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146ª Leva - 01/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Vitória Terra

 

Foto: Fátima Soll

 

NÁRKISSOS

 

Compacto
meu iceberg
de trevas
pesa

mão perversa
que estrangula
e cala
gestos
e intenções

vigília de cegos
paliada em véu
de altar
sou cativeiro
das respostas
engolidas

não há
sombras
lembranças de um sol posto
em mim não há
tocar meu breu
é sorver o abismo
possuir o charco

subverto
as palavras ácidas
pisando a madrugada madura
nesse lagar sem mosto
e pouco a pouco
seduzo-te ao Lago Baykal
e sem perceber desapareces
na minha água escura

 

 

 

***

 

 

 

TIME REALISE

 

Fico perplexa
ao ver a idade dos seus olhos
um menino
que escorrega
nos vincos da sua face
e quando você ri
mais bonito ele fica
e se esconde maroto
nos fios brancos
das suas barbas

ali onde a vida se revela
vulnerável
sapos coaxam
era um casal
de tucanos
você riu
do meu engano

 

 

 

***

 

 

 

ESTAÇÃO DO VALONGO

 

O trem que passa
às 2h
arrastando vagões
intermináveis
rangendo
no aço que some
em paralelo
por entre as serras
galopa como as tropas
de Quitaúna
e mais longe de mim
toca um trilo

comprido
anunciando que estou

muito só
dentro desse trem
errante
nem um mendigo
se esconde
sob o banco
nem um passageiro
curvado pela janela
se mistura na paisagem

nenhuma criança
corre aos gritos
de um corrimão a outro
ele singra
furando a noite
atravessando
minha madrugada
insone
desaparecendo
feito a fumaça
do charuto
de James Brunlees

nesses trilhos
que brilham mais
na grota
funda da infância
lembro com medo mesmo
é daqueles
dentes lunáticos
do vendedor
de coxinhas
rangendo e rindo
rangendo e rindo
rangendo e rindo

 


 

***

 

 

 

ÀS VEZES SOU

 
 ...............................................para Cecília Meireles

 

Às vezes sou céu dentro do mar
às vezes só mar na imensidão
nenhuma estrela
e o vento todo soprando em vão

houve um tempo em que meus cabelos
eram carinho nas minhas mãos
meus dias
desenhos soltos
faziam cócegas no meu pensar

hoje, avulta-se o fantasma da lembrança
passa a janela
e na terceira vigília
acordo pra sempre
do que fui

susto pulsações
busco uma despedida
um aceno
quando? pra onde?
e só o vento
só o vento soprando em vão

 

 

 

***

 

 

 

SOU TODAS AS PÁTRIAS

 

Sou todas as pátrias
as famintas e as que vomitam suas gorduras
sou a pele escura e brilhante
dos habitantes do Níger
e seus olhos vasculhando o lixo
sou a pele translúcida com veias azuis
dos que frequentam o Cassoulet Maison de Paris
e suas sobrancelhas de avelã
sou todas as almas partidas ou
ancoradas num porto qualquer
com suas mãos de aceno
com seus pés de chegada
sou as ancas ondulantes
das mulheres na calçada da Shotwell Street
e as mãos entrelaçadas na gratidão
dos milagres conferidos à retidão das súplicas
sou todas as pátrias
sou a terra arada lavrada e semeada
sou a chuva serôdia e a seca esturricante
o beijo úmido onde escorrega o desejo
e a palavra que corta sangra e o mata
sou um punhado de nadas

 

 

 

***

 

 

 

POMBA

 

Aninhada na boca do abismo
sem lona
sem porta, sem ferrolho
senhora dos quatro ventos

a mansidão do mundo
dorme nos seus olhos de semente
quando contempla a solitária crisálida
pendida sob o teto
da folha

espera imóvel
que guarda um tesouro
na aridez do penhasco
ovos de liberdade
quentes de constância e coragem

até que a luz da aurora
seja dia perfeito
e num instante etéreo
perca pra sempre
o que intrepidamente ajuntou

 

Vitória Terra nasceu em Maracajú, MS. É fundadora do Terra Franklin Advogados, especializada em filosofia do direito e em direito processual civil pela UFU, Master Business Administration pela FGV, atuando como advogada em todo o território nacional. Escritora e poeta, publicou “Não mais os falsos infinitos”, Ed. Patuá e, virtualmente, publica nas páginas Vitória Terra Poesia (Facebook), vitoria_terra_poesia (Instagram), além de revistas e jornais literários.

 

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146ª Leva - 01/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Bianca Grassi

 

Foto: Fátima Soll

 

Graças a deus

 

manhã de quarta-feira
botei teu nome na boca do sapo
e costurei com fios do teu cabelo
a fim de levar todas as desgraças do mundo
de volta pra tua cama
pra tua mesa, pro teu banho
a fim de deixar um gosto amargo na tua boca
e teus olhos secos
teus ouvidos zunindo
teus dedos formigando

acendi uma vela vermelha
que é pra tua sede durar 7 dias
tua fome ir só aumentando
a chama atrapalhar teu sono
trazer queimação pro teu estômago
fazer teu corpo suar frio

coloquei a estatueta de Jesus de cabeça pra baixo
num pote de merda de porco
junto com pedaços de unhas tuas
que é pra deus nenhum ouvir teus apelos
e milagre algum te alcançar

depois, de zombaria,
chamei padre, exorcista, freira e benzedeira
e no meio da reza
fiz um boneco de pano com tua foto 3×4
e marquei teu peito em brasa quente
com um crucifixo invertido

matei galinha, comi pipoca,
servi banquete com coração de boi
misturei sangue de virgem com cachaça
botei veneno de rato na água benta
alisei teu cabelo feito de palha
acendi um fósforo
e entre o cheiro de enxofre e de alfazema
te assisti queimar até as cinzas

fui expulsa do reino dos céus ainda criança
mas faz tempo perdi o medo do inferno
hoje o diabo sou eu
graças a deus

 

 

 

***

 

 

 

Sonho

 

sonhei que ia me mutilando aos poucos
primeiro arrancava todas as unhas
depois cortava um dedo da mão esquerda,
o menorzinho,
depois sumia com a pele dos cotovelos

arranquei a clavícula
quebrei as costelas
expus as tripas, o útero, o baço
no lugar dos seios, sangue
o coração nas mãos
depois também as mãos foram pro chão
com os braços, com o resto

desconstruí tudo que era sabido ser eu
até que enfim fiquei em pedaços
e acordei
sem pé nem cabeça

 

 

 

***

 

 

 

Brecha

 

não aprendi as coisas básicas da vida
ainda não sei dirigir
não sei nada de elétrica
não sei investir na bolsa
não lembro bem datas nem nomes da história
nem entendo muito
das coisas todas que são importantes
mas aprendi algumas coisas
talvez irrelevantes
como chorar quando alguém chora
e saber ler as pessoas muito bem
e a sentir
sentir muito, todos os sentimentos,
até os que não são meus
e entre a pilha de coisas que eu deveria ter aprendido
e a pilha de coisas que eu deveria desaprender
existe uma brecha pequena
onde eu durmo

 

 

 

***

 

 

 

Boca do estômago

 

das coisas todas que destruí
sobreviveu em mim esse sentimento na boca do estômago

têm sido dias estranhos,
o passado me visita nos detalhes do cotidiano

nunca mais ouvi uma chaleira apitando.
me sinto mal todos os dias por volta das cinco.
por que será que tenho fome mesmo de barriga cheia?

toda vez que faz frio eu tenho o mesmo pesadelo
e pelas manhãs sinto saudade
de uma versão de mim que talvez nunca existiu

 

 

 

***

 

 

 

tem uma coisa hoje que me atravessa

 

tem uma coisa hoje que me atravessa
e eu quero gritar de desespero
mas tem um bicho trancado na minha garganta
um gosto de sangue entre meus dentes
e, na língua,
uma palavra
atrasada

tem uma coisa, hoje, me comendo as entranhas
uma dor intensa no joelho direito
e eu quero chorar
mas tem um bicho pendurado na borda do meu olho esquerdo

tem uma coisa hoje que me atravessa
feito flecha, feito soco, feito poesia
uma dor
indescritível
invisível
infinita

mas tem um bicho sentado nos meus ombros
me dizendo
que é assim mesmo:

quando algo dentro da gente deixa de existir
o vazio nos atravessa

 

 

 

***

 

 

 

Sábado

 

Organizei as gavetas naquele sábado
Guardei as notas fiscais
Os poemas
As senhas
Cataloguei tudo que era importante
Aquela memória de 1998
Alguns desenhos
Chaveiros, ímãs, fotos
Joguei fora o que já não era (m)eu
Boletos pagos
Diários da adolescência
Emails impressos
Apostilas de francês (que nunca aprendi)

O que mais eu deveria deixar à vista caso morresse?
Passaportes
Certidão de nascimento
O número de telefone da minha mãe
A foto e as roupas que quero no meu velório
Meu livro não impresso semi-editado
(Seriam essas as minhas últimas palavras?)
as roupas e a coleção de Milan Kundera para doar
– sorte que não tenho muitos sapatos –

Sobrariam ainda algumas tarefas para o depois:
Alguém teria que devolver as minhas coisas no escritório
Transferir o dinheiro pouco que economizei e não usufruí
Cancelar minhas contas nos bancos
Desativar minhas redes sociais
Apagar os vestígios de mim que deixei
Sem querer
E mandar meu corpo de volta (pra onde?)

Quero que doem meus órgãos,
A pele, as córneas, tudo que sobrar de bom
– não é muito –
E que possam finalmente jogar meus pulmões no lixo
(enfim vou parar de espirrar!)

Se eu morrer nesse final de semana
Ou em qualquer outro
Mesmo que seja às sete da manhã
Já vai ser tarde

 

Bianca Grassi é uma artista contemporânea baiana que usa uma combinação dinâmica de materiais, métodos, conceitos e temas em sua arte. Formada em publicidade e propaganda com ênfase em marketing pelo IPA, em Porto Alegre/RS, é designer, ilustradora e escritora. Tem um conto publicado no livro Algumas Ficções (Editora De Leon) e poemas em revistas digitais como Mallarmargens, Literatura e Fechadura, Germina e Ser MulherArte. Desde 2016 mora em Praga, na República Tcheca.

 

 

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Janela Poética V

Duda Las Casas

 

Imagem: Fátima Soll

 

Leio borra de cafés
nuvens
cartas
faço freelas
como me cansa ser otimista

 

 

 

***

 

 

 

P AR TO

 

Se dizes que não sabes se vem
ocupo seu lado da cama
com livros
espero o pai chegar
para a boa hora
tomo cuidado para não gestar algo maior
que fique difícil depois de sair
Pra eles é mais fácil parir
Como dói
uma palavra que só tem no presente
Encaro a conjunção
dou colo para o passado
escolho uma vida
para o destino
das palavras

 

 

 

***

 

 

 

Dura na queda

 

Olhar para o alto
no grito do falcão
o
aviso
para antecipar o voo
em pleno ar
ao
invés de cair
eu
poderia apenas
ter feito um poema

 

 

 

***

 

 

 

Um prato para os ancestrais

 

Respirar para o encontro
o grande encontro das forças
sobreviver
pra dançar I’ll survive
Retornar a Aushwitz
desejar ser bisavó
espalhar o dna por ai
No mapa registrar as curvas até Sintra
abrir uma Durex
dar-se conta
de que todos os espermatozoides
no fundo
desejam ser felizes

 

 

 

***

 

 

Não choro mais Julio
pelo livro que não fez sucesso
Nem pela poeta que ficou esquecida
Em Sirius
Só me preocupo em regar
Com água solarizada
Sinto forte
A dama da noite
Gero minha própria luz
monstera deliciosa
Sem hífen
virgula
Abre caminho
anti-matéria

amiga:
as alquimistas ocuparam toda a varanda
Recebo agora
um coração
revestido de selenita
comemoro o batismo
a chegada
do meu novo nome cósmico

 

 

 

***

 

 

 

Agora que o sangue desceu

 

procuro partilhar sonhos
como se estar por cima servisse
como um método contraceptivo
diagramo a mandala
o sangue passeia comigo
junto a serpente
retorno ao Rio
volto para buscar o que pensava ser nosso
visualizo a floresta brasileira
o búfalo
me agarro às orações
pouca probabilidade de ser arrastada por desejos
no primeiro dia do ciclo
não contarei mais
o tempo que leva para uma barba crescer

 

Duda Las Casas é colecionadora de imagens, oráculos e palavras. Carioca, diretora de tv e cinema, estudou jornalismo em Belo Horizonte e artes visuais no Rio de Janeiro. Duda se divide entre Brasil e Portugal, onde pesquisa a língua portuguesa na Universidade Nova de Lisboa e administra uma página de memes. “Viseira” é seu primeiro livro. 

 

 

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Janela Poética I

Bruno Oggione

 

Foto: Fátima Soll

 

O SAL DOS TINTEIROS

 

atrás dessas máquinas,
nas folhas, no papel,
desenhei, iluminado à nome,
a física do mundo.

há luas, há sóis
atrás dessas máquinas.
dias sem imobilidade,
flores brancas.

atrás dessas máquinas
desabrochou a noite morta
a consumir as linhas
do dia germinado.

há palavras sujas
atrás dessas máquinas,
fixando ao sonho
extintas ideias.

atrás dessas máquinas
circulei a emoção sanguínea
de poetas fantasmáticos,
monstruosos, aquáticos.

atrás dessas máquinas…
bichos mais densos
lutam. sou lápis (e carvão),
dentro do branco pouso,
pouso salgados gestos,
pouso o sal dos tinteiros.

 

 

 

***

 

 

 

a passagem das tardes
deita
no vazio da hora

pouso solene
brilho
de uma ardência concentrada

nudez
vista
numa mesa
antiga

no espelho aceso
navego ao silêncio súbito

 

 

 

***

 

 

 

PALAVRA

 

a nudez.
a nudez no tempo.
o rugido tão vulcânico como a nudez.

arremessávamos
fetos,
cruzamos a cratera, procriamos
a cópia que renascia do milagre:
palavra.

palavra – uma cópia do silêncio
o rugido no rugido
iça
anti-seres.

vaidade.
a lua de mar a mar
se afoga.

uma cópia ainda, assim, e as imagens
flutuam no tempo primordial.

 

 

 

***

 

 

 

entre o mapa indecifrável e inabitável
um homem surdo navega.
tateia uma zona nebulosa
feita de tremor e de silêncio…

o seu frescor ardente espaça
atrás de si os astros e os palmares.
este o ilumina, este outro o escreve…
visível a tais surgimentos,

brilhosa a costa em clamor inavegável,
sabiamente ele navega.
tateia uma zona nebulosa,
feita de tremor e de silêncio…

 

 

 

***

 

 

 

A ESPADA

 

os esquecidos vibram no regresso dos enigmas
abertamente.
e eu naveguei do meu espelho
os segredos mais milenares.
o meu sono movimenta meu corpo
em todas as noites que voguei.

dentro da sombra
no fio ácido do rosto
finjo-me marinheiro.
dos olhos das lendas
surge o rumor das águas,
incertas como um sêmen de inseto.
sei que depois quando me erguer
escutarei a espada da insônia
abrir salgada a crônica das medusas.

 

 

 

***

 

 

 

O DOM DO SILÊNCIO

 

o silêncio termina
onde o silêncio começa:
à margem do paraíso
uma súbita brisa de velas
comanda naus

e contudo o silêncio termina
e o sorriso grisalho
se curva sobre
a flâmula luciferina –
no horizonte onde o silêncio começa

coração de ideias: o silêncio termina
mansa tela cancerígena
exigindo as cores da arte –
no horizonte onde o silêncio começa

branca praia e mar albino
laborando ideias –
no silêncio onde o horizonte começa

 

 

 

***

 

 

 

O CÁ FORA E O LÁ DENTRO

 

a liberdade emerge no jogo silencioso sonhado pela alma
e transparece perigoso no fundo surdo do mar.
entre o cá fora e o lá dentro, no dia liso que os sufoca,
súbitos desastres cantam.

 

Bruno Oggione nasceu em 1990 na cidade do Rio de Janeiro. É graduado em Letras (UERJ), mestre em Literatura Portuguesa (UERJ) e doutorando em Literatura Portuguesa (UERJ). Autor dos livros “Mãos de Ninguém” (pequenas astúcias) (Editora Morandi) e “Velas Pandas, andas… – Ode Marítima e Os Lusíadas” (Folio Digital, no prelo). Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens e Aboio.

 

 

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Janela Poética II

Jorge Elias Neto

 

Foto: Fátima Soll

 

MANUAL PARA O ALZHEIMER DE DEUS

 

Relembrar,
saber-se Ele.

Ao rés do espetáculo,
no átrio do templo,
tricotar o Verbo,
tirar as cartas,
recostar-se no tabernáculo
e arriscar um jogo da velha.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL PARA ACENDER A GRELHA

 

Nas gretas
recostam-se as cinzas
deixadas a recordar
querelas e tragédias
de um calendário
sem trégua.

A chama,
filha do sopro,
do risco alquímico
a enveredar calor
nos recortes dos fósseis
dos troncos tombados.

Da brasa
exige-se o atropelo
das lástimas
e um devaneio divino.

Resta à carne
o arder anônimo,
o suor da salmoura
e o resgate ao útero do Mundo.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL PARA FAZER BOLA DE GOMA DE MASCAR

 

A goma é urbana
̶ ruminância humana.

 

Observar
os preceitos do bom uso
dos dentes,
da forma de mascar,
de sorver a abundância
da saliva,
remoer na mandíbula
e repousar sobre a língua.

(Dissimulada leveza
do Ser de vícios.)

Artificialidade do gosto
̶ subterfúgio ̶
do que é falso
e não mascavo,
borracha
e não morango.

Remexer, revirar,
mastigar o que não é hóstia,
aguardar o porvir do nada,
do sem gosto,
da palidez real
da hipocrisia.

Contorcer sobre as papilas
a massa amorfa ̶
corrompê-la.
Pressionando no céu
da boca
o que não é estrela.

Espalhar a massa,
fazê-la translúcida.

(Apropriar-se da sacrossanta trindade
x̶xx – palato, dentes e língua.)

Cingir os lábios,
usar do fole,
de soprar velas,
dar suspiros.

Trazer do tórax
o ar quente
por estreitos caminhos
x̶xx – forjar destinos.

Dissecar a lâmina,
arremeter em fuga
o balão menino.

Expandir
a liberdade,
testemunhar o baque,
o estouro,
a impossibilidade do voo.

Sentir tombar sobre a boca
os restos, as sobras,
o restolho do sopro
x̶xx – a felicidade.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL PARA PERMANECER INCÓGNITO

 

Um modo de ser perdido:
o extenso do nome descartado.

(Toda escolha é um pacto
de sangue.)

A marca d’água derramada
̶ comunhão do ébrio.

A certeza da régua
é um esboço sem cópia.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL PARA DESPERTAR

 

Guardar os corpos na memória,
desfazer a ilusão
de que se constrói sobre flores,
pois são mártires
e escombros, e fuzis,
e ferozes trombetas do infortúnio,
e um sentimento
de tentar entender o tempo.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL DO SER DIVINO

 

O mais das vezes
este excesso,

esta fartura,
x̶xx – entusiasmo de merda ̶

esta ruína,
deslumbramento,

suspensório
para não arrear o escroto

ser de vidro
na fogueira do Inferno.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL DO SANTO AMPARO

 

Apoio a cabeça
em mão que não é minha.

Ela me batiza,
me passa a unha,

acaricia,
desmancha o cabelo,

me põe medo
tampando os olhos,

empurra o nariz
contra a porta,

me sufoca
com o travesseiro,

encosta a guimba do cigarro,
me intimida,

espeta achas,
apazigua as rugas dos anos,

sustendo erguida
a face tombada

e espalha em meus lábios
o sabor das batalhas.

 

Jorge Elias Neto é de Vitória, Espírito Santo (1964-), Médico, Poeta e pesquisador. É membro da AEL. Publicou “Verdes versos” (2007), “Rascunhos do absurdo” (2010), “Os ossos da baleia” (2013), “Glacial” (2014), “Breve dicionário (poético) do boxe” (2015), “Glacial” (2016), “Breviário dos olhos” (2017), “Ornitorrinco do pau Oco” (2018), “Sonetos em Crise” (2020) e “Manual para Estilhaçar Vidraças” (2021).

 

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145ª Leva - 05/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Gabrielle Dal Molin

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

RUAS DA MEMÓRIA

 

silencio os estilhaços
das pequenas tragédias
semeando delícias
todos os dias
os homens criam apocalipses
enquanto procuro os parques da minha infância

 

 

 

***

 

 

 

CARNAVAL NO ABISMO

 

arisco feitiço

nosso tempo é desse silêncio
forte
feito o mar sem grito

é menor do que eu penso

arrisco chamar de amor
um carnaval nesse abismo

 

 

 

***

 

 

 

AMARGO

 

Alcançar a tristeza dos dias
Puxar a tristeza dos dias como um cobertor
Para cobrir o corpo talvez cansado
De estar exposto à alegria sem motivo
E a esse calor constante
É possível ser triste perto do Equador
É até comum
Embora finjam que o Carnaval nos livre
A liberdade e a tristeza se amam
É preciso se dar o direito de chorar
Muitos vivem presos na felicidade
Aquele riso colado entre os dentes
Colocar no café
a tristeza ao invés do açúcar
O amargo liberta a língua
de ter que ser feliz sempre

 

 

 

***

 

 

 

OS PÉS NA TERRA

 

minha avó anda firme com os pés na terra
na beira do rio
no silêncio do coração da mata
no peito que bate na mangueira
que abriga o espírito de uma grande mulher
ela se lembra
que seu pai rezava os bichos picados de cobra
e que ele salvou seu cachorro
meu bisavô que não sei o nome
tem minha bênção onde quer que esteja
minha tia que é mãe e avó e mãe duas vezes
lembra que meu avô
seu pai
lhe deu os nomes das árvores
quando pergunto ela me dá
o nome da candeia e da quaresminha
diz que vai lembrar o da flor amarela que agora não
consegue
confirma com sua mãe
minha avó
que seu pai sabia das plantas porque era reiseiro
minha avó
filha de rezador e mulher de rei
em suas veias
que hoje parecem coladas por cima da pele
já passaram folhas
filhos
vida e morte
seu cachorro ofendido pela cobra
por sorte foi salvo
e em meio a tantas outras
ela também não foi ofendida
mas perdoaria se fosse

 

 

 

***

 

 

 

ENTRE TUAS ÁGUAS

 

esse mar de navegar no escuro
é língua
sobre terra firme

 

 

 

***

 

 

 

MÃOS DE MÃE

 

entre as selvagens passagens do tempo
tenho notado que minhas mãos
estão ficando iguais às da minha mãe
as veias saltadas
herdadas da minha vó
os dedos grossos
tortuosos como caules do cerrado
as unhas maciças feito ardósia
— gatázios prontos para a vida —
entre os cabelos brancos das marias
tenho notado que minhas mães
de dentro e fora da matéria
têm os pés da cor da terra

 

Gabrielle Dal Molin nasceu em 1987, em São Paulo. Viveu no interior deste estado até se mudar para o Rio Grande do Norte. É professora de História, mestre em Antropologia e doula. Além de poemas, escreve sobre as vivências de ser mãe, bissexual e não monogâmica. Seu primeiro livro de poesia, “Seiva” (Ed. Multifoco) foi publicado em 2017 e o segundo, “Carnaval no Abismo”, acaba de ser publicado pela Munganga Edicões, contemplado pela Lei Aldir Blanc, através da Fundação José Augusto, do Governo do RN. 

 

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Janela Poética IV

 

Sílvia Barros

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Sentir fúria, banzo
Certeza e espanto
Meus direitos inviolavelmente
Humanos.

 

 

 

***

 

 

 

Embora fraca
Sigo firme
Embora feia
Sigo bela
Embora viva
Sigo morrendo
Todo os dias pelos corpos
Que desabam

Embora seja infinito o céu
………..Sigo sendo
………..Apenas
………..Uma
.Nuvem

 

 

 

***

 

 

 

Não é porque há guerra
— e porque me juntei à falange –
Que não possa desejar
Um minuto de paz.

 

 

 

***

 

 

 

Se a vida não é
Uma guerra
Ou uma eterna escavação
Nas entranhas
De uma história
Que começou
Nem sei quando.
Então estou
Depositando cada miligrama
De energia
Numa ideia completamente errada
Do que seja a existência.

Continuar
(trabalhando, dormindo, sonhando)
Como se tudo tivesse acontecido.
Não me preocupo
Se vai passar ou não
– passar é rastro incontornável do tempo –
Quero saber quem vai ficar
E como fazer
Uma vida de novo.

 

 

 

***

 

 

 

Mulheres que se deitam
Com os gatos.

Às vezes com livros nas mãos
Noutras com olhos cansados
E corpos paralisados de futuro.

….Os lobos que se virem.

 

 

 

***

 

 

 

Voltar para o corpo
Quando uma mulher tem filhos
Voltar para o corpo
Quando a alma se desloca e voa
Voltar para o corpo
Quando a mente desassocia
Voltar para o corpo
Depois que engorda
Voltar para o corpo
Quando nunca deveria ter partido.

 

Nasci em Natal, RN, mas cresci e vivo na cidade de Niterói, RJ. Sou professora por formação e escritora por nascimento. Atuo na educação básica e na pós-graduação. Sou doutora em literatura brasileira pela UFRJ, tenho três publicações individuais: “O belo trágico na literatura brasileira contemporânea” (ensaio), “Em tempos de guerra” (poesia) e “Poemas para meu corpo nu” (poesia). Tenho também participação em diversas antologias como Cadernos Negros volumes 41 e 42 e Negras Crônicas. Escrevo quinzenalmente a coluna Travessia, para a revista Ruído Manifesto.

 

 

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145ª Leva - 05/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Jéssica Iancoski

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

IDEOLOGIA MACARRÃO

 

Para Matheus Guménin Barreto

 

pode até ter
de sêmola
mas
o brasileiro
pai de família
come

renata com ovos
isabela com ovos
adira com ovos
vilma com ovos
barilla com ovos
até dona benta
com ovos

mas fala
sempre que
prefere
espaguete
à penne
grano duro

o importante
mesmo é não
conter gordura
trans
 

 

***

 

 

 

SUPLEMENTAÇÃO DE VITAMINAS

 

Para Nicola Otávio

 

nos sábados
e nos domingos
o frasco fala
“para homens!”
nas segundas,
nas terças e nas quartas,
a cartela convaqueia
“para mulheres!”
nas quintas e nas sextas
completo com meia
cápsula de cada

a vitamina de homem influencia
nos músculos e na energia
a vitamina de mulher influi
nas unhas e na pele macia

para o espanto de todos,
não só dos farmacêuticos,
das farmacêuticas e
também des farmaceltiques
nenhuma delas me deixa
mais ou menos homem mais
ou menos mulher mais ou menos
anarco viado comunista
trans sapatona convicta.

 

 

 

***

 

 

 

ERVILHA VERMELHA

 

Para Belise Campos

 

Ontem me perguntaram se eu era uma menina
E eu não soube responder
Esse inferno de pergunta.

Não porque eu não seja mulher,
É que às vezes eu sou tanta coisa:

Uma garota,
Uma amante
Uma gota,
Um semblante,
Um inverno
Um menino,
Um pingo
E um girino,

Um giro de roda
No vento leste que sopra
No ponto final de cada esquina.

Uma menina é pouca coisa
Pra me definir
Quando eu sou tantas outras
Entre cada ervilha vermelha
Do interno do punho em meu ventre.

 

 

 

***

 

 

 

BREJO

 

quando o bico
dos dedos roçam
o corpo
tocam
ainda que viva
a pele morta

o corpo o corpo o
corpo é corpo é
corpo é o carpo
dos dedos apertados
no próprio punho

pulsa pulsão
pulsa pulsão
pulsa pulsão

quando a água
era límpida
carpos foram girinos
e turva é a visão
que entorta dentro
do corpo alguém

que não é sapo
nem sapa
ta sapatilha
samba canção
qualquer coisa
que só cabe
dentro d’
xxxxxxxxxx
xxxxxxxxxxxx
………………..um
…………___ não___

 

 

 

***

 

 

 

COUT <<NAME<< “\N’;

 

isso de binarismo
deixa pras
máquinas

somos seres
de membrana
plasmática

c.in c.out
permeabilidade
seletiva

seja célula
seja mais
e não C++

 

Jéssica Iancoski é pessoa não-binária, escritora, poeta e artista plástica. Publicou em várias antologias e revistas, nacionais (Mallarmargens, Ruído Manifesto, Acrobata, etc) e internacionais. É idealizadora do Toma Aí Um Poema – o maior podcast lusófono de declamação de poesias, segundo o Spotify – com mais de 44 mil ouvintes diferentes, ao longo do tempo e, também, revista literária digital. Nasceu em Curitiba em 10 de Fevereiro de 1996. É formada em Letras pela Universidade Federal do Paraná e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

 

 

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145ª Leva - 05/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Roberta Tostes Daniel

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Naquela costa
as nuvens migram
para a espiritualidade
os cavalos as feras
seres deste mundo
conectados a uma
estranha palavra
o invisível também
é natureza
a linguagem cobre
o corpo
nossa energia
o que sai de nós
linguagem
como uma espécie
de aura
diz que somos excessivos
processamos
a língua materna
ela quer nos preencher
daquela paisagem
ou acontecimento
– um poema
deveria ser escrito
em um idioma indomável
para assim se tornar
poesia novamente.

 

 

 

***

 

 

 

Yosef

 

ele que voltava ao continente
ou que tinha por país sua fuga
o coração incerto como a fronteira

nome na deriva do rio, moldava
o que era rio e o que era abismo
carne não bem situada

o coração costurado nas trevas
este lugar mais silencioso
que o canhão antes do tiro.

 

 

 

***

 

 

 

“É-me o corpo todo”

 

à Leonardo Fróes

 

teso, mudo, vegetal
ao modo de montanha
e octogésima pedra

onde fundações flutuam
insinuado monge, alpinista
artífice das raízes e itinerário das matas

o que pode sem a selvagem justificação de deus?
abarcar-se no corpo-cordilheira do poema

 

 

 

***

 

 

 

Hórus

 

um olho que emite sua fratura
encarnada e múltipla – um escuro
que atravessa a luz do verão
um olho que é o aceso o outro
que versa sobre o fim
um olho-oráculo fendido na distância
pela certeza pelo furo
na pintura o olho é posicionado
francamente como em prisma
só a ausência de simetria importa
o desequilíbrio, o desfazimento que penetra
na costura dos órgãos
na luz vibrante
na sua sonegação

 

 

 

***

 

 

 

o que pode o corpo contra a montanha dispersa?

quantas vezes deliberarei o corpo
nestas paisagens tropicais?

me antecipei em achar minha feminilidade
mas no fim fui ao altar das conchas
e não mais saí de lá

sou a ostra aguerrida contra o céu gigante
constituindo sua periculosidade em pérola

e o sexo, embora um mero acaso
é também uma ética

com que nos comunicamos
nos semeamos, nos esgotamos.

 

 

 

***

 

 

 

Aos pés da cotovia

 

um pensamento é puro magnetismo
tem sal nos caninos

eu escuto o passo aproximado
de uma cotovia
é um som de errância gaulesa
e é à prova de som

chegar à casa desses pensamentos
apossada do escuro magnetismo

mensurar a visibilidade
desses espaçamentos

me sentir real
um desejo de ser real
de ser cada vez mais real

aos pés da cotovia
nas ferrovias, montanhas
no meu país interno
e no reino inventado do brasil

 

Roberta Tostes Daniel, poeta carioca, nascida em 1981. Publicou “Uma casa perto de um vulcão” (Patuá, 2018) e “Ainda ancora o infinito” (Moinhos, 2019). Possui participações em várias revistas literárias, no meio impresso e digital. Propõe imagens e acasos lá no @robertatostesdaniel (instagram).

 

 

Categorias
145ª Leva - 05/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Constança Guimarães

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

minha mãe me contou
meu avô guardava
os palitos
de fósforo
queimados
na caixa

talvez a gente lavasse a louça depois
de um almoço em família quando
ela me disse entre
outras memórias
guardo sempre comigo uma caixa
riscada que nunca
fica vazia

 

 

 

***

 

 

 

quero

que me largue de uma
vez de repente………….me abandone

o pensamento os cabelos
num rabo
de cavalo alto………….o diafragma
que soluça………………quero um vento
………………………………………………….forte
norte

note
eu quero ir como uma onça

 

 

 

***

 

 

 

sabe
quando
nada muda
hoje de manhã
teve café
depois
à noite
sopa
o ano que vem
também

teve pernilongos no verão

 

 

 

***

 


para Angélica

 

o sismógrafo ficava sobre a mesa
da sala
no jantar
fora um presente
media a mulher espasmos estouros
a louca
o sismógrafo não media
abalos
abaixo da superfície
onde havia
a mulher inteira à força não media os destroços ela não tinha tempo

 

 

 

***

 

 

 

a náusea
de repente dona
até das minhas costas
envergadas
fecho os punhos aprendi
espanto
o fluxo e seguro
o reflexo
com força dentro
de mim com as mãos
quero expulsar
secar as vísceras o que mora lá dentro
o passado me incha

quando não há meio-termo
não há negócio
arma apontada
pra mim
na mesa posta vazia sem espinhas
quando sento na beirada
escuto a minha voz adulta
que fala alto
gesticula
inventa
com a garrafa de vinho
esvazio
combinações felizes impossíveis
na manhã seguinte
quando reconto com os olhos as taças sujas
e lavo uma por uma no banho
vergada fechei com força os punhos o vidro caiu no chão cortei meus pés sob água represada pelo ralo entupido

 

 

 

***

 

 

 

o que te preocupa?
além da cor negra do céu
estamos em alto mar
você não vê
aqui está muito frio
como as últimas vezes que saímos
fomos àquela festa bebemos muito
decidimos nos casar temos uma casa e viajamos
estamos no caminho de volta

não sabemos para onde
na casa não cabem mais dois quando te digo
seremos três
você deseja a onda imensa vencendo o navio que por fim é soberano
não morremos
seguimos
não sabemos para onde

eu só no navio via o mar aberto meu pulso duplicado

agora soube
o que te preocupa
o que te move ao revés

sabemos
está o caos instalado instalada a noz selada em mim eu a desejo
abandonada por você que me diz
o futuro será sem cais
plataforma ou estrado
decida
você me diz bruto.

minha palavra
final
te preocupa

 

Escritora mineira e jornalista, Constança Guimarães é autora de “Como se fosse possível medir o tamanho do escuro”, (Urutau, 2020), “Ombros caídos olhando pro Inferno” (Urutau, 2017) e “A sereia da contorno e outras histórias” (Leme, 2017). Tem poemas e contos em revistas como a Acrobata, Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em Guerra), Ruído Manifesto, Mirada, Germina, Laudelinas e Torquato, entre outras, e participa da antologia “Nao há nada mais parecido a um facista que um burguês assustado”, editora Hecatombe/2020.