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107ª Leva - 01/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

O ano de 2016 começa aqui na Diversos Afins com um repertório de possibilidades. A primeira delas é a de celebrar a continuidade dos caminhos, empreendendo esforços para que outros renovados encontros continuem a alimentar nosso trabalho. É também o ano em que completaremos dez anos de estrada. De fato, um marco temporal se assinala, mas o verdadeiro lado especial disso é constatar que alcançamos um patamar de trajetos através dos quais pudemos consolidar ainda mais o projeto. A revista tem servido como uma plataforma de potencialização de discursos, olhares e distintas formas de percepção da vida. E mesmo com as múltiplas individualidades mescladas num só caldeirão de expressões, o arranjo de textos e imagens consegue trilhar uma estrada harmônica e equilibrada. Somos um organismo vivo por natureza, tendo em vista as marcas humanas essenciais a tudo o que fazemos. Nesse início de ano, nada melhor do que elencarmos as vozes que agora chegam e que compõem uma nova investida editorial. Uma delas está diluída em toda a 107ª Leva. Trata-se de Deborah Dornellas, que com seus desenhos desperta por aqui reflexões em torno de sua valiosa capacidade de abstração. Em matéria de contos, há o atravessar de pungentes territórios por parte de autores do quilate de Kátia Borges, Claudio Parreira e Cristiano Silva Rato. Apresentando-nos uma recente experiência de leitura, Orlando Lopes compartilha suas sensações sobre o mais novo livro do poeta Jorge Elias Neto. Percorrendo um instigante caminho de indagações, Sérgio Tavares entrevista o escritor Julián Fuks. As vias da poesia são contempladas com versos de Alex Simões, Fernando Naporano, Ellen Maria Vasconcellos, Marcus Vinícius Rodrigues e Tanussi Cardoso. As linhas de Marcos Pasche estão voltadas para a obra poética de Alexei Bueno. No caderno de cinema, Guilherme Preger escreve sobre as sensíveis abordagens do filme brasileiro “Boi Neon”. Há também espaço para considerações acerca do disco de estreia do cantor e compositor Liniker. Tudo isso posto, caros leitores, sejam bem-vindos ao nosso novo painel de expressões!

Os Leveiros

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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

Depois de nós

 

nada ficou

depois de nós

só este pássaro que atravessa a cidade

depois de nós dois

todas as ruas vazias
nada sobre o asfalto gasto

depois de nós dois feridos

nem isso de saudade
nem um aviso

nada

só este pássaro perdido
que ainda insiste suas asas.

 

 

 

***

 

 

 

Uivo

 

Já não escuto o que é agudo ou grave
Mesmo as aves são mero voo obscuro.
Ouço apenas os mudos,
estes lobos de olhares ocos
a percorrer bosques de fome,
onde tateio uivos.

 

 

 

***

 

 

 

De como morder

Meu amor não me beija os pés.
Ele morde meus calcanhares.

Eu nunca escapo, embora tente,

e quase sempre engasgo
de também o ter entre os dentes.

 

 

 

***

 

 

 

Tudo que sei

 

Posso saber do mar distante
Pelo barulho longe

e do sol que brilha
pela sombra que o esconde.

Posso saber que a terra gira
só de olhar para o alto

e, tonto, olhos fechados,
ainda o sangue em correnteza

pela erosão do corpo gasto
na marcha da vida,

sei o que você não disse
na hora da despedida:

– Somos nossa única certeza.

 

 

 

***

 

 

Mensageiro

 

Era como um guerreiro
por entre as farpas do destino,

ia perdido e em seu caminho
colhia espadas que caíam,

o fio cortante de uma lembrança,
a lâmina cega de uma paixão,

o corpo em talhos de quem curar-se
sempre e em vão ainda tenta,

nesta sina de mensageiro
que em si leva a sentença.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014) e “Arquivos de um corpo em viagem” (poesia, Editora Mondrongo, 2015). Seu conto “A omoplata” venceu um dos concursos Newton Sampaio, edição 2009, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Boi Neon. Brasil/Uruguai/Holanda. 2015.

 

Cartaz Boi Neon

Com o predomínio audiovisual dos vídeos pela internet e dos seriados que revigoraram a linguagem televisiva, esquecemos de perguntar se o cinema ainda tem algo a dizer sobre a função política da imagem. O melhor de Boi Neon, filme brasileiro de Gabriel Mascaro, ganhador do prêmio Redentor do Festival do Rio de Janeiro, e vencedor de vários prêmios internacionais, como Havana, Veneza e Marrocos, é o questionamento renovado do valor político da imagem cinematográfica nesse novo século, em especial nesse país que não se decide entre ser uma potência econômica central ou subalterna.

Boi Neon segue a “pesquisa estética de contexto”, como definiu o crítico Carlos Alberto Mattos, de seu filme anterior, Ventos de Agosto. O contexto, no caso, é o universo nordestino nos dias de hoje. Ventos de Agosto se passa no literal remoto de Alagoas, e aborda as relações culturais da lavoura de coco, atualmente uma verdadeira indústria cuja incessante produção escoa para circuitos alimentícios e turísticos de todo o Brasil. Boi Neon foca no Nordeste interior e sertanejo, de Pernambuco e Paraíba, com a mistura econômica e cultural das indústrias têxteis, das vaquejadas e do comércio equino e bovino, movidos todos pelas usinas térmicas que iluminam o frenético desenvolvimento econômico da região nos últimos anos.

Iremar (Juliano Cazarré) é um boiadeiro que trabalha com os rebanhos bovinos das vaquejadas, espécie de competição arcaica na qual cavaleiros cercam um boi para derrubá-lo agarrando-o pelo rabo. Além de cuidar dos rebanhos, a função de Iremar é passar cal e areia no rabo dos bois para facilitar o trabalho dos cavaleiros. Ele trabalha com uma trupe de companheiros que inclui Galega (Maeve Jinkings), motorista do caminhão que conduz o gado, sua filha pré-adolescente Cacá (Alyne Santanna) e outros dois boiadeiros. Juntos, eles formam uma espécie de “família estendida”, não apenas trabalhando, mas morando num barraco de argila no meio do sertão.

Esse retrato tradicional de boiadeiros é desde o início desconstruído pelo filme de Mascaro: logo nas primeiras cenas vemos Iremar medindo com uma fita métrica a cintura de Galega, numa cena que, se parece erótica ao espectador, é tratada com naturalidade pelos personagens, como um momento comum entre eles. Na verdade, Iremar é um boiadeiro apaixonado por costura e em seus momentos livres desenha modelos de moda. Ao longo do filme, muitos estereótipos da cultura brasileira serão bagunçados: Iremar é um vaqueiro apaixonado pelo desenho de estilo, Galega é uma mulher “bronca” que dirige caminhões e domina a mecânica dos motores (a exemplo de Vento de Agosto, onde também havia um caminhão dirigido pela mulher protagonista), mas se apresenta à noite em danças sensuais de cabaré travestida de mulher e égua, Cacá é uma menina que acompanha boiadeiros, e sonha com cavalos. Os outros membros da trupe, boiadeiros rudes, convivem com os demais sem maiores estranhamentos.

Juliano Cazarré em cena de Boi Neon - Foto Rachel Ellis
Juliano Cazarré em cena de Boi Neon / Foto: Rachel Ellis

Na verdade, o estranhamento, se existe, é apenas dos preconceitos do espectador que gostaria de imaginar uma realidade mais simplória para a pobreza nordestina. Boi Neon tem como sua principal virtude complexificar esse quadro, mostrando seus personagens num trabalho arcaico e na vida pobre, mas alimentando sonhos e fantasias modernas. Boi Neon não é um filme sobre o “Brasil profundo”, onde um contexto mais tradicional traria um olhar inocente sobre a realidade brasileira. Inicialmente, seus protagonistas são trabalhadores humildes que servem ao universo das vaquejadas, uma espécie de competição que recorda um histórico de maus tratos aos animais, inadmissível para o olhar urbano, mas que caminha junto com o aspecto lúdico das festas e das feiras nordestinas, sua tradição de folguedos populares. Por outro lado, as vaquejadas acontecem também na mesma região que se tornou um polo têxtil, com várias indústrias de confecção, polo que traz ao ambiente empobrecido e brutalizado dos boiadeiros e cavaleiros o imaginário ora estiloso, ora sensual, ora fetichista da moda.

Nesse contexto, Iremar é um mensageiro, um personagem que trafega pelos vários mundos que coexistem temporalmente. De um lado, como vaqueiro, seu convívio com os animais é rude, entre a violência e a ternura, numa relação quase horizontal. Podemos dizer que o filme propõe algo como uma “bestialidade estética”, sem que esse termo denote um sentido pejorativo ou negativo. Momento ímpar é a cena performática do cavaleiro e sua égua que interrompe a narrativa: numa dança erótica, animal e homem contracenam num bailado igualitário de afetos e sensações corporais sensuais. Os dois, égua e cavaleiro, terminam deitados juntos e agarrados. Nesse aspecto, Boi Neon é o exato oposto de Baixio das Bestas de Cláudio Assis. Bestialidade aqui é um “devir animal” que se opõe em sua potência de desejo ao mundo bestificado retratado no filme de Assis.

Em outro extremo, Iremar é um verdadeiro estilista de moda que desenha figurinos para danças sensuais nas festas. Ele domina a arte do desenho de moda e todo seu imaginário orbita na relação entre as formas do corpo e o adorno das vestimentas. Numa cena, Iremar desenha sobre uma “revista de mulher pelada” cobrindo o corpo nu e exposto das modelos com o desenho a caneta de peças de roupas.

Boi Neon embaralha os estereótipos das representações de gênero não porque retrata personagens em ocupações exóticas ou inesperadas. O que de fato confunde as classificações de gênero nesse filme não são as representações deslocadas, mas a transversalidade dos desejos que atravessam os personagens. E não se está falando de sexualidades cruzadas, pois todos os personagens mantém sua heteronormalidade “cis”, mas sim do desejo que alimenta fantasias e fetiches. Iremar sonha com o mundo da moda e elabora figurinos que dão vida a fantasias de glamour e neon, mas isso não torna sua ocupação de vaqueiro insuportável, mas é aquilo que num ambiente pobre e inóspito permite a ele continuar vivendo com dignidade. A fantasia da moda abre para Iremar outro mundo que não é incompatível com o mundo de gados e cavalos, mas que se adiciona a esse, o enriquecendo de forma complexa. Há uma cena exemplar no filme sobre a função emancipatória da fantasia. Quando Iremar e Galega discutem o sonho de Cacá de ter um cavalo, Galega, sua mãe, se preocupa: é bacana, porém sua filha jamais terá um cavalo. A essa afirmação, que segue um estrito princípio de realidade, Iremar lhe contrapõe: “Isso nunca se pode saber”. O desejo é aquilo que abre um mundo de alternativas à realidade existente.

Melhor dizendo, o desejo é o que permite a coexistência de muitos mundos com temporalidades diversas. Uma das principais virtudes do filme de Mascaro é apresentar imagens cuja potência expressiva está em nos mostrar a contaminação recíproca entre mundos e tempos diferentes. Isso se dá numa reflexão sobre a imagem que aparece como um vértice de contrastes que não se excluem mas se impregnam mutuamente. Em outra cena ilustrativa, Iremar, que domina a linguagem do desenho gráfico, quer produzir um logo, uma marca para suas vestimentas e vai a uma loja de impressão. O rapaz da loja lhe diz então que a imagem precisa ser “vetorizada”, querendo dizer simplesmente que ela precisa ser digitalizada, o que pode ser feito numa lanhouse qualquer. Assim, essa cena reúne três níveis de imagens: a imagem tradicional desenhada pela mão de Iremar, a imagem do “logo” que é escrita para ser impressa e a imagem digitalizada.

Essas imagens, com lógicas distintas, se sintetizam na imagem em movimento cinematográfica. E o que se move como veículo dos desejos que ancoram mundos e tempos são os corpos dos personagens, exuberantemente retratados na tela de Boi Neon. Se Iremar realmente é um mensageiro que atravessa mundos e tempos distintos é porque seu corpo é carregado de desejo. Habitando uma região em rápida transformação econômica que é ao mesmo tempo agrária e tradicional (onde não se veem celulares ou computadores) e outra que é industrial, com usinas térmicas e fábricas de roupas, o corpo de Iremar está fendido pelo desejo para se deixar contaminar pelo imaginário da moda e da festa. Não por acaso, sua única relação sexual no filme será dentro de uma fábrica têxtil. E ele não é o único personagem capturado pela lógica subversiva do desejo, pois a aura fetichista da moda que paira sobre o sertão desolado ao redor das fábricas têxtis parece contaminar os corpos de todos os personagens. Fetiche que não se transforma nunca em aprisionamento das vidas, mas é devorado pelos corpos, de humanos e outros animais, compondo as fantasias que os fazem reluzir de glamour e neon.

 

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e “Extrema Lírica” (Editora Oito e Meio), e também organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro no Rio de Janeiro.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Cristiano Silva Rato

 

deborah dornellas int
Desenho: Deborah Dornellas

 

Holofotes

As estrelas estremeceram quando a avalanche de pobres, sem conotações, passou a descê-las e seus valores começaram a deturpar-se em meio à solidão das notas recolhidas. Seus valores já não existem mais. Fodas. A cidade é o próprio artifício, indigestão recheada de restos. De tudo. Nuvens cinzas em um outubro de um ano marcado pela falta de sensatez. Humanidade. Estúpida. Perdida nas porras dos números. “Esclarecidos” da modernidade, esses moderninhos filhinhos de papaizinhos “esclarecidos”. Nem sei se devo tomar partido. Às vezes me recubro de pensamentos fascistas, quero persegui-los e demonstrá-los em gráficos como animais em extinção. Quantos por cento? A quantidade necessária. Cientificamente inferiores, não é? Não são inteligentes. Será que têm alma? Matar todos.

Esta noite os sons se ruíram. Me atirei como uma foice russa na direção de todos e queria acariciar, dolorosamente, seus fios de cabelos bem cortados e aparados. Suas roupas estetica-mente, perfeita-mente fora dos eixos. Toda revolta simulada me dá nojo. Subi como louco em uma das mesas do Mc Donald’s e, em gotas, saiu a, vodka, b, o cachorro-quente do tio da esquina com bastante maionese e ketchup, c, o álcool etílico, que queimou minhas cordas vocais, por isso, acho, não urrei feito um motor de caminhão no meio da madrugada. Provei em segundos aquele gosto azedo do vômito no salão e nos corpos purificados que estavam lá.

Interferência – Antes do fogo queimar, vaguei feito o desespero, haviam olhos ardilosos/ porco asqueroso/ o ar sempre fica pútrido/ algo neles me arrepia.

Passo vagamente. Um felino, rajado, cambaleando por todos os lados, dançando feito um chinês americanizado dos filmes da Sessão da Tarde. A metáfora não é uma metáfora. Os sentidos estão menosprezados na massa ardilosa assentada toscamente em uma parede de um quarto de motel na Guaicurus com São Paulo. Todos os cômodos deste hospício são resquícios de pessoas perdidas nas esquinas mal iluminadas, cheias de carros novos e sem-tetos. Virei a lágrima na boca e reconfortei a mente com mais um pouco. Chega.

Estamos agora parados em frente à máquina. Ela nos olha, vigia-nos, foi programada para isso. Logo chegaram os guardas, com seus olhos esfumaçados enxergando microcoisas, treinados, socando e atirando, dissimulando, nos campos de concentração. A raiva sob os olhos. Necessidade e desejo de tocar algo real. Senti uma forte pressão nos calcanhares, como se fosse uma batida entre caminhões frigoríficos. Meu peito ardeu com a mão, mas os dentes resistiram ao impacto com o chão. Olhei debochadamente para todos e sorri.

***

 

 

Trilha sonora

Belo Horizonte. Aqui todo dia tem uma manifestação. São professores, músicos, carteiros, moradores de rua. Isso, antes mesmo de virar moda. Todos os dias chego, me arrumo para labuta, depois de navegar dentro de dois ônibus lotados, e caros. Esse, por sinal, o estopim para qualquer mente cansada do barulho da cidade. Nem é mais só o centro. Tem carros com auto-falantes enormes, caixas de som portáteis e uma infinidade tecnológica de microaparelhos, servindo para tudo. Desde a sacanagem liberada a uma forma de divulgar a violência do Estado. Eu, vamos assim falando, há muito tempo cansei de pedir explicações destas tais autoridades, virei ateu. Nem azul, nem vermelho, nem rosa choque. Vivo com meu sax, nas ruas, das ruas e para as ruas, há muito tempo ocupo isso aqui, a única verdade, acredito, estas veias que pulsam.

De repente o tempo não era mais… Há alguns dias, o barulho mudou de tom. Um cheiro, esteve parado, circulando, como os gritos, outra hora, um copo de cerveja. Quente. Mijo, à revelia no poste à minha frente. Em seguida cambaleio até o Fórmula 1. Não sei se sou eu, ou outro, caminhando, com seu virtuoso, pomposo, entendimento da psicanálise clássica. Seu grupo. A música é a morte anunciada. Adolphe Sax e seu invento mágico. Há sempre um compasso, uma cadência, uma levada, mesmo quando nós… Tento acompanhar. A bota de couro apressada, pisando em papéis descartáveis, leve fantasia de uma criança sendo arrastada pela mãe, pela tarde. O medo.

Me surpreendi aquela manhã. Ouvi rumores. Mega manifestações em São Paulo, não achava que chegariam a BH. Nem pensamento. Talvez, sonho, mais truculento, energético, vandalístico, vivo. Por aí vai. Creio, até, fiz uma trilha sonora. Acordes dissonantes. Cambaleio pelo pouco espaço que sobra, os pés tentam seguir aquele ritmo. Trilho um, dois, três, não consigo mais contar. O beque, bolado. O ouvido afinado. Morto como Cristo no terceiro dia, de todas as formas, grito junto com a multidão. Uivo. Ginsberg. Meus dedos perderam o controle. O sopro vem junto com o tambor, com a macumba…

Mais um… engrosso o caldo desse feijão… tropeiro. Caminhamos, marchamos nesta festa. Risos altos. De principiantes. Lembro bem. Como esquecer tanto alvoroço pela manhã? O centro, sempre com seu ritmo conservado. Passos apressados, polícia para todo o lado. A praça. Aquela manhã não. Apareceram uns “bombadinhos”, sem saber o que fazer, lembro, tomei um bicudo. Filha da puta! Pensei. Em manifestação tem de tudo, até caso de possessão, vai explicar como uns caras pegam armas e atiram contra seus vizinhos, familiares e desconhecidos.

Não querem mais manter as portas abertas. Os bares. Botecos. Lojas de outros gostos. Bancos. Tropeço e erro a nota caída ao chão. Sorrio bem alto. Há uma tropa no meu gargalhar, meus dedos esquecem o corpo, perco a consciência quando queimo. Não deixo escapar o barril de minhas mãos. Álcool. Amargo, adoçando o fogo cristalino de séculos de abandono. Eu. Nunca estive tão só. Uma moça de trajes elegantes, hoje, curtos e colados ao corpo, realçando seus dias, bem alimentada e bebida de primeira, com maquiagens sutis como devassos moribundos, rela sua perna, no meu pé. Carrega um cartaz. Me olha com desdém, como se tivesse pisado em merda. Pegue minha mão. Pois a casa está quente garota. Me deixe levá-la para dançar. A casa está quente, baby. Eu grito, eu canto, desafino. Atinjo outros tons. Consigo ouvir o piano, a bateria. A casa está quente. Todas as calças são iguais. Saco da mochila o sax e acompanho a melodia. Dou mais um gole, na bebida, respiro. Sopro meu momento na multidão.

Relação mais próxima com a praça, ou pedra como os malucos costumam chamar. Os malucos de estrada, ou artesãos de rua, ou hippies, e/ou micróbios, na verdade existe uma infinidade de tipos e variantes. Nenhuma controlável, todas com suas liberdades, malucos. Existe uma proximidade de… “Traz logo a cerveja pô”. Como ia dizendo, maluco… A cidade é mesmo algo insondável, cheio de tipos, e esses, de repente, se agruparam no centro, na praça sete de setembro, em junho, foi um hospício. O que teve de notícia, de branquinho voando para o exterior, não cabia no jornal. Foram dias agitados. Nunca vi tanta gente reclamando ao mesmo tempo e na falta da voz, apareceu cartaz feito até com papel higiênico. Acho que até vi alguém vendendo cartaz. Mas cada um ajuda como pode, né? Quando aquele povo todo começou a andar em uma direção, pensei umas duas, três, e por aí vai, se ia ou não com eles. No meio disso tudo, vi passar uma galera, com instrumentos, tambor, macumba, violão, pandeiro, apito…

Tinha de tudo. Hipocrisia. Verdade. Fé. Tudo misturado. E alguém, e alguns, uma grande maioria, sem saber sobre o deserto. Ao olhar. De baixo para cima, e retorno, não escondo o volume crescendo. Meu escárnio. Abro a mochila. Lhe grito. Tocarei Sing Sing Sing, em homenagem ao seu belo sorriso… sua luta… e cartaz. O pisar fica mais pesado. A melodia… perde… a alegria… entra tristeza. O sentido do domínio. A alegria. Deixamos de sonhar… ou sonhamos demais? É preciso atingir a realidade. Observo seu pesar. Desisto. A casa não está para alegrias anunciadas. Ela adentra a multidão, como vulto tortuoso, um enigma. Retorno ao meu confinado pensamento, e um irmão, maluco, esses que ficam vagando pelo mundo, pelo menos, o Brasil, me oferece outro trago em uma garrafa com tantas misturas, que seria difícil para um químico descobrir a origem. Ah! Esses alquimistas de rua. Preparam os melhores venenos.

 

Cristiano Silva Rato nasceu em Japonvar, norte de Minas Gerais. Viveu a infância em Belo Horizonte (Vila N. Sa. de Fátima); a adolescência em Contagem (V. Pedreira Santa Rita), na Ruína II (V. Primavera), em Ibirité, e a juventude na Vila Formosa (BH). Atualmente vive no Morro do Papagaio, também na capital mineira. Em todos os lugares morreu e nasceu. No momento possui um blog (desatualizado). Tem um livro publicado (Sentido Suspenso, lançado em 2012, pela Editora Multifoco) e textos espalhados pela web e fanzines.

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107ª Leva - 01/2016 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LINIKER – CRU

 

LINIKER-EP-CRU

 

Verdade é uma palavra que, de tão aborrecida, muitos têm medo de pronunciar. Há quem relativize seu conceito por temor ou respeito a opiniões contrárias. Por seu curso, tem também quem faça uso dela por vias deterministas, rio que desemboca no pantanoso terreno do absoluto. Afirmar que uma verdade é universal, por exemplo, é assinar um papel em branco, convite a se perder no labirinto da insensatez.

Falemos, pois, da capacidade que uma pessoa tem de delinear sua própria identidade com uma noção de verdade que é essencial à sua sobrevivência. Assim o é quando testemunhamos a expressão de um artista como Liniker. Quem o vê pela primeira vez pode tentar imaginar que a apresentação visual com a qual ele se reveste é um mero arranjo cênico de possibilidades. No entanto, há muito mais por trás disso tudo.

Vindo das paragens interioranas paulistas, mais precisamente de Araraquara, Liniker aparece para o mundo tal como gostaria de ser visto, um sujeito sem definições de gênero. Nos palcos, veste-se com trajes femininos, usa batom e deixa brotar solto todo o vigor e precisão que emanam de sua voz.  Dentro dessa representação estética, não compõe um personagem, pois, do mesmo modo que se traja nos shows, assim também é seu cotidiano.

Sua aparência não deixa de ser um importante fator de discurso e de afirmação, mas, em se tratando de música, é relevante destacar que Liniker possui um talento tanto voltado para o canto quanto para a composição. A voz é marcante, com uma colocação discretamente rouca, e vem apoiada por letras autorais que orbitam em temas como o amor e por perspectivas de identidade e gênero.

Liniker Fotodivulgação
Liniker / Foto: divulgação

O caminho escolhido pelo artista em Cru, seu EP de estreia, é o da black music, com pitadas clássicas de funk e soul. São três faixas que ficam como um grande prenúncio para o que poderá ser a carreira dele, verdadeiro aperitivo. Assim sendo, Liniker não é promessa, e sim realidade. E, pelo visto, ainda tem uma gama de coisas a nos oferecer nessa estrada que se mostra longeva e fértil.

Carro-chefe do disco, Zero é uma canção que nos toma de assalto. Vem com uma suavidade soul ao mesmo tempo em que perpassa as alamedas do desejo avassalador. O saldo do amor ali cantado é crer que o coração é uma espécie de cofre com memória, onde o que é belo pode ser devidamente acolhido e guardado.

Em Louise Du Brésil, uma pegada funk setentista toma conta dos espaços. É uma celebração de vida muito bem arranjada com elementos de nossa brasilidade. Já Caeu, a outra faixa do disco, atravessa os cenários das relações numa perspectiva imagética bem interessante, desenrolando um enredo plausível de sensações.

O trabalho tem um cuidado especial com os arranjos, sobretudo no que se refere ao uso de sopros. Reunindo a atmosfera vocal com as potencialidades sonoras dos instrumentos, Cru é um disco que pontua um universo todo marcado pela delicadeza.

Num momento em que as discussões sobre questões de gênero andam a boiar num grosso caldo fervente, a arte sempre aponta caminhos de libertação. Segui-los é imperativo porque a verdade de cada um confere sentidos às coisas. Tudo aquilo que nos envolve em aparência pode ser uma fabulosa ferramenta de comunicação, não apenas uma banal casca.

 

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Ellen Maria Vasconcellos

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

O espetáculo da pedra

 

selvagem ela
levanta, cuida das folhas das plantas
tira os nós dos cabelos
as raízes dos dias cheias de umidade
trabalha em silêncio
até a noite quando avança
pelo chão da sala e olha o teto
dedos entrelaçados atrás da cabeça
cresce sem perceber
também se alimenta de luz
até que não se cabe.

 

 

 

***

 

 

 

Sereníssima

 

Sento e espero. Não posso respirar fundo. Me dá tontura e sinto que se antes de afogar, desmaio. Escuto desde aqui a máquina fazendo seu trabalho. Ela gira a um lado e outro sem sair do lugar, as roupas magicamente clareiam. O volume baixa e depois volta a subir. Enche o tanque e mergulho de olhos fechados. Tudo submerso em água macia. Não sinto minhas lágrimas desde o chão da sala. Veneza. Parto limpa a torcer peça por peça. Vou ao quintal. Estendo em corda bamba e outra vez, me estiro. A forma como o vento leva em gotas este silêncio das mangas não se repete.

 

 

 

***

 

 

 

Mergulho impossível

 

Tem um pouco de lava
Tem um pouco de gelo
lava endurecida
gelo derretido
e o silêncio das pedras reina
na encubadora das perguntas
sobre o início e o fim de tudo.

 

 

 

***

 

 

 

Poesia menor

 

Quando estou meio cheia
uso canudos em casa
Bolhinhas no fundo do copo
de requeijão

E a certeza íntima
E a dúvida exposta
Parte de mim, líquida
Outra, gasosa.

 

 

 

***

 

 

 

Dança ou Luta (girl power)

 

Eu já tenho o não antecedido
a indiscrição da inércia
o “privilégio” da derrota
o enunciado aceso que impõe o passo
e a verdade herege do tablado
que teima em tentar me controlar.

Mas eu também tenho
a possibilidade ainda que reprimida do sim
a força que desacata o fracasso
a vingança que corta a memória
o movimento entre o improviso
e o fandango que insisto, delicada e furiosa, em bailar.

 

Ellen Maria Vasconcellos. Natural de Santos, formada em Letras na USP, onde finaliza o mestrado em literatura contemporânea. Autora do livro de poemas Chacharitas & gambuzinos, publicado bilíngue (português e espanhol) pela Editora Patuá (2015). Tradutora do livro “Ângulo de guinada”, do autor Ben Lerner, publicado em ebook pela e-galáxia (2015). Tem seus textos publicados em diversas revistas e antologias no Brasil, Chile, Espanha e México. Toma fanta uva e café sem açúcar. Acredita em fantasmas e desconfia dos vivos. Enxerga muito bem, mas às vezes fecha os olhos. Não tem o coração de pedra.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Cinquenta anos em um

 Por Marcos Pasche

 Capa - Alexei Bueno

Por mais que se aponte a heterogeneidade para classificar a poesia contemporânea, é possível verificar que os mecanismos de legitimação social da literatura – as grandes editoras, as feiras do ramo, os prêmios mais badalados, os suplementos jornalísticos e as ementas universitárias – tendem a endossar como representantes do presente autores e obras explicitamente herdeiros do Modernismo (o mais festivo e iconoclasta). Por essa perspectiva, não há razão para ver como “de hoje” um poeta que em 1985 publica um volume intitulado Poemas gregos, que em tudo parece demonstrar uma opção pelo passadismo. Esse poeta é Alexei Bueno.

Mas se olhada de perto, e se o olhar despir-se de preconceitos, a obra de Alexei Bueno se revela densamente moderna, porosa e permeável tanto aos fluidos de cima quanto aos detritos do baixo. E é isso o que se verifica em Poesia Completa, lançada pela ocasião do cinquentenário do autor. A publicação reúne os doze livros de versos que Alexei Bueno publicou e manteve em sua bibliografia, aos quais se somam Cinco fugas cromáticas, volume inédito.

Uma quantidade considerável dos títulos poéticos de Alexei dá mostras do quanto sua arte evoca símbolos de requinte: As escadas da torre, Poemas gregos, A decomposição de Johann Sebastian Bach, Lucernário e A juventude dos deuses indicam o teor de solene ancestralidade que lhe perpassa a escrita. Passando ao interior dos livros, poemas como “Helena”, de Lucernário (1993), confirmam o que os nomes sinalizam:

No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levaram linho, unguento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pelo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram (p. 279-80).

Entretanto, não deixa de haver na confirmação uma nota dissonante.  Num poeta supostamente passadista, orgulhoso da herança clássica, só é pensável encontrar devoção a essa herança, o que, nos textos, se ratificaria pela total evitação do que pudesse manchar estátuas e templos. Em “Helena”, o discurso é plataforma de uma protagonista mitológica (de uma mitologia protagonista na cultura ocidental), alicerçada em quadras decassilábicas e tomada por carga imagística de alta voltagem. Mas, como se constata em cada uma das suas cinco estrofes, o poema trata do monumento em estado de ruína. Helena, eternizada como a mais bela das mulheres, é apresentada nas duas pontas de seu declínio: uma é a decrepitude do corpo e o fim da vida; a outra, a vida em estado de fim mesmo após a morte, com o choro das sombras dos heróis. Em “Helena”, portanto, o discurso é plataforma de antagonismos: o precioso apuro formal relata o avesso do esplendor, e, por extensão, o poeta, ao revelar uma Helena com destino até então desconhecido, insere na tradição uma sombra corrosiva.

Se em Alexei Bueno há nítida assimilação de matrizes helênicas, há que se perceber em sua poética a forma como se manifesta o homem de uma era desprovida de deuses e amputada de helenismos. Nisso se inscrevem os Poemas gregos, livro em que mimesis e poiesis se dão em proporção equânime. Se nele tudo contribui para que seja percebida convictamente a escrita de um autêntico aedo do período clássico ou helenístico, em nada, porém, deixará de haver indícios de um poeta em particular:

Eu, contrário ao geral dos outros homens,
Muito pouco respeito por vós, deuses,
Tenho, e nem temo que em castigo um raio
………..Divida-me a cabeça (p.180).

 

Aí não reside um protesto unilateral ou mesmo a negação absoluta de concepções culturais consagradas pelos anos. A poesia de Alexei Bueno tem na coexistência de contrários sua carne e seu espírito, dando ao termo “atualidade” um sentido tão amplo quanto intrincado. Se é acertado constatar a inserção que o poeta faz da matéria clássica na poesia atual, não menos correto é apontar a maneira moderna como trabalha elementos ancestrais, inserindo na dicção clássica elementos próprios do homem contemporâneo, “Pois ser um é ser morto” (p. 175), como diz o primeiro dos Poemas gregos. Assim, se a estrutura padronizada foi suporte para a elegia de uma divindade, também o será para a ode “Silvia Saint”, consagrada à tcheca Silvie Tomčalová Stodowa (1976 – ), espécie de Helena pós-moderna, visto ser apresentada em seu site oficial como “the most beautiful pornstar”:

Teu santo nome veste
A quintessência bruta
Da arquetípica puta,
Vênus baixa e celeste.

Áurea cachorra, vaca,
Por que é que os lábios tremem
Vendo em teu rosto o sêmen
Como uma vítrea laca?
(…)

Cadela de ouro, glória
Pueril, sórdida e santa,
Asco que envulta e encanta
Deusa auto-entregue à escória.
(…)

Louro véu do universo,
Sacra estátua e cadela,
Pisa esta alma que vela
Teu sonho áureo e perverso (p. 589-90).

 

Ao se radiografar a poesia brasileira atual, é inevitável – e procedente – o diagnóstico de um quadro multifacetado. O receio da rotulação numa camisa-de-força estilística impulsiona os poetas a procurarem caminhos próprios, o que encontra largo respaldo numa época de apelo individualista, como é a presente. Ao lado dos poetas, tem recebido maior prestígio a crítica que, ao visitar o passado, identifica a idiossincrasia em meio à massa convencional. Por extensão, essa crítica age para demonstrar as estreitezas das tomadas de posição grupais, o que chega aos contemporâneos como alerta e impulso a um destino independente, isento de obrigações coletivas. Assim o coro cede vez ao canto solo, e de diversos cantos solos compõe-se o fragmentado repertório geral. Considerando isso, Alexei Bueno empreende um adventício modo de afirmação da contemporaneidade. Se o panorama se faz diversificado pela assembleia (laica) das individualidades, no autor de Os resistentes encontra-se a unidade constituída e potencializada por uma comunhão conflitante e pelo conflito comungante das partes que desejam ser na companhia de suas antíteses.

As sirenes da cartilha politicamente correta têm latejado incautas, e nesse sentido o poeta revela outro modo de pertencimento oponente ao seu tempo (o tempo do marketing ubíquo e das declarações em tudo calculadas). O pronunciamento aberto e ríspido na direção do que repreende não escolhe perfis, e admoesta o que vê como estúpido e espúrio: “Cansei-me dos pobres/ Como antes dos ricos” (p.551), diz o irônico “Humanitarismo”.

A confluência de itens irreconciliáveis também se processa na estruturação textual. Se Alexei Bueno é frequentemente rotulado como “neoconservador”, é porque nele praticamente só se nota a aparência tradicionalista. No entanto, há em sua escrita um sólido entrecruzamento de formas consagradas pela tradição e pela modernidade. Em sua bibliografia, por entre os livros em que a forma fixa é dominante – As escadas da torre (1984), Poemas gregos (1985), Livros dos haicais (1989), Lucernário (1993), Em sonho (1999), A árvore seca (2006) e As desaparições (2009) – apresentam-se outros integralmente compostos com versilibrismo e polirritmia hegemônicos, caso de A decomposição de Johann Sebastian Bach (1989), A via estreita (1995), A juventude dos deuses (1996), Entusiasmo (1997), Os resistentes (2001) e Cinco fugas cromáticas, trazido ao público com a edição desta Poesia Completa. Nesses volumes, de forte carga simbolista (a estabelecer entre eles evidente conexão), a voz lírica, “Como de uma criança que não se conforma de não ter os mundos” (p. 233), traduz a convulsão de um espírito que, aflito pelos limites da unidade, em tudo se vê e a tudo deseja tocar: “Roçam-se em mim, incontadas, as vidas todas – e as vidas de cada vida –/ Como um turbilhão de pássaros que o vento assopra ao mar queixoso” (p. 391).

A poética de Alexei Bueno opõe-se às diversas maneiras com que a cultura ocidental estabelece segregações acerca do pensar e do ser. Especificamente na era do apogeu tecnológico, a celeridade impõe-se como valor e modelo, e suas ramificações ideológicas alcançam os homens da arte. Potentado último e ubíquo, o mercado dissemina a mensagem da troca imediata e irrefreável, e mesmo na poesia, a barrada no baile das grandes vendas, o tácito decreto se instala e por vezes baralha-se ao lema da originalidade e da renovação. Nesse estado de coisas, não poderia ser outra a (repelente) recepção da poesia que se conecta a um pretérito tão morto quanto ainda enigmático e sabedor de novidades – algumas de caráter duvidoso, a ponto de não despertarem qualquer olhar de surpresa fora dos que as anunciam:

É no passado que caminhamos.
Somos história, somos histórias.
Já faz milênios que aqui passamos
Tais nossas roupas, tais nossas glórias.

Mais que os egípcios, mais que os sumérios,
Num lapso o tempo nos fez distantes.
São língua arcaica vossos ditérios,
Homens modernos. Todo hoje é antes (p. 555).

Mas a poesia é recusa e reação: recupera para a comunidade o que não pode se perder, e pelo já havido reinventa os modos de permanecer e de falar aos homens, convidando-os à evasão e convocando-os à presença. O dizer inaugural se reporta à interpenetração dos tempos, e dá a dimensão ativa do que se mostra estático, pois o isso guarda em si algo de aquilo:

 

Deito-me ao lado da estátua marmórea,
Alva, branca, lavada de alegria,
É a alba, a alvorada, a aurora, o dia,
Que se abre já, desnudo e sem história.

Ela é de hoje, saqueada de memória,
Esta deusa, ela nasce, limpa, fria,
Agora, e, ao lado meu, pura, inicia
O mundo neste alvor, o instante, a glória.

Beijo-a virgem na relva, aqui, a vida,
Só tem hojes, abraço-a, nova, clara,
Secularmente pétrea e ora nascida.

Sorrindo na manhã, gelada, ampara
Meu corpo extático, álgida, estendida
No sempre, no surgir que urge e não para (p. 446).

 

Marcos Pasche é professor adjunto de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e crítico literário, autor de De pedra e de carne (Confraria do Vento, 2012).

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Tanussi Cardoso

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

PAISAGEM INÚTIL

 
porque não haverá segunda vez
meus domingos hão de ficar
plantados
na terra ou nos fios
onde se aninham os pássaros

errar não é humano – é santo

pecar é carregar nos ombros
os erros de Deus

 

 
***

 

 

 

AUTORRETRATO

 

 
O tigre, em silêncio,
é o que penso.

Quando ataca,
é o que posso.

 

 

 

***

 

 
A HORA ABSOLUTA

 

 

“Sou como o corifeu medieval
que percorre as aldeias e vai embora.
É necessário que quando eu partir
o palco não fique vazio.”
Franco Basaglia

 

 

Estranhos
meus mortos abrem as janelas
penetram em meu quarto
e me sufocam.
Insinuantes
me beijam e sangram em mim
alegrias e pecados
acariciando, sem pudor
meus sonhos, minhas partes
e meus ossos.
Meus mortos e seus gemidos
têm rostos, sinais
e olhos que fagulham
calafrios.
Ousados
vêm no breu do sono
e dormem em minha cama
e me despem
e se debruçam sobre meu corpo
silentes e queridos
e rezam
e choram por mim
como a lua clamando
sua outra metade
como um espelho
colando os próprios vidros.
Meus mortos sem censura
meus delicados mortos
que, à noite, penteiam meus cabelos
e, solidários, preparam o meu jardim.

 

 

 

***

 

 
QUADRO

 
As moscas impacientes
da rodoviária
espantam o sono
das estátuas.

 

 

 

***

 

 
RETRATO

 
Sou o que escrevo.

A busca permanente
da palavra exata.

E sua ausência.

 

Tanussi Cardoso nasceu e vive no Rio de Janeiro. Formado em Jornalismo e em Direito. É poeta, crítico, contista e letrista de MPB. Tem poemas publicados em diversos países e 11 livros lançados.

 

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107ª Leva - 01/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Claudio Parreira

 

deborahdornellasi
Desenho: Deborah Dornellas

 

RACIONAMENTO

Estão racionando as minhas palavras.

Sim, Eles estão.

Tenho notado isso; a minha fala está cada vez mais pobre. A minha escrita também.

E isso não me surpreende: diante das circunstâncias, acho até natural.

Eu vejo TV, leio jornal, acesso as redes. Só não percebe quem não quer.

Eu não queria perceber; não era meu interesse entrar em conflito com Eles. Não é.

Tanto que só gritei quando a primeira palavra me foi subtraída. Um grito rouco, doloroso. Mas foi só. Não quero problemas.

Não sei como será amanhã — porque Eles estão em toda parte. Agora ainda mais.

Estas palavras, portanto, são importantes.

Podem ser as últimas.

***

 

 

 

TEORIA NA PRÁTICA

A coisa toda é bem simples: primeiro o pé direito, depois o esquerdo, um degrau, outro, e assim sucessivamente. Um piscar de olhos e pronto: alto da escada.

Bem simples — mas não pra mim. Faz dez anos que estou diante dessa escada e não consigo subir. Sei a teoria, mas a prática, ó, nem pensar.

Muita gente veio aqui me visitar: cientistas, engenheiros, vagabundos, todos eles me ensinando como é fácil atingir o alto da escada. Fui educado com todos, agradeci pela generosidade — mas sempre sinto vontade de mandá-los todos à merda: o que acham de mim? Que eu sou um idiota? Não, não, conheço a teoria melhor que todos eles. Só não me entendo direito é com a prática.

Dez anos. Onze, acho. Doze. Imóvel diante dos degraus. São Eles, é claro, são Eles que me impedem de subir. Não é nada surpreendente: Eles sempre fazem isso, basta um sujeito demonstrar conhecimento suficiente e Eles vêm atrapalhar. Tem sido assim desde sempre; Eles sabem e eu sei.

Já vi outros subindo essa mesma escada. Outros nem tão capazes quanto eu. Muitos não sabem sequer a teoria. Mas estão lá no alto, sorridentes e felizes como eu jamais serei. Sim, jamais. Eu, que sei que a teoria, na prática, é outra.

 

 

 

***

 

 

 

A GRANDE FOGUEIRA

Não era possível mais comer, onde é que já se viu? A água estava racionada. Oferta grande só mesmo a de oxigênio — mas por quanto tempo ainda?

Tudo dependia do Ministério. Da vontade do Ministério.

Do abençoado Ministério que ainda permitia, pelo menos, filmes & livros.

Mas um dia, é claro, o alto escalão do Ministério se reuniu e os homens, austeros, chegaram à conclusão de que filmes & livros poderiam causar grandes danos à ordem e aos bons costumes.

A grande fogueira de livros & filmes durou exatos 70 dias, ao fim dos quais a população, aliviada, agradeceu:

— Graças aos céus temos o Ministério aqui na terra!

O alto escalão sorriu. É claro que sim.

 

***

 

 

 

NADA É O QUE PARECE

Ele chegou ao balcão completamente exausto. Grossos cordões de suor amarelo lhe escorriam pelo rosto, pelo pescoço fino e comprido. O olho direito completamente fora da órbita.

O funcionário do outro lado do balcão sonhava paralelepípedos & centopeias. Seus dutos auriculares desconectados davam a notícia de que não queria ser incomodado. De jeito nenhum!

Mesmo assim, ele chegou ao balcão completamente esdrúxulo. Grossos fitilhos de suor regular lhe escorriam pela boca, pela língua torta e esburacada. A mão direita completamente entediada.

O funcionário do outro lado do balcão babava lembranças & meteoritos. Seus dutos fonéticos atentos:

— Quiqueres, quiqueres, estranho?

Ele chegou ao balcão completamente. A língua se desenrolou feito um tapete:

— Preciso falar!

O funcionário do balcão levantou a sobrancelha velha e desgastada. Do seu olho dormente escorreu um sentido:

— Já falou.

O funcionário do balcão suspirou tulipas & ornitorrincos. Era sempre assim: uma massa de gente dodecafônica e estropiada. Humpf!

— Próóóóximo!

 

 

 

***

 

 

 

VIDA NOVA

Já estou na terceira vida. Mas nem por isso diminuíram os meus problemas. Basta alguém do Ministério saber que estou de vida nova e tudo vai por água abaixo.

Muitos problemas, sabe como é. Não problemas meus, é bom que fique bem claro; o Ministério está sempre se superando em matéria de inventar problemas que não temos. Foi assim na primeira vida. Tudo se repetiu na segunda.

Esta terceira vida me assombra um pouco. Ainda não descobriram. Mas sei que o mercado negro de vidas está sendo ostensivamente combatido. Por Eles.

Ainda não descobriram. Mas o Ministério, eu sei, tem mil olhos, muitas bocas & braços também. É só uma questão de tempo. E depois, ah!, e depois?

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Tem contos incluídos em diversas coletâneas. É autor, pela Editora Draco, do romance “Gabriel” e também da coletânea de contos “Delirium”, pela Editora Penalux.

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Alex Simões

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

oh ménage

 
porque existe a meta física
e é tua carne que procuro
foda-se a tradição lírica
saio de cima do muro
e se a reta é meio oblíqua
e viver não tão seguro
lhe proponho uma promíscua
relação a dois e juro
sermos tão multiplicados
nosso encontro tão fictício
que bastamos prum animado
sexo grupal vitalício.
quantos vivem em você?
com quem posso me entender?

 

 

 
***

 

 

 

meu canto pras paredes

 
o preconceito é uma parede enorme
contra a qual desde sempre me empurraram
mas se tentaram e não me executaram
é que aprendi bem cedo que não dorme
o apontado: preto bicha pobre
no paredão cresceu e ficou forte
em que pese a dor que o véu da morte
bem do seu lado alguns amigos cobre
e é por eles que não me vitimo
nem quero mais derrubar a parede
apenas canto para além de um íntimo
desejo: reforçar rizoma e rede
cheia de nós, que não estou só, sou vivo.
picho a parede: verso afirmativo.

 

 

 

***

 

 

 
e viva à liberdade de opressão
na terra onde quem tem muitos direitos
exerce o seu direito à opinião
de ser melhor que quem não tem direitos
porque direitos há, não pra insolentes,
aqueles que reclamam sem saber
que nesta terra os bons e os inocentes
são assim definidos ao nascer
e quem nasceu no meio de pessoas,
que são consideradas de segunda
classe, tem chances de viver de boa:
falar a língua deles ou da bunda
viver mexendo pra escapar do abate.
entre a guerrilha e a festa, deu empate.

 

 

 
***

 

 

 

se queimamos
(soneto alexsandrino e vândalo)

 
se queimamos neurônios fazendo poesia
em manifestação, em protesto, em-progresso,
deitado em rede em casa no sofá congresso
no altar no chão da praça, bar, tabacaria
sim queimamos neurônios fazendo poesia
ganhaperdemos tempo bloqueando o acesso
ao projeto do decréscimo do ingresso
do contingente em excesso à perolaria
porque escrever é contra porque escrever é incerto
porque o poema só existe em um livro aberto
e não há nada que cale a boca do poeta
não há juiz que dê um outro veredito
se o poeta-réu deixou em seus escritos
um pouco de sangue ou Pandora, na boceta.

 

 

 
***

 

 

 

bursite, tradição e tá lento, o individual

 
doem-me os ombros, tantos são os pesos.
línguas mortas e vivas misturadas,
a plêiade no peito embaralhada,
os esquecidos como contrapeso.
mil vozes confundidas no desejo
de ter consigo a minha entrelaçada
e o medo de parar na encruzilhada,
entre rimas ideias e solfejos.
a folha em branco amarelada está.
há sempre um risco de perder-se, há
sempre um mesmo fantasma em breve assomo.
o mundo derretendo-se em milênios:
poetas trôpegos, prestos boêmios,
eu e você cantando velhos nomos.

 

 

 

***

 

 

 

sóbria declaração

 
não me inspiras vãos clichês caducos,
versos de amor com intenções de morte,
linhas inúteis mas com tom de porte
palavras tolas para o amor de eunucos.
não me inspiras mais do que tu és
e és o que vejo, nada mais que isto,
sou o que quiseres e por ter-te visto
lanço-me a ti, mas não te beijo os pés.
é que no amor não me contenta a espera
nem mesmo a dor inútil de não ter.
prendo-me à vida, não curto quimeras,
dou-me por partes, se tiver prazer.
neste soneto que a ti dedico
peço que leias o que não, escrito.

 

 

 

 

***

 

 

 
à literatura em si

 
este soneto não quer ser a obra
de um autor desesperado e circunspecto
que produz aos magotes poemetos
para neles caber o que foi sobra
de outro poema que não se quis sobra
do nariz entalhado por Gepeto.
este soneto não é um soneto
e este quarteto não é do outro a dobra,
nem sexteto os tercetos em sequência
de rima interpolada, aqui cosendo
a virtuosa e vazia inexperiência
em um registro que vai, num crescendo,
da língua que se fala sem ciência
a um saber que se constrói: fazendo

 

 

 

***

 

 

 

os versos? esconderam-se no escuro.
portanto, sempre dizem mais, que eu saiba.
esperam decantar, para que caiba
a poesia nos corações duros.
palavras não significam somente
o que delas esperar. poemas
não são meras conjunções de monemas.
não os entendas, apenas os sente.
abre o coração mais que os ouvidos
e recebe a poesia com amor,
sem pressenti-la, deixa-a, por favor,
pronunciar-te o mal dos consumidos
e ainda os prazeres incontíveis.
e expurgarás a dor com que convives.

 

Alex Simões é poeta, tradutor e performer. Publicou “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). Tem participações em diversas revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Os poemas aqui publicados integram o livro “Contrassonetos: catados & via vândala”, lançado em 2015 pela Editora Mondrongo.