Por que nada permanece inteiriço
em sua casca,
protegido?
um dia racha
e pela fenda
passam peixes e navios
fantasmas que na noite ganham vulto:
fogo, chama, fumaça
nada permanece inteiro
tudo se esgarça
assim é o intervalado texto do destino,
forrando a mesa
por que não se estende eterno,
se é tão fino?
por que não dura a inteireza?
***
FELICIDADE
É essa sombra que me passeia
essa possibilidade ………………………de ser
esse ser não sendo
alforje quase cheio
(menos que isso. Menos.)
nuvem oblíqua
em um céu de papel e tule
é essa consciência, talvez, de incompletude
ou da vida, reticente e vaga
é esse fio de navalha em que me equilibro ……..sem asa que me suspenda ……..ou mão que me segure
é essa trama em ouro e cobre …….que na solidão do quarto se urde.
***
MAR DA CHINA
a minha mãe
Por sobre as ondas da China
onde se inscrevem palavras
todo o alfabeto navega
só pra você e pra mim
no oceano amarelo
–- puro caminho de água –
tudo é papel e nanquim
da China toda a beleza
(não fosse o mar, que seria?)
passa ao Japão das cerejas:
a porcelana e a seda
as invenções e a arte
(que norte enfim haveria
não fossem bússola e letra?)
***
POUR CAMILLE
A Camille Claudel
Quem modela a vida
(se tudo é forma
e belo
como flui o Sena) ?
Olha quanto é duro o mármore
e quebradiço
mas teu cinzel
sob o martelo o dobra
– é teu feitiço –
revelando segredos lá fincados.
Quantas vezes olhaste o rio
em frente à tua casa
e em que pensavas
rebelde menina apaixonada pelo Amor?
Esqueceste que não se molda o Amor:
sua matéria é vil
sua matéria é o nada.
Mas não estás só.
De certa forma
enlouquecemos todos ………………………..em asilos ………………………………..exílios …………………………………………idílios.
Somos todos loucos
não tu só
com teus olhos azuis escancarados
olhando-nos do lado avesso do vidro
– tolo artifício:
não existe abrigo
contra a luz da loucura.
Deixa queimar até os ossos
(e não será tudo mesmo
reduzido a cinzas?)
Deixa arder fundo
pois só essa brasa
– que nos traz a morte –
nos ilumina.
***
LUX DELENDA EST
LUX DELENDA EST, alguém disse
e houve a escuridão
– ……………………..esse apocalipse –
manhãs e noites em confusão.
Era chegada a vez do Homem
– oh quão dessemelhante! –
homem e mulher, deles chegara a vez.
Onde o Paraíso …………………………….– esta maçã –
no melhor pedaço, arrancada aos dentes?
era tudo agora pelo avesso
e viram como a vida é vã ……………………………………….. (é sempre vã)
e que tudo tinha fim ………………………………………. (como começo).
(Fosse um domingo talvez?)
Alguém sentenciou:
Não mais multiplicai-vos
e que não haja mais ódio sobre a terra
nem amor.
Dispersai-vos dispersai-vos
sem todavia esquecer a minha imagem!
Restavam, porém, os bichos
e o mesmo alguém falou:
Não mais seres vivos ………………………………………. – basta com tudo isso! –
não mais voem aves por sobre a terra
nem haja mais serpentes rastejantes ………………………………… ….segundo sua espécie.
Não mais animais domésticos ………………………………… ……………nem feras
de olhar faiscante.
Alguém achou que isso era bom
e como tudo mesmo fora já confundido
e já não havia precisão
de lua sol e estrelas …………………………………… – a governar luz e trevas –
com um gesto
todos os astros foram abolidos ………………………………… ……….eternamente.
Aí cessou a erva verdejante
e não houve mais árvores
nem frutos com sua semente, …………………………………. nem flor.
E as águas tornaram a mergulhar nas águas
não mais houve mares ………………………………….. – nem lágrimas –
nem terra de continente.
Desfez-se enfim o firmamento
e só aí então
esse alguém descansou.
Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.
Entre os vãos daquilo que imaginamos ou vivemos, um mundo explode à nossa volta. Dentro dele, desenham-se cenários, epifanias humanas, outras possíveis dimensões. Há que se falar no concreto das coisas e na sua projeção aparente. Há que se falar também em abstrações ou em como estamos diante de esferas intangíveis. E, quando não temos o controle imediato das situações, passamos a meros observadores desse jogo de representações que é a vida.
Quem fotografa lida com um universo de paralelismos. Num arranjo cênico moldado pelo cotidiano, os olhares se entrecruzam. Sujeitos e objetos captados pelas lentes rompem a noção de passividade e ganham um status de protagonismo. Assim, surgem novas maneiras de vislumbrar a existência. O fotógrafo, artesão da luz, é também arrebatado por toda a sorte de elementos que emanam do exterior como se estes últimos o escolhessem. Coexistem, num mesmo plano, as investidas do artista e a representação autônoma com que seres e coisas se apresentam.
Revertendo a tradicional visão das atuações, seria como afirmar que o fotógrafo é quem é eleito pelo seu alvo. Se por um lado tal constatação traz uma carga subjetiva muito forte, por outro, aponta para uma perspectiva através da qual cabe ao artista perceber certos atrativos sinais. Temos essa sensação ao contemplarmos o trabalho de Valéria Simões, sobretudo pelo fato de que as pequenas delicadezas contidas no dia-a-dia ganham destaque aos olhos da artista.
Registrar pessoas é algo que ocupa um lugar especial na trajetória de Valéria. Nesse aspecto, está em foco a habilidade de interferir o mínimo possível no curso natural dos personagens e seus respectivos ambientes. Como ela mesma confessou, numa entrevista concedida à Diversos Afins, o segredo consiste em se misturar da forma mais espontânea possível. E é assim que múltiplas faces são mostradas, tanto nos rostos retratados quanto em lugares nos quais as intervenções humanas deixaram suas marcas mais evidentes.
Foto: Valéria Simões
Por trás da rotina que envolve a tudo e todos, paira um manto poético com o qual a fotógrafa apresenta o grande palco da vida. São cores, formas, linhas, gestos a compor a dinâmica da existência. Os espaços urbanos revelam sentidos tanto de ocupação quanto de ausência, todos eles denotando uma simbologia própria.
A fotografia está na vida de Valéria Simões desde o início dos anos 1990. Alguns de seus trabalhos foram premiados dentro e fora do país. Participou de diversas exposições, tanto individuais quanto coletivas, no Brasil, Peru, Canadá e França. Em cinema, assina a fotografia de cena de filmes como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (São Paulo – 2002) e “Trampolim do Forte” (Bahia – 2008). Fez de sua casa, em Salvador, uma verdadeira galeria, lugar onde recebe convidados, artistas e pessoas interessadas em adquirir suas obras.
Transitando entre mundos, os olhares de Valéria enaltecem o ritual singelo da vida. Diante da delicadeza e da simplicidade com as quais se depara, a artista não se furta ao ato de nos revelar que nas coisas costumeiramente despercebidas há sabores elevados.
Foto: Valéria Simões
* As fotografias de Valéria Simões fazem parte da galeria e dos textos da 104ª Leva
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
Rebentar é o novo livro do escritor Rafael Gallo. Sucessor do premiado Réveillon e outros dias (vencedor do Prêmio Sesc de Literatura na categoria contos 2011/2012 e finalista do Prêmio Jabuti 2013), Rebentar é o primeiro romance do autor, no qual destrincha uma situação delicada: após trinta anos de buscas, Ângela desiste de procurar Felipe, seu filho desaparecido aos cinco anos de idade.
Ao longo de quase quatrocentas páginas divididas em nove capítulos, o livro acompanha e analisa o processo de tomada de decisão de Ângela, perscrutando os altos e baixos, e, principalmente, as dificuldades e resistências que a personagem enfrenta para levar a cabo sua decisão. Decisão que é muito mais uma renúncia que uma desistência. Corroborando com esse parecer, destaco uma constatação-síntese da personagem principal, que surge em uma conversa com sua amiga e terapeuta e torna-se mote de seu processo:
“Eu não estou me dobrando a essa luta, feito alguém que gostaria de poder vencê-la mas não se sente capaz. Eu era assim antes, agora estou justamente me dando o direito de escolher outra coisa para minha vida. Quero deixar para trás essa batalha feita de desistências. Você conhece minha história, ninguém vai poder nunca dizer que eu simplesmente desisti” (pg. 77).
Dessa brevíssima sinopse e citação, seleciono duas ideias fundamentais ao livro: o tempo e a renúncia.
Heráclito overdrive
“Ela sabia, desde o começo, que em algum momento teria de dar um adeus definitivo ao controle daquele espaço pertencente a Felipe […] Agora percebe que uma despedida sempre atravessa, indivisível, o passado, o presente e o futuro daquilo que se vai, iniciando-se antes mesmo da ausência e encerrando-se muito depois de se já ter perdido aquilo a que se diz adeus, o adeus que já não pode mais alcançar o que se foi” (pg. 252).
Para Heráclito, tudo é movimento. Partindo desse pressuposto, Simplício cunhou a máxima que é repetida incessantemente com o intuito de nos lembrar que, afinal e independente de qualquer esforço contrário, o tempo passa e é impossível revivê-lo tal como acontecido: não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio. Essa máxima servirá de parâmetro a certa leitura que faço de Rebentar. No entanto, me apropriarei dela para um exercício hipotético a fim de explorar uma questão cara ao romance: o tempo.
A hipótese: uma pessoa mergulha no rio do tempo. E, nesse mergulho, em vez de percorrê-lo ou mesmo se deixar levar pela correnteza, agarra-se a um tronco estanque no meio do rio e, por motivos diversos, não o solta.
A razão pela qual não é possível percorrer duas vezes o mesmo rio Simplício mesmo explica: por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação. À luz desse movimento perpétuo de tudo, a hipótese de resistência ao fluxo coloca outras questões: Que troncos são esses? Por que se ancorar nesse ponto e resistir ao fluir do rio-tempo? Quais são as implicações dessa resistência? Qual é o custo de abrir mão desse ponto de resistência? E, questão fundamental ao livro, como superar aquele ponto seguro e fluir?
O sumiço do filho é o tronco no qual Ângela se ancora. Obsessiva e exclusivamente dedicada à busca do filho, ela agarra-se ao tronco daquele momento e é toda investimento na conclusão do impasse, que, ao menos para Ângela, exige uma (tentativa de) suspensão do tempo: não à toa o quarto de Felipe é mantido tal qual ele o deixou, assim como a casa da família é restaurada a fim de que permaneça igual, pois isso significa não só uma forma de reconhecimento para o caso do retorno do menino, mas também uma prova de que eles jamais se esqueceram dele. No limite, trata-se também de uma tentativa de Ângela em reter o tempo naquele instante a fim de revertê-lo e impedir que a catástrofe ocorrida aconteça de fato.
Entretanto, ao perceber que três décadas se passaram, Ângela compreende que o estrago está feito e que resistir não é mais plausível, posto que mesmo aquele ponto de resistência expirou: encontrar o filho não é mais encontrar o menino de cinco anos, o garoto que reconhecerá a casa e dormirá o sono infantil em um quarto ornado de brinquedos, mas um homem de trinta e cinco anos para quem a casa ou o quarto ou mesmo os pais certamente não significarão nada.
Apesar da lógica imposta por essa descrição crua do tempo – afinal, é óbvio que, se se passaram trinta anos, o garoto de cinco terá trinta e cinco anos – para Ângela essa conclusão só é possível quando ela compreende (e, acima de tudo, sente) que, apesar de seus todos os seus esforços, o reencontro com o filho perdido é impossível justamente pelo fato de ser impossível conter o rio do tempo. Não por acaso, o livro é um debruçar-se sobre a questão fundamental: como superar esse ponto seguro (mas inviável) e fluir?
A implicação de resistir ao tempo é bagunçá-lo. Ângela percebe essa implicação ao concluir que manter um filho ausente é viver o passado e, portanto, negar o presente, impossibilitando o futuro. Assim, é possível depreender que o maior desafio de Ângela para superar o ponto em que esteve presa é rearranjar o tempo, compreendê-lo em sua dinâmica ininterrupta e deixar ao passado o que é do passado para correr ao gosto do presente – e o futuro a Deus pertence.
Mas o drama dela é complexo, pois reordenar o tempo é abandonar o passado e assumir a impossibilidade real de retorno do filho. Há muito mais contundência no fato do que na ideia – e esta é a força de Rebentar: captar e transmitir as implicações da escolha de Ângela e não reduzi-la simplesmente a uma eloquência vazia sobre o tempo. É sensível durante a leitura o empenho da personagem, suas perplexidades frente às resoluções que assume, suas fraquezas nos momentos mais difíceis.
A busca da busca do tempo perdido ou insepulto corpo inexistente
Entretanto, apenas entender a dinâmica do tempo para reorganizá-lo não é suficiente à decisão de Ângela, pois ela precisa agir. Como executar sua resolução?
Após tantos anos de busca e contrariando todas as expectativas, Ângela opta pela renúncia: enterrar simbolicamente o corpo inexistente (e, portanto, insepulto) de seu filho é o único meio de libertar-se daquilo que a prende ao passado. Não sem enfrentar a pergunta: qual é o custo de abrir mão desse ponto de resistência? Pergunta, aliás, que pressupõe inúmeras resistências.
É possível dizer que tanto as resistências internas e externas que ela encontra ancoram-se na mesma prerrogativa: independente das circunstâncias, a maternidade implica em não desistir do filho.
Na medida em que decide suspender a busca por Felipe por aceitar a inexorabilidade do tempo, e isso acontece justamente quando se depara com um retrato de Felipe envelhecido digitalmente, Ângela se impõe questões inevitáveis: aquele homem atenderia por Felipe? Compartilharia do amor a ele dedicado apesar dos trinta anos de espaço entre eles? A consequência dessas questões estremece a certeza da prerrogativa com uma dúvida ao mesmo tempo cruel e libertadora: aquele homem seria seu filho?
A resposta de Ângela é não. Pois não só ela aceita o tempo, como também compreende sua ação: ainda que compartilhem o mesmo código genético, aquele homem não seria o filho dela. Isto significa encarar a constatação mais cruel e incontornável, mas única forma de subverter a prerrogativa e encontrar uma verdade subjacente: ela e o filho são pessoas distintas. E isso só é possível ao aceitar a inexistência daquele filho que ela conheceu, isto é, compreendê-lo morto. Essa constatação é tão fundamental ao processo da personagem que é a primeira e única vez que que ela assume a voz narrativa para explicitá-la – e não por acaso no momento em que ela se despede de Felipe:
“E eu guardei todas as suas coisas por tantos anos, enxergando nelas o espelhamento da minha esperança de que a vida pudesse se reordenar entre nós, mas… No fim, elas restaram sem nenhum sentido por não terem você. Elas existem apenas para serem suas. As suas coisas não são as minhas, filho; essa é a verdade que custei a entender. Protegi seu pequeno mundo como se fosse meu, mas isso só fez com que eu ficasse presa dentro dele. Eu cerquei ainda mais as paredes do labirinto onde me enclausurei.” (pg. 331)
Por razões diversas – algumas genuínas e outras escusas – Ângela tem de lidar também com as resistências impostas por aqueles que a cercam. Muito embora partam do mesmo princípio, essas resistências consideram a passagem do tempo um evento que não se sobrepõem à prerrogativa da maternidade. O fato de ter trinta anos ou não atender pelo nome Felipe não faz de Felipe menos filho de Ângela.
Talvez seja mais simples a quem está de fora pressupor a preponderância de tal prerrogativa, porque a esperança implicada na espera não afeta os terceiros da mesma forma que afeta Ângela. Aliás, para ela é uma questão de vida: enterrar Felipe (mesmo que simbolicamente) é a única forma de poder continuar viva, soltar-se daquele tronco fincado no meio do tempo é a única maneira de livrar-se do passado e viver o presente.
“Quando alguém que a gente ama morre, dói demais olha adiante sabendo que não existirá mais nenhum dia em que essa pessoa vai estar conosco no futuro: sua voz pela casa, seus gestos e toques, suas vivências. Eu nunca tive isso com você, ao olhar adiante; sua perda sempre se deu no sentido oposto: era quando eu olhava para trás, para o passado, que eu via os dias se somando sem você”. (pg. 332)
Dessa forma, a transfiguração de Ângela passa necessariamente pela reformulação da prerrogativa: ao aceitar/providenciar a morte do filho, ela pode recuperar o papel que possuía antes de ser mãe. Portanto, muito antes de uma desistência, ela realiza uma renúncia, que só é possível porque, ao assumir a ausência/morte do filho, ela pode abrir mão do papel de mãe. Assim, como a qualquer ser humano, cabe a ela viver o presente, aceitando que o passado já não existe mais. Ater-se a qualquer um dos tempos ignorando os demais não é viver, mas resistir – e em vão.
Por isso, Rebentar pode ser lido como um grande processo de luto. Na ausência do corpo, Ângela e o marido Otávio elencam e assumem mudanças que de alguma forma simbolizam o enterro do passado a fim de livrar caminho ao futuro. E o livro é o detalhamento desse processo, seus percalços e contratempos, que, afinal, nove capítulos depois, se realiza no ciclo mesmo da vida: um novo nascimento.
Pais & filhos
Por si só, o mote do enredo é forte. Portanto, não é difícil arriscar que, para mantê-lo firme, o autor teria de desembolsar outros eventos tão ou mais catastróficos. (Estratégia, aliás, comum em certa literatura, que lança mão do armagedom a fim de fazer a narrativa andar.) Todavia, o autor é preciso na trama. O enredo desvia de pirotecnias narrativas para se dedicar tão somente ao tema eleito, aprofundando-o a partir dos personagens – sobretudo Ângela – e buscando suas múltiplas possibilidades de acordo com a história que conta.
E Rebentar flui. O estilo lírico e sempre elegante do autor (vide os contos do citado Réveillon e outros dias) possibilita um duplo movimento ao texto: explorar as profundezas dos sentimentos de Ângela e explicitar as tensões nos diálogos quase coloquiais que pontuam sua relação com os demais personagens. O interessante desse movimento é demonstrar as diversas camadas do processo da protagonista, que transpassam desde a contemplação mais silenciosa e angustiante do mar em um cais de porto até o diálogo mais terno com a afilhada Isabela.
Por fim, interessante notar como o autor revista alguns temas e estratégias de Réveillon e outros dias, livro de contos antecessor de Rebentar. Se no primeiro já havia a tendência de construir narrativas muito mais a partir dos personagens e seus dramas particulares do que submetê-los a uma trama mirabolante, essa tendência realizou-se plenamente em Rebentar.
As relações parentais é outro tema comum aos livros. Por exemplo, o conto Réveillon, um dos mais significativos do livro, explora a relação entre o filho surdo e prestes a partir numa viagem e seu velho pai recém viúvo – e essa situação é porta de entrada aos próprios personagens, pois a vontade de vida do jovem resulta na sensação de finitude que o velho experimenta – eis o conflito. Entretanto, como vemos claramente em Rebentar, essas relações marcadas por impossibilidades, ao contrário de impedimentos, convocam os personagens a providenciar soluções – e nos impele a revisarmos nossas próprias desistências.
Maurício de Almeida é autor de ‘Beijando dentes’ (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.
Que resvala de você
sem deixar rastros
que não compactua com o cotidiano –
a música inexecutável
a promessa inexequível
a víscera mais escondida
incutida no hálito de café e cigarro
Que não te nomeia
os muitos braços e pernas e bocas e gritos
aquilo que às vezes se traduz em lágrimas
algo embaçado que te fixa o olhar
num dia comum de semana
Que foge e te retém
enquanto você ri e sangra
e me olha
e me abraça
[já são tantos lenços ensanguentados]
ato-me a moldes fugazes
da tua alma inestancável.
***
Toda vez que for escrever
colocar ao lado este porrete
bater à toa
de olhos vendados
como o choque dum corpo no mar
à deriva
Toda vez que for escrever
bater forte
como aquilo que abriu minha cabeça
outro dia
uma pancadaria
cujo barulho
infernal
é tanto maior silencia.
***
Verhoeveniana II
Despi uma estação indomada
com protuberâncias de infinito na pele
e afora as violentas mordidas
a desintegração dos átomos da boca
as bifurcações luminosas das nádegas
as secreções nervosas como piche quente
o consentimento convulsivo
dos dedos entrelaçados
era mais um episódio
de um peito escavacado
pelo amor.
***
Por onde tua presença me chega
não sei
uma música incrustada na parede
dos ouvidos
um país arrancado de algum autorretrato
Não sei mesmo dos teus
passos mordidas
violentas insolações
não sei como cospe
leopardos sanguíneos em meu peito
nem de como em minhas virilhas
maçãs podres acumulam à revelia
De toda febre
em meus pelos
teu rosto muito forte
se contrai em arpões
rixas taras arrepios
vermelhos
líquidos magmáticos
pássaros coagulados
trepidando na ponta dos dedos.
***
Abertura para um sol em tuas costas
um pomar na ponta dos teus dedos
tua cútis uma música sibila arrepios
a boca transeunte trespassada de águas
as palavras ardendo em silêncio eriçadas
motim de dilúvios enluarados lábios
assento de frêmitos olhando atônitos
teu rosto esta costura em meu coração
assediado por minhas vísceras famintas.
Na rota de um escritor há muito mais indagações do que respostas. Muito mais dúvidas do que qualquer outra coisa. Carregar na alma um punhado de incertezas é parte integrante da sina de qualquer mortal, mas parece que no caso de criadores as percepções ganham um relevo bastante dimensionado. Afinal, o que busca quem escreve? Reconhecer-se entre os seus iguais? Procurar um sentido para a existência? Libertar-se?
As perguntas predominam. No entanto, cabe questionar se realmente é importante saber das motivações. Atrai mais descobrir que escritores não são seres divinos e, portanto, nem de longe portadores de atributos espetaculares. São gente comum, tão atravessados que estão por suas questões humanamente cotidianas. O grande aspecto é que tais autores são providos de ferramentas diferenciadas de apreensão da vida e seus fenômenos. Transpiram demasiadamente na direção de uma obra, sem construir caminhos a partir do nada. Por maior que seja a carga de abstração ou subjetividade envolvida numa via de criação literária, estará em curso também um processo consciente e criterioso de escolhas.
Nada melhor do que ter representações concretas daquilo que foi mencionado acima. E é possível captar tal atmosfera na obra de um autor como Thiago Mourão. Seu romance de estreia, “Java Jota”, lançado recentemente pela Editora Patuá, ousa percorrer as intricadas zonas da criação. O livro aborda a trajetória de um escritor na busca obstinada pela construção de sua obra. Com o vigor contido nos intervalos e esperas, o romance vai delineando cenários que demonstram o quão complexa e, por vezes, exasperada é a missão de um escritor em ter materializada a sua pretensão. Nesse ínterim, o personagem central depara-se com suas divagações, arroubos, constatações, mas principalmente com a confirmação de que a sua sina comporta paisagens marcadas por uma cruel inquietude.
Thiago Mourão se define como um baiano nascido no Rio de Janeiro. De forma independente, lançou seu primeiro livro de contos. Formou-se em Biologia, trabalhou com teatro, escreve e produz vídeos institucionais, e está na iminência de cursar um mestrado em literatura criativa na Harvard Extension School. O autor acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre um tudo. Deixou marcadas as impressões sobre seu novo livro, mencionou um pouco da sua concepção criativa, ressaltando a forma como observa os desafios de seu tempo. Pelo diálogo que aqui se faz presente, Thiago traz em si a procura inominada que ofícios como o da literatura sugerem.
Thiago Mourão / Foto: divulgação
DA – Java Jota é um ser que personifica a busca de um autor pela construção efetiva de sua obra. Nessa perspectiva, tal representação traduz algo comum a muitos que se dedicam ao ofício literário. O que dizer dessa, digamos assim, angústia da criação?
THIAGO MOURÃO – Me parece algo instintivo, talvez não tenha o nome de angústia, talvez não tenhamos ainda criado um substantivo para nomear a sensação do ato da criação. Angústia parece ser a mais próxima, mas a gente pode descartá-la pelo fato de angústia não ser prazerosa (ao menos para mim) e a sensação do ato de criar, que parece angústia, me dá muito prazer. Fiz teatro. Os três segundos antes de o espetáculo começar ou de entrar em cena, aquele black out infinito depois do terceiro sinal, são os mais emocionantes. Você sabe o que vai fazer, teoricamente há controle do que vai acontecer, mas quando se pisa o pé no palco há prazer e emoção que incluem a angústia, por conta da possibilidade do erro e do desconhecido, mas não se esgota nela, há uma busca muito maior. Vejo como alguém que pula de paraquedas. Há adrenalina, ansiedade, medo, angústia, e tudo isso dá prazer. Acho que o prazer é maior do que a angústia. Por isso digo que é instintivo, a gente busca o prazer o tempo inteiro, até como estratégia evolutiva, mas ninguém busca a angústia. Talvez, a busca pelo prazer gere inquietação, expectativa e, também, angústia. E acho que é a inquietação que faz a alma do criador, seja ele artista, estrategista, arquiteto… Java foi muito escrito na angústia, como o sentimento mesmo da mulher perdida (algo que Raul Seixas falava muito e já me encantava desde novo), mas principalmente no prazer do sexo e da descoberta; e no risco, de iniciar um texto por apenas uma frase e segurar uma história e uma voz a partir dali. Criar é a palavra de ordem de Gaia e é também a grande busca do humano, por ser filho e ainda viver no útero dela. É tudo instinto, animal mesmo. Nomeá-la angústia é reduzir muito a complexidade desta bomba de prazer e frustrações.
DA – Onde a famigerada inspiração?
THIAGO MOURÃO – Você chegou na pergunta que inicia alguns textos de Java. Onde encontrá-la? Ao mesmo tempo, há um ofício a ser cumprido. Então, aos poucos, a gente percebe que inspiração não baixa nem vem à toa, muito raramente, é preciso buscá-la. Hoje, acredito mais que a inspiração encontra-se na disciplina, nos objetivos, na barriga querendo comer e no fígado precisando de álcool. É claro que a gente se alimenta, observando o dia-a-dia. Eu gosto muito de observar a natureza (me formei em biologia) e sempre me intriga a relação do homem com o espaço de Gaia. A inspiração está nisso, nas perguntas, nas investigações que buscamos fazer. Claro que há dias mais fáceis que outros. Há dias que se escreve vinte páginas e dias que se escreve duas, dolorosamente. Mas qualquer coisa pode despertar a vontade de escrever um texto. Inclusive, outros bons textos.
DA – O modo como se percebe o mundo é certamente algo fundamental para um autor. Outros criadores também são responsáveis por mostrarem dimensões múltiplas de apreensão das coisas. É mais interessante pensar que o que chamamos de novo é fruto de uma transformação daquilo que sempre esteve entre nós?
THIAGO MOURÃO – Muito mais. Arte pode vir de artifício, e o artifício é a técnica. Se você abre o jornal, há um artigo sobre violência, na literatura autores falam da mesma coisa de outra forma, há os textos acadêmicos sobre violência que têm seu estilo próprio e suas ideias. Os temas rondam e cabe a nós abordá-los da nossa forma. E a nossa forma é baseada em tudo que absorvemos. E pensar que tudo se transforma e é aproveitado é um pensamento inteligente ao meu ver.
DA – Em “Java Jota”, os labirintos da mente conduzem o personagem a um ambiente hedonista. Aqui, a figura da musa é algo fugaz, desejo de calmaria numa procela incessante. Seria a memória um componente que nos ajuda a atravessar o caos?
THIAGO MOURÃO – A memória nos leva ao caos. Você faz uma observação que gostei muito na resenha de Java Jota: “molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.” É isso, uma colcha de retalhos. Quando acaba a memória e começa a criação nos nossos pensamentos? Ninguém sabe, nem os médicos e biólogos, mas sabe-se que todos, artistas e não artistas, inventam quando revivem suas memórias. E, normalmente, são caóticas. O que nos tira do caos é a junção disso tudo numa linha intelectual. Extravasamos isso nas profissões, nas conversas, exposições das opiniões e dos fatos. A memória nos faz saber dela o tempo inteiro, é a grande sacada que Joyce tem em Ulysses: a reprodução do fluxo ilógico do pensamento consciente. Um cheiro, um olhar ou uma imagem qualquer pode desencadear pensamentos muito vivos, que desencadeiam sentimentos e sensações e quanto mais sentimentos e as sensações, mais vivos estamos. Nada na natureza para e nós, queiramos ou não, somos parte da natureza. Nossos atos instintivos não podem provar isso? Quem tem total controle do que virá na mente? Me parece que a memória é a base primeira da criação. E é preciso treiná-la.
DA – Há algum sentido de libertação na escrita?
THIAGO MOURÃO – Há, sim. Evidencio isso em Java Jota neste trecho: “Porque eram artifícios naturais, puros e verdadeiros. Porque ali havia Rosa. E porque havia literatura. E Rosa e literatura faziam uma equação diferente, única e peculiar, que resultava em amor. Em calma, em conforto. Resultava em um lugar só dele. E dela. Um lugar fechado, mas livre e libertador do pior da sua alma.” Há sempre libertação na criação, como há o aumento da necessidade de criar mais. Acredito que a boa literatura não deva ter pudor. É a liberdade da hipocrisia social. Também pode ser de outras liberdades mais pessoais, e serão, pois só escrevemos sobre o que nos incomoda, ou intriga, enfim… Aspectos que nos chamem a atenção. Mas se vivemos em sociedade e estamos sempre transitando por ela, nossos anseios, desejos e intrigas estão completamente ligados a estas relações cotidianas. Logo, isso faz com que a libertação da alma e das questões sociais possam e devam andar juntas. Sem pudor.
DA – Em matéria de literatura, você se considera um transgressor?
THIAGO MOURÃO – Literatura deve ser transgressora no sentido das convenções e conveniências sociais, deve expor, pôr o dedo na ferida. Eu tento ser o mais honesto possível quando escrevo. Isso é transgressão? Esteticamente, gosto de experimentar, isso seria a transgressão a que você se refere? Procuro não me censurar e sou muito chato quanto ao tom e a forma de escrever. Se soa estranho, travo ou recomeço, se não tem uma voz própria, acho inválido.
Thiago Mourão / Foto: divulgação
DA – Falemos da transgressão num sentido de rompimento de convenções e lugares comuns, levando em consideração um tempo de patrulhamento ideológico e do politicamente correto. A literatura sobrevive numa sociedade repleta de congratulações e bom mocismo?
THIAGO MOURÃO – Ah! O bom mocismo tem me irritado, confesso. Mas, por enquanto, tenho mais visto isso nas ideias e discussões que nos textos literários contemporâneos que tenho lido. O que há – e é também irritante – é uma necessidade da crítica pela crítica, esquecendo que estão fazendo arte, que é algo que privilegia a estética/linguagem. Quando quero criticar abertamente algo, faço nos meios que são para isso: O Globo, Brasil Post e Gazeta dos Búzios. Minha arte é crítica por trazer um espelho social e um tema, mas não escrevo para que os outros digam: “olha como ele é engajado”, ou para dar lições socialistas, não. Escrevo sobre o que quero falar e me incomoda e quando crio também, mas estou em busca de uma história, uma estética, e que se for para tomar posição, que ela esteja diluída na arte – que está acima de tudo. Outro dia li num edital de concurso de contos: “contos que valorizem o bem-estar social” e até hoje me pergunto o que queriam dizer com isso. Mais de um edital traz isso, seria uma doutrinação do bom mocismo? E fico apavorado por saber que a resposta passa por esse bom mocismo ou por achar que é a literatura somente quem vai nos tirar da mediocridade ululante em nossa terra. Tenho visto alguns escreverem cheios de efeitos e ironias e sem conteúdo ou de conteúdo repetido, isso tem rolado bastante. Mas vejo bons autores da minha geração com crítica, voz própria e escrevendo sem pudor e sem ser panfletário. Mas, sim, devemos estar atentos. Esteticamente, acho que as novas mídias vão nos ajudar a dar um salto na diversidade. Voltando a Ulysses, Joyce brinca com essa diversidade midiática que aparecia (o jornal, a publicidade invadindo outros espaços como a própria rua…). Ulysses é um claro retrato de como a diversidade linguística pode intervir na literatura. Foi escrito em início de século, mais ou menos no período em que estamos. Acho que quando começa um século, muda nossa forma de comunicar, mudam as indústrias e as estruturas sociais. Acho que grande parte das pessoas ainda não entendeu a importância de viver o início de um novo século. E isso contribui muito para a mediocridade e esse bom mocismo.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
THIAGO MOURÃO – Esse estado de coisas nos traz muitas informações e possibilidades, ao mesmo tempo, uma superficialidade doida. Parece que há uma busca, principalmente na minha geração, pela extrema bondade. Todo mundo é bonzinho e qualquer coisa que se discorde você é um direitista (uma coisa cruel – e esquecem as contribuições de pensamento econômico e social que os pensadores liberais trouxeram) terrível. Parece novela antigamente, tem os bons e os maus. Há muito pouca análise de contexto mais aprofundada, a internet, principalmente o Facebook que poderia ser uma ótima ferramenta para análises, se tornou, em grande parte, um local vazio de ideias, apenas com pessoas querendo se mostrar o quão boazinhas são. Ao mesmo tempo, é uma geração – coisa de cultura brasileira – que faz muito pouco pelo social, no sentido de, por exemplo, trabalho voluntário e humanitário. Essa tentativa de canonização, através do discurso, eu não endosso. Não sou bonzinho, sou humano, tenho pensamentos terríveis, egoísmos controláveis, mas incuráveis. Sinto raiva, inveja, desprezo, tudo isso… É inerente à minha condição humana e não faço questão de ser madre Teresa de Calcutá. Antonio Risério me trouxe uma expressão muito boa: são stalinistas chapa-branca. “Muito amor envolvido”, “de boas” e etc são expressões/frases que para mim ilustram muito bem o que digo, irritantes, diga-se de passagem. E aí você escuta coisas esdrúxulas do tipo: Dilma é uma grande presidente porque foi torturada na ditadura, me explique o que o cu tem a ver com as calças! Mas quando faço uma crítica dessas, automaticamente me jogam no colo dos militares, me chamam de insensível. Ou então devo achar lindo que o ex-presidente, aquele mesmo que se orgulha de ter chegado à Presidência da República sem nunca ter lido um livro, esteja colocando estudantes brasileiros na mão de bancos e empresários, numa dívida imensa (um problemão americano que estamos entrando enquanto eles buscam saída) porque agora filho de pobre estuda medicina ou biologia. Educação deve ser universal e pública e quando eu critico os métodos, automaticamente os que almejam a canonização me atacam me chamando de preconceituoso. Precisa falar o estado das universidades públicas brasileiras? É uma curva descendente em contraste à curva ascendente de lucros dos empresários do setor. Mas criticar isso é perigoso. Ou então é comum assim: “ele é ótimo porque pelo menos…” pelo menos… E de pelo menos em pelo menos a quinta maior economia do mundo distribui migalhas ao seu povo e todos ficam extremamente agradecidos, aí político vira pai e mãe, em vez de servidor público. Parece que a pós- modernidade trouxe ótimas ferramentas e nos manteve a cabeça do século XX. O Brasil aposta em petróleo e se você critica a loucura que é o pré-sal ou o risco econômico que o investimento em petróleo é no novo século, vão dizer que você está de conchavo com americanos para vender o petróleo. Ora, os países de primeiro mundo estão abolindo a indústria do carbono. Alunos de Harvard recentemente entraram num processo judicial para que a universidade pare investimentos em pesquisas e empresas de carbono. Stanford cortou esses investimentos faz dois anos. Parece que há muita informação pronta e pouco tempo para contextualizá-las e todos estão ávidos em ser bonzinhos, tão desesperados, que o Brasil foi entregue ao populismo em pleno início de século XXI, como se não houvesse tempo mais para estruturas e investimentos de médio e longo prazo, tudo tem que ser feito imediatamente… É isso, esse pensamento retilíneo eu não endosso. E tem sido difícil não endossá-lo, até porque eu não estou dissociado de ninguém.
DA – Definitivamente, somos seres incorrigíveis?
THIAGO MOURÃO – Somos seres complexos com questões incorrigíveis e instintivas. Sim, somos animais, e com muitas questões adaptáveis. Apesar de seres novatos neste planeta, nossa adaptabilidade ampla nos permite viver do norte ao sul da Terra, criando diferentes estruturas sociais e econômicas. Mas a nossa obsessão com esta alta capacidade de mudar o ambiente a nosso favor – chamada progresso – me parece incorrigível e já nos mostrou que tem afetado não só as outras espécies como a nossa. E mesmo isto estando claro, com fatos e números, insistimos nos erros. A dissociação homem-natureza nos cobra um preço alto. A nós e aos que nos cercam e pelo andar da carruagem parecemos incorrigíveis. Me referi ao humano como espécie, como indivíduo acredito que temos pequenas soluções – o que me faz ser completamente crítico ao nosso sistema carcerário e bastante crente do embelezamento e transformação da alma humana através da boa educação (não esta que nos apresentam, de maneira geral aqui no Brasil) e da arte/cultura.
DA – Sob o manto da criação, está cada vez mais difícil distinguir realidade de ficção?
THIAGO MOURÃO – Bom, tenho tido a impressão de viver em uma peça de Ionesco o tempo inteiro. Isso falando da realidade, principalmente política, que o Brasil vive. Mas ando bastante caçando ficção e acho que o escritor deve sempre olhar para a realidade com essa visão criativa. Diálogos reais se transpõem facilmente para a ficção e vice versa. Quanto mais se cria, mais isso acontece. É bom e, às vezes, meio louco.
DA – Acossado pelo abismo, o que enxerga Thiago Mourão?
THIAGO MOURÃO – Uma bipolaridade incrível. Tem horas que parece que eu vou abraçar o mundo e tem horas que tenho certeza de estar sendo engolido pelo mundo. É estranho e desafiador, mas a linearidade em excesso é entediante. A beira do abismo e o balanço dele dão a impressão de vida. Sem isso, é só respirar.
Fabrício Brandãoé um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.