Observar o tempo e seus matizes. Passivos ou não, somos parte dele. Na sucessão dos instantes, imagens se coagulam, fatos são esquecidos; outros, lembrados. Na contramão de uma série de sentimentos, flui sorrateiro o gozo dos mistérios. Dentro da explosão de palavras e imagens, a tentativa de se construir pontes com a vida e com o âmago de nós mesmos. A criação é um agora e porvir marcados pela hercúlea tarefa de exprimir algo. Como diria a poeta Hilda Hilst, “O texto é sangue/E hidromel./É sedoso e tem garra/E lambe teu esforço”. Ao autor, artesão da palavra que é, cabe não somente a pena e alguma glória efêmera, mas o sangue derramado nas entrelinhas do esforço. E palavras são curiosos seres acostumados, desses que tramam ardis, falseiam sensações de conquista e põem seus articuladores à beira do abismo. É preciso não se regozijar dos feitos antes da hora certa das coisas, antes da existência plena de um texto, sua janela para algum mundo. O engenho do verbo tem como aliado o ato constante de burilar, o qual é, em melhor instância, permanente estado de desconfiança. Então, vem a pergunta: quando se pode dizer que um texto está definitivamente concluído? Quem primeiro fica pronto, texto ou autor? Eis uma zona de compreensão deveras imprecisa. Fiquemos, pois, com a capacidade de trazer as leituras para dentro de nós mesmos, vê-las crescendo num jardim de percepções regado a infinitos particulares. Na Leva 114, edição que representa nosso atual estado de sensações, observamos a escrita ganhar contornos difusos nos versos de pessoas como Cândido Rolim, Yasmin Nigri, Sândrio Cândido, Liv Lagerblad e Otávio Campos. As construções de mundo e vivências pela palavra são o tema marcante da entrevista do escritor Sidney Rocha concedida a Lima Trindade. Por entre nossos cadernos, está o vigor poético e visual das fotografias de Milton Boeira. Vinte e sete anos depois, Sérgio Tavares celebra “As quatro estações”, álbum antológico da banda Legião Urbana. Mirando “Bastardo”, o novo livro do poeta Victor Prado, Lisa Alves desfila todas as suas impressões. Outros recortes de vida estão presentes nos contos de Márcia Barbieri, Marcus Vinícius Rodrigues e Samantha Abreu. O metafórico filme “The Lobster” agora é tema da resenha de Larissa Mendes. O romance “Vaga queda”, de Caio Russo, vem devidamente apresentado pelas breves incursões de Márcia Barbieri. E assim segue mais uma etapa da celebração dos 10 anos da revista. Que sejam ótimos os percursos!
Logo agora que a chuva parou e que voltamos a ter vinis na estante. Agora, bem agora que não queremos mais ter tudo pois estamos de folga. Que não precisamos calçar sapatos, que a lua de mel mora no sofá de veludo. Bem agora.
Estava chovendo antes de ser hoje. Antes de ser este cabelo ruivo secando ao vento antes de ser vida acontecendo a partir das dez da amanhã. Mas dormir é sonho que também é noite. Bem agora que dormir é sonho eu escuto esses gritos lá fora e corro pra ver a morte, o ardor, a bomba. Bem agora, bombas. Explosões que não são coloridas e a gente querendo um banho morno seguido de pijama cama pra dois nossa comida. Bem agora que acabou a comida, que o sapato aperta e que a gente desaprendeu a dançar, já não temos cabelos nem sono nem os sonhos.
O que é que a gente vai fazer quando essa guerra acabar?
***
O golpe
O tempo entre a pancada e tombo está no cambalear das pernas.
As mesmas que vibram durante o ato – teu dia amanhecendo em mim – são as que cedem diante do fato de que tua ausência seja sempre
passagem.
O teu perfeito golpe
me pega na rigidez das coxas, para o amparo dos braços antes da queda.
Mas o tombo chega
inelutável,
fazendo do susto o sonho sempre depois do nascer do dia
o nocaute, a lona.
***
Guerrilha
Simulo que não, ele provoca o sim. Tem fácil acesso, nome na lista, ingresso livre. Entra, carrega as malas, todas as balas e todos os concordantes motivos. Ele me arranca os sorrisos, os suspiros. Arrasa todos os atinos.
Faz que não faz e desfaz a completa certeza do não.
E daí já não sei, já não importa: roupa, brincos e cordas. O banco de trás, o beco e o balcão. Guerra indeclarável pelo território alheio. Língua na boca do outro e cerveja esquentando na mão.
Enquanto ele derrete, eu sua.
Líquido e rubro amor que escorre. Terra invadida que ferve por toda a veia que corre,
briga no escuro, gangue de rua.
Samantha Abreu é professora em Londrina/Pr. Já foi publicada em antologias e revistas, além de participar de debates, projetos e eventos literários. Lançou o livro de poemas “Fantasias para quando vier a chuva” (Orpheu, 2011) e o livro de contos “Mulheres sob Descontrole” (Atrito Arte, 2015). Integrou as antologias “O Fio de Ariadne” (Atrito Arte, 2014) e “29 de Abril: o verso da violência” (Ed Patuá, 2015) junto com autores contemporâneos de todo o país. Seus textos poéticos foram adaptados para o teatro na montagem “Trouxe a chave para libertar sua tristeza”, da Cia AARPA.
evoco o teu nome em silêncio
de joelhos entro na linguagem.
debaixo das imagens resiste
algo do que foste um dia.
outra borboleta não soube o oficio
de desatar em mim a melodia.
só por isso ainda creio
***
Exílio
tenho as mãos sujas,
a flor da vida ferida.
não pertenço a este jardim
regressar as fontes de nada adianta,
a memória trai-me.
só, adiante!
estou esperando por mim.
não posso fugir
não posso adiar o silêncio
não posso desatar os cipós.
aceito a minha condição!
devo deixar cair as pálpebras.
amanhã,
depois de rasgar todas as barcas
talvez eu me encontre.
***
Quatro variações imagéticas
I
a casa é frágil
cuidar como cuida um pomar
nem sempre é primavera
nem sempre os frutos podem ser colhidos.
antes da flor existe a semente,
é preciso calma ao escavar a terra
deixar o corpo no escuro
adormecer no exercício da espera.
não cortar a asa dos pássaros
ser apenas ninhos
estar inteiro no ventre da prece.
II
há flores lâminas aparando olhares.
III
eles partiram do meu corpo
ao mar escorreram
fiquei sozinho
ouço os violinos tocarem
“se eu roubei, se eu roubei teu coração, tu roubaste, ……………………………………………………………………….[tu roubaste também o meu”.
é outono
sou a flauta assoprada pelo tempo.
a mesa em meu corpo está vazia
aguardo regressar os deuses
iremos concluir a liturgia da vida.
IV
os telhados cantam
debaixo dos alicerces as ruínas
estou cercado de monturos.
chove em meus lábios
o poema trabalha em meu rosto
costura a eternidade.
***
Primeira meditação
tenho me deixado seduzir pela esperança. espécie de flor agasalhando as chagas. as vezes o tempo é de frio. falta o sorriso de Deus. o mundo fica estranho e triste. há também momentos de alegria. quando a mão de Deus me toma. ao som dos pássaros dançamos. embalando o vento. há dias assim; quando o sussurro do eterno me compõe um jardim. aqui dentro, eu sei: somos sinos dobrando distantes!
tenho morrido aos poucos, estou aprendendo outra música
***
Exílio II
os mortos regressam ao meu corpo
bebem a minha existência
estendem a mesa na memória
ouço as rosas partirem a terra
já não posso alcançá-las
pertencem a um tempo arcaico
de cirandas perdidas
e córregos represados no corpo
nenhum caminho sabe os passos
para a idade daquela praia.
***
Espiritualidade
Engoli tantas estradas e nenhum pão
as vezes não caibo nos olhos de Deus.
As rezas sussurram em meu corpo
um longínquo sabiá me chama.
Bendita sina aquela dos desesperados
beber todo o mar e continuar vazio
ser a mão escavando o silêncio
tentando desterrar a lâmpada afogada.
Tem hora para tudo nesta vida
diz o Eclesiastes.
A mão roça que roça os meus cabelos
traz a enxada entre os dedos
carpir é o signo da reza
plantar no silencio algo de beleza.
Sândrio Cândido (Minas Gerais, 1991) é poeta e missionário católico. Graduado em filosofia e estudante de teologia. Atualmente reside em Cali, Colômbia, onde acompanha os processos pastorais da comunidade Afro Colombiana. É autor de Epifania (Ed. patuá, 2014). Os poemas acima pertencem ao livro Breviário dos Lírios (Inédito). Sandriocp@yahoo.com.br
Era assim: para ser considerado “maneiro”, no tempo do colégio, tinha de cantar “Faroeste caboclo”, do começo ao fim. No intervalo entre as aulas, formavam-se grupinhos aqui e acolá, e logo um puxava “Não tinha medo o tal João de Santo Cristo…”, seguido por uma ou duas vozes desafinadas. À capela, mesmo. Aquele que errasse, era alvo de zoação. Naquela época, saber todos os versos de “Faroeste caboclo” era mais importante que saber qualquer verso do Hino Nacional. Eu sabia (mas nunca fui “maneiro”, de fato). A verdade é que minha mãe trabalhava numa butique de sapatos femininos, dentro de um shopping, e por lá transitava um sujeito que vendia umas fitas cassetes de coletâneas musicais. Ele as mantinha numa maleta, separadas por gênero. Bossa nova, samba, jazz, MPB… Eu ganhei uma de rock nacional, cujo repertório era formado pelas novas bandas estouradas nas rádios. Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Titãs, Capital Inicial e Legião Urbana, com “Faroeste Caboclo”. Tinha também “Eduardo e Mônica”, que eu também sabia cantar inteira, se isso conta como vantagem (?).
“Faroeste caboclo” é a sétima faixa de “Que país é esse?”, álbum de 1987. O terceiro trabalho de estúdio da Legião Urbana, ainda que montado às pressas para surfar na onda do anterior, “Dois”(na qual está “Eduardo e Mônica”), é um disco crucial por fatores externos. Visto hoje, foi o último a ter a formação original (Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá); o último a trazer mais letras críticas enroupadas por uma sonoridade crua, influenciada pelo punk rock inglês; aquele cuja turnê encerrou-se com fatídico show em Brasília, no Estádio Mané Garrincha, quando uma confusão generalizada deixou centenas de pessoas feridas.
Todos os fatos e mudanças citados iriam influenciar diretamente na construção do álbum posterior, “As quatro estações”, de 1989. Ainda que o “maneiro”, no meu tempo de colégio, fosse cantar “Faroeste caboclo”, do começo ao fim, sem dúvida “As quatro estações” é o disco da Legião que marcou a minha geração. Um trabalho introspectivo e, em alguns momentos, experimental, com apelo lírico e musicalmente mais maduro. As faixas são compostas por camadas harmônicas e influências de sonoridades diversas ao rock, cujas letras emprestam referências que vão da literatura de Camões a versículos bíblicos, transcendendo os males sociais para os males da alma, do corpo ao espírito.
Em “Memórias de um legionário”, o guitarrista Dado Villa-Lobos explica, assim, a concepção do projeto, nas palavras de Renato Russo: “Gostaria que fosse sobre ciclos, a perda da inocência, você atingir um certo estágio em que perdeu alguma coisa e, ou vai para o lado deles, ou retrabalha e reconquista isso. (…) Mas seria basicamente isso: primavera, verão, chega o outono e caem todas as folhas. E no inverno fica a árvore daquele jeito. É como se a gente estivesse chegando ao inverno. Mas aí vem vindo a primavera de novo. Quero dizer, você pode escolher ter uma nova primavera. A maior parte das pessoas que eu conheço fica no inverno, e eu acho ser esse o maior problema delas”.
“As quatro estações” abre com “Há tempos”, um rockão rasgado, vibrante, que, em contraponto, começa com a frase “Parece cocaína mas é só tristeza, talvez sua cidade”. Renato Russo deixa claro, logo de cara, que está menos preocupado em perguntar “que país é esse?” ou falar da “geração coca-cola”, e sim buscar uma reflexão mais ampla sobre a vida, os conflitos internos e os segredos que lhe afligiam, as emoções e os relacionamentos humanos, a religião e a metafísica. “Disciplina é liberdade/Compaixão é fortaleza/Ter bondade é ter coragem/Lá em casa tem um poço/Mas a água é muito limpa”, são os últimos versos.
Em seguida, o tom baixa com “Pais e filhos”, levada no violão acústico, mas com interferências de uma guitarra blueseira, que, embora tenha virado uma balada de cantar batendo palmas, versa sobre o suicídio de uma garota que se jogou do quinto andar, pois não se entendia com os pais. Por outro lado, como escreve Villa-Lobos, no livro supracitado, a canção era também “uma homenagem às suas famílias, aos seus filhos que chegavam”. Em “Renato Russo – O trovador solitário”, o jornalista Arthur Dapieve complementa que “Renato queria agradecer à sua família, que já sabia do seu homossexualismo havia dez anos”. Além disso, havia o fato de que o próprio compositor, fazia pouco tempo, tinha se tornado pai, “o que a letra também mencionava, cifradamente”: “Meu filho vai ter nome de santo/Quero o nome mais bonito”. “Pais e filhos” encerra-se belamente, de maneira conciliatória, indicando um ciclo que, de fato, estará sempre aberto: “Você me diz que seus pais não entendem/Mas você não entende seus pais./Você culpa seus pais por tudo/E isso é absurdo/São crianças como você./O que você vai ser/Quando você crescer?”.
Renato Russo, Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá / Foto: divulgação
“Feedback song for a dying friend” é a terceira faixa. Cantada em inglês, é a que mais se distancia, esteticamente, das outras composições, contudo a que toca em duas questões que assombravam Renato Russo fazia alguns anos: tornar público sua homossexualidade e falar sobre a Aids. De acordo com Dapieve, a letra, escrita em 1985, “antecipava o pesadelo da Aids e, ao ser lançada naquele momento, estabelecia ligação direta com a morte em público de Cazuza, que decidira transformar a doença numa declaração política”. O encarte do disco traz a tradução feita por Millôr Fernandes (um dos ídolos do Renato), cujos primeiros versos dizem: “Alisa a testa suada do rapaz/Toca o talo nu ali escondido/Protegido nesse ninho farpado sombrio da semente”. O tema é agravado pelo peso das guitarras elétricas e da marcação da bateria que, de forma inesperada, é engolido por uma sonoridade oriental, hinduísta, tramada em acordes maciços de cítara.
As duas canções seguintes são mais leves e mostram uma textura de crônica do cotidiano. “Quando o sol bater na janela do seu quarto”, de melodia simples e compassada, tem uma letra positiva (“A humanidade é desumana/Mas ainda temos chance/O sol nasce pra todos/Só não sabe quem não quer”), ainda que aponte que “Tudo é dor/E toda dor vem do desejo/De não sentirmos dor”. Já “Eu era um lobisomem juvenil” avança de dedilhados suaves de corda para um crescendo de teclado e percussão, até encerrar-se nos mesmos dedilhados suaves de corda. A letra parece constituída de uma colagem de retratos de observação e de certos devaneios poéticos. “O que sinto muitas vezes faz sentido/E outras vezes não descubro o motivo/Que me explica porque é que não consigo ver sentido/No que sinto, o que procuro, o que desejo e o que faz parte do meu mundo”.
“1965 (Duas tribos)” retoma a veia mais agressiva, na sonoridade e nos versos, dos primeiros discos, ao denunciar os crimes do regime militar, instituído nos anos 1960. Renato faz menção à tortura (“Cortaram meus braços/Cortaram minhas mãos/ Cortaram minhas pernas/Num dia de verão”) e às prisões arbitrárias dos estudantes (“Mataram um menino/Tinha arma de verdade/Tinha arma nenhuma/Tinha arma de brinquedo”), entoando, ao fim, escarnecidamente, um dos slogans criados pela ditadura: “O Brasil é o país do futuro”. Como é comum ao álbum, parafraseando Dapieve, a ferocidade elétrica dá lugar outra vez ao plácido clima acústico. “Monte Castelo” tem um tema instrumental bem orgânico aos seus versos, que trazem trechos do “Soneto 11”, do escritor português Luís de Camões, e do capítulo 13 de Coríntios, livro da Bíblia. “Ainda que eu falasse a língua dos homens/e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”. Os arranjos são construídos em teclados sintetizados e delicada percussão, emulando uma atmosfera etérea.
Chegando às últimas faixas, “Maurício” destaca-se pela presença do bandolim sobre uma base pós-punk, que faz da faixa a mais soturna, sobretudo diante de trechos como “Me sinto tão só/E dizem que a solidão até que me cai bem”. A próxima é “Meninos e meninas”, e sua relevância está mais na mensagem que na própria composição. É a primeira vez que Renato Russo expõe sua homossexualidade (ou, pensando melhor, sua bissexualidade) de maneira clara. “Acho que gosto de São Paulo/E gosto de São João/Gosto de São Francisco e São Sebastião/E eu gosto de meninos e meninas”. Villa-Lobos, em “Memórias de um legionário”, recorda que a canção se tornou um sucesso das FMs, depois de integrar a trilha sonora da novela “Rainha da sucata”, da TV Globo, ainda que falando sobre preferências sexuais. Mais uma prova de como o mundo ficou careta!
“Sete cidades” é uma das composições mais bonitas da Legião. Marcada por uma gaita incidental, tem o tom de uma declaração de amor de alguém separado do contato carnal e, por conta disso, seu “espírito se perde, voa longe”. O disco fecha para cima, de novo versando sobre amores e relacionamentos, com “Se fiquei esperando meu amor passar”, uma levada pop básica, guitarra e bateria, que, nos últimos minutos, vai perdendo força e adquirindo (outra vez) ares sacros, ao incorporar versos inspirados no Evangelho de João, incluído no Novo Testamento (“Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo/Dai-nos a paz”). De fato, uma escolha simbólica (e acertada) para a conjunção de temas que evoca para tratar da finitude, da incursão pelos caminhos materiais e espirituais que constituem a vida.
“As quatro estações” não tem, em seu repertório, uma “Faroeste caboclo”, aquela que os jovens da época ouviam reiteradamente a fim de memorizar palavra por palavra, mas é o trabalho que traz, na concepção a que se propõe, as melhores canções da Legião Urbana. Caso não seja o melhor álbum de rock nacional de todos os tempos, sem dúvida está entre os cinco melhores. Um disco que, completados quase 30 anos, parece dialogar mais com o nosso tempo do que aquele em que foi lançado.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
The Lobster. Irlanda/Reino Unido/Grécia/França/Holanda/EUA. 2015.
“Um dia, enquanto jogava golfe, pensou que é mais difícil fingir que sente algo quando não sente, do que fingir que não sente nada quando sente”.
(Narradora)
Após os perturbadores Dente Canino (2009) e Alpes (2011), é a vez do cineasta grego Yorgos Lanthimos discorrer sobre o que Eros melhor representava: o amor. Esqueça, porém, a mitologia helênica e imagine um futuro onde uma lei proíbe que as pessoas fiquem solteiras – ou sequer, viúvas. Qualquer adulto que não esteja em um relacionamento é capturado e enviado a uma espécie de resort, onde terá 45 dias para encontrar um parceiro. Caso não encontre, será transformado em um animal de sua preferência e solto na floresta. Neste contexto, a lagosta do título é o animal escolhido pelo arquiteto David (Colin Farrell), novo “hóspede” do local (“porque as lagostas vivem mais de cem anos, têm sangue azul como os aristocratas e são férteis toda a vida”, justifica ele). Ali, os solitários tentam encontrar – ou simular – aspectos em comum para formar um casal e evitar o destino animal.
Misto de Farenheit 451 (1996) com Her (2013), o longa é uma sátira à burocracia dos relacionamentos. Com roteiro assinado por Lanthimos e Efthymis Filippou, The Lobster traça regras absurdas, porém correlatas aos dramas afetivos cotidianos e pontua ironicamente a mecânica das relações humanas. Em uma das esquetes encenadas pelos funcionários do hotel, por exemplo, são apresentados os benefícios de não se viver sozinho, como não morrer engasgado (para os homens) ou não ser atacada durante uma caminhada (para as mulheres). Uma vez formado um novo par, a gerente sentencia: “se acontecer qualquer problema, tensão ou discussão que o casal não consiga resolver sozinho, nós lhe daremos crianças”. Algo comum na tentativa de se salvar um casamento.
Rachel Weisz e Colin Farrell em cena de The Lobster / Foto: divulgação
Dividido em dois atos, a primeira parte do longa se passa unicamente no resort, salvo as saídas de “caça aos solitários”, onde cada hóspede, munido de rifles tranquilizantes, captura solteiros em troca de dias extras de estadia. Num segundo momento, com David já na Floresta dos Solitários – que possui regras igualmente absurdas – somos introduzidos à personagem de Rachel Weisz (que também funciona como narradora da trama, e desenvolve com David uma relação proibida), de Léa Seydoux (Azul é a Cor Mais Quente) – espécie de líder dos solteiros convictos – e ao mundo externo. Vale ressaltar que, exceto o protagonista, as demais personagens não possuem nomes próprios. Talvez para reafirmar a superficialidade entre seres sem identidade.
Em seu primeiro filme falado em inglês, a antiutopia criada pelo cineasta soa um pouco mais acessível que seus originais gregos, porém confirma que o ser humano é universalmente estranho. Vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2015, a trilha sonora orquestrada dá o compasso das muitas reflexões provocadas pelas metáforas do filme, dentre elas a questão do livre arbítrio amoroso, da artificialidade das relações e da busca/caça pelo par ideal. Tal como o amor, o cinema visionário de Lanthimos se conjuga ambíguo e paradoxal. Entretanto, quem resiste?
não se mede
tempo e espaço pelo tamanho da cidade
vila adentro
cidade velha
hoje a tarde e eu
mais velho do que as casas e as ruas de pedra
penso que amanhã
talvez não exista outra solução
que não a fuga
um rio corre calmo
eu não mergulho mãos
pra aprender a calma
eu corro
mais do que os carros
e os anos que ficam trancados
dentro da cidade murada
não cabe
o que pensei em fazer nos dias
em que lá em casa a luz era amarela
e anna chegava dizendo que agora sabia
a razão de eu ser poeta
e era
1. ser mais alto do que as montanhas
que protegem a cidade
(como se existissem montanhas além da linha do mar)
2. ser menor do que a vontade
de desistir do barco e dos furos no fundo do barco
durante a chuva
3. não ter pressa em conhecer os outros
mundos e as pessoas que existem dentro deles
4. conhecer antes de tudo a mim mesmo
e os mundos e as pessoas que existem dentro
por isso hoje
enquanto voltava a casa
escrevi uma carta
que apesar de branca carrega no remetente o impulso grande de voltar
por isso hoje
no caminho de casa
comprei um espelho
e o coloquei na porta
da sala
virado
pra rua
(e envelhecemos a casa
eu e a cidade
enquanto é dia
o espelho não)
***
FENDA
visitamos cidades destruídas
asilos abandonados nos quintais
teu rosto uma fenda – por enquanto
desistimos de ser tristes
você acredita não existe outra palavra
mais bonita que triste
enquanto isto é uma fotografia,
um postal de Budapeste e suas
cinco mil luzes azuis – será
que ele te encontra hoje em casa:
uma cidade que te povoa na infância
algures teu nome nalguma porta
quem te disse um dia para sair com as chaves
e as coisas que despencam – por enquanto
isto é uma queda
isto é uma seta
quando eu falo em seta você pensa
em seta ou em flecha
você pensa em uma seta como uma
flecha
você pensa em uma flecha como um
desastre
estar de pé tem sido uma aventura,
uma escavação ou uma tragédia
arrancar aos peixes nem tanto,
na data o postal um ano escondido
teu nome alhures: você ouve barulhos
das pedras que descem murmúrios
mas isto é um acidente
uma flecha que atravessa o poema
escuta como ele pulsa devagar
discutimos sobre precipícios
os fados que me ensinaram
de não tornar ao chão – por enquanto
isto é um aviso,
a porta que ainda não caiu
a última casa que resiste irônica
os azulejos que invertem
a ordem do mito.
***
ANTIODE AO PAI NATAL
deverias ler mais os portugueses e aprender
o que é o poema sério – ainda não sei
muito menos o nome de verdade da Catarina
de Escócia, mas que era uma rainha
que gastou os últimos dias em cima da terra
abençoada pelos deuses escoceses cultivando
um enorme pé de erva
estas coisas são imperdoáveis
ou era outra história que inventavas
para usar o nome de Deus, temer a Deus
a todas as coisas
hoje é dia de condenar os pecados
um vento não fala de árvores empalhadas
nem é vento e não passa
alguns jornais noticiam rituais pagãos,
o euro aumenta nesta época do natal,
montaram um presépio em que o miúdo deitava ao chão
e ninguém sequer sentenciou
as coisas mudam e os homens se perdem todo dia
uns morrem e depois morrem de novo todo dia
e as luzes continuam acesas
e piscam
parece que inventaram hoje, olha lá que ainda
é tempo de cometer absurdos
dar cabo aos jogos das cartas seria uma aventura
imperdoável
ser útil ao amor e aos desejos de fim de ano
enquanto o outro desenha teu nome
na testa encharcada da menina chinesa
que não dorme
é duro feito pedra
a latitude é 3
não se mede a densidade relativa do ar
as asas que me meteram às costas ela confunde
com ironia e a terra da China é fértil
disseram que pra lá já passa de 2016
e já se foi o ano do porco
não se brinca com astrologia
isto não ajuda
isto não perdoa um monte afastado
de cultuar certos deuses
***
A ESPERA
enquanto o cigarro esvazia e no porto
a temperatura cai sem deixar vestígios
pensamos que a cidade sente por nós
ali não estivemos
mas nosso amor sim
pelo menos em palavras e silêncios
e o que somos hoje não ultrapassa a barreira disso
você de costas para a champs-élysées
uma fotografia clara tão mais bonita do que as minhas
eu deveria te escrever um poema
que terminaria com um desenho calmo e saudações
da vida portuguesa
mas nunca fui bom em desenhar a espera.
***
O VERBO
já podemos sentir de novo a casa vazia
algumas palavras perderam o sentido
outras arranham as paredes como um bicho
você as deixa fechadas
foi então que começamos a anotar as coisas
nas cortinas me pega a mão faz um desenho
temos um cubo de gelo e escreve: gelo
temos uma casa e escreve: casa
o carteiro já não vem e a isso
somam-se meses pela vizinhança
espalha-se um boato de que aqui
dentro estamos todos mortos
se te desse agora uma fotografia
exatamente de agora
sentada como está
quanto tempo levaria até que
escrevesse na parede
o nome de lugar
algum?
Otávio campos é um poeta e editor nascido em 1991. É autor dos livros “Distância” (Aquela Editora, 2013); “Outros tipos de disparos” (Edições Macondo, 2016) e “Os peixes são tristes nas fotografias” (Bartlebee, 2016).
She has given her soul to the Devil but the devil gave his soul to God
Caetano Veloso
Quando o Major Andrade passou mal em casa, acabava de colocar o uniforme para ir ao quartel. Tinha acordado cedo para engraxar os sapatos e polir o cinto. Podia ter feito isso na noite anterior, mas há muito tinha adquirido o hábito de revisar seu uniforme pela manhã. A mulher deixava tudo passado e em ordem. O que lhe cabia, cinto e sapatos, ele cuidava logo quando acordava. Deviam estar sempre brilhando, impecáveis e, mesmo já limpos, ele tornava a escovar e polir. Depois era vestir-se. As meias esticadas até o alto da canela, a calça verde-oliva com o vinco exato, sapatos, a camisa cáqui, a gravata de mesma cor, a túnica também verde-oliva e o quepe. Vestia-se nessa ordem. Naquele dia, por um motivo que não saberia dizer, mas que, depois, pensaria ser um indício já de sua doença, um indício da desordem do corpo na rotina de vestir… naquele dia ele colocou a túnica antes da gravata.
Não era uma gravata comum, mas daquelas de nó pronto com um gancho para encaixar no colarinho. Foi por isso que ele, ao sentir o aperto na garganta, teve certeza de que a gravata não lhe apertava. Algo o enforcava e não eram as roupas, mas ainda assim tentou se desfazer da gravata que teimava em não sair, agarrada ao botão do colarinho. Teve de puxar com força e rasgar a camisa. Com o alívio momentâneo é que se deu conta. O braço formigava como se dormente e o peito estava apertado numa angústia de morte anunciada. A cabeça latejava. A rigidez da túnica lhe impedia de levantar direito os braços, não conseguia tocar a testa com a mão. Naquele momento não sabia se era uma fraqueza do corpo ou se tinha esquecido o movimento da continência. Para vencer as mangas rígidas do uniforme tinha de esticar primeiro o braço para a lateral. Assim ele escapava um pouco do tecido. Só então fazia o gesto de levantar o braço até a testa. Pronto. Estava feita a continência.
Naquela manhã não foi assim. O uniforme apertava e mais parecia uma camisa de força do que uma roupa e seus símbolos. O Major Andrade caiu no chão do quarto e lhe pareceram muito longos os instantes em que ficou ali sufocando. Antes de perder a consciência, imaginou ser essa a sensação de quem é torturado: um quase morrer que nunca se completa. Uma agonia sem fim. Esse foi seu último pensamento antes de tudo escurecer no quarto, enquanto lá fora, às cinco e meia da manhã, começava um novo dia.
*
O quarto era branco.
Dizer assim uma simples constatação parece redundante e desnecessário para qualquer um, mas para o Major Andrade era uma constatação infeliz. Ali naquele quarto de hospital tudo era branco. Faltava algo verde-oliva nas portas que pudesse lembrar o Hospital Militar de Salvador. Quando ele acordou pela primeira vez, quis saber por que não estava lá.
— Eles não têm equipamento para cuidar de você, querido.
A esposa tentava a todo custo convencê-lo a aceitar o hospital civil sem reclamar. Ele aceitava, dava-se por rendido, mas reclamava e acha defeitos em tudo. Tinha tido um infarto, estava ferido, fora de combate, mas não se conformava. Por que o exército não tinha um hospital bem aparelhado? Que diabos estavam fazendo com a tropa?
— Se você ficasse lá ia morrer.
— Palhaçada! Saindo daqui vou falar com o Comandante da Região. Se um soldado não tem tratamento certo, seguro, como pode defender o país? Se precisar, mando carta pro Geisel. Absurdo.
— Meu velho, você tem de ficar calmo. Assim só piora.
O médico, que já entrava no quarto enquanto a mulher falava, emendou.
— O senhor tem de relaxar pra ficar bom logo.
Andrade olhou para o médico com algum desprezo. Era novo, não devia ter nem trinta anos. O que ele sabia de medicina?
— É esse menino que está cuidando de mim?
A mulher respondeu com um olhar de recriminação.
— Ele não fica quieto, Doutor, não se acalma.
— Se o senhor não se acalmar, vamos ter de lhe dar um calmante.
O médico falava com uma paciência estudada, complacente, como se lidasse com uma criança. Aquilo só irritava mais ainda o Major.
— Quando ele sobe pra cirurgia, Doutor?
— Marcamos pra de manhã.
— Cirurgia?
— Sim, querido, eu lhe falei.
Ele não lembrava. Como iam operá-lo naquele hospital? E sem nem mesmo ser consultado? Começou a praguejar, queria uma explicação, queria sair dali.
— Esses médicos não sabem nada. Eu não vou ser operado por esse menino.
— Calma, meu querido.
O médico resolveu que era melhor deixá-los conversar. Ele teria de ser operado. Teria ainda de esperar até o outro dia e, depois, repouso. E quem sabe quais as consequências? Talvez fosse reformado, fosse para a reserva e fim. Acabado. Morto ou vivo não seria mais o soldado que era. Tanto tempo de dedicação ao Exército; aqueles anos todos defendendo o país e justo naquelas circunstâncias, o país em crise. Os comunistas.
A mulher tinha conseguido acalmá-lo. Deixou-o sozinho no quarto.
Veio, então, uma enfermeira. Era uma mulher de uns quase trinta. Todo mundo tinha quase trinta naquele hospital e ele não confiava em ninguém com menos de trinta anos. Era morena clara. O cabelo meio cacheado estava esticado e preso num coque atrás da cabeça. Via-se que todo o desalinho do cabelo tinha sido domado com mão de ferro. Uma disciplina militar. Ela o cumprimentou sem nem mesmo olhar e começou os preparativos para um remédio. Preparava uma seringa.
— Vai me furar com isso pra quê?
Ela finalmente olhou para o paciente assustada. O major percebeu o susto.
— Que é? Estou mal assim?
— Não, senhor.
— Pra que é esse remédio?
— É pro senhor relaxar um pouco.
— Vai me dopar?
Ela não hesitava ao colher o remédio com a seringa. A mão firme. Depois foi só injetar no soro lentamente.
— Já, já o senhor vai estar tranquilo. Vai ser bem suave. Tá?
Era verdade, aos poucos ele se acalmava. Ela arrumou os apetrechos e se preparava para sair quando ele a chamou.
— Vem cá, eu já não te vi antes?
A moça se virou. O rosto estava imóvel, sem nenhuma reação, uma frieza típica de enfermeiras. Já tinha visto tantas coisas.
— Como é seu nome, menina?
— Maria.
— Maria de quê?
— Só Maria, senhor.
— Tem sobrenome?
— Sim, senhor.
— E não vai me dizer?!
— Não, senhor. Agora o senhor precisa relaxar.
— Eu lhe conheço.
— Acho que não.
— Conheço, sim.
— Senhor, talvez seja o remédio. Ele já deve estar fazendo efeito. Vou deixar o senhor dormir. Boa noite.
Ela saiu e fechou atrás de si a porta branca. O quarto ficou numa penumbra branca. Com se estivesse numa noite glacial. O branco foi se desgrudando das paredes como se fosse algodão e aos poucos começou a cobrir a cama onde estava o Major, lentamente, como neve. Ele se viu inteiramente coberto. Sentiu-se um pouco sufocado. Teve medo de morrer, um medo vago, um sentimento que pouco a pouco se distanciava, ou era ele que parecia estar cada vez mais distante. Parecia escapar, sumir, até que finalmente o branco escureceu de vez e tudo se apagou.
*
Acordou no escuro. Apenas o retângulo da porta fechada se destacava. Voltou a fechar os olhos e a imagem da enfermeira apareceu na sua frente. Não estava de cabelos presos. Eles estavam soltos, ondulados, desalinhados. Usava um vestido azul, simples, que descia reto até os joelhos e era abotoado na frente. Não tinha nada do espalhafato dos jovens daqueles tempos esquisitos. Nada de estampas, calças jeans. Uma moça de família. Ela chorava e repetia “meu irmão”, “meu irmão” e então desapareceu de novo no escuro meio avermelhado das pálpebras fechadas do homem. Ele voltou a dormir o sono químico do remédio, o sono profundo de um corredor longo em que podia ouvir portas de ferro se fechando e gritos. Eram gritos distantes, abafados, como se alguém estivesse sendo sufocado. Ele andava e os gritos pareciam mais próximos, como se fossem sussurrados em seus ouvidos. Vinham cada vez mais perto, até que pareceram entrar na sua cabeça e ficaram mais e mais abafados e, por fim, viraram uma tosse descontrolada.
Acordou tossindo, engasgado na própria saliva. Por um segundo, sentiu que ia sufocar. Precisou levantar e sentar na cama. Queria gritar, mas a voz não saía, pelo menos não audível. Pensou que sua mulher pudesse estar ali no quarto velando seu sono. Não estava. Estava só no escuro. Aos poucos a garganta se desobstruiu e pôde emitir um pigarro mais alto. Queria cuspir, mas onde? Não tinha nenhuma aparadeira perto. Acabou cuspindo no chão, um cuspe grosso, escuro, que logo se transformou em vômito. Ficou um tempo debruçado para fora da cama até que a ânsia acalmou. Ainda recostou um tempo na cama para só então ouvir algum barulho. O retângulo de luz se abriu na porta e entrou a enfermeira.
— O senhor está bem?
— Claro que não. Não tá vendo?
A moça olhou o chão sujo.
— Quase morri aqui sozinho. Não tem ninguém aí, não?
— Eu estou aqui, senhor.
— Minha mulher?
— Não sei dizer. Deve ter descido. Eu mesma vou limpar isso.
Ela acendeu a luz e saiu, voltou logo com um carrinho de material de limpeza e uma bandeja com vários outros materiais.
— Estamos sem pessoal de limpeza à noite, mas já vou limpar isso tudo.
— Hospitalzinho de merda.
Ela se concentrou primeiro no chão. Enquanto ia de lá para cá entre quarto e banheiro, o Major Andrade voltou a reconhecê-la.
— Eu conheço você, sim.
Ela não parava a limpeza. As mãos enluvadas para recolher o vômito do chão.
— Acho que não, senhor. Eu, pelo menos, não me lembro.
— Você tem um irmão?
A enfermeira o olhou sem expressão. Mesmo enquanto limpava o chão sujo sua expressão era impassível. Nenhum nojo aparente.
— Não, senhor. O senhor fuma, não é? Não precisa ficar preocupado com esse muco. Vou relatar ao médico, mas tenho certeza de que não é nada grave. Pelo menos não agora.
Levou o pano sujo para o banheiro e de lá continuou. A voz saiu um pouco mais alta, mas ainda calma e controlada.
— O senhor fumava sem filtro?
De volta ao quarto.
— Ou cigarro de palha?
— Os dois.
— O senhor devia fumar só cigarro. E com filtro. É melhor.
— Eu lembro de você procurando seu irmão no quartel.
— Eu não tenho irmão, não. O senhor deve está me confundindo com alguém.
— Tem, sim. Ou tinha. Ele foi preso, não foi? Era subversivo.
Ela tinha terminado a limpeza. Preparava, agora, um chumaço de gaze.
— Era comunista.
O rosto de Maria continuava imperturbável. Havia apenas um esboço de compreensão, o ar compassivo que as enfermeiras fazem para qualquer dor que um paciente sinta, seja uma febre ou um câncer terminal, a mesma face suave e calma. Confiante.
— Eu preciso limpar o senhor. Posso?
Começou a limpar o rosto do paciente, queixo, pescoço.
— De manhã um enfermeiro vem lhe dar um banho. Isso é só pro senhor não dormir sentindo o cheiro do vômito. Não vale a pena perder o sono agora.
— Você é muito educada, mocinha. Me admira ter um irmão comunista.
— Me desculpe, mas não sei do que o senhor está falando.
— Sabe, sim. Você foi várias vezes atrás dele. Isso aconteceu há uns dois ou três anos. Não lembro bem, foram tantos. Ele tinha desaparecido. Fazia tempo que você não o via. Ele tinha ido pra clandestinidade. Não sei o que fazia antes, algo na universidade. Professor ou estudante? Tinha sido expulso e entrou na luta armada. Uns marginais, você sabe.
— Eu não acompanho política.
— Pelo visto, não mesmo. O que eles não entendem é isso. Os subversivos. O povo está do nosso lado. Ninguém quer saber dessa história de comunismo. As famílias não querem. Alguém precisava fazer alguma coisa. Foi o povo que pediu a Revolução. E o Exército apenas protege a vontade do povo.
Ela não respondia nada.
— A influência deles é nefasta. Eles se metem na música, nos programas de televisão. É esse desregramento; a nossa juventude está se perdendo.
Ela acabou o que estava fazendo e começou a arrumar as coisas para ir embora.
— O senhor precisa voltar a dormir.
Ele a segurou pelo braço. Segurou forte. Queria que ela o olhasse nos olhos. Puxou-a.
— Você achou seu irmão?
Ela pegou a mão, tirou-a do próprio braço e a colocou de volta sobre o peito do paciente.
— Agora o senhor precisa dormir.
A voz era mais firme do que antes.
— Menina, eu sou um Major do Exército Brasileiro. Só recebo ordens de meus superiores.
— Mas aqui o senhor tem de obedecer. É para sua saúde.
Falou no tom amigável com que se fala com as crianças. Arrumou suas coisas e ia saindo quando ele a chamou.
— Não quer saber o que aconteceu com seu irmão?
Ela parou na porta. Ficou um instante em silêncio até voltar-se com o rosto plácido de sempre.
— Parece que o senhor não vai dormir, não é?
— Quer saber se ele está vivo?
Ela continuou parada na porta.
— Sente aí.
Não sentou. Ficou imóvel no mesmo lugar.
— Seu irmãozinho era um agitador. Tinha mesmo de ser expulso da Universidade. Acho que era estudante, não é? Nossos homens estavam na cola dele há muito tempo. Sumiu, mudou de nome. Ele era o tal Carlos, não era? Você parece que não sabe de nada. Ou sabe? Essa cara tranquila…
Ela continuava no mesmo lugar.
— Sente.
Apontava a cadeira convidativo.
— Seu irmão não era assim. Era fraco. Não fui eu que prendi, mas sei que ele foi encontrado numa casa na Ribeira. Quando os colegas chegaram, ele se escondeu na caixa d’água. Quase se afoga, o idiota. Chegou na unidade molhado e sangrando. Às vezes é preciso dar um corretivo nos caras. Sabe como é, né? É preciso pôr ordem nas coisas. Jogamos ele no buraco e esquecemos lá. Nem sei quantos dias. A ordem era essa. Primeiro uma adaptação, pros caras esquecerem o mundo lá fora. Quando tiramos, ele tossia muito. Estava todo vomitado, mijado, cagado. Fedia muito.
Maria franziu um pouco a testa, muito levemente.
— Tá com nojo? Mas você não teve há pouco quando limpou meu vômito.
— Não.
— Pena? Eu entendo, afinal era seu irmão. É compreensível. Você é uma boa moça. Católica, temente a Deus. Eu também. Vou à missa todo domingo. Faço meus filhos irem também. Tenho dois filhos, um casal. A moça ainda está na escola, dezesseis anos. O rapaz já é casado, é engenheiro. A esposa é professora, fez escola normal, mas não trabalha mais. Casou. Tem de cuidar dos filhos que vão nascer e não dos filhos dos outros. Você é casada, minha filha?
— Não, senhor.
— Mas ainda é moça. Logo vai casar. Quem sabe um médico desses daqui, um rapaz direito. Tem um oficial recém incorporado no meu quartel, um tenentinho. Não namorou ninguém desde que chegou. Já falei pra ele arrumar uma noiva. Assim é esquisito. As pessoas comentam. Quem sabe ele vem aqui, hein? Você é uma boa moça.
Eles ficaram um pouco em silêncio.
— Quer que eu continue?
— Não precisa. O senhor tem de descansar.
— Mas eu vou continuar. Seu irmãozinho estava muito mal, com febre. Sabe Deus que doença tinha. Mas era preciso limpar, né? Ali só tinha um jeito. Botaram ele no pátio e lavaram com um banho de mangueira. Ele tremia tanto, era incontrolável. Parecia um boneco. Foi a diversão dos soldados. Depois demos toalha e roupas secas pra ele. Ele não podia piorar. Tinha muito a falar. Olha, quem fala sofre menos. Ele devia ter falado logo. Esses caras são assim. Sabem que vão soltar a língua, entregar todo mundo, mas demoram, ficam sofrendo. Era tão mais fácil entregar logo o jogo. São muito burros. Seu irmão foi muito burro.
— O senhor torturou ele?
— Sim. Quer ouvir? Senta e escuta.
Uma sombra tomou conta do rosto dela. Ela sentou na cadeira e esperou. Não olhava para o paciente, olhava para os lençóis da cama.
— Eu ainda era Capitão naquela época. Meu trabalho era interrogar os subversivos. Fiz isso muitas vezes. Era assim que a gente descobria os planos deles, era preciso. Uma questão de segurança nacional, sabe? Esses terroristas estavam à solta por aí fazendo baderna, assaltos, sequestros, explodindo coisas. Ainda estão. O país não está seguro. Nós vivemos anos perigosos, uma guerra.
— O senhor torturou muita gente?
— Foi preciso. Seu irmão foi um caso. Não colaborou. Poxa, na primeira surra era pra ter falado. Peguei dois soldados e mandei espancar. Primeiro de leve. A gente tem sempre a esperança de não precisar pesar a mão. Eu sou muito humano. Não sou de exagerar. Levou pauladas nas mãos e nas palmas dos pés, telefones. Sabe o que é um telefone?
Ele acenou positivamente com a cabeça.
— Você sabe. Pois não adiantou. Botamos na geladeira um tempo, nada. Geladeira é um cubículo baixo. A gente esfria, esquenta, esfria… o marginal fica uns dias lá debaixo de uma barulheira infernal. Seu irmão ficou. Nada. Ele não dizia nada. Foi aí que eu tive certeza. Um terrorista treinado. Ele resistia bem. Tava na cara que sabia de alguma coisa grande. Quanto mais eles se calam, mais a gente sabe que estão escondendo algo. É sempre assim. Seu irmão não seria diferente. Depois disso, fizemos afogamentos. Sabe como é?
Ela fez que sim novamente.
— Sabe não. Pensa que é só enfiar a cabeça num balde ou num tonel com água? Tem isso, ok, mas não é só. Pra mim funciona melhor tapar o nariz do sujeito e enfiar uma mangueira de água na boca. Liga e pronto. Ele vai engolindo água até sufocar. Quem já engoliu água na praia sabe o desespero que dá.
Ela se levantou.
— O senhor vai me desculpar, mas eu preciso ir.
Os olhos piscavam para disfarçar as lágrimas que queriam vir. O nariz estava vermelho.
— Não que saber mais?
— Não, senhor.
— Ele precisou ir para os choques, o pau-de-arara. Era teimoso o danado. Gritava, gritava muito, muito.
Ele colocou as mãos nos ouvidos, como se ainda pudesse ouvir os gritos dos presos, todos dentro de sua cabeça. Os olhos fechados.
— O senhor me dá licença.
Maria aproveitou o momento para fugir daquele lugar. Já saía do quarto quando ele completou.
— Ele acabou falando, menina. Contou tudo. Eles sempre falam.
Ela parou na porta entreaberta.
— E depois?
— Depois, pegamos os comparsas todos. Todo mundo. Fim.
— Assim? Fim? Acabou?
— As coisas não acabam assim, minha querida. Essas coisas não acabam bem.
Ela não conseguiu dizer nada. Saiu e fechou a porta atrás de si.
Ele ficou sozinho de novo. Por que tinha dito tudo aquilo à moça? Estava meio alterado, a respiração ofegante. Ia morrer logo, achava. Sussurrava para si “não passo de hoje, não passo de hoje”. Sentia que ia morrer, sabia disso enquanto fechava os olhos. Via um escuro diferente, mais negro que o normal. Definitivo.
*
Do seu sono ouviu a porta do quarto abrir. Abriu os olhos e viu a enfermeira novamente. Estava plácida, equilibrada. Manejava uma bandeja com seringas e remédios. Quando percebeu que ele estava acordado, sorriu.
— Está acordado? Como está se sentindo?
— Bem.
Ele estranhou a calma da moça. Tinha saído transtornada antes e agora voltada como se nada tivesse acontecido. A mesma feição compassiva de antes.
— Você deve me achar um monstro, não é?
— Como?
— Depois de tudo que eu lhe contei.
Ela sorriu compreensiva.
— O senhor não se preocupe. Está tudo bem.
— Você está com ódio de mim, não é?
Ela preparava o medidor de pressão.
— Deve me achar um torturador de merda. É isso.
Encheu o medidor de pressão. O braço do paciente ficou apertado. Ele achou que estava exagerado, doía. Pensou em reclamar, mas logo a pressão começou a diminuir. Ela se concentrava na medição.
— Sua pressão está alta. Vou precisar lhe medicar.
— Você?
— Sim.
— E onde está o médico?
— Ele vem mais tarde, não se preocupe.
— E minha mulher?
— Ela está lá embaixo, já vai subir.
Ele desconfiava da calma da moça. Como ela podia estar assim tão calma depois de tudo que ele falara?
— Você vai me matar.
Ela olhou para ele surpresa. A seringa estava na mão pronta para colher o remédio na ampola.
— O senhor está agitado. Esse remédio é justamente pra lhe acalmar.
— Você quer se vingar de mim. Eu não tenho medo. Se eu morrer, não vou para o inferno. Tudo que eu fiz foi pra defender o meu país. Já você, você é uma assassina. Eu sou um soldado, eu obedeço ordens. Ninguém pode me culpar de nada. Sou católico, vou à missa, confesso, comungo. Eu entreguei minha alma a Deus. Quando eu morrer o próprio Jesus vem me buscar porque eu defendi meu povo. Eu fiz o que era preciso. E se fiz alguma coisa de errado é porque precisava fazer o certo. Alguém tinha de fazer. Você, não. Você é uma assassina. Vai pro inferno.
Ela olhava para ele com uma expressão diferente da placidez de antes. Era como se controlasse uma impaciência. Quem a visse fora daquela cena sentiria que algo a incomodava.
— Senhor, esse remédio é apenas para acalmá-lo.
— Você vai me envenenar. O que é isso?
— Um tranquilizante leve. Apenas para o senhor dormir melhor. Foi o médico que passou.
— Eu não vi nenhum médico.
— O senhor estava dormindo, um sono agitado. Ele achou melhor repetir a dose do remédio.
— Não.
— Por favor, Capitão. O senhor vai ver como tudo vai melhorar.
Aquela voz lhe chamando de capitão lhe fazia voltar no tempo. A menina implorava pelo paradeiro do irmão. A mesma frase repetida várias vezes, chorosa, desesperada. “Por favor, Capitão.”
— Major. Eu sou um Major.
— Me desculpe, eu me confundi.
Ela enfiou a seringa no receptáculo do soro e injetou o remédio. Ele sentiu o líquido entrar no seu braço. Com a outra mão quis puxar a agulha, mas ela o impediu. Ela era surpreendentemente forte para uma moça. Olhava com a expressão firme. Ele repetia entredentes.
— Assassina.
— O senhor não se preocupe, Major. Acabou. Agora tudo vai ficar bem.
Ele sentiu o branco do quanto avançar sobre sua vista. Tudo ficou enevoado. Só os olhos negros na enfermeira permaneciam visíveis. Depois, esse negror se ampliou como se o sugasse, como se ele fosse levado por um corredor escuro com um barulho longe de portas de ferro e uns gritos desesperados, cada vez mais longe, cada vez mais longe, e no fim de tudo, nada.
*Conto de abertura do livro A Eternidade da Maçã, obra vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2016.
Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014) e “Arquivos de um corpo em viagem” (poesia, Editora Mondrongo, 2015). Recentemente, lançou “A Eternidade da Maçã” pela Editora 7Letras.
Uma sombra vespertina me contagia
Não se trata de mandar ou não notícias
O único modo de governar cada brecha
Desse tempo falho é interrompendo-o
Minha boca é morada ácida
Quero uma figueira sem pássaros
Para gozar dos frutos e anseios
De querer ser grande
A colher já não cabe no bule
Sua espada já não cabe em meu ventre
E atravessa cortando sua manhã
Perpassa grades
Parte chaves
Assim invisível incorpórea
Vou ao termo
Posto de pé o próprio amor inflamado
Vai a pique
Você se queima
Mas sou eu quem sai ferida
***
Até que a fenda desabe
Movida por invisíveis galopes
Busca agônica pelo divino
Dentro de mim tudo é tão apertado
Espaço de mundo imenso
Onde me sinto cercada
Você carvalho e seiva
Labaredas em trânsito
Fogo incontido lambendo o peito e tudo
Ripa seca enquanto seus gumes
Inscrevem em mim o impossível:
Aquele que não para de se não inscrever
***
De algum modo próximos de algum modo isolados
“Onde não puderes amar não te demores”
Cada um demonstra amor
À sua maneira
Se o meu ressoa em você
Como trovoada
Inverno noite ou relâmpago
Então me amar não deve ser
Trabalho fácil
Enquanto você se esforça
Quero apenas me demorar
Na sua pele
Celebrar nossa fertilidade
Inventar novos modos
De ser no mundo
Lado a lado
Assistir aos teus cabelos secarem
Compartilhando planos e projetos
Imagino que o futuro a dois
Seja uma felicidade irrecusável
Sentimento doce
Que ressoe azul
Solar e morno
Meu amor,
Aproxima-se e vê
Ou as coisas são claras
Ou não são
***
Gaslighting
I
Hoje é dia de festa no céu do útero
Ser deposta do trono
Eletrocutada
Catapultada
De mim
II
Esse amor
Um luxo
Agua translúcida de Bora Bora
Acalenta e aquece
Enquanto me afogo à deriva
Nessa vista linda e estéril
III
Por vezes confiante
Outras tantas catastrófica
Nesse terreno inóspito
IV
Nada me consola e seu toque me causa repulsa
Engulo a colher de sopa levada à boca
Sequer gosto de sopa
Talvez eu goste e não saiba
Talvez odeie
De todo modo permaneço engolindo
V
Contemplo as ilhas da Polinésia
Lágrima após lágrima
Endureço
Seu sorriso me quebra
Até quando?
VI
Me posto exausta em seus lábios
Prenda de gosto agridoce
VII
Se ao menos a língua rompesse a barragem desse oceano
Permaneço inavegável
VIII
Nesse desejo
Reside a promessa
Vindoura
De um gozo
Que a cada vez
É negado
IX
O que em mim se fecha ao seu mais leve toque se te amo?
X
Nem sempre o não demarca o fim
Acendo a lamparina
E permanece escuro
***
Síndrome de Manoel de Barros
Começou no vigésimo quarto aniversário
Apequenei-me de imensidões
Deu furo o meu vazio
Repleta de imanências
Passei a desperdiçar fala
Ocupei-me em desconhecer coisas e seres
Desletrei-me
(Ainda assim chamejava luxúria)
Colecionei desutilidades
Varada de acúmulos
Imprestável para o silêncio
Pessoa apropriada para nadas
Abandonada por dentro e por fora
Preteri ser gente
Pra andar com os bichos
Devotei-me às borboletas que devotam túmulos
Quis ser túmulo
Não sendo pessoa subterrânea
Tentei árvore
Depois ninho
Também não funcionei pra madeira
Ou verso de folha
Tentei pedra
Não fui comum com pedras também
Assumi compostura de água
Me acomodei incolor que é mais que infinito
Haveria de ficar no concluir das águas
Que pra mim tinha sentimento longínquo
Ampliava solidão
De coisa esquecida na terra
***
Um poema para Angélica Freitas
Uma mulher sem qualidades
Cozinha em tramontinas descascadas
Especialista em largar panelas no fogo
Foi abandonada
No 109º dia de casamento
Ao jogar água fervente com sapólio
Na cara do macho escroto
Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta, artista visual e bacharel em filosofia pela UFF, onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. Trabalha com mediação educativa em exposições de arte, elabora e ministra oficinas de criação poética, é crítica de arte, integrante e co-fundadora do coletivo feminista Disk Musa, onde trabalha na produção de conteúdos audiovisuais e performance.
O livro Vaga queda de Caio Russo se apresenta como uma fusão de gêneros. O próprio subtítulo: peça para piano de afogados op.27 sugere um objeto musical, o que de certa forma é o gênero que mais se adequa ao texto, já que a sonoridade e o ritmo são os pontos mais altos do livro. Como poderíamos classificá-lo? Um romance? Um poema? Uma epopeia? Uma prosa poética? Não cheguei a uma conclusão precisa e definitiva, me parece um romance que suga a estrutura, o imagético e a linguagem do poema, porém sem desprezar a essencialidade do prosaico. Por trás da melodia, existe uma grande narrativa, encontramos pequenos tratados sobre morte, vida, loucura, tempo e identidade.
O texto flui tanto no ritmo quanto na estrutura como um corpo líquido. Caio inventa durante o percurso uma originalíssima partitura e uma nova coreografia. De repente, percebemos uma leveza trágica na duplicidade dos loucos e na dureza dos manicômios: “o hospício de mim era um xadrez sem peças, tabuleiro ou parceiro a arquitetura de um labirinto sem paredes”.
O livro também discute a questão de gênero: José Laura ou Laura José? Em um mundo em que homens e mulheres estão constantemente em cabo de guerra, nada mais pertinente que essa con-fusão de identidades. Aqui, o que mais importa são a estranheza e o estrangeirismo que habita todo corpo consciente do absurdo da natureza humana independente do seu sexo: “a escuridão tamanha que não divisava paredes, eu era o único muro intangível entre Eu, e o quarto, e Eu…”.
Outro questionamento importante é sobre a arquitetura da escrita, sobre as picuinhas literárias, sobre as nomenclaturas que camuflam a verdade do texto: “pensei que podia escrever um livro/autobiográfico/autoficção que é moda pelo que sei/eu e Francis e podia matar alguém e colocar/mais um personagem escritor e parecia vaga…”.
Vaga queda: peça para piano de afogados op. 27 é um texto imprescindível para os homens que apreciam uma sinfonia do holocausto.
Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestre em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” e “As mãos mirradas de Deus”, os romances “Mosaico de rancores” (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen), e “A Puta”. O romance “O enterro do lobo branco” será lançado esse ano pela editora Patuá.
Com amplo reconhecimento da crítica especializada, Sidney Rocha é hoje um dos mais expressivos escritores em atividade no Brasil. Ganhou diversos (e importantes) prêmios literários, teve parte de seus livros traduzidos para o espanhol e para o inglês, figurou em uma antologia temática de contos da prestigiada Granta e foi um dos 21 autores que Nelson de Oliveira apostou como os mais representativos surgidos no início deste século em nosso país.
Sua prosa é aguda. O seu campo de interesses não possui limites, restrição de assuntos. É uma prosa que busca representar e apresentar a vida em toda a sua pulsação, toda a sua força. Tornou-se um lugar-comum elogiar o tratamento que ele dá à linguagem. Porém, o seu truque, a sua habilidade maior, como convém aos bons artesãos, está justamente em fazer que a distância entre os signos e os significados seja esquecida. Rocha jamais subestima a inteligência e a capacidade de imaginação de seus leitores. Sua generosidade está na oferta de uma leitura onde prazer e reflexão não precisam vir dissociados.
Às vésperas de lançar Guerra de Ninguém, seu terceiro livro de contos, após os aclamados Matriuska (2009) e O destino das metáforas (2011, vencedor do prêmio Jabuti), o autor faz uma pausa nas comemorações do seu aniversário de 51 anos e, do quarto de um hotel em Maceió, ao lado de sua querida filha, a cineasta Anny Stone, concedeu esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins, onde fala do começo de sua carreira de escritor, do amor pela poesia, de problemas culturais e políticos brasileiros, ambições artísticas e do que se trata o seu novo livro.
Sidney Rocha / Foto: Anny Stone
DA – Você começou sua trajetória literária com um livro de poemas, Mais que o rei, publicado em 1991. O título é muito provocativo (principalmente ao lembrarmos do “Vou-me embora pra Pasárgada” do Bandeira). Como você avalia esse seu primeiro passo, decorridos mais de 25 anos?
SIDNEY ROCHA – Sua boa pergunta tem uma ótima resposta no Galáxias, de Haroldo de Campos, que escreveu tão bem sobre começos, justo no começo daquele livro: “e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso / e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa / não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever / mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para / começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso / recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é / o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoitesmiluma- / páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas / mesmam ensimesmam onde o fim é o começo onde escrever sobre o escrever / é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo / descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e”…
Acho que todos os autores que nasceram depois do advento do modernismo no Brasil começaram a publicar com aquela ambição de escrever mil páginas para acabar com a escritura, e de que sua obra tenha múltiplos significados. É uma meta ambiciosa e, para ser pleonástico, nada modesta, especialmente se tal começo é pela poesia. Acho que na minha trajetória venho cumprindo, com irônica humildade, aquilo que afirmou William Faulkner: “Talvez todos os romancistas queiram primeiro escrever poesia, e depois descubram que não podem e tentam o conto, que é a forma mais exigente depois da poesia. E depois de fracassar no conto, só então um romancista se dedica a escrever romances.”.
Tenho tentado e mantido a tentativa nos três gêneros, o que mostra algo óbvio demais: o de que sou menos que o rei Faulkner e outros reis. Mas você me pede para avaliar o primeiro passo, depois de tanto tempo, e respondo: foi um começo válido, ou um dos tantos começos que faz um escritor antes da primeira ousadia de fato, que é publicar. A avaliação deve ser não somente literária, mas editorial. Naquela época era muito mais difícil publicar do que agora, e a autocrítica, embora não tão grande, era maior do que agora para a maioria dos autores. A facilidade de meios praticamente nos converteu a todos em escritores, e muitos e muitos se desobrigam de ler, que é o primeiro dever, o primeiro prazer de um escritor autêntico.
DA – Há uma incidência enorme de grandes contistas e romancistas que começaram publicando poesia e, depois do primeiro livro, nunca mais voltaram a ela. Você ainda cultua o gênero, escreve sistematicamente e pensa em sua publicação?
SIDNEY ROCHA – Sim, continuo a escrever poesia. Aqueles do primeiro livro eram poemas imaturos. Os que agora escrevo tenho a ilusão de que sejam mais maduros, e, como um paradoxo, a poesia somente conserva a força se conseguimos aquele vigor inocente da juventude, e, como você citou Manuel Bandeira, na primeira pergunta, termino com os versos dele esta resposta: “Amor total e falho… Puro e impuro…/ Amor de velho adolescente…/ E tão Sabendo a cinza e a pêssego maduro…”
DA – Acompanha a produção dos poetas contemporâneos? Acha relevante esses trabalhos? Atravessamos um bom momento criativo?
SIDNEY ROCHA – Acompanho mais os romancistas, contistas e ensaístas contemporâneos do que os poetas. Quanto a se atravessamos ou não um bom momento criativo, é uma pergunta muito difícil de ser respondida, pois, como nos falta a perspectiva, não é possível que sejamos justos com os contemporâneos, e por isto mesmo comentamos tantas vezes os nossos colegas de modo leviano. Não quero ser apressado na opinião. Não existe um termômetro para avaliar a criatividade, e ainda menos de todo um tempo. Além do mais, publica-se tanto hoje em dia que seria impraticável, mesmo para o leitor mais voraz de poesia, acompanhar o que sai e opinar com justiça.
DA – Sua prosa, por meio de uma sintaxe e evocação de imagens pouco convencionais, costuma apresentar um alto teor de tensão no trabalho de linguagem, exigindo leitura atenta e reflexiva. Essas características não restringem seu alcance? Ou são os autores que subestimam a capacidade dos leitores?
SIDNEY ROCHA – Nunca escrevo pensando em coisas assim, se o texto é mais tenso ou menos tenso, ou mais ou menos denso, nem sobre o que pensará o leitor. É muito interessante e inteligente o que você diz. Mas refletir sobre o alcance da obra e os seus leitores é tarefa mais dos editores e críticos do que dos escritores.
DA – O predomínio da literatura de entretenimento nas gôndolas das livrarias e listas de “mais vendidos” são indicativos da mudança do perfil do leitor brasileiro em relação ao das últimas décadas do século XX?
SIDNEY ROCHA – A mudança de perfil é mundial, não especial no Brasil. O Brasil, como por sinal em praticamente tudo, faz nada mais que seguir a onda global. Mas pode-se dizer que talvez tenhamos contribuído para o início dessa voga, quando exportamos autores como Paulo Coelho. Na atualidade, dá-se a exacerbação do que já vinha antes como tendência.
DA – A política vigente de “democratização” do fazer artístico, que nega a especialização, a profissionalização, e desqualifica a técnica em nome da simples expressão, defendendo que todos são escritores, que todos podem e devem publicar seus livros, independente da relevância do que tenham a dizer, não acaba por se constituir num grave problema de diluição e enfraquecimento da cultura?
SIDNEY ROCHA – Essa é uma questão muito complexa. Não acho que o problema seja a democratização ou a democracia, e sim justamente o contrário. Do baixo nível da educação, do baixo nível dos meios de comunicação. Nunca houve tantos escritores, nunca houve tão poucos escritores, pode ser a máxima paradoxal e óbvia. O excesso de publicação não representa uma vitalidade, e sim um enfraquecimento. Não é pela superabundância de livros que alcançamos nem a quantidade nem a qualidade de leitores. Por outro lado, a cultura não é feita somente da chamada Alta Cultura, e sim de todos os meios de que dispõe o homem. Não cabe a um escritor ser juiz – por sinal, que profissão detestável a de juiz – do seu tempo nem da sua cultura, nem dizer o que vale a pena ou não ser fruído. Mas não devemos nos rebaixar ao mainstream.
DA – Sofia e Matriuska trazem questões em torno da identidade feminina, seu universo de representação, simbologias, condições existenciais e, sem sombra de dúvida, as relações de poder e violências que a cercam. Você se identifica como feminista? Se enxerga como autor engajado em causas de interesse social?
SIDNEY ROCHA – Sim, mas os meus livros de ficção não são obras de ativista nem panfletos ou manifestos a favor da causa A ou da causa B, por mais justas que sejam. A ambição do escritor é a da beleza, não a da verdade, da emoção humana, não das discussões políticas e sociais. Em Matriuska e Sofia há personagens de ficção, não mulheres de carne. As mulheres de verdade sofrem muito mais injustiças e são muito mais inspiradoras e dignas de amor, admiração e enlevo que as modestas figuras que há nesses e noutros livros.
DA – Acho o título de O destino das metáforas sensacional. A capa também é um feliz achado. Sei que você, sendo igualmente editor, se envolve em todos os processos criativos dos próprios livros. Seria arriscado dizer que esse volume de contos recusa com virulência todo e qualquer realismo?
SIDNEY ROCHA – Obrigado pelo elogio ao título e à capa, devo os dois a meu editor e amigo Samuel Leon. Você acertou em cheio no que diz respeito à recusa virulenta. Quem busca reinventar a vida em palavras tem de ser capaz, ou pelo menos, tentar tocar a Realidade, não o realismo, que continua a ser a doença infantil da literatura brasileira.
Sidney Rocha / Foto: Anny Stone
DA – Ministrar oficinas de escrita criativa e leitura crítica se tornou muito comum entre os escritores. Você abriu um curso recentemente, onde estabelece como um dos objetivos principais o exame da “emoção”. Pode detalhar essa história?
SIDNEY ROCHA – O curso foi uma tentativa mais de estimular leitores que formar escritores. Se a tarefa de um escritor é, por excelência, antiacadêmica, é natural que um curso que se dedique a percorrer os caminhos da escrita se concentre na emoção. Se um arquiteto como Le Corbusier falava de máquinas de morar e mover, um escritor move-se pela emoção, mora na emoção, ela é a sua casa, o seu meio de transporte. Foi isso que tentei despertar nos alunos-escritores-leitores no modesto, rápido e introdutório curso. Um exercício de sensibilização, mais do que a carpintaria da escrita.
DA – Em Fernanflor há a afirmação que “todo retrato é um retrato falado – ou uma imagem que fala”. Nesse jogo, em que o objeto se livra do criador e se torna outro por via da linguagem, é onde se encontra a chave da sua libertação: a experiência direta, sem intermediários?
SIDNEY ROCHA – Que pergunta profunda e, portanto, difícil. Creio até que já contém a resposta, tão rica ela é. O fato é que a linguagem tem muitas dimensões e camadas. Mas não é a própria linguagem um meio? E sendo meio, intermediária? Ainda não chegamos àquele estágio reclamado pelo poeta Rimbaud, de uma linguagem de alma para alma. Talvez não haja chaves nem portas, para prosseguir na metáfora que você usou, e não haja também uma experiência direta e sem intermediários, exceto no misticismo, e literatura não é misticismo, embora, para muitos seja uma forma de mistificação.
DA – Nesse caso, sua afirmação caminha no sentido oposto ao dos estruturalistas, que viam a linguagem como fim e nunca meio. O conteúdo para você é tão importante quanto a forma?
SIDNEY ROCHA – A linguagem é meio, é fim, é princípio. A ambição de todo escritor é que a forma e o conteúdo estejam de tal modo em harmonia que o leitor não note que haja diferença entre uma coisa e outra.
DA – A Lutécia de Cristina e Jeroni Fernanflor evocou em mim a lembrança da estranha e lúgubre cidade de Fernanda, esposa de Aureliano Segundo em Cem anos de solidão. Qual o lugar da literatura hispânica sul-americana na construção do seu imaginário? Crê que o realismo mágico esgotou inteiramente suas possibilidades estéticas?
SIDNEY ROCHA – Todas as cidades podem ser lúgubres e estranhas, e uma das artes das boas leituras, como a que você aponta, é estabelecer correlações que nunca ocorreram ao escritor no momento em que escrevia seu livro, pela simples razão de que ainda não ocorreu a influência desse imaginário da literatura hispânica em mim, a realidade da América, sim; algo diferente do realismo, claro, com magia ou não. Coisas como Realismo Mágico e Autoficção são clichês inventados pelos acadêmicos e a mídia apenas para designar práticas tão comuns na narrativa desde que o primeiro não-escritor contou a primeira história.
DA – Guerra de ninguém será o nome do seu próximo livro de contos? Ele fechará uma trilogia ou não apresentará vínculo com os dois antecessores? O tema central seria o desencanto com a falta de perspectivas para um bem comum coletivo, a falta de horizontes políticos?
SIDNEY ROCHA – Sim, será o terceiro livro de um conjunto publicado pela Iluminuras, mas, como os anteriores, o conteúdo não está necessariamente atrelado a horizontes políticos, nem a regiões ou espaços específicos, e nunca faltarão as viúvas das vidas secas para reclamá-los. É um livro sobre seres humanos de qualquer parte. Os nomes das pessoas e das cidades não são nem simbólicos nem pontos de inflexão ou reflexão, apenas a maneira lúdica que tem um escritor de nominar o que não poucas vezes é inominável.
DA – Mas não há um tema, questão ou ideia comum a atravessar os contos?
SIDNEY ROCHA – Escrevi Guerra de Ninguém sonhando que o livro fosse um imenso campo minado.
DA – Essas indefinições de horizonte político e espaço físico também se estendem ao tempo histórico?
SIDNEY ROCHA – São vários tempos e várias histórias. O modo de tratar tudo isso, e também as vidas dos personagens, está longe de qualquer solenidade ou preocupações com ideologias. Ainda que algumas dessas figuras sejam nomeadas e tenham cenas de suas vidas reais identificadas por algum leitor que conheça suas biografias, vivem mesmo é no espaço literário, este é o seu horizonte.
DA – Pode dar uma pista de qual seria esse conflito sem combatentes insinuado no livro, o que os leitores podem esperar de você?
SIDNEY ROCHA – Os combates são os cotidianos, os dos sonhos de uns, as desilusões de outros, e, como em todas as guerras, os limites, os extremos, as derrotas estão em questão.
Lima Trindade é autor de “Todo Sol mais o Espírito Santo” (contos, 2005), “Supermercado da Solidão” (novela, 2007) e, entre outros, “Aceitaria tudo” (contos, 2015). Foi editor da revista eletrônica Verbo21 por mais de quinze anos e é mestre em teoria da literatura pela UFBA.