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106ª Leva - 09/2015 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

CARTAZ DE TÁXI TEERÃ

 

Já foi bastante comentado o inicial encantamento do filósofo Michel Foucault com a Revolução Iraniana em 1979.  Foucault teria visto na revolução xiita o despertar de uma nova “política da espiritualidade” que contrastava a seus olhos com o legado laico e racionalista da política moderna ocidental.

A defesa de Foucault da revolução no Irã foi tema de muitas controvérsias acadêmicas e o próprio filósofo recuou de alguns de seus pontos.  Não ficou nunca claro a ninguém afinal o que Foucault queria dizer com seu conceito de espiritualidade da política. É verdade que o regime iraniano combina um singular acordo entre democracia eleitoral e teocracia, único em todo o mundo islâmico, onde o poder religioso dos Aiatolás funciona como um “Poder Moderador” em relação ao Poder Civil dos eleitos pelo povo. Por outro lado, é uma das nações que até os dias de hoje mais faz uso da pena de morte e da perseguição sexual, além de muitos outros crimes de Estado.

Talvez seja possível uma compreensão de onde está a espiritualidade da revolução, adivinhada por Foucault, se movermos o olhar da política de Estado em direção à arte; especificamente para esse acontecimento inusitado que é o cinema iraniano. Inusitado porque excepcional: não há nenhum outro país de domínio político islâmico onde o cinema seja sequer tolerado. Como se sabe, no Islã, a fruição das imagens é considerada idolatria, sendo então proibida, em alguns casos, como na Arábia Saudita, com pena capital. Nesses países o cinema é considerado a quintessência da idolatria.

No Irã, ao contrário, a Revolução xiita, que estabeleceu o regime teológico-político-democrático não apenas não proibiu o cinema, mas o ajudou financeiramente. Atualmente, o cinema iraniano é reconhecido como um dos mais importantes do mundo com dezenas de premiações internacionais, sendo inclusive um sucesso financeiro, trazendo divisas para o país e movimentando uma indústria cinematográfica bastante produtiva.

Jafar Panahi teve uma importante participação nessa história com o fenomenal sucesso mundial de O Balão Branco. Este filme traz o modelo paradigmático da fábula de crianças envolvidas em complicados dilemas éticos, possível metáfora para a infância de uma revolução popular à procura de sua própria maturidade e sentido. Seu filme seguinte, O Espelho, também um sucesso comercial, é igualmente um filme sobre crianças solitárias confrontando-se com decisões éticas em meio a adultos usando suas máscaras de profissões e distinções de classe.

Com O Círculo, um filme sobre mulheres adultas, a sorte de Panahi começou a mudar. O filme, que ganhou vários prêmios internacionais, foi proibido no Irã. Se os filmes anteriores, sobre crianças, abordavam meninas em situações conflituosas, neste o assunto é a condição da mulher no regime islâmico. A partir desse filme, as relações entre o diretor e o regime só deterioraram e Panahi foi detido algumas vezes, porém rapidamente liberado. Já era um cineasta conhecido internacionalmente. Num dos momentos de confronto, foi convidado pelo Ministro da Cultura iraniano a se retirar do país. Mas foi por causa da participação de Panahi como documentarista das revoltas que se seguiram à reeleição em 2009 de Mahmoud Ahmadinejad (a chamada Revolução Verde), que Panahi foi preso, condenado a 6 anos de confinamento, proibido de deixar o país e, finalmente, proibido de realizar filmes durante 20 anos.  Essa incrível condenação, inédita no país em relação a um diretor tão conhecido, gerou protestos no mundo inteiro e seu confinamento foi comutado para prisão domiciliar. Porém, a proibição de filmar foi mantida, bem como o impedimento de deixar o país.

Seus filmes seguintes já foram produzidos sob a marca desse banimento absurdo. E numa incrível reversão de expectativas, a qual justamente podemos sem temor chamar de “espiritual”, esse interdito político, o impedimento de filmar, torna-se o mote para uma nova forma cinematográfica, onde os filmes, numa circularidade paradoxal, questionam sua própria caracterização fílmica. No primeiro deles, Isto não é um filme, o paradoxo está estampado em seu próprio título. Filmado inteiramente na casa de Jafar, tendo ele e seu roteirista amigo como personagens, num dia de semana absolutamente ordinário, ambos discutem e imaginam um novo filme que não pode ser realizado. Isto não é um filme não é cinema sobre cinema, metacinema, pois a questão não é especulativa ou metarreferencial. A questão é essencialmente política: é um filme sobre a impossibilidade de se realizar um filme, mas que se torna possível em nome dessa mesma impossibilidade.

Em Cortinas Cerradas, a autorreferência se torna fantasmagórica.  O filme, que parece inicialmente uma ficção, torna-se a partir de certo momento documental, com a entrada do próprio Panahi em cena em atividades ordinárias na locação onde ocorria a filmagem (aliás, sua presença será uma constante nessas produções). A disjunção entre ficção e realidade coloca em questão a própria estrutura narrativa e confunde a caracterização do filme.

Finalmente, em Táxi Teerã, que forma uma trilogia com os demais últimos, a ambiguidade se torna ainda mais acentuada. Neste, vemos o próprio Panahi como motorista de táxi dentro de um veículo com câmeras de segurança instaladas. Como taxista de lotação, Panahi vai dando carona a cidadãos moradores da capital. Vemos assim um ambulante no banco do carona discutir sobre pena de morte com uma professora no banco de trás. O ambulante percebe a câmera, mas supostamente não percebe a filmagem. Em seguida um terceiro passageiro, um vendedor anão de filmes piratas, que escutara a discussão entre os outros passageiros, ao ficar sozinho no táxi reconhece o diretor e coloca em questão a veracidade da discussão que acabara de ser apresentada. Não seria essa discussão apenas a encenação de mais um filme do diretor, ele pergunta para um Panahi bastante ambíguo que não o confirma nem o desmente.

Jafar Panahi (centro) em cena de Táxi Teerã - Foto - divulgação
Jafar Panahi (centro) em cena de Táxi Teerã / Foto: divulgação

Em seguida, o táxi é obrigado a dar carona a um homem que sofreu um acidente de moto. Ele está ferido e acompanhado por sua chorosa e desesperada mulher.  Em direção ao hospital, ele pede para ser filmado transmitindo seu testamento à esposa, pois caso isso não seja feito, ela perderá o direito à herança, conforme as leis iranianas. Com a câmera do celular de Panahi, a declaração de testamento do homem agonizante é gravada. Ele consegue chegar desmaiado ao hospital enquanto sua esposa pede que Panahi envie a ela o registro filmado. Quando ambos partem afinal, a veracidade dessa cena também é questionada pelo vendedor de filmes pirata. Mas, novamente, não temos do motorista-cineasta uma resposta concludente.

Na verdade, o filme é esta mesma questão posta em suspenso. Estamos assistindo a mais um registro documental e incidental, ou a um roteiro encenado? O próprio passageiro vendedor de filmes que, como alter-ego do espectador, coloca as questões e inquire sobre a natureza ficcional do que está sendo registrado, é ambivalente. Ele, que conhece Panahi, depois de ter ido a sua casa levar filmes piratas, pode, ou deve ser, mais uma pessoa comum. Sabemos, entretanto, que sua atividade de vender filmes é proibida pelo regime e ele pode simplesmente ser preso por esta razão. Nesse caso, é importante que ele seja caracterizado como um personagem ficcional, para que não receba represálias. O registro de sua atividade, se documental, é possivelmente um instrumento de denúncia. Assim, há uma ironia quando ele chama Panahi de “parceiro”. Não só porque ambos estariam incorrendo no crime de vender filmes proibidos, mas porque ambos estão também estrelando um filme que é proibido de ser produzido. Assim, a ambivalência não pode ser realmente decidida, não por sua natureza ficcional ou artística, mas pelo caráter impropriamente ambíguo do regime político que tolera e não tolera as imagens do cinema e tolera e não tolera seu autor.

Pois é absolutamente sabido pelas autoridades iranianas que Jafar Panahi concorre e ganha prêmios em grandes festivais internacionais. Sua atividade está, portanto, no limiar da clandestinidade, como a do vendedor de filmes piratas, uma atividade que como muitas outras do mercado negro são toleradas com “vista grossa” pelas autoridades, pois são simplesmente atividades de sobrevivência. Aliás, para o espectador internacional, a própria ambiguidade do diretor de apoiar a venda de filmes piratas não deixa de ser extremamente suspeita. Há, portanto, uma esfera das aparências oficiais e outra esfera que poderíamos chamar de “mundo da vida”.

Os passageiros seguintes são em maioria mulheres que vão exatamente colocar em questão a divisão entre aparências oficiais e mundanas. Entre elas há uma menina caracterizada como a própria sobrinha do cineasta, que tem a tarefa de realizar um filme para a escola e se serve de sua proximidade familiar com o diretor famoso para gravar uma entrevista com ele. Parte de Táxi Teerã se utiliza dessas imagens da câmera da menina. Um dos trechos é justamente o caso clássico do dilema ético infantil, dessa vez em torno de um menino de rua que pega um dinheiro largado ao chão e que não lhe pertence.  Neste filme, no entanto, esta cena não deixa de ter uma carga totalmente irônica, pois o que está em causa é o próprio estatuto de sua representação: o menino deve devolver o dinheiro apenas para que a filmagem cause uma boa impressão na escola, para que salve as “aparências”.

Foto 2 - divulgação
Cena do filme Táxi Teerã / Foto: divulgação

Justamente, uma das questões que a menina coloca a seu “tio-diretor famoso” é exatamente o que deve ou não deve ser filmado, qual é a ordem razoável de representação admitida pela escola. Há mesmo uma normatização para isso (meninas e mulheres devem, por exemplo, ser exibidas com véu, não deve haver contato físico entre homens e mulheres, etc.). Esta cena, apresentada de forma inteiramente banal, precede a entrada de uma ativista dos direitos humanos no táxi, que conhece Panahi de outras lutas, e que critica a própria normalidade do Regime, como uma ordem de representação consentida.

Táxi Teerã (Táxi, no original) é cinema sutilíssimo de exploração e experimentação sobre a condição política da imagem e um questionamento constante sobre as ordens de representação da realidade e também da arte. As muitas câmeras do automóvel, ou as das câmeras de celulares e das máquinas fotográficas, exploram os diversos ângulos, as diferentes perspectivas, para expor uma multifacetada experiência da realidade.  Esses múltiplos pontos de vista fecundam a realidade por um atravessar de olhares e discursos deslocando as ordenações e as distinções que estabelecem as regras da representação estética e das aparências políticas. Voltando a Foucault, não estaríamos autorizados a pensar que a espiritualidade que ele se referia era esta visão do real como um espaço fecundo de olhares, impossível de ser representado por um único discurso? E na verdade, se nos deslocamos da política à arte como o questionamento da ordem da representação pela variedade das perspectivas, retornamos à política por uma crítica radical das aparências. Numa sociedade revolucionária não há mais olhar inocente. A última cena do filme nos indica que o crime de Estado e o crime privado são perspectivas complementares. Ambos se alimentam da mesma ordem monolítica das aparências.

 

 

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e “Extrema Lírica” (Editora Oito e Meio), e também organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro no Rio de Janeiro.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Vanessa Maranha

 

sinisiaconiin
Foto: Sinisia Coni

 

Natal agreste

 

Acuado, o calango magro e comprido rebolou em ligeireza de pavor, riscando o chão de terra batida: hora ruim para errar ali. Fez-se dele caça, o mínimo peru, a porção de carne para aquela noite de Natal.

A guarnição, um punhadinho de vagens de feijão verde debulhadas vagarosamente pelas pequenas mãos de Ednaldo, Ednei e Edmilson – a mãe Lindalva os pusera à cata de véspera, e pedia cuidado para que nenhum grão se perdesse, a bacia de lata como bateia de pequeninas riquezas. Um naco de rapadura seca escondida num vão da taipa, pepita de ouro que adoçaria o desfecho.

Pai não havia, ou, antes, houvera, sem nome nem registro, Lindalva nem saberia dizer. Apenas que eram seus filhos, saídos de si, um tanto barrigudinhos e empoeirados pelas faltas tantas.

Para cada um dos meninos, embrulhadas em chita florida com o requinte do laçarote, duas bolinhas de gude verde-azuladas, gotas de vidro, simulacros de chuva no calorão trincado, desidratada a vida.

Na mesinha solenemente posta, a lamparina de querosene, um círio natalino; o calango magicamente dourado e trinchado para que se lhe borrasse a forma original, sobre cama de farofa branca. Os feijões verdes boiando cozidos numa água rara, muito caprichosamente chegados ao ponto de alguma dignidade – o dia todo vigiara a Lindalva o fogo pouco para que a ceia maturasse em perfeição.

No arremate, a rapadura, picada em cubos, nenhuma lasca de desperdício, de modo a render dois pedaços a cada um – abria mão da sua porção para oferecer os haveres aos filhos em número par, duas bolinhas de presente, dois pedaços de doce, recurso que era um refrigério imaginário, ilusão de abastança, um despiste à miséria, que alguma ilusão nos salva um pouco.

Pôs os meninos a ajudar depois na limpeza dos pratos de ágata lacerada, permitiu-lhes o jogo de gude, bolinhas que à luz da lamparina brilhavam como água abençoada, quicando e lavando a existência seca, até a exaustão lhe espreitar. Então chamou os seus três meninos às redes de dormir, alimentados, não fartos, mas pacificados, numa noite feliz.

 

 

 

***

 

 

 

Marina

Marina, porque é bonito, coisa de mar, a minha mãe me contou, justificando alguma coisa. Eu, substantiva e adjetiva demais. Eu um aposto, enfim. O meu tom é elegíaco.  Paixão me define, muito mais que beleza.  Só fiquei bonita aos vinte e seis anos, quando meus olhos enfim serenaram e adquiriram a expressão de muita coisa vista, quando o rosto perdeu o redondo infantil e rosado mantendo, entretanto, a inocência necessária. Eu mímica e atriz, porque não tinha um outro modo.

Cheguei ao mundo com o susto de quem veio de lugar nenhum carregando coisa alguma, o mesmo espanto de quem vê milhões de instrumentos ao seu redor e sequer sabe dar um passo adiante de si. Com aquele rancor de quem aparece e vê as coisas prontas sem que tivesse tido ao menos a chance de poder escolher participar ou não da feitura delas.

Eu era aquilo que chamam uma existência toda arredondada em si. Uma circunferência em que não havia cantos, não havia desvãos, inexistiam as angulosidades. Eu só era. Só havia. Só estava. Posta no mundo. Chegada à vida aterradora, que acabou me lapidando logo umas farpas e uns nichos dos bem sulcados; daqueles que não sedimentam nunca (tentei uns cimentos inúteis), mas agora eu os quero assim_ valas abertas, abismos sem fim, infernos abissais, por onde sobrevoam moscas de um esverdeado fosforescente para que eu não me esqueça do que está aberto e do que se esvai. Até agora, eu sou tudo isso_ ou enfim, nada disso.

Hoje o espetáculo. Ouço o burburinho dos primeiros espectadores tomando os seus assentos no teatro. Será que vou conseguir? Será que vou conseguir?_ sempre a pergunta rutilante. Ainda há tempo. Olho-me refletida no espelho. Há areia e pedras ancestrais, beleza, há vivência, uma aptidão para o prazer, há capacidade de ternura, há choro nesse rosto.

As lâmpadas emoldurando o espelho do meu camarim ainda não me desnudam e penso, quase ríspida:  o que quer que eu pareça ser, ainda não me tornei ou já deixei de ser. Não me defina nem ilumine, que eu quero sombra para ter contorno.

Vou maquiando lentamente minha face, que deverá parecer alegre em meus desdobramentos todos_ voz de arlequim, o nó na garganta da islâmica, o horror de uma górgona, a sabedoria das encantadoras, fertilidade de deusa minóica, feiúra de Medusa, o riso desdentado de uma andina miserável, leveza de ninfa, a gordura cumulativa de uma alemã calvinista. Catacúmena, casta, divina também eu sou. Dalí, Artaud e Tzara em mil cores na minha cama, _ na cabeceira dela_mimetizando-me em imposturas deliciosas.

Mora em mim a mulher de todas as mulheres, aquela que viveu em todas as outras anteriores a mim. Tenho útero para conceber, tenho seios para amamentar, tenho coração para sentir e uma armadura de aço na aura_ eu também empunho uma espada. E é no próprio seio da minha natureza que caio, quando, de tempos em tempos fico grávida de amores, de ideias, de esperança, porque o que se desfaz será refeito sempre.

Estou impregnada dessa mulher que há milhões de anos me persegue antes mesmo de ter tido a grande coragem de descer das árvores. Sou ainda aquela macaca robusta de tetas caídas que protege a cria entre os braços compridos, ainda aquela que se tiver fome mata os filhotes, aquela que teme e não explica os trovões, minha espinha dorsal ainda carrega uma curva que me aproxima mais do chão que do céu_minha porção primata não me permite grandes voos porque dela trago o medo, estou carimbada pela dor da minha espécie e gênero.

Afundo minhas mandíbulas num pedaço de carne qualquer e sou eu, há milhares de anos, a antropófaga, a hierática egípcia, sou a celta das adivinhações nos lagos, indiana deusa Kali com o encanto de uma flor no Saara, a bruxa perseguida, a fada incendiária, sou qualquer uma, uma Maria ou uma Joana, a ferina gueixa de lábios vermelhos, Xica da Silva em terra de zumbis, sou rainha chinesa sugando um narguillé porque quer vida, Sherazade nos jardins de Alá, sou babilônica prostituta caminhando por Sodoma e Gomorra, óbvia Eva que inevitavelmente abocanha a maçã, santíssima Nossa Senhora, sou assassina Lucrécia Borgia, concubina de Mefisto, domesticada Amélia, matrona italiana, uma troiana, sou a nordestina ressequida com os olhos úmidos da africana mãe que vive em mim. Substância de todas elas. Sou nácar de uma concha do mar feita de restos de estrelas: uma poeirinha cósmica, um quase nada.

Guardo os meus tótens e ritos, invoco aos deuses proteção nos ciclos em que a lua cheia me agita por dentro em caudalosas hemorragias. Nos dias de cio, loba de dentes afiados ardendo de desejo, os instintos derramados espargem mel. Sempre soube que a vida não me trataria bem gratuitamente, por isso aprendi a sorrir quando me atravessavam um punhal nas costas, por essa mesma razão aprendi a decodificar a mensagem de um olhar e a lançar o meu próprio olhar de intenções. A mulher de todas as mulheres me ensinou o feminino sedutoramente macio e próximo, às vezes, fatal. Sei que dessa mulher que mora em mim, suas fraquezas, suas pobrezas, seus pavores, suas forças, suas limitações me acompanharão, para que a minha célula da mulher de todas as mulheres, continue viva em todas as outras que me sucederão nos próximos milhões de anos_ será essa a minha ressurreição.

Giro pelo camarim à espera da centelha, aquilo que de repente me arrebata e puxa pelos cabelos_ um querer ser, um miraculoso tornar-me.

Na penteadeira, as cento e uma marcas de batons, os trinta e três frascos de tonalizantes epidérmicos, a cola para os cílios postiços, os incontáveis vidrinhos de óleo balsâmico para tensões musculares, os vinte e cinco tons de sombras para os olhos, os dois potinhos de purpurina, as quatorze perucas e as duas zibelinas que me constroem na mais imponderável criatura que houver dentro de mim.

Recebo um buquê de magnólias, uma edição amarelada de Gogol e Tchecov reunidos, um bilhetinho de amor, a proposta para um espetáculo Nô, um (ora!) ovo de avestruz embrulhado em celofane azul.

Olho-me mais fundo e começo a esfregar o rosto e lentamente vou me desfazendo ao retirar a maquiagem. Flagro a desconhecida na pele morena, nas linhas, diretrizes que o tempo deu de presente ao meu rosto, as quais, curiosa, vou seguindo e examinando uma a uma na esperança de saber aonde darão. O espelho me ostentando e ultrajando, simultaneamente, ali imóvel, os círios todos ofuscantes do lado de fora, a ribalta à minha espera enquanto me transmuto em outro personagem_ aquele que sempre mas nunca fui. Olho a majestática lagarta que há na crisálida, minhas olheiras dramáticas, minha cabeleira castanha delineando a cabeça.  Nesse assassínio, deviscerando minhas personas, matando-as uma a uma, as máscaras vão se crestando e despedaçando em plena pele, sinto a dor de um parto, dando-me a mim própria à luz.

Não conheço mais o íngreme caminho que terei de percorrer para subir ao tablado. E num clarão, num repente, vejo que não quero ser entendida (entendimento é silêncio dos menos profícuos, amordaçamento que impede a extensão, reticência infrutífera), não quero tampouco o favor de ser compreendida (quem compreende está intimamente contrafeito e quem é compreendido, fadado à compaixão); quero ser sentida. Quero ser respirada. Ah, a divina graça de ser sentida através do que tenho de mais real: a exalação de mim. E através das minhas maiores sutilezas: toda a suave e expressiva dança de um olhar que se prolonga na visão de algo e encomprida-se mais longe e vago, num tentáculo, na captação da coisa vista para dentro de mim.  Sinta esse movimento. E depois a respiração; vai daí a paixão. O contínuo do que se guarda e do que se expulsa.  Paixão é efervescência e viver, um total estremecimento_ finalmente o destino de almas perdidas que ruminaram formas, mastigaram livros, sentiram tanto, inventaram sons, estremeceram músicas, que nunca beberam paz.

Nesse momento sou apenas sangue, ganas e retórica e, toda rosto, como subirei ao palco? Assim? Desnuda? Personas, eu ainda vos imploro! Mas sei que já é tarde demais. Manca, de um só fôlego, numa súbita coragem, piso o tablado. E antes que algo me exclua da ideia de um passo adiante, eu me lanço, tornada absoluta interioridade visível em carne viva sobre o picadeiro.  Os olhares assustados que me recebem_ quase ninguém está realmente preparado para o tapa na cara que é a nudez de um rosto_ insinuam o absurdo da água marinha de que sou feita em terra. Uma voz longínqua dentro de mim sopra que algo se quebrou na suave remissão de uma rosa despedaçada.

Era a minha última e tão primeira vez. Palcos eu ainda pisaria. Outros.

 

Vanessa Maranha participou de diversas antologias de contos, entre elas “+30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira” (Record). Venceu concursos de contos como os da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em Minas Gerais, o Prêmio Off Flip de Literatura (2012), o Prêmio UFES de Literatura (Universidade Federal do Espírito Santo) com o livro “Quando não somos mais” (EDUFES, 2014) e também o Prêmio Barueri de Literatura com o volume de contos “Oitocentos e sete dias” (Multifoco, 2012). Foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 pelo romance “contagem regressiva”.

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Airton Souza

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

excomungo a dor do desamor
eclesiástico o coração bailarino
deixa para trás o compasso

rego a carga amarga
que traz esse girassol solitário
repleto de semântica
& nenhum resíduo metafísico

intento fuga

ditoso na perdulária
insinuo sutilezas
com a invenção
tácita das rugas

é certo que ainda não percebemos:
a madrugada?
é só um varal teimoso.

 

 
***

 

 
te veste de enseada, fende
a geometria das flores, veja,
o ilusão é um barco de auroras
orbitado de cinzas
adubado jardim
revestido de inverdades

contemplar a loucura
é mais selvagem
que aplaudir o louco

por isso cultivo mentiras

pelas tuas Iris
recolho arbustos
tenho neles
a mesma mania
de girassóis amanhecidos.

 

 

 

 

***

 

 

 
traçaremos o teu itinerário
a rota exporta
em um compêndio
………………………………..estranho

acomodado
para viagem de retorno ao pó
& renúncia

penso que agora
sabes escutar silêncios
mais que a noite
enquanto eu bebo
a cronológica infância.

 

 

 

***

 

 

 
tecemos um porto atomizado
& sem a cor dos enredos
………………………………….absurdos
das rotineiras cidades acetinadas

segredamos o medo do escurejar
quando as mãos ainda
não tateavam sentidos

um campo nos convocou
apressado fortes sem dizer
……………………………………….(a)deus
agora deixo sempre a porta aberta
e o peito em riste
ca(n)tando paradigmas.

 

 

 
***

 

 

 

chegaremos de corpo & alma
ao outro lado
da metafísica emparedada

mastigamos até aqui
………………………………………inquietações
[sa(n)grada idade]
no tenso mundo

avesso a dialética
com sua carga interdita
a forjar caminhos
vagamos aventureiros
no que funde perenidades

pela certeza:
há melodias e cartilagens
na árdua tarefa de ser humano.

 

 

 

***

 

 

 
impossível recompor o homem
decomposto pai
plasmado com o brando da casa

nas minhas costas
incrustaram os sóis dos dias

se configuro fatalidades
não suicidarei a inteira frequência
de cenas & centelhas
diariando ressentimentos
iguais aos dos navios
envelhecidos com as cicatrizes das águas

esvaziado de emoção
descobrir que a infância aflige
o recôndito espírito na existência de mim

levo ressentimentos desiludidos
de atormentar destinos.

 

Airton Souza é poeta e professor, nasceu em Marabá, no Pará. Licenciado em História e pós-graduado em metodologia do ensino de História, além de licenciado em Letras – Língua portuguesa, pela UNIFESSPA – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Tem participação em mais de 60 antologias literárias. Publicou 20 livros de poemas.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Olhares

Olhares

A sutil continuidade das horas

Por Fabrício Brandão

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

Num dado momento, os sentidos saem às ruas à cata de dimensões. Lá fora, um sopro vital permeia convívios, retém sons, encerra pensamentos. Todos os dias, em qualquer recanto do planeta, um intercruzar, ora silencioso, ora sonoro, de trajetórias distintas toma conta desse colossal palco que é a vida. Todos os dias tudo segue, apesar de nós.

O que seria desse nosso mundo sem as diferenças? A cada rosto, sua tez. A cada paisagem, seus matizes. A cada gesto, um microuniverso íntimo que, por vezes guardado a sete chaves, eclode nalgum ponto da jornada humana sobre a Terra. Serão os territórios todos nossos? Onde o limite para a visibilidade das coisas?

Na intersecção entre a concretude e a esfera de abstração, somos seres ainda hesitantes. Por assim dizer, a imperfeição dos homens é melhor guia, pois a nossa vida sucumbiria diante da certeza de que tudo está cartesianamente no seu devido lugar.

A observação das epifanias que nos cercam é também uma forma de intervenção. Por isso, evidenciar o caráter que permeia a obra de uma fotógrafa como Sinisia Coni é algo oportuno. Ali, o olhar expõe o fluxo dinâmico das expressões humanas, levando em conta que é extremamente impossível passar incólume pelo que é testemunhado de perto.  Mesmo quando se supõe uma mera contemplação, há muito mais consolidando tal gesto.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Em sua arte, Sinisia sonda ambientes urbanos como quem ousa navegar os mares da impessoalidade. O resultado dessa travessia é transmutado em gestos os quais nos soam familiares na medida em que concluímos que, não importa qual demarcação geográfica seja, pessoas são feitas da mesma essência.

Revelando-se uma apaixonada pela fotografia, Sinisia iniciou sua trajetória bem cedo, aos 14 anos de idade. De lá para cá, profissionalizou-se e participou de exposições dentro e fora do país, sendo premiada na Embaixada do Brasil em Oslo, na Noruega. Nascida em Salvador, na Bahia, hoje reside em Lisboa, Portugal.

A fotógrafa baiana confessa que mergulha com a alma quando busca suas imagens. Por tal concepção, é possível notar que ela não se propõe a uma busca leviana de lugares e pessoas. Não há o registro pelo registro, alguma espécie de fotografia acidental, mas sim um desejado envolvimento com o que surge diante dos seus olhos. Percebemos isso quando cores, formas, sombras e faces emanam suas múltiplas e próprias linguagens num ritual o mais natural possível.

Sem artificialismos e arranjos premeditados, Sinisia Coni é uma genuína testemunha do mundo, seus arroubos e sua gente.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

* As fotografias de Sinisia Coni são parte integrante da galeria e dos textos da 106ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Premedito o encontro com meu entrevistado sem que ele sequer desconfie. Aguardo paciente, porém não menos ansioso, pelo momento de conversarmos. O ano de 2015 já começa a desferir seus últimos golpes. É uma tarde quente de sexta-feira e, enquanto espero o meu alvo de interlocução findar suas tarefas profissionais, vislumbro cenários possíveis para nosso diálogo.

Há uma certa magia a envolver a pessoa de Adalmiro Leôncio da Silva. Estamos na litorânea cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, e nessas paragens ele não é conhecido pelo nome de batismo que acabo de mencionar. Ao se pronunciar o nome Sabará, é difícil encontrar alguém, sobretudo no meio cultural daquela região, que pelo menos não tenha ouvido falar da representatividade desse consagrado artífice da música.

Contabilizando, como ele mesmo sustenta, seus bem vividos 81 anos, Sabará iniciou a vida artística em torno dos 11 anos de idade. Entrou no mundo da percussão, especialmente na bateria, em Ilhéus. Como baterista, acompanhou grandes nomes da música brasileira. Colecionou encontros com figuras de relevante expressão artística, o que o fez expandir seus horizontes profissionais. Há mais de 50 anos, aprofundou-se nos estudos e vem dando aulas de bateria, ofício que sem dúvida alguma ocupa um sentido especial em sua trajetória.

No contexto da música da Bahia, a reverência à expressão de Sabará é algo patente. Uma atmosfera de refinamento e sabedoria ronda a imagem desse artista, tornando-o alguém notadamente popular. Ao mesmo tempo, o modo como ele se dedica ao incessante ato de ensinar bateria a pessoas de todas as idades, driblando os arremates do tempo, chega a assumir uma feição eminentemente poética.

Nesse diálogo que agora fica aberto aos leitores, Sabará compartilha saberes e sabores de sua trajetória. Entende a música como sua genuína forma de oração pessoal e ressalta o compartilhar do conhecimento como um dos traços fundamentais de sua existência. É conversa que emprega um ânimo renovado, principalmente para quem concebe a vida como um ciclo dinâmico e espirituoso.

Sabará
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – Num determinado momento, você identificou a necessidade de sistematizar o estudo da bateria, incluindo o aprendizado da teoria, mudando um modelo que andava meio obsoleto na região em que vivia. Como se deu esse processo?

SABARÁ – Era realmente uma necessidade fazer. Na época, eu tocava no Lorde Hotel, do saudoso Nelson Muniz Barreto, e recebi uma visita de um músico russo famoso, chamado Henry Polar. Ele e a esposa. Henry fazia o violino; ela, a coreografia. Então, na sala de visitas do hotel, onde eu era o baterista, haveria um show com esse violinista consagrado. Foi nesse momento que eu percebi que tocar apenas não era o bastante. Era preciso aprender a teoria musical, a linguagem do instrumento, e fazer aí a base para se tornar um músico profissional. Quando Henry trouxe as partituras, eu fiquei sem saber o que fazer, não consegui tocar no show. Foi quando eu decidi aprender algumas coisas, fiz alguns cursos e falei com muitos bateristas da região sobre a importância de se dominar aqueles conhecimentos, pois imaginava que as exigências do mundo iriam mudar a maneira de ser dos músicos do interior. Pessoas competentes e com capacidade musical superior ao que fazíamos iriam chegar até nós e precisaríamos ficar sabendo sobre aquilo. Foi aí que eu instalei um curso de bateria do qual saíram alunos músicos que hoje estão espalhados por diversos cantos do país e do mundo. Era imperativo realizar isso, pois não se justifica ser um profissional sem estar capacitado para tal.

DA – Naquela época, essa mudança de paradigma causou algum estranhamento, uma espécie de resistência entre os músicos?

SABARÁ – Sim. Alguns chegaram a dizer que não era necessário aprender porque julgavam que já tocavam bem e sabiam acompanhar as músicas da época. No entanto, aos poucos, eles foram mudando de opinião, perceberam a necessidade e passaram a estudar. O princípio de estudo que eu lancei em Itabuna ajudou a mudar esse panorama.

DA – É uma grande fantasia supor que um músico conduz sua carreira apenas com os ouvidos, sem ter uma noção teórica ou saber ler uma partitura?

DA- Exatamente. É necessário se informar e formar consciência do conteúdo com o qual se trabalha. Quando eu falo da interpretação, digo que quando um músico tem uma partitura em mãos ou não, ele tem que tocar com sentimento. Isso leva o músico a expressar o que vem de dentro. Como digo sempre, as interpretações estabelecem os contextos onde os elementos da música ganham significado. Aquele que está executando a música tem, antes de tudo, consciência de causa, ou seja, de conteúdo. Juntando isso ao sentimento, o músico cresce. O que está ali escrito é algo inanimado, sem vida, e quem vai incitar aquilo a ganhar corpo é o músico, o intérprete. Isso é o óbvio ululante (risos). É uma questão de sensibilidade.

DA – Em sua trajetória, você acompanhou diversos músicos, cada um com sua devida importância. O que dizer dessa experiência?

SABARÁ – É justamente nesse ponto que eu ressalto a importância do conhecimento a respeito da teoria. Foram muitas as experiências, mas cito algumas delas, como é o caso de ter tocado com artistas como Cauby Peixoto, Wanderley Cardoso, Adriana, Joelma, Tito Madi, Nelson Ned, Wando, Osvaldo Fahel, Miltinho, dentre outros mais.

DA – Sua formação vem do contexto de banda de baile, não é?

SABARÁ – Exato. A banda de baile, para quem não sabe, é uma verdadeira escola na qual se tem o conhecimento de todas as estruturas musicais ou rítmicas, sobretudo dos estilos populares brasileiros. Você toca do maracatu ao axé. Hoje, por exemplo, o axé é um movimento que tem uma interferência muito grande na coisa da dança de rua, e o baterista tem que saber tocar. Inclusive, o baterista tem que ser eclético, pois o baile exige muito, da valsa ao axé, sem falar em ritmos como a salsa, dentre outros tantos. Até o hino nacional brasileiro nas comemorações cívicas a banda de baile toca (risos).

DA – O grande desafio do músico é ser versátil?

SABARÁ – Sim, e estar sempre a par do que acontece, pois o Brasil, por exemplo, é um país que sempre lança coisas novas. Eu costumo dizer, em algumas oportunidades, que a arte inaugura, de tempos em tempos, formas de tornar presente o inexplicável. O que é que é isso? Você está aqui hoje, vivendo o axé, o arrocha, e daqui a algum tempo vai perceber um outro ritmo, uma outra denominação, outra maneira de tocar e dançar gerada a partir desse conhecimento e enorme variedade de ritmos que o artista tem a sua volta. De repente, ele consegue construir uma consciência cultural ampla pelo fato de experimentar essas várias estruturas rítmicas.

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Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – A gente sabe que vive num país onde a cultura popular tem um apelo muito forte. E há questionamentos antigos que acabam implicando em juízos de valor sobre o que presta ou não nessa seara. O que você pensa a respeito disso? Não há ritmo ruim?

SABARÁ – Sua pergunta é pertinente. Existem músicas que estão aí fazendo sucesso pela capacidade de observação mal orientada do povo brasileiro. Há músicas de péssima qualidade, do ponto de vista de harmonia e melodia. Existem músicas intelectualmente pobres, com letras vazias e há também aquelas apelativas dizendo coisas que nada têm a ver em relação a um trabalho de arte. A arte é única. Não existe arte pior nem melhor. Agora, quem sabe fazer mais, faz mais.  Como dizia um músico, do qual não me recordo agora, não existe música ruim, existe música mal tocada. Não tenho nada contra nenhuma forma de manifestação artística. Qualquer manifestação artística é ótima, válida. Se é bem feita, realizada com inteligência, ou se é algo que se merece gostar e apreciar, é uma questão de gosto, é diferente. Tem gente que fala mal de músicas tocadas em dois tons. Conheço canções tocadas em apenas três tons e que são ótimas. A coisa está na forma, na capacidade de quem produz. Essa que é a realidade.

DA – Na sua vivência com a música, tanto do ponto de vista da escuta, da percepção, quanto da experiência de ter tocado com artistas de todo os estilos, o que essencialmente marcou o seu trabalho?

SABARÁ – Tive o prazer de tocar com Humberto Clayber, um dos maiores gaitistas do mundo, e para mim foi um sonho realizado, até porque ele era também o baixista do Sambalanço Trio, compondo o conjunto com Airto Moreira, na bateria, e César Camargo Mariano, no piano. Era um grupo que ali, na época da bossa nova, me emocionava demais. Certa vez, em Ilhéus, eu e Clayber fizemos um show juntos e foi um verdadeiro sucesso. A casa estava lotada e, do lado de fora, ainda tinha muita gente querendo entrar. Foi uma experiência que me marcou demais por poder tocar com um músico como ele. Outros também foram importantes, como foi o caso de acompanhar Cauby Peixoto, que fazia um sucesso e tanto na década de 60. Talvez as pessoas de hoje não lembrem muito bem, mas havia também o Nelson Ned, que era conhecido como o “pequeno gigante”. Para mim, que fui criado numa localidade pequena de Ilhéus, chamada Banco Central, na fazenda de meu avô, e depois poder conhecer pessoas de relevância musical, evoluir na profissão e testemunhar também o crescimento de músicos que foram meus alunos, hoje espalhados em diversos cantos do mundo, é uma emoção muito grande. Por tudo isso, me sinto realizado. E quisera eu ter podido dar uma canja com os Beatles, com George Benson (risos).

DA – Você passou um período tocando no Rio de Janeiro. Como foi essa fase?

SABARÁ – Eu tocava numa boate chamada Balalaika, em Copacabana. Muitas vezes, depois das apresentações a turma saía em direção ao famoso Beco das Garrafas. Foi nesse contexto que eu troquei ideias com bateristas muito bacanas, como Dom Um e Milton Banana. Não cheguei a estourar e ficar famoso, mas me sinto realizado. Quando retornei à Bahia e vim morar em Itabuna, fui conquistando reconhecimento a ponto das pessoas me chamarem de mestre Sabará, isso e aquilo. Quando as pessoas me chamam de mestre, digo que isso se dá por reconhecimento e respeito, não por desempenho acadêmico que o possuísse por direito. Tenho consciência disso.

DA – Ali no Rio você teve a possibilidade de acompanhar a efervescência da Bossa Nova. O que significou testemunhar tudo isso de perto?

SABARÁ – Eu morava em Realengo, era bem jovem e, naquele momento, não tinha noção da importância daquele movimento. Nem mesmo aquela turma que se juntava no apartamento da Nara Leão, com João Gilberto e tantos outros, sabia o que era a Bossa Nova, até porque não se sabia o que se estava fazendo. Mais adiante, o termo surgiu de modo informal. Eu mesmo só fui sentir a grandeza disso tudo algum tempo depois, quando a coisa estourou e, na maioria das grandes cidades brasileiras, se fazia o chamado power trio, que era composto de piano, baixo e bateria para tocar o gênero. Nem mesmo o próprio João Gilberto, que saiu lá de Juazeiro, tinha ideia de onde o movimento iria chegar. Eu só lamento que a coisa tenha se perdido um pouco hoje em dia, talvez pela enorme quantidade de ritmos que surgiram no país. O próprio Tio Sam, naquela época, ficou com receio daquilo tudo, até mesmo quando abriu as portas do Carnegie Hall. A Bossa tem seu lugar hoje em dia, mas me parece que para poucos.

DA – Assim como a Bossa Nova, o Tropicalismo também fincou suas bandeiras. De que modo você acolheu esse movimento?

SABARÁ – O Tropicalismo foi importante porque quebrou estruturas musicais. E o novo, além de ser diferente, provoca curiosidade. Era uma bandeira forte. Vou até fazer uma brincadeira: o Brasil por ser um país tropical é tropicalista sempre (risos).

Sabará
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

 

DA – Você é saudosista?

SABARÁ – Todos nós somos. Quem disser que não, está mentindo. De uma maneira atávica, você volta ao passado.

DA – Aquele menino que nasceu em Banco Central tinha a mínima ideia de que trilharia um caminho com a música?

SABARÁ – Não. Eu, menino correndo as roças de cacau, subindo em pés de jaca, tomando banho de rio, brincando de picula, jamais poderia imaginar.

DA – O rádio compôs a sua primeira memória musical naquele período?

SABARÁ – Sem dúvida. E vou dizer uma coisa que marcou e que não é música. Lá na fazenda, ainda garoto, meu avô comprou um rádio que na época era ligado numas baterias que mais pareciam essas de carro. Nunca esqueci a marca do rádio. Era Mullard, com dois ganchos que se ligavam à bateria. E a minha família se reunia em torno do rádio para ouvir uma novela chamada “O Direito de Nascer”. Olha que coisa! Ficou na minha mente até hoje. Assim como ficou também a paisagem, aquele cheiro de roça, ambientes que nem existem mais. Portanto, não vá em busca do passado porque ele não mais existe. Está dentro de nós.

DA – O nome Sabará vem de onde?

SABARÁ – Ah! Que coisa incrível! Essa é uma das coisas que não entendo porque aconteceu comigo. Eu torço pelo Flamengo. Quando cheguei para jogar na praia em Ilhéus, havia os famosos babas, que era como se chamavam as partidas. Eu, modéstia à parte, era bom de bola e, pela ponta direita, era um raio, driblava bem. As pessoas começaram a me apelidar de Sabará porque havia no Vasco da Gama um ponteiro direito com o mesmo nome e características de jogo. Ficou esse nome. E na música também pegou.

DA – Nessa sua faceta de professor, o que foi determinante para você criar um método próprio do ensino de bateria?

SABARÁ – Quando eu descobri a possibilidade de estudar bateria, fiz cursos com Reinaldo Martinelli Filho, que era um músico de formação acadêmica, Phd em música na Alemanha. Fiz também um aprendizado sobre divisões com o professor Florisvaldo, que era o mestre da filarmônica de Ilhéus. Esse conhecimento me deu a oportunidade de passar as informações. Então, o que eu aprendi nesse contexto, além de ter estudado em livros e outros materiais, me deu condição de passar exercícios aos meus alunos. Agradeço muito ao professor de música Aderbal Duarte, da Universidade Federal da Bahia, que me enviou um livro de suma importância na aplicação dos exercícios.

DA – Há um sentimento especial no resultado desses mais de 50 anos de ensino?

SABARÁ – O de ver alunos meus tocando profissionalmente em diversos lugares do mundo. Fico satisfeito porque o trabalho deu a alguns perspectivas de vida.

DA – O quanto Sabará conhece Sabará?

SABARÁ – É uma pergunta profunda demais. Conhece-te a ti mesmo, já disse o homem lá. E não é tão simples conhecer a si próprio. Ninguém se conhece inteiramente. Então, eu diria que sou um cão que ladra para os que me amedrontam, adulo os que me tratam bem e mordo os maus (risos).

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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