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114ª Leva - 08/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Cândido Rolim

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

FIBRA

 

Arranca do corpo a
camisa listrada levemente
defumada de suor e salga
Nas ranhuras da pedra
água e detritos de um
sabão de cor azul –
tempo inestimável
Até prender-se à grade
da janela deixando que
a gravidade e o vento
refaçam esse afinco: arrancar
fio por
fio
a memória dura de esvair-se

 

 

***

 

 

ESTE CAMINHO

 

este caminho
ninguém sabe onde
começa só
nós – suspensos – entre
um pressentimento e
outro

 

 
***

 

 

Desculpe, but

 

Desculpe, mas pertenço a um mundo desvirtuado
Também não me sinto moralmente apto a
tirar da experiência um lema
Desculpe, mas minha formação musical é promíscua
Desculpe, infelizmente essa metáfora não me atinge
Obrigado, mas não vivo de ênfase
Desculpe, não planejo dizimar a ideia contrária
Desculpe, mas não concluí a tarefa com êxito

 

 
***

 

 

A RAZÃO PERIFÉRICA

 

Esses só
vistos quando e
onde in
visíveis

Esses ausentes
estofos da
razão que os
alveja

Esses que
por motivos bem
diferentes
nascem

 

 

***

 

 

FICHÁRIO

 

Aquela vida que não
serve de presente nem traz uma
lição ou clareza de propósito.
Sem um proceder moralmente aproveitável lições
virtudes adquiridas.
Aquela vida sem fato
digno de nota.
Aquela
vida.

 

 

***

 

 

Essa leveza

 
Tipo peso se
ausenta
da cama
e………….. é
percebida: o corpo desloca
a transparência

 

Cândido Rolim nasceu na região do Cariri, sul do Ceará. Morou em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Atualmente trabalha em Fortaleza. Tem poemas, resenhas e ensaios publicados na internet, em revistas e jornais (clareiranaselva, cronópios, germinaliteratura, corsário, sibila, jornaldepoesia, Continente Sul, etc). Publicou os livros “Arauto” (Edições Dubolso, Sabará/MG, 1988), “Exemplos Alados” (Letra e Música, Fortaleza/CE, 1997) e “Pedra Habitada” (AGE, Porto Alegre, 2002), “Camisa qual” (Èblis, Porto Alegre, 2010). E-mail: candidorolim@hotmail.com

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114ª Leva - 08/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

As dexistências em Victor Prado

Por Lisa Alves

 

capa-bastardo

 

”Bastardo” é uma obra poética desmembrada em três capítulos, “Voçoroca”, “Passeio” e “Caleidoscópio”, e possui cerca de 57 poemas dentro de 124 páginas. O livro foi lançado recentemente pela Editora Urutau (que já chama atenção pelo design e qualidade de seus livros e a acertada escalação do corpo de autores). Victor Prado (1995) reside em Franca/SP, publicou dois livretos digitais Mamute (2014) e Onde Eu Poderia Estar (2016). Tem poemas publicados na revista Mallarmargens, Diversos Afins, Enfermaria 6, Jornal RelevO, entre outras revistas e sites literários.

 

“Mas dizer sempre é pior do que ouvir.”

 

Clarões, pequenas interrupções, movimentos e a linguagem arriscando explicar os desentendimentos que nos cercam em torno da palavra. Tenho a sensação que estou assistindo um filme, mas é um poema, o primeiro, talvez o principal – aquele que batizou a obra de Bastardo“.  Lembrei de Blanchot em “Espaço literário”, quando diz que ler não é obter comunicação da obra e sim fazer com que a obra se comunique. Sou leitora, escritora e não tenho condições de criticar qualquer obra literária, mas posso comunicá-la tal como ela se comunicou comigo. Mas advirto: a obra poética de Victor Prado não é explicável, não é uma composição química que podemos separar os elementos envolvidos. Sendo assim, é preciso ler “Bastardo” e degustar uma, duas, três ou infinitas vezes. Vamos lá?

Um dos pontos que mais me atraiu durante a leitura do livro foi a reprodução de títulos seguidos por números, indicando uma sequência ou uma série – confesso que inicialmente fiquei incomodada, afinal de contas o 5 não pode vir antes do 2. “Não mesmo? Quem disse? Quem determinou?” – me questiono. Então lembro à leitora (aqui dentro) que na arte a ordem temporal linear é inútil (ou no mínimo desnecessária) e então afogo meu suposto incômodo e volto a imergir na obra de Victor. Lembrando que vários outros poemas de “Bastardo” seguem também a sequência numérica, tal como os poemas “Arquitetura de Percepção”, “Sábado”, “Domingo”, “Confissão” e “Mal-Estar”, porém comentarei apenas duas séries, pois não pretendo dissecar a obra de ninguém (não acredito em roteiro para leitor), tal como não desejo que façam com a minha, é irresponsável e pretensioso. Acredito que cada leitor é capaz de procurar o próprio caminho durante a comunicação com uma obra (independente do gênero). Sendo assim, destacarei então as sequências “Não-Sei-Onde” e “Domingo”.

A série “Não-Sei-Onde” me trouxe a percepção de uma constante fragilidade na voz do eu poético – uma voz brotada das profundezas, uma voz que assessorou na montagem de um mosaico recheado de quedas, naufrágios e soterramentos. O primeiro poema da série se encontra no primeiro capítulo, “Voçoroca”, é intitulado por “Não-Sei-Onde 5″ e discorre acerca do desmoronamento do ser ao lidar com sentimentos (próprios ou de outros):

(…)

Tua saudade me engole
e eu murcho e sou engolido

 

Não saindo para muito longe, no mesmo capítulo, encontro “Não-Sei-Onde” (agora sem número), que versa o autoconhecimento (nem sempre bem-sucedido) e fatidicamente tem o afogamento como resultado. Paro para digerir o poema e percebo o amplo dedo na ferida que Victor decidiu empregar. De fato, quando nos analisamos de forma profunda não somos capazes (no primeiro minuto) de mergulhar e ter a dimensão da profundidade que estamos nos lançando e tampouco temos a ideia das armadilhas que nos esperam. Mergulhar pode ser um caminho sem volta:

(…)

Mergulho
e desapareço

 

Já lá no segundo capítulo, “Passeio”, dou de cara novamente com outro “Não-Sei-Onde 2” – mais uma vez a série aborda o encobrimento, a ocultação, só que, diferente do primeiro capítulo, o poema atravessa antes pelos escombros materiais do que psicológicos. Victor nos lembra de Mariana – a cidade soterrada pela lama (a lama não metafórica “é a lama, é a lama”) e a lama não para por aqui, outra vez ressurge no poema “Não-Sei-Onde 4“:

(…)

De outros mangues
e critério
e achismos
Me afundo nesta lama
de não-sei-o-quê.

 

E a série é finalizada no capítulo com “Não-Sei-Onde 3”:

(…)

Dexistimos em períodos iguais
Rexistimos com frequências diferentes.

 

Na série “Domingo”, há dois grandes poemas, duas pérolas comoventes e que convidam o leitor a desvestir da própria carne e se lançar no outro, no diferente, no estrangeiro. Leiam os dois poemas na íntegra:

Domingo (cap. Voçoroca, pág. 37):

 

Entro no mercado
e vou ao açougue
E lá está ele:
um japonês-brasileiro
E aquele rosto
me lembra outro mundo

/

me bate uma vontade
de ir pro Japão
de abraçar o japonês
De deixar a fila
sair do mercado
de recomeçar tudo
em outro lugar
em outro tempo
de novo.

 

Domingo 2 (cap. Passeio, pág. 60):

 

O japonês vai embora,
continuo na fila
Um senhor de idade
fura fila e conversa
com o homem na minha frente
Eles sorriem
eu sorrio junto
como se fizesse parte da conversa
O senhor pesa suas batatas
e vai embora
(a fila aumenta)
Eu sou o próximo.

 

“Bastardo” de Victor Prado é um convite poético para um quebra-cabeça sem figura definida. Quer sentir? Então siga além e não se deixe levar apenas por minhas limitadas percepções.

 

Lisa Alves nasceu em 1981, é mineira (Araxá/MG) e radicada em Brasília. É curadora da revista Mallarmargens. A autora tem textos publicados em diversas revistas e páginas literárias (nacionais/internacionais), e poemas publicados em sete antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Lançou em agosto de 2015 seu primeiro livro de poesia, Arame Farpado, pela editora carioca Lug em parceria com o Coletivo Púcaro.

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Olhares

Olhares

As inexplicáveis visões da rua

 Por Fabrício Brandão

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

Um simples movimento para além de nossos domínios supostamente protegidos e muita coisa já parece diferente. E tal transição não é feita apenas de mudanças do ponto de vista físico, mas essencialmente de alterações de percepção, algo que habita o campo abstrato da vida.

Estar na rua é, para muitos, um necessário exercício de libertação. Mas aqui não falemos de um conceito encerrado apenas nas infindas possibilidades de um ir e vir, o que nos apresentaria de imediato uma noção mais óbvia de liberdade. Pensemos naquilo que nos aguarda quando entrecruzamos nossas experiências com as de tantas outras pessoas, as quais automática, rotineira ou despercebidamente também constroem o mosaico complexo das cidades.

Bem sabemos que o concreto e suas múltiplas acepções arquitetônicas são uma espécie de lado aparente das coisas, quiçá dos sentimentos humanos. No entanto, é percorrendo alguns sinais deixados pelos ímpetos pretensamente civilizatórios que conseguimos entender um pouco que tipo de gente empresta seus tons à dinâmica de ruas, avenidas, esquinas, moradas, pontes, torres, viadutos, catedrais e arranha-céus.

Há quem nos permita saborear a experiência visual dos lugares numa atitude ao mesmo tempo contemplativa e densa. É o caso do fotógrafo Milton Boeira, artista que estabelece uma especial maneira de mergulhar no universo urbano. Cada apresentação dos espaços contida nas lentes dele faz com que nos sintamos abraçados pela poética emanada de um vasto tempo, personagem que se desloca ditando o ritmo da existência.

milton boeira
Foto: Milton Boeira

Depois de promover um mergulho de anos à caça de imagens urbanas que melhor definissem sua procura, Milton chega num resultado ao qual batizou por “Metrópole”, projeto que lhe rendeu duas exposições individuais. O saldo dessa busca é um verdadeiro acervo de sensações, seja na forma como retrata pessoas e lugares, seja no modo como extrai do todo observado um sentido de pertencimento.

É justamente por se sentir parte integrante do espaço urbano captado que Milton Boeira faz de sua arte um espelho de vivência. Em lugar de observar a tudo com estranhamento e enaltecer distanciamentos proporcionados pela alteridade, coloca-se como um ser componente do mundo por suas lentes apresentado. Tal sentimento é tão amplo que o artista nos confessa: “Me sinto parte da rua, da calçada, da arquitetura e principalmente das pessoas”.

Nascido no Rio Grande do Sul, Milton atualmente reside em Curitiba, cidade que lhe possibilitou estudar fotografia como arte. Apropriando-se de um conceito denominado Pós-Fotografia, além de uma marcante influência das Artes Gráficas, aponta como norteadoras do seu trabalho de construção visual temáticas ligadas a pessoas, arquitetura, natureza urbana, signos, cultura, dentre outras.

Se há uma contraposição habitual entre interno e externo, duas esferas de vivência aparentemente diferentes, a arte de Milton Boeira parece ignorá-la. É como se fazer parte do mundo fosse o entendimento de uma coisa só: visitar e sentir paisagens urbanas sem perder dessa experiência o valor dos instantes, o poder dos deslocamentos imateriais.

Milton Boeira
Foto: Milton Boeira

 

*As fotos de Milton Boeira fazem parte da galeria e dos textos da 114ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Liv Lagerblad

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

entrecerro os olhos e o olho trans-consciente gira
cerro os olhos e o estrondo do sonho sacode-me as omoplatas
um pio baixo / um silvo / a nuvem prata no horizonte
deito-me com ícelo e morpheus ao lado
é como deitamos todos mas a metamorfose de aromas
não mente .
animal ferido gane nas redondezas

as coisas respiram em ondas volumosas de calor
em oscilações e um momento é frangalho, outro faca
pudera corresponder à grandiloquência
esse tutano plúmbeo, essa pedra incrustrada no peito
lá fora alguém cantarola um funk

onde útero um concílio de vespas
frequência um marasmo e à volta chistes
coincidente o calo na garganta, foz do bolor no verbo
e a derme arredia de algumas relações poucas

 

 

***

 

 

Amo sem dono / meu corpo-casa
Sem dono a casa que me faz sólida
Desaba qual n’O Espelho
O reboco do teto. Sobre meu corpo nu
Meu corpo nu embaixo das vestes
Sempre, com todas as ranhuras : nu
Retinindo sua marca na terra

Meu corpo nu e sujo sobre a grama
Sobre os ciprestes sujo, nu, repulsivo
Sobre o asfalto, coberto de relva
Na mata, no cimento, no mar
Nu. Imundo. Esverdeante pele clara
Esse corpo ainda & nunca outro.

 

 

***

 

 

todo impropério é o por quê da fome amarga
dia turvo da hora turva como magma que se resfriasse
açoite que se fizesse perene de uma luz abundante
carvão transmutado em diamante
são o mesmo
disse–me joana d’arc palpitando entre as labaredas
o abismo era cavado com os pés
estômago,
é de aço pra caber o plúmbeo dos braços que sopesam
desejar ardente uma chaga
que fizesse parte do estado das coisas latentes
rasgasse entre os dentes
despontar ilesa do outro lado do labirinto
sólida como pedra que há no meio do caminho
há no punho cerrado que se desvela e erra o alvo
há no coice na foice na voz amedrontada e firme
há no vínculo desconexo e frouxo qual laçarote desfeito
ah no fumo que trago e trago como fosse sanar–me o vazio

 

 

***

 

 

quando se espreme uma esponja suja
em cima de um papel, ela:

 

1. mancha as folhas
2. fica mais leve
3. libera um líquido asqueroso
4. continua parcialmente úmida

 

 

***

 
1

honey baby está tão cansada que também não acredita em si
mesma
o livro-cinza ao seu lado exala um cheiro de cera
apareceu na escada um recorte de papel com a letra A
como fazer um texto sem essas premissas?
esse texto branco, como a letra seca da lei se pretende
quando começo, azeda linha
agora plácida, inteiriça
nenhuma língua que eu não possa desossar me é válida
nenhum poeta ganha os créditos no reino das referências
se preciso refaço os caminhos
pra chegar ao mesmo ponto as entranhas
tão um só pedaço de carvão úmido
discretamente secretam certas fuligens opacas
restam algaravias mal–ajambradas
cá estão fleumáticos os grampos como frames que se colam
[às retinas
pudera ser touro me lembro do rapto de europa:
a imagética figura do colonizador era uma musa fragilíssima
e que ornou de flores a testa de zeus
transmutado em touro branco : não tendo medo é que teve
fim posto que dançava nua à beira–mar
e carregada pr’além mar
foi mesmo colonizada, dilacerada

 

 

***

 

 

Today

 
cada um que me passa pela rua é um soco no estômago
demasiado strong
to my sensitive stomach : they say smack they say boa noite e
cachaça
they say num lasco da tua carne eu passo a faca
mai lirou bitxe letis renguin aut togeder
and i’m saindo pela culatra e dizendo no no no
let’s fuck until we die in the moment of the orgasm
diz no meu ouvido
i’m
always
like
no
no
tanks

 

Liv Lagerblad, poeta e artista plástica, nascida em 89, serpente no horóscopo chinês, um livro publicado, com pdf disponível online no site da editora Cozinha Experimental na coleção kraft, onde foram publicadas as primeiras recolhas poéticas de dez poetas. Outro no prelo pela editora Urutau, chamado “o crise”.  

 

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114ª Leva - 08/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Márcia Barbieri

Milton Boeira
Foto: Milton Boeira

Carta a um anônimo

Não, não te escrevo do silêncio incômodo das madrugadas, embora tenha certo apreço pelos guinchados dos ratos domésticos, escrevo com o barulho imperceptível dos automóveis, o barulho das velhas máquinas de ponto, os ruídos dos estômagos de crianças famintas e com o sol se pondo em algum beco que não posso prever. Quando nos habituamos à loucura das cidades, os rumores deixam de ser ensurdecedores. Pensei muito sobre tudo que me disse, agora tento me organizar e respondo um pouco das suas indagações, contudo nunca tive o dom da clareza, não herdei o cérebro sistemático de certos predadores. Me pergunto, como poderíamos manter uma encenação amorosa dentro desses hotéis baratos com ambientação minimalista e objetos impessoais, com toalhas e lençóis mal higienizados e com espelhos embaçados duplicando o trágico-cômico de nossos corpos? Não sei se já te disse o quanto ando cansada de ter um corpo, preferia ser feita desses materiais sintéticos e impermeáveis, que se lava de quinze em quinze dias.

Como poderia te oferecer a ilusão de um amor se tenho consciência que tudo não passa de uma mentira burguesa bem contada? Nos ludibriaram feio, pode crer. Como posso dormir sossegada nos braços de um estranho se o amor não passa de um disfarce para negar nossa íntima semelhança com os primatas? Sim, sinto decepcioná-lo, embora saiba que você não é ingênuo, apenas se recusa a acreditar que animais são seres fatigados e não se procuram além da carne, não passamos de macacos com terno, gravata e emprego fixo.

Como te enganar se o desejo apodrece rente aos latões de lixo e a rua mal iluminada? Se a morte também estraga os cadáveres jovens? Se a vontade se desvanece perto dos cachorros sarnentos e abandonados pelos seus donos, que procuram bichos menos trabalhosos e mais ornamentais? Como ainda querer se há muito me perdi entre as compotas vermelhas, a pia abarrotada de louça e as faturas exorbitantes do cartão de crédito?

Não posso deixar esse espaço quase claustrofóbico, mesmo por poucas horas, apenas na invalidez desses cômodos eu suponho o significado da palavra imensurável, aqui eu já conheço o hábito das formigas, sei onde devo espalhar o inseticida, já experimentei a fúria dos marimbondos, conheço os pardais entediados que batem com frequência nas vidraças fechadas, sei onde as rachaduras deram lugar a infiltrações impossíveis de conter, sei onde as aranhas tecem suas teias e esperam compassivas para devorarem suas presas, sei em quais buracos as minhocas se escondem, sei o trajeto suicida dos pernilongos, sei da fome mediana dos peixes de aquário, sei como os cupins foram desaparecendo quando trocamos os móveis de madeira maciça pelos de MDF, sei que as abelhas sumiram há algum tempo e muitos afirmam que isso é uma das piores catástrofes ambientais e trará danos irreversíveis, mas nos calamos, agoniados pela cumplicidade do mesmo assassinato, a verdade é que a polinização das abelhas nos parecia afrontosa.

Como posso te vender um engodo? Se ao menos eu tivesse o corpo bonito, apetecível… se pudesse subtraí-lo ou doá-lo… No entanto, meu corpo é pesado, insosso, sem querer me recordo da anatomia intrigante dos elefantes, sinto a flacidez se instalando no meu ventre, as pernas perdendo os músculos, a gordura se acumulando e me proporcionando o aspecto de um ser dócil e inofensivo como as toupeiras. Invisível sim, não entendo como pode reparar na minha existência transparente, depois de certa idade as mulheres deixam de ser enxergadas, nos tornamos fantasmas gordos, cansados e sonolentos e quase sempre atrapalhamos a felicidade inconsequente dos adolescentes, porque fazemos questão de explicar antes de sermos interrogados sobre as necroses das paixões.

Entretanto, se apesar de tudo isso ainda me quiser, venha, eu te espero, mas venha rápido, pois está entrando dezembro e as baratas voadoras costumam romper os ferrolhos e se instalar nas frestas poeirentas da veneziana.

 

Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestre em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” e “As mãos mirradas de Deus”, os romances “Mosaico de rancores” (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen), e “A Puta”. O romance “O enterro do lobo branco” será lançado esse ano pela editora Patuá.

 

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Foto: Milton Boeira

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