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101ª Leva - 04/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

Há pouco entramos num marco centenário de publicações. Agora, seguir adiante é manter acesa uma chama que sabe a sonho e alguma espécie de teimosia. Tem quem prefira classificar como resistência, mas pensar assim implica um pouco em firmar a ideia de que se está lutando contra uma força qualquer. Não seria esse o propósito de trilhar caminhos na seara cultural. É fato que algumas adversidades se agigantam no meio da jornada. No entanto, elas servem para nos mostrar que o jogo das oposições se estabelece muito mais por uma necessidade de se firmar posições e ideias, construindo diálogos e debatendo uma vasta gama de assuntos. Ao mesmo tempo em que se busca externar pontos de vista pautados nas mais diversas formas de expressão, poder fomentar o pensamento significa também estar aberto à mudança. É entender que, como organismos vivos racionais, estamos sujeitos a toda sorte de interferências e sugestões que nalgum ponto da trajetória são capazes de nos indicar vias substanciais de transformação. Em outras palavras, lidar com forças humanas é constatar a vulnerabilidade das certezas. Ao fim de tudo, é bom concluirmos que ninguém detém a patente da verdade. E o que faremos com tal arremate? De fato, são infinitas as possibilidades, mas cada pessoa configura as leituras seguindo uma ótica que mescla razão e sensibilidade. Precisamos da arte para romper a dureza dos dias quando nos percebemos seres aborrecidos pela rotina mecanizada. Necessitamos da arte enquanto prova inconteste de que estamos vivos e prenhes de saber e sabor. Somos arte na ruptura, na desconstrução e na inconformidade. Somos, enfim. Os acessos da Diversos Afins anseiam pela comunhão de signos advindos das mais distintas correntes de expressão. Assim, vamos buscando a expansão de um ideal de multiplicidade de rostos e vozes, todos eles com o que há de melhor: o vigor de sua individualidade. Vejamos, pois, que, diante de um mundo atravessado pelo caos do pensamento e da ação, há espaço para os olhares marcantes de gente como Victor H. Azevedo, jovem artista movido fundamentalmente pela atuação das forças que circundam seu caminho sensível. Na linha que agrega percepções inquietas sobre a existência, é oportuno frisar a conversa que tivemos com o escritor Dênisson Padilha Filho, autor que vem construindo uma obra valiosa na prosa contemporânea brasileira. Nos recortes poéticos de então, abrimos alas para as epifanias de Vicente Franz Cecim, Catarina Santiago, Leonora Rosado, Vander Vieira e Paola D’Agostino. Noutro ponto da edição, Larissa Mendes empresta seus olhos para toda a beleza e força presentes no documentário “O Sal da Terra”, filme sobre a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado. Há também o provocador percurso de Sérgio Tavares nas impressões sobre o mais novo romance de Carlos Trigueiro. Dispersa nos contos de Fernando Marques, Tadeu Sarmento e Diego Moraes, a vida mostra suas muitas faces. O olhar poético de Daniela Galdino confere ao mais novo disco do cantor e compositor Lirinha um lugar de destaque. “Diário de um ladrão”, romance de Jean Genet, é alvo dos esmerados apontamentos de Rafael Peres. Com estes e outros trânsitos possíveis, caro leitor, ofertamos a você uma 101ª Leva!

Os Leveiros

 

 

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101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Leonora Rosado

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Há um alçapão no fundo do mar
Subsolos imaginativos de orquídeas
Que ardem e submergem ainda
Mais fundo
Onde a luz é dilatada pelo rumor
De algas mortíferas peixes ferozes
Ao brilho gasto de cada grão
A areia traça nas mãos um indelével
Golpe
O sangue emerge
E o mar incendeia-se
Num sobressalto
Ecos vindos das planícies sob
Dunas marítimas
Dizem que há pássaros
Mais além e que ainda se pode voar.

 

 

 

***

 

 

 

No começo
De um luto
Lavado,
Impuro,
Tecer
De pano
As cinzas
De uma
Teia,
Há flores
Vindas
De longe
Que escutam
Os meus passos
Em branco
Como o assentir
De outras mortes,
Que inclinadas
Sobre vidro,
Quebram-se.

 

 

 

***

 

 

 
Ficou do meu corpo
Apenas o ensaio das curvas
A pressa de ir ao fundo
Onde a porta se fecha
A boca de anzol
Onde morrem as perguntas
Translúcidas e vazias de vago
Em cada respirar.

 

 

 
***

 

 

 
No começo da linha
Há uma curva imaginária
Uma sombra incendiada
Um sofisma gritante
Uma estrofe muda
Um desistir veloz
Que nos perpassa
O ponto de início
É uma flor em cinzas
É o amor essa emergência
Que pulsa
Veias para o garrote
Estreito
A linha perde-se no contexto.

 

 

 
***

 

 

 

As mãos descuidadas
Os dedos mordidos
Como um Inverno quente
Em que estalam as folhas
O corpo uma extensão de areal.

 

 

 
***

 

 
Na pressa de queimar cicatrizes
Deixo-me ficar na penumbra.

 

 
***

 

 
Só tenho um sentido de vida:
O do caos.

 

Leonora Rosado nasceu no concelho de Sintra em 1971. Desde muito cedo revelou interesse quer pela leitura assim como pela escrita, poesia, sobretudo. Teve o privilégio, de ainda em criança, cruzar com poetas nomeadamente, Ruy Cinatti, Joaquim Ferrer entre tantos outros… A escrita é a sede que ávida tenta saciar incessantemente em eterno retorno. Insaciedade de Tântalo. Em vertigem constante.    

 

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101ª Leva - 04/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Um ultraje contra o Brasil, esse país de gente honesta

Por Sérgio Tavares

 

 

 

‘Mierdamorfose’ (7 Letras/172 pgs.), de Carlos Trigueiro, é um acinte. Uma bazófia, o apregoamento doidivanas de um despropério num país, que é de senso comum, foi instituído o politicamente correto, a caretice, o bon ton.

Como pode um cidadão, que se lê na orelha pós-graduado na Universidade de Roma, homem do mundo e autor de obras literárias de vulto, insinuar que, no Brasil, incorra o expediente da desonestidade, da corrupção, do toma lá dá cá, do jeitinho, do dólar na cueca?

Uma temeridade, um absurdo!

Só para registro, vamos ao livro: depois de despertar subitamente de ‘sonhos indecifráveis’, o professor universitário Anastácio Penaforte se percebe metamorfoseado. Tudo se inicia com um estremecimento incontrolável, seguido de uma ‘sensação de vislumbre generalizado’, que evolui para uma espécie de sexto sentido e, por fim, para a instalação de uma ‘fenomenal consciência’.

Tal processo insólito, que muito se assemelha ao sofrido por Gregor Samsa na novela ‘A metamorfose’, do tcheco Franz Kafka, não o transforma num inseto monstruoso, mas desencadeia anormalidades físicas, como uma descoloração do seu cabelo para um tom arruivado, o comprometimento da fala numa insuspeita língua presa e o soltamento de ‘uma coisa escura e pastosa da pele’, que torna a água do banho lamacenta e fétida.

Sentindo-se, então, ‘uma pessoa limpíssima, cristalina, decente, proba, digna, boa, honrada, íntegra’, Anastácio Penaforte passa a semear radicalmente a honestidade, tanto contra os desvios particulares quanto os públicos.

Seu périplo em defesa dos preceitos morais tem início pela faculdade onde leciona Literatura Comparada. Adentra, sem cerimônia, o gabinete do diretor e confessa suas infrações escoradas na autoridade de professor, entre os quais beneficiar alunas com a garantia de levá-las para cama e a fraude na autoria de um livro. O docente superior fica pasmo, credita o testemunho a um surto mental, e endossa um afastamento temporário.

Ato contínuo, o professor encaminha-se a uma delegacia próxima e, diante de um inspetor de polícia, averba uma ‘declaração espontânea de supostos delitos’, acusando-se de ter usado celular em locais proibidos, comprado produtos piratas, fumado maconha, desrespeitado a faixa de pedestre, apostado no jogo de bicho, perseguido alunos gays, mentido para escapar do serviço militar e cabulado reuniões de condomínio, dentre outros.

O próximo passo é uma consulta com o doutor Rubião (n. do resenhista: curioso esse nome) que não encontra nenhum mal patológico, associando tais mudanças a um fator fantástico, em especial a impossibilidade de pronunciar a sílaba ‘po’, trocando-a pelo som do antigo ‘ph’, a exemplo de ‘phoder público’. É inclusive conduzido ao checkup de uma fonoaudióloga, contudo a causa da anomalia permanece em mistério.

Ora, até este ponto o livro transcorre sem problemas. A gravidade dá corda adiante. Durante o testemunho na delegacia, Anastácio Penaforte anuncia o interesse de articular, junto ao Senado Federal, a implantação da ‘Comissão Nacional da Radical Honestidade’, e, veja só estimado leitor, a iniciativa provoca calafrios, desarranjos, desmaios, febre, preocupações nos assessores e no próprio senador Justo Varejão Raposo Neto.

O que estaria dando a entender o autor com isso? Passaria pela sua cabeça desconfiar da lisura, da incorrupção, da retidão, da probidade do parlamento brasileiro? Será que possa cogitar que haja desvios na conduta modelar de nossos políticos?

O caso é que por praticar, com seu discurso, ‘um gravíssimo crime político contra a segurança nacional’, como assinalado pelo senador Varejão, o professor Anastácio Penaforte é retido em prisão preventiva. Mas, no confinamento, se desdobra um desatino ainda maior. O preso leva uma vida de marajá, com direito a jornais de escolha, livros e outras regalias que, obviamente, não condizem com a realidade, só aceitas na mais delirante ficção.

Não se pode negar, todavia, que a remessa de leitura do condenado seja composta por obras imprescindíveis. Assim como a narrativa esteja amarrada por um domínio técnico preciso, a todo momento dialogando com a literatura, que a torna irresistível da primeira à última página. No entanto, isso não invalida o caráter ultrajante de ‘Mierdamorfose’ contra o Brasil, esse país de gente honesta e exemplo mundial de educação, saúde e segurança.

Dito isso, não me resta outra opção senão a de cobrar às autoridades a detenção preventiva do autor Carlos Trigueiro, da mesma forma que Machado de Assis, Lima Barreto e Mario de Andrade deveriam ter sido detidos em suas épocas.

N. do editor.: Dominado pelos vapores intoxicantes que exalam as páginas deste livro, o resenhista compôs o texto munido da mais fina ironia.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

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101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Tadeu Sarmento

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Flores no microondas       

 

O que mais gosto é que você parece ter guardado um segredo durante todo o dia só para me contar. No fundo sei não ser verdade. O fato é que abro tuas pernas como facas uma ostra. Isso é real. Mas o real nem sempre é melhor. São os mal-entendidos que colorem o mundo. O melhor é depois conversarmos na janela do nono andar, fumando, olhando os (daqui) pequenos carros na rua. Da janela sinto o mundo recolhendo acontecimentos que nos atingiriam em eco caso estivéssemos lá embaixo. Mas, não estamos. Saio do teu corpo como um prazer satisfeito ou uma doença. Dentro você é macia pista de gelo quente. Fora, todo este teatro à disposição. A luz é a continuação de outro mundo, refletido em teus cabelos. O segredo que você tanto guardou durante o dia é sempre a mesma história, com pequenas alterações. Surpreendo teus lapsos como às vezes a vista surpreende a mão em gesto automático. Mas, sempre finjo não notar. Gosto de ouvi-la, desse hálito golpeado pela hortelã do teu cigarro mentolado. Por exemplo: a cada vez você troca o nome dos mortos que inventa. Por mim tudo bem. Nomes de mortos não são mais úteis. Só acho engraçado esse esforço de encenação. É como se eu me importasse. Finjo me importar. Bato à tua porta porque estou cansado. Entro carregando nas costas meu próprio corpo. A mim bastaria que você apagasse os incensos da sala. Eles fedem a pétalas de plástico queimado. Você se deixa entender; eu me deixo escutar. Com você o sexo sempre vem acompanhado pela máscara da compaixão. Teus pais são indianos e te prometeram em casamento a um velho de setenta anos. Por isso você fugiu de casa e está aqui, vivendo essa vida. Mas, quantos nomes diferentes teus pais têm? Eles já morreram mesmo, e de tantas formas assim? Teus lábios são lâminas líquidas mordendo pequenas peras de luz. Percebi que quando você mente esfrega o pulso com o nó dos dedos. Mas, quem não mente? A mentira é a principal função da linguagem. Só que poucos esfregam o pulso como você. Quando você se espreguiça lembra um anjo abrindo as asas. Outro dia você disse que eu era apático. É que gosto de ficar quieto, silencioso, observando você. Tenho quatrocentos adjetivos diferentes para falar das tuas costas. De qualquer modo, tomei como um elogio. Nossas vidas são tão minúsculas. Somos tão indefesos, tão pequenos, que tenho vontade de rir. Gosto das suas estórias. São segredos escritos a lápis. Por isso você os apaga e os reescreve toda vez que eu chego. E eu sempre chego, carregando meu cadáver nas costas. Retirando o peso da verdade, os corpos ficam mais gratificados, menos constrangidos. Ficam menores, mais do que já são. Vivemos a vida dentro de um sonho. Às vezes, quando estamos na janela, sinto um insuportável desejo de saltar.

***

Aeroportos de papel de carta

Conheço cidades distantes através das malas esquecidas no aeroporto. Não são muitas, nem é todo dia que as encontro. O ritual é tão estranho quanto gratuito. Geralmente sento em um dos bares próximos à pista de decolagem, para beber embalado pela tristeza do som das turbinas, admirando, sem entusiasmo, a indiscreta velocidade dos pássaros pesados, as asas de cor cinza, metálicas. Depois, atravesso a rua como se fosse viajar. Outra tarde, dividi a mesa de um desses bares com Diego M., ator, escritor brilhante, biógrafo de índios assassinos, decidido a embarcar atrás de uma harpista francesa que, segundo ele, cheirava bem na pele de madrepérola, encimada por olhos mansos (cor de rins). Fique longe do amor e dos aeroportos, aconselhei, dessa combinação explosiva que seduz a alma dos ladrões, pintores, imbecis, palhaços descalços. O amor não deve nunca embarcar. Nunca. A curva do sol refletia nos copos um sorriso de luz quando eu disse: no dia em que os turcos tomaram Constantinopla derreteram os sinos da cidade para fabricar munição. De modo que o melhor é esperar em casa, sentado, a bala turca vir ferir de vez seu coração de puta, que decidir ouvir de perto a sacra música das catedrais. As malas, Diego, procure as malas com rodinhas nos saguões. Seus donos são descuidados. Abra-as, sinta o cheiro de vitrine das roupas amassadas, o odor gordo da fumaça dos carros impregnando as gravatas, leia os tíquetes de estacionamento que falam sobre esquinas desconhecidas, descubra assim as ruas dessa cidade de origem, proteja-se. Um erro convertido em amor. Não negocie sua alma por isso. Aprecie os aeroportos de longe, as delgadas aeromoças em uniformes azuis, esses patins rosa que giram sozinhos na esteira rolante, ou o denso cheiro desse plástico que brilha como ouro falso. Da espessa vegetação dos números coloridos calculando fusos horários aprenda a gostar desse sentimento de que nada dura até o fim da curvatura dos gráficos. Pois o amor acaba porque tudo acaba um dia. O amor sai na urina, entre os cristais da cerveja que tomamos agora, um brinde. De resto, mulheres são cruéis quando é você o estrangeiro. São muros cercando o incêndio brilhante. Se Henry Miller tivesse vivido na era dos aviões não teria ido a Paris atrás de suas bonecas vazias. De navio, teve tempo suficiente para se entusiasmar e arrepender-se, longe da enjoada sensação de primavera de tudo o que se movimenta rápido. Anaïs Nin, afinal, era só uma ninfomaníaca com curso de datilografia e, segundo Artaud, tinha um péssimo gosto para calcinhas. O amor não servirá de abrigo antiaéreo caso a bomba imploda da caserna. Ele acabará um dia, na sala de embarque ou desembarque, pois esse tipo de amor se apaixona por si mesmo, bebe de suas unhas o próprio futuro que não terá. É a estrela dos cansados, farol dos cegos, cartaz de filmes castigado pela chuva. Fique longe desse tipo de amor. Se possível, de qualquer tipo de amor. Fique longe de mulheres brancas, francesas, com sotaques estranhos, traços orientais de estátua. São anjos, mas usam coturno. E usarão os coturnos, quando você menos esperar. De modo que não é possível amar uma mulher para depois amar a cidade em que ela vive. Cidades distantes costumam enforcar os invasores. Melhor manter-se em pé, atrás das janelas. Sobretudo manter distância dos lugares onde poderia ter sido feliz. Não seja feliz. Não fará diferença alguma. Em breve estaremos todos mortos.

***

Subtração

Eu sempre vou te querer. Sempre. Quando ninguém mais te quiser, eu vou. Mesmo depois de você ficar velha, curvada, lenta, bem gasta. Quando ninguém mais te desejar, eu irei: desejá-la, querê-la tanto. Mesmo se você engordar, ou emagrecer demais, ou cortar as unhas até a pele sangrar. E quando a ninguém mais for suportável tua tristeza, teu humor negro, teu pessimismo, a mim será, pois, quando ninguém mais suportar ouvi-la falar de Thomas Bernhard, eu vou querer te ouvir falar de Thomas Bernhard. E mesmo se todos se cansarem dos teus longos silêncios eu não me cansarei, até por ser durante teus longos silêncios que eu escrevo. Porque quando você fala eu prefiro o som da tua voz ao dos meus dedos no teclado. Porque escrever é sempre dizer que você não está, ou está, mas calada. Que o teu silêncio é a minha imaginação. Então quando todos cansarem de ti, dos teus dentes manchados, tortos, afiados, do teu hálito de nicotina, das tuas mãos gesticulando nervosas, eu não me cansarei nunca. Mesmo quando teus seios caírem, teu rosto enrugar, tua memória falhar, teus pulmões virarem esponja. Quando você for traída, esquecida, humilhada, trocada por uma mulher mais jovem ou mais fútil, eu vou te querer ainda mais, e para nunca te trair, te esquecer, te humilhar, te trocar. Quando você estiver sem dinheiro, sem emprego, sem cigarros, esperança. Quando pouco ou nada sobrar de você, eu ainda vou querer esse pouco, esse nada, esse tudo que se puder raspar do prato raso dos teus sonhos. Sim, mesmo quando teu gato envelhecer, e passar a dormir dezoito horas por dia, e você se sentir sozinha sem ele, eu vou estar sempre acordado para você. Até mesmo se você tiver adquirido manias, tiques, doenças, dívidas, varizes, joanetes, verrugas, manchas na coxa. Pois, quando tuas tatuagens forem se apagando aos poucos e deformando-se conforme tua pele for enrugando, ainda assim gostarei delas, quererei vê-las. Digo: depois que o sexo (gás do pânico) já não for mais tão importante, e tudo for esse imenso vazio negro do desejo saciado. Sim. E depois de ninguém mais suportar teu bruxismo, tuas bebedeiras, teu choro, tuas olheiras, tuas cólicas, eu te pegarei pelos braços e te darei banho, e limparei teu vômito, e te deitarei na cama, e velarei teu sono por toda a noite. Enquanto eu estiver aqui eu estarei sempre aqui. Porque aprendi coisas novas para te contar. Que agora sei onde as modelos de Klimt enfiavam os dedos enquanto ele as pintava. Descobri hoje. Mas isso eu não vou te contar agora. Eu sempre vou te querer. Sempre. Mesmo que o amor não signifique mais nada para mim. Eu sempre vou te querer pelo simples fato de ser impossível para mim que eu não te queira. É impossível. Pois quando estou na rua e alguém me pergunta que horas são eu sempre respondo que é a hora certa. E sempre é a hora certa. Sempre será a hora certa. Sempre. Sempre. Sempre.

 

Tadeu Sarmento nasceu no Recife, safra de 1977. É autor dos livros “Breves Fraturas Portáteis” (Fina-Flor Editora, 2005) e “Paisagens com Ideias Fixas” (Bartlebee, 2012). Em 2014 foi um dos vencedores do II Prêmio Pernambuco de Literatura, com o romance “Associação Robert Walser para sósias anônimos” (Cepe Editora, 2015). Defende trincheiras indefensáveis no Visões de Ezequiel e despejou entulhos literários no Lontra Hiperbórea. As três narrativas acima integram o inédito “Sete Palmos Debaixo do Céu”.

 

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101ª Leva - 04/2015 Gramofone

Gramofone

Por Daniela Galdino

 

LIRINHA – O LABIRINTO E O DESMANTELO

 

CAPA


“transformarei a ferida
numa orquídea de luz mineral”
(Lirinha, em “Ser”)

Processar as dores. Curar as feridas. Lavar os velhos rancores. Depuração parece uma palavra bem associada ao novo disco de Lirinha que acaba de vir à tona neste 2015. Temos aí um salto corajoso rumo ao incerto: abismo ou labirinto. Lirinha reúne fragmentos e nos traz a experiência de retorno daquele homem, artista que não interrompe a caminhada para dizer. Fala em movimento. É outro. Desmantelado, re-montado: nos amores, nas artes, na (des)aventura de ser.

Em O labirinto e o desmantelo (2015) Lirinha acentua a escolha já trilhada a partir de LIRA, disco lançado em 2011. Com feição ainda mais harmonizada estão, no disco de agora, a poeticidade cortante, os efeitos eletrônicos, os tons de suspensão mística. Acertadíssima a parceria com Pupillo, que assina a produção musical. O Lirinha destemido, corajoso na sustentação dos caminhos escolhidos se apresenta para desafiar as classificações e desmantelar a identificação nítida dos gêneros musicais. São dez canções muito bem irmanadas. Em todas elas fica evidente um hibridismo que torna a audição do disco uma deliciosa brotação de inusitados.

Por exemplo, em “Pra fora da terra” dá para perceber um flerte erudito. A partir disso, ouvimos delicadezas que nos fazem lembrar os antigos realejos desaparecidos das ruas. Num flash, dois mundos irmanados. E nessa mesma canção surge o sopro contemporâneo sintetizado, a guitarra que arranha delicadamente. Lembranças, em círculo, bailam, ressoam em palavras, em sons. Nessa faixa temos também uma poeticidade que causa a intensa sensação de circularidade, no sentido de fluidez, de movimentação de energias renovadoras: “lavo com água corrente/ teu poço dos velhos rancores”. Grata surpresa, bela aparição do inesperado.

A canção “O labirinto e o desmantelo” nos faz lembrar as incursões experimentais de Lula Côrtes & Lailson no lendário disco Satwa (1973). Fica esse gosto de nitidez mística bem ao modo setentista, o que, sem muito esforço, traz também à cena o Pedro Santos de Krishnanda (1968). Lirinha vem para compor uma densa tríade, mas sem o compromisso das filiações. Ele se apresenta deixando visível – aqui e acolá – os (in)discretos fios que o ligam às experimentações dos mestres, mas o faz com um modo muito seu, com os elementos do momento de agora, remontando e transgredindo. Já havia esse anúncio no disco anterior, LIRA, com a canção “Adebayor”, mas nessa segunda experiência vemos um Lirinha mais evidente no desafio de encenar uma dicção própria, resultado das siderações que ele constrói.

Se em LIRA fomos surpreendidos com a participação de Ângela Rô Rô na faixa “Valete”, nesse segundo disco temos a presença de Céu na canção “Filtre-me”. Extremidades mediadas por Lirinha. Em ambas as canções a intensidade. Essa conexão com artistas pernambucanos não é novidade para a cantora/compositora Céu, ela já havia participado de discos de Siba, Otto, Nação Zumbi. De alguma maneira essa presença fica sendo um desafio que pendula entre o conhecido e o não esperado. Aqui, dividindo os vocais com Lirinha, Céu compõe uma bela fusão e algo muito sinérgico se acentua mesmo no momento em que ambos entoam: “quando passa em mim a tua voz/ tão cercada de poeira/ não esqueço o filtro do amor”. A música se confunde com a espinhosa maciez da experiência amorosa.

Lirinha por Caroline Bittencourt
Lirinha / Foto: Caroline Bittencourt

Uma imponente tuba vai abrir caminhos na canção “Mergulho”. Digo caminhos porque essa música nos deixa com a sensação de deslocamento, atenta contra a nossa possível imobilidade. “Mergulho” é mesmo um passeio para o qual eu não estava preparada, apesar das surpresas que tive ao escutar as músicas anteriores. É nesse momento do disco que Lirinha nos leva para as profundezas. Profundezas do corpo, das vontades. Aí, palavras e musicalidade indicam amplidões sem pudor algum. A ânsia é tanta que o trânsito é por lugares inesperados: “agora o plano é te fazer feliz/ correr os tubos do teu coração/ provar além/ cicatrizar o chão/ e sonhar/ andar nos fios que ligam às estrelas/ capacidade de mudar as coisas”. É o corpo ou é a amplidão? Essa é uma canção imensa, aliás, em todo o disco dá para perceber que a alquimia de Lirinha aproveita bem tudo o que é vasto. “Mergulho” é também um intenso eco, tenho morado nessa música (e ela em mim) desde a primeira vez.

“Odin” é uma canção aguda. Por in-coincidência encerra o disco. Nesse momento Lirinha requisita quem está do outro lado da margem, ou seja, nós, para perguntar “quem sabe encontrar/ alta forte felicidade”. A Combustão das experiências particulares. Essa equação sempre será difícil de ser resolvida quando se tratar de arte. A essa altura, muita coisa irmanada, não dá para dizer que o disco é hermético ou é um relato sonoro do particular porque, ouvindo com atenção todas as dez canções, já sentimos (e nos sentimos) “a planta pisada/ o cais retorcido/ farol mergulhado/ um balde de sonhos no fundo da casa/ onde o mar se tornou salgado”. Já somos o coro que acompanha a voz de Lirinha. Quando essa última canção se conclui, fica a ação imediata de escutar a sequência novamente, sem maiores preocupações com o tempo do relógio. O disco dá uma impressão de ciclo que se renova, de círculo que se movimenta.

É um disco tão amplo que somente ao escrever este texto fui perceber que todas as faixas, juntas, totalizam 35 minutos. Nas vezes em que escutei tive a sensação de que a experiência havia ultrapassado os ponteiros, juro que imaginei que o disco durava mais de uma hora, juro. Isso é que me deixou impressionada: Lira, sabedor de que está dentro e fora das lógicas do mercado fonográfico, insere músicas com menos de 4 minutos de duração, mas implanta expansões em cada uma delas. Nessa aventura sensível fiquei desorientada de cronômetros. E assim não dá para detalhar o disco faixa a faixa, melhor convidar outros seres para colocar na roda as suas impressões. Aí só o contato direto com a musicalidade de Lirinha poderá mover as sensibilidades.

Esse disco “O labirinto e o desmantelo” deve ser incluído no repertório das nossas urgências. Não duvido. Deixo apenas um aviso (até desnecessário): é para escutar de peito aberto, inútil mover-se (ainda) pelo saudosismo dos tempos do Cordel do Fogo Encantado. Aqui encontraremos um outro artista, porque é outro o homem e outros são os tempos não marcados por apagamentos, mas pela ânsia de descobertas.

Agora, cinco discos depois, o que podemos dizer da trajetória de Lirinha é o seguinte: ele é o outro que não sepultou o mesmo. Com o entendimento de que se faz impossível apagar as origens, fico muito mais instigada em descobrir como esse ser-tão dialoga com paragens diversas e alimenta as inquietações artísticas. E para inconcluir a questão, vem o eco: “que lugar é esse labirinto / desse nosso desmantelo?”

 

 

Daniela Galdino é Poeta, Performer, Produtora Cultural e Docente da UNEB. Muito principalmente é construtora de pontes aéreas e defensora do direito ao delírio (como forma de sobrevivência).

 

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101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Paola D’Agostino

 

Victor H . Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Esta esplanada não existe
é mais um sonho marcado
para acontecer talvez num Setembro
mas entretanto avista faróis
do último piso de um estacionamento.
Clandestinidade de luxo
que a cidade sabe oferecer
ao delírio de sair de si
nas horas mortas
encontramo-nos aqui
em lugar abusivo
o único sítio onde te consigo

Quando arrancares
o relógio da carne
não te esqueças de sorrir
ao virares
a clepsidra do oblívio.

E depois lava bem as mãos
que está um tempo sujo cá fora.

 

 
***

 

 

A vida às tantas se parece com aquela grande loja de artigos para o lar
que toda a gente conhece na Baixa mas entretanto
alguns sobem ao último piso para aproveitar a vertigem do panorama
e beber uma imperial no reino das águas furtadas
enquanto outros só procuram mesmo a secção das flores de plástico
e compram cascatas de glicínias
para enfeitar a sala e eventualmente um gancho
que prenderá o cabelo em dias bonitos

e todos juntos
uns e outros
encontramo-nos no espelho do elevador
e sorrimos.

 

 

 

***

 

 
Vício, forma mais violenta de estar vivo

 
A lei do espanto mandava em tudo
e nem tudo obedecia às leis.
De resto nada tenho a assinalar

Eu quis
voltar a entretecer-me de raiz
com outra curiosidade.

 

 
***

 

 

Um lugar ao sol e um tempo na sombra

 

Eu vim pactuar com o crime a esta praia
porque a geada aperta no hemisfério
do continente gasto
aqui no cérebro.
Porque sair de casa a meio da noite
em busca de sacrilégio
é arte
de aventureiro
que se deve provar
uma vez pelo menos.
Por essa gota de adrenalina suja
que fomenta a inconsciência
de Prometeu
como um revérbero
ao sair de si.
Eu vim
desafiar a imortalidade
do mal
que havia em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Quantos cais este oceano permite?

 
Como um papel de parede
que descolando amarrota na queda
todas as vidas anteriores
e repõe no espaço dos fantasmas
a candura das paredes nuas
perfeita casa
como
tabula rasa.

 

Paola D’Agostino aprendeu a caminhar por volta de 1976 e desde então nunca mais voltou para casa. De momento reside em Lisboa. Seus livros chamam-se “Largo das Necessidades” (2006), “Este Frio e Outras Histórias de Amor” (2011), “Dançam; Dançam” (2014) e o mais recente “Catar Catataus”, um diálogo ideal com o Catatau de Leminski (três últimos poemas desta seleção). Tem textos espalhados por revistas e antologias em Itália, Portugal, Alemanha. Um dia tocará acordeão, talvez.

 

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101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Diego Moraes

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

LIRISMO É O ÚNICO DEUS EM QUEM ACREDITO

 

Eu compro a trigésima lata de cerveja e saio caminhando até o delírio parar de latejar. Gosto de sentir a brisa de Manaus lambendo meu rosto. Não tenho dinheiro para luxo. Não tenho grana pra viajar. Não tenho grana pra passar uma temporada no Texas. Não posso pagar um psiquiatra. Quem não tem grana para fazer análise, vai para o bar ou liga a televisão. Gosto de ver televisão. Gosto de um canal de vendas na tevê a cabo em que aparece o George Foreman vendendo churrasqueiras e um troço de fazer sanduíche. Se eu não tivesse entrado nessa furada de querer ser escritor, certamente seria um baita pugilista. Um boxeador fracassado cuspindo sangue num balde de alumínio encostado nas cordas de um ringue da terceira divisão dos pesos pesados. Minha mãe virou evangélica. Tem pregado versículos da Bíblia na geladeira e colou um adesivo na traseira do carro: “se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Todo mundo é contra nós e a minha literatura é contra o mundo. Fico feliz por ela. Dia desses deu pra a ouvir orando de voz embargada. As paredes da minha casa são finas. “Que meu filho arrume uma mulher e seja feliz”. O lance é que não quero arrumar uma mulher. Não quero casar. Não quero filhos e conta conjunta no Itaú. Acostumei-me com a solidão. Não tenho pensando em comer ninguém. Meu pau balança mole faz alguns meses. Nunca pensei em arrumar um emprego na Volkswagen e casar com uma loirinha formada em propaganda e marketing. Tenho só pensado em poesia o dia inteiro. Tenho sonhado com literatura. Minha cabeça anda povoada de frases e parágrafos gritantes que poderiam fazer Dostoievski me rasgar de elogios. Puxo vinte reais do bolso e dou na mão do traficante. Ele diz que pareço com o Frejat só que mais gordo. A música dele (Frejat), que fala que um cara limparia os trilhos do metrô pelo amor de uma mulher, tenta atravessar a minha memória, mas não permito. Aí Cazuza tenta invadir cantando Vida Louca, mas apago. Deixo que a imagem da fotografia do Cazuza abraçado com Caio Fernando Abreu dure três segundos e pulo para o remake de Vicio Frenético filmado pelo Herzog na cena que o Nicolas Cage tá chapado de heroína e vê camaleões cantando no meio de um acidente de trânsito. Eu curto pra caralho essa cena. É uma das minhas prediletas. Também curto aquele tchau do Anthony Hopkins no desfecho de O Silêncio dos Inocentes. Hannibal Lecter vira as costas num terno azul e crianças negras seguram balões coloridos no meio da rua. Aí sobem os créditos. Sinto vontade de cheirar pó. Entro num bar que não faz bem para minha alma. De derrotado já basta eu. Saco o olhar desdenhoso de um otário que não tem a terça parte da minha vivência. Ele se escora no balcão. “você anda escrevendo muito. Quando sai o próximo livro?” falo que não quero papo. Ele abre um sorriso cínico. Digo pra ele cair fora. Que estou querendo ficar na minha escutando Belchior na máquina jukebox. Ele fala algo sobre Bukowski. Diz que o velho era só um bêbado. Antes de ele falar outra merda, meu cotovelo acerta o seu nariz. Respingos de sangue mancham a camiseta branca dele dos Beatles. Todo jornalista tem uma camiseta branca dos Beatles. Chuto a cara dele. Conhecidos gritam pra eu parar, mas já venho aturando esse cara faz tempo. Faz tempo que ele atravessa meu caminho com um sorriso idiota fazendo perguntas embaraçadoras como se eu não fosse escritor ou imitasse o velho Buk. Entro num táxi e acordo na porta da minha casa. Acendo um Derby na varanda e começo a rir. Minha gargalhada acorda os cães da vizinhança. Deito na minha rede e ligo a televisão. Edir Macedo fala que temos que dar para receber. O lirismo é o único Deus em quem acredito.

Diego Moraes (Manaus, 1982) é um escritor brasileiro. Publicou os livros “A fotografia do meu antigo amor dançando tango” (2012), “A solidão é um deus bêbado dando ré num trator” (2013), ambos pela editora Barteblee, e “Um bar fecha dentro da gente” (2015), livro de poesias publicado pela Douda Correria, de Lisboa.

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101ª Leva - 04/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A sagrada profanação do corpo: os ritos literários de Saint Genet

Por Rafael Peres

 

 

 

“Vocês”, um pronome que demarca a fronteira e o distanciamento entre nós e o personagem autobiográfico Jean Genet, em seu Diário de um ladrão (2012). Embora seja chamada de “diário”, tal obra apresenta-nos um painel anacrônico das memórias de Genet, as quais são dispostas de maneira multiforme, destituída de linearidade cronológica. Também não há como precisar se a narrativa é uma autobiografia, uma memória ou um diário, ainda que todos estejam em seu bojo. Além desse embaralhamento de gêneros, vemos um desfile de facínoras e ladrões, malandros de toda espécie, com os quais Genet confunde-se, tornando-se um caleidoscópio de suas amoralidades. Ao invés de compor uma ode aos valores da ordem social vigente, Genet canta as idiossincrasias de sua classe, em detrimento das instituições, com exceção do poder executivo, cuja ação violenta e punitiva é, para o autor-personagem, um traço que a aproxima da barbárie.

Seguindo a esteira de Baudelaire e de outros poetas malditos, Genet utiliza o grotesco como adubo de suas “rosas brancas”, extraindo da imundície a luz benfazeja de seu lirismo. O embaçamento de si mesmo durante sua herética travessia pelas margens sociais confere-lhe uma identidade ornada de magnificências ultrajantes, concebendo assim Jeannot, o amante platônico de Stilitano, um dos asseclas mais queridos do autor-personagem. Este se desdobra nas abundantes descrições, nas quais retrata uma torrente poética atingindo todos os ladrões, de modo que suas impurezas tornem-se matéria transcendental. Assim, o véu do catarro de Stilitano resplandece, ganhando tons até então impensáveis, principalmente em se tratando do pensamento popular em relação aos fluidos expelidos pelo corpo. Mostrar suas inúmeras facetas mediante uma poieses invertida demanda também fugir do cânone imposto pelo gênero, o que acentua o caráter ritualístico baseado na transgressão, uma vez que o autor suspende a narrativa a um plano etéreo e disjuntivo, cálice abjeto para a ordem dominante.

A santidade, segundo Genet, alcança a epifania à medida que uma corrupção de maior calibre sobrepõe-se a outra, numa busca incansável pela pretensa anulação do caráter. Com essa postura, o autor escolhe a traição como o estigma subversivo por excelência, tendo em vista sua capacidade ilimitada de sobrepujar os vínculos benéficos dentro de um grupo. Desse modo, a fraternidade, a gratidão e a honra são ceifadas, com a finalidade de proporcionar uma nova e paradoxal união, ou seja, o estabelecimento de um vínculo sagrado por intermédio da ruptura de tais valores. Logo, camadas gradativamente nocivas consomem as inferiores, produzindo uma massa disforme de sujeira moral e física, a qual gravita em torno da traição, já que a mesma não se circunscreve somente na ruptura de valores metafísicos, mas também no abandono da sanidade corporal. É mediante essa atitude que Genet olvida-se, reinventando suas facetas num prisma grotesco, de modo que este se torne uma cosmogonia insurgente de seu caos. Todavia, deve-se ressaltar que esse apagamento não significa a extinção de sua identidade, mas sim a procura por sua renovação, desnudando o que há de mais rasteiro entre os excluídos.

O corpo é um templo sagrado, “morada de Deus” para a tradição católica. Genet apropria-se dessa ideia, mas com enfoque completamente diverso, tendo como base perversões libidinosas, relações homossexuais e excreções. O sagrado e o profano têm relações estreitas, se analisados do ponto de vista antropológico, sobretudo deixando de lado a concepção ocidental de pureza e higienização. Entre os Bambaras, por exemplo, há uma classe de iniciados de nome “Abutres”, a qual “engole as forças profundas do universo” alimentando-se dos detritos. “Ao consumi-los, o abutre assimila o mundo por intermédio da coprofagia” (ZAHAN, in: CHEVALIER & GHEERBRANT, 2006, p. 412). Essa liturgia com elementos abjetos é recorrente na narrativa de Genet, que igualmente se vale de situações repugnantes para tentar justificar sua existência e reanimar as “forças profundas do universo”:

Os piolhos nos habitavam. Às nossas roupas, eles davam uma animação, uma presença que, desaparecida, as tornavam mortas. Nós gostávamos de saber – e sentir – pulular os bichinhos translúcidos que, sem serem domesticados, eram tão nossos que o piolho de outro que nós dois nos dava nojo. Nós lhe dávamos caça, mas com a esperança de que durante o dia as lêndeas teriam nascido. […] Não jogávamos os cadáveres – ou despojos – no lixo, nós os deixávamos cair, sangrando com o nosso sangue, em nossa roupa descomposta. Os piolhos eram o único sinal da nossa prosperidade, do próprio avesso da prosperidade, mas era lógico que ao fazer o nosso estado operar uma inversão que o justificasse, nós justificávamos ao mesmo tempo a marca desse estado. Tornados tão úteis para o conhecimento da nossa decadência como as joias para o conhecimento daquilo a que se dá o nome de triunfo, os piolhos eram preciosos (GENET, 2012, p. 35-36).

 

Revitalizando essa condição miserável, os piolhos são elevados a “joias”, em cujo brilho translúcido flagra-se outra realidade. De acordo com os povos tribais, os excrementos constituem a síntese energética da natureza, o elo do homem com o plano sagrado, não possuindo, assim, o arquétipo escatológico criado no ocidente. Muitos radiestesistas acreditam que os dejetos têm uma energia similar à emanada pelo ouro; trata-se de uma crença observada em muitas tradições. Classificar metaforicamente os piolhos de pedras preciosas é uma inversão que valoriza o abjeto como um estado anímico triunfante, gênese da beleza no “próprio avesso da prosperidade”. Minérios superiores são cotejados com o que há de mais infame na cultura ocidental, erodindo, com isso, os limites entre o sagrado e o profano, evidência das dicotomias entre o homem e sua corporeidade. Porém, mesmo na tradição judaico-cristã, nota-se essa ambivalência, uma vez que o ritual da eucaristia consiste em se alimentar do Cristo vivo, a fim de sanar os pecados e resguardar-se para a vida eterna. É visível, então, que a antropofagia funciona simbolicamente como a restituição vital do ser humano, cujos detritos, em outras culturas, também adquirem valor equivalente. Dos restos dos piolhos, o autor-personagem contempla o próprio sangue, sua marca existencial que o assinala no mundo. Seu “renascimento” acontece graças ao sacrifício da morte, perfazendo um fluxo intermitente, no qual as criaturas escatológicas servem como adubo e fertilizante para a germinação de uma nova vida. Nessa óptica, o ouro, o excremento, a joia e o piolho são igualmente importantes para o ciclo, o que endossa a premissa genetiana de utilizar elementos abjetos para alcançar o sublime.

As figuras de linguagem utilizadas por Genet em suas descrições associam-se quase sempre à natureza, espaço indômito, às vezes cruel, mas que evoca a beleza, extraindo dolorosamente seu caos. Os minérios, as seivas e as luminosas imagens locupletam os sentidos, paralelamente dispostos aos órgãos genitais, como a rosa branca e o voluptuoso escarro entre as pernas do assassino. O autor-personagem reitera que essas marcas poéticas são tentativas de alcançar uma moral superior, sobre a qual não se pode julgar conforme os paradigmas sociais. Genet chama seu lavor artístico de “santidade”, ou seja, é um tipo de cognição sensorial que busca asceticamente a totalidade, ainda que seu escopo seja inatingível; “afasta-se quando me aproximo dele” (GENET, 2012, p. 231), explica. Essa percepção estética apresenta maior grau de complexidade, pois o artista não lida meramente com algo prosaico ou com um simples fato do cotidiano, e sim com inúmeros signos escatológicos do corpo.

A expressão substantiva “Um ladrão” não identifica a pessoa que pratica o delito; assim quer Genet em seu texto, como sugere o título de seu “diário”. Quando alguém rouba um objeto de valor, sua intenção é basicamente usufruir de seu saque em benefício próprio e/ou de outrem. Todavia, a relação entre o meliante e seu furto ultrapassa essa acepção, posto que o indivíduo apropria-se indevidamente de uma particularidade de outra pessoa e a transforma num novo apêndice (que varia conforme a natureza do produto roubado) de sua identidade. O direito de posse é uma convenção que torna o objeto individual, opondo-lhe sua universalidade material e simbólica. Embora o espólio roubado seja um domínio alheio, o ladrão lhe concede novo significado, expandindo-o semanticamente, ao apropriar-se dele. Se o autor-personagem tem plena convicção de que é capaz de trair Armand, afanando-o em benefício de Stilitano, presume-se que o produto do roubo deva simbolizar não somente a apropriação de uma subjetividade, mas também sua partilha em prol de uma agremiação.

A cruel autoridade dos dois ladrões, Armand e Stilitano, cria a aura de erotismo e devoção, com a qual Genet banha-se de luz, assimilando o que há de mais nocivo nos comparsas: a traição. A gula pela vileza não se satisfaz, mas é sobre sua incompletude que o autor-personagem constrói seu altar, onde os corpos sacrificados são colocados à mostra e à revelia da sociedade. Os ganhos obtidos por Armand pelo tráfico de ópio são uma das oferendas, não considerados assim meramente pelo valor financeiro, mas, sobretudo, por encarnarem a postura transgressora do criminoso, um dos maciços blocos de sua personalidade infame. O traiçoeiro roubo das do outro possibilita a Genet a apropriação sensorial da maldade alheia e de seu próprio mal, aproximando, dessa maneira, seus pólos negativos. Com isso, os ladrões comungam um sentimento de redenção mediante o abjeto. As relações sexuais também revelam essa permuta identitária, que é simultaneamente morte e vida, indivíduo e coletivo, carne e espírito. O eixo de tais oposições consiste no vínculo da beleza com o grotesco, um oxímoro avassalador, benção de Saint Genet, o ladrão de joias poéticas…

Referências:

 

CHEVALIER & GHEERBRANT. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Coordenação de Carlos Sussekind; tradução de Vera da Costa e Silva… (et al.). Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

 

GENET, Jean. Diário de um ladrão. Tradução de Jacqueline Laurence e Roberto Lacerda. Editora Saraiva: São Paulo, 2012.

 

Rafael Peres nasceu em Patos de Minas, Minas Gerais, em 1986. Possui graduação em Letras pelo Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM). É Mestre em Teoria Literária, pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Já escreveu os contos “O olho da máscara”, texto classificado no Concurso literário “Cidade das Asas”, “Ana Clara”, terceiro colocado no II Concurso Literário Icoense – CLIC – Poeta José de Oliveira Neto, e “Anátema”, obra inclusa na antologia do Prêmio Henry Evaristo de Literatura Fantástica. É também um dos vencedores do 48◦ Concurso Literário de Contos do FEMUP, tendo como mérito seu conto “Os Girinos”.

 

 

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101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Vander Vieira

 

Desenho: Victor H. Azevedo

 

Parece-te mais uma faca cravada em meu crânio

 

Parece-te mais uma faca
cravada em meu crânio.
Quando levanto-me do teu sonho
não ouço o rumor dos
………………………. [pássaros.
Como beijos embotados,
tua boca lança silêncios ao vazio;
palavras morrem antes que tu as balbucies.
Parece-te uma avó desalmada
com o agravante do assassínio letral.
Estavas ontem mesmo em minha estante;
eu a fitar-te e tu, brilhante, de soslaio,
a comer-me a visão.

Se plantasse cheiros nenhum deles daria em ti.

 

 

***

 

 

O espantapássaros

 

qual o lar do espantapássaros?
quem sorri a ele? os senhores? os vermes? as viúvas?
se ele trocasse de roupas, nós o reconheceríamos?
na capa do jornal de domingo
escondido entre as feras, alheio
ao reto do caminho, caminha
o espantapássaros.
mastiga ele a areia fina dos temporais
e sua caixa de fósforos
está encharcada de visões solitárias.
alguém ouve o espantapássaros? suas fendas?
seus fecundos sonhos intranquilos?
as sensíveis assembleias camponesas
ouviram seus apelos por um guarda-sol?
se a solidão torce os ossos dos não-vivos
o que faremos com quem tem coração?

 

 

***

 

 

Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo

 

Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo.
Jogarei no lixo os buquês de flores cor de vinho.
Apagarei todas as imagens coloridas.

Nada disso, no entanto, afagará a ferida aberta
pelo escoar do tempo no corpo.
Um corpo todo desmedida,
todo bifurcação de possibilidades,
todo abraço dado ao acaso.

Nada disso dá conta das fissuras vazias na tal parede
do tempo – nem mesmo mil pás de cal estancariam essa hemorragia.

Passo em frente a uma boutique:
manequins me olham e seus olhos não guardam expressão alguma.

(Uma mesa diante de mim expõe uma laranja partida em duas)

 

 

*** 

 

 

O espantapássaros II

 

O espantapássaros pendurou seus ossos
nas janelas ocres do seu passado.
Longamente meditou sobre a dor que o crucia.
Um escravo tísico, desses sem-vida,
perguntou ao espantapássaros
em qual braço do horizonte o sol faz a curva
que nos queima a pele eternamente?
Um homem comeu minha língua, ele disse
enquanto volvia os olhos às colinas
que mantinham entre os seios hirtos
os últimos dedos de luz.
Sem os acenos da noite, em qual cômodo da casa
o espantapássaros chora seus dias?
qual a sua bússola? e seu relicário?
sobra-lhe mãos e tempo para espantar as moscas
que lhe cobrem a face lúgubre?
ou seu senhor lhe ordenou que mantivesse
os braços abertos mesmo em dias sem abraços?

 

 

***

 

 

Parassempre

 

Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos
Paulinho da Viola

 

 

Enquanto vivermos
seremos parassempre
bem como as canções, o engano e as pedras.
Pedras não são provisórias.
Tudo o que se pode ser, um pouco menos,
um pouco além, um pouco lago, é
impreterivelmente no tempo, que alumia.
Não se vê só com os olhos
mas só com os olhos é que se vê.

Rebento incréu, pobre e
marginal
lodo e nicotina
vias falais meio entupidas.
Por vezes
um entardecer.

 

Vander Vieira é poeta, mineiro do interior do estado e tem 25 anos. É bacharel em Filosofia e vive em Vitória/ES desde 2009. Venceu o prêmio UFES de Literatura Portuguesa 2013/14 na categoria Coletânea de poemas, tendo 10 poemas publicados na coletânea de mesmo nome, oriunda do prêmio. Tem também poemas publicados em revistas literárias como Samizdat, Desenredos e Mallarmargens.

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101ª Leva - 04/2015 Destaques Olhares

Olhares

Um estrangeiro e íntimo caos

Por Fabrício Brandão

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Se o mundo é tal como o vemos, então muito ou quase tudo pode ser reinventado com os ingredientes de cada olhar. Definir, com precisão, se uma quantidade infindável de coisas pode ser relativizada frente aos repertórios que as atravessam é humanamente impossível. Melhor mesmo é deixar que cada artista exponha sua marca nesse ambiente vasto e tresloucado ao qual chamamos de realidade.

Diante das possibilidades de se representar o mundo no qual habitamos por empréstimo, a concretude das coisas pode curiosamente estar bem harmonizada com a múltipla capacidade de abstração. É como se o caráter físico e, portanto, palpável da vida fosse apenas uma camada a revestir o intangível. Então, vem a pergunta: quantas fronteiras existem entre o vivido e o inventado?

A resposta fica por conta de cada um, se é que ela existe. No entanto, parece plenamente possível a um criador modelar a realidade de forma a obter dela entradas e saídas. Em se tratando dos desenhos de Victor Hugo de Azevedo Macêdo, ou simplesmente Victor H. Azevedo, os acessos lembram-nos que vislumbrar o real é fazer um pacto constante com a transformação.

Metamorfoseando a realidade em distintos recortes, Victor vai saciar sua sede na fonte do caos que simultaneamente ordena e embaralha o mundo. Abraçado a uma perspectiva de manipulação das formas, o artista consegue fazer da sua existência uma reprodução da inquietude. Nesse ínterim, a vida que o circunda mostra suas faces dispersas pelo nonsense, certa dose de ironia e por alguma acidez dos dias.

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

No plano do discurso, a arte do jovem potiguar também comunica pelo inconformismo, o que significa dizer que nem tudo o que o mundo oferece a Victor ele está disposto a aceitar sem que haja, no mínimo, algum filtro. Prova disso está no modo como ele posiciona a condição humana diante de temas como a solidão e os efeitos advindos da modernidade.

Quando os sentimentos que reproduzem seu tempo não são capazes de minar as barreiras aparentes, Victor flerta com o realismo fantástico. Entretanto, essa atitude não implica em fuga, mas numa constatação de que ao mundo ainda é possível a criação de outros tantos sentidos.

Nascido em Natal, Rio Grande do Norte, Victor H. Azevedo publicou vários zines, dentre os quais doze canções, fábrica de flores e O amor é simples. Além disso, também se dedica à poesia e aos quadrinhos.

Victor é porta-voz de uma manifestação que busca no externo a sua razão de ser. Com todas as nuances intrínsecas que se possa conceber, aquilo que está fora revela-se o elemento maior da criação, instância esta que só se materializa porque há olhos que se interessam por perscrutar o mundo, jamais negligenciá-lo. E, assim, contido em seu afluxo imensurável, o artista confessa: “cada traço e contorno é como uma braçada num lago”.

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

*Os desenhos de Victor H. Azevedo fazem parte da galeria e dos textos da 101ª Leva