O meu tórax é a catacumba
onde se empilham os esqueletos
de todos os males e monstros.
Quando praguejam em tosse seca
a tua mão,
catedral universal da pequenância,
absolve-os com pancadinhas côncavas
transforma-os em passarinhos e voam.
Ofereço-te o espelho que me resta
– bebe-o.
***
Escultura fantasma
A pele ventilada adquire malhas
as mucosas arenecem
de tão estrábica
a consciência deixará de questionar
quando perderás a paciência
e começarás a gritar-me rente ao tímpano
aspergindo-me o perfil esfíngico ………………….. …..o sorriso bovino
dormirás com um cadáver
porque terei um sono de olhos vítreos
serei incontinente e esfregar-me-ás fezes na cara.
Por isso mudo-me já para
uma morada isolada
numa encosta escarpada
numa ínsua porque-não-atlântica
rodeada de galinhas e carpas
azedas e acelgas
atabúas e maçãs bravas
salinas e beterrabas
enquanto sou um freddy krueger
mínimo e híbrido que aprecia
fermentações e aves canoras.
***
Arca
Pedes licença
trancas-te no lavabo
tocas-te e é o dilúvio nas instalações sanitárias
– ossos do ofício inegociáveis –
sais com girinos e moreias numa enxurrada
chamas a tua meia-cara
“escancara-te, temos de ir de viagem”.
O que tens para oferecer são
intuições penduradas da pestana da alma
onde conseguirás reservar florestas várias
culturas esquecidas da grande ásia
novas estirpes do vírus da malária
enxertos para preservar vinhas roxas hereditárias.
Esgotadas, fechar-se-á a pálpebra.
***
Plutão
A oriente
lambia o sol
da manhã aliviava
o rubor da queimadura
com um gole de água fria
e um fio de azeite na língua.
Perseguia-o o resto do dia
até tombar na distracção
do mar
sem vertigem
sem veneração.
Sonambulismo
e nada mais.
***
Baço
O sofrimento afunila-te.
E depois mergulhas na lagoa ou ……………………..;…as mãos em cabelos amantes.
E depois escalas a montanha.
E depois rumas ao Oriente.
E depois tens uma criança.
Curas o corpo como quem
atravessa uma ponte.
O absoluto de ontem agora perspectiva.
Tu descansas.
Catarina Santiago Costa nasceu em Lisboa, em 1975. Frequentou o curso de Comunicação Social na Universidade da Beira Interior (Covilhã) e licenciou-se em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa (Lisboa). Desde 2005 publica os seus poemas num blogue pessoal. O site português Enfermaria 6 (e sua respectiva revista Caderno) divulgou alguns dos seus poemas.O seu primeiro livro será publicado este ano, pela editora portuguesa Douda Correria. Dele farão parte os dois últimos poemas desta seleção.
O Sal da Terra (Le Sel de la Terre). França/Brasil/Itália. 2014.
“No fundo, a fotografia é subversiva, não quando aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando é pensativa”. (Roland Barthes)
Em 40 anos de profissão, a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado personificou por completo a definição de Roland Barthes. Seja em Serra Pelada, na Indonésia ou em Ruanda, sua estética impactante sempre foi encravada de reflexão. Acusado por parte da crítica por alastrar o que chamam de “cosmetização da miséria”, as lentes de Salgado apenas captam o que há de mais amargo nos paladares da humanidade, por mais manipulador e piegas que isto soe. Dirigido por Wim Wenders — que já filmou com destreza vida e obra dos músicos “super-avôs” cubanos, em Buena Vista Social Club (1999) e da coreógrafa alemã Pina Bausch, em Pina (2011) — e Juliano Ribeiro Salgado, primogênito do fotógrafo, O Sal da Terra foi indicado ao Oscar 2015, porém perdeu a estatueta para o documentário americano Citizenfour (2014), de Laura Poitras, sobre o escândalo de espionagem da NSA (National Security Agency), revelado por Edward Snowden.
Sebastião Salgado em cena de O Sal da Terra / Foto: divulgação
Apesar de não se tratar de um registro cronológico e linear, o documentário pontua brevemente sua infância em Minas Gerais, a graduação em Economia, seu casamento com Lélia Wanick, o mestrado na USP, sua longa estada na Europa e os primeiros contatos com a câmera, fotografando esportes, casamentos e até nus. Aponta suas primeiras expedições ao lado do filho Juliano e seus livros/exposições mais expressivos, com destaque para Outras Américas, Sahel – O Homem em Agonia, Trabalhadores, Êxodos e Gênesis. No entanto, o interesse maior dos cineastas diz respeito ao ser humano por detrás da objetiva, o filho-marido-pai septuagenário ante o fotógrafo social. Filmado na maior parte do tempo em P&B, com narrativa em off de Wenders e depoimentos de “Tião” e seus familiares – destaque para o pai e a esposa, peça fundamental em seu trabalho – o filme apresenta algumas cenas coloridas e uma infinidade de fotografias belíssimas – e ao mesmo tempo de uma crueza quase ficcional – obtidas pelas lentes de Salgado. Tais imagens fundem-se de tal forma que parecem ganhar até mesmo movimento quando projetadas pelo cinema de Wenders.
As minas de Serra Pelada (1986) – Sebastião Salgado. Foto pela qual Wim Wenders conheceu o trabalho do fotógrafo
Em um segundo momento, O Sal da Terra retrata a fundação do Instituto Terra, ONG criada em 1998 e destinada ao desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Doce. Gerada em parceria com a esposa Lélia, que idealizava “plantar uma floresta”, ou seja, reflorestar a Mata Atlântica nas proximidades da fazenda da família em Aimorés (MG). A Fazenda Bulcão, que deu sustento e educação aos 7 filhos do patriarca e encontrava-se à beira da destruição – hoje transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) – é um exemplo de “pasto transformado em floresta”, como diz a abertura do site da instituição. É a devolução do empréstimo que a família fez à própria natureza. A recuperação da estância curou também a alma de Sebastião Salgado, tão castigada com as agruras captadas, sobretudo em sua longa jornada pela África. Exausto da desventura e brutalidade humana, ele passou a dedicar-se a um projeto ambiental, fotografando ecossistemas pouco explorados, reconhecendo-se em cada animal, em cada planta, em cada povo primitivo. A documentação disso culminou no livro Gênesis, sua obra-prima, uma declaração de amor ao planeta.
Em suma, O Sal da Terra é um documentário intenso e sensível sobre o processo criativo, o mundo e a condição humana. Trata-se do encontro de dois artistas formidáveis, autores de algumas das imagens mais surpreendentes do nosso passado recente – real ou imaginário – e sua perturbação artística, porém esperançosa, diante da vida.
Larissa Mendes tem procurado diminuir o contato com o sal da Terra.
que se lança em todas as direções nas Regiões Escuras: Agora
oO Círculo
cintilante
que te envolve
E nos limites da Esfera,
se te voltas para te ver Fonte
que se jorra,
vê:
o Outro,
Água que no Centro da Esfera ainda Lá és tu de novo, murmurando:
Tu
és o Livro,
que se lança: Chama
***
Celebração das fontes fatigadas
há Desesperos circulares, Tu sabes desesperos
como o do animal no Escuro escuro
Girando
contido no Centro que seu giro gera
E a cada giro, Pura
emissão de intensidade busca as margens para Além das margens
E a cada giro, o Não
Escrita de grades: a palavra Dor não é a palavra Sim
Mais um giro, e eis: a Queda
Luz fenecendo
o Centro que des
morona, des
falece em centro Oo
E se esmorece
o Desespero, e se
se apaga: Se sob a pele Negra olhos se ocultam,
na harpa de grades a pausa é breve e não há Música
pois foi escrito no Bosque Sem Ternuras, em nossa Face: Que os olhos que uma vez se
fechem outra vez se abram,
e eles se abrem,
Cílio sem paz se
acende o Desespero
e Testemunha: as Grades permanecem Lá
E se adormece para os Sonos dos Alívios? Sem
remédio Sem
remédio,
porque sonha Grades
ah, tudo oculta em sonhos a Catedral de cinzas
as Margens
o Círculo
e a chave perdida
Animal escuro,
te tornaste o próprio Centro escuro
Tece teus cílios de Hera sagrada
Cintila
nas noites Sonha
com a Alvura
Não sabes que Outro centroO
te Ilumina,
mais Escuro?
há Desesperos circulares, Tu sabes
***
Asa dos olhos
Quando um Lago
for lançado num Círculo
fora do tempo
por mãos vazias antes do gesto
Quem
estará na Margem
para receber, sem mãos,
as Doações do Centro adormecido
que Se amplia
despertado
em gratidões gratidões gratidões
em Cinzas Cinzas Cinzas
Vicente Franz Cecim é autor de Viagem a Andara oO livro invisível – Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista da Críticos de Arte/Apca, 1988. Edita seus livros no Brasil e em Portugal. Nasceu e vive na Amazônia, Brasil, Belém do Pará.
Jamais sorveremos o ar da perfeição. Quiçá consigamos algo que nos aproxime de um ponto de equilíbrio, alguma ínfima fração de ponderação entre acertos e desvãos. Vez por outra, alguém relembra-nos o quão imprecisos somos no quesito das certezas. Seria presunção demais apostar em cenários bem definidos quando o alvo é compreender a natureza humana?
Eis uma instigante questão. Por enquanto, ainda está longe ser possível estimarmos a dimensão das virtudes ou das quedas. Ousemos apenas respirar e seguir adiante construindo moradas na superfície das horas. Nesse ínterim, a nossa capacidade de abstração e mergulho pode, sobremaneira, fornecer-nos pistas valiosas sobre o que de fato nos tornamos. No diapasão que contém passado, presente e futuro, há algo além da materialização do pensamento em ações. Resiste a memória como peça fundamental da existência.
Nada melhor do que percebermos a visão que um determinado criador tem sobre o universo através do qual orbitam suas expressões, principalmente quando esse mesmo agente credita à memória um status de significativa importância. Assim o faz o escritor baiano Dênisson Padilha Filhoquando lhe cedemos escutas. Mas ouvi-lo não é o bastante. Ler seus escritos revela-se um componente essencial para apreendermos um mundo no qual as perspectivas são múltiplas no quesito inquietude. Sentir-se incomodado parece ser um ingrediente especial na concepção criativa desse autor que, além de dedicar-se à literatura, é também roteirista de audiovisual.
A trajetória de Dênisson com as palavras está materializada em livros como “Aboios celestes” (contos – 1999), “Carmina e os vaqueiros do pequi” (romance – 2003), “Menelau e os homens” (contos e novelas – 2012) e, mais recentemente, “O Herói está de folga” (contos – 2014). A consistência presente ao longo de sua obra é o grande motor que move a entrevista que realizamos com o autor. Seja na capacidade de construir imagens ou na dimensão que edifica o texto, Dênisson demonstra sua propriedade narrativa porque fez da leitura a gênese de seu ofício. Entrevistá-lo é desconfiar que, por trás das letras, habita um território de coisas insondáveis.
Dênisson Padilha / Foto: Renata Rocha
DA – “O Herói está de folga” é título emblemático, que nos sugere percursos já em sua aparência nominal. As histórias nele contidas desnudam certa condição humana. Vivemos num tempo de desesperança?
DÊNISSON PADILHA FILHO – São nove contos que sugerem que os homens são virtude e vício. Naturalmente, são representações, alegorias, fantasias criadas sobre o arcabouço de desvio e de retidão que nos estrutura. Ter esperança não muda as coisas, a não ser pra quem a sente.
DA – Nesse caminho que perpassa altos e baixos da natureza humana, seu sentimento de autor prefere o estranhamento ou o espanto?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Estranhamento é condição fundamental para nascer a arte, não é? E causar estranhamento também. A literatura convoca o leitor não quando traz respostas, mas quando o inquieta com aquelas perguntas adormecidas que nos estruturam e desafiam nosso dia a dia. A literatura é vingativa na medida em que mostra que nós não temos respostas nem saída, mas por ela dizemos, “aqui estamos, Papai do Céu, estamos no mato sem cachorro, mas não pense que não sabemos”. Já espantar-se com as oscilações da natureza humana beiraria o patético. Essa perplexidade soa meio fresquinha; não combina com a literatura.
DA – Diria que a lucidez foi uma companheira inseparável na concepção do seu mais novo livro?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Acho que a idade trouxe um pouco mais de tentativa de lucidez e amadurecimento, ainda bem. É como se a pulsão que nos move a escrever ganhasse algo mais de serenidade e consciência de que o texto custa a estar pronto. Considero que meu caminho literário deu uma guinada a partir dos 37 anos (estou com 44). Foram novos conceitos, menos preconceitos estéticos. A visão de mundo e a lucidez se refletem, naturalmente, mas o que vou procurar fazer é sua recriação. A matéria prima é a verdade, a concretude, sem dúvida; mas a literatura se ocupa de alegorizar a vida e seus achaques.
DA – O ato de escrever encerra alguma espécie de libertação?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Libertação nenhuma. Muito pelo contrário. Embora a literatura seja a arte de fantasiar e reinventar – não só a língua, mas o mundo –, recorremos sempre à memória, porque, para nosso desconforto, é só o que temos. Da memória, derivam a dor, a culpa e a saudade. Há um mito muito citado que diz que quando realizamos uma história, processamos as coisas e nos livramos delas. Uma coisa nada tem a ver com a outra, a meu ver. O escritor se distancia um pouco do mundo para criar, é verdade; isso traz uma analgesia, claro, mas nada de libertação. Se liberta, não é literatura.
DA – A pungência de uma cronologia interna toma conta de seres e lugares em “O Herói está de folga”. Assim, a sucessão dos instantes não é materialmente mensurável. Quem é este ser a quem chamamos tempo?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Eu não tenho certeza, mas desconfio que dentro de uma lógica divina, passado, presente e futuro são a mesma coisa. Nada vem, nada vai, nada existe, tudo é. Essa minha perspectiva naturalmente vai se refletir aqui e ali na minha criação; foi assim nos contos de “O herói está de folga”. Tudo está ali, os contos são quadros, e como toda alegoria da vida, os quadros não passam; a gente passa por eles. Isso confirma minha impressão de que as coisas não vêm, nem vão, simplesmente são; a gente é que passa por elas.
DA – “Menelau e os homens” é um livro especial pelo modo como os trajetos narrativos ali se constroem, sobretudo pela disposição das imagens, o que acaba por envolver o leitor. Qual o sentido maior dessa obra para você?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Concordo com você, “Menelau e os Homens” é um livro especial. Traz duas histórias marcadas pelo signo da memória. Em consequência disso, seus personagens são homens fugindo de homens e fugindo de si. A primeira fase da obra do escritor estadunidense Elmore Leonard teve muita influência sobre a concepção das histórias. A segunda história que integra o livro – a novela Calumbi – está marcada também por um signo de opressão e terror psicológico, um pouco de Edgar Allan Poe; mas em todo o livro há situações de perseguição e suspense entre caçador e caçado; são tributos meus ao autor de Hombre e O último posto do Rio Sabre e de tantos outros. Creio que tenham sido de fundamental importância as sugestões de imagens e paisagens no livro para que o leitor sentisse todos os momentos de impotência, opressão, perseguição que as histórias propõem. Bem, sobre qual sentido maior dessa obra, devo dizer que não há o grande sentido. Eu costumo dizer que a literatura em prosa não deve ser regida apenas pelo plano do conteúdo, ou melhor, pela dimensão narrativa; mas também pela dimensão estética. Acho que o sentido, desse e dos meus outros livros é tentar alcançar esse equilíbrio. Em outras palavras, inquietar pela narrativa e reinventar a palavra. Não é fácil, mas é um desafio que resolvi encarar.
Dênisson Padilha / Foto: Renata Rocha
DA – É razoável pensar que, por mais que tente, um autor não pode fugir de si mesmo?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Se pensarmos do ponto de vista da existência, teremos que parafrasear Antônio Cândido e dizer que a matéria prima do escritor é a memória. Por outro lado, se pensarmos na arte literária e em procedimentos estéticos, devemos pensar que o escritor dotado de um mínimo de consciência do seu fazer só se satisfaz quando viola seu modelo anterior. Porque arte é ruptura e, embora faça parte do grande campo da cultura, especificamente, ela, quando repetida, contraria suas próprias motivações. Nesse sentido, não conseguir fugir da memória, fugir de si, e encontrar saídas estéticas é um paradoxo que alimenta esse fazer artístico.
DA – Sob o ponto de vista autoral, há quem considere o conto uma espécie de escalada para o romance. O que pensa a respeito?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Vou confessar minha preguiça para responder essa (risos). Sinceramente, não há consideração mais sem sentido do que essa que dizem por aí. Posso ficar aqui citando à exaustão nomes de escritores, grandes mestres, que se eternizaram como contistas. E por que será que ficaram nessa tal “escalada” por toda a vida? Não! É um erro crasso, uma ingenuidade, até bonitinha, achar que o conto é rito de passagem para um romance. São pretensões diferentes; no romance há lugar para digressões que não vão caber no conto. Enquanto que, grosso modo, no conto, a concisão vai fazer pulsar a dimensão estética do texto muito mais do que num texto longo. Além de outros aspectos que não caberiam aqui. Apesar de discordar radicalmente e achar isso um equívoco, reconheço que é um erro muito difundido. Veja por exemplo, na América Latina, a grandeza de Carlos Fuentes – que além de romances e novelas, também exercitou o conto largamente – e Juan Rulfo. Embora notabilizados mundialmente, não alcançaram a popularidade de Gabriel García Márquez, eterno pelos seus romances. Parece que até o mainstream mercadológico insinua, “sem querer querendo”, que o texto longo é o ápice.
DA – O que mais chama sua atenção na literatura feita no Brasil hoje?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Não estou tão certo quanto à resposta, mas acho que é a diversidade do que se produz. Há muita gente talentosa, de carreira sólida, e também surgindo. Vou esquecer o nome de muita gente que faz boa literatura, para além de José Inácio Vieira de Melo, Menalton Braff, Antônio Carlos Viana, Mayrant Gallo, Gustavo Rios, Lupeu Lacerda e Sérgio Faraco. Aqui tem de tudo, meu amigo. Por outro lado, isso não é tão positivo quanto parece, é uma constatação um pouco desanimadora, porque há muita coisa sendo chamada de literatura. Há um batalhão de gente fazendo ‘coisinhas bonitinhas’, interpretação enviesada da magnitude estética Manoel de Barros, arremedos de minimalismo; é gente que acha que basta que o besourinho seja citado para que se faça minimalismo. Vivemos a maior concentração de Bukowskis por metro quadrado de todos os tempos. O santo nome da corrente brutalista está sendo evocado de forma leviana por gente que coloca um punhado de tiros no enredo, dois palavrões e uma cara de mau na orelha do livro e pronto. Além disso, há a produção de muita coisa ruim mesmo. Muito texto ruim, muita gente sem leitura, sem estofo literário se arvorando a lançar livro. Não, não posso conceber que, por exemplo, um organismo seja rico em ferro, se não consome alimento rico em ferro. Sem consumir literatura sistematicamente, portanto, como um sujeito pode criar arcabouço? É muita ilusão de potência, mas isso é imanente ao homem, não tem jeito. Eu não consigo conceber a carreira de um escritor de verdadeira literatura (e não me pede pra explicar, por favor) sem uma rotina de investigação literária e leitura contumaz.
DA – O ato laborioso de escrever pode ser tido como um processo permanente de desconstrução?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Ainda hoje cedo pensava em algo parecido. Toda desconstrução pressupõe um mínimo conhecimento, por dentro, de como foi feita a coisa a ser desconstruída, não é? Senão é só uma implosão energúmena.
DA – O quanto Dênisson Padilha Filho conhece Dênisson Padilha Filho?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Quase nada. Cada dia que nasce é uma nova muralha de Jericó.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Desconfio que, em qualquer tempo, viver é tatear numa sala escura. Nesse nosso tempo, não acho que as incógnitas são mais numerosas que em outrora; acho que sempre foi assim.
DA – Somos algo além de uma matéria arremessada para o fim?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Por enquanto, somos só esses bonequinhos de carbono mesmo. Depois é outra história, a orfandade acaba, a queda acaba. Mas isso é depois, bem depois.
– A cana tem 18 por cento de açúcar. Já isso aqui tem 99 – o homem referia-se provavelmente ao branco açúcar sobre a pequena mesa da confeitaria.
Ao chegar, eu os tinha notado, ele bem mais velho que a mocinha. Naquele momento, o tema da conversa era a longevidade.
Um homem maduro ao lado de uma quase adolescente – ela devia ter 20 e poucos – nos dá a impressão, decerto convencional, como que automática, do Lobo prestes a devorar Chapeuzinho, coitada.
Ele sabia coisas, verdades várias, e as depositava na mesinha, perdulário. A garota o seguia e, de vez em quando, falava. Uma dessas conversas que ouvimos sem querer e das quais só escutamos bem uma das vozes; a outra, casual e tímida.
O empenho virtuoso em assegurar afeto. Assim, até eu – a ponta perfurocortante da inveja. Vaticinava:
– Ainda estarei firme daqui a 150 anos! Espero que você esteja por perto – a voz sorria, insinuando a promessa.
Levantaram-se. Ele, a bolsa a tiracolo à maneira de outras décadas; o cabelo muito preto parecia pintado. Ela, pequenina, o vestido cândido a denotar simplicidade. Desapareceram de mãos dadas.
2. Papéis trocados
Adelaide devia ter 17 anos, estávamos na década de 70, 1979, talvez. Não sei ao certo. Lembro seu rosto suave.
O corpo acima do peso a incomodava, sim, mas o que de fato a fazia infeliz eram os pais fora do esquadro. O esquadro careta, sejamos claros.
A tendência para a obesidade vinha deles, ambos gordos; não desarmoniosos, porém. Aquele era seu estado natural, baixos e volumosos. Nada demais, pois.
O que chamava a atenção residia no comportamento. O pai tinha um ar lânguido, adocicado; a mãe, ostensivamente masculina, os gestos em ângulo reto. As vozes que usavam – a dele, aguda e ciciante, a da mulher, cava e rouca – também obedeciam ao lugar-comum dos papéis trocados.
A menina sofria com a evidente estranheza diante de seus pais, que muitos sentiam e que seus amigos adolescentes não disfarçavam. Não se fizesse uma piada, ficaria magoada, talvez chorasse mais tarde. Não se ousasse um comentário, neutro que fosse, já se conseguiria perturbá-la. Amava os pais; doíam as exclamações, o sarcasmo.
Eram diplomatas, cultos, de hábitos sofisticados. Praticavam equitação, coisa de grã-finos. Imaturo, uma vez os vi e achei engraçadas as roupas de montaria, as calças largas que se afunilavam, as botas de cano longo, o chicote petulante numa das mãos… As fatiotas tornavam-se mais curiosas ao ser usadas por aquelas pessoas, que pareciam não ter braços para a tarefa que as roupas sugeriam.
Manifestei o espanto divertido. Foi o quanto bastou para atingir a minha amiga, de quem gostava. Recordo a expressão machucada no rosto de Adelaide quando cometi a brincadeira ambígua, a palavra pouco generosa.
A menina pensava que, ao menos comigo, estivesse a salvo de tais grosserias. Creio que me achasse alheio, superior a elas. Não reagiu ao perceber que o jovem de conversas etéreas era capaz de perfídias. Mas a amizade acabara.
3. O beijo empírico
Sabemos que as brigas entre namorados podem ter motivos ocultos, diferentes daqueles que os próprios envolvidos alegam; razões alheias às disputas explícitas.
Já os arranca-rabos entre ele e ela, os dois iniciados em questões literárias e filosóficas, não faziam dessas questões meras desculpas, substitutos das verdadeiras desavenças. Não. O casal era capaz de arengar em torno de temas puramente abstratos:
– Pensei que você realmente acreditasse na possibilidade de totalização do real – disse ela com um travo de desencanto. – E não partilhasse o ceticismo que abre caminho a todas as desistências… Vejo que me enganei. Como fui tola – reclamou, enfática.
Era devota dos teóricos marxistas, entre eles Lukács, o da totalização.
– Pode-se até acreditar nas possibilidades racionais de apreender o real – respondeu, persuasivo. – Mas quem sabe o empirocriticismo estivesse correto ao combater as teses materialistas…
– Lenin é que estava certo; aliás, ele venceu a polêmica – rebateu ela, que não sabia direito o que era empirocriticismo, mas tinha ouvido falar.
– As bases de nosso conhecimento são sensíveis, sensoriais – afirmou, sutilmente explicando o que fosse aquele monstrengo conceitual, com o cuidado de não melindrar a namorada. – O que podemos afiançar sobre as coisas em si mesmas, amor? Nada! Somos reféns de nossos cinco sentidos. Dos sete buracos de nossa cabeça, entende?
Ela abriu o Dicionário de filosofia, volume de 1200 páginas que lhe pesava na bolsa, ao qual recorria nos momentos agônicos. Localizou ali o verbete “Materialismo dialético” e leu desafiadora: “Há coisas que existem independentemente de nossa consciência, independentemente de nossas sensações”, recitou nervosa, mas ainda afável.
– Como refutar a evidência? – ela fez a pergunta retórica. Ao ver que o namorado silenciava, insistiu: “Não existe e não pode existir diferença alguma de princípio entre o fenômeno e a coisa em si. A única diferença efetiva é a que existe entre o que é conhecido e o que ainda não o é”.
– Lembro perfeitamente dessa passagem – ele informou com uma superioridade quase imperceptível. Lenin dizia que “o conhecimento nasce da ignorância” e…
Não terminou a frase. A namorada calou sua boca, fechando-a com um beijo demorado e ávido. Adorava aquele homem porque sentia que ele estava à sua altura.
– Não podemos esquecer, porém, que entre Lenin e Lukács houve problemas sérios. Quando o filósofo lançou História e consciência de classe em 1923… – pontificou, valendo-se de certo tom didático, paternal, que a irritava bem.
Ela esperou por um longuíssimo instante, prestes a perder a calma. Ele:
– Ora, imaginar que os acontecimentos históricos estejam prefigurados na matéria, isto é, nas relações de produção, como pretende o Lenin…
A luta recomeçou. Logo berravam, batiam com os pés no chão, pueris e autoritários. Os dois se amavam.
Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva.