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105ª Leva - 08/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Juca
Arte: Juca Oliveira

 

O que seria uma atitude poética diante da vida? Idealizar o inatingível? Mensurar o insondável? Penetrar em zonas desconhecidas ou ignoradas? Estas são algumas indagações que podemos entabular. Certamente, estamos a falar muito mais num estado de coisas, quiçá de espírito, a nortear as ações em matéria de criação e recepção. É um ser poético não somente quem cria sob tal égide, mas todo aquele que abre seus canais de acolhida e mergulha nos signos que lhe são apresentados. Então, muda-se a perspectiva das coisas e confere-se um lugar de destaque também para quem tão somente consome os feitos culturais. No caso da literatura, é o leitor um ser especial na medida em que confere sentido ao que lê, estabelecendo uma tácita relação com quem cria. Também o é no caso de outras tantas manifestações artísticas. Admite-se, por parte do receptor, um caráter de expansão duma determinada obra sem que isso represente algo desgovernado e, portanto, sem controle. Como advertem alguns, uma obra pode ser aberta, porém não escancarada. Afora qualquer discussão sobre o tema, importa mais saber do interesse das pessoas pelos percursos criativos das mais diversas ordens. É saber que, em seu íntimo, todas elas são capazes de vislumbrar caminhos até mesmo impensados pelos próprios autores. Olhando por esse viés, o maior sentido da arte seria o de promover uma libertação que surtisse efeito para todos os lados envolvidos? Responda quem puder. O fato é que hoje somos livres para acolhermos os ímpetos poéticos de gente como Germano Xavier, Camila Passatuto, George Pellegrini, Monica Marques e Jorge Elias Neto, todos eles com seus versos a descortinar janelas de vida ante nossos sentidos. No universo que sonda as motivações literárias e artísticas, o escritor e multifacetado artista W. J. Solha fala sobre o seu mais recente livro e toda uma gama de assuntos que remonta ao ato inquieto que é o estar no mundo.  Gustavo Rios elenca boas razões para a leitura de “Fernanflor”, romance de Sidney Rocha. Quando o assunto é cinema, Larissa Mendes destaca a produção norte-americana “Eu, Você e a Garota que Vai Morrer”. Nos cadernos de prosa, os contos de Dheyne de Souza, Krishnamurti Goes e Poliana Paiva pedem passagem. O disco de estreia da banda Caim gira nas linhas do gramofone de Fabrício Brandão. “Corpo Sepulcro”, novo romance de Mike Sullivan, recebe a atenta leitura de Maurício de Almeida. Em todos os recantos da 105ª Leva, os desenhos, ilustrações e tiras de Juca Oliveira interagem com outras tantas formas de expressão. Assim, caros leitores, mais uma edição ganha corpo. Evoé!

Os Leveiros

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105ª Leva - 08/2015 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

CAIM – CIÊNCIA, ARTE, IDEOLOGIA E MÚSICA

 

Capa do disco - Caim

 

A canção pede passagem para sondagens da alma. Vem com a suavidade de um vento estrangeiro, desses que percorrem os mais inusitados lugares como se estivesse à procura de testemunhas para seus imprevisíveis arroubos. E nos rendemos aos seus caprichos indomáveis. Quem canta entoa hinos que cruzam espaços, tempos e paisagens intimistas. Como mensurar sentimentos que brotam dessas escutas?

A voz desse mesmo canto fala de ternuras, inquietudes, perplexidades, belezas, serenidade. Convive com as artimanhas do amor, enfrenta as contendas do ser, questiona o tecido social, sugere poesia. Por trás da canção, a tradução de tantas difusas sensações aqui já descritas vem caracterizada pela performance de Achiles Neto, o condutor das sonoridades amalgamadas no trabalho da banda Caim.

Mas eis que Achiles não está sozinho. A Caim é levada a cabo pela sua parceria com o músico Marcus Marinho. O resultado dessa união de ideias e sentimentos está refletido no trabalho de estreia da banda, o disco Ciência, Arte, Ideologia e Música. Diga-se de passagem, o nome de batismo do álbum é adequado porque sugere uma amplitude de horizontes, olhares devotados para um bojo de questões nem um pouco monotemáticas.

Os recursos vocais de Achiles Neto são, sem dúvida, um primeiro e imediato atrativo do disco. Há não somente uma intensidade vocal presente nele, mas principalmente uma extrema capacidade de mergulhar nas canções e extrair delas uma atitude poética, verdadeiro sopro de vida. Nessa representação sensível de cenários humanos, Achiles conduz seu canto com personalidade própria, tornando o ambiente de escutas algo instigante e sedutor.

Achiles Neto e Marcus Marinho - Foto - Arthur Garcia
Achiles Neto e Marcus Marinho / Foto: Arthur Garcia

Ciência, Arte, Ideologia e Música é um rico mosaico de imagens transposto para a linguagem musical. Há de um tudo ali a refletir um traço essencialmente brasileiro e que, no entanto, se expande para um sentido universal, tendo em vista a percepção de que a música desconhece fronteiras delimitadas. Com seus acertados trajetos, a Caim transita por gêneros como o samba, reggae, blues, rock, dentre outros elementos mais. A presença marcante do violão de Marcus Marinho incrementa o sentido de brasilidade presente no álbum, dialogando com recursos que tanto podem ser tomados de um ponto de vista local quanto global. Para o conjunto harmonioso da obra, acrescente-se a bateria de Júnior Andrade e o baixo de Tiago Menezes.

Pela alta qualidade das composições e arranjos não é algo fácil escolher canções que predominem. Mesmo assim, salta aos olhos, ou melhor, aos ouvidos, uma música como Disfarce, canção que fala do amor entre dois homens com uma rara sutileza. Sob o efeito dos ímpetos amorosos, também há espaço para as constatações presentes em Quem Ama e Dei Conta. Na trama social que nos envolve cotidianamente, canções como João do BNH e Amoral evidenciam tons equilibradamente irônicos e críticos.

Um caráter regionalista povoa os cenários de uma composição como Cocoa. Nela, todo um sentimento voltado para as reminiscências dos opulentos tempos do cacau no sul da Bahia explicita tensões e contrastes sociais. Acrescente-se aqui o fato de que os integrantes da banda são baianos e trazem em si uma forte referência de uma alma nordestina.

Caim - Foto - Arthur Garcia
Caim / Foto: Arthur Garcia

É relevante perceber que músicas como Agonília e Vestido de Caim denotam um valioso viés poético. Com isso, um sensível olhar sobre os lampejos da existência mostra que viver é ultrapassar as barreiras da contemplação, dissecando vestígios e sentimentos ocultos, prenhes de uma libertação.

No terreno da apreensão das subjetividades, a musicalidade da Caim exalta hinos de liberdade, tanto no que se refere à consciência quanto a tudo aquilo que demanda um entendimento delicado do ser/estar no mundo. Esse ideal libertador é algo inalienável e não está sob o jugo de quem quer que seja. Não se submete a obscuros acordos e tampouco obedece a ritos moralistas. Expande a vida para além dos seus muros. Assim, podemos mais do que supomos.

 

 

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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105ª Leva - 08/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

George Pellegrini

 

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

 

O Pai (Paisagem amorfa sobre superfície plana)

 
1. [a desculpa]
Por todo esse caminho de ódio
por todo esse chão de abandono
creiam-me, meus filhos
havia uma intenção maior de acudir o mundo

Por isso
tirem-me da cabeça
o perfume das baleias
e o seu candor

Não quero
em inferências
amarrar o tempo
Não quero ditar
com que madeixas amarrar o vento
porque de sol, a vertigem
porque de chão, o suor
porque de lastro, o falar estreito
o fulgor desfeito
o farol

Por isso, filhas de meus caminhos
abracem as estrelas
que passem ao seu alcance
porque viageiras de outras vertigens

Abracem os meus cabelos azuis
meus olhos autóctones
porque únicos
no despenhadeiro da perdição

Abracem as tímidas lágrimas
que um dia irão brotar
como prova do ensinamento aprendiz
Acompanhem seu nascimento
e sua caída louca
como uma intenção suicida

 
2. [a verdade]
E quando todos olhavam
as marginais imagens
produzidas por meus gestos

E quando todos traziam
por baixo das pálpebras turvas
dos olhos comandados
as armas da censura

E quando todos diziam
em inoportuna voz
dos possíveis erros cometidos

Eu lhes ofertava a parede
com a paisagem à óleo
de brincadeiras ao ar livre

Eu lhes ofertava o livro
com histórias da selva
de animais encantados

Eu lhes manchava de amarelo:
um único ponto
na superfície negra
para que explodissem em luz

Eu lhes entregava
o vaso de flores frescas
roubado da mesa contemporânea
de minha tia Anita
de meu tio Orlando
de minha tia Carmélia

 
3. [o castigo]
Vieram sobre mim
os lábios poucos de pão
as mãos ávidas de Maria

Vieram sobre mim
as pedras de Madalena
o golpe na única face
o cuspe ácido das estrelas
a corda cheia de cortes

Vieram sobre mim
a culpa pela insônia
por dias de pesadelo
pela agonia da noite
pelas lágrimas de Ester

 
4. [o discurso]
Há que sair um sol
no céu de infinitas bocas
para incrustar as espécies mínimas
de intenções prosaicas
de todas as línguas
que ao comunicar
transmitem o vírus
da intolerância servil

Hão de perder a coerência
todas as ideias vis
todo discurso alienado
todas as manifestações
em prol da paz e da ordem
de um tempo deserdado

Hão de esvair-se em sangue
as veias abertas pela tormenta
a jugular do medo
a inaproveitável lágrima

Mas há, também
que se encantar com o trivial
os ouvidos autocensurados
por tambores apáticos
por gritos estereotipados

 

5. [o conselho]
Meus filhos
busquem meu perdido rosto
nos velhos álbuns de fotografias
nos antigos negativos embaçados
guardados por suas famílias

Procurem meu desconhecido rosto
nas paisagens bordadas
por suas avós,
onde sempre constarão um girassol
uma casa, uma cerca, uma árvore
uma montanha, um sol

Busquem meus submergidos rostos
nas ações revolucionárias das crianças
quando saltam as pedras
quando inventam rios
quando constroem cidades imaginárias e fantásticas
quando conseguem enumerar as estrelas

 

George Pellegrini vive em Castanhal, no Pará. É professor de Literatura Hispanófona da Universidade Federal do Pará e Mestre em Literatura Espanhola pela Universidad de Sevilla. Tem contos, poemas e artigos científicos publicados em jornais e revistas. O poema aqui publicado integra o livro “As Confissões de Plomo” (Ed. Resistência – 2015), vencedor do Prêmio de Poesia Belém do Grão Pará 2014.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Poliana Paiva

 

Arte: Juca Oliveira

 

PERSONA

 

Outro dia conheci uma personagem de Comédia Romântica. Eu, que até hoje só fiz Drama, achei o maior barato conhecer gente diferente, com uma vida assim mais tranquila, um futuro mais garantido e coisa e tal.

O que acho mais curioso nas Comédias Românticas é que, mesmo quando dá uma merda muito grande e o protagonista se fode, nos 10 minutos finais alguém se redime e tudo dá certo. Até meio certo demais, mas, enfim, o fato é que eu conheci essa moça da Comédia Romântica. Ela era muito bonita. Bonita mesmo. Tá certo que ela tinha a cabeça meio grande. Cabeça de quem faz muita dieta. Sabe quando a pessoa vai ficando tão magra que a cabeça vai ficando um pouco grande em relação ao resto do corpo? Pois é. Essa personagem era assim. Cabeçuda. Em outros tempos até poderia chamar atenção, mas, hoje em dia, definitivamente, isso não importa tanto. A pessoa pode tá pobre, pode tá sem amor, pode tá doente, pode até ter caído na malha fina do Imposto de Renda. No entanto, se tiver magra, tudo se ajeita.

Era um domingo, isso eu lembro bem, porque o Aterro tava fechado e todo mundo pedalava com um sorriso de propaganda de margarina. Estávamos nos jardins do MAM. Lembro também que tinha muita gente nadando no trecho entre a Marina da Glória e a Enseada de Botafogo. Todos provavelmente vacinados contra hepatite B.

E não falo de vacina por mania de doença, não. Eu nem tenho como ser hipocondríaca. Até hoje só fiz Drama de Época. E nos Dramas de Época, a realidade é cruel. Personagem que não morre de peste, de infecção, nem de necrose, é minoria. E essa minoria, naturalmente, não tem tempo de ficar obcecada com dieta equilibrada. O buraco é mais embaixo. Se der pra procriar, pra comer e pra trabalhar, o corpo do personagem tá mais que bom.

O caso é que, mesmo sem ser hipocondríaca, acabei perguntando pra essa personagem minha amiga se ela tava se sentindo bem, se queria comer alguma coisa. Afinal, ela tava tão magrinha, que era bom um carboidrato, uma gordura, sei lá. Foi aí que ela sorriu de um jeito meio nervoso e disse que precisava mesmo era de um cigarro.

Nesse momento, do nada, apareceu a Elke Maravilha, dizendo: “- Criança, fumar é feio”.

Até aí eu tava achando tudo normal. Sempre encontro Elke no Leme. Uma fofa. Inteligentíssima. Libertária. Tudo de bom. Daí Elke pega uma canga, senta do nosso lado e pergunta: “- Viu se Painho já chegou?”.

Aí, sim, achei estranho. Pô, Chacrinha morreu tem tempo e Elke é uma das pessoas mais lúcidas que conheço. Foi então que comecei a juntar as peças: primeiro, o povo do sorriso de margarina pedalando. Depois, o pessoal nadando na baía mais imunda do mundo e, agora, Elke perguntando por Chacrinha… Minha espinha gelou e tive a certeza: “Puta merda, tô num sonho!”.

Não sei quanto a vocês, mas eu não curto nada a ideia de passear no sonho dos outros. É sempre dor de cabeça. Sempre. Todo mundo se acha cineasta nessa hora. Todo mundo quer brincar de narrativa, mas ninguém se importa se os personagens estão cansados, com fome ou com vontade de fumar.

Antes que a coisa piorasse, chamei minha amiga num canto e disse: “- Amada, isso é uma cilada. É um sonhozinho de quinta e, se a gente não se ligar, vai ficar aqui por muito tempo aplaudindo pôr do sol. E o pior: sem cigarro e sem bebida, que pelo visto a única droga que esse povo consome é televisão”.

Foi assim que consegui convencer minha mais nova amiga de infância a evadir do sonho alheio. Foi simples: começamos a cantar uma música do Ratos de Porão e fomos convidadas a nos retirar.

De volta à realidade, nos despedimos. Fui protagonizar o nonagésimo remake do “Direito de nascer” e ela foi pro ensaio de “Como perder um homem em dez dias – Parte 3”.

Agora, se fosse pra voltar pra realidade mesmo, essa que vocês encaram todo dia, de metrô cheio, neuroses de gaveta e regulagem de cu alheio, preferia ficar no Aterro, doida de vontade de fumar e ouvindo um bando de neohippie dizendo “gratidão”.

 

 

 

***

 

 

 

THAT´S IT

 

Chegou a hora dessa gente desbocada mostrar seu valor. Falar o que pensa. Desnudar a alma. É preciso mostrar ao mundo quem se é. Porque, de boa, tá cansativo abrir o facebook e receber convite pra curtir evento onde só tem foto tua expondo teus filhos e na legenda escrito “amor maior”. Extenuante também é ir às festinhas que você me convida e ter de responder de hora em hora que nunca engravidei e que isso não faz de mim menos mulher. Chato ter que ficar provando minha feminilidade o tempo todo. O que você quer? Que eu tire a roupa pra exibir minha aparelhagem? Que eu mostre exames ginecológicos? Porque você bem sabe que sou capaz disso.

Quer saber de outra? Poucas coisas são mais constrangedoras do que ouvir como foi lindo o filhinho da sobrinha do teu amigo que foi pajem do casamento da afilhada da tua ex-chefe, que, a propósito, conseguiu engravidar aos cinquenta anos, depois de gastar dois milhões em inseminação. “-Que bom para o casal”, sempre digo, pois acho que, se a pessoa quer, ela tem mais é que fazer, seja filho, bolo de milho ou merda. Tudo é válido. E é exatamente por isso que, apesar de não estar nem um pouco interessada na cotação mercadológica dos produtos infantis, escuto, com o máximo de atenção, discussões acaloradas sobre fraldas, leites em pó e papinhas orgânicas. Pra mim, isso é tolerar o diferente.

Quer ver outra situação que dá preguiça? Seus amigos me perguntando se vou congelar os óvulos. “-Não, não vou!”, respondo sempre horrorizada. Você bem sabe que não congelo nem carne moída. Aliás, cada vez mais penso que, pelo bem do planeta e da humanidade, carne, pra ser consumida, tem que ser crua, fresca e humana. É, eu gosto de meninos mais jovens. E, sim, tenho uma lista de homens que posso procurar quando quero. Porque dou muito. E sempre. E com vontade. Acredito que é dando que se reflete, que se constrói uma vida melhor, uma pele melhor, um humor melhor.

Outra coisa: se não falo pra tua mulher que te vi no tinder várias vezes dando pinta de solteiro, por que motivo você se sente no direito de vir me catequizar sobre as maravilhas do casamento? Quem é você pra dizer que eu estaria melhor do que estou se estivesse acompanhada de um cara como você? Quem é você pra achar que eu estou encalhada? Encalhada é quem não sai do lugar. Eu, baby, saio. E muito, viu?

Mais uma coisinha: se escrevo o que escrevo e digo o que digo é porque tenho mãos e língua e porque elas não servem só pra fazer as peripécias que fiz com você. Claro que adorava teu corpo nu na minha cama, mas você sempre queria mais, lembra? Mais amor, mais provas, mais privações, mais silêncios. Se nunca te pedi pra sair da lâmpada, como um gênio, nu e cheio de desejos, por que você achou que eu faria isso por você? Não sou sua “Jeannie”. Não tô aqui pra satisfazer tuas vontades. Tô aqui pra ser feliz, pra ser solidária e não pra ficar com raiva de todas as mulheres que você comeu enquanto estava comigo, sempre justificando que as vagabundas eram elas.

Saiba que, desde que nos separamos, li muito, estudei muito e sei muito mais do que você sonhou que eu fosse capaz. Seu problema é achar que só você é capaz. É dar pala pra essa sociedade falocêntrica, machista e misógina, que não acredita que posso ser protagonista da minha vida. Pois, pasme, amoreco, meu roteiro quem tá escrevendo sou eu. Um dia, quando você baixar tua crista, talvez seja capaz de acompanhar minha história, sem achar que tudo que faço está ligado a você, ao seu intelecto, à sua conta bancária, aos seus filhos e à sua incapacidade de dar duas sem tirar de dentro.

Uma vez te disse pra não me provocar, ao que você respondeu, em tom de deboche, cantando uma música da Rita Lee, que dizia: “Por isso não provoque, é cor de rosa choque”. Outro dia lembrei disso e tive vontade de te apresentar outra musa da música brasileira, Karina Buhr, que, no auge da consciência de gênero, costuma dizer: “Cor de rosa é a cabeça do meu pau”.

Essa é pra você parar de me enviar whatsapp em plena madrugada, quando estou sendo feliz com outro. Fique feliz você por eu não estar nesse exato momento encaminhando tua mensagem pra tua mulher.

E saiba, por fim, que o clitóris que ponho na mesa agora nunca mais vai ser teu. Durma com essa.

Pronto, falei.

 

Poliana Paiva é formada em Cinema pela Uff e em Teatro pela Cal. Dirigiu e roteirizou 4 curtas, foi roteirista dos programas de auditório ‘Esquenta’ e ‘Papo de Mallandro’ e, no momento, escreve seu primeiro longa, uma série para tv e uma série pra web. Foi publicada em duas coletâneas de novos autores e selecionada no concurso ‘Poema nos ônibus e nos trens’, promovido pela prefeitura de Porto Alegre. Fora isso, integrou as exposições ‘Liberte a literatura’ (2012), no Centro Cultural da Justiça Federal e ‘Caneta, Lente e pincel’, no subsolo do Monumento a Estácio de Sá (2013) e no foyeur do MAM (2014).

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Eu, Você e a Garota que Vai Morrer (Me and Earl and the Dying Girl). EUA. 2015.

Poster

Esqueça seu preconceito com a temática adolescente (principalmente americana): bullying, baile de formatura, busca de popularidade (ou falta de) e tudo que assombrou o colegial de todos nós. Baseado no livro homônimo de Jesse Andrews – que também assina o roteiro do filme – e vencedor de público e júri no Festival de Sundance deste ano, Eu, Você e a Garota que Vai Morrer estreou no Brasil na 17ª edição do Festival do Rio e deverá entrar em circuito nacional em novembro. Apesar de soar à primeira vista como um mix de Rebobine, Por Favor (2008), As Vantagens de Ser Invisível (2012) e A Culpa é das Estrelas (2014) – os dois últimos também adaptações literárias –, o novo longa-metragem do cineasta Alfonso Gomez-Rejon – mais conhecido por dirigir episódios das séries Glee (2009-2012) e American Horror Story (2011-2014) – bebe mesmo é da fonte de Wes Anderson, vide a utilização de enquadramentos não-convencionais, fotografia ensolarada e divisão em atos, com subtítulos espirituosíssimos.

A trama conta a história de Greg Gaines (Thomas Mann, não confundir com o homônimo escritor alemão), aluno do último ano do colégio Schenley, em Pittsburgh (Pensilvânia). Greg e “sua cara de marmota”, como se autodeprecia, não se encaixa em nenhuma “nação”, como ele denomina as tribos de alunos, porém transita com superficialidade entre todas. Tudo para passar despercebido pelo 2º grau, sem arranjar inimizades ou maiores constrangimentos. Seu único amigo (ou “colega de trabalho”, como gosta de retificar, uma vez que são parceiros na [re]produção de curtas-metragens de clássicos do cinema) desde a infância é Earl Jackson (o promissor RJ Cyler), adolescente negro e suburbano com quem almoça todos os dias na sala do tatuado professor de História, Mr. McCarthy (Jon Bernthal) – o único adulto sensato da escola, segundo eles. A vida de Greg muda quando sua mãe (Connie Britton) o obriga a procurar e consolar Rachel Kushner (Olivia Cooke, a Emma da série Bates Motel, novamente fazendo papel de enferma), colega de classe diagnosticada com leucemia.

cena do filme
Rachel (Olivia Cooke) e Greg (Thomas Mann) assistindo uma de suas produções cinematográficas / Foto: divulgação

O que inicia como um martírio – a tomada de câmera no quarto de Rachel que ilustra o abismo que há entre os personagens é sensacional – gradualmente assume um papel de amizade, diversão e cumplicidade. Logo Earl é introduzido ao novo relacionamento, e só assim Rachel – dona de uma enigmática coleção de tesouras – descobre mais detalhes sobre o sarcástico Greg e o hobby favorito deste fã de Werner Herzog. E é através dos remakes bizarros de Rashomon (1950), O Sétimo Selo (1957), Laranja Mecânica (1971), Morte em Veneza (1971), Apocalypse Now (1979) e tantos outros, que a personagem preenche as agruras de seus dias [pós-quimioterapia], sem saber que em breve também ganhará uma produção da dupla, sugerida por sua amiga Madison (Katherine Hughes). Narrado por Greg, Eu, Você e a Garota que Vai Morrer dosa cirurgicamente drama e humor e escapa praticamente ilesa aos lugares-comuns do argumento. A la Michel Gondry, acrescenta elementos fantásticos e animações graciosas – como a teoria de que garotas são alces e garotos, esquilos – e reverencia os grandes diretores da sétima arte.

O longa cativa pela desenvoltura do enredo e carisma do elenco (destaque para o pai de Greg, professor universitário apaixonado por gatos e comidas exóticas, interpretado de forma magistral por Nick Offerman, e para Molly Shannon, atuando como Denise, a ébria mãe de Rachel), mérito de uma direção precisa de Alfonso Gomez-Rejon (que já foi assistente de Martin Scorsese e Alejandro González Iñárritu), ancorado pelo escritor/roteirista e grande conhecedor da história, Jesse Andrews. A narrativa contempla amizade e solidariedade, presente e futuro, vida e morte. Impossível não se emocionar e desejar a recuperação de Rachel, imaginar Greg na faculdade ou até mesmo torcer por um romance entre os protagonistas (ok, desculpe o clichê). Mas como não se trata de um filme previsível, jovens e adultos: preparem o sorriso, o lencinho e a pipoca. Independente da idade, também vamos querer integrar a trupe de Greg, Earl e Rachel.

Larissa Mendes também forja cenas em condição sub-humana.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Monica Marques

 

Arte: Juca Oliveira

 

Traição

 

O segredo atrás da porta:
Olhos
absorvendo
cores e musgos
do mundo em silêncio

Segredo:
A cor sugando
..a vida
pelos olhos

 

 

***

 

 

Cisão

O pássaro não pensa
em seu corpo
O pássaro não pensa
em seu movimento
O pássaro não é dois
O pássaro é uno
É movimento
que se realiza

 

 

***

 

 

Rasgo

 

Trago o tempo entre os dentes
é preciso morder a existência pelas bordas
para que não escape

É necessário rasgar a carne
para o que está dentro
possa vir à tona

Rasgar entre a luz e a fumaça
Mexer as imagens com os dedos
Acordar entre a loucura e poesia
Sonhar até ficar vazia

Não há mais delicadeza
Apenas pólvora queimando sem rima
Poesia frita em óleo sujo
Translucidez

O ser é tempo iluminado
que se desdobra em sua espessura
e vira a esquina

 

 

***

 

 

Púbis

 

Raízes crescem nos pés
sobem pelas pernas
se entrelaçam nos pelos

Enterrando-se no concreto
descobrem a terra escondida

Arrancar toda a pele
Para encontrar-se com o avesso

Desfigurar as palavras
até que não sejam mais de ninguém

 

 

***

 

 

Fragmento

 

Espero pelo raio
na textura efervescente do dia
Os pensamentos
extraviam-se nas folhas

Padeço de fragmento
Hesitado vai o tempo

 

Monica Marques nasceu no carnaval de 1988 em São Paulo. É poeta, formada em filosofia pela Universidade de São Paulo e, atualmente, desenvolve projeto de pesquisa. Com Transversais (lançamento em breve pela Ed. Patuá) foi finalista e recebeu menção honrosa no Programa Nascente 2014 promovido pela USP.

 

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105ª Leva - 08/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Comentários sobre Corpo Sepulcro ou O extenuante júbilo da morte

Por Maurício de Almeida

 

 

1. O corpo sepulcro

 

Autor dos romances Retorno ao pó, No vale de ossos secos, Amor em tempos de solidão e Terapia das almas suicidas, Mike Sullivan lançou recentemente mais um trabalho, que nasceu reconhecido: o romance Corpo Sepulcro recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 2013.

Corpo Sepulcro é um livro trágico. Resumidamente, o narrador sofre de uma doença degenerativa que o paralisa por completo, fazendo-o perder não apenas a independência funcional, mas progressivamente todos os sentidos. Ao receber o diagnóstico, o narrador se questiona:

Como seria ver meu corpo morrer pouco a pouco, transformando-se num sepulcro a envolver minha mente ainda viva?

Da resposta provém o romance: absolutamente incapacitado e deixado à morte, ao narrador resta apenas o olfato e a capacidade cognitiva que o permite realizar um exame de consciência, rememorando as culpas que guiaram implacavelmente a vida e que, afinal, resultaram na situação absurda em que morrerá.

Nessa revisão, recupera-se a trajetória de um tradutor que se vê obrigado a retornar ao Brasil para amparar a mãe no momento em que o pai fica inválido por conta de um AVC. Esse retorno ao país é também um retorno ao passado – e a todas as culpas que o pautam e das quais quis fugir em um intercâmbio para a Inglaterra. Embora tente reiniciar a vida, ao assumir a tradução de Orlando (Virginia Woolf) e se embrenhar em um relacionamento casual com a editora Jasmine, compreende-se que a culpa do personagem é inescapável e se tona força motriz de uma vertiginosa derrocada.

Narrado em primeira pessoa, há dois elementos que conduzem a trama por serem obsessões do personagem: o olfato, único sentido que lhe resta no momento em que narra e, portanto, por meio do qual ele conduz suas recordações, e a morte, constante dramática que guiou a vida ao estabelecer com ele um jogo – a morte o persegue na medida em que ele persegue a morte.

 

2. O cheiro ou He was born a scentless apprentice

 

Já nos primeiros capítulos do livro somos informados sobre o evento fundador do personagem, seu drama de origem: a morte de Dominique, a irmã gêmea. Constante e veladamente reiterada pelos pais, a culpa do narrador decorre de sua participação na morte. Contrariando a mãe, foi por insistência do personagem que o pai retornou com os filhos ao lago no qual haviam passado o dia. Uma fatalidade faz submergir a irmã, que nunca mais foi encontrada.

Esse fato leva uma família aparentemente comum à ruína. E sob o signo dessa morte vive o narrador de Corpo Sepulcro. O mérito de Mike Sullivan é demonstrar como o personagem reencontra o evento da morte da irmã em todas as tragédias que o cercam e, por isso, se responsabiliza por elas. Não por acaso, a culpa já insuportável transforma-se em autoflagelo, como se a expurgação fosse impossível e a única solução é tornar-se vítima constante de uma morte perpétua.

Interessante notar o funcionamento dessa engrenagem: devido ao seu estado debilitado e tendo à disposição apenas o olfato, é por meio do cheiro que o personagem conecta todas as tragédias à tragédia fundadora. No entanto, ele não possui registro algum desse acontecimento originário que, justamente por isso, aceita todo e qualquer odor que o personagem entende por trágico.

Assim, as iniciativas desesperadas e inúteis de expurgar a culpa são direcionadas por esse entendimento: mijo, merda, suor, porra, corrimentos e inúmeros odores hediondos o rementem ao sexo furtivo e marginal. E, afinal, rementem a ele mesmo:

Dei-me conta então de que a origem da podridão se dava em mim, incrustada nessa personalidade de estrutura arenosa. Aceitei essa condição. Entreguei-me aos perfumes mais ordinários, e passei a extrair prazer daquilo que era considerado repugnante pela maioria maciça dos humanos. Eu queria ser apenas um libertino, um depravado, um imoral.

Eis o movimento circular que inicia o giro: a culpa que leva ao sexo que retorna à culpa – e a espiral que se realiza tem como ponto central (e inatingível) a morte.

 

3. A morte ou Wine is fine but whiskey’s quicker, suicide is slow with liquor

 

Ao longo de toda história que antecede a invalidez, o narrador consome quantidades excessivas de álcool. Tal qual o sexo, o álcool corresponde a uma suspensão da consciência que de certa forma o aproxima da morte, possibilitando, na verdade, que ele morra indefinidas vezes, e criando também uma punição constante às tragédias pelas quais se responsabiliza.

Dessa forma, justifica-se o jogo que ele estabelece com a morte: ela o persegue na medida em que ele a persegue, pois, devido à culpa que assume pela morte da irmã, ele pauta a vida por todas as mortes que o rodeiam, uma vez que é responsável por todas. E elas são muitas: o intercâmbio à Inglaterra para fugir da irmã, o retorno ao Rio de Janeiro para acompanhar a agonia do pai, a esbórnia deflagrada pelo acidente do cão. E é, afinal, em sua derradeira tentativa de reverter o desgoverno da vida que o narrador encontra a morte derradeira: a esposa.

 

4. A curva extrema do caminho extremo ou Die, die my darling

 

Por vezes, o narrador soa como se rodeasse o problema, mas temesse eviscerá-lo. Nomeá-lo é um primeiro passo: a morte da irmã, a responsabilização e fúria passiva-agressiva da mãe, a doença do pai, o ressentimento de Jasmine, o escapismo pelo álcool e o sexo como entorpecimento. Que esses fatos são mobilizados pela culpa que sente e da qual não consegue abrir mão, ele assume com todas as letras. Entretanto, existem situações e reações do personagem que soam amenizadas em seu relato, como se declinasse uma análise mais profunda para somente descrever os acontecimentos.

É verdade que, feito um autômato, o personagem apenas reage obsessivamente e a repetição do ciclo álcool-sexo-culpa-álcool leva à insensibilidade. É verdade também que a história narrada são reminiscências que, por sua natureza, permitem distanciamento. Mas julgo haver um elemento que justifique esse comportamento quase desinteressado e passivo: a impossibilidade.

Considero Corpo Sepulcro um livro sobre a impossibilidade. Lidando constantemente com a morte, a maior das impossibilidades, e encenando-a de diversas formas sem conseguir de fato realizá-la ou ao menos expurgar a culpa, o personagem relata desvarios, pois sabe que eles foram vãos. Corrobora com essa leitura um símbolo persistente na maior parte da história: a tradução inconclusa de Orlando. Antes de ser solapado pela doença, o personagem faz a seguinte confissão à editora:

É que me vi impossibilitado, de maneira muito misteriosa, de traduzi-lo.

Ademais, não se pode esquecer que a narração acontece quando o personagem se descobre finalmente realizando a curva extrema do caminho extremo, o que a ele significa alívio, mesmo que a situação seja absurda e angustiante. No limite, portanto, ele discorre sobre situações impossíveis e passadas que, se possuem desdobramentos, no momento em que são narradas significam muito mais despedida, uma vez que será permitido a ele esquecer. E, como não poderia deixar de ser, não haveria outro desfecho ao livro senão o personagem ser velado pela própria morte.

 

Maurício de Almeida é autor de ‘Beijando dentes’ (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.

 

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105ª Leva - 08/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Jorge Elias Neto

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

A logística das formigas

 

Reparem no descaso
das formigas
no espelho fosco
das placas de gelo.
Morrem,
…….aos montes,
…………em fila,
……agarradas
à impossibilidade.

 

 

***

 

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

Discurso para o cadáver

 

Teus olhos
não mentem
essa simplicidade
em dizer:
tão breve, a vida,
enquanto saturamos
o ar
com subterfúgios
e preces.

Do ponto
Em que se parte
– se esquece –
o espectro
da carne
………… – do irremediável.

Da carne
à cinza,
do torrão de
terra
ao desprezível
mármore
– questão alheia –
(prevalecerá a vontade
…………..do Universo).
Que os vivos
tratem da espessura
das trevas.
A você, o privilégio
da dimensão
onde se plantam flores.

Agradeço
a sinceridade
azul
em teus dedos,
ao lançares os dados
que julgarão
os versos
impossíveis.

E o que disse
da memória…
A memória sem lar,
desnecessária,
posta a ausência
cúmplice.

Se pudesse
te acenderia um cigarro…
Deixaria a guimba
………….pendurada.
em teus lábios.
(Como é bela e
…………..inútil
a última centelha…)

Logo
chegarão.
(A boca aberta da cidade
…………..despeja
………………..suas crias.)
Vestirei a máscara
e restarei
um momento – breve –
(o tempo de observar a indecisão
das chamas perante o choro
……….humano).

 

 

***

 

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

Clandestino

 

A verdadeira clandestinidade
se pratica simplesmente mantendo-se vivo
Jorge Elias Neto

Acorda-se do último sonho
em uma esquina vazia,
e o que se acreditava
se dispersa
além dos olhos.

O contorno das montanhas
desfez o sentido
das encruzilhadas
(desvios
só interessam aos apressados;
………….. e já não se tem mais pressa).

 

 

***

 

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

Os raios oblíquos da manhã

 

Poesia
não é encosto,
não é escora

Na primeira manhã
foi um entregar-se à dádiva
da escolha.
Passam os dias,
e as encostas
escorrem sob o peso
do que se repete.

 

 

 

***

 

 

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

Matilha

 

Amor: quantas palavras necessárias para
que um gesto se torne inscrito no tempo?
Hilton Valeriano

Nomeados
os lobos,
desembanhei os caninos
…… – incógnitos –
e ensaiei a dança
solitária
do uivo
na imensidão austral.

 

 

***

 

 

Felipe Stefani
Ilustração: Felipe Stefani

 

Fração do indizível

 

O branco desse gelo
é todo poema –
…….verdade possível.

Entre o amor,
e outras alucinações,
o inefável me acena
caridoso.

(A grande face
e sua biografia
…….de renúncias
e equívocos.)

Minha distância
não é exercício de retórica,
apontamento
de um ególatra,
tons pastel despejados
na boca de lobo.
Não há indiferença
quando parto
e retribuo
o aceno.

 

Jorge Elias Neto (1964) é médico, poeta, cronista e ambientalista. Capixaba, reside em Vitória – ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010),Os ossos da baleia (Prêmio SECULT 2012), Glacial (Editora Patuá – 2014) e Breve dicionário poético do boxe (Patuá – 2015). Colabora com poemas em vários blogs e na revista eletrônica Diversos Afins, Germina,  Mallarmargens e no Portal Literário Cronópios. Membro da Academia Espirito-santense de letras, onde ocupa a cadeira de número 2.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Krishnamurti Goes dos Anjos

 

Arte: Juca Oliveira

 

GANGRENA

 

“Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem.”
(Adriana Calcanhoto – Senhas)

 

A dor e a sensação de intumescimento aumentando, uma sede horrível queimando-lhe a garganta. Tateou no chão, perto da cama, o copo plástico e a moringa com água. Bebeu o resto da água que havia e deixou cair pesadamente a cabeça no travesseiro. Depois de serenada a sede, recordou-se do alívio que sentira quando interromperam a música do trio elétrico em frente ao palanque dos homens do governo. “Não sei de onde o Genésio saiu. Eu naquele desespero, sem saber o que fazer, para quem apelar. Contei a ele. Ele me disse: toma um gole. Liga não, corrente. Ó, se tu quiser, tu pode entrar num lance comigo e mais dois bróder. Ó, vai rolar a maior grana, tá ligado? Na quarta de cinza vamo estourar um caixa vinte e quatro horas na Pituba… Mas, ih, cara! É nenhuma para você, deixa, esquece, eu só falei por falar, só porque cê tá nessa de horror aí com o tal do isopor. Você é moral, eu sei. Teu negócio é ficar lá enfurnado com a tua nega no barraco. A Sussuarana toda sabe. Tô ligado, só ali ralando na empreiteira que corta os gatos de luz, né? Toma, bebe um gole dessa onda aí, vai te fazer bem….” O zunido da guitarra do trio, sendo afinada, entrando nos ouvidos como o voo rasante de um mosquito gigantesco. Genésio falante, falando alto e suando, a pele negra brilhante. “Eu sei, mano, que a maré não tá boa pra ninguém, só para eles – fez um gesto para cima com o polegar – sempre os mesmos. E os tiras não tão brincando não. Se você vacila, pegam, apagam e desovam o corpo na primeira pirambeira. Depois abafam e não se fala mais nisso. Tá afim de um baseado? Não? Tá limpo. Comigo eu não vacilo, viu? Tá aqui, vê só o cabinho do três oitão aqui no meu abadá. Polícia se mete comigo, meto bala no meio dos peitos desses putos”.

O barulho de música de carnaval recomeça estrondoso, e uma morena, lá no alto, canta berrando: – E tá um empurra-empurra aqui / mas tá gostoso / Ô, ô, ôooo… – Genésio deixou-lhe a garrafa plástica, cheia da bebida liquorosa à base de álcool. Multidão enlouquecida, dentro do bloco aquelas meninas minas do Itaigara, tudo linda, tudo loura, tudo cabelo liso, solto, escorrido, molhado, tudo mamãe-sacode. No apertume chegou a roçar no braço de uma loirinha do bloco, calçada com tênis importado e tornozelo enfeitado com correntinha de ouro. O empurra-empurra invadindo os domínios do bloco, até que a turba recuou na ação encapelada e firme da corda grossa de amarrar navio, jogando longe os do lado de fora da tribo.

“Não sei onde foi para o pé esquerdo do meu tênis velho, o que já estava com o cadarço partido, e aí senti aquela pontada, a dor fina na planta do pé. Primeiro não liguei muito não, e depois que aquela bebida bateu na cabeça, a minha raiva, o cansaço virou uma alegria besta, deu uma zoeira que esqueci até da fome, do isopor; queria mesmo era sacudir os braços, beber da garrafa plástica, me misturar no meio da multidão, daquela zoada maluca até madrugada alta, pra botar pra fora de mim esse mar de amargura, essa rotina de dificuldades, esse cabresto de miséria o ano inteiro. Como é? Tanta gente rica e eu fodido? Aquela bebida tonteia o cabra até os ossos!”

Uma dor de pontadas elétricas partia daquele rasgo e começava a invadir todo o pé esquerdo, o tornozelo, a batata da perna, subindo com força pelo joelho.

“Maria lá na terra dela vendo se o irmão empresta algum pra a gente ir tocando enquanto eu não arranjo um trampo. Eu não queria, mas ela só ficou falando naquilo… Deixei ela ir porque queria pegar o dinheiro do seguro desemprego, sem que ela soubesse. Me deu na ideia ver se eu não fazia o mesmo que muita gente faz aqui: vender de ambulante no carnaval. Comprei a caixa de isopor, comprei as caixas de copinhos de água mineral. As latinhas de cerveja, já não dava o dinheiro, tive que pegar fiado no depósito do Jorge. O que sobrou foi a conta de comprar as barras de gelo. Eu queria dobrar o dinheiro do seguro, fazer uma baita surpresa pra Maria quando ela voltasse. Por que a Maria ainda não voltou? Eu já tô aqui assim faz quanto tempo? Dois dias… ou três?… Maria na estação da Lapa. Olha daqui, olha dali, todo dia enquanto o ônibus dela não vinha, eu trepado no andaimezinho trocando lâmpada da estação, Maria trabalhando em casa de família, gostei dela logo, jeitosinha mesmo. Maria magrinha, fraquinha, ficou tão minha amiga… Ficamos de lá para cá. Só não deu para parir. Não é mulher parideira não.”

A secura na garganta voltou a incomodar-lhe  a goela seca, a sede, a seca.

“Sempre a seca matando, a eterna história miserável da seca. Só mandacaru para suportar. A minha sede é tanta agora que estou enxergando a cortina da porta do quarto igual a quando o sol abrasa a terra já ressequida, e sobe aquela ondulação de calor de miragem… Que agonia meu Deus. Até quando isso vai durar? Valei-me nossa Senhora… Foi isso… Isso mesmo que mãe disse quando contei que vinha para Salvador tentar vida melhor. Valei-me, Nossa Senhora! José, você num vá, Zé. A capitá num tá prestando mais não, diz que não tem mais emprego, Zé. Fica aqui, Zé. A gente tem pouco, mas tem com que passe. Zé, ô Zé! Cê é que sabe… É, mãe, a senhora acertou mais uma vez… Eu preciso suportar mais um pouco. Se tivesse um talo de bananeira aqui pra botar o leite na ferida… Também, se não tivesse vindo, não tinha encontrado a Maria, a minha Mariazinha… Ai que dor desgraçada, não gosto de médico, e quede dinheiro?  Nada! Sempre tive boa saúde.”

Entretanto, naquela altura, uma aflição começou a morder-lhe o íntimo como uma advertência. Aquelas dores faiscantes que não paravam eram um sinal que o ameaçava. Quis gritar, chamar por alguém, chamar por Maria, mas o grito saiu como um murmúrio arrastado da garganta ressequida. Procurou ver o pé, aquela coisa disforme em que se transformara toda a sua perna, supurando e sangrando. O sangue novo em cima do coagulado, tingindo o lençol, escorregando da cama, pingando no cimentado do chão. Já não conseguia distingui-lo precisamente. Um nevoeiro impedia-lhe a visão e, pela primeira vez, frágil, desprotegido contra o que podia acontecer, teve medo, tremeu de medo.

“Mãe nunca demonstrou ter medo de nada, nem nunca chorou. Ficava triste às vezes, ficava com o olhar distante, perdido na barra da serra, sempre ali na janela, calada, olhando, matutando. Nunca. Desde que nasci sem pai, e que me alembro, sempre ali. Forte. Só quando já tava sentado no ônibus que vinha para cá, quando dei o último adeus pra mãe, foi que vi aquelas duas lágrimas escorrerem por seu rosto comprido, sulcado de rugas. Mãe ficou ali com Guardião ao lado, sentado sobre as patas traseiras, os dois me olhando… me olhando”.

O mal-estar aumentava, febre e suor, mal-estar aumentando e trazendo com ele uma sonolência cheia de delírios.

“O cabo de alta tensão energizado, treze mil volts explodindo o caixa eletrônico, incendiando o dinheiro, ele subindo em poste, descendo de poste em turnos de trabalho de doze horas, descascando fios e calos da mão também, folgando lâmpada em poste sim, racionando, poste não, racionando, todo mundo embolado, fio descascado, gente descascada, descarnada, cobre exposto, demissão, bala de trinta e oito no peito do empreiteiro da companhia de energia elétrica que usava uma bota roubada de eletricista e que parecia protegê-lo do des/emprego de corte de lata de cerveja lascada, derramada no chão impermeável do asfalto da avenida carnavalesca, na blitz da fiscalização da prefeitura, o peso enorme do isopor, a cantora gritando sai de baixo meu irmão que lá vai a zorra! Dois dias na base do acarajé, emendas de licenças para ser ambulante, emendas de fios de agarra, tudo embolado, toda hora dando descarga, faíscas, curtos, choques imensos carbonizando o pé calçado numa bota, uma explosão elétrica! A velha casinha no mesmo lugar ao pé da serra, agora reformada. Em volta, um bosque irrigado, com muitas árvores, tudo verdinho, verdinho. A luz dourada filtrando-se por entre a folhagem das árvores. Um cheiro de terra úmida misturado a exalações de flores silvestres. Porteira nova que ele mandara fazer, as ripas e caibros do telhado novinho que ele mandara substituir, mãezinha pitando o cigarrinho de palha, passando o café cheiroso, fartura na mesa. No pátio a bicharada solta, flores e crianças brincando de roda. Quem seriam aquelas crianças? Seriam seus filhos? Brincavam de roda. Guardião de um lado para outro correndo, latindo, perseguindo galinhas histéricas, sob o olhar omisso de vacas leiteiras, uma arruaça engraçada de se ver. Sua atenção se fixa nas crianças brincando. Sentiu-se participando da antiga ciranda de sua infância, cantando a débil canção infantil: Eu sou pobre, pobre, pobre, de marré-de-si”.

Um violento calafrio percorreu-lhe o corpo. Minutos depois, com surpresa, conseguiu erguer devagar a cabeça. Alívio de suave vertigem. Sentia-se agora pairando alguns centímetros acima do próprio corpo dormente. Incomoda-lhe menos a perna, a sede quase que cessara, e o peito, como que liberto, abre-se para uma calma inspiração.

Em meio à tontura de ambiência nevoenta, ressoou mais uma vez o coro infantil… E seu rosto assumiu uma expressão de deslumbramento, porque, girando na ciranda, divisou nitidamente o semblante de Maria a sorrir-lhe docemente.

Quando cerrou vagarosamente as pálpebras, tinha nos lábios o esboço de um sorriso de secreta alegria.

 

Krishnamurti Goes dos Anjos é escritor e pesquisador. Autor de “Il Crime dei Caminho Novo” (Romance), “Gato de Telhado”, “Um Novo Século”, “Embriagado Intelecto e outros contos” e “Doze Contos e meio Poema”. Tem participação em várias coletâneas e antologias, algumas resultantes de prêmios literários. Possui textos publicados em revistas literárias na Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, “O Touro do rebanho”, publicado pela editora portuguesa Chiado, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

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105ª Leva - 08/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Uma janela permanentemente aberta para o mundo. Assim podemos entender a Literatura quando ela nos oferece possibilidades variadas de diálogo. Outras tantas epifanias do pensamento, dispersas pelos mais variados campos da arte, servem de combustível para a criação, fazendo com que o ato de escrever represente uma amplitude de sentidos.

Há uma avidez de mundo na obra de um alguém como W. J. Solha. Estamos diante de um autor que tem apetite por conexões quando a atenção se volta para a vida. Toda a sua trajetória está marcada por uma valiosa referência a outros campos do conhecimento, a uma desperta e explícita menção a tudo o que leu e viveu. Trata-se de um escritor com uma marca, qual seja a de deixar registrado em seus livros um verdadeiro mosaico de sensações e observações diante do que o universo da arte foi capaz de lhe ofertar.

Em meio ao que vislumbra da existência, Solha segue os rumos de sua peculiar inquietude, arrematando considerações, louvando o que merece destaque, questionando o que lhe acomete os sentidos. Possui uma extrema capacidade de eleger a memória como um precioso guia de suas incursões criativas.  Tem uma vida dedicada não somente aos livros, mas também às artes plásticas, teatro e cinema. Na sua lida com as palavras, construiu obras memoráveis, como é o caso de livros como “Israel Rêmora” (Romance), “História Universal da Angústia” (Novela) e “Relato de Prócula” (Romance). Com “Trigal com Corvos”, enveredou-se na elaboração de poemas longos, o que se seguiu em “Marco do Mundo”, “Esse é o Homem” e, mais recentemente, “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”. No cinema, atuou em filmes como “Era Uma Vez Eu, Verônica” e “O Som ao Redor”, dentre outros.

Nascido no interior de São Paulo, em 1941, Solha confessa ter renascido em 1962, quando se mudou para a Paraíba por razões profissionais e lá foi atingido em cheio por descobertas que marcaram profundamente seus caminhos culturais. Na entrevista que agora segue, terceira que fazemos com o autor, há reflexões pungentes sobre eixos não somente literários, mas também filosóficos. Uma conversa que evidencia o espírito invencível de um criador que, mesmo diante das intempéries tão próprias do seu ofício, resiste tanto pela manifestação explícita do seu pensamento quanto na necessidade eventual de se recolher e silenciar.

 

W.J.Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

DA – Seu novo livro sugere uma verdadeira intersecção entre poemas e problemas, entre Deus e o eu. Ao mesmo tempo, operam-se os contrastes. A vida é uma equação que não se resolve?

W. J. SOLHA – Embora mantenha uma linha de trabalhos explicitamente investigativa em meus “brevíssimos ensaios muitíssimo ilustrados”, dez dos quais você pode conferir aqui – , todos os romances, peças de teatro e a poesia que tenho feito tentam equacionar a vida. Sou contra a velha limitação imposta aos criadores dessas áreas, segundo a qual isso seria de domínio exclusivo da ciência e filosofia. Até o final do ano, por exemplo, estreia meu “Édipo no Terceiro Milênio”, em João Pessoa, em que coloco a tragédia original de Sófocles acontecendo hoje, ou um pouco mais pro futuro, acompanhada de perto por uma Equipe Freud, numa nave. Isso porque nunca me conformei com o desastre final do grande personagem grego. Ou seja, pegando carona no final de sua pergunta: tentei resolver uma equação que me parecia mal formulada. Sófocles, absolutamente genial, foi vítima de seu tempo, mas sinto que ele tentou superá-lo. Já em “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” discuto esse binômio eu-Deus, servindo-me do outro, o dos meus poemas/problemas. Expedito Ferraz Jr., no prefácio, diz que se trata de um conjunto de escritos de natureza híbrida (algo entre poesia e ensaio) em que se desenha a espiral de uma reflexão que é, ao mesmo tempo, memória,estéticahistóriateologia. Fui feliz nisso, não fui? É o mesmo que me perguntar se é válida a fórmula que criei pra meus ensaios, que vou desenvolvendo já com uma quantidade enorme de fotos como parte do discurso. Acho extremamente poético – e arriscado, lógico – fazer o que fiz num dos poemas do livro, por exemplo, no qual faço os autores do Novo Testamento “fecharem” o Livro – a Bíblia – até então em aberto, ao contrabalançarem o Gênesis com o respectivo e necessário Apocalipse, ao tempo em que reformulam a lei mosaica, judia, com a novidade platônica, numa montagem cinematográfica. O curioso é que a grande maioria de meus leitores se choca muito mais com a escolha do tema para esses meus versos do que com eles.

DA – Numa das letras da fase solo de sua carreira, John Lennon dizia que Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor. De algum modo, você também comunga desse pensamento?

W. J. SOLHA – É tão estranho ouvir essa frase numa canção, que Lennon diz “I’ll say it again” (espertamente rimando com “our pain”) e a repete. Ao contrário dele, porém, acredito em Kennedy e Elvis, em Hitler e nos Beatles.  “I just believe in me”,  ele afirma cartesianamente, e – freudianamente – se corrige: “Yoko and me”. Em meu primeiro romance – “Israel Rêmora” – faço meu protagonista dizer que “o Penso, logo existo, é de uma lógica extraordinária, mas deixa o resto fora de cogitação”. Quando, no título de meu novo livro, escrevo “DeuS”, inspirado na logo da revista Mother & Child, em que o “&” se insere no “o” de “mother” como um feto, estou com Lennon e Descartes, mas a esse núcleo acrescento “e outros quarenta PrOblEMAS”, implicitamente incluindo Kennedy, Elvis, Hitler, os Beatles, John  e Yoko, ao tempo em que assumo que esse “DeuS” (Não crês que Eu estou no Paie que o Pai está em mim? – Jo 14:20) é, também, PrOblEMA”. E se é problema, dor. Sua pergunta é mais profunda do que imaginei à primeira vista, Fabrício. Lennon realmente disse tudo. “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” é um livro que tenta medir a minha – logo nossa – dor,  a partir dessa relação feto-e-útero, feto, no caso, que tenta ser dado à luz, livrando-se do provisório abrigo que, no caso evangélico, é  o deus tribal dos judeus;  no meu, o deus que tomou o lugar dele, por que o considero também absolutamente insatisfatório, como revelo no poema em que digo ao leitor que, felizmente, ele não é cristão, porque – se fosse, mesmo -, estaria perdido.

 

DA – Não sabemos lidar com aquilo que nos transcende?   

W. J. SOLHA – De modo geral, não. Há um fascínio dominante pelo mágico. Porque ele deslumbra e é de fácil assimilação. Certa vez – há muitos anos – um livreiro me mostrou uma das suas estantes, cheia de “Eram os deuses astronautas?”, “O 12o. Planeta” e assemelhados, dizendo-me que era a dos livros que mais vendiam. Taí o Paulo Coelho. As pessoas, sem ter quem lhes diga de maneira concreta quem são, o que são, de onde vieram e para onde vão, fazem como as crianças: ouvem os contos de fadas. O Alcorão é um, a Bíblia é outro, e há os Vedas, Upanhishads, Baghavad Gita, etc, etc, etc. Difícil é convencer que a vida, por si só, com seus prazeres, sofrimentos e mistérios, já é o bastante pra nos apavorar e deslumbrar. Difícil é convencer que nenhuma religião tem coerência. Embora eu tenha ​- além do “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” – ​vários ​outros ​livros explicitamente abordando isso, como os romances “A Verdadeira Estória de Jesus” (Ática, 1979) e “Relato de Prócula” (A Girafa, 2009)  ou o poema longo “Esse é o Homem” (Ideia, 2013), não discuto religião. Porque não adianta, por exemplo, lembrar aos que veneram São Jorge – patrono de Londres e da Inglaterra, de Portugal e da Catalunha, de Moscou e da Etiópia, além de, extraoficialmente, do Rio – que não existem dragões.

DA – É curioso como homens se sujeitam ao que ditam outros homens quando, por exemplo, o tema é o da espiritualidade. O agravante aqui é que há uma espécie de institucionalização secular do olhar, cujos artefatos prediletos são a culpa e o temor. Estamos piores nesse quesito? 

W. J. SOLHA – Espantam-me as multidões – em que pesa à informação cada vez mais acessível – que comparecem ao Ganges, Aparecida do Norte e em torno da Caaba. Ante elas eu me sinto voz no deserto. Como o Inconsciente é, na verdade, o Consciente, a vontade, frequentemente, é de botar a viola no saco e de me mandar. Mas vou escrevendo meus livros.

 

W.J.Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

 

DA – Em seu “Notas do subsolo”, Dostoiévski discorria sobre o que ele chamava de consciência exagerada (ou amplificada) versus a consciência do homem comum. Com certo tom sarcástico, ele sustentava que seria mais adequado fazermos uso da segunda opção, tendo em vista que a primeira encerrava uma excessiva percepção das sutilezas da vida. Trazendo para o contexto atual, como você pensa tal contraposição?

W. J. SOLHA – Certa vez, nos começos da informatização em massa, vi uma propaganda, numa revista, em que, acima dos retratos de Leonardo, Édson e Einstein, havia uma chamada curiosa: “O que eles têm que v. não tem?” O texto respondia: “Software. Enquanto você e a maioria contam apenas com hardware.” Confirmo isso quando olho pra um dos muitos autorretratos de Rembrandt – como se deu no fim de setembro, agora, no Louvre – e me lembro de algum, meu.  Ou quando leio “el otro poema de los dones”, do Borges, e o comparo com qualquer um que eu tenha feito. Dostoiévski só poderia dizer isso com sarcasmo mesmo. Como eu não poderia querer ser como ele quando criou “Crime e Castigo” e, mais ainda, como Tolstói quando fez “Guerra e Paz”, ou Aristóteles ao escrever a “Poética” e a “Política”? Ou como Shakespeare, Virgílio, Homero, quando produziram “Hamlet”, “A Eneida” e “A Ilíada”? Deve ser uma delícia ter “uma excessiva percepção das sutilezas da vida”. Felizmente a informática – como na propaganda – vem se desenvolvendo e está dotando muita e muita gente desse software, pelo menos no que se refere a uma enorme quantidade de informações que disponibiliza, facilitando-nos as associações de ideias. Mas continua sendo extraordinário ver Santo Agostinho, por exemplo, discorrendo como ninguém antes e muito tempo depois, sobre o Tempo. “Consciência amplificada”. É a maravilha humana em ação.

DA – DeuS e outros quarenta PrOBlEMAS reafirma um traço característico de sua obra, que é o de apresentar o mundo a partir de seu repertório pessoal, utilizando-se de referências artísticas, literárias, filosóficas, dentre outras. Diga-se de passagem, é uma característica inconfundível de seus escritos. Quem é essa ferramenta chamada memória? Conseguimos driblar suas artimanhas?

W. J. SOLHA – Meus romances, poemas, libretos pra balé e ópera, peças de teatro, quadros, são, todos, PrOblEMAS, Fabrício, principalmente esse, o de nenhuma dessas áreas sobreviver sem as outras. Talvez eu tenha escapado disso apenas como ator, pois ao representar deixo de ser eu pra me tornar um camponês abrutalhado em “A Canga”, ou um empresário com obscuras raízes de sua fortuna, em “O Som ao Redor”, o que me custou, sempre, esforço tão desesperado quanto o de uma sessão mediúnica, daí que tive de desistir dessa atividade ou – sem exagero – sucumbiria. Ri muito quando o grande Ivo Barroso me disse, ao assistir ao “Era uma vez eu, Verônica”, que se eu participasse de um “Tropa de Elite”, voltaria pra casa cheio da bala. Pois bem. “Quem é essa ferramenta chamada memória?”, você, me pergunta, curiosamente não dizendo “o que?”, mas “quem?” Claro que ela somos nós, pois sem sua presença – no Alzheimer, por exemplo – deixamos de existir, ficando de nós – tristemente, para os que nos cercam – algo como zumbis. “Conseguimos driblar suas artimanhas?”, você quer saber. No meu caso, parece-me, apenas me tornando um pistoleiro, em “O Salário da Morte”, ou o tenente Maurício, em “Fogo Morto”. No mais, sou o imenso Inconsciente (na verdade, Consciente) produzindo. Ciente disso, sempre usei um processo de criação – descrito em meu primeiro poema longo, “Trigal com Corvos” -, que consiste, primeiramente, em formar um “banco de frases” elaboradas em intensas “leituras” de fotos, de um Cartier-Bresson, Robert Capa ou Sebastião Salgado, ou de livros de Ciência ou Arte. A cada vinte, trinta páginas delas, manuscritas, repasso-as para o computador, já eliminando as descartáveis. Aí vou buscar combinações entre elas. É onde surgem – depois de encontrado o ritmo, introduzidas eventuais rimas – os meus versos. “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”, portanto, como “Esse é o Homem”, “Marco do Mundo” e “Trigal com Corvos”, não vem de um tema premeditado. Fiz o que o Inconsciente quis. Mais ou menos como a cidade de Petra, que não foi construída, mas escavada na rocha. Só aceito essas “artimanhas da memória” – como você as chamou – porque elas me dão livros que julgo maiores que eu.

DA – Logo no início do mais novo filme de Godard, “Adeus à linguagem”, há uma passagem que diz: “Aqueles que não têm imaginação buscam refúgio na realidade. Resta saber se o não pensamento contamina o pensamento”. O que dizer diante disso?

W. J. SOLHA – Isso já foi muito discutido em artes plásticas. De repente a Grécia clássica passou a perder de longe pra África, que compareceu com força no Demoiselles D´Avignon, quando Picasso tentava pôr a Teoria da Relatividade, então bastante recente e chocante, pra tela. Há um belo livro, Beyond Impressionism – The Naturalist Impulse, de Gabriel P. Weisberg, que mostra como, antes do cubismo, o impressionismo, “o escândalo do impressionismo” já apagara um outro grande movimento artístico de sua mesma época, o naturalismo, que – influenciado pela literatura de Zola – usava e abusava da nascente fotografia pra evidenciar a injustiça social que havia (e há) por toda parte.  Em meu romance “Arkáditch”, transfiro pra meu protagonista Zé Medeiros, professor de filosofia da UFPB, uma experiência que vivi em Madri: ao sair de uma mostra sobre a evolução de Mondrian e Kandinsky até o abstracionismo, entrei noutra, do espanhol Cristóbal Toral, que fizera o caminho inverso, do abstracionismo – na moda em sua juventude – pro hiper-realismo. Como os dois primeiros morreram em 44 e o outro nasceu em 40, aquilo me pareceu uma síntese do trajeto do século XX, centúria vítima de um terremoto cujo epicentro fora Hiroshima, 06 de agosto de 45, afetando tudo que acontecera antes e se daria depois da desintegração nuclear, desintegração que vinha crescentemente se processando nas artes, principalmente na pintura e na literatura (vide Finnegans Wake), desde que se criara a fórmula E=mc2 e se pensara numa arma com tal poder de devastação. Diante disso, parece-me que a realidade não seja um refúgio, um não pensamento. Van Eyck e Velásquez me perturbam tanto quanto Max Ernst ou Pollock. Essa questão me surgiu quando, nos anos 60, em Pombal, no alto sertão da Paraíba, onde eu era o subgerente da agência do BB, recebi pelo ônibus que vinha de João Pessoa (pois a cidade não tinha livrarias nem bancas de jornais) meu primeiro exemplar dos fascículos de Gênios da Pintura, que foi sobre Holbein, com muitos elogios à minúcia de sua reprodução da realidade, seguindo-se a isso o segundo fascículo, com iguais elogios às breves e densas pinceladas com que Cézanne “reproduzira” suas frutas. “Como pode?” Acabei por formular uma teoria a respeito: o gênio está em se sair com brilho de um problema estético, qualquer que seja. As realíssimas naturezas-mortas holandesas do século XVII – que chegaram ao trompe l´oeil – são tão fascinantes quanto as instalações de José Rufino ou os quadros de Beatriz Milhazes.  Daí que é tão bom ver um filme de Almodóvar ou Kleber Mendonça Filho, quanto um Godard. 

DA – Todo escritor é, no fundo, um exibicionista?

W. J. SOLHA – Se é, não sou escritor. O que busca exibição é sua obra, e confesso que nunca colaborei muito para que a minha aparecesse. Sequer faço sessões de lançamentos, com autógrafos e tudo mais. Feiras literárias? Nem pensar. Na verdade, trabalho mais pela obra alheia. Há pouco fiz a resenha do novo livro de Ruy Espinheira Filho; ontem, o prefácio para os haicais de Saulo Mendonça. Um de meus trabalhos publicados é “Sobre os 50 Livros de autores brasileiros contemporâneos que eu gostaria de ter assinado”, que saiu pela Ideia, acho que em 2012, edição paga por mim, coisa que, aliás, vem acontecendo com tudo meu que está por aí, inclusive com este “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”. No final de 2010 participei de dois longas pernambucanos e de dois curtas paraibanos, como ator. Um dos filmes – “O Som ao Redor”, do Kleber Mendonça Filho – teve forte repercussão, meu trabalho idem, acimentado pelo prêmio de melhor ator coadjuvante que recebi no Festival de Brasília pelo “Era uma vez eu, Verônica” (do Marcelo Gomes). Jamais tive, com meus romances e poemas, evidência semelhante. Nunca fui procurado por editora alguma, porém recebi exatos vinte e dois convites para outros longas e para séries de TV, todos recusados, porque resolvi não mais atuar. Veja isto: certa vez participei de um comercial da televisão local e, no dia seguinte, conversando com um amigo numa rua bastante movimentada de pedestres aqui em João Pessoa, fui tantas vezes cumprimentado por passantes, que o companheiro me gozou: “Solha, você conseguiu, com 30 segundos de TV, o que não conseguiu com 30 anos de literatura.” Exibicionismo, portanto, não é um de meus defeitos, e olhe que tenho muitos.

 

DA – Hoje presenciamos no Brasil pequenas editoras tentando suas investidas. Fazem verdadeiro trabalho de formigas operárias, publicando livros em tiragens limitadas, dando espaço a autores iniciantes e, muitas vezes, atuando de modo artesanal. Como você avalia esse panorama?

W. J. SOLHA – Tenho trabalhado com pequenas editoras desde que Affonso Romano de Sant´Anna leu os originais de meu primeiro poema longo, “Trigal com Corvos”, elogiou-o imensamente, mas me avisou: “Você não vai encontrar editor pra ele”. E não encontrei. Banquei uma edição de 500 exemplares na Imprell – daqui de João Pessoa -, e os mandei – à minha custa – a quem os pediu. O mesmo se deu com “Marco do Mundo”, “Esse é o Homem” – ambos pela Ideia, também daqui, e, agora, o “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”, pela Penalux, de São Paulo – este com uma tiragem de apenas 200 exemplares. O drama é que se fica sem a distribuição nacional que as grandes editoras – mesmo com má vontade – empreendem. O pior é que minha ficção já estava enfrentando a mesma barreira. Lancei minha “História Universal da Angústia” pela Bertrand Brasil em 2005, o livro ficou entre os finalistas do Jabuti, ganhou o prêmio da UBE Rio, mas, quando lhe mandei os originais de meu romance Arkáditch, foi-me dito que sua publicação apenas aconteceria quando a História cobrisse suas despesas. Aí ganhei o prêmio da Funarte de incentivo à literatura com o projeto do romance “Relato de Prócula”, mas a obra só saiu pela A Girafa porque paguei por isso.  E,  uma coisa triste: sempre, depois de cada prêmio, uma derrota. Ganhei o Fernando Chinaglia em 74, com meu primeiro romance, “Israel Rêmora”, ele saiu pela Record e teve uma senhora fortuna crítica, mas jamais conseguiu uma segunda edição. Morreu ali. Ganhei o INL, em 88, com “A Batalha de Oliveiros”, que saiu pela Itatiaia, mas o livro nunca foi distribuído. O mesmo se deu com “Shake-up”, lançado pela editora da UFPB. “Zé Américo foi Princeso no Trono da Monarquia” saiu pela Codecri, mas ela faliu em seguida, com a quebra do Pasquim. A Ática me disse ter, por engano, picotado dois mil exemplares de “A Verdadeira Estória de Jesus”, depois que eu fechara negócio com ela pra evitar o desastre resultante, segundo me disse, do encalhe. A Girafa também faliu, logo após o lançamento do “Relato de Prócula”. Daí que ontem – 15 de 10 de 2015, um número bonito – parei, de repente, o livro que estava escrevendo e me disse “Chega”. Parei, Fabrício. Estou com 74 anos e isso torna a decisão definitiva. Sua entrevista veio testemunhar o fim de um processo que envolveu muito trabalho, muito prazer e muito sofrimento. Valeu a pena? Valeu, apenas pra mim, mas valeu.

W. J. Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

DA – Essa tendência maior de ser lido apenas pelos pares causa algum desencanto?

W. J. SOLHA – Comecei a ler por influência de minha mãe, que lia muito, embora desse conta da casa com quatro filhos,  sem qualquer alívio de cozinheira, faxineira, babá, lavadeira  e ainda costurava calças para o escritório e macacões para os operários da Estrada de Ferro Sorocabana, onde meu pai era carpinteiro. Não há equivalentes àquela dona Ermelinda entre meus leitores. Ô, mas nem ela me lia, por me achar muito difícil. Exclusividade minha? Não. Já no tempo de Cortázar se sabia que os escritores não eram mais os mesmos. Mas ele foi e é muito lido, como Guimarães Rosa e James Joyce. Logo, o problema não está em ser lido apenas pelos pares, mas nem por eles.

DA – Foi a Paraíba quem lhe deu régua e compasso?

W. J. SOLHA – Especificamente Pombal, no alto sertão paraibano, em que vivi de 63 a 70, como funcionário da agência do Banco do Brasil, da qual fui um dos fundadores, chefe da carteira agrícola por quatro anos, subgerente durante dois. Eu tentara a pintura, em Sorocaba, na adolescência. Como trabalhava desde os quinze, estudando arte à noite, um dia, certo de minha mediocridade e por necessidade de autossuficiência, deixei a escola do mestre italiano pela de contabilidade, o que me levou pra dentro do banco. Fui surpreendido pela grande cultura que descobri nos papos em grandes rodas de amigos nas calçadas, em plena caatinga, a quantidade de livros que havia nas casas dessas pessoas. Li todos os grandes clássicos – gregos, romanos, Shakespeare, os russos, franceses, americanos, dos hermanos e brasileiros nesse período, tudo com livro emprestado, pois na cidade não havia nem livraria nem banca de jornais. Isso também aconteceu com os colegas do banco. Por influência do escritor José Bezerra Filho, que trabalhava comigo, comecei a fazer contos. Por influência de outro, Ariosvaldo Coqueijo, fiz minha primeira peça de teatro e trabalhei nela como ator. Com José Bezerra fundei uma empresa de cinema e rodamos, lá na cidade, o primeiro longa paraibano em 35 mm, de ficção, dirigido por Linduarte Noronha, famoso pelo documentário “Aruanda”. Pela primeira vez compareci a uma tela de cinema, no papel de um pistoleiro. Como Zé Bezerra, já em João Pessoa, escreveu e dirigiu a peça “O Mundo Louco do Poeta Zé Limeira”, vi, no chamado Poeta do Absurdo, um tipo de criação sem fronteiras, que acabou sendo também minha marca registrada. Na capital, senti que todo o estado tinha uma vida intelectual e artística muito rica. Tanto, que passei o ano 2000 e metade de 2001 fazendo as capas do segundo caderno do jornal O Norte, só com retratos de página inteira de grandes nomes da Paraíba, como Assis Chateaubriand – fundador do MASP e dos Diários Associados -, José Américo de Almeida – fundador da literatura regional brasileira, o pintor Pedro Américo – o do Grito do Ipiranga e Batalha do Avaí, o genial poeta Augusto dos Anjos, o grande Zé Lins do Rego, etc, etc, além de Marcélia Cartaxo, a primeira atriz brasileira a ganhar o Urso de Ouro de Berlim pelo filme “A Hora da Estrela”, o maestro José Siqueira que, entre outras coisas, fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira, o romancista e dramaturgo Ariano Suassuna, o dramaturgo e ator Luiz Carlos de Vasconcelos, os grandes irmãos cineastas Walter e Vladimir Carvalho, os compositores Zé Ramalho, Sivuca e Chico César – a lista não tem fim. Mas foram 70 os retratados por mim para o jornal. Hoje seriam muitos mais: a Paraíba, por exemplo, foi o terceiro estado com mais participantes na XXI Bienal de Música Brasileira Contemporânea, no Rio, agora, sendo um dos convidados,  o terceiro mais votado pela comissão, na hora de decidir quem receberia os contratos para  apresentação de obras inéditas, o maestro Eli-Eri Moura, para quem fiz o libreto da ópera Dulcineia e Trancoso, apresentada no Recife em 2009. Ainda ontem, por coincidência, como se a coisa permanecesse circulando, fui gravar a narração de um documentário sobre Assis Chateaubriand para uma das emissoras locais de TV.

DA – Enquanto atividade, ainda há espaço para o Cinema e as Artes Plásticas na sua vida?

W. J. SOLHA – No mesmo dia 15 de 10 de 2015 montei maquete para um quadro, que no dia seguinte comecei a pintar. Imaginei, antes, tirar um atraso de minhas leituras, que está grande, mas na primeira tentativa já deu pra ver que não tinha cabeça, por enquanto, para deixar de escrever mas continuar lendo, feito casal que se separa continuando amigo. Houve como um processo de saturação, comigo. Nas primeiras duas horas de pintura, senti enorme cansaço e fui dormir, isso às 10 da manhã. Jamais sentira isso pintando, nem quando passei nove meses fazendo o painel “Homenagem a Shakespeare”, para a UFPB. Pensei no problema da idade, mas vi que não foi isso. É que não estar escrevendo, depois de 40 anos de carreira, foi terrível. Quando você pinta, as palavras somem, você pensa apenas em termos de cor, luz, contraste, volume, contorno. Você funciona… noutro  canal. E isso, caramba, dói. Quanto ao cinema, eu já decidira parar quando fui convidado para “O Som ao Redor”. Fui vencido pela enorme qualidade do roteiro. Aí fui fazer o “Era uma vez eu, Verônica”, levado pela empolgação de trabalhar com o Marcelo Gomes. Aí emendei com dois curtas paraibanos… e fui derrotado pela estafa, de que fui me livrar só uns seis meses depois, quando já decidira parar com o cinema. Não só por não ter estrutura para ser alguém diferente de mim, sem me arrebentar. Também pela vida cigana que levaria nessa atividade. Tive convites para Recife, Brasília, São Paulo, Salvador e até Montevidéu. Sou sedentário – daí a literatura, a pintura. Quem sabe eu não encontre algo novo, um dia destes?

DA – O quanto W. J. Solha conhece W. J. Solha?

W. J. SOLHA – Ao resenhar o último livro de Ruy Espinheira Filho, percebendo a enorme presença, nele, do que ele foi, menino, lembrei o início do “El sentimiento de no estar del todo”, de Cortázar:  

Siempre seré como un niño para tantas cosas, pero uno de esos niños que desde el comienzo llevan consigo al adulto, de manera que cuando el monstruito llega verdaderamente a adulto ocurre que a su vez éste lleva consigo al niño, y nel mezzo del camin se da una coexistencia pocas veces pacífica de por lo menos dos aperturas al mundo. 

Muitas vezes, em minha vida adulta, vi em mim o mesmo comportamento do que fui, por exemplo, aos 11 anos, quando, deslumbrado com a descoberta de uma revista em quadrinhos especial – “Epopeia”, da Ebal – deixei de lanchar, em meu primeiro ano ginasial, para, com os dois cruzeiros que minha mãe me dava todos os dias para isso, comprar, a cada semana, dois números atrasados – como “O Correio do Czar”, ou “Aquila Maris”, cito dois deles – que me custavam cinco cada um. Pois bem: passei os últimos dez anos como funcionário do Banco do Brasil sem almoçar, para ter um pouco mais de tempo para escrever e ler. Sempre fui desesperado por leituras especiais. Pelo conhecimento. E meus livros foram, todos, resultados de algo que não encontrava nisso. Daí meu primeiro romance, “Israel Rêmora” (Record, 1975) ser tão autobiográfico, como também foram “Relato de Prócula” (A Girafa, 2009) e “Arkáditch” (Ideia, 2012) e meu primeiro poema longo – “Trigal com corvos” (Imprell, 2004). Foi o velho “Conhece-te e conhecerás os deuses e o universo” funcionando. Mas Hamlet, Édipo e Cristo me tiraram – personagens enormes – desse egocentrismo. Em 1984 lancei pela Codecri meu “Zé Américo Foi Princeso no Trono da Monarquia”, fascinado pela descoberta de que “A Bagaceira” do José Américo de Almeida – que rompia com a influência da literatura inglesa no Brasil – era uma adaptação do Hamlet, o próprio romancista vivendo, dois anos depois de lançar seu famoso romance, o papel do príncipe da Dinamarca, literalmente dentro de um palácio, o da Redenção, na capital paraibana. Já em 1979 eu lançara “A Verdadeira Estória de Jesus”, pela Ática. E até o final do ano deverá estrear, aqui em João Pessoa, meu “Édipo no Terceiro Milênio”, direção de Jorge Bweres. Conheço, inclusive, meus limites. Meu último livro começa com estes versos: “Gênio não tenho. / Me empenho”. Isso sou eu.

 

 

Paixão Judaica
Paixão Judaica (Acrílica sobre tela 80 x 100 cm) / Pintura: W. J. Solha

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.