Após nove anos de trajetória, percebemos que os caminhos culturais são definitivamente recompensadores. E o mais relevante disso tudo está representado nos encontros que aqui ocorreram. Nem de longe foram poucos e estão dispersos por todas as frentes da revista. Aos poucos, poetas, fotógrafos, contistas, artistas plásticos, músicos e outras tantas vozes foram nos ajudando a compreender melhor o significado de tocar adiante um projeto editorial. Agregar pessoas em torno de um objetivo comum é algo bem mais valioso do que um mero inventário numérico de feitos expostos. Não está na quantidade de palavras e imagens o impacto maior, mas sim na intensidade com a qual nossos sentidos são surpreendidos pelos arremates dos criadores. Durante toda a nossa jornada, as janelas poéticas têm sido importantes veículos de divulgação de autores das mais diferentes estéticas e estilos. No que se refere à prosa, há também uma imensa gama de contistas que, com suas visões de mundo, constroem múltiplos modos de se erguer histórias. Um dos cadernos mais valiosos do nosso trabalho é o de entrevistas, pois ali se insere um amplo espectro de escutas, fomentado pelo diálogo com criadores dos mais variados campos artísticos. E todas as conversas servem notadamente para compreendermos os elementos motivadores do trabalho de cada autor. No quesito resenhas, a adesão de colaboradores se multiplica vigorosamente nos campos do cinema, música, teatro e literatura. Num propósito de harmonizar textos e imagens, o papel de artistas plásticos e fotógrafos é fundamental para a completude de um projeto que pretende ser também visual. E, para que os caminhos continuem, outros encontros são necessários. Por agora, as veredas da poesia trazem versos de Susanna Busato, Ricardo Paião, Carla Diacov, Matheus José Mineiro, Camila Charry Noriega e Michelle Mendonça. Numa entrevista conduzida por Sérgio Tavares, a escritora Nara Vidal faz importantes considerações a cerca do ofício literário. O escritor Anderson Fonseca destaca importantes obras de Franz Kafka, Pascal Bruckner e Augusto Monterroso. Quando o assunto é construir narrativas, presenciamos as instigantes linhas de Rodrigo Melo, Priscila Lira e João Bosco. Dando seguimento às suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes convida-nos a assistir o filme húngaro Deus Branco. No terreno da música, acolhemos o esmerado texto de Graccho Braz Peixoto sobre o mais novo disco do cantor e compositor Mário Montaut. Dialogando com as expressões de agora, a fotógrafa Ana Pérola Pacheco expõe imagens marcantes de seu trabalho com a luz. Assim, uma outra edição surge, plena em descobertas e gratidão. Eis a 102ª Leva!
a vida manuseia a gente com foice e facão, fervoroso boia fria.
Sabe que o coração
é material corrosivo o qual exige-se luvas para tocá-lo.
Desembestada, a vaca erupção. …………………………esmaga verduras e hortaliças, …………………caniveta a carótida, lesiona a panturrilha , ………………………..gás propano no olho da faísca.
Contudo ……………………………..cotidianamente …………uma força resistente, com ímpeto de búfalos e bisões,
prossegue subindo a minha cabeça ………………………esta ladeira com o calçamento de terra e bloquetes de pedras.
O medo a insegurança são substâncias tóxicas no fígado da gente.
Entre o suflê e a fuzilaria entre o mudra e a lâmina da serraria …………………………………..aturamo-nos.
amor, rapé alucinógeno no meio do coma e dos transtornos do alumínio. ………………….o poema é aquele que oxigena o sangue ………………………..quando encontra-se esmagado ……………entre os ferrões de aço inoxidável da formiga saúva …………………….que mede o tamanho de uma cidade. ……………….o poema é o analgésico o poema é o sedante. …………………..vida, diária colheita de jiquiris e urtigas.
carreta que transporta querosene tombando numa rodovia . …………………………..Com esta sensação prossigo
sensação de barranco e chuva
diante do galpão da indústria de material bélico; …………………esfregar de folhas de cansanção nas mãos ; ………..fogos de artificio chuva de raios piruetando na sobrancelha ; ………………………..uma outra espécie de horizonte ………………………mais cor mostarda no nascer do sol …………………………mais cor beterraba no por do sol …………………mais cor de jabuticaba estelar na madrugada …………………….chovendo debaixo dos seus supercílios.
***
FULIGEM ESMURRA AS SAMAMBAIAS
..o operador da retroescavadeira, a caixa de e-mails ..o fuzuê de bytes o pau a pique eletroeletrônico
sondas radiofônicas, quilohertz & farmacologia no furdunço cotidiano
maquinário industrial na beira das nascentes do meu rio;
atrito, abrupto abutre …………………….no silêncio vermelho do pós parto de uma rinoceronte branca.
Como o sossego do minério encrustado no intestino do rochedo .o estresse almeja …….milhões de volts, noventa mil cavalos, trinta mil gigabytes …que há no tráfego calmo sanfonado cor de cores fantásticas da lagarta .
Arco íris apresentando-se na Terra com o seu formato que rasteja. ..enquanto a vida trata a alma e o coração da gente ……………………usando movimentos de um açougueiro . …………………………Disso o estar-se sempre ensopado ……………………….com a alucinação de um carvoeiro ………………….encantado ao ver o canário chover amarelo ………………………e o azul babar verdes maritacas no céu. ..locomotiva movida a vapor e euforia fumegando dentro da espinha.
solda durex durepox
naquelas coisas que já não aproximam-se mais por meio de um abraço. ………………implante de tártaros e arames farpados na boca ………………..e luxações em algum tendão da silaba mão . ……………..retorno a missa de beatificação da palavra Ânimo ……………….este analgésico, este sedativo, este entorpecente ……………….em meio a massoterapia e o alicate de pressão. …..Pretendo ser medido por um sextante e ser visto por telescópios
e mesmo com esta tarântula de bário …………………………………..metal alcalino ………………………cuja picada causa febre e delírio …………………..é corte no supercílio do meu horizonte.
sobrevivo,
momento de estalo que a nuvem descarrega uma chuva de raio ………………ou mão que desfolha um galho de manjericão.
***
PARTÍCULAS DA GALÁXIA PUPILA
relâmpagos, raios e trovoadas se hospedando no céu da minha boca.
*
aqui por dentro de mim
está tão luminoso
que até mariposas me sobrevoam.
*
dentro do pão sovado não se passa mais manteiga de Minas,
depositam fios de gilete e navalhas.
*
estou no quadril de uma zebra, e sinto
pressionado pelo maxilar de uma onça parda inoxidável.
*
um rinoceronte branco entra pela axila
para ir rugir no castanho das pupilas
*
ouço um rottweiler apelidado de cidade
com seu metálico ranger de ferro
milimetricamente mira um bote na minha coxa.
*
às vezes
o verde musgo do meu peito
fica comprimido dentro da mandíbula de um jacaré do papo amarelo.
*
que as verduras e as estrelas nos usem como vastidão.
*
já que o silêncio, enfermo e abandonado no branco sujo
cirúrgico do mundo
deita agonizando sobre a maca hospitalar.
*
procuro uma bicicleta Poti
para pedalar dentro da palavra afeto.
***
TODO DIAMANTE BROTA NO ESCURO E PERPASSA O ESMERIL
todas estas inquietações e apreensões, ……….cromado tatu canastra que escava a região do pescoço ………………………..Máquina triturando nossa calma.
dentes de titânio de um labrador
e a mandíbula de brita da moreia
disputam a primeira mordida na textura deste coração crocante.
ser cãibras ..na mecatrônica pata deste javali que pisoteia nossos alfaces e nossas rúculas. …………………….embutir o sono de um carrinho de bebê ………………….e a procissão de um jabuti nas vias públicas ……………………..onde o sossego é desossado por hienas ………………………..e olhos são arrancados por abutres . …..Toda vez que sangro ou me queimo junto com o diesel de um caminhão …………………………o Poema aproxima-se de mim ………………………………….me coloca na garupa da sua bicicleta …………….e pedala pelas estradas de terra da palavra Ânimo;
velotrol colidindo com um tanque de guerra israelita; …………………………………….desengordurante;
enxada roçando este terreno íngreme que é a vida;
água mineral lençol freático escorrendo do tórax diante da aridez dos dias;
proteína esmurrando a enfermidade; …………..embrião fervido nas caldeiras da Usina da Jatiboca.
Até aquele momento de não sentir mais a sua altura, …………………comprimento e nem espessura no Planeta, ………………ver o corpo como propulsão de um jato de luz ………………………………………………………………………….de calor de cor parda. …………………………Em meio a anemias e toxinas ………….abocanho a vida com ímpeto de maxilar de hipopótamo. ……………….Nuvem que pela primeira vez relampeja. ….dentes empolgados de cabra diante dos grãos desta ração que é viver.
Matheus José Mineiro é autor do livro A Cachoeira do Poema Na Fazenda Do Seu Astra (2013, Selo Petrópolis Inc.). Produz os fanzines Estrondo Na Bolsa Fetal, Galáxia Pupila, Apologia Poética, Mais Um Cadim de Poesia Aí, Costelinha Com Quiabo e Poesia.
Tu não sabe o que é conviver com o Diabo a vida inteira, conviver com o Diabo a vida inteira é duvidar de Deus a cada segundo. O Diabo, quando te odeia, te prende e algema tudo ao teu redor: tua mãe, que ama o Diabo, e teus irmãos. É assim que ele consegue te fazer ficar. Lama, lama e lama tinha gosto a minha vida. Nasci na lama, feito um porco. Burra que era a minha mãe (de ter uma ninhada, de ter olhos de bicho que não enxerga xyz, que não sabe o que é o Diabo, que não sabe nem o que é a loucura de viver na lama com uma ninhada e o Diabo), burra que era eu, menos que a minha mãe, burros e esfomeados que eram meus irmãos, burro que era o Diabo, burro e cruel, burro e tarado, burro e nojento. Porca que eu sou, porque convivi na lama com o Diabo a vida inteira.
Quando era criança e, na catequese, me ensinaram o que era o Diabo, logo vi que ele estava na minha casa, escondendo comida, me comendo, quebrando garrafa, quebrando a burra da minha mãe, esbugalhando de medo os olhos esfomeados dos meus irmãos. Quando o Diabo vive contigo, ele nunca mais sai de ti.
Eu corria para a esquina e tentava fugir do Diabo. Subia na mangueira e gritava o nome do meu pai, mas só ouvia o barulho do sol quebrando as folhas. Porque meu pai morava com Deus, ele nunca me responderia, a gente trocou ele pelo Diabo. Eu gritava o nome do meu pai, gritava que ele tinha me abandonado e me deixado na lama, no inferno, ele não respondia, estava feliz, no céu, com Deus, sem fome, dormindo nas nuvens e decepcionado com a gente, que dormia com o Diabo.
Meu pai não respondia, mas meu estômago Gritava, meus irmãos choravam na minha lembrança e eu, pequena e burra, presa na lama, lesma inútil, voltava para o inferno. Se tu pensa que o Diabo sempre maltrata, tu é mais burro que eu. O Diabo engana, te abraça, te dá pão e café com leite, corre contigo no quintal, depois te come, te bate, te joga no chão e quebra garrafa. O Diabo toma banho, passa perfume, vai na igreja, reza o pai nosso, aperta a mão dos irmãos, conta histórias inventadas da vida, diz que ama, diz que cuida, depois te fode, te todos os lados, de todos os jeitos, de todas as formas. Fode, fode, fode. É nojento o Diabo, feito de barro por dentro e por fora, com cheiro de fossa e pele de pedra. Eu via o desgraçado passar perfume, mas aquilo, no meu nariz, era essência de esgoto, cheiro de raiva guardada, que rasgava meu olfato feito gilete, chegava na goela e dava ânsia. Barro e enxofre formavam aquele monstro com a Bíblia debaixo do braço apertando a mão da vizinha burra, que me olhava de cara feia e dizia pros filhos não andarem comigo, que eu era indecente.
Indecente eu era na minha rua, na minha escola, a indecente, burra, estranha, muda, feia, suja preta fedida, mas não era surda. O Diabo me chafurdou na lama, eu era toda lama, assim ele fez da minha vida um inferno, até longe do inferno, porque suja de lama que não tinha água que limpasse, o Diabo fez de mim o Diabo. Ninguém tinha medo de mim Diabo, tinha ódio, nojo, eu não era bem-vinda no céu da vida dos outros, nem por meu pai, Deus o tenha.
Por isso fugia e me escondia, até a fome bater, no escuro empoeirado da sala de livros da escola, porque lá ninguém sentia meu cheiro, nem via minha cara diaba, lá eu não ouvia me gritarem de muda. Foi lá que tive a ideia de matar o Diabo. Mal eu sabia que uma vez na tua vida, nunca mais ele sai.
Mas o Diabo tinha a herança do céu, do tempo que Deus o criou do barro. O Diabo gostava de doce, de suspiro. Todo dia comprava suspiro na padaria. E ficava feliz, sorridente, comendo suspiro. Dava café com leite e pão pra mim e meus irmãos, corria com a gente no quintal, mas aquilo era a porta do inferno, a gente sabia e aproveitava, não havia como correr da porta do inferno, só nos restava aproveitar o prelúdio da desgraça. A gente não tinha raiva do anúncio que o suspiro trazia da padaria nas mãos do Diabo, porque sabíamos que o suspiro era o que restava do paraíso naquele enxofre de homem.
Uma vez o Diabo me obrigou a fazer uma receita de suspiros, porque a padaria não abriu. Eu coloquei purgante no suspiro para me vingar, e depois o Diabo se vingou de mim, em mim, na minha mãe e nos meus irmãos. Nesse dia eu corri do inferno e no dia seguinte, na sala de livros, decidi matar o Diabo. Não seria uma morte cruel, como as que eu fantasiava para ele todos os dias, porque eu não queria ver ele morrer, eu queria o Diabo morto!
Eu, a indecente, suja, nojenta, rasgada, roxa, muda, lesma inútil, não queria voltar para casa depois do terror da noite inferno passada. Não queria ver a cara de paraíso dos outros. Queria morrer, mas se morresse, iria para o inferno eterno e nunca mais veria meu pai. Por isso resolvi matar o Diabo, assim teria tempo de pagar meus pecados e finalmente dormir nas nuvens.
Escureceu, ninguém deu por minha falta, voltei para casa e o Diabo dormia virado de costas para a burra da minha mãe. Matando o Diabo, eu fugia, e ela podia ser burra e feliz com a ninhada de infelizes longe daquele inferno, enquanto eu pagaria os pecados e depois encontraria meu pai. Uma faca de cozinha no peito, ele arregalou os olhos e me agarrou o braço. Foi virando água e me largando len… ta… men …t… … … e. Roubei o saco de pão na cozinha (mais um pecado para pagar nessa vida desgraçada), corri e subi na mangueira da esquina, a esperar que o inferno final se armasse lá em casa com gritos e polícia. Silêncio.
O que eu não sabia é que a vida é um formigueiro de infernos e que o Diabo me perseguiria, agarrado no meu braço com os olhos assustados, para sempre. Fugi, mas a fome, a rua, a chuva, o sol, o frio, me transformaram no Diabo e eu não conseguia terminar de pagar meus pecados. Jamais chegaria no céu, meu pai se esqueceria de mim ou rezaria para que a Diaba que ele um dia chamou de filha, nunca mais aparecesse na sua frente. O mundo me fodia, fodia, fodia, de todos os jeitos, todos os lados, todas as formas, cuspia em mim, na porca, nojenta, fedida, burra, Diaba. Numa noite, sem dormir, com medo do Monstro que matei, percebi que inferno maior que esse não havia, que o inferno estava na minha cabeça e de lá não sairia sozinho.
Por isso deixei que um homem sorridente me fodesse pela última vez, por um saco de suspiros. O que eu farei depois? O que devia ter feito desde o ínicio, mas burra que sou, não percebia: Abrir a minha cabeça com a faca ainda suja de sangue do Diabo, tirar aquele ninho de enxofre lá de dentro e encher o vazio com suspiros. Os suspiros, resto de céu que sempre esteve na minha vida, me levarão até meu pai, com quem dormirei nas nuvens, a esperar o dia em que minha burra mãe e a ninhada façam o mesmo.
O formigueiro continuará aqui embaixo, misturado aos sangues da faca.
***
Petit Mort
As flores amarelas de medo daquele velhinho pornográfico estão por toda parte. Hoje, domingo ensolarado, uma delas acordou tremelicando sobre o meu peito. Desonrarei os compromissos, quebrarei amizades novas, pouparei o exercício de simpatia alheio, não sairei de casa. Além do mais, posso aproveitar o calor e lavar minhas calcinhas.
“É crua a vida. Alça de tripa e metal. / Nela despenco: pedra mórula ferida. / É crua e dura a vida. Como um naco de víbora“. Será que a Hilda lavava suas calcinhas? Será que as estendia no varal da Casa do Sol? Ou, como eu, não gostava de expor assim o seu sexo e as secava atrás da geladeira?
Por todo lugar brotam as flores amarelas, hoje o mundo tremelica de medo, os ditadores, o povo, os democráticos, os ex-militantes, as mães de estudantes, o moço revistado com maconha no bolso, as mulheres com o rosto escaldado condenadas à feiura eterna, eu. Morreremos todos, medrosos. Mas preciso lavar as calcinhas.
Sonhei que havia um espelho na cozinha, eu parava em frente a ele e me observava, tirava a camisa e o reflexo me dava um tesão imenso. Deslizava a mão sobre os seios e descia até a barriga, os olhos fixos no meu outro. Acordei. Uma pena, a excitação do sonho perdeu-se junto com ele.
Fumarei um cigarro, colocarei uma música e vamos às calcinhas. Também não gosto de lavá-las na área de serviço do prédio, uso a pia da cozinha mesmo, podia ser a do banheiro, mas a janela que fica contra a torneira é muito agradável. Gosto de pensar que as tantas janelas vizinhas estão logo ali, de frente para esse quadrado, a me olhar, de costas, esfregando minhas calcinhas. E saber que, apesar disso, ninguém está vendo.
Eu cheiro cada fundo antes de lavar, para ter certeza que meus fluidos continuam transparentes e inodoros, ou com o odor de sempre. Imagine um voyeur assistindo isso tudo e ficando louco. Essa branca de bolinhas pretas eu usei no dia em que esqueci de descer no ponto de ônibus do trabalho, a rosa, não lembro, a cuequinha preta foi naquele dia que encontrei o pessoal, ela fica bem com a minha saia longa, aperta a barriga e meu corpo parece mais bonito.
“Tinta, lavo-te os antebraços. Vida. Lavo-me”
Essa é a melhor parte, o momento em que eu coloco as mãos dentro do vestido, seguro em cada ponta do meu quadril e deslizo a calcinha que uso. Sinto-a passando pelas coxas, até ficar cambaleante e eu apará-la no pé. Ah, um voyeur assistindo isso tudo. Assistem, todas essas janelas me veem tirando a calcinha e ficam boquiabertas, fazendo promessas para que eu também lave o vestido.
“No estreito-pouco / Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida”
Calcinhas escondidas, uma por uma, no varal elétrico. Meio domingo para ainda existir. Podia continuar a brincadeira do sonho, não mais com o espelho, com a janela do quarto. Todos esses quadrados, preparem-se, o vestido cairá! A cama de frente para o sol, as pernas abertas para todas essas pessoas, o meu corpo despido para mim. Todos esses sinais, esse par de seios que contrasta tanto com os meus braços bronzeados, o pequeno relevo que se forma nas costelas, o umbigo, o quadril estreito, as coxas com uma leve penugem que reflete a luz, as canelas ásperas, quando tomar banho vou depilar, tudo isso é meu. No sonho, eu tinha razão. Vocês, medrosos, olhem para mim, esqueçam o câncer de próstata e as doenças venéreas, esqueçam as crianças mortas da Síria, esqueçam Fukushima, eu estou aqui, de pernas abertas, o vestido caiu, paguem suas promessas.
“A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos”. A Hilda ia gostar de me assistir.
Meu dedo andando em círculos percorrendo os pelos, desce, desce, molha-se. Desculpem-me, não há narrativa aqui, apenas hidromúrias rebeldes, solitárias, quebrando o protocolo. O meu corpo convulsiona na cama, os dedos encharcam, “a vida é líquida“. Fecharei as cortinas, uma salva de palmas antes e voltem aos seus afazeres dominicais ensolarados. Preciso chorar o medo do mundo.
Priscila Lira (Pitinga/AM, 1991) é uma poeta e contista amazonense radicada em Curitiba, onde faz mestrado em literatura (UFPR). Tem um e-book publicado, Manual de Feitiçaria, disponível no Scrib e no Camaleo, e um livro de contos no prelo: O Barulho do Mormaço.
“Tudo que é terrível precisa do nosso amor”. (R. M. Rilke)
Esqueça Lassie, Beethoven, Marley ou Hachiko. A trama do vira-lata Hagen, de olhar inicialmente meigo e, mais tarde, aterrorizante, jamais entraria na cota “filme de cachorro” da Sessão da Tarde. Interpretado pelos versáteis labradores (ressaltando: apenas emitindo latidos) Luke e Body, que ganharam inclusive a Palm Dog – prêmio alternativo para eleger o maior destaque canino entre os filmes exibidos no Festival de Cannes – por sua atuação, Deus Branco, o surrealista longa do húngaro Kornél Mundruczó, dá uma nova dimensão à relação homem/cão. O título em inglês (White God) faz alusão ao ser humano e remete ao filme White Dog (1982), clássico de Samuel Fuller. A obra do Leste Europeu encrava uma crítica social universal, baseada nas atuais relações de poder e opressão e escancara o preconceito e a maldade.
Enquanto a mãe viaja a trabalho para a Austrália, a pré-adolescente Lili (Zsófia Psotta) e seu cão Hagen passam uma temporada na companhia do pai ausente, o intolerante ex-professor Daniel (Sándor Zsótér) – que agora trabalha em um frigorífico. Para reprimir o cruzamento entre raças, o governo institui um tributo para os donos de cães que não sejam de “raça húngara pura”. Por conta disso – e pressionado por uma vizinha –, Daniel se recusa a efetuar o pagamento e abandona Hagen numa movimentada avenida de Budapeste. Durante a busca incessante da menina por seu companheiro e vice-versa, Hagen se depara com o lado mais perverso do ser humano e acaba por liderar uma revolta canina. Conseguirá Lili – e seu trompete, numa versão moderna do conto O Flautista de Hamelin, dos irmãos Grimm – deter a vingança da matilha?
Lili (Zsófia Psotta) e Hagen (Luke/Body) em cena de Deus Branco / Foto: divulgação
Rodado nas ruas da capital húngara, Deus Branco é repleto de cenas brutais – o treinamento em que o protagonista é submetido para tornar-se um cão de rinha é extremamente violento, assim como as investidas da carrocinha e o ataque dos cachorros aos seus algozes – e mostra a crua realidade que toda e qualquer “minoria” recebe de uma fatia tirana da sociedade. Com um ritmo dinâmico, Deus Branco é uma obra de fotografia e direção impecáveis. Aliás, a tomada da festa onde Lili bebe demais, numa fusão de música eletrônica/imagem, lembra Gaspar Noé em Enter the Void (2009) e a cena final é digna de moldura. O longa conquistou o prêmio Un Certain Regard no festival de Cannes de 2014 e surpreendeu sobretudo por suas sequências de ação envolvendo cerca de 300 cães (segundo o diretor, todos oriundos de uma sociedade protetora de animais e posteriormente adotados pela equipe), filmadas sem ajuda de computação gráfica.
Não recomendado para quem perdeu seu animal de estimação há poucos meses (meu caso), Deus Branco é um visionário e intenso retrato do lado obscuro dos seres: os cães são uma bela metáfora para representar todas as parcelas da sociedade que estão entregues à própria sorte e submetidas à lei do mais forte. Além de discutir a moralidade e a ética, o filme renova o estilo quase sempre infantil de se referir aos animais e confirma que o cinema precisa de mais audácia e menos efeitos especiais. Talvez este seja o esboço de uma pequena revolução. Dos bichos ou do cinema.
Larissa Mendes gosta de cães, mas prefere os gatos.
Vivemos tempos nublados, onde não se vê na paisagem um horizonte cordial ou mesmo uma pequena utopia que nos permita repousar do cansaço gerado por conflitos, pelo movimento incessante de eventos de toda natureza, de tanta informação que não temos como absorver, minimamente. Parece que, para além de ideologias e credos, o mundo tornou-se um grande holding de comunidades transnacionais de consumidores, caixa de Pandora de onde as coisas vão se desmanchando no ar, saturado de revoluções.
Mas, se depois do mote vem a glosa, houve algum período de concórdia? Certamente o Tempo diria que não, que tudo dá corpo à História e é fonte para criação; afinal, é da matéria existência que a arte se alimenta. Por isso, cabe aqui lembrar uma frase de Igor Stravinsky: “O fenômeno da música foi-nos dado com o único fim de instituir uma ordem nas coisas, incluindo – e principalmente – uma ordem entre o homem e o tempo”.
Tudo nos leva a crer que o genial compositor russo não se referia somente ao tempo musical, mas também ao pulso musical, que estabelece íntima relação com emissor e receptor. Da música erudita – constituída por harmonia, melodia e ritmo – desviaremos nosso curso para uma pauta mais prosaica, mas não menos ilustre, que inclui a letra, o versejar, quarto e fundamental elemento para falar das canções, essas cápsulas sonoras de breve duração, com poder de nos transportar para um outro tempo, além do tempo realidade. Queremos saudar De Viés, o quarto disco do “cantautor” paulistano Mário Montaut.
Poderíamos abordar o álbum sob vários aspectos, mas seria mais coerente começar pela canção que abre o disco, a que nos deu a deixa para o primeiro parágrafo: Bela Humana Raça. Regravação que deu título ao disco inaugural, lançado em 1999, a canção, que valoriza os substantivos como cores a compor um quadro onírico, simboliza aquele travesseiro surreal em que podemos nos aconchegar, onde os males do mundo são anistiados por uma graça superior e tudo está em ordem.
Entoada de forma circular, o autor puxa o fio de Adão, como a evocar algo primordial para sublimar os senões e nos dar alento: Nada há que nos faça / Represar o mel /Cresça humana raça / Puxe o carrossel. A seguir, tinge de forma delicada – um traço constante e relevante de sua artesania musical – um universo fadado a procriar e dar à luz os desígnios do “fogo imperial”:
Choraminga a goela da menina mantra menta humana usina explode em música cristal / Renova aquarela comichão da primavera gera graça e humor no clã do velho Adão/ Lá na esquina espoca Zoroastro rei menino novo astro meu canário redentor/ Hálito celeste sopra e bate na remela do olho azul que ali no berço despertou…
É quando uma canção, simples, se veste de algo sagrado que emana da força da poesia, substância fundamental para o trabalho de Mário Montaut. Pois, na verdade, se trata aqui do poeta inspirado seduzido pela música. Vale citar a última estrofe, onde assonâncias e aliterações dão um brilho especial às sílabas cantadas:
Carne céu costela vida estala e se constela no barraco da favela e arranha-céu / Flui qual garoa ao sol chuvisco na canoa que flutua no amazônico esplendor / No vale ou montanha na Bahia ou Alemanha criancinhas sentinelas matinais / Bandos de cegonhas mais e mais barrigas prenhas tochas lenhas artimanhas de uma flor.
Mário Montaut / Foto: divulgação
Diz Ortega Y Gasset em A desumanização da arte: “A relação de nossa mente com as coisas consiste em pensá-las, em formar ideias delas. A rigor, não possuímos do real senão as ideias que dele tenhamos conseguido formar para nós”. Eis aqui um dado essencial para a arte, pois, na verdade, nossas ideias em relação às canções andam um pouco viciadas. Não vivemos mais aquelas várias décadas em que a música popular exercia um protagonismo inquestionável como meio de fruição e veiculação de questões relevantes. E, quando entre a ideia e o resultado há espaço para a singularidade, o artefato é uma boa medida, quando resulta naquilo que achamos de valor.
Castelo, outra faixa do disco, possui melodia barroca e versos de uma imaginação fértil. Fruto de uma forte ligação com o Surrealismo de André Breton e sua trupe, Mário tem gosto pelo mistério, pela sinestesia, a mistura de percepções de natureza sensorial distintas. Em várias situações ao longo das 16 faixas, as melodias servem de apoio para seu espírito lúdico, quase infantil. Resulta que para algumas dessas peças poderíamos cunhar o termo OMNIs – objetos musicais não identificáveis. Elas pousam fora do desenho padrão das canções, pedem ao ouvinte outra audição, uma abertura para se curtir os neologismos de seu projeto de canções que agem no âmbito das sugestões, das fantasias. Vejamos um trecho de Jardins Floríbulos, construída com base em proparoxítonas:
Los Los Los Los / Jardins floríbulos /Dos negros ídolos / E verdes óvulos / Dois doidos índios apaixonados / Há séculos e séculos … Céu e oráculos / Sol e tentáculos… Distinta das outras faixas, De tua lembrança é uma daquelas que emanam da tradição, no caso a tradição das toadas do interior de São Paulo e Minas Gerais. É como se a canção existisse desde sempre, como se já conhecêssemos a melodia, tivéssemos sofrido junto com ela.
O disco tem a colaboração decisiva do músico Roberto Gava. Compositor e produtor, Gava, além de executar violões e guitarras fez trabalho esmerado nos arranjos, tarefa árdua, pois, quando se tem tudo à disposição nos estúdios por meio de programações é mais fácil se perder do que achar o recurso apropriado. De Gava, merecem também destaque os arranjos que fez para as duas vinhetas que mudam repentinamente a sonoridade do cd. Executadas por programações, frases de naipes de metais trazem ao disco uma atmosfera divertida.
Ana Lee, com afinação e voz límpida dá apoio aos vocais, presença que se incorpora à essência do cd. Ricardo Stuani cuida dos ritmos com bateria e percussão. Músico e pesquisador, Stuani foge à regra da percussão como mero apoio. As ilustrações, aquarelas que valorizam os cenários das canções são de Regina Izumi Hasegawa. Todas as faixas são de sua autoria, mas em duas delas Montaut tem como parceiros Vicente Thiné (Álven Jérra) e Ozias Stafuzza (Cadáver Delicado).
Como dito acima, vivemos tempos em que não temos tempo para sorver sem rapidez e fragmentação a miscelânea das linguagens massificadas, a atomização das identidades. Neste cenário, De Viés é um disco de autor nômade, no contexto da miríade de mídias que respiramos. A abundância de discos, de suportes, e o universo infindável de segmentos passageiros são algo, ainda, de difícil análise.
Caudatários daquela que talvez seja a mais rica produção da cultura brasileira – sua música popular (curiosamente apesar de não termos tradição de ensino musical), hoje somos trovadores eletrônicos de pequenas vilinhas digitais. Não estamos começando tudo de novo, mas tudo é ainda muito novo depois que se formou esse supercontinente, a Pangea on-line. Porém, se o espaço público tornou-se o território do consumo, das relações líquidas, uma coisa não se perde: a autonomia do espaço íntimo. E nessas novas aldeias e vilas digitais Mário Montaut segue com seu quarto disco, na terceira margem das canções.
Graccho Braz Peixoto é Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP (2004), compositor e jornalista. É autor da canção “Noturno” (Coração Alado), em parceria com o compositor e arranjador Caio Silvio Braz. Possui mais de 80 gravações de suas músicas, por diversos intérpretes, no Brasil, Europa e EUA.
Uma breve energia dessas células,
amor, mortas, geneticamente
sua própria eletricidade.
Enquanto
você dizia o gato lambe a pia,
debaixo o porteiro conspira.
Éramos linhas paralelas à espera do infinito.
***
decidia de vez aquele dia!
na sua melhor roupa
de loucura, enquanto
marcava os passos
de mágoas, e adeus.
do lado montanha,
do lado água,
tudo se movia, e ela parada.
***
além high tech, tele transporte, e ciborgues,
chipes, discos rígidos e vigiam;
escrita dura sobre a vida, surras de
realidade, doenças progressivas.
o material humano. subempregos, chefes
hostis, acabou tomando água do banheiro.
***
pulsação, sangue e respiração nunca saberei o
que se deu em minha garganta a maré se
fechou em um abismo de pedras da onde as
folhas caem das árvores e a areia dança para
o fim.
***
vazio entre os móveis
as ausências passeiam
é o que essas páginas
sabem há várias tardes.
***
Assim a superfície se via
Tomada de antíteses num
mergulho retilíneo.
***
Poema de pedra
Pedra restante de espera;
do tempo que se imagina
de alma habitada, viva!
Você é Pedra estendida
esfera larga em sorrisos
para o céu em seus aclives/declives.
O que há em mim de minério é você,
pois pedra há de estar no céu e no mar.
Michelle Mendonça (São Paulo, 1983) é licenciada em Letras e Estudos Literários. Técnica em Processos Fotográficos. Já participou das exposições Casa Mafalda, Parque Gabriel Chucre, Mostra Samsung SP 2013. Publicou dois títulos literários independentes: Intervenção Urbana e Fotografia de Paisagem e Arte Urbana. É colaboradora da Revista Escrita Pulsante.
Da empatia ao conto – uma leitura de três grandes obras
Por Anderson Fonseca
Foto: Ana Pérola
Existem escritores que são mais do que essenciais na construção do intelecto e da sensibilidade, são artistas plenos em sua vocação, cientes de sua natureza bizarra – inapropriada para o meio em que nasceram. Acidentes da natureza; o mais belo milagre. É preciso uma visão além da realidade, ser dominado por uma ótica que desvenda a verdade oculta sob o véu da aparência. Raros são os escritores que nos despertam este olhar, por isso são essenciais numa leitura. Logo após tê-los lido, nos vemos a nós mesmos diferentes e tudo o que nos cerca. Alguns nomes fazem parte do rol dos grandes contadores de histórias, os quais com sua incrível imaginação moldaram o imaginário de milhares espalhados pelo mundo. Entre tantos nomes, escolhi três, cujas obras impactam quem as lê. Livros divertidos, inteligentes, bem construídos e singulares na sua produção, pois refletem a alma de quem os criou. É claro que, para sentir como também entender a ideia que cerceia uma obra, é necessário estar dotado de uma natureza empática capaz de compreender com aproximação sutil o espírito do outro. É um ato de amor a leitura e exige renúncia.
Desses três escritores que nos ensinam a arte de contar histórias, um deles é o autor tcheco Franz Kafka. No tomo Parábolas e Fragmentos, Kafka reescreve parábolas judaico-cristãs e elabora contos que não chegam a serem concluídos, mas nem por isso, percebe-se na fragmentação da narrativa uma incompletude, ao contrário, o fragmento torna-se uma nova narrativa, cujo significado é aberto e circular, isto é, há uma infinidade de leituras e desleituras da mesma estória. Nesta pequena obra encontramos clássicos da literatura kafkiana como O silêncio das sereias e Diante da Lei, assim como Poseidon e Da Justiça, etc. São pedaços de textos, todavia, não transparecem essa fragmentação. O que se nota é o trabalho de construção narrativa de Franz Kafka, uma linguagem bem trabalhada, ocultando em cada elemento articulatório um novo significado a ser descoberto.
Franz Kafka / Foto : Reprodução
Outro autor que vale a leitura é o escritor francês Pascal Bruckner e seu livro Bichos-Papões Anônimos. O livro é uma reunião de duas fábulas sobre a natureza das emoções humanas. O primeiro conto Bichões-Papões Anônimos narra a história do bicho-papão Balthus Zaminski que após 25 anos de atividades em comer criancinhas, promete a seu criado Carciofi “que nunca mais comeria crianças”. Apesar de resistir, seu instinto lhe fala mais alto. Ele que vem de uma família de bichos-papões, é tratado, após a morte de seu pai, pelo criado como um viciado, um doente, que precisa de tratamento clínico para abandonar o vício natural de comer crianças. Com muita insistência e esforço de Carciofi, Balthus abandona sua condição, não antes sem sacrificar-se em nome daquelas criaturas pelas quais, desde jovem, tinha uma nobre feição. O ato é cometido como um grande espetáculo no circo. Balthus morre lançando-se num grande caldeirão e seu corpo é devorado depois pelas crianças que assistiram ao espetáculo e que desconheciam o círculo natural da vida, aquele que come um bicho-papão torna-se também um. O segundo conto, O apagador, narra a história de Falcone, um velho triste e ranzinza, que cria uma fórmula química capaz de apagar os seres e os objetos. Mas sua intenção é apagar o rosto das crianças felizes que ele diariamente avistava. Falcone consegue afastar de si aquela felicidade, mas não completamente, havia uma criança cujo sorriso o afetava profundamente e por mais que lutasse a imagem de seu sorriso persistia em sua memória. São dois contos belíssimos, escritos com mestria, possuídos de uma ironia refinada, um humor suave e uma linguagem simples que se aproxima da ingenuidade ou naturalidade de narrar. Você lê as histórias e se envolve tanto com elas que esquece tratar-se de uma narrativa escrita; a sensação é de estar ouvindo-as.
Pascal Bruckner / Foto: Simon Tanner
O terceiro autor é Augusto Monterroso e seu pequeno livro de contos O eclipse. Monterroso, dono de uma linguagem que reproduz a narrativa oral com enredos fabulosos, o escritor gualtemalteco nos oferece três histórias exemplares de sua mestria na arte da narração. A primeira é o conto-título da obra. Em O Eclipse lemos a história de frei Bartolomeu Arrazola, que após ser capturado por indígenas na selva da Guatemala, planeja surpreendê-los com seu conhecimento científico e relata para os índios que sua morte provocaria um eclipse solar. No entanto, quem é surpreendido é o próprio frei, pois os indígenas maias já tinham conhecimento do eclipse. Assim, o frei que acreditava sair vivo da situação, é sacrificado para agradar ao deus sol. Outra história é o microconto Dinossauro, cuja narrativa, embora breve, nos proporciona inúmeras interpretações do evento. O conto Um de cada três é sobre um homem que recebe uma carta com a proposta de confidenciar seus prazeres e dores à milhares de ouvintes através de uma rádio. Ao ler a carta pensamos conosco quantos gostariam que apenas um dentre muitos ouvisse sua história, vida, sentimentos e recebesse de seu ouvinte a compaixão.
Augusto Monterroso/ Foto: reprodução
Três autores que juntos formam o pensamento de um contista. A leitura de cada construção narrativa acaba criando um modelo ideal para a elaboração de outros contos. Por isso, vale a leitura. Mas de nada adiantará a leitura destas obras se não se permitir um sentimento empático pelo conto e seus personagens. Isso é mais do que necessário, é vital para o escritor que se deseja tornar.
Anderson Fonseca (Rio de Janeiro/Ceará) é autor do livro de contos “O que eu disse ao General” (ed. oitava Rima, 2014), considerado pela revista Eels um dos melhores de 2014, e da obra “Sr. Bergier & outras histórias” (ed. Rubra Cartoneira, 2013).
O dia está abrasador e eu não aguento tanta presença entre garrafas de água. A ressaca dói-me como uma primeira vez, apesar de já não ser novidade. É o baptizado do último primo que não sei se o será e eu sinto-me como se caminhasse por entre um sonho onde mal dou por quem passo. Cada parente pesa-me como um membro edemaciado, pendurado pelos nervos directamente no meu cérebro, hoje de gelatina. Tenho que sair deste lugar tão familiar na pedra e no sangue, com agulhas quando me olham e eu sem conseguir compor-me no fato descosido que hoje sou. Tenho que sair daqui e encontrar-me comigo em algum lado onde hajam só olhos para dentro, até me passar esta náusea nada metafísica e reaprender a caminhar de outra forma e não desta em câmara lenta, pensando cada passo para parecer natural e dando cabo de todo o teatro de improviso.
Tenho que me manter eu. Tenho que me manter o eu a que estes estão habituados. Não posso deixar que estes saltos de consciência se manifestem no que sou para o mundo. É festa, a gente está para festejar e não para serem contagiados pelo meu funeral de neurónios. Funeral, baptizado… e eu a ter que aguentar isto tudo, só por causa da religião destes, depois de uma noite herege deste. Se soubessem que as religiões surgem de esquizofrénicos que foram levados demasiado a sério por multidões…
Não sei o que o futuro me reserva, mas talvez um barco, não dos que descobriram a Índia cheia de indianos, mas dos que levam a glande ao colo do útero de uma sueca qualquer, já riscada no mapa por um filho de chileno. Os do novo mundo antecipam-se, mas de vinho… E a irmã ao lado adormecida por um fingimento também ruivo, acordada por uns dedos que desaparecem no vácuo de tanta espera líquida. Só me espalharei numa delas, mesmo dentro de ambas até elas todas ruivas no fim. Não haverá beijos porque o vinho chileno não quer e nada mais será que uma memória de um futuro no passado recordado onde fiquei e estou. Nunca saberei a marca do vinho chileno, mas também depois do orgasmo já não vale a pena.
Pode ser que a distância que me está reservada a percorrer no espaço, chamar-lhe tempo se for mais fácil assim, seja só a que vai desta casa do povo, desta aldeia pequena, até ao lameiro do meu avô onde se ouve o sino da igreja, mas não se vê sinal de telhados laranja ou casas brancas com os palheiros castanhos a assinar a ruralidade que persiste. Pode ser que o tempo todo que tenho ainda que soprar, como vidro quente, no caminho, ou debaixo das macieiras, ou o tempo todo que esse tempo todo será, até o prolongar.
Toda a gente me conhece no baixo da casa do povo menos eu. Os braços são-me mais estranhos que aquele sapato de salto alto pendurado no pé de pernas depiladas para a festa. Mal consigo abrir a décima garrafa de água. A sede que tenho nem parece ser minha, por mais que eu beba, não se vai embora. Devo estar a beber com o corpo errado. Os meus tios insistem em cerveja e eu a fingir-me de doente ou santo. Seria o melhor remédio, mas a noite será de festa outra vez e queria guardar-me para depois do casamento. Ninguém me conhece de verdade, no baixo da casa do povo.
Feliz Natal.
Direi na manhã que me espera, na ilha em marte, longe de ontem, longe de hoje, daqui a umas horas se o tempo me levar sem o peso do corpo. Feliz Natal e um ano novo que não se vê a chegar nunca, passa e fico igual, só o número muda, só a ideia a esperança ridícula que seja melhor que o último, só porque é novo… pois ontem estava melhor: bêbedo, pouco eu, mais nos outros, sem uma caneta espetada no cérebro para escrever o que se passou, para o amanhã ser a continuação falsa do que acaba sempre…
Não sei onde estive ontem à noite. Acordei em mim e só, nada a reclamar. Foi festa na terra e acabou mais tarde que o seu fim, para isso servem os amigos e os bêbados. Sei que houve, quando a cor do céu se torna púrpura, uma grade de cervejas quentes no meio do jardim de paralelos com a música a desafiar os guardas que nem se interessavam de males menores. Sei que falei pela primeira vez, sem ter sido eu a falar, com alguém que conhecia há muitos anos. Dizem-me que às vezes tímido, digo que às vezes com pouca vontade para o que não vale a pena e pouco dura. A mim nem me quero conhecer apesar de andar sempre a queixar-me. Sei que houve abraços sem dúvidas, num estado duvidoso, por razões sem existência, apenas porque havia aquele momento e uma força maior que o nosso pé atrás a empurrar-nos na direcção do que sentíamos, fosse quase nada, fosse uma euforia irracional só por se estar ali no centro do jardim de paralelos, com uma garrafa de cerveja quente, a ouvir música sem se dar por ela depois do dia da tão esperada festa. Sei que esticamos a noite até se romper com o dia e que tentamos desacelerar o tempo com golos apressados, só não sei onde estive ontem à noite. Hoje, que deve ser onde… que deve ser quando estou, não sei quem foi aquele gajo, mas invejo-o, porque hoje ainda há luz e ando a água.
Ainda longe dos paralelos da cerveja quente, estive com os dedos dentro de um candeeiro no passeio, encostado a uma loira acesa, sem qualquer pudor, ou sem consciência para isso, só a vontade. Encostei-me contra a porta descascada da casa antiga, hoje velha, dos senhores ricos em decadência bebendo loiras, confundindo a sólida com a líquida, fazendo com que a sólida líquida e a líquida em pouco tempo a jorrar do sólido. Tudo acabou antes do fim porque no meio da rua da terra pequena não é lugar para se dar liberdade à vontade, mais vale esperar uns dias até a casa estar vazia e uma desculpa estar cheia e infalível, uma cama para desfazer e a ansiedade de ter tudo planeado e previsto quando nada sai como previsto por causa da ansiedade. Trapalhada de lençóis e pregas de pele que se colam ao corpo como sanguessugas de orgasmos, chupando, chupando e o sangue a vir de longe de nós, de um lugar onde não sabíamos existir.
Treme-me o cérebro e sinto-o nos movimentos descoordenados dos braços a levar-me água aos lábios secos, de escamas a saltar no sal dos peixes afogados. A vida passa como uma sucessão lenta de imagens, como se o condutor do tempo estivesse a aprender a conduzir entre travagens bruscas e um acelerador de ejaculações precoces. Devo parecer uma marioneta e este lugar cheio de gente que julga conhecer-me a tomar conhecimento da minha condição, tropeçando nos fios que me controlam, provocando-me espasmos inesperados. Não tarda passa-me do corpo ao que sou realmente e salto anos em segundos sem sair do mesmo espaço, louco por dentro, que são os mais comuns e menos reconhecidos.
Savonlinna, 2010
João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Estudou no Porto. Vive e trabalha em Turku, na Finlândia. Publicou os livros Os Poemas de Ninguém (2009), Disse-me António Montes (2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (2011), Saber Esperar Pelo Vazio (2012), Destilações(2014) e Trepanação de Jerónimo Bosch (2015).
sin ella
¿Cómo nombrar a Dios?
En el silencio,
en la ausencia de palabra
el mundo flota como una idea
ensombrecida, virtuosa
y también Dios,
su lenguaje hecho de capricho humano
de humana incertidumbre.
Ahora, cuando no hay palabra
cuando el lenguaje abandona
su servidumbre,
su súplica, aún digo:
–Dios, sálvame de tu furia, dame luz y sed
protégeme de mí misma,
aunque sea haz que en mí las palabras digan algo
traigan algo
revelen alguna verdad
si es que acaso existes–.
***
El Aro
Rodaban por la montaña
eran un solo río
que atrás dejaba
la carne flagelada de sus padres.
Como un río eran una sola herida
que vagaría por las ciudades
hasta la época de la ceniza.
Un río que florecía como un largo puñal eran.
Traían en las manos
amados
afilados huesos
armas o amuletos
tallados con el brillo de los dientes
por si la sombra los volvía a encontrar
ahora huérfanos,
curtidos.
***
Se acostumbra el cuerpo a ser muñón
y desea de lo perdido su verdad, su belleza fulminante.
Se hace más presente el deseo que el muñón,
su latencia de carne mutilada.
Esta cruel servidumbre:
descreer del hombre,
para otros,
esperar al Buitre
dios, de todos,
el domador más cruel,
negrura del pan
el otro continente, el muñón que palpita
atado al cuerpo roto.
Una palabra en llamas para el hambre de este mundo.
Un escupitajo contra el andén caliente.
El pan que en las manos del que espera
se descompone,
hiede.
***
Bojayá
Les trozaron las manos
y en el pellejo de otros muertos, los labios les hundieron.
Para comer
después de tres días
les llevaron las tripas de sus perros.
Detrás de los árboles
unos cerdos esperaba las sobras
las falanges
los tendones quemados
que aún temblaban
pues las balas
dentro de estos pedazos de cuerpo,
de mundo,
seguían calientes y sacudían la piel partida
por el plomo final.
***
Entre la red el pez aguarda,
estaca la red que impide su huir.
Agua y pez socavan el hueco del tejido
en un bello intento de fuga.
Perpetuidad su vuelo entre la nube de mar que lo consume.
El pez reconoce pronto en la entraña del agua
el espejo que lo reclama;
bebe su instante de verdad
sin alegría.
Vuelve del otro lado de la red cocido.
Igual los hombres acá,
regresan del otro de la calle
cocidos, su hambre intacta.
Camila Charry Noriega nasceu em Bogotá, Colômbia. Tem formação em estudos literários e é professora de literatura. Publicou os livros “Detrás de la bruma” (Común presencia editores, Bogotá, Colombia), “El día de hoy” (Garcín editores, Duitama, Colombia), “Otros ojos” (Elángel editor, Quito, Ecuador) e “El sol y la carne” (Ediciones Torremozas, Madrid, España). Participou de diversos encontros de poesia na Europa e América. Alguns de seus poemas foram traduzidos para o inglês, francês e romeno.
Eu trabalhava como soldador em uma fábrica de carrocerias de caminhão. Não é um trabalho fácil, tanto que muita gente até desiste depois de um tempo, mas era o que eu gostava de fazer. Dizem que todo homem nasce para alguma coisa. Talvez eu tivesse nascido praquilo. Trabalhei lá por quase quinze anos. Chegava bem cedo e saía às seis da tarde, entrava num ônibus apinhado de gente e seguia pra casa apenas para tomar banho, comer e dormir. No dia seguinte, antes que a fábrica abrisse, estava lá outra vez. Os patrões gostavam de mim. Nunca ninguém falou, eu apenas sentia que eles gostavam. Eu era quem menos faltava ou reclamava. Eu não negava serviço, doutor. Naquele dia, porém, uma dor de dente me fez sair mais cedo, algo que jamais havia acontecido. Foram dois os sofrimentos: pelo dente e por não soldar. Sentei no ônibus, desgarrado das coisas, preso àquela dor. Quem já teve dente ruim sabe do que falo. Encostei o ombro na janela, o rosto sobre ele, fechei os olhos. Alguém então se sentou ao meu lado. Era uma loura de uns trinta e poucos anos e a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi que ela tinha um rosto parecido com o de mamãe. Ela se sentou e ficou a me olhar com estranheza e curiosidade, em seguida perguntou se eu precisava de ajuda. Minha cara não devia estar boa, ela que na verdade nunca foi grande coisa. Respondi que não, que só estava cansado, que ser gerente numa fábrica de carrocerias de caminhão não era brincadeira, naquele instante eu ia resolver umas questões, havia a labuta com os subordinados, as preocupações matavam. Preferi não dizer que era soldador ou que não cuidava dos dentes. Talvez ela se decepcionasse. Talvez ela deixasse de ser simpática e de conversar. A sua voz era doce como a voz de um anjo. Seus olhos eram cheios de vida, o seu cheiro era bom. Conhecê-la fez com que a dor no meu dente diminuísse. Disse para eu ter paciência no trabalho. Com tranquilidade e fé tudo voltará ao normal. E esta é uma coisa que nunca tive, doutor: fé. Lembro que havia uma moça no orfanato que gostava de me contar histórias antes de dormir. Era uma boa pessoa e foi a única que me deu atenção depois que mamãe me deixou. Um dia ela se casou ou conseguiu outro emprego e nunca mais apareceu. Mas foi ela quem disse: tenha fé, sua mãe ou alguém vem te buscar… Mas eu não sabia como era ter fé e talvez por isso mamãe não tenha voltado e ninguém me adotou e tarde da noite eu ficava acordado olhando para o teto daquele lugar, e a noite marca e destrói, a noite é um libertino que fode com as nossas almas, doutor, e aquele era um teto tão alto quanto um céu sem estrelas, um céu infinito feito apenas de breu e de solidão, e eu olhava para ele tentando entender o porquê dela ter me deixado lá, lembrando do seu rosto, da lágrima que descia, de quando acenou e saiu apressada, sem olhar para trás. Por onde andará? Quem sabe ainda viva, em um outro lugar… Sinto falta do emprego na fábrica, do barulho, de chegar antes que todo mundo e de me pedirem para fazer algum serviço… De qualquer maneira, eu estava lá, no ônibus, e por um instante pensei em conversar um pouco mais com aquela mulher, pensei em perguntar seu nome, se achava que choveria mais tarde ou qualquer bobagem assim, mas não perguntei. Não demorou muito, ela se levantou, puxou a cordinha, disse boa sorte e desceu. Tudo tão rápido que só resolvi saltar quando o ônibus já ia longe. E então comecei a correr. Corri muito, corri desesperadamente, corri como se tudo dependesse daquilo, de vê-la outra vez. E eu a vi: atravessando a rua, com a calça jeans desbotada, a blusa vermelha com listras brancas, o cabelo loiro, a caminhar em direção a um prédio de tijolinhos. Era um prédio velho e pequeno, mas enxerguei charme e beleza nele. Quase um minuto se passou, a luz do apartamento do segundo andar foi acesa e ela entrou e se sentou sobre o pequeno sofá que havia na sala, tirando os sapatos e estirando as pernas. Pensei que era muito possível que ela gostasse de me ver novamente. Mas o que diria? Ela se levantou, foi até o quarto, acendeu a luz e tirou a roupa, ficando apenas de calcinha e sutiã. Passou a se olhar no espelho do guarda roupa, num instante de perfil e, no outro, segurando os seios e os levantando. Enfiou uma das mãos por dentro da calcinha. Eu não sabia o que viria a seguir. A intimidade é a nossa sentença. Segundos depois, entretanto, ela parou com aquilo e entrou no banheiro. Ficou por lá uns bons vinte minutos. Quando reapareceu, estava envolvida numa toalha. Foi nessa hora que resolvi ir até lá. Entrei no prédio, não havia ninguém na portaria, subi os degraus e bati na porta. Eu estava ansioso, sentia que era o que tinha que fazer. Mas o que aconteceu quando a porta se abriu, infelizmente, não foi nada do que imaginei. O rosto dela já não parecia doce e amável como quando conversamos no ônibus, sua tez empalideceu, seus olhos se arregalaram. E ela então me perguntou, andando para trás, com a voz assim meio tremida, o que você está fazendo aqui?! Eu mostrei a nota de cinquenta reais em minha mão. Eu disse, é sua, vi quando caiu. Falei lentamente, sorrindo, para ela se acalmar. Porque as pessoas gostam muito de deduzir e acabam pensando em coisas que não têm nada a ver. Quase sempre se exagera. E acho que foi mesmo o que aconteceu. Ela de repente estava com os lábios crispados, com os olhos bem abertões, parecendo olho de cavalo, e tentou fechar a porta com força. Eu coloquei o pé na frente, dizendo que só queria devolver o dinheiro, que já ia embora. Mas ela correu para dentro do apartamento e começou a gritar. Foram gritos horríveis aqueles, gritos longos, altos, que pareciam não acabar mais. Pra quê aquilo tudo? No fundo, digo ao senhor, as pessoas não são de confiança. Culpam os outros pelas próprias escolhas e, se deixarmos, podem mesmo nos arruinar. Eu pensava nisso quando dei o primeiro murro. E, depois dele, dei outro, depois outro e mais outro. A verdade, doutor, é que eu não consegui mais parar, mesmo quando ela deixou de gritar e virou uma massa de carne, sangue e cabelos loiros, mesmo quando senti que não respirava mais. Quando vocês chegaram, mais de uma hora depois, o dente tinha começado a doer outra vez e eu estava deitado ao seu lado no chão, com o braço cruzado sobre o seu peito, abraçando-a. Do mesmo jeito, doutor, que eu, quando olhava para o teto lá do orfanato, imaginava deitar com mamãe.
Rodrigo Melo é autor de “o sangue que corre nas veias” e “jogando dardos sem mirar o alvo”, livros de histórias curtas. Lançará, no final do ano, o seu primeiro romance.