Anda nas bocas ultimamente a palavra democracia. E ficamos a refletir em que medida o exercício da liberdade de pensamento encontra real abrigo nesse estado de coisas. Nossas mazelas são históricas e remontam à origem da nação? Está tudo tão definitivamente entranhado em nossas práticas cotidianas a ponto de ser difícil extirpar os equívocos? Afinal, temos verdadeiramente um rosto? São indagações que permeiam o momento presente da nossa conturbada nação de proporções continentais. Embora um sistema democrático não esteja livre de falhas e imperfeições, ele ainda parece um caminho bastante razoável no que se refere ao perseguido equilíbrio entre direitos e deveres. Nesse ambiente, a não uniformidade das posições é um elemento que impulsiona o funcionamento das relações. O antagonismo de opiniões é necessário na medida em que nos auxilia na busca pela afirmação de uma identidade. Do mesmo modo, determinismos em nada parecem contribuir para a evolução de uma dada sociedade. Nada é absoluto, nem mesmo os tão consagrados direitos que se pretendem fundamentais. Do convívio com nossos pares é que se materializa a necessidade dos equilíbrios. É quando as diferenças afloram e só são realmente valiosas se aproveitadas num sadio debate de ideias. Eis o melhor combate: o das palavras. No território das ações culturais, pensar diferente também encerra sua devida contribuição. Vejamos, pois, quantas são as mais diversificadas acepções de conteúdos. Seja na literatura e nas artes em geral, criadores e receptores podem se entender mesmo quando adotem modos opostos de vivência das obras. E é justamente essa não conformidade que faz com que as experiências tidas, a partir das searas culturais, sejam tão importantes. No seu ideal de diversidade, nossa revista sempre procurou, dentro da percepção de critérios de qualidade, conceder espaço às mais distintas e variadas vozes. O resultado é notadamente significativo, tendo em vista que hoje agregamos um vivo coletivo de expressões. Tudo isso posto, os caminhos editoriais aqui continuam a perseguir a pluralidade. Assim sendo, vêm à baila as intervenções poéticas de José Carlos Brandão, Adriana Versiani, Yasmin Nigri, Rodrigo Melo e Patrícia Laura. Expondo um pouco de sua trajetória entre a prosa e a poesia, o escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues é nosso atual entrevistado. Renato Tardivo escreve sobre o novo livro de poemas de Valerio Oliveira. Larissa Mendes traz até nós o resultado das escutas do mais recente disco de Clarice Falcão. Nas alamedas da prosa, estão os contos de Tom Correia, Priscila Merizzio e Herculano Neto. Para falar sobre a mais nova investida cinematográfica do diretor Quentin Tarantino, o filme “Os Oito Odiados”, Guilherme Preger divide conosco sua aprofundada análise. É o texto de Sérgio Tavares quem nos apresenta o romance de estreia de Caco Ishak. E em meio a tantas rotas por aqui agora apresentadas, a arte da portuguesa Helena Barbagelata harmoniza espaços feitos de realidade e imaginação. Por tudo isso, vale a pena lutar. O ambiente democrático que se deseja no prisma cultural é todo aquele universo no qual faça morada a multiplicidade de epifanias. Feita especialmente para você, caro (a) leitor (a), eis a 109ª Leva!
Contornando trilhos que nunca cicatrizam
Nessa eterna manobra
Descubro que se lhes torço
O cenho com ar zombeteiro
Suas lanças caem
Por isso não mais desvio dos gatos pretos
Inquisidores
Ou desse Outro por quem vocês se passam
Escrevo como quem ruma a país distante
E dá meia volta
Só minhas irmãs entenderão
As que se sabem condenadas
À solidão do próprio útero
Que em torno dessa fogueira
Deram as mãos
E hoje rodam com pés emprestados
De nossas ancestrais
***
Não há mais lugar sem ecos
Nessa ânsia por decompor imagens
Lanço a mágoa em plano véu
Ainda que pouco deixe ver em mim o que fui ontem
Continuo percorrendo as estações
Cada uma me impele às alturas
E precipito a queda
Vertigem de abismos mancos
Nem as plantas de tão seca fibra sentem sua ausência
Despedaço livros
Arremesso louças
Parto colunas
Para irromper meu mundo do seu corpo
Em mundo menos restrito e mais amplo
Se ao menos pudesse estar onde não mais venho ouvir sua voz
Ainda que pouco deixe ver em mim o que fui ontem
Não há mais lugar sem ecos
***
Este obscuro objeto do desejo
Não bastasse entrelaçados
Você desata
Tentei manter a testa imóvel
Não franzir o cenho
Dar de ombros
Soltar um longo suspiro
Nada que pudesse revelar
Este assombramento
À espera do sono
Onde sonho e realidade convergem
Para que se repare o dano
Antes que assente fundo
Antes que os perseguidores possam reclamá-lo
Preciso fosse, escreveria ao mofo das paredes, preciso fosse,
__________.
Então você chega
E traz consigo tudo que a aurora dispersou
Envolve meu ventre com
O delicado manto que sai da sua pele
E deita ao meu lado o segundo astro que veste a cidade
***
CID 10 – S91.3
Em delírio fui copo
À espera do teu juízo
Fui esquecida
Largada no quarto
Durante sua festa
Virei cinzeiro
Estive imóvel e atenta
À espera do seu chute
Cortei seu pé
Fiz sangrar
Causei toda sorte de infortúnios
Da dor
Ao tétano
Nem cruzes ou credos puderam dar cabo
Até seu pé ser amputado
***
Escrevo para te dizer que não tem acontecido nada e passo os dias tomando café ao som do Estrangeiro e tenho procurado emprego e não recebido resposta e tenho prorrogado comprar uma garrafa térmica porque derrubei a antiga e faço aqui uma pequena ressalva: tenho tomado café frio. Quem virá com a nova brisa que penetra pelas frestas do meu ninho quem insiste em anunciar-se no desejo? Toda semana decido ir diante da tua árvore para conversarmos a sós e lembro que tal árvore não existe apenas em algum poema que li e pensei que seria útil se você também tivesse uma e eu pudesse usar uns tempos verbais antiquados pra falar da tua árvore e como me prostro diante do teu signo e sinto tua vida pulsando na sola dos pés. Escrevo para anunciar o desejo que me mandes um mapa ou pergaminho falso para que o tempo aqui passe menos vagaroso e tenha algo para me entreter, tal como Sísifo.
Yasmin Nigri (1990), carioca, é graduada em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense. Cursa atualmente o mestrado na linha de Estética e Filosofia da arte. Feminista, cofundadora e integrante do coletivo DISK MUSA, grupo de mulheres que alia poesia e ativismo na produção de conteúdo áudio visual e performance. Montou sua primeira exposição com o coletivo DISK MUSA no final de 2015. É membro da Oficina Experimental de Poesia, que acontece toda quarta-feira, no Méier. Tem poemas publicados nas revistas mallarmargens, escamandro, germina e jornal relevO.
Entre malas, gavetas e arquivos, eis que surge uma monocromática Clarice Falcão anunciando que a bagunça organizada da capa de seu novo álbum, Problema Meu (2016), não leva este nome por acaso. Neste cerne de fofura esquematizada, foi necessário que a multifacetada artista abrisse mão do coletivo Porta dos Fundos para dedicar-se exclusivamente à carreira musical. Lançado em fevereiro e produzido pelo festejado Kassin, as 14 faixas de Problema Meu orbitam entre o [des]amor (coincidentemente o romance com Gregório Duvivier chegou ao fim em 2014) e seus derivados, mantendo composições autorais em pequenas construções narrativas que consagraram a cantora em seu álbum de estreia, Monomania (2013). Porém, voz e violão (e ukulele) – sua marca registrada – dão vazão a flertes com outras sonoridades, entre guitarras, sopros e percussões.
O single Irônico (eu gosto de você como quem gosta de um vídeo do YouTube de alguém cantando mal/eu gosto de você como quem gosta de uma celebridade B) abre o álbum em tom carnavalesco de bandinha marcial – como o próprio videoclipe sugere – e ridiculariza o verbo gostar. Se o pop Eu Escolhi Você (eu escolhi você porque/não tinha tanta gente pra ser meu, vê só/que sorte você deu) aponta escassas opções de amor, o rock candidato a hit A Volta do Mecenas (onde foi aquele moço bom da renascença/pai gentil das fábulas, romances e poemas?), composição de Matheus Torreão, clama pelo príncipe encantado a nós prometidas, numa das mais contagiantes faixas do disco. A juvenil Deve Ter Sido Eu (eu já não amo mais você/mas eu ainda odeio essa menina) beira o humor negro e narra o ódio nutrido e as vinganças arquitetadas em pensamento contra a “atual do ex”. Enquanto a verídica Marta – conversa imaginária com a dona de um telefone de número similar – mais parece uma esquete do Porta dos Fundos, a melancólica Se Esse Bar Fechar, ainda da safra de Monomania, relata a espera por alguém que não apareceu (impossível não relacionar com O Que Eu Bebi, faixa do álbum anterior). Na sequência, Eu Sou Problema Meu (quando eu disse sim aquela hora/eu disse sim aquela hora/eu não disse sim por toda a eternidade) encerra o primeiro bloco de canções enfatizando que ninguém é propriedade privada.
Clarice Falcão / Foto: divulgação
Àqueles que reclamaram a ausência do cover de Survivor– clássico do Destiny’s Child que defende os direitos da mulher – lançada no canal de Clarice no YouTube, eis a sua redenção: L’amour Toujours (I’ll Fly With You), sucesso nas pistas no início do milênio, entoada pelo DJ italiano Gigi D’Agostino, surge deliciosamente irreconhecível na versão acústica da cantora. Na sequência, a fatídica discoComo É Que Eu Vou Dizer Que Acabou? destaca a dificuldade de se colocar um ponto final em uma relação amorosa e os rodeios que fazemos a nós mesmos. Enquanto Duet é uma bossa nova composta em inglês – que supostamente deveria ser um dueto, porém a segunda voz abandonou a gravação –, Banho de Piscina é uma canção brega composta antigamente por seu pai, o dramaturgo João Falcão, e lembra Zéu Britto em Soraya Queimada. Vinheta (eu checo as mensagens sete, oito, vinte vezes/só passou cinco minutos/eu senti passar três meses), faixa de pouco mais de um minuto, revela a agonia das respostas que não chegam para desaguar na feminista Vagabunda (toma um chopp comigo, vagabunda/que eu sei a vagabunda que eu sou/repara que conexão profunda/de ter compartilhado um mesmo amor). O folk autodepreciativo Clarice (Clarice sempre os mesmos três acordes/olha um si bemol não morde/não precisa poupar dedo) encerra a obra e zomba de suas próprias limitações sonoras.
Em Problema Meu, Clarice mantém a simplicidade em suas composições, porém os arranjos vestem alta costura (mérito ao estilista sonoro Kassin). As letras românticas de outrora dão vazão a versos espirituosos e jocosos (quiçá, rancorosos). Mais ou menos o que fazemos quando amadurecemos e olhamos para trás, satirizando nossa própria [falta de] sorte. Definitivamente a menina Falcão cresceu e passou com desenvoltura pela sempre temida síndrome do segundo álbum. Sem perder a ternura dos seus 26 anos jamais.
Havia debaixo do colchão de sua cama um facão para cortar pela metade a dor e os sonhos. Julgava uma inépcia pessoas que se refugiavam em fantasias e escutava com lassidão seus discursos. Carregava consigo uma assepsia de emoções que o deixava embotado diante de sentimentos profundos. Foi uma criança sisuda e pautada nas farmacopeias que os mais velhos ensinavam. Considerava frugais as brincadeiras das outras crianças, optando quase sempre pela aspereza da solidão. Cresceu com os ossos dos joelhos ensimesmados e não houve especialista que conseguisse curar a dor lancinante em dias de tempestades. Embora ganisse a cada trovoada, deixava que a natureza se ocupasse de ficar úmida e trincava os dentes com força para não derrubar lágrima sequer. Tão logo alcançou maioridade, partiu de casa em busca de independência. Ambicionava ser um homem rico e também preencher a arcada dentária com ouro trazido de minérios negreiros. Sua personalidade compenetrada lhe rendeu um emprego promissor em uma importante madeireira. Tinha brios luciferianos e nas parcas correspondências que trocava com a mãe não se queixava de saudades, doenças ou escassez de comida, como costumavam fazer os outros rapazes de sua idade. A madeireira foi seu único emprego. Começou como estagiário e aposentou-se como sócio majoritário, exportando pinus à Europa e, para espanto dos colegas, também para as Índias. Saía com mulheres aceitáveis, mas nada extraordinárias. Permitir-se ao extraordinário era fado dos românticos. Jamais armazenou velas para gastar com defuntos. Permitia-se ternura e superstição apenas com seus gatos, que não lhe exigiam cuidados demasiados.
II
Havia algumas raras situações em que ele cruzava o olhar com mulheres que o deixavam em estado de Lua Cheia. Ele tinha pavor do efeito hipnótico e destemperado que elas produziam em seu comportamento. Após sentir o perfume de Cleópatra que emanava do tufo de pelos no meio de suas pernas e de bebericar seus orgasmos de ambrosia, voltava-lhe impiedosa a dor nos joelhos. Ele urrava quase esfarelando os dentes entre as mandíbulas, mesmo que lá fora fizesse um sol de latejar as têmporas. As enxurradas de suor daquelas mulheres lhe valiam mais do que três mil tempestades e não havia nada que amainasse sua dor. Concluía que elas eram ardis feiticeiras, com seus seios de Medeia e gracejos de fogueira, distribuindo sorrisos como quem despeja moedas estreladas em danças ciganas e mesmerizantes. Após o encontro com essas mulheres, caía em si e rechaçava a si mesmo por ter se permitido enveredar nas ratoeiras do desejo descomedido. Punha-se então a ruminar saídas mentais e estratégicas e empunhava tochas gélidas de racionalidade que o livravam do labirinto das câmaras dos átrios e ventrículos daquele monstro sentimental que pulsava na cavidade de seu tórax. Ele não concebia a ideia de ter um coração, apenas um cérebro. Seguinte ao pequeno descarrilamento emocional, retornava a seus afazeres, se inteirando em cálculos e bebericando conhaque em negociações com outros poderosos. Voltava a esvaziar as necessidades de homem em bordéis com gorjetas mesquinhas e não beijava a boca das putas. Substituiu os dentes naturais por dentes de ouro egípcio.
III
Embora tentasse fugir dessas raras mulheres feiticeiras, houve uma delas que fatalmente o envolveu em um véu de brumas aquáticas. Quando deu por si, estava se deitando com ela em meio a incêndios oceânicos que repartiam Netuno em dois e ásperos pedregulhos vigiados por cascavéis que avisavam com seus guizos plutônicos que, frutos férteis e lunáticos, estavam quase caídos dos pés. A feiticeira estendia seu efeito desagradável também sobre seus gatos, que em noites enluaradas estranhamente tomavam formas de enormes lobos, uivando insaciáveis. Os gatos, transmutados em lobos, sumiam na escuridão e traziam consigo, na manhã do dia seguinte, embutidas dolorosamente em seus membros ainda intumescidos, delicadas fêmeas andorinhas. Ele ficava horrorizado com tamanho espetáculo e esguichava água fria para que seus gatos deixassem de ser lobos e as fêmeas partissem, incumbidas de bicarem sozinhas suas feridas. Não se solidarizava com a dor alheia. Ademais, ele estava ranzinza a maior parte do tempo. Ora porque a feiticeira não estava por perto, ora porque ela se ausentava. Ansiava em ter sua sobriedade de volta, embora soubesse que o preço a pagar seria alto. Teria de expelir todo o carmim de suas paredes para revesti-las novamente com o cinza dos bordéis e dos números certeiros de seu livro de contas. Além disso, os gatos pareciam conspirar contra ele quando não transfigurados em lobos. Quando ele começava com suas especulações taciturnas sobre as implicações negativas acerca da feiticeira, os bichanos bocejavam modorrentos. Desde que haviam experimentado os presságios mágicos da Lua Cheia eles observavam sua soturnidade com audaz desprezo e abençoavam a entrada daquela mulher bruxa em suas vidas.
IV
Mal ele sabia que os gatos haviam desenvolvido o desagradável hábito de espionar suas noites de volúpia com a feiticeira, que dominava a arte do amor e entregava despudorada cada nuance de seu corpo quente. Ela engatinhava pelo quarto como uma pantera e colhia seu sêmen em uma taça de ouro. Quando ela fazia isso, os gatos que estavam espionando pelo vão da porta, ficavam de pelos eriçados e salivavam inebriados. Para ele, aquelas foram noites guiadas por um deus ébrio de Vênus e nada daquilo lhe soava linear. A passagem arrastada do tempo o deixava Saturno. Decidiu que era a hora de findar aquela desgraça. Após uma noite ardente, ele acordou e sentiu falta da feiticeira ao seu lado. Foi procurá-la pela casa e flagrou-a dando seu sêmen de beber aos gatos. Eles lambiam a taça de ouro e ameaçavam transformar-se em lobos. No lugar dos cabelos escuros e sedosos da mulher, brotaram-lhe serpentes que ondulavam sensualmente ameaçando o picar nos olhos para que ficasse cego. Ele começou a gritar apavorado, ordenando que Medusa fosse embora e que levasse com ela as serpentes e aqueles gatos-lobos repugnantes. E assim foi. Para disfarçar a sensação de perda ele iniciou uma criação de cabras. Elas talvez lhe pudessem render calmaria e algum trocado com o leite que produziam. Nutria uma raiva sombria daquela mulher que surgiu em sua vida para levar o que mais de precioso ele tinha: os gatos. E sua inconfessável presença de bruxa. A dor dos ossos do joelho se tornou violenta como uma maldição. Em vez de surgir em meio às tempestades, ela agora anunciava sua presença nas noites de Lua Cheia. Enquanto lobos uivavam ao longe, primeiro partiram-se as juntas e depois os ossos de seus joelhos. Os dentes de ouro de sua boca derreteram-se como argamassa, grudando seus beiços definitivamente. Ele morreu de hipotermia, julgando escutar lobos afônicos uivando lá longe, enquanto suas cabras pastavam tranquilamente na colina. Jamais derrubou lágrima sequer.
***
Domingo maravilhoso
A madrinha arrumou-se com vaidade para participar das costumeiras novenas de quarta-feira que dona Neide, uma senhora ucraniana, grandalhona e azeda organizava na garagem de seu filho. Ordenou à afilhada para que tomasse conta do cachorro e da casa, que logo voltaria para prepararem o jantar e arrumarem as fotografias da parentada. Estava um mormaço por causa do extenuante calor e a afilhada estava deitada, lendo tranquilamente na rede da área, quando em meia hora a madrinha voltou para casa ofegante, dizendo que havia saído no jornal local a notícia mais fantástica do mundo: na paróquia onde ela assistia às missas de domingo, atraído pelos miados medrosos de seu gato, o padre entrou correndo na nave pensando tratar-se de um assalto, quando viu as chamas das velas num fogaréu atiçadíssimo, quase atingindo a cúpula da paróquia. Os santos todos flutuando sobre a mesa do altar. A madrinha em êxtase infantil, exibindo as pontes d’ouro dos dentes enquanto sorria.
***
Aos anjos de Ana Cristina Cesar
20 de agosto de 2010
Quando vi o porteiro, contrariei as regras sociais todas e pedi para que ele me desse um abraço, na ânsia de consolo para a argamassa de ruínas que eu fechava atrás de mim no portão do prédio. Vesti-me de puta para agradar aquele homem. Puta mesmo, capa de chuva e nada por baixo, apenas as botas de cano alto. Quase cinco anos encarnando a personificação venusiana de um espancador de psiques.
16 de dezembro de 2000
A vó ficou preocupadíssima porque saí de casa às 2h da manhã com uma turma para ver o sol nascer no aeroporto. O carro de meu amigo estacionado na frente de sua casa e AC/DC no último volume a deixaram horrorizada. Eu carregava na mochila “O apanhador no campo de centeio” e “A hora da estrela”. O sol nasceu lindo naquele dia. Não me deixei ser beijada por W. Não queria ser beijada naquela manhã.
23 de setembro de 1999
M. e Carlos disseram-me para que eu não chorasse. Deram-me um baseado enrolado com muito amor e serviram-me vodka no maior copo de plástico. Carlos pôs um gomo de mexerica e mexeu a bebida com um galho de árvore. Estávamos na pracinha perto de minha casa. O namorado de M. dormia sobre um banco que nós duas já havíamos urinado, bêbadas. Senti-me em comunhão com o mundo compartilhando olhares cúmplices com minha primeira amiga de Escorpião. O busto do marechal piscou para a cadela no cio que revirava os lixos. O sangue dela pingando na calçada, que o absorvia como nanquim.
11 de junho de 2011
No plantão da clínica veterinária, 22h, com as mãos e o rosto cheios de excrementos de meu cachorro que estava morto, sendo em vão reanimado na sala de emergência. Joguei-me nos braços do guardião, dizendo a ele que a única coisa que poderia fazer por mim era me abraçar. Também sujei suas roupas com o excremento de meu cachorro e o cheiro não enojou nenhum de nós, pois fomos humanos e sabíamos que havia muito mais em jogo. Antes disso, quase lanhei o rosto do taxista que quis cobrar-me a lavagem do banco do carro. Disse-me que havia perdido todas as corridas da noite com a morte de meu cachorro em seu automóvel. Atirei uma nota de cinquenta reais em sua cara. Disse que no outro dia daria mais. Estava prestes a saltar sobre ele, pantera e mãe. Expus sua vergonha capitalista.
10 de setembro de 1998
Nunca havia me sentido tão feliz e parte de alguma coisa. Nós dois nos amávamos e um de nossos jogos favoritos era transmitir por pensamentos a cor da roupa de cada um enquanto conversávamos por telefone. Sempre acertávamos. Nossos amigos escutavam Garotos Podres, ensaiavam no porão da casa de Rodrigo e, nas horas vagas, jogavam cartas. Eu aproveitava tudo até à exaustão. Sabia que aquilo um dia viraria memória, eu não seria a noiva carregando flores de pitangueiras na catedral, então, parte de mim já despedaçava-se antes do tempo previsto, antecipando crises e passeios no cemitério municipal. Não perdi minha virgindade com B. Sentei-me em lápides e conversei com mortos.
24 de maio de 2000
Estava tentando gostar de Megadeth, por indicação de uma amiga que era apaixonada por eles. Ela era loira, com o cabelo ondulado gigante, caindo até seu magro quadril. Uma sereia simbolista. Em seu queixo havia algumas espinhas, o que estranhamente tornava-a mais charmosa e valente. Eu tentava ser vocalista de uma banda punk das meninas ricas do colégio. “Casa de bonecas”. Não pude seguir as penosas ordens das donas dos instrumentos e locais de ensaio, exigindo de mim uma disciplina de convento. Eu não era uma boneca. Eu não tinha casa. No fim, afastaram-se de mim, por ser “má influência”. Julio havia tomado muitos Benflogin e conversava com uma vaca que estava sentada no banco de trás, ao meu lado.
12 de junho de 1988
A falta de notícias suas atirou-me na gruta dos perdidos escandalosos por migalhas da sua boca que me navalha. Da sua ausência que me espicaça. Enterrei o peixe petit poá junto com o canarinho Kenny G. A tartaruguinha de Carolina perdida no acidente de carro. Exorcizar fantasmas alheios e atentórios dói. Frustrações atiradas como sacos de gelo sobre uma alma quente, porém destemperada. Incendiando nas labaredas de paraísos maniqueístas. Carolina levava-me ao cinema e dormíamos no banheiro, assistindo a várias exibições escondidas, de graça. Nossos corpos vicejados foram atravessados por um raio. Carolina cantou para mim. Você vomitou no BH Lanches. A cicatriz no ventre de sua mãe é profecia.
Priscila Merizzio é curitibana. Editora convidada da Germina — Revista de Literatura & Arte. Tem textos publicados em jornais, revistas literárias e antologias brasileiras e estrangeiras. Participou da Bienal Internacional de Curitiba de 2013 e outras exposições e mostras. É uma das organizadoras da Antologia 29 de abril – o verso da violência (ed. Patuá, 2015). Minimoabismo (ed. Patuá, 2014) é seu livro de estreia e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2015.
Um exercício de porra-louquice é o que rege o processo de construção de “Eu, Cowboy”, de Caco Ishak. Em seu livro de estreia, o escritor goiano empenha-se na radicalização da forma e do estilo, concebendo uma colagem frenética, um “brainstorming”, uma metralha narrativa que esfacela qualquer conceito instituído de gênero, ação temporal e estrutura temática.
De fato, uma classificação mais adequada ao resultado final seria “um romance de subversão desconstrutiva”. Para se ter uma ideia, somente na página vinte e cinco é que se começa a prestar esclarecimento de quem protagoniza a trama.
Este é Carlo Kaddish (ou assim parece ser). Um sujeito inescrupuloso, hedonista à terceira potência, com queda por (pré-)adolescentes, cujos dias se tencionam numa roleta-russa existencial. Ao seu redor, orbitam amigos também adeptos ao comportamento desbragado e, da mesma maneira, medíocres perante suas responsabilidades. São todos losers, conformados de que “cresceram ficando para trás”. “Continuo andando com os mesmos frustrados de sempre e só porque eu me sinto bem ao lados deles”, confessa Carlo, assumindo o fracasso na condição de um mal congênito.
A culpa estaria na “geração que perdeu o medo de envelhecer” e, assim, ficou suscetível a uma crise extemporânea de meia-idade. “(…) a graça disso tudo é que, mesmo podendo viver até os trezentos, a sensação geral é de que, passou dos trinta, já era”. Portanto, o que resta é se lançar numa incursão de excessos, sem compromissos, incitando “o prazer pelo prazer de carregar um vazio nas costas, já fora do peito, trancafiando nada”.
Os únicos poréns, no caso de Carlo, seriam o afeto pela filha mantida à distancia pela mãe e o gosto pelas artes plásticas. Ou talvez não, quem sabe? Por certo, mesmo a descrição acima tem grande chance de estar equivocada. Isso porque foi montada através de cacos de informações desbaratados por todo o livro. Alguns, inclusive, contraditórios, devido ao jogo verborrágico de encavalar trechos de momentos distintos, sem conexão entre si.
Ishak empreende esse efeito aleatório no desenvolvimento (ou esboroamento) da narrativa, coadunando maciços de texto, diálogos longos e curtos, e-mails, palavras em caixa alta, verbetes de dicionário e trechos de música em inglês. A voz, em primeira pessoa, por vezes rompe os limites internos e se dirige diretamente ao leitor, mostra consciência de que está numa obra de ficção. Passado e presente se intercalam de maneira incessante (quando não se sobrepõem), em saltos temporais que se localizam nos anos 90 e no começo dos anos 2000.
O entender corrosivo destas duas décadas, aliás, é o ponto alto do livro. Embora não deixe de desfilar, por meio de seu protagonista, reflexões carregadas de uma filosofia torta, o autor constrói sua ambientação por meio de referências que vão da cultura pop a fatos históricos. Informações sutis, sugestões, o que hoje é conhecido, na cartilha cinematográfica, como easter egg. De nomes de bandas a títulos de canções que evocam bandas, da MTV ao 11 de setembro, do grunge à uma ressaca permanente, um ressaibo de que tudo se podia, ainda que não se quisesse nada, há iscas para interpretações por todo o romance. É um recurso estimulante, mas que, por conta de outra decisão, vem a se tornar um problema.
Ishak ergue sua história com a pulsão de detalhes, contudo aferrada a um ritmo vertiginoso, uma prosa resfolegante que impede que a leitura se detenha a esses pormenores, tenha tempo para decifrá-los. Tudo vem num jorro, como que arrevessado, sem preocupação em estabelecer um fio condutor, tampouco uma lógica. Isso acaba forçando várias pausas que, por fim, só incrementam a sensação de desbarate.
Outro aspecto contraproducente é a opção pela autossabotagem, a autodepreciação das próprias escolhas, não deixando muito claro se a intenção é sobrepesar a acidez, constituir uma paródia ou destilar doses cavalares de crítica. O autor planta aqui e acolá palavras como “cópia”, “plágio”, brinca com os clichês narrativos, reconhece que escrever é “chupar” o que já foi feito, que escritor é “copiar e colar diferente”.
Em dado momento, quando Carlo sugere largar tudo e cair na estrada a la Kerouac e seu clássico “On the road”, ele mesmo aponta que é uma ideia nada original, ainda que seja, na verdade, uma pose de “tô cagando pro Kerouac”. Essas sacadas, ainda que divertidas, dependem de uma bagagem extraterritorial ao livro, que não está em todo leitor, e acabam soando como um tipo de piada interna, a piada que anula a própria piada.
Enfim, “Eu, Cowboy” é uma experiência mobilizada por sensações, vozerio e muita fúria que se assemelha a uma locomotiva em pleno movimento que, tal uma locomotiva em pleno movimento, não é fácil de embarcar.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
quem sabe às vezes,
em algum apartamento velho e alugado,
enquanto um moleque lhe pede a janta,
ela por um instante pare e tente imaginar
no que é que o tempo ou a vida
me transformou.
***
MA VIE
suas ancas largas e a frase de dylan thomas na cicatriz do pulso direito lembrança da noite longa que perigou ser o fim aquela noite fodida e mal paga em que te tirei da banheira como os personagens dos filmes que você assistia e agora este céu estrelado este céu que segue ad infinitum sobre nós e sobre as nossas cabeças mesmo você não estando completamente aqui mesmo você recendendo à porra duma semente de alguma verdura que precisa brotar nesse instante em qualquer outro lugar tem alguém amando tem alguém lavando roupa assistindo tv jogando dominó batendo punheta comemorando o aniversário do cágado do gerente de compras da vizinha que ficou viúva e faz crochê alguém talvez sentindo o mesmo que eu esse tipo meio nonsense e amalucado de melancolia o gosto por perder também um pouco de medo além de todo esse anti climax que é coexistir e isso me coça a alma beibe isso me leva à merda do chão eu te encontrei um dia e sua boca carnuda e os quadris largos me salvaram e fazem falta agora o seu pulso direito com uma frase de dylan thomas todas as suas mágoas nos braços borrada por cima do queloide sua voz rouca a cantar músicas de jair naves i love you but i’ve chosen darkness e o seu jeito de querer ter razão agora a casa em silêncio a cama desarrumada a banheira toda suja de sangue quando fecho meus olhos à noite e tudo volta tudo como uma espécie de gif queria saber se você vai ficar de pé amanhã ou na próxima semana queria saber se a gente ainda vai para algum outro lugar de mãos dadas nesse instante tem alguém pulando de uma ponte alguém comendo pizza de calabresa visitando o avô que está com câncer no pulmão e que morrerá antes do natal comemorando o título antecipado do time do coração aplicando um golpe num caixa 24 horas levando o cachorro para passear assobiando ma vie de alain barriere alguém sentindo essa mesma merda que eu o coração gritando alucinado a cada batida feito um gigante de conto de fadas na hora em que vai gozar.
***
UMA CIRROSE NO PORTA RETRATOS
Dona Nice sente falta do marido,
reza para a santa
e costura tapetes
pra esquecer.
seus olhos são como duas poças de lama
em solo sêco e rachado
e eles se perdem entre a rua lá fora
e a imagem do quarto no hospital.
ele bebia demais – ela diz,
depois dum longo suspirar -,
mas eu gosto do filho da puta
até hoje.
***
MÉIER
um apartamento grande,
tão logo vendesse viveria de renda
em um dois quartos no méier, aquele fim de mundo.
a sala em dois ambientes,
a cozinha espaçosa,
três suítes, uma delas com vista para o mar.
alguns pombos voaram ali perto,
num céu azul de domingo
e o sol rasgou as janelas e alcançou
o retrato dos velhos dependurado na parede,
naquele instante em que ela começou a chorar
– e dentro daquele apartamento à venda,
naquele domingo em que pombos faziam a festa,
além dos soluços,
ecoaram também os velhos dias de aniversários
e formaturas,
as bodas de prata,
visitas de parentes,
a primeira comunhão:
a mãe a servir assados e o pai a fazer palestras,
a sala cheia de gente que não via mais.
uma época distante, que não voltará.
uma época em que não havia morte,
nem saudade,
nem vazio,
nem contas vencidas.
e o méier, aquele paraguai,
a devastadora realidade a esmurrar dia após dia
a sua porta,
era só mais um lugar.
***
SEU SORRISO ERA COMO UMA HÓSTIA PRA MIM
o coração era um velho milionário
no quartinho habitado por sonhos
que se transformaram em queimaduras
de segundo grau.
a vida é um oceano, você dizia ao
jogar suas roupas numa mochila,
e as ondas mudaram de força e direção.
adeus pernas enroscadas,
adeus festejos e conluios,
adeus planos no meio da madrugada,
quando eu urrava como um campeão.
o quarto é um corpo desalmado sem a foto
do reveillon de 98,
sem as calcinhas dependuradas na cortina do banheiro,
sem o cheiro dos cremes para as pernas,
sem o poster da praia que você sempre quis ir
e eu nunca pude levar:
seu sorriso sempre funcionou como uma hóstia pra mim.
herdei lembranças
e o sapinho no canto da boca que olho toda vez que vou ao banheiro,
feito o moleque que chega em último,
mas guarda com todo o cuidado
a medalha de consolação.
***
ASA DE FRANGO
papai me disse, uma vez,
que escreveria um livro
que nos daria dinheiro suficiente
para morarmos numa casa bem grande e bonita,
uma casa com jardim, piscina, quintal,
onde poderíamos acordar tarde,
chamar uma dezena de amigos,
criar cachorros, cágados, leões, girafas, tamanduás,
nos sentaríamos numa enorme mesa de madeira,
teríamos churrasqueira, forno à lenha,
varanda gourmet,
uma casa como a de um filme que assisti,
em que no final uma garota deslizava pelo corrimão,
saltava lá embaixo
e corria feliz na direção de um lindo jardim,
ao tempo em que a música tocava e os créditos começavam a subir.
mas papai já lançou uns três ou quatro livros
e a gente continua por aqui,
tomando banho de mangueira na laje
e comendo asa de frango nos domingos,
enquanto ele bebe cerveja
e diz que bota pra fuder.
Rodrigo Melo tem dois livros de prosa lançados e em breve publicará o seu primeiro com poemas. Vive em ilhéus, sul da Bahia.
A primeira impressão de Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, é a de um forte déjà vu: não é seu roteiro incomodamente semelhante ao de Cães de Aluguel, primeiro filme do diretor americano? Oito personagens às margens da lei estão confinados em um único recinto e confrontam-se num clima de crescente suspeita mútua, agressão e violência ao ponto da autodestruição coletiva.
Esta semelhança acaba trazendo automaticamente uma comparação negativa: em contraste com o frescor experimental e inovador de seu primeiro filme, o oitavo filme de Tarantino é filmado com magnificência teatral, uma trilha sonora espetacular (de Ennio Morricone, ganhador do Oscar), e numa versão cinematográfica grandiosa em seus 70 mm. Estamos entretanto distantes do estilo laboral do cinema de autor. Os Oito Odiados é sem dúvida mais uma grande produção comercial do cinema americano, mas sem aventura experimental.
E há também a semelhança em ambiente e na época com o filme anterior, Django Livre, pois, como este, o novo filme se passa nos Estados Unidos do século XIX, pouco após o fim da guerra de Secessão e também após o fim da escravidão. Na verdade, Os Oito Odiados foi escrito como uma continuação de Django.
Esta última semelhança ainda acentua a sensação de desgaste: depois de parodiar e parafrasear dezenas de diretores em seus filmes, a ponto de transformar o recurso às referências em seu próprio estilo, Tarantino, como muitos outros diretores, passou a copiar a si próprio. Da metarreferência passou à autorreferência.
No entanto, é justamente a associação com Django que faz com que Os Oito Odiados se situe num plano diferente em relação a Cães de Aluguel, pois, seu último filme segue, como nos filmes imediatamente anteriores de Tarantino, a virada na cinematografia do diretor.
Virada fundamentalmente política: pois não são A prova de morte, Bastardos Inglórios e Django Livre filmes que abordam essenciais questões do cenário político contemporâneo: a misoginia e o feminismo no primeiro, o antissemitismo no segundo e o racismo e o escravismo no último? Questões cruciais não apenas da sociedade americana, mas de todo o mundo globalizado. Nesses filmes, Tarantino dirige seu olhar eminentemente estético para a questão das minorias.
Não que os outros filmes não fossem politizados, como se o virtuoso estilista das metarreferências pop não estivesse fazendo política em suas escolhas estéticas. Pulp Fiction, por exemplo, é com certeza um filme icônico dos anos 90, não apenas por sua inventividade, mas por refletir brilhantemente em sua crueldade estilizada o cinismo reinante da sociedade neoliberal em seu momento de acachapante vitória política. A famosa cena de abertura, com a discussão sobre hambúrgueres, pode ser entendida como a construção de um novo modo cínico de enunciação cinematográfica, onde discutir sobre sanduíches torna-se tão relevante quanto discutir filosofia. E em Jackie Brown, por muitos considerado seu melhor filme, a escolha pelo gênero Blaxpotation não pode ser considerada inocente e traz a questão do emponderamento da “minoria” negra, ou “afro-descendente”.
Mas algo de novo se inseriu em sua filmografia a partir de Kill Bill. A meticulosa construção formal de referências da cultura pop se alia a uma nova preocupação de conteúdo e olhar para a situação das minorias onde a condição da mulher, do judeu e do negro vai para o primeiro plano, sem que se abra mão do rigor estético e sem que se abandone a vertiginosa técnica da citação, ou o domínio da tensão violenta, na qual sempre foi um dos grandes mestres do cinema, comparável nesse aspecto a Hitchcock e a Peckinpah.
Em Os Oito Odiados, há algo como uma condensação desses três últimos filmes, pois entre esses oito “outsiders” há a mulher (vivida por Jennifer Jason Leigh), o negro (o excelente Samuel Jackson), e o chicano (Demian Bichir), substituindo o judeu. Presos num armazém de estrada em meio a uma terrível nevasca, essas minorias se defrontam com a “maioria” branca (Kurt Russell, Walton Goggis, Bruce Dern, Tim Roth, entre outros). Assim, com sua mestria habitual, Tarantino faz aflorar as tensões raciais, de gênero e de classe numa violência cênica crescente. No entanto, justamente por estarem num universo à margem de toda lei e Estado (mesmo sendo um deles supostamente “xerife”), apesar das diferenças entre eles gerarem contrastes, ódios e enfrentamentos, os oito personagens estão irmanados num destino comum de destruição e morte.
Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh e Kurt Russel / Foto: divulgação
Assim, neste último filme, Tarantino tanto segue a lógica multiculturalista dos seus filmes mais recentes, mas também se distancia deles, seguindo a linha de roteiro de seu primeiro filme, Cães de Aluguel. Para se entender esse jogo, é necessário distinguir o que há de comum na política dos filmes de “minorias” de Tarantino. O comum é o fato de que todos são filmes sobre vingança. Sejam as mulheres que se vingam do dublê de corpo, dos judeus americanos que aniquilam os nazistas num teatro em meio à grande guerra, ou o escravo liberto que se torna o caçador de seus algozes escravistas.
E é importante também lembrar que a vingança é o tema do filme anterior a esses, a saga de Kill Bill. Mas neste filme, que pode ser considerado quase um “turning point” para Tarantino, há uma diferença crucial em relação aos demais posteriores, pois embora aborde a questão feminina da protagonista A Noiva, neste a vingança é um sentimento fortemente individualizado, enquanto nos demais, a vingança se coletiviza e nessa passagem se politiza. Podemos mesmo dizer que no lugar de uma estética da vingança (em Kill Bill), passamos a uma política da revanche, pois a revanche seria a vingança coletivizada, passando do indivíduo aos grupos de gênero, étnicos e raciais.
Tomemos como exemplo Bastardos Inglórios, certamente a melhor e mais polêmica entre essas três obras. O filme não aborda apenas tematicamente a revanche dos judeus contra os nazistas. O filme mesmo, na grandiosidade de sua fantasia, é uma máquina de guerra contra a história, como se Tarantino quisesse dizer que o cinema é mais poderoso e pudesse desfazer a irreversibilidade temporal. A obra, portanto, em seu aspecto formal, é uma revanche da imagem cinematográfica contra o real da inevitabilidade histórica. Por outro lado, a narrativa parece endossar a arriscada tese de que se os judeus europeus fossem tão bem armados como judeus americanos, o holocausto não teria acontecido, o que não deixa de ser um limite à sua opção política (do filme), pois é uma tese bastante questionável, já que desconsidera as lutas da resistência judaica durante a guerra.
Em Django Livre, o escravo liberto vingador, que aprende de um branco alemão as artes da pistola e do rifle, se torna um cavaleiro solitário e um exemplo para os demais escravos, e assim neste filme também a revanche faz parte da luta que quebrará suas correntes. Mas dependerá realmente de pistoleiros a luta contra a opressão?
Em Os Oitos Odiados, na cena onde Major Marquis Warren, vivido pelo excepcional Samuel Jackson, conta em retrospecto como cruelmente matou o filho branco do general confederado, temos novamente a lição de que a luta contra a opressão não admite trégua ou piedade. Mas não existe uma só luta contra a opressão, mas várias. Quando reunidas as minorias, o que elas fazem? Um dos maiores interesses desse último filme do diretor está no laboratório social no qual se torna o armazém perdido nas montanhas gélidas de Red Rock, Wyoming.
Embora no início do filme uma aliança pareça emergir entre a mulher brutalizada e o negro caçador de recompensas, ou entre este e o chicano, quando vão guardar os cavalos no estábulo, ao longo do filme essas alianças se mostram mais e mais inviáveis. As minorias não se unem contra seus opressores, ao contrário, um jogo de traições é o que sustenta o suspense da narrativa. Curiosamente, entre as minorias, parece ser a mulher o elo mais insidioso mas mais fraco, quase como se Tarantino confirmasse a canção de John Lennon, onde a “mulher é o negro do mundo”.
Em Os Oito Odiados, a lógica política da revanche degenera no desejo individualista de vingança, rompendo então todas as possibilidades do estabelecimento de uma luta comum. Assim, o retorno à aniquilação mútua de Cães de Aluguel parece o sintoma de um grande impasse na lógica multiculturalista da revanche das minorias. Mas é preciso lembrar que pistoleiros apontando armas uns aos outros são momentos típicos da obra do diretor e estão presentes em quase todos seus filmes. The Hateful Eight parece ser portanto o filme que encerra as perspectivas políticas de luta contra a opressão abertas pelos filmes antecedentes e ao mesmo tempo apresenta um impasse que não é nunca superado pela filmografia de Quentin Tarantino. Esperamos ver, nos próximos filmes, o grande diretor apontando sua câmera para outros lados.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
Recebi o último telefonema. Ele queria o dinheiro ao meio-dia, nenhuma hora a mais. Tentei argumentar várias vezes, disse que não tinha tanto dinheiro assim nem tinha como conseguir, que eu era apenas um reles assessor de vereador (o cargo pode parecer pomposo, mas fora a pose e a vaga cativa no estacionamento eu não era ninguém). Mas ele sequer parecia me escutar, não se alterava com a minha histeria e nunca conversava comigo. Telefonava e só falava o que tinha planejado. Devia ser parte da estratégia não dialogar, o que me deixava mais enfurecido e acuado. Se existe algo que me tira do sério é ser ignorado, gosto de falar, gosto que me escutem, gosto de plateia. Confesso que sou até indelicado com meus interlocutores e mal os concedo o direito de abrir a boca. Agora ele fazia a mesma coisa comigo. Ele devia me conhecer, ele não apenas sabia quem eu era; ele sabia como eu era. Ele também sabia que eu seria capaz de tudo para destruir aquela gravação, que eu estava desesperado. Por isso não o subestimava, todo adversário de mérito tem o meu respeito.
Rastreei suas ligações, em vão. Cinco ligações, cinco horários diferentes, cinco telefones públicos do centro da cidade. No começo, pensava que era alguma brincadeira, porém ele logo me fez perceber que a história era à vera, ele sabia demais. Se aquele vídeo aparecesse eu estaria perdido, seria o meu fim. Com uma arma invisível engatilhada na minha testa não havia muito a ser feito. Saquei o que tinha disponível nos bancos, fiz dois empréstimos com terceiros e vendi o automóvel da minha esposa, ainda assim faltava bastante, mas acreditava que conseguiria renegociar cara a cara. O encontro ele marcou no Largo Dois de Julho, local muito movimentado, frequentado por todo tipo de gente, certamente pra não chamar atenção. “Como saberei quem é você?”. “Não se preocupe, você saberá”. Desde o início foi a única pergunta que ele respondeu.
Duas horas antes, já estava no local combinado. Comprei uma latinha de cerveja num bar e me sentei num banco de praça, com a maleta entre as pernas, tentando aparentar tranquilidade. Ele não demoraria, talvez já estivesse me vendo de uma daquelas janelas velhas, se divertindo com a minha tensão, mas não dei esse prazer a ele, não novamente. Em um dos seus telefonemas ele mandou lembranças para Melissa antes de desligar. Melissa é minha filha do meu primeiro casamento, tem dezessete anos e mora com a mãe na Federação. Me controlei enquanto pude, antes de decidir investigar — acho que eu estava vendo muitos filmes. Quis saber se ela tinha e quais foram seus últimos namorados, seus horários, suas rotinas, coisas que eu não fazia a mais vaga ideia. Cheguei a imaginar que ela e a mãe poderiam também estar envolvidas, porém vi o absurdo a que eu estava me submetendo: era só uma jogada, e eu caí. Não sei se era a intenção dele, mas comecei a desconfiar de todos a minha volta, ninguém escapava do meu paranoico controle de desconfiança. Concluí que era uma pessoa próxima, que ele estava acompanhando meus passos, me analisando, averiguando o efeito dos seus telefonemas, aguardando o momento oportuno para me desestabilizar. Era realmente um adversário que merecia meu respeito.
Meio-dia e nenhum sinal dele, comprei mais duas cervejas e continuei na minha espera. Todos que passavam por mim eu olhava detidamente, como se a qualquer instante fosse falar comigo alguma frase solta, codificada, que facilmente eu interpretaria. Um mendigo, um flanelinha, uma estudante, um bêbado, uma periguete, uma dona de casa carregando sacolas de compras, um vendedor ambulante, um velho, todos eram suspeitos. “Nada de gracinhas”, foi a recomendação que ele mais repetiu. Quis recrutar alguns amigos que eu tenho na milícia, gente experiente que sabe fazer um trabalho limpo, sem vestígios, sem alardes, mas seria melhor não correr nenhum tipo de risco, ele parecia ser muito esperto, não era um aventureiro, sabia o que estava fazendo. A cada minuto minha ansiedade aumentava, não queria, mas estava nervoso. Mais de uma hora da tarde, quanto ainda devia esperar? Sem saber a resposta, fui ficando, entre uma cerveja e outra, até ao anoitecer.
Voltei para casa exausto, me sentindo pior do que eu estava, o pesadelo não tinha acabado, brevemente começaria tudo outra vez. A qualquer momento o telefone tocaria, mantendo o suspense, foi o que eu pensei quando resolvi dormir na sala. Ele deve ligar hoje, foi o que eu pensei quando disse para a secretária do gabinete que eu não estava para ninguém. No entanto, seguiram-se os dias, os meses, e nenhuma notícia dele. Misteriosamente, ele tinha desaparecido. O que aconteceu? Provavelmente, jamais saberei nem pretendia especular. O certo é que aprendi uma grande lição disso tudo: não negocio mais nada, nada mesmo, sem ter a mais absoluta certeza de que eu não estou sendo grampeado.
***
“A MINHA ALMA NUA”
“A minha pele de ébano é/ a minha alma nua” (Alegria da Cidade, Lazzo/ Jorge Portugal)
Houve um tempo em que eu tinha desistido de mim, não sabia o que era a luz do dia nem alimento que não fosse bebido, injetado ou aspirado. Quis cair de boca na boca da noite e acabei caindo nos dentes da Boca do Rio. Era requisitado pelos playboys da Pituba, pois constava sempre a massa boa, “a de qualidade”. Curtia a noite até a última ponta: suas dores, seus atalhos, seus clichês, suas miragens. Até conhecer Clara, uma negra de porte altivo e cabelos de nylon, que realizava um trabalho social com as prostitutas e travestis afrodescendentes da orla. Eu era útil para ela porque sabia o ponto e o nome de todas, algumas até o nome de batismo. Cheia de revolta e ideais socialistas, me fascinou seu discurso caduco, suas vestes de princesa africana e sua idolatria por Omolu, “o que mata sem faca”. Seu conceito de igualdade pouco se chocou com meu desencanto humanitário. Foi a minha pele parda, de mestiço do Recôncavo, que não combinava com a dela. Clara era o arco-íris de Madagascar, mas me considerava muito branco para o seu universo.
***
AQUELES SEIOS
Trabalho no setor de mamografia de um hospital público há pouco tempo, mas o suficiente para eu perceber que sou o homem errado no lugar errado. Não sou uma peça na engrenagem, sou um hamster na roda. Atendo oito pacientes por turno, nenhum a mais. Mulheres amedrontadas na companhia dos maridos ou das filhas, com suas tetas velhas, flácidas, pálidas, gastas e adormecidas. Para mim, indiferentes montes de carne. Até eu conhecer Dona Filipa.
Dona Filipa apareceu no meio do expediente de uma quarta-feira. Quarenta e quatro anos, seis filhos, semi-alfabetizada, moradora da zona rural. Era o que dizia sua ficha. Tomei o último gole do café frio e, enquanto assinalava mecanicamente algumas opções do formulário, pedi para ela fazer a gentileza de tirar a roupa. No entanto, quando vi aqueles seios, emudeci assustado, logo eu, tão acostumado à malta infinda de donas de casa desnudas deparei com o mais belo e perfeito par que já existiu. Antes, acreditava que peitos bonitos só frequentassem clínicas particulares. Dispensei-a sem realizar seu exame.
Alguns meses depois, Dona Filipa retornou. E novamente não realizei seu exame. Se aqueles seios tinham algum vestígio de câncer eu preferia não saber.
***
DIA DE VISITA
Hoje é dia de visita. Se fosse em minha casa, deixaria tudo arrumado, arejado. Prepararia aperitivos, abriria as janelas, trocaria as cortinas, lustraria os móveis, teria livros de fotografia e poesia na mesa de centro, colocaria os gatos do lado de fora, flores nos vasos da sala. Mas só se a visita fosse em minha casa. A visita em questão é à penitenciária, onde sou simultaneamente convidada e anfitriã. Sou eu que preparo os biscoitos, bolos, pães; compro frutas, cereais, cigarros. Esse rito semanal tem quase dez anos, desde que Pedro fez aquela bobagem, não deveria, mas me acostumei.
A palavra penitenciária é derivada de penitência, que quer dizer arrependimento de algum pecado ou culpa. Mas a última coisa que se encontra lá dentro são arrependidos, apenas amontoados de presos. A palavra presídio define melhor a situação.
Minha preocupação agora é a frente-fria que aportou sobre a cidade, dizem que nos últimos dias choveu o esperado para o mês inteiro, a capital praticamente parou, o que não é nenhuma novidade. Salvador é uma cidade de verão apenas no cartão-postal. Basta qualquer chuvinha para alagar as ruas, congestionar o trânsito, desmoronar encostas, desabrigar o povo e aparecer governante na TV fazendo promessas. Será mais trabalhoso sair com tantas sacolas debaixo desse temporal; no entanto, esperar é correr o risco desnecessário de perder o horário de visitas. De ônibus, com sorte, chegarei em duas horas.
O diretor do presídio, para não criarmos vínculos, costuma revezar as agentes que fazem a revista: procedimento inútil. Venho aqui há tanto tempo que sou amiga de todo mundo, nem me revistam mais. Porém hoje a funcionária nova quer que eu deite e abra as pernas, pede com a autoridade de recém-empossada. Ela está toda orgulhosa em seu colete preto, deve ser do tipo que engraxa repetidamente os sapatos e o distintivo. Não me incomodo, passo pelo constrangimento como se fosse uma consulta ginecológica.
Enfim, o portão principal é aberto e o primeiro grupo revistado é liberado para entrar. Voltou a chover forte. A área de visitas fica numa galeria do outro lado do pátio.
Não é permitida a entrada de guarda-chuvas.
Herculano Neto nasceu em Santo Amaro da Purificação (BA). Publicou pela Fundação Casa de Jorge Amado o livro de poesia “Cinema” (Prêmio Braskem Cultura e Arte, 2007) e pela Coleção Cartas Bahianas da Editora P55 o volume de contos “Salvador abaixo de zero”. Organizou a coletânea de contos inspirados em canções de Raul Seixas, “Outro livro na estante”, pela editora Mondrongo; pela mesma editora lançou “A Casa da Árvore” (poesia).
precisa-se de uma solidão escolhida
uma bem vinda solidão vivida
precisa-se de uma dor incrustada na vida
vinda desde sempre e não tendo previsão
nem modo nem como sair
precisa-se de uma respiração divina
uma mão que pousa por cima
e escreve por mim
precisa-se enfim
de um começo
jamais de um fim
***
náufrago
num barco
q começa a afundar
o pânico ameaça
porque todos e sobretudo
os marinheiros só falam
obstinadamente
a língua das navegações
e nenhum fala
a língua
dos afogados
***
lázaro
incinerado
em segredo
sem amigos
em lugar
desconhecido
sem família
sem cerimônia
sem público
sem privé
a morte reinventada
parte imensa calada
queima sem alarde
sem brasa
o amor nunca precisou
de terra nem de fogo
nem de olhos ou choro
o amor
pó enraizado
esfumaçado em canto e mãos
de lázaro
cobriu as pálpebras
e se transformou
***
bambu
na altura do coração
nos tornamos surdos
relva bambu vento
surdos fomos o mundo
o templo a areia o irresoluto
semelhantes de esquecimento e ilusão
***
escuro
no escuro
tirando
o sapato
meio caindo
abrindo a porta
com cuidado
embriagada
falando baixinho
tropeçando e rindo
chorando um pouco
limpando o rosto
fazendo shhhhhh
com o dedo
no movimento
do corpo
no escuro
da madrugada
me flagrei
irremediavelmente
só e descalça
voltando
pra mim mesma
***
em segredo
que algumas coisas continuem
nos acompanhando em segredo
que a água entre nossos dedos
que o gesto desamparado
que o murmúrio derradeiro
que o medo o medo o medo
que a recém inaugurada
livraria da cidade
que a ternura do banco
que o desbotado do traço
que o pacto com o silêncio
que a praça a praça a praça
que algumas coisas continuem
nos socorrendo caladas
que a voz enrouquecida
que a vida despreparada
que o beijo que desafia
a infância abandonada
que a fala a fala a fala
que algumas coisas continuem
na coragem da viagem
no encontro com si mesmo
na aliança com o pequeno
na certeza do improvável
que algumas coisas permaneçam
nos guardando em segredo
nos dedos nas águas nas praças
nos gestos na entrega na fala
no consolo do vento
na miséria que apunhala
que a vida que não existia
que a neblina na vidraça
que o papel preto ardendo
que o lamento o lamento o lamento
que o que continua é o efêmero
no anseio no quarto desarrumado
Patricia Laura Figueiredo (pat lau), entre São Paulo, onde nasceu e se dedicou à poesia e ao teatro desde cedo, e Paris, onde mora desde 1990, amadureceu seus poemas numa vida dedicada a tornar o poema uma experiência essencial. Publicou o seu primeiro livro de poesias, “Poemas sem nome” (Ibis Libris) e seu segundo, “No Ritmo da Agulhas” (Patuá) em março de 2015. Participou de várias antologias, no Brasil e na Alemanha e também em diversas revistas digitais de literatura e poesia. Acaba de publicar, pela Editora Dasch, seu terceiro livre de poemas “Poemas Bebês”.
No lançamento de O ser humano na era de sua reprodutibilidade tática (Ed. Patuá), livro de Valerio Oliveira, a criança que me acompanhava disse ao observar a capa: “Olha, esses monstrinhos seguem uma ordem: vermelho, azul, verde, vermelho, azul…”. Ela estava correta.
O título deste livro de poesias é uma paródia – ou atualização – do ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin. Muito resumidamente, a ideia do ensaio é que, sob a égide da reprodutibilidade, a obra de arte teria perdido a sua singularidade e, portanto, seu sentido mais originário: dar a conhecer algo de seu mundo próprio.
O foco dos poemas de Valerio são os seres humanos na (e da) contemporaneidade, período em que os avanços técnicos e tecnológicos atingiram patamares elevados a custos muito altos e são disponíveis a uma mínima parcela da população. Além disso, como já escreveram Horkheimer e Adorno muitas décadas atrás, na conjuntura em que realidade e ideologia correm uma para a outra, os comportamentos dos sujeitos, banalizados entre realidade e artifício, padronizam-se. E, como nos mostra Valerio Oliveira, tem sido assim cada vez mais.
Com humor ácido, metalinguagem e, inclusive, alguma dose de lirismo, o poeta convoca o leitor, pela via da sensibilidade e reflexão, a vivenciar o estranhamento e o incômodo justamente ao se reconhecer em suas personagens. Distante de uma perspectiva panfletária, portanto, os poemas resgatam o leitor (ser humano) de sua reprodutibilidade tática pelo negativo. É ao tomar contato com a reprodutibilidade humana, tão estranha quanto familiar, que nos damos conta de sua singularidade, ainda que às custas, por exemplo, do desconfortável “ombro com ombro com ombro com ombro” (“Deus salve o Estado”).
Poética singular e múltipla
O casal que passeia pelo apartamento (“Ordem e desordem”), o sujeito que sai do cinema de mãos dadas consigo mesmo (“Final feliz”), as “Verdades sem olhos ou pernas”, título da primeira parte do livro, e as “Mentiras sem boca ou braços”, título da segunda, são emblemas dos seres humanos desenhados por Valerio: fragmentados, amputados, esburacados, e equivalentes em sua mediocridade. Nesse sentido, a capa, de autoria de Teo Adorno, é muito apropriada. Os monstrinhos seriais, sagazmente percebidos pela criança que me acompanhava, são metáforas visuais daquilo que somos.
Não é aleatório, portanto, que os últimos poemas do livro abordem as ambiguidades contidas na relação eu-outro: “Eu e os outros”, “Obras completas de Valerio Oliveira”, “World burly brawl” e “Os trinta Valerios”. Dessa perspectiva, o livro torna-se ainda mais interessante. Sabe-se que o autor desdobra-se em múltiplas personas.
Nos anos 1990, surgiu um talento na literatura brasileira: Nelson de Oliveira (embora o próprio tenha me confidenciado que Valerio nascera antes, mas Nelson foi o mais celebrado). Ocorre que, ao desdobrar-se em quatro – Valerio Oliveira, Luiz Bras, Teo Adorno e Nelson de Oliveira –, o artista singulariza-se ao limite, pois assume-se múltiplo.
Diferentemente dos seres fragmentados, da capa ao interior do livro e às páginas do mundo, a unidade da poética do autor decorre justamente da comunicação entre os diversos. A um só tempo singular e múltipla, sua obra é uma espécie de alternativa – irônica, cômica, crítica – aos cenários banalizados retratados no livro.
O milagre da expressão
Como um pode ser quatro, ou mais até? Como explicar experiências que atravessam gerações, simultaneamente reais e ilusórias? O mais provável é que não haja explicação, mas, como escreveu Clarice, “viver ultrapassa qualquer entendimento”. E a literatura, essa trama expressiva do sensível, de fato promove milagres. Como o que eu comecei a vivenciar na Bienal do Livro de São Paulo, cerca de dez anos atrás. O sonho de me tornar escritor crescia, sempre alimentado por uma de minhas maiores incentivadoras: minha avó. Pois bem. Lá na Bienal ela me disse: “Escolhe qualquer livro para eu lhe dar de presente”. Escolhi Subsolo infinito, romance de Nelson de Oliveira, livro que guardo com muito carinho.
Não poderia imaginar naquele domingo, na Bienal, que dez anos depois eu estaria lançando meu quarto livro, que me lembraria desse dia ao ver Nelson de Oliveira (ou seria o Luiz, o Valerio, o Teo?) se aproximar para eu lhe fazer a dedicatória no (meu) livro. Tampouco imaginaria que, enquanto escrevia a dedicatória, veria a minha avó de rabo de olho, e pensaria em chamá-la para perguntar se ela se lembrava daquele dia na Bienal e apresentá-la ao autor do livro que ela me deu de presente, e que não haveria tempo para nada disso, porque, na era da reprodutibilidade tática, o próximo da fila já abria o seu exemplar para eu assinar.
Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutor em Psicologia Social pela USP, é autor do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp), da novela Castigo (E-galáxia) e dos volumes de contos Do avesso (Com-arte/USP), Silente (7Letras) e Girassol voltado para a terra (Ateliê). Colabora regularmente com textos sobre cultura para veículos como a revista Cult e o Observatório da Imprensa.