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110ª Leva - 04/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

 

Diante das várias formas de se ler o mundo, ficamos cientes de que dispomos de alternativas válidas de reflexão. Podemos optar por nos posicionarmos em relação a uma série de situações e temáticas, elegendo um norte a seguir. Ou simplesmente temos também a possibilidade de quedarmos mudos e impassíveis. Não é difícil concluir porque a arte, sob suas mais difusas acepções, prefere aqueles que se posicionam diante da vida. Seja criador ou não, quem se envolve com as vias sugeridas pela ambientação artística jamais vive as coisas impunemente, ou melhor, passivamente. Há posicionamento por parte de quem escolhe uma linha criativa e a conduz adiante. Por seu curso, há também posicionamento quando alguém consome o produto da criação de um determinado autor. Mesmo estando em perspectivas um tanto diferentes, emissores e receptores dos conteúdos transitam por um solo comum de expectativas e arremates. É claro que as identificações podem não ocorrer de imediato, fazendo com que aproximações de pontos de vista necessitem de certo tempo de maturação, construindo um ritual de tácitas negociações. Esse intervalo de reconhecimento pode tanto revelar semelhanças de comportamento quanto rechaçar ideias sugeridas. Em que medida, por exemplo, quem escreve negocia com quem lê? Há limites para que surjam concessões mútuas? Tais questionamentos são pertinentes quando se pretende entender que tipo de relação atravessa autores e leitores. Muito se defende que um escritor produz para si mesmo para, em última e desinteressada instância, verificar se aquilo atinge seu público de algum modo. E talvez seja esta última uma checagem que nada tenha a ver com satisfação por um mero reconhecimento, mas sim pelo fato de que alguém acidentalmente partilha das mesmas convicções. Trata-se do autor que se importa mais consigo mesmo, ignorando se o resultado de suas elaborações atingirá alguém enfaticamente. Por outro lado, há quem crie para buscar no seu leitor um eco automático de suas representações. Este, por sua vez, provavelmente tenta vislumbrar o que é relevante para seu público. Talvez seja difícil mensurar com exatidão se há um patamar que equilibre essas duas formas de atuação. São especulações a nos rondar de modo permanente e o que importa mesmo é saber que a liberdade guia tudo isso. Na linha que implica em se posicionar diante da vida, rendemos escutas às opiniões do poeta e performer Alex Simões, o qual, numa entrevista, fala sobre sua trajetória literária, o momento atual do país e outros temas inquietantes. São os versos de Mariana L., Adriana Brunstein, Sónia Oliveira, Clara Baccarin e Alvaro Posselt que também demarcam territórios ativos em torno das epifanias mundanas. É Jorge Elias Neto quem nos apresenta a coletânea de poemas de William Soares dos Santos, materializada no livro “Rarefeito”. Larissa Mendes volta a visitar o trabalho do músico Baia, desta vez com um novo disco. O mais recente filme da saga Mad Max recebe a detalhada análise de Guilherme Preger. Testemunhamos também todo o vigor narrativo dos contos de Fernanda Fazzio, Héber Sales e Roberta Silva.  Numa precisa leitura, Sérgio Tavares volta suas atenções para o novo livro de contos de Dênisson Padilha Filho. A arte da espera pauta uma exposição com as fotografias de Suzana Latini por todos os cantos dessa nova edição. É a 110ª Leva e seus caminhos, caros leitores! Sejam bem-vindos!

 

Os Leveiros

 

 

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110ª Leva - 04/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

 A Musa como salvação no absurdo da vida no livro Rarefeito – William Soares dos Santos

Por Jorge Elias Neto

 

RAREFEITO

Sempre é oportuno relembrar que a leitura atenta de um livro começa pelo nome com o qual o autor convida o leitor à leitura – sobretudo quando se trata de um livro de poemas. O poeta costuma buscar a densidade em cada palavra, um visgo que grude na capa toda uma carga de significantes e emoções transfigurados em linguagem.

No caso do livro Rarefeito, do poeta e professor William Soares dos Santos, recentemente publicado pela Ibis Libris, esta observação inicial se faz relevante. Afinal, trata-se de um autor oriundo da academia e estudioso de literatura. Esse aspecto também não passou despercebido ao poeta e ensaísta Antônio Carlos Secchin que, no início do seu prefácio ao livro, nos diz que, “apesar da insinuação do título, rarefeito, o autor, parece operar no domínio de um real bastante denso, pleno de amores e de humores”.

O título do livro, em consonância com o que nos diz o linguista José Augusto Carvalho, sugere, em um primeiro momento, pelo menos duas leituras: o adjetivo rarefeito (que significa “menos denso”) e a palavra-cabide ou palavra-portmanteau (também chamada “palavra entrecruzada”) rarefeito, formada pelo amálgama do adjetivo raro com o substantivo efeito  (raro efeito).

No primeiro caso, o título sugere simplicidade; no segundo, sugere algo novo, raro, diferente. Em ambos os casos, o título sugere ou antecipa o efeito que os poemas provocarão no leitor. Vasculhemos então o que inspira, espira e aspira o autor de Rarefeito.

E o sentido de Rarefeito já ensaia seu contorno nos versos do poeta Inglês William Wordsworth, escolhidos para compor a epígrafe da obra. Neles, o grande poeta romântico homônimo de nosso autor, instiga seu eu lírico a erguer-se: “Up!up! and drink the spirit breathed/From dead men to their kind.”

Somente a literatura e o acaso possibilitaram que esses versos escritos no século XVIII chegassem aos ouvidos do nosso poeta, e soassem assim tão pessoais, provocando-o ao inquirir: “Why, William, on that old grey stone,/ Thus for the length of half a day,/ Why, William, sit you thus alone,/ And dream your time away? ” Finalizando com um desafio:”Where are your books? – that light bequeathed/ To Beings else forlorn and blind!”

E já em Rarefeito, primeiro poema do livro, William Soares nos diz, a seu modo, do imenso desconhecido contido entre o céu e as profundezas terrestres; inicia assim um diálogo presente ao longo da obra – nesta feita com o homônimo William Shakespeare – com os cânones da poesia mundial.

Vejamos:

 

Quero ser tomado,
elevado à montanha mais
alta e submerso ao mar mais profundo.
o que sei de mim é
um constante não saber.

 

Ao seu modo, lançando mão da metáfora, o poeta também ensaia a superação do absurdo.

Sabemos o sentido de urgência do homem contemporâneo, a necessidade de lançar-se no desafio dos limites, na busca de embriagar-se com endorfina.       

Enquanto seus coetâneos, de forma cada vez mais radical e, por vezes, inconsequente, buscam desafiar seus limites se confrontando com ambientes inóspitos, com condições atmosféricas pouco afeitas ao conforto, seja nos picos montanhosos – que se caracterizam por um ar menos denso (rarefeito) e com menor concentração de oxigênio – seja nas profundezas dos Oceanos que oferecem o risco das grandes pressões, comprometendo a lucidez e a coordenação motora, o poeta também busca o desconforto que lhe proporcionará – pelo menos em tese – a experiência criadora.

 

Quero ser tomado de mim,
atravessado pela luz
mais pura que antes
nunca se afigura.

acordei num dia novo e
claro, no qual o ar não está
rarefeito
e nada cala
dentro de mim.

Quero ser tomado do mundo.
a minha passagem será
apenas vento, talvez sombra,
talvez tempo, mas nunca
desatino.

Brancura serena da primavera,
negrume pacificador da alta
madrugada.

 

Disse-nos Emil Cioran: “Escrever seria um ato insípido e supérfluo se pudéssemos chorar à vontade… Se cada vez que os desgostos nos assaltam tivéssemos a possibilidade de nos livrar deles pelo pranto, as doenças vagas e a poesia desapareceriam. Mas uma reticência inata, agravada pela educação, ou um funcionamento defeituoso das glândulas lacrimais, condena-nos ao martírio dos olhos secos.” Daí a admiração de Cioran pelos poetas, por sua capacidade de mostrarem-se isentos de pudor – e agora cito as palavras de Nietzsche – em relação às próprias experiências; esta capacidade única de explorar o que tantos tentam omitir e dissimular.

E o poeta dialoga com seu desassossego. Reconhece ser mais um pássaro, entre tantos, grudado nas partituras dos fios elétricos das grandes Metrópolis. Sabe seu espaço no sem sentido, e ensaia um arremedo de liberdade: Um pássaro não é o pássaro,/é um pássaro qualquer.//branco?/pode ser,/para combinar com o azul deste mar,/para ser livre como todos os ideais de vida.// livre como não sou,/livre como não sei o que é ser livre.// mas imagino,/tento,//um pássaro qualquer,/livre,/ser.

E “a dor ladra no tempo”, esse tempo só nosso, em que transgride¹ e nos diz o poeta: ainda que permanecesse/eu seria apenas a lembrança tangível/que insiste na permanência/da intangibilidade de ser. Quantos de nós não sentimos essa náusea sartreana diante da imanência…

E rodopia sem direção,/gira,gira o pião de Sísifo.

Diz-nos Camus que, diante do absurdo, uma das alternativas é o “salto” para a religião. No presente caso, vemos o eu lírico – nesta feita no poema “Crístico” — apresentar-se como aquele que segue os preceitos cristãos da austeridade e do amor. É o herói que suplanta qualquer complexo de heroísmo.

Mas, ao modo de Augusto dos Anjos, William Soares nos diz que nem o poeta profeta sem intenção,/à margem da lição, nem o alquimista que dialoga com os símbolos de Jung, nem mesmo o físico que vê o mundo calculado,/matematizado, equilibrado não sabem o que é o mundo. São como uma criança, com seus olhinhos arregalados, esbugalhados de/surpresa diante da flor que recolhem/todas as manhãs.

Será o tempo é uma brecha que esconde o vento que sopra no rosto imaturo do mundo; ou seria no rosto do homem?

O que resta ao poeta, qual o caminho possível diante da incerteza? A resposta vem de “um anjo azul” que propõe que o poeta toque sua lira. E é essa “lira moderna” que acalenta o poeta e o anjo. Ambos condenados – o imortal e o mortal – à “solidão eterna” dentro de um mundo-prisão circundado pela “grande muralha”.

E o poeta se rebela, e se lança ao mar, pois a leste está a mais bela baía do mundo:

 

No mar que me transporta,
Vejo que não são os meus olhos que veem,
Mas eu que vejo através dos meus olhos.

Eis aí o poeta ensaiando seu eterno retorno à Pasárgada…

Já na República de Platão, Sócrates alerta a Adimanto que as fábulas mentirosas compostas por Hesíodo e Homero seriam contadas aos homens. E entre elas encontrava-se a vingança de Cronos contra seu filho Urano. E, vencendo Cronos, o poeta insiste em despertar a cada dia:

o mundo pesa
sobre mim,
serpente incinerada do estar
que me apeçonha em cada
instante do viver,
ainda quando rasga,
sanguínea e fresca,
a madrugada.

 

E eis que surge a Musa…

 

Somente ela
me trará
o grande sono
na madrugada.

O sono borbotado
de azul,
tão diverso
do cativo desejo
em que me encontro e que me aprisiona
na imensidão do anoitecer.

 

Em seu livro L´amour fou, André Breton nos apresenta o conceito de “acaso racional”. Aquele encontro “inesperado” ― inconscientemente já “agendado” ― com a musa. O grande encontro entre o poeta e a poesia. E muitos dos poemas trazem um poeta e suas luxúrias.

Mas uma nova surpresa — talvez mais uma vez a náusea existencialista leva o poeta a observar:

e eu sou feito um ladrão roubado pelo roubo que leva,
neste anseio de mais abrir o sorriso da boca nascida.

O poeta retorna às areias da praia cantada e à sua calçada de ondas negras e alvas. E depara com os indivíduos que buscam, em rumos distintos, alinhavar suas vidas e por um instante se esquece que é pós-moderno.

Whitman afirma e o poeta inquire: o que fazer com essa inquietude constante e com o desejo de ser muitos? ― lidar com a contradição humana.

Mas restam-lhe a musa e o amor.  E eis aí a densidade possível ao poeta – a pele e o gozo.

Entretanto tudo indica que o meu caminha mais longo será mesmo a solidão.

Mas talvez, como diz o protagonista do livro Náusea, de Sartre, “a margem da solidão”. Um ponto equidistante entre o isolamento e o acesso ao outro.

Mas como isso acontece? Talvez o poeta dissimule, pareça perdido, rendido aos atos costumeiros, diuturnamente… Mas, quando do primeiro estalo da palavra, talvez ele se sobressalte e se lance ao chão para salvar a flor… Resgatar a imagem primeira da musa:

Torna-me à mente
Do teu corpo
A imagem da primeira vez.

eu, inquieto mendicante,
de teu corpo desejante,

a febre tolhia-me o sono,
e entre a penumbra surgiu a tua imagem
a desnudar-se em plena alvura
enquanto tudo se apascentava no hemisfério.

Embora não me governasse,
Me detive em tuas costas,
Como se os astros, a aurora
E o silêncio compactuassem.

Trazia-me o ansiado deleite
Fazendo de meu corpo a chave mestra
Que abria portas à sinistra-destra.

Pensamentos revoavam,
Enquanto eu calava e me concedia,
Tímido e inexperiente,
Às voltas de teu corpo.

Fechei os olhos,
O que palpitava de novo em meu peito?
Menino de nove mais nove sóis,
Tudo se confundia com desejo.

Todas as palavras então ficaram,
Tentativas inexpressivas de retratar
A gravidade de teu corpo.

 

E eis novamente William Wordsworth a nos dizer que “a poesia é o transbordamento espontâneo de sentimentos intensos: tem a sua origem na emoção recordada num estado de tranquilidade”.

O que propõe de novo um poeta pós-moderno?  Talvez o reencontro com a musa, não de uma forma piegas e descompromissada, mas sim através dos clássicos e dos grandes poetas (complementação de rarefeito).

Pois ele nos diz como no poema intitulado Ulisses:

depois de tudo
deixo o teu leito com tudo o mais de óbvio:
molhado de suor,
com a face relaxada,
e uma ferida
encravada no dorso.

deixo o teu leito
como quem
cumpriu uma promessa,
esperando o pão com manteiga
que chega com o cheiro do café
perpassado pela alvorada.
deixo o teu leito
com a incerteza
de um retorno tranquilo
à minha ítaca sonhada
– barco sem porto
faço de ti meu ancoradouro –
deixo o teu leito
com um adeus
desacenado
de quem procura te
encontrar,
– após batalhas
contra troianos, ciclopes e
sirenes encantadas –
Na próxima
dedirósea manhã.

 

Diz-nos Antônio Carlos Secchin no prefácio que  “… é nessa tensão – de dizer-se pelo viés de transformar-se em algo sempre diverso – que reside a força maior de rarefeito”.

Não sou crítico, nem pertenço à Academia. Percorri o livro como leitor de poesia e poeta, e digo que não foi difícil. Vivo neste mesmo ambiente, muitas vezes inóspito; embriago-me na mesma altitude onde é raro o oxigênio e onde a tontura deixa obnubilada nossa memória; indago as mesmas coisas; percorro os mesmos beirais, vou de leste a oeste, consciente da imanência do corpo e, como no poema, “Vésper”,

eu,
vésper celeste,
despeço-me
de minha
imortalidade
para, enfim,
encontrar em
teu corpo
– em não mais que uma hora
eternamente breve –
a luminosidade
inebriante do pulsar
do perecível

agarrando-me à musa, nessa falsa transcendência do infinito instante.

Jorge Elias Neto (1964) é Capixaba, reside em Vitória – ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia (Prêmio SECULT – ES – 2013), Glacial (Ed. Patuá – 2014) e Breve dicionário (poético) do boxe (Ed. Patuá – 2015). Colabora com poemas em vários blogs e na revista eletrônica Germina, Diversos Afins, Mallarmargens e no Portal Literário Cronópios. Membro da Academia Espírito-santense de Letras onde ocupa a cadeira de número 2.

 

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110ª Leva - 04/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Sónia Oliveira

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

anamnese

 

sofro
de obstipação emocional unilateral
tenho de fazer um clister a uma aurícula e a um ventrículo
e de laquear a veia do nariz
para me vedar a coágulos e a cheiros espessos
e comer uvas
uvas lavadas na água da chuva
e comer maçãs
maçãs lavadas na água do mar
ir
com as marés
chegar
ao contrário das fases da lua
ficar
onde tudo permaneça em movimento
e
terno

 

 

 

***

 

 

 

tudo

 

tapei-te os medos com ligaduras
embebidas em mel cicatrizante
meticulosamente arrancadas
à minha própria pele
dando nós pequenos
quase invisíveis
que não se prendessem na roupa

sorvi-te os grãos de ansiedade
como pólen que transformava em tempo
bebi-te as palavras ínvias
com os meus lábios feridos
que não chegaste a sentir

ficou-me o travo amargo na boca
a ferida no lugar da pele
e o frasco vazio do mel
que hei-de lavar com água quente
para aquecer as mãos
e reutilizar um dia
sem tampa

 

 

 

***

 

 

 
strawberry passion

 

é elástica a dor
expande-se e comprime-se
de acordo com o seu acordo
mastigo-a compulsivamente
receio perder-lhe o sabor
mastigo-a com os ossos com as veias com os pulmões
perfuma-me
emulciona-me
pre
enche-me

 

 

 

***

 

 

 

janus

 

é estreito o corredor desta casa
há que passar de lado
roçando os ombros o peito
as coxas e os calcanhares

a dada altura o corpo é parede e a pa
rede corpo
como se a verticalidade se impusesse
numa espécie de ética física
talas em vez de pórticos
um corredor sem portas
que desem
boca não se sabe onde

a cal cobre a pele de pó
e os dedos deixam um rasto de estrelas
sem frente nem verso

 

 

 
***

 

 

 
frango com esparguete

 

dois corpos
dois copos vazios
um corpo
janelas fechadas
almas escancaradas
dois corpos
a mesa posta
o jogo na mesa
quatro pratos sujos
a televisão acesa

 

 

 
***

 

 

 
dieta

 

no precário equilí
brio das horas
balanço o meu peso
peso o meu balanço
e não consigo andar direita
a dieta não se compadece
do lastro
e a gravidade suga-me a alma
mais do que devia
de dia
arrasto um saco de sombra
que o sol me impõe
à noite
sou toda sombra
e arrasto-me
saco de pele e s
obras

 

Sónia Oliveira  nasceu em Luanda, em 1972. Estudou literatura na Universidade Nova de Lisboa. Traduz livros e filmes. Tem textos publicados nas revistas online Preguiça Magazine, Minguante, no fanzine suíço Milk+Wodka, na antologia de poesia visual, nas revistas Flanzine e DiVersos, Poesia e Tradução, assim como em vários números da publicação Nem Só de Gin Vive o Pinguim. Participou na exposição itinerante Poesia Quase Anónima – A Poesia na Blogosfera Portuguesa, realizada pela associação Mercado Negro, Aveiro. Mantém, desde 2006, o blogue triplicado. Em 2012 publicou o livro de poesia antenas, uma edição pirata da Palavras por Dentro.

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110ª Leva - 04/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Fernanda Fazzio

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

 As definições acerca do Belo são há muito tempo o alvo de inquietações de filósofos e de artistas. E é devido a elas que se tornou possível reconstruir uma história da estética. Contudo, o mesmo não aconteceu com o Feio, havendo poucos tratados e considerações relevantes sobre o tema. Aqui, partindo das reflexões de Umberto Eco, não se pensa o Feio em oposição ao Belo, mas sim em suas características peculiares, considerando conceitos próprios, relativos aos vários períodos históricos e aos seus estranhamentos nas diversas culturas.

 

A primeira margem

 

Eu sou o Bobo da cidade. Porque, em todas as cidadezinhas com pôr do sol entre as montanhas, precisa-se de um tolo, de um idiota, daquele a quem todos se referem como o lunático-fracassado-da-cidade. Sim, eu, muito prazer. Mas nada peço a ninguém, não preciso de esmolas, só propicio um encontro quando me ordenam. Eu, descuidado, vivo assim mesmo, no meio-fio de uma existência imprecisa. Um poeta um dia disse: “Esquecer é des-existir”. E fiz disso meu amuleto profético, eu não desisto, eu existo tecendo o vislumbre do invisível.

No começo dos tempos, já invejei os homens engravatados da cidade grande, aqueles que saem de casa com aroma de pó de café. Percebo que gozam de uma rasa felicidade, agarrando com destreza uma gravidez próspera de certezas, mas não percebem que são escravizados dia a dia por aquilo que mais lhes falta: tempo. E depois se corroem pelos equívocos de suas vidas empacotadas – meras verdades chamadas de absolutas e que costumam ser levemente incômodas. Isto também acontece por aqui, algumas pessoas se acham, sem mais, imortais. Formados para obter resultados, às vésperas do dia final, arrependem-se de uma existência com sentidos rasgados, amores incompletos e escolhas interrompidas em uma vida que não valeu a pena ser vivida. E o que lhes resta? O indizível, eu lhes digo, junto ao seu último suspiro.

Eu logo percebi que essas coisas não eram para mim, sujeito de uma autoria que não se escreve em pauta, mas que se esgarça entre uma linha e outra da existência. Foi então que, certo dia, adormeci no trajeto, cheguei até o final da linha do trem e, distraído, vim parar aqui em Vila Grandina.

Sou odiado por muitos, não nego. Por sempre conversar com os detalhes inquietantes da cidade, sutilezas despercebidas aos olhos comuns, sou conhecido por muitos como “aquele lá”. E quando me chamam, algo da ordem do oculto parece surgir. Mas, como eu lhes disse, sou necessário aqui. Sem mim, Vila Grandina se tornaria uma cidade ainda mais morta, sem memória, sem lembranças, sem passado nem mesmo uma história.

Admito que meus pensamentos desaforados são como as águas dos grandes rios. Em tempos de chuva, chegam como enchentes aos ouvidos desavisados. Minha consciência lampeja quando sou tomado por ideias estranhas sobre os moradores daqui. Meu talento é decifrar as pessoas desta cidade, até aquelas que parecem mais assustadoras do que eu. Eu sei de tudo, conheço o jeito de cada andar, os seus perfumes caros ou comprados de viajantes clandestinos, os vícios mais secretos e as singelas virtudes em suas vicissitudes. E também o mais terrível escondido: eu sei dos segredos, das histórias contadas por jurados, dos encontros sorrateiros, até das lembranças que deveriam permanecer esquecidas, que faço retornar como reminiscências opacas.

Moro nas coisas deixadas pelas pessoas. Carrego tudo o que posso comigo, nunca me desfaço de nada, tudo aqui assim, junto a mim, nesse lhano carrinho de mercado. Ando a cidade inteira com ele. Os moradores de Vila Grandina se livram do lixo de suas casas, mas não conseguem tirá-lo do bairro. E as pessoas me veem atravessando as ruas com essa carga de outros e não me compreendem. Crença ou ciência, eu também já desisti de tentar explicar sobre as incessantes vozes lancinantes e memórias perdidas. Mas mesmo assim elas me dão comida, às vezes um casaco ou um livro. Talvez porque ainda me reconheçam dos anos de trabalho na Biblioteca Municipal, dos tempos de uma vida ordenada, regrada por garantias institucionalizadas. Contudo, foi preciso abdicar de tudo, essa minha essência necessita de solidão, de quietude sem lugar comum. Só assim chego à superfície do manto de angústia quase insuportável, meu companheiro fiel no desespero gelado.

Nunca se viu por aqui, nem se ouviu de terras longes, do enterro de um anão, menos ainda de uma anã. Talvez eles nem se autorizem a aparecer com as marcas do tempo. Eu sempre penso sobre isso. Os anões não morrem, como dizem, viram alguma outra coisa, não se sabe ao certo à qual maldição estão destinados. Crueldade ou destino, pouco importa agora, as atitudes mais terríveis são por vezes camufladas em perfumes importados e saltos de verniz, doces vozes escondem as ações mais desagradáveis.

Às vezes eu vou até os trilhos abandonados onde a pequenina foi encontrada e me recordo do dia em que ela chegou aqui. Fico à procura de alguma explicação para não deixar aquele corpo condensado morrer em mim. As vozes silenciam naquele lugar, acho que não podem se manifestar ali, há sem dúvida algo de sagrado nos cascalhos. Por isso, quando estou perturbado em meus devaneios confusos, vou até a estação para tentar assentar minha cabeça no lugar. O único que me acompanha fielmente nesses retiros é Preto, ficamos sentados nos trilhos, olhando um para o outro, desatando sentidos em um infinito sem tempo. Eu tenho cá para mim que ele sabe de tudo, mesmo em sua condição de gato que emudece o seu miado, eu sei que não ignora o fim da pequenina. Nós bem sabemos que ela deixou esse mundo na sutileza da sua menor grandeza.

 

Fernanda Fazzio é psicóloga pela PUC-SP e bacharel em Teatro formada pela Escola Superior de Artes Célia Helena (ESCH). Buscando aperfeiçoar a sua escuta clínica, especializou-se em Semiótica Psicanalítica: Clínica da Cultura (PUC-SP) e realizou a sua formação em Psicanálise com Crianças pelo Instituto Sedes Sapientiae. Escreveu a “A Inquietante Beleza do Feio” (Patuá, 2014), livro de ensaios e contos poéticos sobre as máscaras, o feio e a criação artística.  

 

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110ª Leva - 04/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alvaro Posselt

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

Uma folha cai
Sem pressa a estação começa
dentro do bonsai

 

 

***

 

 

Na ponta do anzol
um isqueiro serve de isca
pra fisgar o sol

 

 

***

 

 

Embala o meu sono
É rede sem ter parede
o vento de outono

 

 

***

 

 

Passa a correnteza –
O reflexo da libélula
o rio não leva

 

 

***

 

 

Nem fome nem sede
O gato em cima do telhado
é só um quadro na parede

 

 

***

 

 

Dias desiguais
Agosto deixa no rosto
uma ruga a mais

 

 

***

 

 

Na pauta tem blues
As aves enchem de claves
os fios de luz

 

 

***

 

 

Repleta de inseto
a casa tem um par de asas
em cada objeto

 

 

***

 

 

Um passo e dois tombos
Sem ai, o bêbado cai
sobre os seus escombros

 

 

***

 

 

Brisa da manhã –
O olhar é mais lento
que o carro de bois

 

Alvaro Posselt nasceu em Curitiba. É professor de português. Publicou “Tão breve quanto o agora” (2012), “Um lugar chamado instante” (2013), “Entre arranhões e lambidas” (2014) e “Kaki” (2015). Alguns de seus poemas estão nas embalagens de Poëse, novo sorvete da franquia Los Paleteros, e também fazem parte de um mural na Travessa da Lapa, centro de Curitiba. Divulga voluntariamente o haicai através de oficinas em escolas públicas.

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110ª Leva - 04/2016 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

BAIA – A FÚRIA DO MAR

 

capabaia

 

Se a publicação de uma obra é um processo semelhante a gerar um filho, Maurício Simão de Moraes – Baia, para os íntimos ou não – é Mr. Catra e não pai de primeira viagem. Explico: lançado em dezembro pela Som Livre, A Fúria do Mar (2015), é fruto da licença-paternidade do músico após o nascimento da primogênita, Dora, hoje com 2 anos. Brincadeiras e exageros à parte, as 13 faixas do sucessor de Com A Certeza De Quem Não Sabe Nada (2013) transitam entre MPB e pop-rock (com um quê nordestino), do baiano radicado no Rio de Janeiro. Entre fraldas, mamadeiras e regravações (pela primeira vez Baia interpreta canções de outros artistas em um álbum solo), o compositor não perde a doce doçura e nem os versos certeiros, seja para falar de amor ou de política. As três faixas lançadas no EP Ladrão Que Rouba Ladrão, ainda em setembro do ano passado, deram uma prévia do que viria a ser seu oitavo registro: o mar até pode estar em fúria, mas Baia está em festa.

A primeira faixa, a homônima A Fúria do Mar (é canoa furada/não tem bóia/nem bote salva-vida/é caso perdido/não tem dó/não dá pé/não tem saída), composição de Gabriel e Pedro Moura, lança o álbum na correnteza, com um balanço peculiar de barco em alto mar, avisando que “quem não tem fé, aprende a rezar”. Se Namoro (fui lá na Igreja pra rezar/pra pedir tudo o que faltou/pra Deus me dar o seu amor/levar daqui a solidão/vou seguir meu caminho) contesta o futuro de uma relação, a poética Muda (a voz a melodia/o amor a vida/o sol o céu do dia/o sal a comida) comprova as inevitáveis mutações do viver. A canção que batiza o EP, o rock Ladrão Que Rouba Ladrão (dizem que eu roubei um banco/saí do caixa com o dinheiro na mão/segui com minha cabeça erguida/fui um ladrão que rouba ladrão) ilustra bem nosso questionável sistema bancário. Enquanto a paternal Dora (bem-vinda à nossa terra/aqui começa a sua história), é uma homenagem ao nascimento da filha, Toda (quero você com teus erros/defeitos, segredos/tua forma de gostar/quero você do teu jeito/porque se eu te quero/eu tenho que te aceitar/toda), da banda Mané Sagaz, possui a tônica poeta-palhaço de Baia, citando de Nietzsche a Glauber Rocha (passando pelos sorvetes Häagen-Dazs).

Baia
Baia se banha nas águas d’A Fúria do Mar / Foto: divulgação

Quanto às versões, os destaques ficam a cargo da sempre contagiante Caio no Suingue (eu tô cantando, você dirigindo/o outro tá rezando, alguns se divertindo/muitos precisando, poucos conseguindo/se todos realizam algo, o mundo segue o seu caminho), sucesso de Pedro Luís (& A Parede), lançada originalmente em 1997; Vagabundo Confesso, da banda catarinense Dazaranha, canção de 1998 e de Pode O Céu Cair (pode o céu cair, pode o mundo desabar/no ruim de tudo a gente sempre tem/um bom motivo para sonhar), de Tonho Gebara, guitarrista e amigo de Baia, falecido em 2004 e já homenageado na canção Lado Oposto, no álbum ao vivo, No Circo (2009). As reflexões baísticas são expressas no pseudo-baião Tem Fila (a vida passa e essa fila/que não anda/vista de cima/pelas quadras serpentina) que menciona com graça, de banheiro a banco, as aglomerações em linha reta; na emprestada Montanha (eu que não sou só queria ser alguém que/pudesse dizer/quem sou eu que não sou só queria ser/alguém que soubesse dizer) e em Malabar (tudo o que já foi escrito sobre o ser humano/na intenção de tentar lhe compreender/não foi capaz de escapar a tremendos enganos/como querer compreender/tudo o que há entre eu e você).

O álbum encerra com o blues Suíte Bourbon 1407 (e um cartaz exigindo: privatizem a Odebrecht!/o povo anda doido, embrulhado em manchetes/e eu trocando de roupa onde o Diabo se veste/aqui em cima do Moro), inspirada na Operação Lava-Jato, fazendo trocadilho com o juiz Sérgio Moro e citando a empreiteira Odebrecht. Nada mais oportuno para alguém politizado e preocupado com as causas socioeconômicas (vide suas redes sociais) como o artista.

Apesar de assinar apenas 5 canções (Ladrão Que Rouba Ladrão, Dora, Tem Fila, Malabar e Suíte Bourbon 1407) do álbum, todas as outras faixas dialogam com sua obra e ganham uma verve autoral, tal vivacidade e astral impressos pelo músico. Aliás, é difícil identificar quais composições não são de sua autoria, graças à escolha do repertório revisitado – que muito se assemelha com sua poética – e a unidade do trabalho. Em fúria ou na calmaria, nosso híbrido de Raul Seixas com Chico Science permanece com olhos atentos de menino. Agora, um pai-menino. Viva Dora e a República de Baia.

 

Larissa Mendes é misto de fúria do mar com doce doçura.

 

 

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110ª Leva - 04/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Estradas feitas para se perder

Por Sérgio Tavares

Trilogia do Asfalto Capa

Um dos efeitos mais audaciosos do exercício narrativo é extrair da linguagem uma sonância que repercuta os traços da ambientação da história. “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, é um exemplo vigoroso deste emprego conectivo. O romance, que se passa, em grande parte, na geografia desidratada do sertão nordestino, empresta desta paisagem a ressequidão que constitui sua tessitura, suas frases concisas e esfarelentas. Desde a abertura, a prosa se apresenta destituída de viço, compassada pelo demorar dos pés que avançam quase terra, que se racham quase carne.

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala”.

Em “Trilogia do asfalto”, o baiano Dênisson Padilha Filho se arrisca na execução do mesmo procedimento, e se sai bem. Os contos que compõem a breve coletânea (dois dos quais previamente premiados) são construídos através das economias verbal e narrativa, incorporando ao alicerce semântico a aridez por onde circulam seus personagens. Indivíduos cobertos pela “poeira cortante” das estradas, da vida que pretende uma aliança com o passado a fim de endireitar a rota para o futuro. O caso é que o presente se mostra desgovernável, um progredir que não dispõe das indicações devidas.

“Era um céu de fotografia. Mas pra quem vive à beira daquela rodovia, o azul era tempo encerrado pra chuvas; o calor fazia algo como mutirões pesados. Primeiro, o castigo das nove, depois, um mais severo às onze. E então, já não se via mais ninguém andando pelo asfalto. Janelinhas e portas das casas eram bocas ofegantes. Longe, algumas serras tremiam. Um ônibus parou e ele desceu, só ele, com sua mochila. Parecia não estar muito certo do que acabara de fazer”, assim tem início o rascante “Naquela manhã de fogo”.

No conto, um viajante faz uma parada numa venda à beira de uma rodovia, gerenciada por um sujeito desolado e seu pai, um velho cego de um olho. Ele se dirige à cidade vizinha, onde nasceu, em busca de resposta sobre o homem que entende como seu pai. Protegidos das “ondas de calor que assolavam a terra” do lado de fora, empreenderão um diálogo de contenções que revelará que, na expectativa de que algo aconteça, estarão presos em suas próprias existências. “A gente nem vai nem vem… a gente fica”, conclui o vendedor.

Dênisson trata da impotência, de uma maneira alegórica. Apesar de lançados em jornadas, seus personagens ora seguem estacionados na ideia de partida, ora fazem um movimento contrário em seus íntimos. No conto seguinte, “Como assim, dar pra ele?”, a narradora passa em revista a relação com o marido, enquanto viajam, a contragosto dela, rumo a uma fazenda de café, por conta de um feriadão. No carona, vai um amigo, que terá um papel dissonante dentro do fluxo mental no qual ela busca entender como o casamento atravessou a paixão e chegou a duas pessoas que sequer se olham.

“Eu tenho uma vida inteira pra lhe contar; você nunca quis saber, é verdade, mas antes, ao menos você era meu herói e eu era sua virgem roubada; você sondava meu fogo e meu amor por você. Hoje, pouco lhe importa o gelo da minha pele, que já se esqueceu de seus dedos. O que mais dói em mim, já quis saber nos últimos dois anos? Sem chance, não é? Por isso me enojam suas certezas, e mais, contar a você de minha vida, minhas alegrias, é hoje, mais que uma necessidade, é uma vontade; eu quero ferir você, faço questão”, confessa.

Novamente a prosa se alia ao cenário, criando pontos de tensão em momentos em que a estrada se mostra mais perigosa. O autor entrega a condução da narrativa a uma voz que, por não conseguir se propagar no outro, torna-se perdida, solitária. Isso se agrava no último conto, “Roupa íntima, amor felino”, sobre um fracassado que separa a vida entre se embriagar e detestar os gatos que lotam o prédio em que mora. Amargurado por conta de um amor não correspondido e sem emprego, passa a ocupar o quartinho do zelador, onde começa a decifrar os hábitos dos moradores de baixo para cima. Obviamente, quando não está num bar, à procura de alguém que ouça suas tristezas.

“Em todo boteco há um pouco de carinho de mãe para com seus assíduos. Você senta no bar ou joga sua tonelada de dores no balcão e ele lhe põe uma dose como se dissesse, ‘esqueça, filho, amanhã as ruas estarão cheias de flores’. Não é impossível, mas é muito difícil encontrar um garçom simpático quando se pisa num bar pela primeira vez. Se você volta no dia seguinte não. Aquilo pra ele é um elogio e ele retribui com gentileza. Na primeira vez você é só mais um aventureiro tentando se refrescar, e garçons detestam aventureiros”.

Pondo em marcha um sentido de unidade, a coletânea parte de uma busca e termina num gesto resignado de quem já não consegue chegar a lugar nenhum. O asfalto pavimentado por Dênisson serve para se lançar ao mundo, mas também para se encontrar com o próprio fracasso. Nem todas as estradas apontam um destino. Há também aquelas feitas para se perder, para, como escreveu Graciliano, ficar preso nelas.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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110ª Leva - 04/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Roberta Silva

 

suzanalatini
Foto: Suzana Latini

 

O Lamentável fim da família de Dr. Conrado, o Benemérito

 

Moro numa daquelas casas que rodeiam o belo Central Park, nome atual do antigo parque da Colina, área nobre de nossa pequena e antiquada cidade. Ao redor desse parque, a nata de nossa sociedade. Famílias invejavelmente bem sucedidas e felizes que passam os domingos fazendo piqueniques no verde gramado do parque, como este fosse, e é, uma extensão de seus jardins. Nossa cidade é próspera, apesar da pequenez e pacata, apesar da rotina e grande distanciamento social entre as classes. Somos pacíficos e católicos e isto nos basta. Durante muitos anos, somente dois acontecimentos causaram escândalo entre o seleto grupo dos moradores do parque. O primeiro foi minha mudança para cá. Eu, Maria da Piedade, ou Piê, como era chamada no posto de saúde em que trabalhava como atendente de farmácia, filha de mãe solteira, herdei esta casa de meu pai, um ilustre personagem político da cidade. Seu desejo último foi redimir-se de sua omissão deixando para mim todos os bens que possuía. Nos primeiros anos fui apontada por meus vizinhos na rua e no parque e, primeiro por causa de uma exclusão descarada, depois, por convicção, passei a aproveitar os domingos na janela a observar o balé social, no qual bailam e representam nossa tosca comédia as pessoas respeitáveis de nossa sociedade. Deixaram de falar de mim após a morte de Dr. Conrado, o benemérito. Morte lamentável, mas não tanto quanto o lamentável fim de sua família, que aconteceu após a trágica morte.

Dr. Conrado era um advogado conhecido. Bonito, jovem, culto, bem sucedido. Era casado com uma mulher bela, jovem, culta, extremamente tímida, excelente dona de casa e pai de três adoráveis, educadíssimas e também belas crianças, o primogênito e duas meninas. Eram invejados pelos vizinhos, inveja branca dizia-se, daquela que não se deseja o mal. Exemplo vivo de uma família perfeita. Durante as tardes de domingo, no parque, estavam sempre rodeados de amigos. Seus quitutes eram fartos e os mais saborosos, a conversa deles era a mais agradável e suas crianças nunca davam um pingo de trabalho. Quando as mães tinham de ralhar com seus filhos por terem cutucado os peixes do lago com espetos ou darem rasteiras nas bengalas dos velhinhos, quando uma esposa descontente cobrava do marido um pouco mais de zelo ou um marido, cansado das lamúrias da mulher, desejava secretamente que a dita engolisse a língua e se calasse numa crise convulsiva de auto sufocamento recorriam à imagem da família de Dr. Conrado como exemplo a ser seguido, meta a ser atingida. Eram assunto também, nas rodas, as diversas obras de caridade que patrocinavam e as gordas doações nos jantares beneficentes feitos por ele e sua família.

Como num conto de fadas invertido, essa era uma história feliz que tivera um triste final. A princípio notaram que o jardim de Sra. Conrado não estava mais impecável. Ervas daninhas proliferavam a olhos vistos e depois estas substituíram definitivamente os lugares de destaque das folhagens nobres. O pior era que isso não acontecera por falta de zelo, tristeza recolhida ou luto. Parecia que a jovem viúva estava dando os primeiros sinais de enlouquecimento. Fora flagrada diversas vezes cultivando os capins, carrapichos e ervas de passarinho no que agora não era mais uma pálida sombra do lindo jardim de antes. Pararam de frequentar o parque aos domingos. O filho mais velho, depois que adolescera, perdeu-se completamente. Fazia teatro de rua, pintava os cabelos de cores vivas e os olhos e as unhas de preto. Viam-no circular com um colega um tanto afeminado diversas vezes pelo bairro em conversinhas purpurinadas, trôpegas e cheias de risinhos. A filha do meio vestia-se à moda dos novos hippies e vivia acompanhada de pessoas que não condiziam com sua classe social. A caçula ainda trazia muito dos modos de antes da morte trágica de seu pai, mas temiam cedo ou tarde contaminar-se também com o caos que se instalara no seio daquele lar. No seu andar, apesar de ainda elegantemente vestida, notava-se um leve desleixo nos movimentos, um desleixo que não se permitiria antes, visto que era, dos três, a mais elegante. Pela ausência demorada aos piqueniques de domingo descartaram a possibilidade do luto familiar, pois saiam todos, nesses dias, animados em seus novos trajes, rumo a um programa desconhecido além das fronteiras do rico boulevard.

Pela janela presenciei a chegada de um caminhão de mudança que parou à porta da casa da família de Dr. Conrado. O grand-finale deste escândalo será quando descobrirem que Sra. Conrado está de mudança. Com a família, mudará para outro lado da cidade para amasiar-se com um livreiro comunista e pé rapado com quem ela havia tido um pequeno affair na juventude. Superará, por certo, em pontos de audiência a notícia da morte do estimado doutor após ingerir uma sopa de mandioca brava, preparada para ele pela zelosa esposa, naquela tranquila noite de inverno.

Conheci Sra. Conrado tempos antes de me mudar para cá, durante os anos em que ainda trabalhava na farmácia de um posto de saúde afastado. Ela veio pegar gratuitamente os medicamentos receitados pelo doutor do posto em nossa farmácia. Ela apresentou-se na portinha apresentando a receita, minha repulsa foi imediata, pois se via logo de cara que era uma mulher que não precisava dos medicamentos grátis que distribuíamos para as pessoas menos afortunadas que eram tratadas ali. Era uma lista enorme, antiinflamatórios, antibióticos e ataduras. Ofereceu-se muito constrangida para pagá-los e senti-me um tanto arrependida pelo julgamento precipitado. Depois daquele dia, ela voltou várias vezes. Comentava-se a boca pequena entre os funcionários a natureza de suas consultas secretas. Ela entrava, às vezes só, outras acompanhando um dos filhos e depois passava na farmácia. Nunca dizia nada e parecia resignar-se ou não perceber os olhares de reprovação dos outros pacientes e funcionários dali.

Num dia igual a muitos outros, em que ela havia ido ao posto em busca de cuidados e remédios, sem motivos aparentes, ignorando completamente a fila que formara atrás de si, começou a falar. Sua voz era baixa e suas palavras polidas e bem escolhidas. Contou-me como alguém contaria a um padre em uma extrema-unção sobre como havia conhecido o marido. Após um namorico problemático com um colega de escola de nível social muito inferior ao dela encontrou-o, recém formado, belo, companheiro e disposto a terminar com suas angústias para sempre. Foi o casamento dos sonhos. Pouco depois da lua-de-mel, o marido dera os primeiros sinais que nunca esqueceria que um dia ela havia amado outro homem. Desconfiava de seu amor. Vasculhava suas coisas, seguia-a pelas ruas. Primeiro veio as discussões à meia voz para não serem ouvidos pelos empregados. Depois o primeiro tapa, o primeiro soco. A primeira gravidez frustou-se em um aborto devido a um chute que levou na barriga. Tirando a vez em que ele lhe socou a primeira vez, as outras nunca lhe deixaram hematomas que não pudessem ser omitidos por uma blusa, um echarpe, um xale. O médico da família ameaçou denunciá-lo, depois que se esgotaram as desculpas para os ferimentos e infecções, caso ela não o fizesse pessoalmente. Ela não o procurou mais e nas reuniões em que se encontravam convencia-o de que não aconteciam mais aquelas coisas e que estavam todos muito bem e felizes. Além do ciúme, sua excessiva mania de limpeza e perfeccionismo o fazia perder a paciência com a menor sombra de poeira ou objeto deixado fora do lugar. Isto era mais fácil de controlar antes da chegada das crianças, mas depois dela sua vida era uma eterna inspeção atrás de coisas que pudessem desagradá-lo. Lógico que os filhos não podiam acompanhar o cuidado da mãe. Vez ou outra deixavam cair um talher, manchar um vestido ou soltavam uma risada inoportuna e também sofriam com os corretivos do zeloso pai. Ouvi calada e depois a chamei para dentro do meu cubículo. Atendi as pessoas que esperavam na fila rapidamente e tranquei a portinhola. Conversamos durante algum tempo. Ela dizia que não havia como sair de lá. Todos iriam ficar contra ela, era impossível imaginar que Dr. Conrado, o benemérito, fosse capaz daquelas coisas. Ele mesmo a advertira que a internaria num manicômio caso tentasse levantar algum falso sobre sua honra. Ficamos amigas, eu a ouvia, quase todas as semanas, sobre a violência que aquele homem cometia impunemente contra a família acuada e indefesa. Um dia decidi por tentar ajudá-la. O filho tinha sido submetido, pela terceira vez, a uma sutura de pontos de um ferimento. O pai tinha por ele uma fúria mais contundente. Dizia que daria àquele ser patético uma postura máscula e viril nem que para isso tivesse que quebrá-lo em pancadas. Eu disse à minha amiga que tinha como dar a ela um veneno que ela poderia misturar a sua comida e ele morreria rapidamente. Sugeri que ela fizesse uma sopa de mandioca, pois era sabido que esse tipo de alimento vez ou outra causava uma desgraça.

O velório foi preparado com muita pompa pela família do doutor. Queriam aproveitar a visita relâmpago do governador pela cidade e pediram ao diretor do hospital, que era o mesmo que acompanhava a família do venerável defunto, para que fossem dispensadas as formalidades e que este assinasse o atestado de óbito o mais rápido possível. Foi mais fácil que imaginavam e foi, na época, aquele velório o evento social mais elogiado nas colunas sociais.

 

Roberta Silva é escritora, edita o blogue Ragi Moana. Tem poemas publicados na internet, entre outros sites, na revista Germina e no Escritoras suicidas. Faz parte de Dedo de moça — uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Vive em Belo Horizonte.

 

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110ª Leva - 04/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Clara Baccarin

 

Suzanalatinibarco

 

Terra de refugiados

 

Refugia-se no coração,
que o amor não conhece fronteiras
Migra para a terra do sentir
que ela sabe acolher
com mais humanidade
Mora num poema
que ele tem raízes
em si mesmo
e fala todas as línguas

 

 

***

 

 

Escracho

 

À mulher resta o escracho
Faca fincada na fenda
da concha fechada
Força de esfacelar a lâmina
na dureza da casca
Cacos líquidos
Sangues ruídos
Nas mãos parir
as próprias vísceras
E ver pérolas se dissolvendo
na raiz do desmistificar
À mulher fica a possibilidade
de uma vida cedida ao escavo
de tudo o que não tem nome
e o que não pode ser
À mulher fica a cruel tentativa
de nascer num mundo de abortados
À mulher resta um desobedecer
macerar no peito e nos olhos
o certo e o errado

 

 
***

 

 

 

Escoa

 

Poesia
Palavras sem rédeas
Delatando sentimentos alados
Forma que deforma e aflora
Deflagra uma substância escondida
No buraco negro do inconsciente coletivo
Susto de uma nudez de alma
Que não se conhece do avesso
Mas, mesmo assim, escoa
Num ato desconhecido
De prazer ou de dor

 

 

***

 

 

Instruções para lavar a alma

 

Lavar a alma à mão
Que é de estrutura muito delicada
E assim, manchada de tantas palavras,
Requer cuidado redobrado
Para voltar a ser quietude

Secar a alma em solidão
Estender na linha do tempo
Do próprio quintal
Na parte que bate
Um sol coado, sereno
E faz pendurar as pálpebras
No sono dos que sabem esquecer

Passar a alma a limpo
Cortando os preciosismos
Os excessos prolixos
O peso dos desnecessários
Acessórios

Vestir a alma nua
Na sua mais nova pele
Nos olhos um brilho tranquilo
E uma vontade recém nascida
De ir brincar na rua

 

 

***

 

 

Porta

 

Viver em paz é saber
Entrar nos corações
Sem precisar bater à porta
E sair dos corações
Sem precisar bater a porta

Que amor bom
Entra sem esforço
E sai sem fazer barulho

 

 

***

 

 

Tirei o corpo fora, mas o coração ficou atrasado.
Dei um passo maior do que a velha alma.
Empurrei minha cegueira atrofiada no precipício
para ver se despertava voo.
Quis atiçar a vida com vara curta,
ela acordou e eu ainda tenho medo.
Meus pés são rápidos para descalçar os sapatos,
mas meus pensamentos demoram a perceber
a se deixarem esparramar na alegria da nudez.
Vestida de felicidade ainda choro.

 

 

***

 

 

Um piscar de asas

 

O mundo acaba:
Entre o perigo
E o abrigo
Entre as roupas sujas
E as bem lavadas
Entre os enlaces
E as mãos atadas
Entre as tempestades
E os copos d’água
Nos resta apenas
Um piscar de asas

 

Paulista de Jaboticabal, Clara Baccarin é a moça interiorana e letrada que viajou o mundo e nasceu com a inquietude da poesia nas veias. Escritora assídua nas redes sociais, é colunista de diversos blogs sobre literatura, arte e estilo de vida, escreve crônicas que seguem um estilo livre, despojado e poético. Formada em Letras (Unesp) e mestre em Estudos Literários (Unesp), publicou dois livros, o romance ‘Castelos Tropicais’ (Chiado ed., 2015) e a antologia de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’ (Sempiterno ed., 2016).

 

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110ª Leva - 04/2016 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road). Austrália/EUA. 2015

 

Madmax

 

Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller, foi realmente a maior surpresa do cinema de 2015. Quarto filme de uma franquia que tem muitos fãs, mas foi subestimada pela crítica especializada, este último episódio, no entanto, recebeu uma aclamação generalizada e esteve presente em praticamente todas as listas de melhores filmes do ano passado, inclusive das mais prestigiosas revistas, tais como Cahiers du Cinema (5º lugar) e Sound and Sight (3º lugar). Em 2016, tornou-se o filme mais premiado do Oscar.

Mad Max iniciou por ser uma série de ação de ficção científica distópica de comparativo baixo orçamento (380 mil dólares), mas que rendeu mais de 150 milhões nas bilheterias no filme de estreia. Esse filme, criado ainda nos anos 70, narra um futuro pós-apocalíptico dominado por gangues violentas. Desde o início, os automóveis têm uma função de protagonistas, como máquinas mortíferas. George Miller, antes de se tornar diretor, era um médico de hospital na Austrália que atendeu a vários acidentados e perdeu amigos em desastres de carros. Vivia-se na época sob os efeitos da crise do petróleo e da “revolução conservadora”. Toda a série oscila entre certo fascínio mórbido pelo automóvel e, ao mesmo tempo, como um libelo contra sua existência. O automóvel é, ainda mais do que o protagonista Max Rocktanski, o herói e o vilão dos filmes.

Formalmente, o filme ganhou fama por sustentar uma estética “thrash”, de filme “B”, de uma rudeza cinematográfica semipunk. Poderíamos chamar essa estética de “brutalista”. O primeiro filme (1979) se assemelha a um “Laranja Mecânica” tosco, realizado com poucos recursos, e abordando uma sociedade sem lei. Miller se mirou na cinematografia dos filmes mudos e fez um enredo de poucos diálogos para apresentar um cenário ainda mais desumanizante e com muita violência, quase sempre insólita e desmotivada, o que fez alguns críticos o denunciarem como contendo uma estética fascistoide, o que nunca foi intenção de Miller. Os outros dois filmes da série (em 1981 e 1985) tiveram maior orçamento e foram realizados dentro de uma crescente espetacularização cênica, transformando-se em sucessos comerciais e parecendo saturar sua fórmula cinematográfica ainda nos anos 80.

Estrada da Fúria é o “renascimento da franquia” (o termo é de seu diretor e roteirista) exatos 30 anos depois que propõe uma nova síntese estética que espantou os críticos e desnorteou seus admiradores. Uma de suas principais virtudes é Miller ter se recusado a realizar um “retorno às raízes”, ou a rescrever o primeiro filme de outra forma (“remake”), como fez o decepcionante The Force Awakens, da série Guerra das Estrelas, apenas uma versão “século XXI” do filme inicial. O novo filme da franquia Mad Max não é apenas o “mais do mesmo”, mas segue uma nova e radical concepção que atualiza a série para novas direções, fortemente politizadas.

A síntese estética que Miller propõe não é um retorno à rudeza básica de baixo custo do filme de abertura, mas é subir no nível de espetacularização (é o filme mais caro) e levá-la para um patamar de excesso audiovisual, não propriamente kitsch ou “thrash”, mas de “grotesco espetacular”, ou “hipergrotesco”, um excedente imagético-sensorial que a todo momento perturba a ordem blockbuster da realização cinematográfica do filme de ação comercial. Importante anotar que a obra é fruto de um trabalho de mais de dez anos (desde 2003), tendo sido concebida, escrita e reescrita pelo próprio diretor e com vários atores diferentes convidados para fazer o papel de Max, já que Mel Gibson desde o início se recusou a continuar na série. Mesmo depois de tudo acertado em 2010 (com Tom Hardy como protagonista), a produção ainda envolveu outros longos 5 anos.

Charlize Theron
Charlize Theron em Mad Max / Foto: divulgação

Wasteland aparece neste novo filme como um cenário realmente pós-apocalíptico que sucede um grande desastre nuclear. Max é apenas mais um dos que procuram desesperadamente sobreviver. Ele é capturado logo no início pelos “Garotos da guerra” (War boys) e se torna uma “bolsa de sangue”, um doador universal, que fornece sangue a um garoto doentio, Nux que como seus pares está sempre “trincado”. Ele é obrigado a sair com este e sua gangue atrás da Imperatriz Furiosa que sequestrou um Caminhão de guerra para libertar as parideiras do cativeiro sexual do terrível líder Immortan Joe, que domina a miserável população sobrevivente pelo controle da água. Max consegue, no entanto, “mudar de lado”, se alia às mulheres fugitivas e o filme inteiro será essa longa fuga motorizada e sanguinária pelo meio de desérticas e destruídas paisagens.

Com esse enredo simples e distópico, Estrada da Fúria bem poderia se chamar de “Bem vindos ao deserto do Antropoceno”. O filme é cinematograficamente uma intensa alegoria audiovisual desse processo terminal de destruição ecológica e rarefação absoluta dos ecossistemas que desertificam, com a escassez das variedades naturais, sobretudo da água, extinção acelerada das espécies, tudo isso acompanhado pela implosão civilizacional com fascistização do poder, com a guerra permanente, com o domínio das máquinas que se tornam mais importantes do que a humanidade, e com a regressão política para enclaves feudais e tirânicos. A grande sacada do filme é trazer pela alegoria barroca do hipergrotesco e do brutalismo espetacular a distopia para o centro do contemporâneo, pois como tantos bons filmes de ficção científica o futuro é apenas encenado como pretexto para discutir o presente.

Miller consegue isso polarizando os eixos de oposições nos quais o filme se estrutura: a água contra a gasolina, a fuga contra a tirania, a sobrevivência contra o parasitismo, o deserto contra a cidadela, o solitário contra as gangues, o leite contra o sangue, o poder feminino contra o patriarcado e o caminhão contra o automóvel. É claro que, como filme de ação, a narrativa tende para o maniqueísmo e para a oposição simples entre os contrários, mas certas nuances tornam mais complexa a trama.

Por exemplo, a luta entre o caminhão de guerra, conduzido pela Imperatriz com as parideiras, e os inúmeros autos e motocicletas que o perseguem pelo deserto. O caminhão aqui é o signo da coletividade e do “trabalho” enquanto os demais veículos são signos do individualismo e da competição. O caminhão une e reúne as fugitivas e o fugitivo, enquanto a miríade de veículos dispersam seus inimigos.

Mas a polarização mais intensa, dialética e importante é, sem dúvida, a luta entre o poder feminino coletivo e o patriarcado despótico e fascista. Curiosamente, muitos fãs originais da série sentiram-se decepcionados porque o herói natural da franquia, Max, é tornado um mero coadjuvante dessa luta principal. Mas esse deslocamento é que traz o principal interesse político à obra.

This photo provided by Warner Bros. Pictures shows, from left, Abbey Lee as The Dag, Courtney Eaton as Cheedo the Fragile, Zoe Kravitz as Toast the Knowing, Charlize Theron as Imperator Furiosa and Riley Keough as Capable, in Warner Bros. Pictures’ and Village Roadshow Pictures’ action adventure film, “Mad Max:Fury Road," a Warner Bros. Pictures release. (Jasin Boland/Warner Bros. Pictures via AP)
Charlize Theron (direita) na pele da Imperatriz Furiosa / Foto: divulgação

Imperatriz Furiosa (vivida por Charlize Theron) é uma guerrilheira que parece saída do Manifesto Ciborgue de Donna Haraway (o filme todo parece uma reflexão cinematográfica sobre a obra da bióloga e filósofa americana): com sua prótese manual, ela parece gozar dessa típica indistinção de fronteiras entre o inorgânico e o vital, entre o humano e a máquina e entre o masculino e o feminino. Mas Imperatriz Furiosa é essencialmente uma guerrilheira mulher que sabota o patriarcado tirânico para dar fuga às parideiras da Cidadela, mulheres cativas que parem os filhos de Immortan Joe, e trazer-lhes a “redenção”, palavra que tem um sentido especial no filme.

Immortan Joe, o tirano, parece, por sua vez, saído diretamente da obra freudiana. Ele é uma encarnação do mito do “Pai da horda primordial”. É como se George Miller quisesse mostrar que a regressão política pós-capitalista conduz a esse Pai mítico primordial que estupra e mantém em cativeiro as mulheres, servindo-se de seus corpos e de seu leite, para recriar a horda como seus filhos bastardos, pois há a sugestão que todos os Garotos de guerra são seus filhos. A regressão política distópica então é um retorno ao patriarcado mais primal que mantém a ordem matriarcal e filial sob sequestro e permanente terror.

Assim, é Imperatriz Furiosa (insuspeitável guerreira cativa do exército de Immortan Joe) a verdadeira protagonista do filme e o desvio de rota que ela induz ao manejar com mestria o caminhão de guerra é uma fuga do patriarcado, do cativeiro e uma busca por redenção. A associação das mulheres com Max, no entanto, não se dá naturalmente, mesmo sendo este apenas outro prisioneiro cativo. Um dos elementos dramatúrgicos mais interessantes no filme é justamente a aproximação entre essas duas lutas de sobrevivência, de Max e das mulheres parideiras. A princípio, há uma hostilidade e mesmo uma disputa entre as partes e quando se vê livre, em sua busca desesperada para sobreviver, Max irá desafiar, brigar e ameaçar as mulheres. Afinal, ele próprio é um representante do poder masculino patriarcal e não tem a confiança das fugitivas, nem ele tem delas. Entretanto, a disputa tensa entre as partes se resolve com a consciência de que uma aliança entre as parideiras e o homem fugitivo é a única possibilidade de sobrevivência para todos. Mais tarde ao grupo também se incluirá, por aliança, um dos Garotos de guerra, Nux.  É este jogo de alianças difíceis, mas estratégicas, um dos elementos políticos mais importantes desse enredo. Estrada da Fúria nos fala que não é possível enfrentar um sistema despótico sem fazer alianças estratégicas.

Tom Hardy como Max
Tom Hardy como Max / Foto: divulgação

Outra aliança é construída entre o grupo fugitivo e as Vulvalini, guerrilheiras mulheres que encontram os fugitivos no meio do deserto, onde supostamente deveria estar o “Lugar Verde”, terra idílica onde cessaria a fuga e terra da infância de Imperatriz que foi sequestrada enquanto criança. Essas guerrilheiras, únicas sobreviventes da destruição local, são uma clara referência às guerrilheiras curdas, heroínas da guerra da Síria. Elas se juntam para fugir com a trupe e procurar outro paraíso verde sobre a Terra, mas sem Max que segue para outra direção.

Um dos momentos mais tensos do roteiro é quando Max reencontra as mulheres em fuga para lhes convencer a retornar à Cidadela já que esta se encontra indefesa, pois afinal a Cidadela tem água e vegetação, que são mantidas sobre o controle do tirano. Esse retorno não seria extremamente arriscado e contraditório para a lógica emancipatória do filme que coloca a redenção sob a forma de uma fuga constante? Mesmo o argumento de Max de que não há mais paraíso sobre a Terra, apenas planícies desérticas, não parece realmente convincente.

Talvez pudéssemos entender essa solução – que terá consequências trágicas – como algo mais do que uma maneira de tornar o roteiro dramático. Voltando a Donna Haraway, um dos seus maiores temas é “lutar na barriga do monstro”. Não é a decisão de retornar à Cidadela, por trágica que seja, exatamente o passo para abandonar a lógica do exílio e da fuga e voltar a lutar na barriga do monstro e nos centros das cidades? Pois, se há um sentido possível para as batalhas a serem travadas neste fim do Antropoceno, que alguns também chamam de Capitaloceno, é que não há fuga possível de nossos mais críticos problemas e de nossos mais poderosos inimigos neste planeta finito.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.