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107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

O Breve dicionário (poético) do boxe e a alegoria poética de Jorge Elias. Primeiras considerações.

Por Orlando Lopes

 

Capa Breve dicionário (poético) do boxe

 

Preâmbulo: a crítica ainda tem lugar nas lutas contemporâneas?

 

Arriscarei aqui algum juízo a respeito deste Breve dicionário, da poética que ele expressa e da autoria que ele passa a constituir com seu lançamento. Dado que a Poesia – a poesia mais legítima, a poesia autêntica – configura a singularidade de uma teia, de uma constelação de elementos estabelecida por princípios “estéticos”: autorais, composicionais, interpretativos etc., pareceu razoável e necessário o apoio da escrita para pesar, medir, arrazoar sobre o lugar do livro, talvez da obra. E é justa esta razão: como falar (e medir) a escrita, a não ser também pela escrita — esta forma mágica de decantação e progressão do pensamento que o cotidiano nos faz banalizar, mas que é capaz de nos permitir dimensionar ou, ao menos, intuir as potências que a linguagem tem, e que parecem tão distantes do cotidiano das pessoas.

Exercer a crítica não é uma prioridade para mim — que me entendo muito mais como teórico da Literatura que como crítico, historiador, analista etc. Exercer crítica envolve competências, disciplinas e rigores e, sobretudo, uma imperatividade, a disposição para impor um valor. Nesse sentido, direi desde já que não me colocarei a priori como crítico do Dicionário, mas como leitor e, exatamente, como teórico. Claro, não pretendo transformar esta fala num tratado, mas é importante notar que não pretendo afirmar a obra que Jorge Elias termina aqui de parir: pretendo, antes, aprender com ela, como pretenso cientista, como ser humano e como poeta.

Será uma breve nota para o universo de questões que sua poética aponta, mas para o momento acredito que servirá como estímulo e provocação aos futuros leitores. Conheço o Jorge Elias pessoalmente há pouco, mas nem é a fama que o precede, é o seu texto, a sua obra poética, e o seu trabalho, o exercício da Medicina, do qual sou de certo modo beneficiário pessoal, ainda que não (ufa!) direto. E pelo texto, pelo que ele codifica, pelo que ele expressa, acreditei desde a primeira leitura uma “assinatura”, uma autoria, aquilo que foucaltianamente podemos reconhecer como uma “função jurídica”, mas jurídica não no sentido de uma propriedade, uma posse ou mesmo um direito. Jurídica no sentido de uma seriedade, de um comprometimento, de um engajamento que se estende à Literatura, à Poesia, à Escrita.

Lendo seus textos antes de conhecê-lo pessoalmente, essa seriedade autoral me pareceu marcar tudo o que li. Isso não é em si e ainda uma qualidade da composição, do texto “em si” (aliás, o Inferno nunca pareceu estar tão cheio de boas intenções…), mas é um dado a ser considerado pela crítica contemporânea: de que adianta uma “bela letra” se ela não posiciona, se ela não argumenta, se ela não significa? Como no Boxe, o discurso e a realidade são construídos, são esculpidos a golpes e a contragolpes, por meio de hegemonias e de contra-hegemonias que se dão entre as “cordas” desse grande ringue simbólico que são as relações sociais, econômicas e culturais.

Jab, Jab, Direto, Direto, Cruzado, Jab, Clinch, Esquiva, Cruzado, Jab, Jab… Lutar é viver, viver é lutar. Discursar é lutar, lutar é discursar. Discursar é falar, é escrever, é agir. Viver é discursar. A realidade, a nossa realidade, é feita de narrativas, de movimentos, de lances. Lutamos – todos – contra um Inimigo (os Fundamentalistas não estão errados!), mas é difícil saber quem ou onde o Inimigo está: e portanto é difícil medir a força e a mira de nossos próprios movimentos, de nossos próprios lances. O bom boxer deve, antes de tudo, saber contra quem – ou contra o quê – está lutando. Do contrário, não se abolirá o acaso, haverá desgaste, desperdício, e tudo poderá deitar por terra: corremos o risco de ser nocauteados quando menos esperamos.

A poesia de Jorge Elias faz esse exercício, desde antes do Breve dicionário do boxe. Perceber, enquadrar, pinçar; perceber, enquadrar, pinçar… a si mesmo, o outro, a situação. Não racionalmente, não apenas racionalmente, mas buscando aquela polaridade mínima, a imagem, o sentido que faz o texto (no leitor) saltar para o estado de poesia. Esse é o movimento, a passagem crucial a que todo poeta almeja, mas que nem todo poema consegue manifestar: superar os significados e saltar para o sentido por meio do gesto estético, portar o sentido até os demais sujeitos que vivem a mesma história.

 É importante retornar à consideração de que a Poesia não luta apenas no território do poema, da fatura estética. Poesia não é apenas Poesia (ato criativo), ela é também Literatura (um modo de produção) – um laço, uma relação entre as pessoas (autoras, leitoras) no espaço de uma sociedade que se estabelece em torno de um Poema (um objeto de valor, um artefato). Criar nos pede uma luta, circular socialmente nos pede uma luta, significar nos pede uma luta. No mínimo.

A luta da escrita poética é rara entre nós, ainda que se encontrem uns bons tantos de poetas, cada vez mais. Eu sempre insisto com os alunos que venho-tendo a vida-inteira que a escrita não pode (não deve) ser desprezada, tanto porque é uma das formas mais baratas que existem de criação artística e autoterapia garantida, quanto porque ela é o instrumento mais básico de controle social, econômico e cultural que se possa conceber. Falo isso em princípio para tentar dar uma valorizada existencial, afinal a escrita dá essa possibilidade de nos mostrarmos antes de tudo a nós mesmos. Mas a escrita é trabalho, é competência, é responsabilidade. Se a gente não tiver o que dizer, a escrita não vale nada. Se a gente não fizer, não vai ter muita gente que faça (fechado que “todo mundo” está em sua própria carapaça).

O Dicionário de boxe de Jorge Elias traz à baila essa cena: um ringue, um espaço de disputas e seus elementos característicos alegorizados, potencializados pela metáfora. A metáfora decantada, depositada em composições curtas, procurando posições, ângulos, eixos, pesos e contrapesos, equilíbrios. Essa metáfora, ampliada, estende suas figuras para medirmos as nossas próprias lutas. Entremos no livro, calcemos aqueles poemas que melhor se ajustem aos nossos punhos. Usemos os poemas que conseguirmos. (Ouvi soar o gongo.)

Apreciação ao Breve dicionário (poético) do Boxe

Este mais recente livro do poeta Jorge Elias Neto segue confirmando uma obra importante para a vida literária no Espírito Santo (não direi “do Brasil”, que cada canto dele tem seus bons poetas, nós aqui é que temos que resolver melhor os nossos). Desde os Verdes Versos (Flor&Cultura, 2007) até o Breve dicionário (poético) do Boxe (Patuá, 2015), há uma poética se configurando, tomando forma, encontrando seus rumos. Enquadrá-la, encará-la, não é tarefa fácil, nem confortável. Mas, enfim, como se poderia aprender algo útil sobre o Boxe sem ao menos um olho roxo ou uma luxação?

A imagem do Boxe é forte, potente, e se impõe desde a capa elegante de Leonardo Mathias até as ilustrações de Felipe Stefani. Uma vez instalada a imagem do lutador, do ringue, passamos a aguardar o soar do gongo. A dedicatória e a epígrafe, como se fossem um fim de sonho e início de despertar, afloram de uma escuridão, de uma zona de inconsciência. Estamos entre a consciência do Homem e a consciência do Poeta, daquele que termina amanhã e daquele que só termina quando acabar o último Homem. O Boxe e a Poesia não se confundem. O Boxe é físico, intenso, corporal, evidente; a Poesia, enfraquecida, com “falta de musculatura”, talvez só possa dar conta de “florbelas”, de “futuros” que obviamente constituem distâncias, de “leituras escolares” que não precisam comprometer-se com “realidades”, de apagamentos, neutralizações, reduções, perversões etc.

A apresentação de Caê Guimarães, esse outro membro das tribos dos poetas e dos boxers, aponta para esse enquadramento que põe a “nobre arte” do Boxe em seu devido lugar, para nós, poetas e leitores de poesia. O poeta luta pela Poesia, para alcançar Poesia. Nota, edita, corta. Salta, oscila, desarma. Apara, espera, escora: erra e acerta. Chegamos ao livro, chegamos aos poemas, que são verbetes, que são referências ao universo do Boxe: o campo alegórico, a metáfora ampliada. Isto põe e afirma um primeiro traço na obra — ela é conscientemente metalinguística, aponta o reconhecimento de que se pode pensar a Poesia empregando as imagens associadas a uma luta, um esporte, um jogo.

A metalinguagem vem sendo relativizada e criticada na Poesia contemporânea, e é justo alertar aos poetas para que não exagerem no cultivo de seus espelhos e interesses mais imediatos e pessoais; mas é igualmente justo alertar aos críticos que sem a consciência e o exercício da metalinguagem fica mais difícil aos Poetas alcançar uma compreensão da linguagem como um fenômeno pleno. Se não se devem apresentar tantos poemas metalinguísticos em publicações de referência, essa já é uma questão crítica e editorial, não dos Poetas.

Em todo caso, a questão aqui é somente de reconhecer que a metalinguagem se instala desde a base da composição do Breve dicionário do Boxe. Antes de haver “Boxe”, há ali “metalinguagem”, a lente que permitirá a projeção dessa imagem, desse “topos” sobre outros planos, sobre outras situações, sobre outros contextos. E, enfim, há Boxe: uma luta que envolve uma disputa, e uma disputa que envolve um prêmio. Um prêmio que vale a pena, mas que varia na infinitude das projeções metafóricas que consigamos fazer. Quanto mais objetiva a luta, mais claro e óbvio será o prêmio. Quanto mais subjetiva, menos claro – para os demais sujeitos, para as demais pessoas.

Tudo estará certo, e tudo estará tranquilo, se o cálculo corresponder ao prêmio, e se os golpes acertarem o Opositor (seu nome não é “Inimigo”, não no Boxe). Mas não: existem lutas reais, simbólicas e imaginárias, e podemos lutá-las todas simultaneamente sem nem perceber. Aqui, no Dicionário, por exemplo, existe uma luta da Poesia, uma luta da Literatura e uma luta do Poema. Três boxes, três arenas, três disputas. E as três apontam, indiscutivelmente, para o domínio do humano, a dimensão do humano. O Dicionário fala do Boxe para poder falar do Homem. O Boxe é o Homem. Plano, Universo, Continente… Toda a intuição de uma Mitologia, de uma Filosofia se encontra aí, concentrada em figuras, em imagens.

Um homem em particular emerge, a figura de Éder Jofre, o elemento mais humano na condução do livro, quase um personagem, quase um protagonista. Mas, também, pedra-de-toque alegórico. Éder é Brasileiro, pensa como brasileiro, age como brasileiro (embora seja antes latino, argentino). Éder Jofre é mais que Éder Jofre: é o Brasil interpretando o Boxe, dançando o Boxe à sua maneira: de uma aparente simplicidade, cinco movimentos e coisa e tal, uma sucessão de movimentos evolui ponto a ponto, contraponto a contraponto. A questão, implícita, é que o boxe não se faz apenas no ângulo de quem golpeia: é preciso atingir algo que não quer ser atingido, que também quer nos atingir, é preciso gerar impacto, é preciso impor-se, é preciso opor-se. É preciso violência. Latinidad. E pensar em Poesia, em Literatura, em Poema como “espaços de violência” não costuma ser frequente em nossa cultura, em nossa tradição lírica.

Claro, a Literatura tem seus bons e variados exemplos de resistência e de contraposição aos beletrismos. A boa Poesia (certo, certo, definamos “boa Poesia”, mas em outro momento…) não deseja ser ornamento, ela deseja ocupar o pensamento, o sentimento, ganhar esse espaço, vencer essa disputa. Não se trata de oferecer o que o Leitor quer, mas aquilo que ele precisa, aquilo que nós precisamos para não deixarmos de ser humanos. É dessa violência que a boa Poesia trata: aquela que nos dá tapas, dá socos… apenas com imagens, com sequências de palavras, e isso não tem nada a ver com usar palavras agressivas ou cenas escatológicas: o horror pode não ser nada além de um imenso ringue vazio.

O ritmo do boxer não é o do Vale Tudo, nem do UFC. É o ritmo do jazz, do Cronópio, idealista, sensível e até ingênuo – posto que acredita piamente que seu(s) Opositor(es) seguirão fielmente as regras do jogo. Assim como o Boxe parece simples, o dicionário também. Mas o dicionário é apenas o conforto de uma linha mais ou menos reta, a ordem alfabética (que, aliás, não é seguida). Dentro dessas cordas, toda uma luta continua a acontecer, as palavras continuam tensionadas umas contra as outras, gerando imagens, tentando produzir sentidos. Se o dicionário convencional trabalha para ordenar “definições referenciais”, um “dicionário poético” pode operar em outro registro, e no caso deste livro parece haver uma sutil inclinação para o aforismo; um aforismo “fora dos padrões”, um aforismo que não adere por princípio a nenhuma moral já estabelecida, mas pela moral do acontecimento, da situação, da “luta”: essa que se arma no espaço do poema.

Sobre o Livro – o trabalho literário

 

Boa parte dos poemas se operam como haikais: descortinam espaços, definem imagens, configuram situações. Veja-se, por exemplo, a série encontrada entre as páginas 60 e 67 (“Knockdown”, “Knockout duplo”, “Knockout”, “Undefeated”, “Cartel”, “Challenger”, “Bruiser”), na qual as imagens-verbetes fazem a síntese tanto dos elementos do universo boxer quanto de uma perspectiva subjetiva – lírica – que fornece a moldura e o enquadramento, o ângulo e a perspectiva do que me arrisco a definir como “momentos plenos do Boxe” tal como eles se acomodam no Breve dicionário (poético)…

Não necessariamente, as situações manifestam ações. Elas estão lá, mas anguladas, estilizadas. Outro tanto tem contornos narrativos mais definidos. Alguns mais, arriscam-se ao limite do aforisma. No poema do “Prefácio”, como a apresentar as regras aos contendores que chegam, estabelece o poeta que é preciso “entender / o to be” (p. 21), o “(a) ser”, uma das formas ao mesmo tempo mais simples e mais complexas da nossa linhagem idiomática. É preciso entender o “ser” e o “estar”, é preciso entender o “agir” caso o Poeta — e agora o Leitor — queira “exprimir em versos o que / se cultua com punhos” (p. 21). É preciso invocar, evocar, com o auxílio dos oráculos digitais se houver interesse em falar com a urbe, a multidão, a massa humana (e aqui, portanto, não se dirigindo à Pólis, à civis) empregando pequenos artefatos, “poemas / lambe-lambe” que vão entremeando o Dicionário.

Assim o livro vai evoluindo. Os versos, simples jabs, diretos, cruzados, formam móbiles sutis. Assim, por exemplo, o minimal “Boxe” nos impele a considerar que arte é possível com “punhos cerrados” (p. 23), com punhos que tenham pouco ou nada nas mãos. O teto nos impele a considerar que potência, que vigência pode ter essa expressão tão limitada (somente o “punho”, somente a “letra”). Em “Pugilismo” (p. 25), nova constatação: para haver confronto é preciso haver resistência, oponência; para haver sentido, é preciso haver resistência, oponência, aderência, tensão, atrito.

Em outro segmento de poemas, os narrativos, encontramos cifras memoriais e históricas, remetendo ora à história do Boxe, ora à história de seus praticantes. No breve terceto “Luvas” (p. 26) e em “Regras”, que o sucede, temos um vislumbre do processo civilizatório da Inglaterra, berço do moderno Boxe: uma civilização em que a brutalidade não deixa de existir; antes, é estimulada e suavizada, absorvida, integrada na vida social. Se apurarmos os ouvidos, perceberemos em outros lugares sociais os ecos dessa civilidade que vai criando o hábito dos “tapas com luvas de pelica”, a diluição da brutalidade em códigos e etiquetas que por um lado as confina, mas que por outro as mascara nos espaços da vida social.

A alegoria, a metáfora do Boxe vai-se colorindo, encontrando e reencontrando formas e imagens, como a dos galos que se antepõem em “Ringue” (p. 32) e “Sparring (fazer luvas)”, o mítico alter-ego que se oculta em nossas sombras (p. 35) ou o Ouroboros que se oculta no “Corner” (p. 37). Aliás, até os “Rounds” (p. 38) ecoam algo mítico, a épica da batalha e da vitória (e da derrota). Assim o livro prossegue, destacando essa topologia também de forma metonímica, com a “Toalha, / gelo, / vaselina. // Massagem, estímulo, adrenalina” (“Segundos”, p. 53).

Em “Faltas” (p. 58), a metáfora volta a se ampliar como alegoria: o Boxe, entre as lutas, tem regras e limites claros, dentro dos quais “há que se responder / pelas faltas”. Essa constatação estabelece mais uma referência para compreender que lutas, que disputas cabem em seu domínio paralógico, associativo. O Boxe não é uma “luta livre”, ele é circunscrito a um espaço e a um tempo, é mediado por regras, é um “esporte de cavalheiros”, para ser bastante preciso e quase britânico. Só há Boxe quando há cavalheiros, quando há uma Corte e um juízo, quando se aceita que os fatos, os fatos da vida, envolvem as nuances do ganho, do acerto, do prêmio, mas também do erro, da impropriedade, da culpa, do dano, do dolo.

Caminhando para o seu término, o livro registra ainda uma espécie de painel histórico e impressionista, evocando personagens históricos e momentos de uma cronologia pessoalizada e que finalmente projeta os significados do Boxe sobre a ambiência brasileira, nos poemas “Brasil – 1913” (p. 68), “Goes Neto – 1919” (p. 69), “Club Canottiere Esperia” (p. 70), “Ditão – 1924” (p. 71), “Ginásio do Pacaembu – 1940”, “Boxe moderno – década de 50” (p. 74), “Época de ouro – década de 50”, quando reemerge para promover o encerramento com “Éder Jofre” (p. 77), “Servílio de Oliveira” (p. 78), “A obra – Éder Jofre” (p. 79) e “Poema para um pugilista” (82), no qual a alegoria  retorna (“O homem / traz um ringue / dentro de si”) e também o mito trágico que se expressa na obra de Jorge Elias: a do homem, a da humanidade que oscila entre cumprir seus destinos históricos – lutando as lutas verdadeiramente nobres – ou ceder às contingências da vida, aceitar a existência como hábitos e rotinas, no máximo exercícios, muitas vezes plenos e satisfatórios, mas ainda somente e apenas exercícios.

A impressão final que o livro deixa é de que ele dá continuidade ao processo, ao amadurecimento da poética de Jorge Elias. Ainda um exercício, ele aponta questões, revela elementos de estilo, apura uma sensibilidade. Nem todos os poemas alcançam a mesma potência de expressão, algo que talvez leve a alterações e revisões em eventuais futuras edições. Ao fim, e ao cabo, saímos do livro com o semblante entre o sério e o apreensivo, ruminando as imagens do Boxe e deixando-as como moldes, como espelhos singulares em que o leitor pode medir-se e assim, quem sabe, entender-se igualmente como um lutador.

 

Orlando Lopes é poeta, ativista cultural e professor do curso de Letras da Ufes. Publicou Hardcore Blues (1993) e Occidentia (2007). Mantém o blog poético Occidentia.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Kátia Borges

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

Escorpião amarelo

 

E, então, eu seguro o pequeno animal peçonhento entre os dedos como se ele fosse um tesouro. Um único escorpião amarelo pode gerar até 40 outros. E sem necessidade de macho. Duas crias em um ano, 20 filhotes em cada cria. Uma espécie formada apenas por fêmeas, na qual os óvulos se desenvolvem sem fecundação. De repente, eu deixo o bicho cair no chão e outros escorpiões saem rapidamente dos esconderijos. Estão famintos, devoram-se uns aos outros. Acendo um cigarro e fico observando. Tanto veneno, meu Deus! Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com os amigos e faz amor duas vezes por semana com o marido. Olhem meus braços. Não há sinal de ferroadas. A cada manhã, escapo inteira do mesmo sonho. Mas não contei o sonho inteiro. Há nele “uma ternura venenosa de tão funda”. E o medo. O medo que sinto de mim mesma. A visão que tenho de meus filhos mortos. A sensação em que me afundo ao olhar o céu. E o desabar de uma chuva que parece varrer o mundo. E que não cessa até que ela surja. Turva. Primeiro, vem bem menina e me puxa pela mão para ver o mar. Depois, quase adulta, tenta me afogar para que eu não diga nada sobre o que sinto. E, no entanto, sempre fomos cúmplices numa forma indescritível de sentimento. E até nessa falta de dor, espécie de anestesia que dura desde o casamento. Olho a minha casa, cheirando a pinho, e acho tudo muito bom. Como se a família fosse um esconderijo. Ninguém pode me ferir aqui no Caminho das Árvores. E, nas copas, avisto as damas que se assumem. Passam por mim no mercado, de mãos dadas, cheirando as frutas, mastigando as uvas, sujas, o sumo escorrendo da boca. Imagino que coisas fazem juntas e viro o rosto. Reviro os olhos. Sozinha na cama. O marido em viagem de negócios. Os filhos dormindo. E sonho de novo e de novo com os escorpiões amarelos. Mas nem sempre foi assim. Confesso. Eu também já fui suja de desejos. Quando ela vinha e apertava a minha pele entre seus dedos. Como se colocasse a mão entre as fendas de uma árvore. Eu a podia sentir em minha dor como carícia. E mordia os lábios, rindo por dentro, louca por arranhões, tapas e empurrões. Qualquer contato, por mais absurdo, entre meu corpo e o dela. Misto de camareira e inocente útil, eu cuidava de pentear-lhe os cabelos, outro pretexto, e de vigiar seus pretendentes de perto, levando e trazendo bilhetes. É este? Não. É este? Não. É este? E foi assim que conheci o homem que me faria pensar em casamento. Não por amor, infelizmente. Mas em agonia de morte, veneno inoculado no peito. Casei com ele só porque ela o queria. E ele a mim. Desde sempre. E ainda ardo na nossa última noite. Falei, enfim, sobre sonhos e pesadelos e escorpiões. O vestido de noiva sobre a cama, os convidados no andar de baixo, num misto de alegria e confusão. E tudo que lembro é a sensação da água, que subia, encharcando meus tornozelos e, logo, entrando pela boca e enchendo os pulmões. Até que já não podia dizer nada. E o sentimento em torno de mim era um oceano inacreditavelmente solitário e sombrio. Todo o resto foi puro exercício de existir. Vestir a roupa branca, percorrer a nave central da igreja, dizer sim. E, dentro dos anos, procriar, criar herdeiros da vergonha para deixar entregues ao mundo, ao grande mundo. Ouçam. O amor é armadilha. É sonho. Ou nada, nada mesmo. Os escorpiões sobreviveram a muitos cataclismos, mas não venceram. Vejam como ainda se escondem e usam o veneno. Pobres criaturas seculares. Tão venenosas quanto indefesas… Outro domingo. E deixo que tudo desapareça, engolido pela segunda-feira. Há um revólver guardado na gaveta direita da cômoda. E a carta que ela mandou antes de atirar. Sei que estou acordada, que estive acordada todo o tempo, e agora sinto o animal peçonhento subindo pelas pernas. Nenhum medo. Quase gozo. Ao sentir o ferrão penetrar a minha pele e destruir-me os nervos.

 

 

 

***

 

 

 

Madrugada do dia dos mortos 

 

Perto da meia noite, veio do nada e deu um chute na porta da casa frágil. Escutei a pancada e cobri a cabeça. Sabia quem era e o que viria em seguida. Chuva de tiros. Fiquei quieto, golfos ensopando o tecido. Morto? Talvez. Quando fez silêncio, arrastei o que restara de mim para fora. “Polícia é assim, não livra a cara da gente nem no Ano Novo”. O homem me puxou pelos braços e foi me empurrando para baixo até me esconder inteiro sob a cama. Vi uma mancha de sangue, uma rolha de champanhe no assoalho, a queda de um projétil. No céu, saraivada de fogos. No dia primeiro, o primeiro de todo o resto, finalmente conferi meu corpo. Intacto. Trêmulo. Pele e ossos.

 

 

 

***

 

 

 

Sui Caedere 

 

E traziam nos pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio. Um passado com o qual cada uma tratara de lidar muito a seu modo. A mais jovem, feito gato persa, desgarrara de tudo suas longas unhas. E vivia a correr mundo, ousando aviar receitas e abrir os corpos dos outros. Sempre a dar e consumir placebos. A outra arrumou um marido, cão de íntimos, e pariu duas crianças que trazia cativas em sua casa de cerca branca e varanda. Entretida em deixar impecáveis as roupas, e não queimar ou azedar o almoço, e estar magra para caber na cama e nos vestidos. Até que se viram, um dia, sem alvoroço. E notaram que traziam em seus pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio.

 

 

 

***

 

 

 

O céu da boca

 

Os dentes do meu pai, envolvidos em um guardanapo, roçavam as pontas dos meus dedos sempre que enfiava, esquecido, a mão no bolso. Estava no centro, atrás de um protético que desse jeito na parte superior da dentadura. Fazer uma nova custaria dez vezes mais, mas esse nem era o problema. A questão é que, aos 90, o velho já não conseguiria passar pelo processo de adaptação da boca à prótese sem me enlouquecer completamente. Então, genial como sempre, tive a ideia de encontrar um profissional capaz de restaurar a arcada, reconstituindo a porcelana que eu havia quebrado acidentalmente logo que fiquei responsável pela escovação diária.

Não que eu fosse descuidado com as coisas do velho, entenda. De início, no entanto, confesso que olhava bem pouco o objeto em minhas mãos, limitando-me a fazer movimentos circulares com a escova ensopada em dentifrício, como havia lido em um anúncio de creme dental. Isso, somado à distração habitual, permitiu que a chapa escorregasse algumas vezes na pia do banheiro, danificando a ponta dos incisivos lateral e central. Não eram danos muito visíveis mesmo para quem olhasse meu pai bem de perto. Em nossa família, todos têm bocas pequenas e lábios finos, e a verdade é que ele sorria cada vez menos.

Mas, os danos nas pontas dos incisivos lateral e central, embora pouco visíveis, dificultavam a mastigação, e o desconforto do meu pai era suficiente para justificar a heróica travessia da cidade no inverno. Salvador ao Sol é uma Aldeia Potemkin. Engana britânicos, franceses e prussianos. Sob a chuva, no entanto, todas as suas estruturas parecem se desfazer em papelão. Saltando poças de lama, pulando entre as marquises dos prédios de outro século, eu caçava abrigo da água, movendo com desajeito o corpo magro, projeto inacabado de Shigeru Ban, à cata do consultório de um tal Heráclito Hernandes. Rua Chile, 190.

Ainda há pouco, no táxi que me levara aos solavancos do bairro nobre à parte antiga, comentara com o motorista o fato de o nome do protético ser Heráclito. “O obscuro”, me disse o homem ao volante, como se soubesse um bocado sobre filosofia e dialética. Eu só conhecia o Panta Rei e me inquietava a ideia de que tudo muda e a metáfora das águas e dos rios. Estivera a vida toda obstinado na construção de pontes, pontos fixos de observação e travessia. Tudo sem molhar os pés. “Mas, esta nobre arquitetura demanda grande conhecimento”, ouvi ao descer do carro. Isso eu sei. Demanda pilares e arcos muito sólidos e pedras e madeira de boa qualidade e metal e concreto e partes que são montadas aos poucos como num quebra-cabeça.

Há ainda pontes suspensas, mas isso eu não disse ao taxista. Pontes suspensas que são erguidas bem alto por cabos de aço. Toda vida, meu caro condutor, é apenas técnica.  Tudo demanda grande conhecimento, pensei, já entrando na viela estreita que dá acesso a Avenida Sete de Setembro. Mesmo o mais simples objeto, veja bem. Mesmo a dentadura danificada em meu bolso. Mesmo eu, o nobre, o filho generoso, o herói do velho, hoje frágil, incapaz de limpar os próprios dentes. Pouco restara do homem que conheci forte e macho a me ensinar a ser. A encher de sabão a minha boca para lavar com violência palavrões, nicotina e esperma.  A vida nos moldou, os dois, a foice, como sói acontecer a toda gente. Se há um consolo, este é ser como todos.

Maldita seja a diferença, dizia meu pai em seus ensinamentos sem o dizer. Seja honesto com os honestos e valente com os valentes. Nunca seja apanhado, faça o que fizer. Aos poucos, todas as lições seguiram para o ralo e ele parecia saber. Aquele moço magro e molhado que carregava seus dentes no bolso pelas ruas do centro em busca do consultório do protético era, sobretudo, um fraco. Sim, um fraco. Por mais que em mim ainda residisse a pouca força do velho e sua dinâmica viesse do apoio dos meus braços. Quis o destino que coubesse ao filho maricas cuidar de suas escaras, trocar as fraldas, levar ao banho,  limpar as fezes. Agora, concentre-se, pedi a mim mesmo, devidamente perdido em meio à chuva. Onde, nesta avenida, entro para a Rua Chile?

Apenas siga adiante, disse uma senhora meio curva. E eu segui. Incerto, pelo caminho conhecido desde a infância. Subitamente alterado, tonto. Em algum ponto, na altura do Relógio de São Pedro, senti que algo havia se partido, uma fenda no tempo, e todas as coisas do mundo, como no Aleph de Borges, pareciam espreitar sorrindo. Olhei seus dentes como se examinasse a boca de um animal antes de submetê-lo a grande esforço. E, nela, na boca do centro, enxergasse o escuro formado pelo palato. O céu. Algo apertava meu coração, como se uma grande mão, a grande mão do sofrimento, estalasse todos os seus dedos no céu de chumbo e, ao redor do meu peito, voltasse então a contraí-los. Eu precisava ir, localizar o endereço, achar o protético. Imaginei meu pai, perdido em mutismo e desespero, e me agarrei à expressão murcha de seu rosto por alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos…

 

Kátia Borges é escritora, jornalista, mestre e doutoranda em literatura e cultura pela Ufba e professora. É autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012) e São Selvagem (P55, 2014). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013) e traduzidos para o francês, espanhol, inglês e alemão.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Fernando Naporano

 

deborahdornellasum
Desenho: Deborah Dornellas

 

Sem Os Limites Do Círculo Terrestre

 
Juntos sabemos a cor do silêncio de Deus
que Nerval nos trouxe em ouro fervente

Respiramos em azul incerto-aberto
o odor da claridade ágil,
em passos muito rápidos,
arremessando clareiras na mata

Seu sono em essências de rocha
ao meu chamado respondendo
com rosto de margarida-sem-fim
contrário ao pó de todos os conteúdos

À minha despedida, um lacinho de ternura
acalenta o prazer em ver-te no metal do sonho

 

 

 
***

 

 

 

Luz. Speedball.

 

quisera mais e mais a introspecção da montanha branca

lá donde as coisas diminuem…………………….diminuem
os silêncios mudos não mais que claras………passagens
a vida estremece…………………..é uma recusa a respirar
ao perfil das feridas…………………………….sem pranto

Da sede branca………………..outra sede branca

a alma aberta……………………..sem dificuldade
o corpo é pequeno……  .a dimensão transitória
sobremaneira…………………………é o incêndio
o músculo………..(!!!)………………..no deserto

deslumbrante…………serenidade branca íntima
tudo é claro……completo, o espelho acende-se
nenhum reflexo escapa
nenhum reflexo….arde

 

 

 
***

 

 

 
As sujas maçanetas da razão
finalmente estavam todas avariadas

As tempestades reclináveis do espírito
eram a varanda da grande festa da solidão

 

 

 

***

 

 

 

Dai-me, oh horizonte-em-dardos, o crepúsculo brancovioláceo
ou a maré das luzes libertas.
Não permita-me contemplar o céu azul-claríssimo
que se agarra, sem sutilezas ou tempestades, nas pro—-
——-fundidades do Vazio.

Dai-me, leito escuro do alto, algo além do lodo de vidro
da estrela que não veio.
Não proiba-me de inundar-me no mecanismo das lágrimas,
sem pressa nas roldanas, tisanas da dor,
na claridade de teus olhos que cegam para O Sempre.

 

 

 

***

 

 

 
Uma espécie cobalto de amargura
vaza-me as entranhas
nas valas do sol a se por
no extremo desolado do Tejo

Ainda há luz
nas janelas
des
pe
da
ç
adas
da alma
. algum resquício de cor,
ardor do suplício
em melros trucidados nos campos da memória.

 

Fernando Naporano cursou Letras em São Paulo e Lisboa, mas sempre atuou como jornalista, radialista, label manager e músico. Gravou três Lps com sua banda Maria Angélica Não Mora Mais Aqui.  Entre seus principais livros inéditos de poesia estão “Abandono Devolvido”, “Estrelas De Gin”,”Uma Lâmpada Entre Os Lábios” e “Nas Colinas De Valdemossa Com O Fantasma De George Sand”. Tem um anti-romance – também inédito- chamado “Não Era Uma Loira Era Um Garrafa De Cidra”.
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107ª Leva - 01/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

O escritor visita o museu da memória. Transita, a princípio, por um corredor de paredes nuas e escuras. Segue um mapa involuntário, aquele que condiciona um caminho, ainda que não exista seta ou placa referencial. Vai a passos firmes, até que se depara com a entrada de uma sala. O escritor estaciona na soleira e vasculha o interior aparentemente vazio, tomado pela mesma textura de desclaridade que cobre os limites exteriores. Reluta, mas decide entrar. Palmeia no ar a distância à frente, imitando um cego, um perdido.

De repente, um facho de luz perfura o breu e projeta, no concreto liso, uma imagem que dá partida a uma sucessão de velhas fotos, retratos em branco e preto. Cenas de outros tempos que irradiam uma familiaridade, um pertencimento latente, sobretudo porque o escritor em estágios preliminares da vida figura em inúmeras delas. Superado o espanto, o escritor se aproveita dos intervalos do flash para divisar uma saída. Junto à porta, há uma caixa de madeira, semelhante a uma caixa de sugestões, com um bilhete ao lado que demanda que o escritor reconte aquela história, a sua história, e a deposite no receptáculo. Ele pondera, mas percebe que qualquer tentativa irá resultar em fracasso, pois as imagens não dispõem de uma integridade sequencial, de uma cola entre si. O escritor irá fracassar, pois toda incursão pela memória é falha.

O escritor Julián Fuks escreve o fracasso, a impossibilidade de recontar a memória. Seu romance recente, “A resistência”, intenta examinar o próprio enredo familiar, a partir da reconciliação com a infância, com o fato de ter um irmão adotivo. Filho de intelectuais argentinos, que nos anos 80 se exilaram no Brasil por conta da perseguição política do regime militar, o autor paulista cria uma duplicidade ao se colocar como agente de duas épocas, narrando e, ao mesmo tempo, participando de um drama que é um eco da história devassada de um país, dos atos de combate à repressão e dos choros incontidos dos que procuram incansavelmente seus desaparecidos.

Esses deslocamentos entre o passado e o presente encontram sintonia na subjetividade, no esforço de resgatar, no movediço da consciência, um rastro de sentimentos que possa atestar que se avance pelo terreno da verdade e não pelo da invenção, que a verdade, ao menos, prevaleça na maior parte. Não é tarefa das mais simples, todavia, pois a memória é também um segredo guardado no mais fundo, uma sala escura que, iluminada espasmodicamente, dará conta de que observar este irmão é também observar a si mesmo, é desvendar os motivos que levaram um jovem, ao se saber adotado, decidir se subverter à lógica da família que o criou, como aqueles que o criaram se subverteram anteriormente à lógica do regime ditatorial.

Da conversão da matéria autobiográfica para matéria literária, Fuks constrói um relato labiríntico, consubstanciado por um rigor com a linguagem, a descoberta de uma prosa potente e delicada, que impacta e comove ao arrastar o leitor para essa busca, esse acerto de conta com uma dúvida, proporcionando um encontro com a literatura superior que captura um espírito do tempo, que compõe uma obra-prima da nossa geração.

Em entrevista exclusiva, Fuks fala sobre o ponto de partida e a construção do romance, a relação entre ficção e realidade, e o processo de lapidação da linguagem, que classifica como “quase obsessivo”. Além disso, o escritor comenta o abismo entre a produção brasileira e a de outros países latino-americanos, o depauperamento da crítica literária, a extinção dos cadernos culturais e o desafio de ser escritor no Brasil. “A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente vão demarcando uma mudança, vão produzindo as condições para que ele continue escrevendo e de fato seja lido”, observa.

Foto: Fernanda Sucupira
Julián Fuks / Foto: Fernanda Sucupira

DA – Seu novo romance tem endereço num território muito frequentado atualmente pelos escritores brasileiros, que é o da autoficção. Porém, como o mesmo denuncia a certa altura, toda memória está suscetível à falha. Sendo assim, o quanto de liberdade inventiva coube na realidade trazida para “A resistência”? Revisar o passado é converter inescapavelmente o relato memorialista em ficção?

JULIÁN FUKS – De fato, enquanto escrevia o livro me via nessa estranha situação que têm vivido muitos dos escritores contemporâneos, me via apegado à realidade, incapaz de tomar distância, infenso à invenção. Há quem encare o fenômeno como uma opção oportunista, mercadológica, uma estratégia escusa dos escritores para atrair o interesse do leitor. Para mim está cada vez mais claro que é uma questão de sensibilidade, uma sensibilidade do tempo, uma certa predisposição a buscar o que há de relevante e verdadeiro nas circunstâncias reais. Em certa medida é um retorno do romance às suas origens, uma busca mais literal da vida comum, da cotidianidade – sem que seja permitido, porém, um retorno àquela crença na representação, àquela ingenuidade.

E está cada vez mais claro, também, que a busca pelo real não exclui em nada a ficção, que a ficção se dá muito mais na seleção dos fatos e em suas interpretações, na construção arbitrária das frases, no transporte sempre falho da memória ao papel. Não vou ser o primeiro a dizer que realidade e ficção não são polos opostos. “Falso”, “inventado”, “falacioso”, esses podem ser antônimos de “real”. Ficcional e real não são antônimos, travam uma relação muito mais íntima do que essa que se quer alegar.

DA – Falando em relação mais íntima, você relata que o livro é sobre seu irmão, mas também sobre seus pais. Inclusive que, durante o processo de composição, seu pai considerou lhe encaminhar um documento que trazia o nome dele relacionado à Operação Condor. O que acaba parecendo que a decisão de escrever o livro, de alguma forma, foi coletiva. Você tinha em mãos o poder de revelar uma história não sua, que, durante anos, por razões de segurança, foi mantida sob sombras. Até que ponto você se permitiu tatear nesse universo impessoal? Quais cuidados tomou no escavar desse terreno denso e movediço da memória alheia?

JULIÁN FUKS – Bom, o livro nasceu a partir de um pedido do meu irmão, se valeu de uma série de relatos íntimos que a memória não apagou, se desenvolveu em inúmeras conversas com meus pais e minha irmã, conversas que eu fui incorporando à narrativa. Nesse sentido, já de partida, se trata sem dúvida de uma construção coletiva; uns quantos discursos confluem ali para contar a história dessa família. Mas é uma construção coletiva também por um motivo mais amplo. Tratando dos temas que trato no livro, a repressão da ditadura, a militância, o exílio, é impossível não passar por uma infinidade de testemunhos há muito escritos, de relatos reais ou ficcionais sobre esse passado sombrio do nosso continente. Ao escrever essa história, por vezes sentia que entrava num espaço densamente habitado, me somava a algo que é quase uma tradição na literatura argentina, algo que poderia ter se tornado tradição na literatura brasileira se soubéssemos trabalhar melhor nossa memória política. Percorrendo um espaço já tão percorrido, acho que o cuidado maior estava em alcançar uma pertinência, em encontrar a sensibilidade necessária para abordar esses temas delicados e ao mesmo tempo narrar a história com força e contundência.

DA – Você acabou adiantando uma discussão que deixaria mais para frente, porém não posso perder o momento oportuno. Sempre me incomodou o fato de não lidarmos com a memória política, como bem fazem nossos vizinhos continentais. Sobretudo na literatura de ficção. Temos estupendos registros paginados sobre o período ditatorial; biografias, coletâneas de ensaios, trabalhos de pesquisa e jornalísticos. Entretanto a ficção, para usar um trecho extraído do seu livro, mostra-se refém “de um pudor antigo adiando cada frase”. A que motivo você atribui esse desinteresse? Por que os autores que nasceram ou foram crianças nos anos de chumbo dificilmente conseguem olhar sobre os ombros e encontrar bons personagens, boas histórias?

JULIÁN FUKS – Acho que a dificuldade não se reduz à literatura, não sei se compartilho dessa premissa. Em inúmeros âmbitos o Brasil tem resistido a encarar de frente a dureza de sua história, a compreender o jogo de forças que levou ao descalabro, a reconhecer as vítimas sem de novo culpabilizá-las, a atribuir devidamente as responsabilidades. Há de fato um pudor antigo adiando cada frase, e o pudor nesse caso tem um nome preciso: é o pudor da anistia. A anistia “ampla, geral e irrestrita” tinha seu sentido na época, permitiu que muitos voltassem do exílio, mas acabou definindo no país uma cultura de esquecimento, de ignorância, de impunidade, de incapacidade de lidar com esses traumas antigos. A historiografia faz o que pode, o cinema faz o que pode, a literatura faz o que pode, mas nenhuma dessas atividades consegue preencher esse vácuo de justiça. Há um movimento recente de lidar com essa história, a Comissão da Verdade foi um produto importante desse movimento, mas é claro que não é suficiente – a anistia não foi revogada, afinal, e isso tem um peso simbólico terrível. Na literatura também há uma nova atenção a esses temas, que se dá também pelo embaralhamento entre realidade e ficção: Bernardo Kucinksi, por exemplo, tem feito um trabalho forte e importante que vai nessa direção.

DA – Fato. Escrevi, há algum tempo, que “K.” foi uma das experiências mais potentes que a literatura me proporcionou. E os contos de “Você vai voltar pra mim” não ficam para trás. Agora jogando luz ainda sobre um trecho da sua resposta anterior, é muito evidente, diria até palpável, o trabalho de busca por uma sensibilidade que proporcione uma leitura de força e de contundência. Na verdade, essa é uma técnica pulsante em seu livro anterior, “Procura do romance”, aplicada também em “A resistência”. Você diria que a sua literatura tem uma preocupação maior com a forma que com o conteúdo? Há um exercício incansável de lapidar as frases?

JULIÁN FUKS – A oposição entre forma e conteúdo é mais uma falácia que nosso tempo, afortunadamente, tem conseguido derrubar. Não sinto que o enredo tenha uma função menor nos meus livros, e neste em particular há uma história forte que eu me obrigo a atravessar, uma história que, ao menos para mim, está carregada de intensidade. O caso é que, muito mais do que as cenas aventurescas e grandiloquentes, me agradam os momentos íntimos, a delicadeza das imagens corriqueiras, o que há de expressivo na aparente banalidade, e assim o enredo parece se desmanchar, ou se dispersar na multiplicidade de cenas menores. Mas, sim, para chegar ao cerne da sua pergunta, por vezes me sinto tomado por um cuidado quase obsessivo em encontrar a palavra exata – como se existisse essa única palavra que completasse a frase exata, o parágrafo exato. Tenho me preocupado cada vez mais com elementos de ritmo e sonoridade, com certa musicalidade do texto, e é inevitável que esse exercício transforme a própria história – ou então que a própria história se transforme, até certo ponto, na história desse exercício.

Fotos do autor Julián Fuks, Companhia das Letras, São Paulo, Agosto de 2015
Julián Fuks / Foto: Renato Parada

DA – Curioso você falar em musicalidade, pois há passagens – e destaco aqui a presença/ausência da Marta Brea -, em que a intimidade do relato ressoa feito um réquiem. É assombrosamente lindo. Mas voltando à construção do livro, você resgata constantemente recortes históricos que se aliam e, às vezes, se sobrepõem ao relato memorialista. O mais recorrente, talvez, seja a menção ao grupo Avós da Praça de Maio, cuja determinação na procura pelos bebês sequestrados e desaparecidos durante a ditadura argentina foi contada no documentário “500”, de Alexandre Valenti. Houve um trabalho de pesquisa para recriar essa época na qual se passa a história? Chegou a recorrer a livros, reportagens ou filmes?

JULIÁN FUKS – Acho que esse assunto sempre esteve no meu campo de interesses, por razões afetivas ou biográficas, sempre ouvi com muita atenção tudo o que se dizia sobre aquele país, aquela cidade, aquele tempo, talvez por sentir que minha identidade passava necessariamente por lá. Mas é claro que, quando decidi escrever sobre esse passado, procurei fazer uma imersão mais sistemática no tema da ditadura militar, da tortura e dos desaparecimentos, dos traumas históricos que reverberam inevitavelmente de uma geração a outra. Li muitos dos jovens autores que hoje têm escrito sobre o que viveram seus pais, no que vem sendo chamado, talvez de forma inadequada, de pós-memória: Alejandro Zambra, Andrés Neuman, Laura Alcoba, Patricio Pron. Em todos eles se vê – e talvez em meu livro também seja assim – uma tentativa de reconstrução da história que não se dá através da reconstituição precisa, de uma austera e jornalística averiguação factual, mas sim de uma investigação muito mais íntima, uma exploração do microcosmo da família, de seus relatos inauditos, um périplo pelos caminhos tortuosos da memória, alheia ou própria.

DA – É bacana como suas respostas vão antecipando questões que eu tinha reservado para o nosso papo. Ao mencionar a tendência da pós-memória, você acaba me sugerindo a ideia de que toda tradução de um livro é, de certa forma, uma pós-publicação. No caso do Brasil, essa condição é muito adequada, dado o longo tempo que muitos autores estrangeiros levam para despertar o interesse de nossas editoras, vide os exemplos recentes de Copi e Juan Emar. Por outro lado, vem ocorrendo um interesse espontâneo por jovens autores de língua hispano-americana. Você citou alguns, mas, para ficarmos com os argentinos, elenco Samanta Schweblin, Selva Almada, Diego Vecchio e o próprio Andrés Neuman. No entanto, o movimento contrário não é tão venturoso. Ainda há, digamos, um desinteresse pela nova literatura brasileira nos países sul-americanos. Com a vivência que traz da Argentina, por que imagina que isso aconteça?

JULIÁN FUKS – Sempre houve um abismo entre a nossa produção literária e a de outros países latino-americanos, não tanto pela diferença de idioma, mas pelo que ela simboliza: a noção de que temos aqui um mundo à parte, um “país continental”, diverso, indevassável, incompreensível, descolado de toda a realidade circundante. E, no entanto, basta observar os processos históricos dessas nações vizinhas, atentar para as estranhas sincronias que se criam tanto em cultura como em política, para perceber quanto esse abismo é ilusório, quanto ganharíamos se o transpuséssemos de vez, urgentemente. Algo desse movimento temos feito, uma parte importante da literatura latino-americana é bem conhecida aqui. O movimento correspondente é que apenas se inicia: a Argentina, por exemplo, ainda tem que conhecer melhor inclusive os nossos clássicos, Machado, Guimarães, Clarice, Graciliano.

Quanto à literatura contemporânea, a literatura deste novo século, talvez haja uma razão a mais para essa dificuldade de reconhecimento no exterior. Percebo uma dificuldade grande também em nós mesmos de reconhecer o valor dos nossos próprios autores, de mensurar obras importantes, estimar trajetórias consistentes, construir, enfim, um novo cânone. Penso que hoje a crise está muito mais na crítica do que na produção literária: a crítica que se submete às veleidades do mercado, que só dá atenção aos lançamentos novíssimos, que a cada ano substitui seus objetos cativos por aqueles que reluzem mais forte nas estantes.

DA – Parte da sua resposta me deu uma deixa para um assunto que gerou um tanto de polêmica na época, porém não posso perder a chance. Dentro desse contexto de reconhecer o valor dos novos autores, tivemos a eleição da revista Granta dos melhores jovens escritores brasileiros como um marco, na falta de um termo melhor. Foram vinte autores, dentre os quais você. Como recebeu essa escolha e encarou as controvérsias? E, mais importante, qual o peso que isso teve para a sua carreira literária?

JULIÁN FUKS – Foram debates intensos os que se produziram na época, e hoje suspeito que o valor maior daquela edição da Granta foi ter suscitado essa polêmica: ao menos assim a literatura jovem brasileira se pôs em questão, se fez objeto de um debate vivo. Ainda que as críticas tenham sido, por vezes, irascíveis demais, diante de algo que não era tão relevante assim, não deixaram de ter sua justiça. Foi um momento importante para denunciar a manutenção de alguns privilégios, a atenção excessiva aos homens, aos brancos, aos héteros, aos habitantes dos grandes centros urbanos, quase todos representantes de uma mesma literatura que se quer séria e cosmopolita. Sim, eu participo desse grupo, mas não é com cinismo que o digo: já passa da hora de abrir os olhos para outras literaturas, de compreender a riqueza que há na diversidade, na multiplicidade, nos projetos que fogem a essa hegemonia. Quando falo da necessidade de construir um cânone contemporâneo, é claro que não é com a repetição dos erros do passado, com a reprodução desse olhar míope e distorcido.

Quanto ao peso que a Granta pôde ter na minha carreira, é algo muito difícil de mensurar. A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente vão demarcando uma mudança, vão produzindo as condições para que ele continue escrevendo e de fato seja lido. Acho que a Granta não se diferenciou muito disso, foi mais um desses acontecimentos.

DA – Justamente essa diversidade não seria um dos motivos – ou o mais latente deles – para que seja hoje tão difícil concentrar essa gama de novas vozes? E trago a lume aqui um debate mais profundo, que inclui a democratização da literatura, com o advento dos blogs e demais plataformas, com o surgimento e a consolidação das pequenas e médias editoras. A questão não seria a facilidade de se publicar também? Temos atualmente tantos autores, produzindo tipos tão distintos de literatura, que me parece um momento de transição o que vivemos agora. Que estamos em meio a uma enxurrada que, apenas após alguns anos, talvez décadas, poderemos discernir o que era apenas fluxo e o que era matéria. Isso, para dizer a verdade, me preocupa sobremaneira em alguns aspectos. O primeiro é não termos leitores para tantos autores, que a literatura se resuma a um círculo fechado de leitura onde autores leiam autores. No entanto, penso que o mais nocivo é começarmos a nivelar a qualidade por baixo, termos um excessivo número de novos títulos, escritos por autores ainda não prontos, que torne a análise difusa e se comece a acreditar que a literatura brasileira está mudando quando, de fato, está piorando. O que pensa sobre esse disparo de novos autores, de autores muito jovens? As editoras independentes, as de pequeno, médio e grande portes não deveriam ter a responsabilidade de selecionar melhor as suas publicações?

JULIÁN FUKS – Seu diagnóstico me parece preciso, sim, mas eu não consigo conceber como negativa a profusão de autores e publicações que vemos hoje. Penso que há algo de muito produtivo nessa vivacidade, nessa democratização do acesso à escrita, nessa multiplicação de editoras, penso que uma literatura consistente se produz a partir dessa riqueza. Nenhum autor surge pronto, a criação literária tem sempre um desenvolvimento lento, e a publicação é parte fundamental desse processo. Quanto mais publicamos no país, creio, maior tende a ser a maturidade da nossa escrita, ainda que essa qualidade só se revele plenamente em poucos autores. Insisto que o problema parece se situar na crítica, cada vez mais escassa, cada vez mais ínfima. É evidente o depauperamento dos nossos cadernos culturais, a cada ano mais exíguos e superficiais – com exceções importantes, é claro. Nesse contexto, talvez coubesse à crítica acadêmica uma aproximação a estas novas produções, e isso tem sido feito com tremenda qualidade por alguns críticos, mas o movimento como um todo ainda se mostra insuficiente.

DA – O caso do depauperamento dos cadernos culturais é um sintoma da crise implantada nos jornais impressos, que minguam seus formatos, reduzem equipes e extinguem seções inteiras. A morte dos suplementos literários é algo nocivo, triste e grave, porém enxergado, por alguns, como um deslocamento irreversível da mídia de papel para a virtual. Lembro-me que, na mesma semana em que um dos principais jornais do Brasil decretou o fim do seu caderno de literatura, uma revista trouxe na capa a celebração dos chamados booktubers, jovens que gravam vídeos discorrendo sobre seus gostos literários e atraindo milhares, milhões de visualizações. Independente de isso ser bom ou ruim, não lhe parece que, hoje, é dado mais valor ao alcance de uma crítica (e incluo as palmas dos editores, dos autores e dos leitores) que à qualidade do texto?

JULIÁN FUKS – É verdade, esse campo do virtual é todo um mundo à parte ainda difícil de estimar. À primeira vista parece de fato muito mais condicionado pelos gostos pessoais, mais distante de uma avaliação fundada num conhecimento da teoria e da história da literatura, algo essencial à crítica desde tempos imemoriais. Mas confesso que sou ignorante demais nesse aspecto para poder aportar um juízo embasado. O que sim posso notar, em todo caso, é que essa crise da crítica é tão aguda que se impõe até no âmago das discussões literárias. Aqui poderíamos estar discutindo os problemas intrínsecos à construção de uma obra, as decisões difíceis que todo autor tem que tomar diante de sua matéria sempre indevassável, os infinitos desafios inerentes à dura lida com as palavras. Em vez disso nos vemos a discutir, tristemente, as vicissitudes do mercado editorial, suas imposições sobre obras que se queiram autorais, seus obstáculos a um exercício mais livre da escrita literária.

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Julián Fuks / Foto: Fernanda Sucupira

DA – O que a literatura argentina – e incluo aqui desde o mercado à produção criativa – pode servir de exemplo para os novos autores brasileiros?

JULIÁN FUKS – O que se costuma chamar de literatura argentina, ainda que caracterize apenas uma parte de tudo o que se produz por lá, é uma ficção feita de jogos cerebrais, ficção engenhosa, autorreflexiva, que se volta sobre si mesma para revelar com inteligência sua maquinaria. É isso, ao menos, o que geralmente se aprecia em Borges, Cortázar, Saer, Piglia. É claro que temos algo disso aqui, mas penso que a literatura brasileira ainda poderia se enriquecer muito com esse exercício, com narrativas que não se limitam à condição de narrativas, que se deixam invadir pela retórica, pela metafísica, pelo ensaio, por formas mais livres. É só uma sugestão, claro, ou um gosto pessoal. Sinto falta em nossa literatura de uma maior liberdade formal, e sinto falta também de um pensamento sobre a própria literatura que não se resuma à crítica usual, crítica jornalística ou acadêmica. Pessoalmente, como leitor, adoraria que os escritores brasileiros se dedicassem também ao ensaísmo, se entregassem mais plenamente ao pensamento sobre o mundo ou sobre a escrita.

DA – Há algo que a literatura brasileira pode oferecer aos novos escritores argentinos?

JULIÁN FUKS – A literatura brasileira, em seus autores principais que já tomamos por clássicos, parece ter um pendor pelo social, uma capacidade de apreender pela ficção algumas das mazelas do país, sua pobreza, sua desigualdade, suas tão evidentes injustiças. Nesse aspecto temos uma tradição consistente e muito consolidada, tanto na ficção quanto numa forte crítica sociológica, aquela que tão bem desenvolveram Antonio Candido, Roberto Schwarz e outros tantos. Arrisco dizer que a literatura argentina, mais marcada por uma postura elitista, poderia se beneficiar muito com esse olhar que se volta para o outro, com essa tentativa de incorporar à narrativa o que nossas sociedades têm de mais abjeto, de mais chocante, de mais nocivo. Podem soar contraditórias estas minhas respostas cruzadas, mas penso que haveria muita potência numa literatura que conciliasse o rigor formal argentino com a relevância social brasileira.

DA – O personagem Sebastián está no seu romance anterior e reaparece em “A resistência”. Quem é Sebastián? Um alter ego, uma encarnação de sentimentos? O quanto de Julián há em Sebastián?

JULIÁN FUKS – Não é disparatado dizer que se trata de um alter ego, o protagonista autoficcional por excelência ainda que não carregue meu nome, mas essas classificações não me parecem muito necessárias. Sebastián foi o personagem que construí minuciosamente, rigorosamente, em “Procura do romance”; ali Sebastián era figura incontornável, onipresente. Quando me pus a escrever “A resistência”, por um longo tempo não me dei conta de que o narrador era ele, pensava um narrador sem nome como todos os outros personagens importantes – ou pensava, por um longo tempo, confesso, que o narrador era eu. Foi só no final do livro que me dei conta da evidência, percebi que aquela voz não podia ser a minha, que escrever distorcia o que eu tinha a dizer, como sempre distorce tudo. Vi que aquele só podia ser um livro que Sebastián encontraria mais tarde, o romance com que se depararia quando já não estivesse tão obcecado com sua procura. Ou brinco, claro, ao falar dessas coisas todas.

DA – Você afirmou que o livro é uma resposta a um pedido do seu irmão, contudo, de maneira prática, qual o futuro que intenciona para ele? Há, em seu farol literário, procura por prêmios, reconhecimento, autoafirmação? A partir de “A resistência”, quais são os seus planos e projetos?

JULIÁN FUKS – Difícil projetar um “futuro prático” para um livro. O livro existe, está lá, é tudo o que eu pude fazer, é tudo o que eu posso fazer com ele. Foi resposta a um pedido do meu irmão, mas foi também uma resposta ainda mais íntima: contar essa história foi algo que exigi de mim, por vezes contra um ímpeto mais imediato, contra uma vontade tangível, contra uma resistência. Costumo sair da escrita de um livro um tanto exaurido, e por um bom tempo me mantenho alheio a outros projetos, deixando que cresçam em mim sub-repticiamente, sem me obrigar a escrever antes da hora. Enquanto isso, vou curtindo as boas conversas que a publicação suscita, vou absorvendo os comentários dos leitores, vou ganhando mais clareza sobre o que eu mesmo fiz, sobre o que ainda tenho a fazer, a dizer. Vagarosamente hão de nascer os novos projetos, ainda incipientes demais para que eu saiba falar sobre eles.

DA – Escrever, no Brasil, é um ato de resistência?

JULIÁN FUKS – Escrever pode ser resistir, pode ser capitular. No Brasil ou onde quer que seja, a mim interessam os escritores que fazem desse ato tão simples, tão corriqueiro, um ato de resistência contra a insignificância da vida, contra a pequenez da existência.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Olhares

Olhares

Admirável novo olhar

Por Fabrício Brandão

 

Deborahdornellas1
Desenho: Deborah Dornellas

A descoberta do mundo é um processo lento, dinâmico, complexo e continuado. Mas é necessária uma intervenção ativa do olhar para que isso se torne algo real. Do contrário, a imutabilidade dos gestos diante das horas que nos acometem não tem serventia, pois nada constrói. Nem tudo está posto e temos uma considerável margem de liberdade para traçarmos as interpretações ao nosso modo.

Quando nos deparamos com coisas já estabelecidas, podemos indagar se tudo deve transcorrer da maneira como se apresenta. Sob o manto da aparência pairam as mais diversas possibilidades, cada uma delas carregando em si uma oportunidade de ressignificação. E é preciso ousadia para romper as barreiras tão viciadas pela rotina que nos trai e acomoda.

Pensar a arte de Deborah Dornellas é apreender a sensação de que o mundo no qual vivemos não é o mesmo de sempre. Munida de uma imensa capacidade de abstração, a artista revela-se hábil em revestir seres e lugares com uma múltipla sucessão de camadas. Significa dizer que o objeto de seus desenhos opera num fluxo através do qual o caráter físico das coisas é fragmentado para depois servir de base a uma outra formulação.

A despeito do que foi dito acima, essa nova caracterização da matéria é capaz de desfigurar cenários e corpos para depois reordená-los com outra configuração em forma e conteúdo. Desse modo, Deborah consegue vislumbrar alguma ordem no caos que nos pertence por natureza.

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

No que tange aos traços humanos apresentados por Deborah em seus desenhos, chama atenção uma verdadeira consciência amplificada a cerca dos domínios do corpo. Nessa ótica, a artista prima, sobretudo, pelo recorte sutil das formas, pela indefinição de rostos e identidades. A aura que envolve corpos vem associada a uma espécie de esfera do mistério e, de certa forma, sugere uma conotação etérea.

Carioca criada em Brasília, Deborah hoje mora em São Paulo por escolha própria. Também é escritora, jornalista e professora de criação literária. Desenha e pinta desde 1993 e, depois que descobriu as possibilidades do desenho digital, tal ferramenta se tornou a base de seu trabalho.

A diversidade de cores e texturas é ponto de destaque no trabalho da artista. É a partir delas que o caráter abstrato das suas investidas toma substanciais proporções. Ao mesmo tempo, cabe ressaltar que uma atmosfera intuitiva conduz as ações de modo predominante.

O que pode nos separar de um novo mundo é uma questão de ponto de vista. No entanto, a liberdade para definir como isso se dará é um aspecto crucial.  Mais que um mero exercitar de olhares, dar outros rumos para a existência é resultado de um inevitável flerte com o desconhecido. Se isso realmente mudará o curso das coisas, só os arremessos poderão dizer.

deborahdornellas3
Desenho: Deborah Dornellas

* Os desenhos de Deborah Dornellas são parte integrante da galeria e dos textos da 107ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

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107ª Leva - 01/2016 Galeria

Desenho: Deborah Dornellas

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