Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como Sara F. Costa, Samuel Malentacchi, Ana Horta, Nilcéia Kremer e Floriano Martins. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de Geraldo Lima, Márcia Denser e Fernando Rocha. Há uma atenta leitura de Sérgio Tavares para o novo livro de contos de Luís Roberto Amabile. No quesito cinema, Larissa Mendes convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, Graccho Braz Peixoto entrevista o cantor e compositor Mário Montaut. Por meio das escutas de Gustavo Rios, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de Thiago Mourão, é alvo das anotações de Fabrício Brandão. Com a vigorosa contribuição da artista plástica Caroline Pires, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!
Há uma corrente que defende que uma antologia de contos, mesmo de maneira involuntária, persegue uma unidade temática. Se isso for verdade, “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile, deixa rastros bem delineados na sua forma de investigação.
Seccionado em três departamentos: “Orelha em pé”, “Cio” e “Dentes à mostra”, a obra é composta por narrativas mobilizadas pela literatura, pelo sexo e pela violência, respectivamente. Dentro dessas divisões, no entanto, os formatos são os mais variados. Fazendo uma alusão ao título, há animais de diferentes portes e aspectos. Contos maiores, contos menores, minicontos, frases.
Amabile também condiciona a estrutura a um exercício multifário. Alguns textos se resumem a um recorte de diálogos, do mesmo modo que, outros, a fluxos interruptos. Uma história se apresenta em modelo clássico para, em seguida, fracionar-se em duas colunas com mais de um relato. Há digressões, elipses. Vozes em primeira pessoa que passam para a terceira, depois voltam para a primeira. Um tipo de confabulário dissonante que encontra, justamente na irregularidade, a força sobre os assuntos a que se propõe literaturar.
Em “Sobre o não-dito”, que abre o livro, uma discussão a respeito do fazer ficcional vai se infiltrando paulatinamente no plano entendido como realidade, até arrevesar a história na própria história. A origem da autoficção é o que motiva “O frio”, texto seguinte, ao passo que “Espelho” é um jogo caricatural, uma ideia de paródia para um conto célebre do célebre escritor K., acerca de um homem e um inseto, ou uma amálgama disso.
Amabile joga a todo instante com a literatura e, automaticamente, joga com o leitor, que se vê numa zona de estranheza, levado a achar cômico algo que não deveria ser, mas sem entender o porquê da autocensura. “O herói peludinho” ilustra bem esse sentimento. Um adolescente feioso, gamado pela atriz Kim Basinger, começa a direcionar seus suores púberes a uma menina de sete anos. Não há gratuidade, mas a intenção já carrega o choque possível.
A narrativa também deixa mais latente a obsessão do autor: a cultura dos anos 80. Embora os eixos temáticos sejam bem definidos, paira sobre esses uma atmosfera oitentista, substanciada por referências a filmes, músicas e programas de tevê. Em alguns casos, estas ocorrem de maneira bem sutil (Piuí Abacaxi…), mas estão lá, para os olhos treinados, pulverizadas por todo o livro.
O excelente “Buraco”, no qual dois relatos vão se confrontando até um final surpreendente, inaugura a busca por inspirações mais umbrosas, da seara da perda, da detenção da infância, do desejo e da repulsa pelo outro. Um cenário mais nitidamente urbano também se mostra; um tipo de selva de pedra onde personagens animalizados perseguem outros a fim de saciar vontades e apagar solidões.
“Umidade”, um encontro entre balzaquianas à procura de sexo casual e um vendedor de guarda-chuvas, dá partida a um elenco de taras, compulsões e fetiches, cujo senso de utilidade é melhor descrito nas últimas linhas do conto “Fumaça”: “E gozavam. Depois fumavam (…) E conversavam. Quando a fumaça se dissipava, voltavam para seus lares e por algum tempo a vida parecia mais suportável”.
O vazio anímico também dá o tom da parte final, imantada por cenas de violência. “O que acontece no tempo de um tiro?”, reverbera a voz do conto “Gatilho”. Uma combinação de mínimos mecanismos para gerar uma tragédia, mas um intervalo. Todos os personagens estão ali, esperando para matar ou para serem mortos. Uma multiplicidade de mortes, como as descritas no conto “Como estou dirigindo?”, em que um taxista vai narrando causos de crimes durante uma corrida em que leva dois namorados, até mesmo aquela que pode servir para a literatura.
Com uma linguagem ágil, coloquial e bem polida, Amabile trafega por vários estilos, apostando na inventividade em detrimento da forma. “O livro dos cachorros” pode não ter raça específica, mas não deixa dúvida sobre o pedigree de contista do autor.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.
Estou sentada no limiar da casa
Inteira e magra
A rua abre-se no vidro cheio de reflexos
Tecidos por aranhas diurnas
Anoitecendo
Seguro o quotidiano quieto
Como um bicho de asas frágeis entre os dedos
Um pássaro de porcelana viva tinge a manhã
Do ocre da parede imaginado abre-se um esgar de humidade
O sorriso de uma velha ausente
Ou o caminho deserto descendo
O gato jaz no centro inavegado da sala
Dentro dos meus ossos faz imenso frio
Já só poderia segurar uma violeta nas mãos descarnadas
E atrás de mim uma amiga nua
Um sonho desenrolado
No papel roto da parede
***
Desabrocha-me uma flor no estômago
Um lírio expandido de água morna
Que me marca o centro líquido do corpo
Depois arquejo e solto-me no umbigo de água
Meridiano em volta da terra
Em volta da bolsa minha dos alimentos
Isto não é a escrita
Uma massa cega murada ao verso
Tão só a linha brilhante
Um nascimento inteiro pedindo água
***
Mastigo a maçã…
O dia é polido como um espelho
Mas impuro
Tingido pelos sons da minha boca
Pela curvatura voluptuosa do fruto que o preenche
Na quina dos dias há sempre o redondo de uma forma comestível
Não posso estar sentada que uma folha me não fira os dedos lisos
Clorofila indelével marcando a pele
Se a sombra da maçã é suave e fria sobre o solo
O estômago desfaz o suco amarelo do fruto
Os intestinos lavados
Prendem-te ao sulco lavrado na terra
E tudo isto é talvez uma mesma luminosidade
Ancorada debaixo dos olhos
***
Arte Poética
Sono
Abro o olho silente da palavra
As coisas monologam infindavelmente consigo próprias
Opacas com o halo vaporoso do meu sono
Reconduzo as palavras ao seu lugar mais ínfero
Mas deixo-as sujas de terra: inteiras
Esse é um desenho pleno, rugoso,
Um desenho de barro e cal em que nos sabemos
Sem nome
Entre as linhas
Esse pequeno toque
Sombreação ligeira da mudez
Um cavalo desenha-se no vidro fosco do meu sonho
Mas não lhe sei o corpo
Isso
O flanco
Era já só pressentimento lasso da mão
Dor
Talvez memória côncava de pele
Mas ainda…pertença
O vácuo dos dedos aflige o futuro inteiro com o interior opaco do animal
E este era o momento presente
***
Nenhuma dor latente nos mina:
Somos apenas percorridos por um pequeno animal agudo.
Ana Horta nasceu em Lisboa, em 1975. Estudou Filosofia e Literatura na Universidade Nova de Lisboa e Fotografia e História de Arte no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual). Escreve poesia desde que se lembra e nunca mais conseguiu parar. Estes poemas pertencem ao seu primeiro livro: “Inventa uma voz no rodopio do corpo”, Black Sun Editores, Lisboa, Dezembro de 2002. Tem colaborado em diversas revistas de poesia e um segundo livro de poemas no prelo: “Ínfimo Vento, Volta d’Mar”, Outubro de 2015.
Foi enterrado a 28 de maio com aquele casaco que eu lhe dera em 87, que um dos amantes havia me dado ou roubado ou não sei, era um casaco sal e pimenta vagamente inglês, imagine, ele, logo o velho, logo Álvaro que só se vestia no Minelli desde que eu tinha seis anos e minha irmã quatro, mas de todo modo foi enterrado com um casaco de bom corte, sal e pimenta, meio inglês, que roubei ou ganhei ou não sei que amante remoto eu poderia ter arranjado nos confins do naufrágio de 87 (aqui refiro-me ao meu drama pessoal que agora não vem ao caso) porque o dele (o do velho, o de Álvaro) o arrastou muito antes, vinte anos antes, mais ou menos no início de 70 quando eu o enterrei, nós (eu e minha irmã) o enterramos pela primeira vez, o velho louco, desabiondo y suicida, que aprendera filosofia, dados, timba e a poesia cruel de não pensar mais em si (como naquele tango de Mariano Mores). Por isso aceitou e usou o tal casaco dois números maior, dado ou roubado de alguém que já não precisaria de nenhum (um amante talvez morto ou preso ou exilado) sequer de mim que também já começava a naufragar naquele ano de 87 e meu pai – que só se vestia no Minelli desde 1947 – o aceitou com irônica resignação, o velho pilantra antecipadamente morto, como se soubesse ou adivinhasse ou antecipasse que o enterrariam nele pois que doravante repousa precariamente em paz (mas num excelente casaco de tweed inglês sal e pimenta) no columbário número 80 do cemitério de Vila Mariana, ala B.
(Em 26.06)
Há um mês mandei inscrever a lápide com um nome e duas datas, premeditando futuramente o painel de azulejos ou ladrilhos, sem contar a inscrição que desta vez sim, mas não foi assim, posto ter sido informada que em três anos o município recolheria suas cinzas à gaveta de modo que seria bobagem gastar dinheiro por tão pouco, o administrador enxugava a testa coberto de razões e fuligem, os grossos óculos de míope, donde a não menos premeditada quanto tola inscrição In Memorian de Álvaro Gardel, pai eternamente amado, suas filhas Júlia e Amanda – 29.05.24 – 27.05.97 igualmente caput – três nomes e duas datas – sequer esta derradeira vaidade lhe foi concedida, velho (ou negada à mim?) mas tolamente eu insisto: então não restará nada e terá sido só, terá sido tudo: desejo e pó?
Porque eu não sabia ser tão tarde, tão inútil.
Veja bem, não estou tentando penitenciar-me até porque para mim não há perdão nem castigo nem penitência nem remorso (não há pecado para minha estúpida inocência) apenas a obstinada pergunta sem resposta sobre o desígnio da vida de um homem resumido a duas datas e um nome, enterrado com um casaco de outrem (ele que só…) pai eternamente amado, desejo e pó, e então o silêncio das palavras não ditas, dos gestos desfeitos, enfrentar este vazio sem perguntas nem respostas que é meu pai definitivamente morto na antevéspera de completar 73 anos.
(Em 26.05)
“Sua chegada é repentina, inflama-se, extingue-se, é jogado fora” (I Ching – hexagrama 30 – Li – A Chama, nove na quarta posição)
Desta vez meu pai está morrendo.
Eu deveria ou poderia ou não me restaria outra alternativa além de pegar um ônibus para ir vê-lo pela última vez no hospital quando sua segunda mulher ligou-me: seu pai está morrendo (morrendo entre estranhos, como tem vivido os últimos quinze anos, se fazendo de cego, surdo e burro). O hospital fica no quilômetro 27 da estrada de Itapecerica da Serra, com nome de santa que duvido existir alguma chamada Mônica, todavia ocorre que há oito anos – desde que vendi o apartamento, o automóvel, os telefones, os móveis de família, liquidei minha vida (ou o que materialmente restava dela) – e os móveis eram tudo o que restava – desde então experimento, digamos, o lado coletivo e anônimo da vida, o que significa andar de ônibus, metrô e assemelhados, sem contar o cotidiano mais pedestre, indo e vindo de lugares onde ninguém me espera, não sou benvinda (não sou mais), pois há muito não conto, não vivo, não valho o suficiente a ponto de alguém se dispor a perder tempo, gastar gasolina, em atenção ou amor ou amizade ou compaixão ou piedade comigo – eu, sombra de mim.
De forma que na condição de filha, a mais velha, a primogênita, teria que pegar um ônibus para Itapecerica da Serra, a norma exigia, os bons costumes, e ir ver o pai ainda uma vez, possivelmente a derradeira.
Mas seria bobagem.
Porque eu sei (eu e minha irmã sabemos) que é bobagem, que este cara está morrendo há 28 anos, que começou a morrer quando eu o internei pela primeira vez no sanatório para a cura de desintoxicação – ele, o alcoólatra, o desgarrado, o infeliz, o despojado dos bens desse mundo, até mesmo do amor e orgulho, o vaidoso dipsomaníaco.
Foi em 71.
Recordo-o vagando no escuro corredor do escritório onde eu trabalhava (meu primeiro emprego com carteira assinada e direito ao INPS). Vinha vacilante, macerado em álcool, subira sozinho os nove andares (enquanto os irmãos esperavam-no lá embaixo sentados no taxi com taxímetro ligado, que aliás ele pagaria) para pegar a guia de internação e eu lhe entreguei rapidamente o envelope, temendo ser vista ou que o vissem ou que nos vissem, mas ele desapareceu, um meio sorriso torto, sugado pelo elevador, reconduzido de volta à rua onde o aguardavam no taxi para levá-lo e interná-lo e trancá-lo e jogar a chave fora.
Porque eu apenas era jovem (ah, a juventude, essa falha impossível de se evitar em dado período da vida) naturalmente cruel e impiedosa como todos os jovens que acreditam com absoluta certeza na vitória e na esperança, no poder e na glória eternos e para muito breve.
Então eu não tinha tempo para você, velho, para parar e olhar pra você, voltar-me e te ver despojado dos bens desse mundo – alcoólatra que naufragara, silencioso e hostil, inconquistável rendido indiferente, sem implorar (porque se ignorava despojado da sua fortuna pessoal, aquele capital inalienável de sanidade e lucidez ) – eu é que estava suja aqui dentro, porque a tua derrota, a tua rendição doía em mim, velho, então melhor te excluir do pensamento e do coração, fingir que você não existia, porque eu não ia me voltar para te olhar (estacar a meio caminho da vitória iminente) parar e olhar para você só para me sentir um lixo, por isso te internava e internava obsessivamente em sanatórios onde te deixava, te trancava e jogava a chave fora.
Mas não vou pegar ônibus nenhum.
Aos 43 anos não se pega ônibus nenhum — além de velha, derrotada – e de certa forma sim, derrotada, mas precisamente por isso não vou pegar ônibus nenhum para te ver morrer, meu chapa, não definitivamente.
Porque nós merecíamos mais do que isto, alguém assim que nos acompanhasse, amigo e silencioso, nos pagasse um café à beira da estrada, a meio caminho do hospital da tal santa que não existe, oferecesse um saquinho de balas, nos estendesse o lenço voltando o rosto para não nos ver chorar e – sobretudo – porque era preciso que você me visse derradeiramente acompanhada, não mais a filha da sua orfandade, e então partisse consolado pelo fato de não me deixar tão só e já tão distante da breve vitória, sabendo-me amparada por alguém a conduzir-me sem contudo me carregar – qual troféu, qual fardo, tanto faz, depende do ponto de vista – posto que a mim já basta minha dor.
Solicito apenas tempo, lugar e o direito de chorar derradeiramente por meu pai cuja alma se apagou há 28 anos e hoje definitivamente de corpo e alma, duas vezes morto e acabou-se.
Terá sua morte sobrevida? Terá a alma sua palma? Sim ou não? Terá o espírito gás suficiente ou se extinguirá num sopro, rendido ao demônio do abismo? – como se nunca tivesse existido, porra.
Decidi-me por não (aos 43 anos não se pega ônibus nenhum e muito menos nas ditas circunstâncias, etc.) ir, velho, acho que em nome duma derradeira dignidade, ao menos hoje, ao menos desta vez, a última, porque será para sempre.
Aliás, ambos merecemos esta última dignidade – o transitus da vida à morte – de não estarmos sós, os passes de ônibus amassados entre os dedos, como se fosse tudo o que daqui levaríamos, a passagem para o outro lado – o óbolo de Caronte?
Porque não se joga fora o coração metendo-o num ônibus para dizer adeus apenas com um passe amarrotado no bolso, o símbolo desta sub-vida, desta sub-paisagem de postes e fios, deste sub-horizonte de cães onde transito (que é uma das tantas formas de estar morta) daí não haver muita diferença entre você e eu, meu chapa, porque também fui despojada, também me fodi – nem que estivesse na sua cola, velho – puxei você, puxou ao pai, eis o óbolo (o passe de retorno ao mundo dos mortos vivos).
Nada, sequer o bolo de mel, a coroa de flores, unicamente a moeda de Caronte a ser paga ao barqueiro pra te atravessar para o outro lado, entrando assim na morte com as mãos vazias.
Ficarei te devendo também isto.
E devo-te ainda mais porque devo à mim, não sem razão de tal forma sou cobrada, conquanto toda humilhação seja uma penitência, todo fracasso, uma misteriosa vitória, todo acaso, um encontro marcado, toda morte, um suicídio, mas não vejo consolo algum nesta sórdida teleologia, pois existe algo em mim que não se compraz com palavras, não trafica com sonhos, não negocia e também não adiantaria, porque tem um limite até onde se pode enganar-se a si mesma (sem contar o descarado plágio avant la lettre borgiano).
Por enquanto, devo a Deus e todo mundo pois que outra forma de explicar o fato de reiteradamente me voltarem as costas deixando-me há anos e à margem com dois passes de ônibus de ida e volta para o Limbo – do nada ao nada? E agora me abaixa Horácio (ou será Hovídio?) para lembrar que o homem é a soma das suas condições climáticas, é a soma do que se tem, uma problema de propriedades impuras que se desenrola fastidiosamente até o nada inexorável: desejo e pó.
Sem lastro, sem guia e a lembrança da breve, artificiosa vitória (esta, a misteriosa vitória? eu passo) que era falsa e eu não sabia, que não podia perdurar o meteoro cuja órbita já é queda, se inflama e extingue-se, a menos que não tivesse de ser assim, a menos que sob os escombros ainda seja a carne, sempre a velha carne, a voz do sangue que a tudo reivindica, inclusive o direito à dor (a esta dor, a minha, a da filha, o ônus da primogenitura) pessoal, intransferível e única dor, a de chorar o pai (o único) enquanto agoniza (apenas uma vez ) e desta vez (de uma vez por todas) para sempre.
Post-Scripitum: O presente relato foi escrito a 26 de junho, um mês após o enterro, e 26 de maio do mesmo ano, na madrugada anterior à morte (que intuí inevitável embora sem dados da realidade para comprová-lo) aproximadamente durante os momentos de agonia. De modo que esta oração fúnebre escreveu-se furiosamente, desenredando-se em sentido inverso, ou seja, para trás, para baixo e de costas (a despeito de mim) – direto ao centro dilacerado e oculto da dor.
A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.
Tenho cabelos que alcançam o teto
a ordem inversa das coisas cravada no peito
a gravidade do gozo
o temor dos pés no chão
o último suspiro além boca
Trago gotas de alcatrão na memória
e uma pífia retórica
coisa de quem nasceu antiga
blefa com a vida
e não tranca as portas da alma
***
Adicta
Não menos que o vento
que te lambeu agora
não mais que as horas
que custam passar
soo o interstício
principio o precipício
que dorme em cada célula
libélula diplomada
em jornada atemporal
Adicta de insetos
veto monstros alheios
meu veio é agridoce
como a vida
qualquer semelhança
não é mera coincidência
é conivência de sol
e sal
***
Auto retrato
Tenho esta espera
estampada no rosto
um lusco fusco na voz
martírio de inquietos
fechadura conferida mil vezes
praga que não se entrega
Sou o que fica
a tiririca na grama
sou o acordo necessário
quando todos foram
o voluntário das palavras
a larva dos dias
a agonia sabor chocolate
que late late
e abocanha vazios
Sou o cio em carne
promessas descumpridas
feridas cicatrizadas
desvarios
***
Ungida
Ela gritava impropérios
cacos na boca
rouca e descabelada
Ela gritava impropérios
não há critérios em desanuviar
cingiu a testa marcada
saiu da engorda
negou o abate
fez alarde
acertou o tom
batom na boca
vermelho na veia
quente
Ela gritou impropérios
e o império de ajustes caiu
Ela juntou os pedaços
de coração quebrantado
desajustada e desmedida
ungida em amor
Próprio
***
Nômade
..pinçar coágulos encravados
redesenhar alentos
rede
moinhos de todos os matizes
perder a conta que acrescenta
sustentar-se por tentáculos
abraçar variáveis que mudam de estação
um porto volúvel
um corpo aparente
de crescentes naufrágios
imensidão de rascunhos
um ser inscrito em palavras
Nilcéia Kremer é gaúcha, ariana nascida em 80. Das Letras por formação tornou-se conjuradora de palavras. Apaixonada pela arte já provou um pouquinho de várias linguagens, e descobriu que o melhor sabor se dá no encontro entre elas. Crê na arte comunhão. Tem poemas publicados nas revistas Plural (Scenarium), Mallarmargens, Limbo e O Emplasto.
Eu suspeitaria de imediato só com a simples menção do nome da banda: teria algo de pernóstico, e talvez me trouxesse de chofre a imagem batida de jovens barbados – as mulheres teriam rostos pálidos -, meio tristonhos e bem antipáticos em seus ideais de arte. Do tipo que força a barra com letras difíceis. Seria algo excessivamente intelectual e vazio; uma coisa estranha, monótona.
A lógica para isso é simples: dentro desse meu novo mundo (o dos quarenta e tantos), supor que algumas pessoas pensaram no Maiakovski para nomear a própria banda seria motivo suficiente para me manter afastado. E não queimar óleo. Nem pestanas. E nem digo isso pelo poeta, nem pelo poema – um achado, para mim que não conhecia o texto. Mas pela pretensão.
A Flauta Vértebra, além de ser o nome de um poema do Vladimir, é basicamente uma banda baiana, da capital, com cerca de sete anos de existência com interrupções. Formada por cinco jovens que estão na batalha para mostrar sua obra – aquele trabalho espartano de convencer um público escasso numa cidade de chances escassas – notadamente diferente. E de extrema qualidade. Que começa a ganhar projeção neste Ep produzido pelo sempre irrequieto Irmão Carlos (líder da banda Irmão Carlos e O Catado e mentor do Tv Caverna, do Youtube) e prensado pela parceria Bigbross Records / Brechó Discos.
Além de saber que eles não vieram para serem cópias das cópias, nem muito menos prisioneiros de conceitos obtusos do que pode ser música original, A Flauta Vértebra possui a leveza de quem não se incomoda com a responsabilidade de ser, atualmente, uma das coisas mais legais e interessantes que estão acontecendo por aqui. Não por não saberem onde pisam. Mas pela percepção clara de que assim o trabalho flui. E não só em termos de musicalidade, mas também em relação às letras belamente interpretadas pela vocalista – figura central do projeto, uma espécie de guia, de ponto de equilíbrio -, dotadas de inesperada maturidade. Com o peso e a fúria de belos poemas, perfeitamente encaixados nos arranjos.
A Flauta Vértebra / Foto: Gether Ferreira
O que pensar quando na faixa “Renato” nos deparamos com coisas tais como: “Num momento eu me sinto bicho, / É tão estranho / Desencantar a nossa história / É falsa a claridade / Não foi sonho / Não consegui dormir / Não vê que os que dormem são reféns” e, sem saber o que concluir, resolvemos seguir em frente? O que de fato podemos supor quando percebemos que em “Revolução (parte 1)” estamos diante de uma das mais interessantes, pessoais e francas abordagens sobre o que fizemos e deixamos de fazer em junho de 2013, quando as ruas foram tomadas em nome de algo – enquanto a PM desencavava seu estoque de lacrimogênio e das suas bombas de efeito “moral”?
O que dizer, afinal de contas, da guitarra que dá inicio à leveza da faixa “Polaroid”, resultando na combinação belíssima entre o teclado, o baixo e a bateria de Breno Pires (bastante competente e talentoso), numa espécie de celebração ao que pode ser legítimo, arte, música? (“Fotos instantâneas trazem doses espontâneas de ilusão / E ao mesmo tempo a lente mostra a gente / O que há de mau e o que há de bom / Eu quero mesmo é seguir viagem na canção / Ah, e já é dia no Japão / Tenha um bom dia então”). E de “Epílogo Atroz” que, além de ser um rock divertido e bem executado, contém a surpresa de frases como: “A festa acabou / A porcelana que encobria o seu rosto se quebrou / Esse suor gelado que escorre dos meus poros / Também te atacou / As cortinas se fecharam, meu bem / Ninguém recita seus idílios, suas trovas, seus sonetos / Ninguém engana ninguém / Ninguém engana ninguém”?
Sohl (vocal), Carlos Vilas Boas (guitarra), André Rodrigues (baixo), Ricardo Vilas Boas (teclado) e Tita Gracille (a mais nova baterista, no lugar do já citado Breno Pires) não refugam as próprias influências. Que podem muito confundir a todos, pelo simples fato de serem bem aproveitadas e servirem como lastro para uma musicalidade própria, uma postura nova diante de tudo – e não como cópia da cópia da cópia, se vendendo como a última novidade na grande feira das obviedades. Podemos perceber algo dos Secos e Molhados. Arranjos que lembram alguma coisa do Tropicalismo, passando pelo rock classicão e pela fatia mais interessante de toda a nossa MPB, atual e antiga.
Podemos dizer que são cinco faixas. Num Ep que vale a pena escutar. São cinco jovens que estão tornando as coisas bem melhores para a música. E que gostam de correr riscos, ainda que seja de uma maneira assombrosamente leve. Para a sorte de todos nós.
Gustavo Rios é baiano. Autor do livro de contos “Allen Mora no Térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), dentre outros.
O indivíduo traça a rota fugaz de suas projeções. Alimenta a carne com pulsões de toda ordem. Intenta um gozo que sabe a um átimo entre o vivido e o inventado. Eleva o objeto de seu desejo a um patamar no qual raras são as certezas. Em última instância, esse mesmo indivíduo é a corporificação de toda a sorte de abstrações dispostas pelos caminhos da criação. Um pouco disso tudo é o ser Java Jota, protagonista do romance homônimo de Thiago Mourão, lançado recentemente pela Editora Patuá.
Ao iniciar as pungentes linhas de seu mais novo livro, Thiago conduz o leitor num verdadeiro jogo de espelhos, através do qual tudo o que se vê reflete um misto de sensações que estabelecem um curioso nivelamento entre quem narra e quem vivencia os acontecimentos. Seriam, então, criador e criatura a mesma pessoa? Mais ainda, ao leitor é dado algum status de protagonismo? São questões que surgem à medida que uma espécie de triângulo de cumplicidades sugere uma harmonização de papéis se pensarmos nesses três eixos de atuação.
Mas eis que um embate serpenteia pelos caminhos do livro. É Java Jota que, encarnando a sina de autor, revela-se um personagem em busca da consolidação de sua obra. Nesse ínterim, o protagonista almeja cruzar os desertos da criação, tendo por musa inspiradora a figura feminina de Rosa.
Em meio aos trajetos insones de sua faceta de escritor, Java questiona suas potencialidades e, como qualquer mortal que pretende êxito em sua razão de existir, põe em xeque suas investidas. Nesse momento, as aproximações com a realidade agigantam-se, sobretudo quando percebemos a tarefa hercúlea que um escritor carrega em si. Com tudo isso, Thiago Mourão não expõe gratuitamente a condição de quem escreve. Pelo contrário, supera expectativas e molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.
Uma sucessão de imagens permeia as andanças de Java Jota. Todas elas bem encadeadas e servindo ao propósito de vislumbrar algum sentido possível para o caos que lhe faz companhia permanente. Como num frame, a paixão por Rosa é um se deixar entregar diante de uma memória hedonista. Tal como a incerteza de fundar uma obra literária com sucesso, o personagem de Java confessa-nos uma musa fugidia, por vezes delirante e imaterial. O melhor de tudo isso é que não se pode afirmar o laço carnal num perfeito estado de consumação. Assim, quiçá Rosa seja apenas um desvario de quem está acostumado a inventar mundos. E tal dúvida é trunfo nas mãos hábeis de Thiago.
Com toda a gama de observações do narrador, o livro opera num fluxo bastante ágil e que torna o desejo pela leitura algo ininterrupto. Java é um ser que intercruza camadas de vivência diante de um universo repleto de cenários. Se para o mundo o escritor pode passar despercebidamente, para Java o contrário seria impraticável. É impossível escapar de um mundo que lhe impõe imagens, sons, cores, sabores, encontros e desencontros. Definitivamente, seria inevitável deixar de pisar em cacos de vidro. Onde a famigerada inspiração? Pergunta que se dilui nas tentativas do personagem ante o vazio do papel.
Na procura por respostas, o protagonista do livro vai engendrando vias tanto concretas quanto abstratas, amalgamando tudo ao seu redemoinho cotidiano. Numa das passagens da obra, momento em que o personagem encontra-se com o Mestre Haxi, fica evidenciado que a realidade por si só não representa a única saída. É necessário imergir em outras dimensões da consciência para se ter alternativas criativas. A alegoria xamânica escolhida por Thiago chama a atenção por vislumbrar na figura do mestre um elemento de ponderações tanto filosóficas quanto estéticas, muito bem regado a doses de humor e crítica.
Dentro da saga de Java, somos todos cúmplices do modus operandi palpável da condição de autor. É a literatura abordando a literatura numa constatação sobre a qual o ato de escrever é pedra no meio do caminho, sensação permanente de Sísifo. Assim, são empurrados ladeira acima tanto prazeres quanto dores, faces inalienáveis de uma mesma moeda. O resultado do esforço fica para quando essa mesma pedra rolar do cume abaixo.
Não é à toa que Thiago recorre à poesia para iniciar e fechar sua obra. Esse ato de aliar-se a outro gênero nada tem a ver com um simples desejo de citação para impactar quem lê, mas, sobretudo com uma forma de evocar a importância de uma libertação, qual seja a de considerar que quem escreve, mesmo não se desgarrando de seu inferno pessoal, pode reduzir o peso de suas bagagens durante a extenuante travessia.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
Aquecido e alimentado, dentro do útero materno, sem mais nem menos, agora, eu não sou mais um feto, mas também não evoluí para o estado de corpo independente, espaço de uma geografia ilusória.
O planeta parece um útero que não pari. Sua gestação infinita não carece de óvulo nem de espermatozoides, num coito com o invisível seus fetos surgem e caminham rumo ao mesmo nada. Há aqueles que constroem a ilusão de que já estão prontos, seguem ritos sem sentido, ritmo da valsa de destruição, regida pelas próprias vítimas.
Contudo, há os como eu, os que com um olhar opaco, miram tudo, mas o gesto dos olhos não traz a sensação de pertencimento, pelo contrário, apenas cria uma distância que não pode ser percorrida, apenas sentida e de tão sentida parece nem existir: condenação ao vazio.
Lambo as paredes da placenta, queria ter dentes para machucar quem me prende neste lugar onde a lógica, na maioria das vezes é sinônimo de crueldade e na minoria é o algoz do bem estar.
Romper o cordão umbilical numa greve de fome irreversível! Morrer talvez me dê chance de existir de alguma maneira.
***
RETRATO DE UM CEGO
Um fotógrafo ajeitando um cego para um retrato, o olhar vazio do modelo, lábios cerrados como uma escultura do silêncio. O que passa em sua cabeça? Num pequeno banco sem encosto, ele parece não se incomodar, ali estará preso pela eternidade do instante, dentro de um retrato que nunca poderá comtemplar.
Sentir o flash nos olhos quase mortos, opacos e sábios como uma reencarnação de Tirésias. Civilizações em frente a sua lente, com qual foco poderá acolher todas as vibrações fantasmagóricas que acompanham aquele ser?
Aqui do outro lado seguem as nossas impressões excluídas do momento, mera contemplação que sente auxiliada pelo intelecto, privada pelo instinto não nomeado.
Fernando Rocha é paulistano, nascido em 1981, graduado em Letras, em 2013 publicou o livro de narrativas curtas Sujeite sem verbo (Confraria do vento), em 2014 publicou a novela Os laços da fita (Penalux). Colabora com as páginas Letras et cetera, Letras inacabadas e Meleca-Chiclete.
Eu leio nos teus lábios que a noite não virá
A noite não se deixa molestar por ti
A violência com que te resguardas de ti mesmo
Tática jurídica ou religiosa para que permaneças entre nós
O teu êxito precário e a evidência desproporcional de seu vazio
Saímos contigo inocentados para a noite
Não há negação de nada em nossa convivência
Perdemos uma boa razão para nos educarmos a todos
A noite revelada como um sacrário de conveniências
Nossas preocupações desaparecem ao minguar do dia
Não vemos vantagem alguma em nos atingirmos
Somos uma desordem guardada em vantagens
Eu quero rir de tudo à noite inteira
O teu silêncio não me recupera senão o riso
A tua ausência me estimula a rir por todos nós
A sombra é como uma morte acidentada em frases
Aos poucos te alimentas da tragédia que há em ti
O teu corpo cansado de rir de si mesmo
A tua noite querendo ser a negação de teus sentidos
A máscara de êxitos de uma noite envergonhada
Imagem: Floriano Martins
2.
Eu estou diretamente caindo em ti e não sei como evitá-lo
É tão rápido o movimento que mal posso identificá-lo
Nós todos precisamos de uma vida mais lenta para saber que é nossa
Estamos sempre à espreita de nossas falhas
Um perigo comum a todas as angústias
A sorte desfalecida
Por onde as linhas de tua lucidez começam a se desentender
A noite sem saber ao certo se é falta ou excesso
Em que parte de tua harmonia pode haver um inferno
Eu rio de tuas noites de horror que se imaginam esplêndidas
Seguimos caindo porque não encarnamos a queda
Como alguém que não consegue matar-se
A ideia da morte como um refúgio onde o riso não tem abrigo
A morte se ri ante a preocupação de leito ou túmulo
Eu beijo a tua noite sem repouso
Tuas lágrimas riem da tempestade de meus anseios
A noite não exige para si nenhum poder
Eu não sei por onde passas com tua queda desatada em sorte
Não conheço senão o infortúnio e sua falsa glória
Os versos com que cobres o olhar
A miserável alegria com que te renovas
Cair por um momento
Rezar além das forças
Tomar armas
Meter-se no cultivo mesquinho de piedades
Desfigurar a ingenuidade
Nenhum de nós sabe quantas noites pode morrer esta noite
Temos esta dificuldade milenar
Jamais eliminaremos todos os inimigos
O homem está composto pelo que sabe e o que não sabe de si
Não há outra ciência
Imagem: Floriano Martins
3.
O idealismo da morte de Deus é um bom verso
A metáfora do eterno retorno se confunde com a do eterno pecador
Agora eu não quero senão beijar-te
Tua morte cai por terra a cada beijo meu
Por onde a noite cai já não se pode amá-la e em meio a tantas …..quedas não há triunfo da parte de obra alguma
O equilíbrio é sempre uma maneira de negar-se
Como quem intimamente salta de uma ruína a outra e não se satisfaz …..com os espectros de sua derrota que lhe vão corroendo a alma …..inteira
O inferno nunca foi uma boa temporada para nenhum de nós
Eu pude ver a agonia encharcando teu olhar enquanto meu corpo …..explodia e se misturava aos destroços de tudo quanto me cercava
Eu vi a tarde toda refletida aos bagaços em teu olhar
O lugar inteiro sendo refeito em estilhaços
A loucura de um gesto arruinando as nossas vidas
Meu corpo mil vezes abrindo crateras de ódio
Vítimas por traduzir
Não haverá uma única pergunta
Nenhuma obra jamais soube remontar os retalhos daquilo que …..destruiu
Muitos nem sabem a qual espécie de sacrifício aludir quando ostentam os símbolos de sua arte
Eu vi o meu corpo detonado por dentro e nenhuma visão foi mais …..íntima daquela tarde se extinguindo em multiplicadas explosões
Nenhum fragmento percebeu a dimensão do sacrifício
Nenhuma nova tarde se reergueu dos escombros de meu corpo
Nós somos os pedaços de Deus retalhados dentro da linguagem
Nenhuma farsa consegue destruir-se por completo
Ainda carregamos conosco o resíduo de toda fé
Imagem: Floriano Martins
4.
Enquanto escreves me ponho no interior de teu corpo inacabado
Vejo como me corróis por dentro em meio à vitalidade da crença nas ….imagens
Teu pensamento se ocupa de sacrificar minhas convicções
Habito-me em plena consumição de princípios
Nenhuma evidência se livra de suas faíscas de agonia
Em tuas anotações percebo o quanto te perturba riscar os pontos ….trágicos em que a escrita não se realiza como uma saída além da ….assiduidade do presente
Talvez por isto não me reconheças em ardis que ainda imaginas ….poder suprimir
As vertigens se multiplicam a lotar comboios em tua imaginação
Eu tenho que te sufocar por dentro até que divises o abismo a que ….nos entregamos
Não terás como ignorar meu esforço enquanto segues escrevendo em ….espantoso frenesi as tuas supostas ciladas
Eu grito um nome enquanto escavo o horror de tantas crônicas
Uma estranha palavra que repercute como quem se desgarra de si ….mesmo como se fôssemos elucidados por tudo aquilo que nos falta
Já não se trata de uma simples bordoada do acaso e sim da intrigante ….rede de sofrimentos que o jogo requer
Nenhum de nós pode mais simplesmente dizer o próprio nome
O que escreves aos poucos se revela como sendo a morte de nossa ….secreta identidade
Um punhado de imagens debilita tua relação com o mundo e já não ….te encontras aqui para confirmar quem
Imagem: Floriano Martins
5.
Se não estás aqui eu já não tenho como desamparar-te
A astúcia é uma lancinante categoria da linguagem
Confundir a imensidão com um pequeno tumulto
E agora abrigar teus escritos em meu corpo enquanto a solidão se ….precipita sobre tua garganta a ponto de rasgar-te o vozeio dos ….nomes
Deito meu corpo para que sondes o que ali faz sentido
Qualquer um riria de nós agora que se descobre que não temos o que ….dizer
Ensaiamos a miséria humana até que ela se estenda ao sol e ….dissimulada anote os assuntos que jamais entenderemos
A singeleza de meu corpo nu pode ser um atrativo para a escrita sem ….que desesperes e queiras me transformar em método de tua ….solidão
Nós somos os nossos diferentes erros sempre conciliados da pior ….maneira
Meus olhos correm por dentro da falsa imagem que fazes de ti
Eu não posso beijar-te agora porque me evitas
Os corpos saltam de uma presunção a outra e as dores resvalam por ….um corredor sem fim onde a vontade é sempre negada em nome ….da natureza
A dor não vai acabar nunca e não me dirás teu nome
Eu não passo de uma vida explosiva que te acoberta
Adormecerás entre uma deformação e outra de teus sentidos e ….seguirás sem me dizer teu nome
Imagem: Floriano Martins
6.
Bater e bater e esganar segredos e espancar infortúnios e arrasar ….pequenos ideais e violentar e arrombar e retorcer e avariar ….angústias e depredar tolices e torcer o sentido de miudezas e ….sequer rir de tudo isto como se fosse um requerimento da ordem ….local
O meu corpo gélido não passa de uma evidência
A memória se mostrará imprevisível sob tortura
O meu corpo está ali dizimado por reticências e sem que aceites teus ….limites
Um instante que seja eu não me poria de pé senão para saudar-te a ….dedicação ao extravio
Mensagens são transmitidas de uma fonte a outra e já ninguém pode ….dizer que não sabe o que pensar a respeito
Estás diante da pobre sociedade de teu corpo vitimado
Os teus meninos fora de cena
Longe de tudo, a dor do mapa foragido de suas dimensões
O desastre noturno de gemidos vigiados e gritos derramados na mesa ….dos limites
Aqui se pode morrer à exaustão e compartilhar a morte como um ….estranho vício
O olhar se arrasta por uma imensidão voraz que escama vícios como ….peixes migratórios que alimentam a sofreguidão do mundo
Quando o mapa se esvazia das marcas de tua perversão então ….podemos tatear as pequenas sombras fatigadas que ….espantosamente resistem
Imagem: Floriano Martins
7.
O mundo progride por um efeito de perspectiva
De onde me vês eu posso garantir tua revolução ou quebrar a banca ….de apostas ou denunciar-te a alguma agência de notícias ou tornar- ….me comparsa de teu fingimento ou:
Trata-se de uma roupa sinuosa a da perspectiva e quando me despes ….teus olhos imensos podem não me encontrar mais em parte ….alguma
Não é certo que jamais sabemos para onde caminham nossos mortos
Estamos devastando tudo dentro de nós
As tuas ilusões se deixaram impregnar por imagens plantadas
Um mesmo catálogo de bustos anônimos e o esplendor da miséria ….com suas igrejas sepultadas no descampado da memória
Um fósforo à espera do incêndio
Um beijo à espera da conspiração
Árvore cujas folhas são olhos de serpente
Um novo cenário de vísceras pré-moldadas estimado para que todos ….nos sintamos bem
A câmara focando o rosto desfocado dela – meu nome é rosa eu fui ….espancada porque vi três homens um deles colocava algo no carro ….pipa que veio abastecer o bairro outro me batia muito e espalhava ….sal por onde me doía no corpo todo e nem precisava me dizer nada ….eu fui afligida pelo que compreendi – um rosto de evidências ….quebradiças
Não há um eu sublime
Identificamos crimes pelos quais não podemos responsabilizar ….ninguém, nem nos cabe amenizá-los
Não há justiça sem justiceiro ou regime político sem a saciedade de ….seus métodos
Eu tenho um nome um eco um fala-me e ninguém me diz nada
Há um relógio que brota de cada suspiro e me distrai com horas ….suspeitas como se a minha vida estivesse por um fio
Imagem: Floriano Martins
8.
Há uma cobiça de gozos degenerando um jeito mais livre de ser
Uma fiação de regras que são a base de todo constrangimento e ….fonte de aliciamento
Teus mortos esperam em longas filas por pequenos volumes ….indecifráveis e suas pétalas de racismo e genocídio
Prosperam à espera desses pacotes de vômitos e ejaculações ….ressecadas
Flores famintas mastigam os restos calcários de tua memória
Corpos arrastados sob medida
Calvário de pratos concebidos com seus lamentos elétricos
A miséria ressumando como um abismo acidental
Ninguém sabe mais por que nome chamar a si mesmo
Nem mesmo escavando em escombros encontraríamos a ….transparência perdida
A dor multiplicada por mares descorados que se agitam em ….casarões de formas emudecidas
Lugares que se desfalecem aterrorizados por apenas soletrarem teu ….nome
Postos de comando & faixas de greve & cercos policiais
A humanidade já não guarda segredo de si
Imagem: Floriano Martins
9.
A memória se reparte ao visitar escombros negros e índios em seu ….paiol metafísico
Habituada à sedutora condição de modelo vivo acabou por desterrar ….efeitos contrários
De que lado a carne se espelha no real sentido de tudo quanto toca é ….algo que não se sabe
O que foi repartido devorou a metade que ingenuamente aceitou tal ….condição
Falso dualismo que orienta a existência quer tenhamos ou não razão
E não a teremos nunca
Toda razão perdida se transfigura em deplorável quando reabilitada
É alto o preço que pagamos por haver sempre esperado alguém que ….indicasse o caminho
Eu espero
Tu esperas
As vísceras passam por aqui
O morticínio bate à porta invisível
A angústia afia seus estiletes e sonha com safenas fantásticas
Nós esperamos a espera perder o controle das horas
Em um mundo assim até os relógios oscilam entre a insônia e o ….pesadelo
Imagem: Floriano Martins
10.
Desfigurados pelo nome e sua circunstância
Lições de abismo com endereço certo
Ensinar aos filhos que a história se faz assim
Um enxame de deuses aguardando a noite
Eu queimo de vislumbres que me descrevem com uma minúcia de ….desapontamentos
A noite não foi parar em parte alguma enquanto estivemos aqui
Eu tenho essas marcas em meu corpo que são as tuas palavras ….queimadas em vão
Revelar o teu nome já não resolve nada
Não há código civil ou justiça divina
O flagrante sempre foi o grande prestidigitador
Morremos exatamente aqui: dissidentes: relutantes: indecisos:
As versões cinematográficas se expandem
O grande negócio das quedas
Jurisdição de trevas
O Estado sou eu em qualquer estado
Eu olho em teus olhos buscando meu erro
Não nos molestamos mais
Destilamos uma frialdade absoluta
Qualquer que seja a metáfora desenhada por um de nós
Um resquício último de humanidade
Eu leio nos teus lábios que a noite não virá
Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, tradutor, ensaísta e editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e o selo ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.
O cenário, uma sala com decoração minimalista. Só a reprodução de Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos, de Pablo Picasso, fixada na parede frontal, atrai de chofre os olhos do visitante.
Depois disso, percebe-se o tom suave do azul brisa do mar das paredes. Tudo isso, obviamente, se os olhos não captarem com mais interesse a silhueta feminina exposta no lado esquerdo do cômodo. Não se trata de uma reprodução, e isso logo se vê. Tampouco está decomposta como numa pintura cubista. Embora ele não a veja ainda por completo, o ser no seu todo, seus olhos já transbordam.
Ela está sentada numa cadeira de vime natural, o corpo todo resumido nesse espaço de fibras e reentrâncias. Os olhos, cerrados, parecem entregues aos caprichos da memória e seus labirintos. Ela não o viu entrar, ou finge não tê-lo visto. Finge, é o que se pode deduzir, pois a porta foi aberta sem nenhuma delicadeza. As dobradiças, carentes de lubrificante, rangeram alto. Ela, no entanto, permanece assim: a cabeça levemente jogada para trás, como quem tira um cochilo.
Ele para diante dela, esperando que abra os olhos e o veja. Espera inútil, alguém precisa lhe dizer. A mulher, movendo-se um pouco na cadeira (deixa, talvez, os pés escorrerem e tocarem a frieza do porcelanato), poderá até descerrar os olhos opacos e tentar focá-los na direção dessa voz que agora a cumprimenta. Tenta, sem desespero, buscar essa figura que ela imagina como sendo um homem alto e forte. Um homem que ela decompõe e vai remontando a seu bel-prazer.
***
DOIS
Aí ela inventava umas coisas, meio que no desespero. Quanto tempo isso dura?, devia se perguntar, enquanto tinha aqueles insights, aquelas malícias próprias de uma mulher tentando fincar as raízes do amor na areia movediça de encontros furtivos. Ele chegava, ela abria a porta, e lá estava a surpresa, a isca, a invenção do dia, o jeito de cativá-lo para que aquilo durasse pelo menos um dia a mais, aquele resto de tarde, quem sabe? Colocava uma música lenta, romântica de partir o coração em pedacinhos, colava o corpo ao dele, dança comigo?, e então dançavam, quase sem sair do lugar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. Ela queria que aquilo durasse uma eternidade, mesmo sabendo que iria acabar, acabar ainda reverberando, trincando por dentro, chamuscando a carne, assombrando a memória. Talvez por isso tivesse aqueles achados só para não afundar definitivamente no desespero, na sensação de finitude, no magma que sufoca até a morte. Você me carrega no colo até o quarto?, ela lhe pediu da última vez em que se encontraram.
***
ELA
É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sente-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.
Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Autor de Baque (contos), Tesselário (minicontos) e UM (romance).