 

(Natural de Maracás, Bahia, Vitor Nascimento Sá é gestor escolar, revisor e professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, licenciado em Letras pela UESB em Jequié e mestrando em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. É diretor e cofundador da Associação Grupo Concriz: Poetas, Recitadores e Afins. Tem textos publicados nas revistas Verbo21 (BA), Blecaute (PB), Correio das Artes (PB), Cronópios (SP) e Laboratório de Poéticas (SP). Participa da antologia Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI (2011). Os poemas acima fazem parte do seu primeiro livro, intitulado Escapulário (no prelo)

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68ª Leva - 06/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

 

Foto: Juh Moraes

 

VOO

Fabiana Turci

 

I.
te sabia Ícaro
em altura e desejos.
num azul impossível,
a curvatura delicada,
de pasmar gaivotas,
tramava no meu corpo o curso das alturas,
no desejo de ver-te sob esta claridade de meio-dia.
a superfície crescente impunha-se aos ombros
fazendo verdade da fantasia
e, do sonho,
corpo.
fiz-me pássaro,
seguindo-te,
a dividir o azul.

 

II.
que te pedi, Ícaro,
para que cuidasse
da queda.
que nas margens
nuas
da praia
não restasse o meu corpo,
abandonando ardências.

 

III.
e me destes essa casa
de pedra e paredes
onde o céu desaba,
pelas manhãs,
nos corredores
fazendo caminho do meu cansaço.
o teu olhar, desde dentro,
me ofertando o infinito.
se já era teu o azul
– dentre os muros
de onde te fizeste –
tive de ti
o sol mesmo,
transfigurado pelas artes
do teu desejo.
perdoe-me, Ícaro,
se me faltou ver o artifício.
se reconheci a incandescência
e na iridescência me fiz inteira,
irradiando teus sonhos de cera.

 

IV.
foi de asas, Ícaro,
o meu erro.
de supor que o corpo,
entre o voo e a permanência,
encontraria seu contorno.
e porque te quis mais terra
fiz-me, adolescente, ideia
para que intuísses dissipação.
por me querer contradição
que me fiz celeste.
e me entreguei a ti
como casa.

 

V.
sei que foram muitas as
vezes em que me ofereceste
o fio de Ariadne.
eram os pés, antiquíssimos,
que negavam partida.
os pés soldados à terra
como quem ouvisse,
feminino,
os apelos do que é
só possibilidade.
a terra úmida,
fértil.
o novelo em minhas mãos.
mas é o azul, Ícaro,
que é irresistível.

 

(Fabiana Turci é formada em Filosofia e mestranda em Educação, Arte e História da Cultura. Presa entre a palavra e o silêncio, escreve para incomunicar. Publicou o livro de poemas Desobjetos (Ibis Libris, 2009) e organiza a coletânea História íntima da Leitura (no prelo))