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	<title>103ª Leva &#8211; 06/2015 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<title>103ª Leva &#8211; 06/2015 &#8211; Diversos Afins</title>
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		<title>Ciceroneando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Aug 2015 15:57:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[103ª Leva - 06/2015]]></category>
		<category><![CDATA[103ª Leva]]></category>
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					<description><![CDATA[Editorial da 103ª Leva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/IMG_0627p1.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="374" height="500" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/IMG_0627p1.jpg" alt="Caroline Pires" class="wp-image-10470" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/IMG_0627p1.jpg 374w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/IMG_0627p1-224x300.jpg 224w" sizes="(max-width: 374px) 100vw, 374px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Caroline Pires</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como <strong>Sara F. Costa</strong>, <strong>Samuel Malentacchi</strong>, <strong>Ana Horta</strong>, <strong>Nilcéia Kremer </strong>e <strong>Floriano Martins</strong>. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de <strong>Geraldo Lima</strong>, <strong>Márcia Denser </strong>e <strong>Fernando Rocha</strong>. Há uma atenta leitura de <strong>Sérgio Tavares </strong>para o novo livro de contos de <strong>Luís&nbsp;Roberto Amabile</strong>. No quesito cinema, <strong>Larissa Mendes </strong>convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, <strong>Graccho Braz Peixoto </strong>entrevista o cantor e compositor <strong>Mário Montaut</strong>. Por meio das escutas de <strong>Gustavo Rios</strong>, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de <strong>Thiago Mourão</strong>, é alvo das anotações de <strong>Fabrício Brandão</strong>. Com a vigorosa contribuição da artista plástica <strong>Caroline Pires</strong>, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os Leveiros</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>&nbsp;</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivopalavrai/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Aug 2015 15:45:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[103ª Leva - 06/2015]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Confabulário canino]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[José Roberto Amabile]]></category>
		<category><![CDATA[O livro dos cachorros]]></category>
		<category><![CDATA[Patuá]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Tavares]]></category>
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					<description><![CDATA[Sérgio Tavares resenha o novo livro de Luís Roberto Amabile]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Confabulário canino</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Sérgio Tavares</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-1.jpg"><img decoding="async" width="302" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-1.jpg" alt="" class="wp-image-15814" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-1.jpg 302w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-1-201x300.jpg 201w" sizes="(max-width: 302px) 100vw, 302px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Há uma corrente que defende que uma antologia de contos, mesmo de maneira involuntária, persegue uma unidade temática. Se isso for verdade, “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile, deixa rastros bem delineados na sua forma de investigação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seccionado em três departamentos: “Orelha em pé”, “Cio” e “Dentes à mostra”, a obra é composta por narrativas mobilizadas pela literatura, pelo sexo e pela violência, respectivamente. Dentro dessas divisões, no entanto, os formatos são os mais variados. Fazendo uma alusão ao título, há animais de diferentes portes e aspectos. Contos maiores, contos menores, minicontos, frases.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amabile também condiciona a estrutura a um exercício multifário. Alguns textos se resumem a um recorte de diálogos, do mesmo modo que, outros, a fluxos interruptos. Uma história se apresenta em modelo clássico para, em seguida, fracionar-se em duas colunas com mais de um relato. Há digressões, elipses. Vozes em primeira pessoa que passam para a terceira, depois voltam para a primeira. Um tipo de confabulário dissonante que encontra, justamente na irregularidade, a força sobre os assuntos a que se propõe literaturar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em “Sobre o não-dito”, que abre o livro, uma discussão a respeito do fazer ficcional vai se infiltrando paulatinamente no plano entendido como realidade, até arrevesar a história na própria história. A origem da autoficção é o que motiva “O frio”, texto seguinte, ao passo que “Espelho” é um jogo caricatural, uma ideia de paródia para um conto célebre do célebre escritor K., acerca de um homem e um inseto, ou uma amálgama disso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amabile joga a todo instante com a literatura e, automaticamente, joga com o leitor, que se vê numa zona de estranheza, levado a achar cômico algo que não deveria ser, mas sem entender o porquê da autocensura. “O herói peludinho” ilustra bem esse sentimento. Um adolescente feioso, gamado pela atriz Kim Basinger, começa a direcionar seus suores púberes a uma menina de sete anos. Não há gratuidade, mas a intenção já carrega o choque possível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A narrativa também deixa mais latente a obsessão do autor: a cultura dos anos 80. Embora os eixos temáticos sejam bem definidos, paira sobre esses uma atmosfera oitentista, substanciada por referências a filmes, músicas e programas de tevê. Em alguns casos, estas ocorrem de maneira bem sutil (Piuí Abacaxi&#8230;), mas estão lá, para os olhos treinados, pulverizadas por todo o livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O excelente “Buraco”, no qual dois relatos vão se confrontando até um final surpreendente, inaugura a busca por inspirações mais umbrosas, da seara da perda, da detenção da infância, do desejo e da repulsa pelo outro. Um cenário mais nitidamente urbano também se mostra; um tipo de selva de pedra onde personagens animalizados perseguem outros a fim de saciar vontades e apagar solidões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Umidade”, um encontro entre balzaquianas à procura de sexo casual e um vendedor de guarda-chuvas, dá partida a um elenco de taras, compulsões e fetiches, cujo senso de utilidade é melhor descrito nas últimas linhas do conto “Fumaça”: “E gozavam. Depois fumavam (…) E conversavam. Quando a fumaça se dissipava, voltavam para seus lares e por algum tempo a vida parecia mais suportável”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O vazio anímico também dá o tom da parte final, imantada por cenas de violência. “O que acontece no tempo de um tiro?”, reverbera a voz do conto “Gatilho”. Uma combinação de mínimos mecanismos para gerar uma tragédia, mas um intervalo. Todos os personagens estão ali, esperando para matar ou para serem mortos. Uma multiplicidade de mortes, como as descritas no conto “Como estou dirigindo?”, em que um taxista vai narrando causos de crimes durante uma corrida em que leva dois namorados, até mesmo aquela que pode servir para a literatura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com uma linguagem ágil, coloquial e bem polida, Amabile trafega por vários estilos, apostando na inventividade em detrimento da forma. “O livro dos cachorros” pode não ter raça específica, mas não deixa dúvida sobre o pedigree de contista do autor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Sérgio Tavares</em></strong><em> é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iii-38/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Aug 2015 15:38:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[103ª Leva - 06/2015]]></category>
		<category><![CDATA[Ana Horta]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
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					<description><![CDATA[A densidade do cotidiano nos versos da poeta Ana Horta ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Ana Horta</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/INTERNA.jpg"><img decoding="async" width="500" height="313" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/INTERNA.jpg" alt="caroline Pires" class="wp-image-12695" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/INTERNA.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/INTERNA-300x188.jpg 300w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Carolione Pires</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou sentada no limiar da casa<br />
Inteira e magra<br />
A rua abre-se no vidro cheio de reflexos<br />
Tecidos por aranhas diurnas<br />
Anoitecendo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seguro o quotidiano quieto<br />
Como um bicho de asas frágeis entre os dedos<br />
Um pássaro de porcelana viva tinge a manhã<br />
Do ocre da parede imaginado abre-se um esgar de humidade<br />
O sorriso de uma velha ausente<br />
Ou o caminho deserto descendo</p>



<p class="wp-block-paragraph">O gato jaz no centro inavegado da sala<br />
Dentro dos meus ossos faz imenso frio<br />
Já só poderia segurar uma violeta nas mãos descarnadas<br />
E atrás de mim uma amiga nua<br />
Um sonho desenrolado<br />
No papel roto da parede</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desabrocha-me uma flor no estômago<br />
Um lírio expandido de água morna<br />
Que me marca o centro líquido do corpo<br />
Depois arquejo e solto-me no umbigo de água<br />
Meridiano em volta da terra<br />
Em volta da bolsa minha dos alimentos</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isto não é a escrita<br />
Uma massa cega murada ao verso</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tão só a linha brilhante</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um nascimento inteiro pedindo água</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
Mastigo a maçã…<br />
O dia é polido como um espelho<br />
Mas impuro<br />
Tingido pelos sons da minha boca<br />
Pela curvatura voluptuosa do fruto que o preenche</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na quina dos dias há sempre o redondo de uma forma comestível<br />
Não posso estar sentada que uma folha me não fira os dedos lisos<br />
Clorofila indelével marcando a pele</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a sombra da maçã é suave e fria sobre o solo<br />
O estômago desfaz o suco amarelo do fruto<br />
Os intestinos lavados<br />
Prendem-te ao sulco lavrado na terra</p>



<p class="wp-block-paragraph">E tudo isto é talvez uma mesma luminosidade<br />
Ancorada debaixo dos olhos</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>Arte Poética</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
Sono<br />
Abro o olho silente da palavra<br />
As coisas monologam infindavelmente consigo próprias<br />
Opacas com o halo vaporoso do meu sono</p>



<p class="wp-block-paragraph">Reconduzo as palavras ao seu lugar mais ínfero<br />
Mas deixo-as sujas de terra: inteiras<br />
Esse é um desenho pleno, rugoso,<br />
Um desenho de barro e cal em que nos sabemos<br />
Sem nome<br />
Entre as linhas<br />
Esse pequeno toque<br />
Sombreação ligeira da mudez</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um cavalo desenha-se no vidro fosco do meu sonho<br />
Mas não lhe sei o corpo<br />
Isso<br />
O flanco<br />
Era já só pressentimento lasso da mão<br />
Dor<br />
Talvez memória côncava de pele<br />
Mas ainda…pertença<br />
O vácuo dos dedos aflige o futuro inteiro com o interior opaco do animal<br />
E este era o momento presente</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhuma dor latente nos mina:<br />
Somos apenas percorridos por um pequeno animal agudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Ana Horta</em></strong><em> nasceu em Lisboa, em 1975. Estudou Filosofia e Literatura na Universidade Nova de Lisboa e Fotografia e História de Arte no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual). Escreve poesia desde que se lembra e nunca mais conseguiu parar. Estes poemas pertencem ao seu primeiro livro: “Inventa uma voz no rodopio do corpo”, Black Sun Editores, Lisboa, Dezembro de 2002. Tem colaborado em diversas revistas de poesia e um segundo livro de poemas no prelo: “Ínfimo Vento, Volta d’Mar”, Outubro de 2015.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>
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		<title>Dedos de Prosa II</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Aug 2015 15:28:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[103ª Leva - 06/2015]]></category>
		<category><![CDATA[: Márcia Denser]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Memorial de Álvaro Gardel]]></category>
		<category><![CDATA[Todo Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[O ritual da despedida no conto de Márcia Denser]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Márcia Denser </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/IMG_0597.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="348" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/IMG_0597.jpg" alt="Caroline Pires" class="wp-image-10452" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/IMG_0597.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/IMG_0597-300x209.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Caroline Pires</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>MEMORIAL DE ÁLVARO GARDEL</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading"></h2>



<h6 class="wp-block-heading"><em>Em memória de meu pai por quem não pude chorar</em></h6>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi enterrado a 28 de maio com aquele casaco que eu lhe dera em 87, que um dos amantes havia me dado ou roubado ou não sei, era um casaco sal e pimenta vagamente inglês, imagine, ele, logo o velho, logo Álvaro que só se vestia no Minelli desde que eu tinha seis anos e minha irmã quatro, mas de todo modo foi enterrado com um casaco de bom corte, sal e pimenta, meio inglês, que roubei ou ganhei ou não sei que amante remoto eu poderia ter arranjado nos confins do naufrágio de 87 (aqui refiro-me ao meu drama pessoal que agora não vem ao caso) porque o dele (o do velho, o de Álvaro) o arrastou muito antes, vinte anos antes, mais ou menos no início de 70 quando eu o enterrei, nós (eu e minha irmã) o enterramos pela primeira vez, o velho louco, desabiondo y suicida, que aprendera filosofia, dados,&nbsp; timba e a poesia cruel de não pensar mais em si (como naquele tango de Mariano Mores). Por isso aceitou e usou o tal casaco dois números maior, dado ou roubado de alguém que já não precisaria de nenhum (um amante talvez morto ou preso ou exilado) sequer de mim que também já começava a naufragar naquele ano de 87 e meu pai – que só se vestia no Minelli desde 1947 – o aceitou com irônica resignação, o velho pilantra antecipadamente morto, como se soubesse ou adivinhasse ou antecipasse que o enterrariam nele pois que doravante repousa precariamente em paz (mas num excelente casaco de tweed inglês sal e pimenta) no columbário número 80 do cemitério de Vila Mariana, ala B.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">(Em 26.06)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um mês mandei inscrever a lápide com um nome e duas datas, premeditando futuramente o painel de azulejos ou ladrilhos, sem contar a inscrição que desta vez sim, mas não foi assim, posto ter sido informada que em três anos o município recolheria suas cinzas à gaveta de modo que seria bobagem gastar dinheiro por tão pouco, o administrador enxugava a testa coberto de razões e fuligem, os grossos óculos de míope, donde a não menos premeditada quanto tola inscrição <em>In Memorian de Álvaro Gardel, pai eternamente amado, suas filhas Júlia e Amanda &#8211; 29.05.24 &#8211; 27.05.97 </em>&nbsp;igualmente caput &#8211; três nomes e duas datas &#8211; sequer esta derradeira vaidade lhe foi concedida, velho (ou&nbsp; negada à mim?) mas tolamente eu insisto: então não restará nada e terá sido só, terá sido tudo: desejo e pó?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque eu não sabia ser tão tarde, tão inútil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Veja bem, não estou tentando penitenciar-me até porque para mim não há perdão nem castigo nem penitência nem remorso (não há pecado para minha estúpida inocência) apenas a obstinada pergunta sem resposta sobre o desígnio da vida de um homem resumido a duas datas e um nome, enterrado com um casaco de outrem (ele que só&#8230;) pai eternamente amado, desejo e pó, e então o silêncio das palavras não ditas, dos gestos desfeitos, enfrentar este vazio sem perguntas nem respostas que é meu pai definitivamente morto na antevéspera de completar 73 anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">(Em 26.05)</p>



<h6 class="wp-block-heading"></h6>



<h6 class="wp-block-heading"><em>&#8220;Sua chegada é repentina, inflama-se, extingue-se, é jogado fora&#8221;</em><br />
<em> (I Ching &#8211; hexagrama 30 &#8211; Li &#8211; A Chama, nove na quarta posição)</em></h6>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Desta vez meu pai está morrendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu deveria ou poderia ou não me restaria outra alternativa além de pegar um ônibus para ir vê-lo pela última vez no hospital quando sua segunda mulher ligou-me: seu pai está morrendo (morrendo entre estranhos, como tem vivido os últimos quinze anos, se fazendo de&nbsp; cego, surdo e burro).&nbsp; O hospital fica no quilômetro 27 da estrada de Itapecerica da Serra, com nome de santa que duvido existir alguma chamada Mônica, todavia ocorre que há oito anos &#8211; desde que vendi o apartamento, o automóvel, os telefones, os móveis de família, liquidei minha vida (ou o que materialmente restava dela) – e os móveis eram tudo o que restava – desde então experimento, digamos, o lado coletivo e anônimo da vida, o que significa andar de ônibus, metrô e assemelhados, sem contar o cotidiano mais pedestre, indo e vindo de lugares onde ninguém me espera, não sou benvinda (não sou mais), pois há muito não conto, não vivo, não valho o suficiente a ponto de alguém se dispor a perder tempo, gastar gasolina, em atenção ou amor ou amizade ou compaixão ou piedade comigo – eu, sombra de mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De forma que na condição de filha, a mais velha, a primogênita, teria que pegar um ônibus para Itapecerica da Serra, a norma exigia, os bons costumes, e ir ver o pai ainda uma vez, possivelmente a derradeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas seria bobagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque eu sei (eu e minha irmã sabemos) que é bobagem, que este cara está morrendo há 28 anos, que começou a morrer&nbsp; quando eu o internei pela primeira vez no sanatório para a cura de desintoxicação &#8211; ele, o alcoólatra,&nbsp; o desgarrado, o infeliz, o despojado dos bens desse mundo, até mesmo do amor e&nbsp; orgulho, o vaidoso&nbsp; dipsomaníaco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi em 71.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recordo-o vagando no escuro corredor do escritório onde eu trabalhava (meu primeiro emprego com carteira assinada e direito ao INPS). Vinha vacilante, macerado em álcool, subira sozinho os nove andares (enquanto os irmãos esperavam-no lá embaixo&nbsp; sentados no taxi com taxímetro ligado, que aliás <em>ele</em> pagaria) para pegar a guia de internação e eu lhe entreguei rapidamente o envelope, temendo ser vista ou que o vissem ou que nos vissem, mas ele desapareceu, um meio sorriso torto, sugado pelo elevador, reconduzido de volta à rua onde o aguardavam no taxi para levá-lo e interná-lo e trancá-lo e jogar a chave fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque eu apenas era jovem (ah, a juventude, essa falha impossível de se evitar em dado período da vida) naturalmente cruel e impiedosa como todos os jovens que acreditam com absoluta certeza na vitória e na esperança, no poder e na glória eternos e para muito breve.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então eu não tinha tempo para você, velho, para parar e olhar pra você, voltar-me e te ver despojado dos bens desse mundo – alcoólatra que naufragara, silencioso e hostil, inconquistável rendido indiferente, sem implorar (porque se ignorava despojado da&nbsp; sua fortuna pessoal, aquele capital inalienável de sanidade e lucidez ) – eu é que estava suja aqui dentro, porque a tua derrota, a tua rendição doía em mim, velho,&nbsp; então melhor te excluir do pensamento e do coração, fingir que você não existia, porque eu não ia me voltar para te olhar&nbsp; (estacar a meio caminho da vitória iminente) parar e olhar para você só para me sentir um lixo,&nbsp; por isso te internava e internava obsessivamente em sanatórios onde&nbsp; te deixava, te&nbsp; trancava e jogava a chave fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não vou pegar ônibus nenhum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aos 43 anos não se pega ônibus nenhum — além de velha, derrotada &#8211; e de certa forma sim, derrotada, mas precisamente por isso não vou pegar ônibus nenhum para te ver morrer, meu chapa, não definitivamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque nós merecíamos mais do que isto, alguém assim que nos acompanhasse, amigo e silencioso, nos pagasse um café à beira da estrada, a meio caminho do hospital da tal santa que não existe, oferecesse um saquinho de balas, nos estendesse o lenço voltando o rosto para não nos ver chorar e – sobretudo – porque era preciso que você me visse derradeiramente acompanhada, não mais a filha da sua orfandade, e então partisse consolado pelo fato de não me deixar tão só e&nbsp; já tão distante da breve vitória, sabendo-me amparada por alguém a conduzir-me sem contudo me carregar – qual troféu, qual fardo, tanto faz, depende do ponto de vista – posto que a mim já basta minha dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Solicito apenas tempo, lugar e o direito de chorar derradeiramente por meu pai cuja alma se apagou há 28 anos e hoje definitivamente de corpo e alma, duas vezes morto e acabou-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Terá sua morte sobrevida? Terá a alma sua palma? Sim ou não? Terá o espírito gás suficiente ou se extinguirá num sopro, rendido ao demônio do abismo? – como se nunca tivesse existido, porra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Decidi-me por não (aos 43 anos não se pega ônibus nenhum e muito menos nas ditas circunstâncias, etc.) ir, velho, acho que em nome duma derradeira dignidade, ao menos hoje, ao menos desta vez, a última, porque será para sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, ambos merecemos esta última dignidade – o transitus da vida à morte – de não estarmos sós, os passes de ônibus amassados entre os dedos, como se fosse tudo o que daqui levaríamos, a passagem para o outro lado – o óbolo de Caronte?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque não se joga fora o coração metendo-o num ônibus para dizer adeus apenas com um passe amarrotado no bolso, o símbolo desta sub-vida, desta sub-paisagem&nbsp; de postes e fios,&nbsp; deste sub-horizonte de cães onde transito (que é uma das tantas formas de estar morta) daí&nbsp; não haver muita diferença entre você e eu, meu chapa, porque também fui despojada, também me fodi – nem que estivesse na sua cola, velho – puxei você, puxou ao pai, eis o óbolo (o passe de retorno ao mundo dos mortos vivos).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada, sequer o bolo de mel, a coroa de flores, unicamente a moeda de Caronte a ser paga ao barqueiro pra te atravessar para o outro lado, entrando assim na morte com as mãos vazias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ficarei te devendo também isto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E devo-te ainda mais porque devo à mim, não sem razão de tal forma sou cobrada, conquanto toda humilhação seja uma penitência, todo fracasso, uma misteriosa vitória, todo acaso, um encontro marcado, toda morte, um suicídio, mas não vejo consolo algum nesta sórdida teleologia, pois&nbsp; existe algo em mim que não se compraz com palavras, não trafica com sonhos, não negocia e também não adiantaria, porque tem um limite até onde se pode enganar-se a si mesma (sem contar o descarado plágio avant la lettre borgiano).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por enquanto, devo a Deus e todo mundo pois que outra forma de explicar o fato de reiteradamente me voltarem as costas deixando-me há anos e à margem com dois passes de ônibus de ida e volta para o Limbo – do nada ao nada? E agora me abaixa Horácio (ou será Hovídio?) para lembrar que o homem é a soma das suas condições climáticas, é a soma do que se tem, uma problema de propriedades impuras que se desenrola fastidiosamente até o nada inexorável: desejo e pó.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem lastro, sem guia e a lembrança da breve, artificiosa vitória (esta, a misteriosa vitória? eu passo) que era falsa e eu não sabia, que não podia perdurar o meteoro cuja órbita já é queda, se inflama e extingue-se, a menos que não tivesse de ser assim, a menos que sob os escombros ainda seja a carne, sempre a velha carne, a voz do sangue que a tudo reivindica, inclusive o direito à dor (a esta dor, a minha, a da filha, o ônus da primogenitura) pessoal, intransferível e única dor, a de chorar o pai (o único) enquanto agoniza (apenas uma vez ) e desta vez (de uma vez por todas) para sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Post-Scripitum</strong>: O presente relato foi escrito a 26 de junho, um mês após o enterro, e 26 de maio do mesmo ano, na madrugada anterior à morte (que intuí inevitável embora sem dados da realidade para comprová-lo) aproximadamente durante os momentos de agonia. De modo que esta oração fúnebre escreveu-se furiosamente, desenredando-se em sentido inverso, ou seja, para trás, para baixo e de costas (a despeito de mim)&nbsp; –&nbsp; direto ao centro dilacerado e oculto da dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>A escritora paulistana <strong>Márcia Denser</strong> publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Janela Poética IV</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Aug 2015 15:15:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[103ª Leva - 06/2015]]></category>
		<category><![CDATA[adicta]]></category>
		<category><![CDATA[Antiga]]></category>
		<category><![CDATA[auto retrato]]></category>
		<category><![CDATA[in process]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Nilcéia kremer]]></category>
		<category><![CDATA[nômade]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[ungida]]></category>
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					<description><![CDATA[A veia libertária correndo na poética de Nilcéia Kremer]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Nilcéia Kremer</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="352" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-2.jpg" alt="" class="wp-image-15817" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-2.jpg 352w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-2-211x300.jpg 211w" sizes="auto, (max-width: 352px) 100vw, 352px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Caroline Pires</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Antiga</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho cabelos que alcançam o teto<br />
a ordem inversa das coisas cravada no peito<br />
a gravidade do gozo<br />
o temor dos pés no chão<br />
o último suspiro além boca</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trago gotas de alcatrão na memória<br />
e uma pífia retórica<br />
coisa de quem nasceu antiga<br />
blefa com a vida<br />
e não tranca as portas da alma</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Adicta</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não menos que o vento<br />
que te lambeu agora<br />
não mais que as horas<br />
que custam passar<br />
soo o interstício<br />
principio o precipício<br />
que dorme em cada célula<br />
libélula diplomada<br />
em jornada atemporal</p>



<p class="wp-block-paragraph">Adicta de insetos<br />
veto monstros alheios<br />
meu veio é agridoce<br />
como a vida<br />
qualquer semelhança<br />
não é mera coincidência<br />
é conivência de sol<br />
e sal</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Auto retrato</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho esta espera<br />
estampada no rosto<br />
um lusco fusco na voz<br />
martírio de inquietos<br />
fechadura conferida mil vezes<br />
praga que não se entrega<br />
Sou o que fica<br />
a tiririca na grama<br />
sou o acordo necessário<br />
quando todos foram<br />
o voluntário das palavras<br />
a larva dos dias<br />
a agonia sabor chocolate<br />
que late late<br />
e abocanha vazios</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou o cio em carne<br />
promessas descumpridas<br />
feridas cicatrizadas<br />
desvarios</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ungida</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela gritava impropérios<br />
cacos na boca<br />
rouca e descabelada<br />
Ela gritava impropérios<br />
não há critérios em desanuviar<br />
cingiu a testa marcada<br />
saiu da engorda<br />
negou o abate<br />
fez alarde<br />
acertou o tom<br />
batom na boca<br />
vermelho na veia<br />
quente<br />
Ela gritou impropérios<br />
e o império de ajustes caiu<br />
Ela juntou os pedaços<br />
de coração quebrantado<br />
desajustada e desmedida<br />
ungida em amor<br />
Próprio</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nômade</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">..</span>pinçar coágulos encravados<br />
redesenhar alentos<br />
rede<br />
moinhos de todos os matizes<br />
perder a conta que acrescenta<br />
sustentar-se por tentáculos<br />
abraçar variáveis que mudam de estação<br />
um porto volúvel<br />
um corpo aparente<br />
de crescentes naufrágios<br />
imensidão de rascunhos<br />
um ser inscrito em palavras</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em><a href="http://caminhantedosolvermelho.blogspot.com.br/)">Nilcéia Kremer</a></em></strong><em> é gaúcha, ariana nascida em 80. Das Letras por formação tornou-se conjuradora de palavras. Apaixonada pela arte já provou um pouquinho de várias linguagens, e descobriu que o melhor sabor se dá no encontro entre elas. Crê na arte comunhão. Tem poemas publicados nas revistas Plural (Scenarium), Mallarmargens, Limbo e O Emplasto.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Gramofone</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/gramofone-38/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Aug 2015 15:06:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[103ª Leva - 06/2015]]></category>
		<category><![CDATA[A Flauta Vértebra]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[disco]]></category>
		<category><![CDATA[Gramofone]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Rios]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[Salvador]]></category>
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					<description><![CDATA[Gustavo Rios evoca as sonoridades da banda A Flauta Vértebra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Gustavo Rios</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A FLAUTA VÉRTEBRA – A FLAUTA VÉRTEBRA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/capa.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/capa.jpg" alt="Flauta Vértebra" class="wp-image-10438" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/capa.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/capa-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/capa-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu suspeitaria de imediato só com a simples menção do nome da banda: teria algo de pernóstico, e talvez me trouxesse de chofre a imagem batida de jovens barbados – as mulheres teriam rostos pálidos -, meio tristonhos e bem antipáticos em seus ideais de arte. Do tipo que força a barra com letras difíceis. Seria algo excessivamente intelectual e vazio; uma coisa estranha, monótona.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A lógica para isso é simples: dentro desse meu novo mundo (o dos quarenta e tantos), supor que algumas pessoas pensaram no <em>Maiakovski</em> para nomear a própria banda seria motivo suficiente para me manter afastado. E não queimar óleo. Nem pestanas. E nem digo isso pelo poeta, nem pelo poema – um achado, para mim que não conhecia o texto. Mas pela pretensão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Flauta Vértebra, além de ser o nome de um poema do <em>Vladimir</em>, é basicamente uma banda baiana, da capital, com cerca de sete anos de existência com interrupções. Formada por cinco jovens que estão na batalha para mostrar sua obra – aquele trabalho espartano de convencer um público escasso numa cidade de chances escassas &#8211; notadamente diferente. E de extrema qualidade. Que começa a ganhar projeção neste Ep produzido pelo sempre irrequieto Irmão Carlos (líder da banda Irmão Carlos e O Catado e mentor do Tv Caverna, do Youtube) e prensado pela parceria Bigbross Records / Brechó Discos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além de saber que eles não vieram para serem cópias das cópias, nem muito menos prisioneiros de conceitos obtusos do que pode ser música original, A Flauta Vértebra possui a leveza de quem não se incomoda com a responsabilidade de ser, atualmente, uma das coisas mais legais e interessantes que estão acontecendo por aqui. Não por não saberem onde pisam. Mas pela percepção clara de que assim o trabalho flui. E não só em termos de musicalidade, mas também em relação às letras belamente interpretadas pela vocalista – figura central do projeto, uma espécie de guia, de ponto de equilíbrio -, dotadas de inesperada maturidade. Com o peso e a fúria de belos poemas, perfeitamente encaixados nos arranjos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-3.jpg" alt="" class="wp-image-15821" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-3.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-3-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">A Flauta Vértebra / Foto: Gether Ferreira</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que pensar quando na faixa “Renato” nos deparamos com coisas tais como: “Num momento eu me sinto bicho, / É tão estranho / Desencantar a nossa história / É falsa a claridade / Não foi sonho / Não consegui dormir / Não vê que os que dormem são reféns” e, sem saber o que concluir, resolvemos seguir em frente? &nbsp;O que de fato podemos supor quando percebemos que em “Revolução (parte 1)” estamos diante de uma das mais interessantes, pessoais e francas abordagens sobre o que fizemos e deixamos de fazer em junho de 2013, quando as ruas foram tomadas em nome de algo &#8211; enquanto a PM desencavava seu estoque de lacrimogênio e das suas bombas de efeito “moral”?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que dizer, afinal de contas, da guitarra que dá inicio à leveza da faixa “Polaroid”, resultando na combinação belíssima entre o teclado, o baixo e a bateria de Breno Pires (bastante competente e talentoso), numa espécie de celebração ao que pode ser legítimo, arte, música? (“Fotos instantâneas trazem doses espontâneas de ilusão / E ao mesmo tempo a lente mostra a gente / O que há de mau e o que há de bom / Eu quero mesmo é seguir viagem na canção / Ah, e já é dia no Japão / Tenha um bom dia então”). E de “Epílogo Atroz” que, além de ser um rock divertido e bem executado, contém a surpresa de frases como: “A festa acabou / A porcelana que encobria o seu rosto se quebrou / Esse suor gelado que escorre dos meus poros / Também te atacou / As cortinas se fecharam, meu bem / Ninguém recita seus idílios, suas trovas, seus sonetos / Ninguém engana ninguém / Ninguém engana ninguém”?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sohl (vocal), Carlos Vilas Boas (guitarra), André Rodrigues (baixo), Ricardo Vilas Boas (teclado) e Tita Gracille (a mais nova baterista, no lugar do já citado Breno Pires) não refugam as próprias influências. Que podem muito confundir a todos, pelo simples fato de serem bem aproveitadas e servirem como lastro para uma musicalidade própria, uma postura nova diante de tudo – e não como cópia da cópia da cópia, se vendendo como a última novidade na grande feira das obviedades. Podemos perceber algo dos Secos e Molhados. Arranjos que lembram alguma coisa do Tropicalismo, passando pelo rock classicão e pela fatia mais interessante de toda a nossa MPB, atual e antiga.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos dizer que são cinco faixas. Num Ep que vale a pena escutar. São cinco jovens que estão tornando as coisas bem melhores para a música. E que gostam de correr riscos, ainda que seja de uma maneira assombrosamente leve. Para a sorte de todos nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/XhNqO63CcqY" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Gustavo Rios</em></strong><em> é baiano. Autor do livro de contos “Allen Mora no Térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), dentre outros.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivodapalavraii/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Aug 2015 14:53:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[103ª Leva - 06/2015]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Editora Patuá]]></category>
		<category><![CDATA[Fabrício Brandão]]></category>
		<category><![CDATA[Java Jota]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Thiago Mourão]]></category>
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					<description><![CDATA[Um olhar para “Java Jota”, romance de Thiago Mourão]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>O acossar do abismo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Fabrício Brandão</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/capa-livro.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="294" height="450" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/capa-livro.jpg" alt="capa-livro" class="wp-image-12690" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/capa-livro.jpg 294w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/capa-livro-196x300.jpg 196w" sizes="auto, (max-width: 294px) 100vw, 294px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">O indivíduo traça a rota fugaz de suas projeções. Alimenta a carne com pulsões de toda ordem. Intenta um gozo que sabe a um átimo entre o vivido e o inventado. Eleva o objeto de seu desejo a um patamar no qual raras são as certezas. Em última instância, esse mesmo indivíduo é a corporificação de toda a sorte de abstrações dispostas pelos caminhos da criação. Um pouco disso tudo é o ser Java Jota, protagonista do romance homônimo de Thiago Mourão, lançado recentemente pela Editora Patuá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao iniciar as pungentes linhas de seu mais novo livro, Thiago conduz o leitor num verdadeiro jogo de espelhos, através do qual tudo o que se vê reflete um misto de sensações que estabelecem um curioso nivelamento entre quem narra e quem vivencia os acontecimentos. Seriam, então, criador e criatura a mesma pessoa? Mais ainda, ao leitor é dado algum status de protagonismo? São questões que surgem à medida que uma espécie de triângulo de cumplicidades sugere uma harmonização de papéis se pensarmos nesses três eixos de atuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eis que um embate serpenteia pelos caminhos do livro. É Java Jota que, encarnando a sina de autor, revela-se um personagem em busca da consolidação de sua obra. Nesse ínterim, o protagonista almeja cruzar os desertos da criação, tendo por musa inspiradora a figura feminina de Rosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em meio aos trajetos insones de sua faceta de escritor, Java questiona suas potencialidades e, como qualquer mortal que pretende êxito em sua razão de existir, põe em xeque suas investidas. Nesse momento, as aproximações com a realidade agigantam-se, sobretudo quando percebemos a tarefa hercúlea que um escritor carrega em si. Com tudo isso, Thiago Mourão não expõe gratuitamente a condição de quem escreve. Pelo contrário, supera expectativas e molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma sucessão de imagens permeia as andanças de Java Jota. Todas elas bem encadeadas e servindo ao propósito de vislumbrar algum sentido possível para o caos que lhe faz companhia permanente. Como num frame, a paixão por Rosa é um se deixar entregar diante de uma memória hedonista. Tal como a incerteza de fundar uma obra literária com sucesso, o personagem de Java confessa-nos uma musa fugidia, por vezes delirante e imaterial. O melhor de tudo isso é que não se pode afirmar o laço carnal num perfeito estado de consumação. Assim, quiçá Rosa seja apenas um desvario de quem está acostumado a inventar mundos. E tal dúvida é trunfo nas mãos hábeis de Thiago.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com toda a gama de observações do narrador, o livro opera num fluxo bastante ágil e que torna o desejo pela leitura algo ininterrupto. Java é um ser que intercruza camadas de vivência diante de um universo repleto de cenários. Se para o mundo o escritor pode passar despercebidamente, para Java o contrário seria impraticável. É impossível escapar de um mundo que lhe impõe imagens, sons, cores, sabores, encontros e desencontros. Definitivamente, seria inevitável deixar de pisar em cacos de vidro. Onde a famigerada inspiração? Pergunta que se dilui nas tentativas do personagem ante o vazio do papel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na procura por respostas, o protagonista do livro vai engendrando vias tanto concretas quanto abstratas, amalgamando tudo ao seu redemoinho cotidiano. Numa das passagens da obra, momento em que o personagem encontra-se com o Mestre Haxi, fica evidenciado que a realidade por si só não representa a única saída. É necessário imergir em outras dimensões da consciência para se ter alternativas criativas. A alegoria xamânica escolhida por Thiago chama a atenção por vislumbrar na figura do mestre um elemento de ponderações tanto filosóficas quanto estéticas, muito bem regado a doses de humor e crítica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dentro da saga de Java, somos todos cúmplices do <em>modus operandi</em> palpável da condição de autor. É a literatura abordando a literatura numa constatação sobre a qual o ato de escrever é pedra no meio do caminho, sensação permanente de Sísifo. Assim, são empurrados ladeira acima tanto prazeres quanto dores, faces inalienáveis de uma mesma moeda. O resultado do esforço fica para quando essa mesma pedra rolar do cume abaixo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é à toa que Thiago recorre à poesia para iniciar e fechar sua obra. Esse ato de aliar-se a outro gênero nada tem a ver com um simples desejo de citação para impactar quem lê, mas, sobretudo com uma forma de evocar a importância de uma libertação, qual seja a de considerar que quem escreve, mesmo não se desgarrando de seu inferno pessoal, pode reduzir o peso de suas bagagens durante a extenuante travessia.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/a-revista-2/leveiros/">Fabrício Brandão</a></em></strong><em> é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>Dedos de Prosa III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-36/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Aug 2015 13:52:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[103ª Leva - 06/2015]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Ex-feto]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[minicontos]]></category>
		<category><![CDATA[Retrato de um cego.]]></category>
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					<description><![CDATA[Duas miragens mínimas de Fernando Rocha]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Fernando Rocha</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="355" height="500" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna.jpg" alt="Caroline Pires" class="wp-image-10391" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna.jpg 355w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/interna-213x300.jpg 213w" sizes="auto, (max-width: 355px) 100vw, 355px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Caroline Pires</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EX-FETO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquecido e alimentado, dentro do útero materno, sem mais nem menos, agora, eu não sou mais um feto, mas também não evoluí para o estado de corpo independente, espaço de uma geografia ilusória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O planeta parece um útero que não pari. Sua gestação infinita não carece de óvulo nem de espermatozoides, num coito com o invisível seus fetos surgem e caminham rumo ao mesmo nada. Há aqueles que constroem a ilusão de que já estão prontos, seguem ritos sem sentido, ritmo da valsa de destruição, regida pelas próprias vítimas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, há os como eu, os que com um olhar opaco, miram tudo, mas o gesto dos olhos não traz a sensação de pertencimento, pelo contrário, apenas cria uma distância que não pode ser percorrida, apenas sentida e de tão sentida parece nem existir: condenação ao vazio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lambo as paredes da placenta, queria ter dentes para machucar quem me prende neste lugar onde a lógica, na maioria das vezes é sinônimo de crueldade e na minoria é o algoz do bem estar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Romper o cordão umbilical numa greve de fome irreversível! Morrer talvez me dê chance de existir de alguma maneira.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RETRATO DE UM CEGO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Um fotógrafo ajeitando um cego para um retrato, o olhar vazio do modelo, lábios cerrados como uma escultura do silêncio. O que passa em sua cabeça? Num pequeno banco sem encosto, ele parece não se incomodar, ali estará preso pela eternidade do instante, dentro de um retrato que nunca poderá comtemplar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentir o flash nos olhos quase mortos, opacos e sábios como uma reencarnação de Tirésias. Civilizações em frente a sua lente, com qual foco poderá acolher todas as vibrações fantasmagóricas que acompanham aquele ser?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui do outro lado seguem as nossas impressões excluídas do momento, mera contemplação que sente auxiliada pelo intelecto, privada pelo instinto não nomeado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Fernando Rocha</em></strong><em> é paulistano, nascido em 1981, graduado em Letras, em 2013 publicou o livro de narrativas curtas Sujeite sem verbo (Confraria do vento), em 2014 publicou a novela Os laços da fita (Penalux). Colabora com as páginas Letras et cetera, Letras inacabadas e Meleca-Chiclete. </em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética V</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-v-35/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Aug 2015 13:28:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[103ª Leva - 06/2015]]></category>
		<category><![CDATA[Enigmas Circulares]]></category>
		<category><![CDATA[Floriano Martins]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
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					<description><![CDATA[Enigmas Circulares nos versos de Floriano Martins]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>ENIGMAS CIRCULARES</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Floriano Martins</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-01.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-01.jpg" alt="Enigmas circulares 01" class="wp-image-10403" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-01.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-01-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-01-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Floriano Martins</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">1.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu leio nos teus lábios que a noite não virá<br />
A noite não se deixa molestar por ti<br />
A violência com que te resguardas de ti mesmo<br />
Tática jurídica ou religiosa para que permaneças entre nós<br />
O teu êxito precário e a evidência desproporcional de seu vazio</p>



<p class="wp-block-paragraph">Saímos contigo inocentados para a noite<br />
Não há negação de nada em nossa convivência<br />
Perdemos uma boa razão para nos educarmos a todos<br />
A noite revelada como um sacrário de conveniências<br />
Nossas preocupações desaparecem ao minguar do dia</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não vemos vantagem alguma em nos atingirmos<br />
Somos uma desordem guardada em vantagens<br />
Eu quero rir de tudo à noite inteira<br />
O teu silêncio não me recupera senão o riso<br />
A tua ausência me estimula a rir por todos nós</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra é como uma morte acidentada em frases<br />
Aos poucos te alimentas da tragédia que há em ti<br />
O teu corpo cansado de rir de si mesmo<br />
A tua noite querendo ser a negação de teus sentidos<br />
A máscara de êxitos de uma noite envergonhada</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-02.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-02.jpg" alt="Enigmas circulares 02" class="wp-image-10408" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-02.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-02-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-02-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Floriano Martins</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu estou diretamente caindo em ti e não sei como evitá-lo<br />
É tão rápido o movimento que mal posso identificá-lo<br />
Nós todos precisamos de uma vida mais lenta para saber que é nossa<br />
Estamos sempre à espreita de nossas falhas<br />
Um perigo comum a todas as angústias</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sorte desfalecida</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por onde as linhas de tua lucidez começam a se desentender<br />
A noite sem saber ao certo se é falta ou excesso<br />
Em que parte de tua harmonia pode haver um inferno<br />
Eu rio de tuas noites de horror que se imaginam esplêndidas<br />
Seguimos caindo porque não encarnamos a queda<br />
Como alguém que não consegue matar-se</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia da morte como um refúgio onde o riso não tem abrigo<br />
A morte se ri ante a preocupação de leito ou túmulo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu beijo a tua noite sem repouso<br />
Tuas lágrimas riem da tempestade de meus anseios<br />
A noite não exige para si nenhum poder<br />
Eu não sei por onde passas com tua queda desatada em sorte<br />
Não conheço senão o infortúnio e sua falsa glória<br />
Os versos com que cobres o olhar<br />
A miserável alegria com que te renovas</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cair por um momento<br />
Rezar além das forças<br />
Tomar armas<br />
Meter-se no cultivo mesquinho de piedades<br />
Desfigurar a ingenuidade</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhum de nós sabe quantas noites pode morrer esta noite<br />
Temos esta dificuldade milenar<br />
Jamais eliminaremos todos os inimigos</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem está composto pelo que sabe e o que não sabe de si<br />
Não há outra ciência</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-03.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-03.jpg" alt="Enigmas circulares 03" class="wp-image-10409" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-03.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-03-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-03-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Floriano Martins</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">3.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O idealismo da morte de Deus é um bom verso<br />
A metáfora do eterno retorno se confunde com a do eterno pecador<br />
Agora eu não quero senão beijar-te<br />
Tua morte cai por terra a cada beijo meu<br />
Por onde a noite cai já não se pode amá-la e em meio a tantas<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;..</span>quedas não há triunfo da parte de obra alguma</p>



<p class="wp-block-paragraph">O equilíbrio é sempre uma maneira de negar-se<br />
Como quem intimamente salta de uma ruína a outra e não se satisfaz<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;..</span>com os espectros de sua derrota que lhe vão corroendo a alma<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;..</span>inteira</p>



<p class="wp-block-paragraph">O inferno nunca foi uma boa temporada para nenhum de nós</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu pude ver a agonia encharcando teu olhar enquanto meu corpo<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;..</span>explodia e se misturava aos destroços de tudo quanto me cercava<br />
Eu vi a tarde toda refletida aos bagaços em teu olhar<br />
O lugar inteiro sendo refeito em estilhaços<br />
A loucura de um gesto arruinando as nossas vidas<br />
Meu corpo mil vezes abrindo crateras de ódio</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vítimas por traduzir</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não haverá uma única pergunta<br />
Nenhuma obra jamais soube remontar os retalhos daquilo que<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;..</span>destruiu<br />
Muitos nem sabem a qual espécie de sacrifício aludir quando ostentam os símbolos de sua arte</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu vi o meu corpo detonado por dentro e nenhuma visão foi mais<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;..</span>íntima daquela tarde se extinguindo em multiplicadas explosões<br />
Nenhum fragmento percebeu a dimensão do sacrifício<br />
Nenhuma nova tarde se reergueu dos escombros de meu corpo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós somos os pedaços de Deus retalhados dentro da linguagem<br />
Nenhuma farsa consegue destruir-se por completo<br />
Ainda carregamos conosco o resíduo de toda fé</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-04.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-04.jpg" alt="Enigmas circulares 04" class="wp-image-10412" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-04.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-04-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-04-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Floriano Martins</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">4.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto escreves me ponho no interior de teu corpo inacabado<br />
Vejo como me corróis por dentro em meio à vitalidade da crença nas<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>imagens<br />
Teu pensamento se ocupa de sacrificar minhas convicções<br />
Habito-me em plena consumição de princípios<br />
Nenhuma evidência se livra de suas faíscas de agonia</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em tuas anotações percebo o quanto te perturba riscar os pontos<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>trágicos em que a escrita não se realiza como uma saída além da<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>assiduidade do presente<br />
Talvez por isto não me reconheças em ardis que ainda imaginas<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>poder suprimir<br />
As vertigens se multiplicam a lotar comboios em tua imaginação<br />
Eu tenho que te sufocar por dentro até que divises o abismo a que<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>nos entregamos<br />
Não terás como ignorar meu esforço enquanto segues escrevendo em<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>espantoso frenesi as tuas supostas ciladas</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu grito um nome enquanto escavo o horror de tantas crônicas<br />
Uma estranha palavra que repercute como quem se desgarra de si<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>mesmo como se fôssemos elucidados por tudo aquilo que nos falta<br />
Já não se trata de uma simples bordoada do acaso e sim da intrigante<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>rede de sofrimentos que o jogo requer<br />
Nenhum de nós pode mais simplesmente dizer o próprio nome</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que escreves aos poucos se revela como sendo a morte de nossa<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>secreta identidade<br />
Um punhado de imagens debilita tua relação com o mundo e já não<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>te encontras aqui para confirmar quem</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-051.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-051.jpg" alt="Enigmas circulares 05" class="wp-image-10415" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-051.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-051-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-051-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Floriano Martins</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">5.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se não estás aqui eu já não tenho como desamparar-te<br />
A astúcia é uma lancinante categoria da linguagem<br />
Confundir a imensidão com um pequeno tumulto<br />
E agora abrigar teus escritos em meu corpo enquanto a solidão se<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>precipita sobre tua garganta a ponto de rasgar-te o vozeio dos<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>nomes<br />
Deito meu corpo para que sondes o que ali faz sentido</p>



<p class="wp-block-paragraph">Qualquer um riria de nós agora que se descobre que não temos o que<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>dizer<br />
Ensaiamos a miséria humana até que ela se estenda ao sol e<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>dissimulada anote os assuntos que jamais entenderemos<br />
A singeleza de meu corpo nu pode ser um atrativo para a escrita sem<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>que desesperes e queiras me transformar em método de tua<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>solidão<br />
Nós somos os nossos diferentes erros sempre conciliados da pior<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>maneira<br />
Meus olhos correm por dentro da falsa imagem que fazes de ti</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu não posso beijar-te agora porque me evitas<br />
Os corpos saltam de uma presunção a outra e as dores resvalam por<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>um corredor sem fim onde a vontade é sempre negada em nome<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>da natureza<br />
A dor não vai acabar nunca e não me dirás teu nome<br />
Eu não passo de uma vida explosiva que te acoberta<br />
Adormecerás entre uma deformação e outra de teus sentidos e<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>seguirás sem me dizer teu nome</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-06.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-06.jpg" alt="Enigmas circulares 06" class="wp-image-10417" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-06.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-06-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-06-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Floriano Martins</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">6.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bater e bater e esganar segredos e espancar infortúnios e arrasar<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>pequenos ideais e violentar e arrombar e retorcer e avariar<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>angústias e depredar tolices e torcer o sentido de miudezas e<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>sequer rir de tudo isto como se fosse um requerimento da ordem<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>local<br />
O meu corpo gélido não passa de uma evidência<br />
A memória se mostrará imprevisível sob tortura</p>



<p class="wp-block-paragraph">O meu corpo está ali dizimado por reticências e sem que aceites teus<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>limites<br />
Um instante que seja eu não me poria de pé senão para saudar-te a<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>dedicação ao extravio<br />
Mensagens são transmitidas de uma fonte a outra e já ninguém pode<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>dizer que não sabe o que pensar a respeito</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estás diante da pobre sociedade de teu corpo vitimado<br />
Os teus meninos fora de cena<br />
Longe de tudo, a dor do mapa foragido de suas dimensões</p>



<p class="wp-block-paragraph">O desastre noturno de gemidos vigiados e gritos derramados na mesa<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>dos limites<br />
Aqui se pode morrer à exaustão e compartilhar a morte como um<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>estranho vício<br />
O olhar se arrasta por uma imensidão voraz que escama vícios como<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>peixes migratórios que alimentam a sofreguidão do mundo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o mapa se esvazia das marcas de tua perversão então<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>podemos tatear as pequenas sombras fatigadas que<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>espantosamente resistem</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-07.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-07.jpg" alt="Enigmas circulares 07" class="wp-image-10418" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-07.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-07-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-07-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Floriano Martins</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">7.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo progride por um efeito de perspectiva<br />
De onde me vês eu posso garantir tua revolução ou quebrar a banca<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>de apostas ou denunciar-te a alguma agência de notícias ou tornar-<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>me comparsa de teu fingimento ou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trata-se de uma roupa sinuosa a da perspectiva e quando me despes<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>teus olhos imensos podem não me encontrar mais em parte<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>alguma<br />
Não é certo que jamais sabemos para onde caminham nossos mortos<br />
Estamos devastando tudo dentro de nós</p>



<p class="wp-block-paragraph">As tuas ilusões se deixaram impregnar por imagens plantadas<br />
Um mesmo catálogo de bustos anônimos e o esplendor da miséria<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>com suas igrejas sepultadas no descampado da memória</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um fósforo à espera do incêndio<br />
Um beijo à espera da conspiração<br />
Árvore cujas folhas são olhos de serpente</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um novo cenário de vísceras pré-moldadas estimado para que todos<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>nos sintamos bem<br />
A câmara focando o rosto desfocado dela – <em>meu nome é rosa eu fui</em><br />
<em> <span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>espancada porque vi três homens um deles colocava algo no carro</em><br />
<em> <span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>pipa que veio abastecer o bairro outro me batia muito e espalhava</em><br />
<em> <span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>sal por onde me doía no corpo todo e nem precisava me dizer nada</em><br />
<em> <span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>eu fui afligida pelo que compreendi</em> – um rosto de evidências<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>quebradiças</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não há um <em>eu sublime</em><br />
Identificamos crimes pelos quais não podemos responsabilizar<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>ninguém, nem nos cabe amenizá-los<br />
Não há justiça sem justiceiro ou regime político sem a saciedade de<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>seus métodos</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu tenho um nome um eco um <em>fala-me</em> e ninguém me diz nada<br />
Há um relógio que brota de cada suspiro e me distrai com horas<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>suspeitas como se a minha vida estivesse por um fio</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-08.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-08.jpg" alt="Enigmas circulares 08" class="wp-image-10421" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-08.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-08-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-08-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Floriano Martins</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">8.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há uma cobiça de gozos degenerando um jeito mais livre de ser<br />
Uma fiação de regras que são a base de todo constrangimento e<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>fonte de aliciamento<br />
Teus mortos esperam em longas filas por pequenos volumes<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>indecifráveis e suas pétalas de racismo e genocídio<br />
Prosperam à espera desses pacotes de vômitos e ejaculações<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>ressecadas</p>



<p class="wp-block-paragraph">Flores famintas mastigam os restos calcários de tua memória<br />
Corpos arrastados sob medida<br />
Calvário de pratos concebidos com seus lamentos elétricos<br />
A miséria ressumando como um abismo acidental</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ninguém sabe mais por que nome chamar a si mesmo<br />
Nem mesmo escavando em escombros encontraríamos a<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>transparência perdida<br />
A dor multiplicada por mares descorados que se agitam em<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>casarões de formas emudecidas</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lugares que se desfalecem aterrorizados por apenas soletrarem teu<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>nome<br />
Postos de comando &amp; faixas de greve &amp; cercos policiais<br />
A humanidade já não guarda segredo de si</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-09.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-09.jpg" alt="Enigmas circulares 09" class="wp-image-10422" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-09.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-09-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-09-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Floriano Martins</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">9.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A memória se reparte ao visitar escombros negros e índios em seu<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>paiol metafísico<br />
Habituada à sedutora condição de modelo vivo acabou por desterrar<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>efeitos contrários</p>



<p class="wp-block-paragraph">De que lado a carne se espelha no real sentido de tudo quanto toca é<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>algo que não se sabe<br />
O que foi repartido devorou a metade que ingenuamente aceitou tal<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>condição<br />
Falso dualismo que orienta a existência quer tenhamos ou não razão<br />
E não a teremos nunca<br />
Toda razão perdida se transfigura em deplorável quando reabilitada<br />
É alto o preço que pagamos por haver sempre esperado alguém que<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>indicasse o caminho</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu espero<br />
Tu esperas<br />
As vísceras passam por aqui<br />
O morticínio bate à porta invisível</p>



<p class="wp-block-paragraph">A angústia afia seus estiletes e sonha com safenas fantásticas<br />
Nós esperamos a espera perder o controle das horas<br />
Em um mundo assim até os relógios oscilam entre a insônia e o<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>pesadelo</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-10.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-10.jpg" alt="Enigmas circulares 10" class="wp-image-10425" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-10.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-10-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/Enigmas-circulares-10-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Floriano Martins</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">10.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desfigurados pelo nome e sua circunstância<br />
Lições de abismo com endereço certo<br />
Ensinar aos filhos que a história se faz assim</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um enxame de deuses aguardando a noite<br />
Eu queimo de vislumbres que me descrevem com uma minúcia de<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>desapontamentos<br />
A noite não foi parar em parte alguma enquanto estivemos aqui</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu tenho essas marcas em meu corpo que são as tuas palavras<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>queimadas em vão<br />
Revelar o teu nome já não resolve nada<br />
Não há código civil ou justiça divina</p>



<p class="wp-block-paragraph">O flagrante sempre foi o grande prestidigitador<br />
Morremos exatamente aqui: dissidentes: relutantes: indecisos:<br />
As versões cinematográficas se expandem</p>



<p class="wp-block-paragraph">O grande negócio das quedas<br />
Jurisdição de trevas<br />
O Estado sou eu em qualquer estado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu olho em teus olhos buscando meu erro<br />
Não nos molestamos mais<br />
Destilamos uma frialdade absoluta</p>



<p class="wp-block-paragraph">Qualquer que seja a metáfora desenhada por um de nós<br />
Um resquício último de humanidade<br />
Eu leio nos teus lábios que a noite não virá</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Floriano Martins</strong> (Fortaleza, 1957). Poeta, tradutor, ensaísta e editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e o selo ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-i-38/</link>
					<comments>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-i-38/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Aug 2015 13:02:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[103ª Leva - 06/2015]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Dois]]></category>
		<category><![CDATA[Ela]]></category>
		<category><![CDATA[Geraldo Lima]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher na cadeira de vime]]></category>
		<category><![CDATA[narrativas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=10366</guid>

					<description><![CDATA[Geraldo Lima oferta-nos três breves percursos narrativos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Geraldo Lima</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/INTERNA-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="373" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/INTERNA-1.jpg" alt="" class="wp-image-15824" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/INTERNA-1.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2015/08/INTERNA-1-300x224.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Caroline Pires</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>MULHER NA CADEIRA DE VIME</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O cenário, uma sala com decoração minimalista. Só a reprodução de <em>Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos</em>, de Pablo Picasso, fixada na parede frontal, atrai de chofre os olhos do visitante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois disso, percebe-se o tom suave do azul brisa do mar das paredes. Tudo isso, obviamente, se os olhos não captarem com mais interesse a silhueta feminina exposta no lado esquerdo do cômodo. Não se trata de uma reprodução, e isso logo se vê. Tampouco está decomposta como numa pintura cubista.&nbsp; Embora ele não a veja ainda por completo, o ser no seu todo, seus olhos já transbordam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela está sentada numa cadeira de vime natural, o corpo todo resumido nesse espaço de fibras e reentrâncias.&nbsp; Os olhos, cerrados, parecem entregues aos caprichos da memória e seus labirintos. Ela não o viu entrar, ou finge não tê-lo visto. Finge, é o que se pode deduzir, pois a porta foi aberta sem nenhuma delicadeza. As dobradiças, carentes de lubrificante, rangeram alto. Ela, no entanto, permanece assim: a cabeça levemente jogada para trás, como quem tira um cochilo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele para diante dela, esperando que abra os olhos e o veja.&nbsp; Espera inútil, alguém precisa lhe dizer. A mulher, movendo-se um pouco na cadeira (deixa, talvez, os pés escorrerem e tocarem a frieza do porcelanato), poderá até descerrar os olhos opacos e tentar focá-los na direção dessa voz que agora a cumprimenta. Tenta, sem desespero, buscar essa figura que ela imagina como sendo um homem alto e forte. Um homem que ela decompõe e vai remontando a seu bel-prazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOIS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Aí ela inventava umas coisas, meio que no desespero. Quanto tempo isso dura?, devia se perguntar, enquanto tinha aqueles <em>insights</em>, aquelas malícias próprias de uma mulher tentando fincar as raízes do amor na areia movediça de encontros furtivos. Ele chegava, ela abria a porta, e lá estava a surpresa, a isca, a invenção do dia, o jeito de cativá-lo para que aquilo durasse pelo menos um dia a mais, aquele resto de tarde, quem sabe? Colocava uma música lenta, romântica de partir o coração em pedacinhos, colava o corpo ao dele, dança comigo?, e então dançavam, quase sem sair do lugar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. Ela queria que aquilo durasse uma eternidade, mesmo sabendo que iria acabar, acabar ainda reverberando, trincando por dentro, chamuscando a carne, assombrando a memória. Talvez por isso tivesse aqueles achados só para não afundar definitivamente no desespero, na sensação de finitude, no magma que sufoca até a morte. Você me carrega no colo até o quarto?, ela lhe pediu da última vez em que se encontraram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ELA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sente-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Geraldo Lima</em></strong><em> é escritor, dramaturgo e roteirista. Autor de Baque (contos), Tesselário (minicontos) e UM (romance).</em></p>
</blockquote>



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