Chegamos à última etapa de celebrações em torno dos 10 anos da revista. Com essa nova leva, vem também a constatação de que 2016 foi um ano repleto de realizações editoriais por parte da Diversos Afins. Apesar da conturbada fase política que acomete o Brasil, situação que contamina todos os demais segmentos por plantar no país um grave clima de desconfiança em torno do papel das instituições, é necessário continuar demarcando posições e trabalhando efetivamente em prol da cultura. Autores e editores das mais diferentes linhagens tornam essa continuidade dos caminhos possível na medida em que enxergam nas suas realizações um motivo de evocação da liberdade de expressão e pensamento. Poder criar e mostrar ao mundo suas produções faz de muitos criadores verdadeiros agentes da democracia, palavra tão questionada ultimamente em nossa continental nação. Todos somos seres políticos nalguma medida, e isso se confirma nas práticas cotidianas. A grande questão que fica é saber se temos um compromisso consistente com a consolidação da democracia, indagando até que ponto ela não representa um conceito vazio ou mero elemento de retórica. Um artista não está desvinculado do seu tempo e dos fatos marcantes constituintes da sociedade em que vive. E se ele pode contribuir com seu ofício para compreender e modificar paradigmas, já é uma outra importante questão que se estabelece. Numa visão mais otimista, todos poderíamos ser componentes ativos de quaisquer tentativas de mudanças nos planos social, político e cultural. Saber como tal processo se daria demanda um outro nível de compreensão que não se esgota nessas breves linhas de um editorial. Prosseguimos aqui com o intuito de revelar aos leitores e apreciadores da literatura e da arte perspectivas de experimentar alternativas de criação. A Leva 115 vem marcada, por exemplo, pela forte carga visual e provocadora dos desenhos de Re, jovem artista plástica que apresenta ao mundo suas inquietudes. Novas veredas poéticas são instauradas através dos versos de JoãoGabriel Pontes, Hanna Halm, Weslley Almeida, Alexandra Lopes da Cunha e Leandro Jardim. São as linhas de Guilherme Preger que trazem à tona as reflexões presentes no documentário “Cinema Novo”, do diretor Eryk Rocha. Numa conversa que mescla literatura e gastronomia, Sérgio Tavares entrevista o escritor e editor Alexandre Staut. “Quando me abriram portas”, livro de poemas de Renato Suttana, é cuidadosamente percorrido pelas leituras de Jorge Elias Neto. Há uma abundância de possibilidades narrativas encerradas nos contos de Helena Terra, Anderson Fonseca e Cristina Judar. Dentro de um valioso processo de inventividade artística, marcado pela cultura popular, “Duas Cidades”, novo disco do grupo BaianaSystem gira nas linhas de Fabrício Brandão. É Carla Carbatti quem promove delicadas incursões em “Vermelho Rupestre”, obra poética de Katyuscia Carvalho. Seguiremos firmes em 2017. Agradecemos a todos os nossos leitores e colaboradores por tornarem sempre especial a nossa jornada. Saudações!
Será um dia a minha morte.
Ou noite, tarde, um instante
cravado, remate em meu tempo,
minhas horas findas, neste momento
até então desconhecido, impreciso,
imprevisto, mas sabido desde sempre.
Será e eu deixarei de ser.
Será e eu calarei o fluxo contínuo
de minhas palavras profusas,
o fluxo pulsante de meu vasto sangue,
o ar exalado será frio, insignificante,
carregará resquícios de mim.
Os meus olhos, que foram outrora
tão bonitos!
Janelas despertas…
Abertas
agora ao nada.
Fechados agora para tudo.
***
PreTérito
Não é. E não somos mais que destroços,
trastes cobertos de ferrugem
e da poeira dos séculos.
Mariposas exaustas
a flutuar
na imobilidade rarefeita
do ar antes da chuva.
Já somos pretérito,
amor morto.
Já somos.
***
Definição
Sou mulher sem qualidades.
Desqualificam-me os adjetivos
e os advérbios ignoram-me,
solenemente.
Substantiva até a medula dos ossos.
Também abstrata, se me convém…
Dos verbos imperativos, mantenho distância.
Prefiro os condicionais, hipotéticos.
Pretéritos? Sempre imperfeitos.
Artigos indefinidos,
pronomes impessoais,
não sou amiga de coletivos.
Só eu, poeta,
em algumas horas do dia.
***
Criador e Criatura
Criaste um demônio
ao pousar em mim teus olhos
escuros de pólvora.
Queimei, incandesci,
desabrochei em primavera antecipada,
rubra flor carnívora,
expectante de ti.
Deste luz a este ser faminto dos teus afetos
e te foste,
irresponsavelmente desavisado,
as mãos nos bolsos, aos lábios,
uma melodia sibilante.
Me fiz em teus olhares,
deste forma ao meu corpo
na dança de tuas mãos,
moldaste-me ao teu gosto
e te foste!
A cria que iluminaste
com o fogo do teu desejo
consome-se,
devora a si mesma,
grita, urra sua dor
de amante órfã.
Por que te foste?
***
Ressaibo
Deixo que descansem as palavras
no dorso úmido de minha língua.
Molhadas na saliva amarga
dissolvem-se, feitas em água
tépida, espessa, algo repugnante.
Devia cuspir o caldo abjeto que tenho à boca,
vomitar as palavras que represo,
que me fecham a garganta,
e causam náuseas.
Ao invés disso, inspiro o ar
pesado de todos os dias.
Insisto e se abre a glote.
Engulo todo o veneno das palavras fermentadas.
O que resta sobre a língua é o ressaibo,
o travo triste de engolir fracassos.
***
Vórtice
Desejei com a ânsia dos amantes
alcançar-te e prender-te nos meus braços.
Servir-te de meu corpo, calabouço,
afogar-te em minha boca, fundo poço,
e prender-te entre as pernas, duplo laço.
Exaurir-te num tempo sem começos.
Em embates intrincados nunca findos
e as tréguas momentâneas eram hiato
a separar o que eu almejava unido.
Amaria assim até a morte,
a tua, por suposto, esgotado.
Entre os meus desejos consumido,
entre os meus abraços acorrentado.
Alexandra Lopes Da Cunha nasceu em Brasília, DF. É formada em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tem mestrado também em Administração pela mesma instituição. Tem dois livros de contos publicados: Amor e Outros Desastres (2013), Vermelho-Goiaba, vencedor do prêmio IEL 60 anos, na categoria autor estreante, e Bífida e outros poemas, pela editora Kazuá, lançado em 2016. Aluna do programa de doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde mora.
desalojavam-se continuamente, suas vulvas em estado crescente, duas luas. permitiam-se pernas, ventriloquismos diversos e endoidecimentos, sob a pena de não darem conta de toda a noite. os desejos, secos, queimavam os ventres livres das senhoras estandartes. navegavam em solo profundo para depois ressurgirem soberanas em mantos de fúcsia e líquen. roucas. em uma rua qualquer da bela vista. que era madame, e também era Satã.
o bar improvisado em uma garagem de frente tocava em looping um CD mequetrefe com a miscelânia: pet shop boys e bauhaus, the cure, cindy lauper e “radio gaga”, do queen, como se tudo isso fosse a mesma coisa. o dono do lugar sempre diz: “é tudo a mesma coisa”. ele ama o tecno brega soante enquanto come o churrasquinho da calçada, ao lado da loja da moça de roupas de renda que tem como freguesas as crentes de bíblias quentes.
mas, voltando ao quarto, revolvendo os tecidos, tudo vazava em encanto, expurgo e esconjuração. uma delas sorvia o próprio batom, o sabor ácido & pastoso, ele, passado nos lábios para que a aparência garantisse o embelezamento aliado ao devido ultrapassar de fronteiras, em instantes ela iria subir por um elevador transparente que trafegava rumo ao alto, tão rápido a ponto de dar vertigem, com luzes roxas e douradas exibidas do lado de fora da caixa acrílica. um top of the rock imaginário, mas, mesmo assim, top of the rock.
esse era o cenário da orgia literária de bocas que dizem mais do que mil livros. quando emudecidas nos instantes preliminares de fortes contrações físicas e comportamentais. tensão e expansão do mundo entre lençóis. arquitetas do universo, ditavam sinfonias astrais como quem não está nem aí.
***
ordem X
Era de rituais e mitos que elas viviam. Os recriavam, os compunham, incluindo e desconstruindo personagens de jornadas virtuosas sem a vergonha de serem autoras suficientemente despreparadas para o negócio. Recitavam suas estórias em descompasso, para ninguém prestar atenção. Seus giros e circumambulações eram purificados com a água de córregos super habitadas por ovas de pequenos insetos que acreditava-se possuírem propriedades reconciliadoras quando grudavam nos fios de cabelo, formando coroas visíveis apenas telescopicamente. Coroas necessárias. As brigas eram frequentes e sempre aconteciam assim que o círculo era desfeito.
Não era para menos, a composição de braços, pernas e cabeças não podia ser mais desconjuntada, eram tantos os membros que subiam e desciam ao som de kalimbas e de um xilofone de brinquedo. Seus pensamentos também não adornavam ideias em comum, eram dotadas de uma consciência infantil, dada a criar cenários fantásticos de vestidos longos e transparentes, perfumados com incenso de patchouli (pogostemon cablim). Adorariam ter um tambor, mas as moedas que angariavam não davam nem para bancar alguns parafusos. De fato, dinheiro era o que menos havia por ali, apenas sêmen seco, excrementos de andorinhas e folhas em abundância. As amoras colhidas em ramos baixinhos tingiam suas unhas mas serviam como alimento. E molhavam seus corpos por dentro.
Com uma receita que levava manteiga, cardamomo, cerveja, uma gota de aguarrás, mel e sódio era possível preparar uma espécie de refeição ritualística com as mesmas amoras, que depois de tantas luas viradas, as mulheres não supunham mais conhecer o sabor – o que, para um estranho que por acaso passasse por ali, poderia parecer até interessante. Esse homem se esconderia atrás de alguns galhos, observando-as com os olhos quase cerrados, até que a celebração acabasse e o alimento da confraternização fosse finalmente liberado. Nesse meio tempo, elas realizariam a dança das estações, simulariam a morte e o renascimento com gestos exagerados e dançariam a Euforia até a contração final. Duas delas cairiam no chão, esmaecidas, corpos em formato de X, circundadas pelas irmãs de sua ordem.
***
Para que servem os atores
A antiguidade tem um cheiro próprio, mais desagradável do que a constatação de que muito tempo já passou. Naquela fantasia, o náilon de tonalidade castor estava grudado como nacos de jaca endurecidos, com aquela sua cola intrínseca e naturalmente eficaz. Tufos das fibras sintéticas carameladas entravam pelas minhas narinas, me fazendo engasgar com suas colônias de fiapos, ácaros coçavam tanto o céu da boca quanto o labirinto auricular e a minha ambição aos pedaços anteriormente embutida, hoje inerte.
Para fugir do autodesprezo e daquela agressividade humana que introjetamos na mente – a fim de obter a dignidade Crística de alguma punição – fingíamos ser macacos coffee & latte. E tentávamos parecer blasés. À nossa frente, a parcela animal da cena era enfatizada pelas patas da cadela de pelos curtos e duros, próprios para espinhar antes a alma do que a pele, ela de coleira com layout fetichista, tachinhas, couro preto e lembranças (dos carinhos e das mãos de pessoas).
“Puxe o rabo deles”, “Compre outro hot dog enquanto observo um pouco mais o animal humano da esquerda”, “Mãe, onde esse bicho se enquadra”, “Ele não olha, mira”, “mais mostarda, please”. Eram essas algumas das vozes e pensamentos que eu pressentia enquanto olhava pra tudo através daquele buraco forjado na pelúcia de forma grosseira, naquele universo passageiro em que o mundo não nasceu quadrado, mas encontrava-se oblíquo e coberto por penugens ruivas aparadas de maneira ordinária.
Pelos 25 dólares, eu finalmente teria o T-Bone e uma Weiss, mas o que eu queria mesmo era comprar um aparelho dentário para Mary Lee. Pena que faltariam mais uns 70 dólares. Eu mentiria que o sorriso dela era belo, portanto.
***
balanço de um rito não muito bem sucedido
Choviam notas xamânicas. Penas dos orixás nos toques redondos.
Plumb, plumb, plumb, para o coração relado.
As chamas coloridas pelos tocos das velas de cento e noventa e quatro dias.
Precipício, crepúsculo, pai Antônio, cobra coral aos pés, e era rápida, listrada ela.
Para comer depois do rito, flores e frutos, água da mina aplacava as visões.
Do suor, a tenda rezada, palavra náusea, plausível, gota, risível, racha.
Mil e uma visões eu ri.
E pulei de astro em pedra, jagunço sem cinta, liga, peguei o carro na estrada miúda, cerrada.
Fui que fui, a cento e oitenta graus por hora arremeti contra o espelho.
No ar, parei no meio, em legítima suspensão Matrix mas sem roupa de látex negro.
A onça pintada virou-me os olhos pra dentro.
De ouro, eles viram pepitas encravadas nas minhas vísceras.
Rico, eu rei.
Raptado, a verdade menti.
Pústulas nas flores murchas, pus.
Pari, parti, patriarcado, proletariado, picto.
Tudo em uma noite, um cocar de luz, aldeia das sete ondas, triste, chefe das sete contas, ralé das boas e aprendiz, com menos 250 reais na carteira, voltei pra São Paulo pela Rodovia Fernão Dias.
Cristina Judar é escritora e jornalista, autora das HQs Lina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir), ganhadoras do ProAc de HQ em 2009 e 2011. Seu livro de contos “Roteiros para uma vida curta” (Editora Reformatório) recebeu Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014. Em 2015, durante uma residência artística com foco em literatura na Queen Mary University of London, deu origem ao projeto autoral “Questions for a Live Writing”. Atualmente, está em fase de finalização do seu primeiro romance, “Oito do sete”, contemplado pelo ProAc de Literatura em 2014. É uma das editoras da revista eletrônica de cultura LGBT “Reversa Magazine”.
Cinema Novo de Eryk Rocha se colocou a difícil tarefa de trazer às telas de cinema contemporâneas a potência expressiva das imagens do que se convencionou chamar de Cinema Novo. E a primeira justiça que temos de lhe fazer é que conseguiu ter êxito nessa tarefa. E, no entanto, dizer isso não basta para a sua justiça. Só podemos ser fiéis a esse filme se formos capazes de compreender de onde vem essa potência estética.
Ensaio poético e trabalho de arqueologia visual, segundo seu diretor, o filme é sobretudo uma seleção luminosa de imagens do movimento cinematográfico. Não há didatismo algum nas referências e quase nenhuma explicação narrativa que dê coesão a seu roteiro. Apenas “explodem” na tela as cenas exemplares de muitos filmes e entrevistas com alguns diretores, gravadas na mesma época em que realizavam suas produções. E essa foi, com certeza, uma boa decisão estética, pois acompanhamos a energia vibrante de diretores como Cacá Diegues, Glauber, Leon Hirzmann e Joaquim Pedro de Andrade trabalhando conceitualmente suas próprias imagens, mostrando que Cinema Novo foi muito mais do que produção de rolos de película. Foi também movimento de ideias, exatamente aquilo que o filósofo Gilles Deleuze denominou de imagem-pensamento.
No único trecho explicativo do filme, durante a cartela de abertura, o Cinema Novo é tratado como um movimento de diretores que com ideias na cabeça queriam trazer novas imagens do Brasil. Mas essas novas imagens não deveriam ser apenas a representação de um país que existiria na cabeça desses cineastas. A potência de suas imagens estava diretamente ligada a uma recusa da ideia de representação. Não era simplesmente uma ideia de trazer à superfície o “Brasil profundo”, postura fatalmente idealista. Era mostrar que já na superfície havia profundidade.
As câmeras captavam as imagens reais do Brasil em sua constituição fragmentária e não sua tradução como um mapa integral da nação. Não era o Brasil em sua totalidade, mas o Brasil em sua diversidade que só podia ser captado através do “transe”, lembrando o filme emblemático de Glauber. Como um movimento de imagens vibrantes. As câmeras não traziam assim uma representação de segunda mão, mas imagens que eram ainda mais verdadeiras do que as cenas que aconteciam fora do enquadramento, como conformadas ideologicamente. Assim, nas primeiras imagens de Cinema Novo, vemos uma série de cenas de personagens em corridas desabaladas e ofegantes. O que querem insinuar essas imagens? Que o país corria contra o atraso do subdesenvolvimentismo? Era exatamente contra essa ideia de atraso que se voltavam os diretores-intelectuais. As imagens de personagens correndo, na verdade, atestam a urgência do movimento. Não é como se a câmera corresse atrás de um suposto Brasil que lhe fugia, mas, ao contrário, são os próprios personagens, brasileiros, correndo em direção à câmera para alcançar afinal a sua verdadeira figura, como se fossem os portadores de um desejo por imagens intensamente prenhes de historicidade.
Cena de Cinema Novo / Foto: divulgação
Uma insistente afirmação dos cineastas é que o Cinema Novo foi também uma revolução tecnológica, com a introdução de equipamentos mais leves e o uso direto do som e da luz. Assim, se produziu uma indeterminação de fronteiras, entre documentário e ficção. Da câmera passava-se diretamente para o tecido da realidade, como se o foco cinematográfico guiasse a visão para o olhar renovado. Ver o Brasil sem as falsas lentes colonizadas do subdesenvolvimento só se tornava possível após uma reeducação do olhar pelas lentes do Cinema Novo.
Como disse seu autor, Eryk, numa entrevista, sua intenção foi evitar realizar um retrato nostálgico do movimento, mas arrancar sua urgência e a mensagem que os filmes trazem ao Brasil contemporâneo. A coexistência do Cinema Novo com o golpe de 64 e com a ditadura militar se encontra subitamente em correlação com a posição do espectador contemporâneo e sua vivência confusa do Golpe de 2016. Como diz o diretor Glauber Rocha, numa das cenas em off, o golpe de 1964 de início visava, segundo as elites, construir um regime “liberal-fascista”, mas depois descambou para o militarismo. Não há nessa fala a sugestão de uma sutil ligação entre os cenários de 1964 e 2016, como se situação atual fosse a realização tanto tempo reprimida pelas elites de perpetrarem um regime fascista sem os militares? Assim, da mesma forma como durante a ditadura militar era necessário mudar a relação do olhar com o país, atualmente também é necessário um olhar mais “arqueológico” para enxergar o que muitas vezes está dado na própria superfície, mas permanece obscuro à visão desatenta. O contraste entre a figuralidade profusa, diversa e vertiginosa do povo e o retrato audiovisual mistificador das grandes mídias esclerosadas não pode ser mais radical. O Cinema é Novo.
O único registro melancólico desse filme poético e intenso transparece com a avaliação dos cineastas de que o povo se mantinha alheio, entretanto, àquela revolução estética, pois os filmes não chegavam afinal às salas de cinema. Talvez o que faltou ao filme de Eryk foi fazer a relação díspar entre revolução estética cinenovista e a hegemonia do modo audiovisual televisivo que iria impor padrões sobre a percepção visual popular nesses últimos 50 anos. Como muitas revoluções de nossos tempos, também o Cinema Novo foi uma revolução não televisionada.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
Cidades são muito mais do que aglomerados de pessoas e espaços demarcados. Nelas, pululam vozes, pensamentos e manifestações conscientes de que há possibilidades diversas de representação em meio ao tecido social multifacetado. Afinal, cada recanto é porta-voz de peculiaridades por vezes ocultas diante de todo o aparato dos centros hegemônicos de poder, os quais insistem em cobrir com um manto de invisibilidade tudo o que contrarie suas agendas controladoras.
Quando as epifanias da periferia resistem, muitas alternativas podem surgir dessa atitude afirmativa. A melhor delas está no fato de que os apelos da cultura popular, tradicionalmente posta à margem por alguns, evidenciam a consolidação de espaços próprios, irradiando para outros centros a genuína pulsão de suas expressões. No eixo que aglutina pensamento, criação e atividade, a periferia das cidades agrega muito mais do que uma retrógrada noção de atraso sócio-econômico.
Sem dúvida, o contexto da arte é uma verdadeira mola propulsora no quesito de superação de certos anacronismos e distorções. O resultado é positivo na medida em que a periferia rejeita o discurso da vitimização e põe à mesa reflexões sobre a sua capacidade de pensar não somente as questões de seu entorno, mas também as de um contexto maior, o mundo. É justamente esse tipo de sentimento que emana de trabalhos como os do BaianaSystem, verdadeiro agrupamento de criadores imbuídos de expressar seus modos de conceber a vida.
Para entender o trabalho dessa junção de músicos baianos é preciso sondar suas origens e influências. O ponto de partida vem da rua, da vivência com o movimento do sound system perpetrado nos bairros afastados de Salvador. Capitaneada pelo coletivo Ministéreo Público, a experiência consistia em levar àquelas localidades toda uma dinâmica de som de rua, com caixas potentes que reproduziam basicamente reggae e disco, ação fortemente derivada da cultura musical jamaicana.
É justamente desse poder sonoro, e também discursivo, o qual emana dos espaços públicos externos, que ganha corpo o projeto do BaianaSystem. Num misto de samba-reggae, salsa, bases eletrônicas, ijexá, Kuduru e pagode, dentre outros elementos, o grupo constrói sua identidade pluralizada tanto no plano musical quanto no plano das letras.
Segundo disco da banda, Duas Cidades foi um álbum que nasceu de um processo inverso de concepção, pois partiu das ruas e shows para o estúdio, num caminho que fugiu do fluxo natural das realizações fonográficas, trazendo dos ecos do público e do cotidiano uma consistente base para sua criação.
BaianaSystem / Foto: divulgação
Transitando por elementos vocais e percussivos, DJ’s, e marcado especialmente por uma virtuosa utilização da guitarra baiana, o disco carrega um sentimento caracterizado pela cartografia urbana das identidades, evocando em suas letras questões que refletem sobre aspectos críticos do modo pelo qual vivemos como sociedade.
Logo na abertura, deparamo-nos com a mensagem clara e direta de Jah Jah Revolta – Parte 2, canção que exalta as consequências naturais das ações semeadas no convívio com nossos iguais. Em Lucro (Descomprimindo), desponta um momento especial do disco, tempo de pensar o espaço urbano como um verdadeiro palco de nossas contradições, principalmente quando os avanços derivados da ferocidade capitalista interferem tanto na paisagem quanto no modo como os habitantes se percebem num contexto sociológico.
É na faixa Duas Cidades que o espírito representativo do disco se traduz com vigor. Diz em que cidade que você se encaixa? Cidade Alta/Cidade Baixa? é a pergunta que flutua por toda a canção carro-chefe do álbum, clamando por uma resposta que signifique o ato de assumir papéis por parte de quem divide os espaços físicos. Quiçá ela possa ser entendida também como um vivo jogo de expor idiossincrasias que ora apresentam diferenças gritantes, ora tendem a se aproximar de algum modo. De qualquer maneira, a luta pessoal dos indivíduos, guardadas as devidas divisões sociais, econômicas e culturais, é capaz de traçar uma cara para a referenciada metrópole.
Enquanto Playsom aposta em todo peso sonoro característico de uma ambiência jamaicana, Panela mostra, por sua vez, a atmosfera típica da gênese do carnaval da Bahia, enaltecendo a condução precisa da guitarra baiana, grande matriz do trio elétrico.
Como se não bastasse a potência vocal e interpretativa de RussoPassapusso, a guitarra baiana de Roberto Barreto, o baixo de SekoBass, a guitarra de Junix, a percussão de Japa System e as atuações dos DJ’s João Meirelles e Mahal Pitta, o novo álbum do BaianaSystem recebeu toda a atenta condução do talentoso Daniel Ganjaman, produtor que traz em sua bagagem trabalhos com artistas do quilate de Sabotage, Criolo, Planet Hemp e Emicida, dentre outros mais.
Duas Cidades é a consolidação de uma trajetória que, partindo das ruas, becos e vielas, amplifica a visibilidade necessária de frentes valiosas da cultura popular. No momento em que impulsiona recortes identitários e bem representativos de mundo, deixando de lado obviedades panfletárias, consegue seu resultado maior: fazer da música um instrumento de percepções que vão além do nosso umbigo. Por certo, ainda ouviremos falar muito dessa força sonora chamada BaianaSystem. É vida que segue, arte dançante que ecoa.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Enxerga a flor
com toda tua retina.
Apalpe-a
com toda pálpebra tua.
Assiste – nas pupilas –
todo o seu desabrochar.
Pois não se sabe quando
a cegueira da candura anoitece.
Nem
se em fruto a
manhã será.
***
INAUGURAL
Há-me um paladar
de fascínio inaugural
pelos abismos, rotas de dentro
pela nova ciranda: dança de redemoinhos
movendo-se em espiral
nos tantos brotos tormentos
da aurora
e do ocaso (que é dia-noite a dentro):
plúmbeo lábio de cima
beijando
o outro baixo ocre
lábio feito.
***
URBICÍDIO
A cidade é um templo:
arranha-céus.
A idade
nela
é um tempo
átimo veloz.
O zumbido dos carros
(catarros)
é o mesmo zumbido de dentro.
Para onde, …….anônimos, ………..antônimos ……………perdidos corremos?
Para onde
os assombros
escombros
destinos que havemos.
***
PASTAGENS
para Alberto Caeiro
Cada poema
é um rebanho …….berro de palavras
pasmo essencial
a sintaxe das emoções
a semântica do intelecto
descendo o olhar por flores
em novilhos de versos
e lã
grudada em carne
o súbito relâmpago relance
voo (insight de aves)
onde se cruzam os cantos
trôpegos pensamentos:
fluxos de pastagens.
***
NA CASA DOS MEUS TRINTA ANOS
Na casa dos meus trinta anos
concebi o tempo
por furacões
cada átimo
encarnava-se-me veloz
e passei a alijar superficialidades
aglomerar o intenso
por paladar de flor
e entrâncias de espinho
pegando o travo e o doce
por dentro
sabendo
como o limo sabe da pedra
no grude gesto ……..do tempo.
***
A TRAMA DO BORDADO
Olhares sobre o tear inacabado
a guerra sem fim inconsumida
Penélope e seus dedos finos falhos
Ulisses e o retorno: e ainda
Ainda a Tróia maldita distante
e a solidão no novelo em Ítaca.
Ainda o flerte dos interessados
o cavalo que vai — e que fica
O arco duro, tão rígido
só quem o deixou
pode bem a(r)má-lo
E como flecha
pelos machados
a trama do bordado se finda.
Weslley Almeida nasceu em Feira de Santana, Bahia. É poeta, compositor, e formado em Letras pela UEFS. Atua como colaborador e revisor do Jornal Fuxico (do Núcleo de Investigações Transdisciplinares – NIT/UEFS). Os poemas aqui publicados integram seu livro de estreia, “Memórias Fósseis” (Editus), vencedor do Prêmio Sosígenes Costa de Poesia 2016.
O pequeno estava com fome, muita fome. Havia dias que não comia nem bebia. A boca era o deserto com rachaduras nas extremidades, de algumas emanavam fios de sangue. Mas o pequeno não chorava. Não gemia. Emudecido fechara-se num ovo. O sol castigara suas costas. O ovo rachou. As cascas uma a uma caíram. O pequeno lembrava um feto mal formado. Um urubu o viu e bicou seus olhos, depois seu estômago, depois chamou os outros que fizeram o mesmo. O que restou? O desenho do pequeno na terra.
***
À beira de um edifício, em pé, uma menina olha o horizonte. Atrás dela, alguém diz: – Você vai pular?
– Não.
– Seu pai pulou, sua mãe e seu irmão também. Você vai pular?
– Não.
– Olhe para trás.
Ela olhou e viu uma multidão enfileirada.
– Eles aguardam a vez.
Um velho lá do fundo gritou: – Pule menina!
– Não posso. Não quero perder a visão do horizonte.
A voz então lhe disse ao pé do ouvido: – Feche os olhos. É igual.
E a empurrou.
***
A garotinha estava brincando com o urso e um gatinho de pelúcia. Os dois bichinhos dialogavam.
– Como foi seu dia? – perguntou o urso.
– Foi bom, muito bom. – respondeu o gatinho.
– Me conte o que aconteceu. – suplicou o urso.
– Eu estava passando em meio aos escombros dos prédios, quando vi um buquê de flores. Elas começavam a murchar. Corri para pegar ao menos uma rosa e cheirá-la. Assim que me aproximei, agachei, estendi a mão. Mas era difícil puxá-la, algo a segurava com muita força. Então fiz força também para arrancá-la. Dei tudo de mim, até que a rosa veio, mas um líquido vermelho escorria do caule, um líquido espesso. Abaixei para ver de onde veio a rosa. Olhei através dos escombros. Uma mulher tinha os punhos cerrados em torno do buquê. Era um sinal de amor que a bomba tornou em morte. E como foi o seu?
– Ontem à noite… – disse o urso. – Sai à procura de uma estrela cadente. Ouvi dizer que elas realizam nosso desejo. Basta olhar para elas e pedir. Eu estava com sorte. Depois que me sentei em cima de uma pedra e levantei os olhos, dezenas de estrelas atravessaram o céu. E aí eu sussurrei, “Quero estar ao lado de um amigo, porque sozinho é difícil superar o mal da guerra”. E agora estou com você.
Ao lado da garotinha dormiam seus pais.
***
– O que você fez com suas mãos? – perguntou o soldado à menina.
– Folheava um livro.
– Livro? Diga o nome.
As mãos dela estavam sobre a mesa.
– O sol é para todos.
– Repita.
– O sol é para todos.
– Diga mais uma vez.
– O sol é… – antes de terminar a frase, o soldado desceu a lâmina sobre as mãos dela.
– O sol é dos que o conquistam. – encerrou o soldado.
***
Quando Omran acordou, viu que as cinzas ainda estavam sobre ele. Quando tocou a própria face, sentiu-a manchada de sangue. Quando perguntou sobre seus pais, não ouviu resposta. Quando o silêncio cortou o ar, uma lágrima desceu.
Anderson Fonseca, 35 anos, é autor dos livros de contos “Sr. Bergier & outras histórias” e “O que eu disse ao general” – o primeiro de uma trilogia sobre a guerra e a política. Os contos aqui publicados fazem parte do seu próximo livro, “Crianças deitadas jamais se levantam”, obra que é a segunda da trilogia.
Essa palavra que me estrangula ………………………..As pernas
É generosa apenas …………………….com as ideias
E a distância que nos separa ……………………Um passo
É mais próxima do que um …………………………Aceno
Mais distante do que um …………………………Abraço
Mas eram ideias os braços (lembra?) …………….Que nos enlaçavam
O desvelar mútuo ……………………Da linguagem
Que é também linha ……………………E tece
Me aconteceu de bordar …………………..Vestir
A roupa que palavras suas …………………..Costuraram
Coberto delas então encaro ………………….O reflexo
Nada mais é do que o meu reverso ………………….Obstáculo
É quando você me vai ………………….Despeço
***
A pequena semente infinita
A semente
Tão pequena é
E leva por dentro
A vida
A vida
Também tão pequena
E guarda no centro
O infinito
O infinito
Com tudo contido
É, ainda assim,
Invisível
***
desaconselha-se
vai girando
a vela e leva
de bom grado
o vento
vai graduando
a fala (e leva)
sem tanto crer
o argumento
e aumentando
a idade caia
a fé e faça
por onde um dia
te alcance crua
a companhia
inútil e grave
de alguma graça
***
Tudo se mexe
Tudo se mexe
Ao redor da sala
E no centro
Eu me sento
Tudo ao redor da sala
Sou eu sentado
E esse movimento
Que diviso por dentro
A criança cruza
O cachorro salta
É a televisão
Verborrágica
O silêncio canta
E descreve o mundo
A lápis no verso
De um formulário velho
Catalogado, o ser
É as frases no inventário
Do que vê a sitiá-lo
A mesa esquiva e eu
Um tapete movediço e
Esta porta uma boca afoita
Que me chama de verdade
Imaginária e inventada até
***
Engarrafado
Engarrafado
Como o trânsito
O álcool
Não do carro
Ou do ônibus
Que ele toma
Pela manhã
A caminho do trabalho
***
Ilusão de crítica
O homem que parecia (de pé)
um certo crítico (no balcão)
literário (bebia algum trago).
Seu olhar pesaroso (fixo)
e uma pobreza excessiva (na roupagem)
que o denunciava (mais um)
um engano (meu).
(E eu sem meus originais à mão,
ainda pensei)
Acenamos um brinde, afinal,
à distância.
Leandro Jardim publicou a novela “A Angústia da Relevância” (2016), “Peomas” (2014) e o livro de contos “Rubores” (2012), todos pela Editora Oito e Meio, “Os poemas que não gostamos de nossos poetas preferidos” (Orpheu, 2010) e “Todas as vozes cantam” (7Letras, 2008). Possui contos publicados nas antologias “Veredas – panorama do conto contemporâneo”, “Para Copacabana, com amor”, entre outras. Em parceria musical com Rafael Gryner, lançou os EP’s “O Sonhador” (2014) e “Sementes musicais para um mundo cibernético” (2011).
Latejos vermelhos das rochas: o delicado e selvagem exercício do desvio
Por Carla Carbatti
O que buscamos num livro é a maneira pela qual ele faz passar alguma coisa que escapa aos códigos
G. Deleuze
Segundo Lucrécio, os átomos se movem para baixo através do vazio e pelo seu próprio peso. Em nenhum lugar ou tempo fixo eles se desviam e se chocam com outros átomos formando novos corpos, novos mundos. Não fosse isso eles cairiam nas profundezas do vazio como gotículas de chuva e não haveria nada. Em outras palavras, tudo que vive é uma desviação.
Também a linguagem, para Blanchot, só é possível no movimento de desvio. Diz o autor que ali onde tudo é indeciso (e onde não o é?), não se pode viver mais do que em um perpétuo desvio, pois ater-se a algo suporia que há algo determinado a que se ater. Seria retirar da vida sua imanência e condená-la a uma finalidade. Essa é nossa fragilidade e potência: a vida, força infinita, não se significa, não se explica, vive-se. É preciso, então, dizer, que a escrita viva é aquela que desliza, declina e se desloca.
Katyuscia Carvalho, no seu maravilhoso poemário Vermelho Rupestre (Ed. Patuá), já na capa, numa epígrafe, inicia sua incapturável dança com a vida: “preciso ouvir alto quando falas com essa tua voz rente às estrelas”. A voz, foz, a vida roça com o brilho fascinante desse astro morto, retumba, faz a curva e escapa. Entrar no seu livro é uma espécie de tateamento em uma caverna de Lascaux, onde o grito vermelho das rochas se desprega como que “escapado da fogueira”, “desgarrado do corpo”. Caverna que é o símbolo da origem, do nascimento, do útero. Mas, vejam bem, como em Clarice Lispector, seu texto está “ferido de vida breve”. A caverna, como lugar de re-nascimento, não seria mais do que um potencializador do “instante já”, “um calafrio na pedra” que propaga não a palavra original, mas suas infinitas reverberações. Corpo-corpus-copulamento: os latejos das rochas produzem signos vermelhos que transbordam a margem linguagem no delicado e selvagem exercício de tocar a vida. Vida amorosa, vida política, portanto, vida indomável. É possível que, o amor e a política, sejam as duas linhas de forças mais potentes da sua escrita. Não o Amor ou a Política, Instituições, mas amor e política criação de uma nova cartografia para a vida: ”habito o corpo de outra terra mas sinto o pulso e o peso do meu continente e recito uma encantação clandestina.” Seu texto em momento algum é fundação, ainda que dialogue com as vozes ancestrais das índias, dos índios, com o nome materno, com os tambores negros, com as “raízes do céu”, seu movimento mais poético, mais político e amoroso é o desvio, “sons de buraco”, “fissura no vento”, “pedras caindo”, “tanger de chuva”, linhas de fugas traçadas, em vermelho rupestre, disparos de novos problemas para errar em outras rotas, vibrações do verso que estremece e abre novas vias: passagens de vida.
“(…) Eu que me amparo em madeira que range”
Vermelho Rupestre é esse lugar de desorientação e encontro. Um ângulo mínimo de formação de um torvelinho: uma turbulência, “uma dança extraviada”. A agitação mesma naquilo que não se assenta, que sedenta, não sedia, experimenta as forças incolonizáveis das palavras, como “um pássaro insano abrindo fissuras na carne do céu”.
Carla Carbatti é mineira, das montanhas, do mar, nômade. Doutoranda em Estudos da Literatura e da Cultura pela Universidade de Santiago de Compostela. Poeteira comtodos os átomos, possui moléculas poéticas ligadas à Subversa, Zunái, Germina, Alagunas, Mallarmagens, Diversos Afins, Escritoras Suicidas, Contratiempo, etc., à Antologia RelevO 5 anos, ao ESCRIPTONITA: pop-esia, mitologia-remix& super-heróis de gibi e agrupadas no livro autoral “Na Cadência do Caos”, editado pela Urutau.
A relação do escritor Alexandre Staut com a França não tem início com a literatura. Nasce da memória afetiva de “O garoto selvagem”, longa dirigido por François Truffaut, que assistiu, pela primeira vez, numa madrugada dos anos 80, na célebre Sessão Coruja. Na história, um menino achado na floresta é preso e levado para um vilarejo, onde passa a viver sob os cuidados de um médico. Aparentemente surda-muda, a criança reage à presença alheia com grunhidos, logo sendo tratada, pelos locais, como um animal de entretenimento. A missão do médico é justamente estancar essa bestialidade e incutir no menino o comportamento civilizado, através do exercício repetitivo da comunicação. O que ele resiste, a princípio, em fugas de retorno à natureza, até que a força da razão o domestica para a sociedade.
Foi a lembrança do filme de 1970 a primeira imagem que ocorreu a Staut, ao descer na estação de L’Aber Wrach, um vilarejo francês a oeste do país. Ele se percebeu um selvagem ali, no sentido de desconhecer os costumes, o comportamento e, sobretudo, a língua nativa. Passava o ano de 2002, e o então jornalista tinha viajado à França a convite do amigo Yann Danjou, que estava prestes a abrir um restaurante. Staut e Danjou haviam se conhecido, alguns anos antes, em Londres, onde o brasileiro viveu um período, e passou de lavador de pratos a ajudante de cozinha em restaurantes refinados. Foi ali que aprendeu a cozinhar bem.
A proposta, então, era usar essa experiência no modesto restaurante na cidade litorânea de Brest. O desdobrar dos fatos é o que movimenta a trama de “Paris-Brest”, publicação recente de Staut. Misto de romance de formação e diário de viagem, o livro apresenta, de maneira muito original, o gênero da auto-ficção. O autor manipula, com perícia e envolvimento, as próprias memórias a favor de uma narrativa que reconstitui o passado no adesivo de expressões artísticas: a música, a literatura e, predominantemente, a gastronomia. Prova disso é que muitas iguarias são descritas em seus modos de preparo, revelando outra característica do livro: ser também um volume de receitas.
Acima dessa estrutura compósita, porém, flui um texto coeso, um relato íntimo marcado pela sensação de não pertencimento ao mesmo tempo que por uma gana de que as coisas deem certo, mesmo que tudo aponte para o fracasso. A cozinha do restaurante é seu pináculo particular, de onde enxerga o Brasil através de pratos típicos que encantam os franceses, a exemplo do frango a passarinho e da indefectível coxinha, mas também onde orbitam suas frustrações, seus anseios e suas saídas; é onde se dá conta de que, de omeletes a terrine de foie gras de ganso, a arte da culinária não consegue sobrepor, em si, a arte da escrita.
Em entrevista de opiniões diretas e reveladoras, Staut refaz os passos que o levaram até o romance, partindo da própria literatura para debater sobre o meio e o mercado literário. Criador e editor da conceituada São Paulo Review, seu olhar agudo descortina a realidade brasileira de livros e de autores que, inexplicavelmente, está mais clara para os franceses que para nós mesmos. Educação, literatura de gênero, festivais. Uma ficção que tem o tamanho da própria altura. “Sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz”.
Alexandre Staut / Foto: Giuliana Nogueira
DA – O seu novo livro tem uma concepção, digamos, sui generis. Há momentos em que é um diário de viagem; noutros, um livro de receitas; e, de maneira geral, um romance de formação. Entre a memória e o processo de composição, qual foi o ponto de partida para escrevê-lo? E como fez para trabalhar com esses três gêneros bem distintos num único texto, sem que a narrativa perdesse a coesão?
ALEXANDRE STAUT – Inicialmente, cinco anos após voltar da França para o Brasil, tentei escrever um romance em que um personagem de um país distante e não identificado chega numa pequena comunidade francesa, longe dos grandes centros culturais do país. O mote tinha a ver com minha viagem, mas principalmente com o filme “O garoto selvagem”, de Truffaut, um filme que amo e que assisti a diversas vezes, desde os anos 80, na Sessão Coruja, da TV, em DVD e num cinema obscuro de Paris. Passei uns dois anos com essa história, mas o livro estava emperrado. Quando já estava quase desistindo, meu amigo Yann (que me levou para a experiência na França, e para quem “Paris-Brest” é dedicado), disse que eu devia escrever sobre minha experiência de vida em L’Aber Wrach, cidadela ao lado de Brest, o primeiro lugar onde morei na França. Porém ainda demorei uns anos para começar a escrita do livro. Morei lá entre 2002 e 2006. Parece que precisava esperar a história decantar de alguma maneira, para que eu conseguisse observar o colosso de coisas que vivi como imigrante no país de uma forma pouco sentimental, com olhar crítico, ora engraçado. Às vezes é engraçado e patético ser estrangeiro num lugar. Me lembro que, já há um bom tempo no lugar, numa mesa de refeição, uma senhora me pediu para passar a baguete. Disse que eu tinha “braços longos”. Como em francês, vezenquando, uma palavra se junta a outra, na hora da fala, não entendi o que queria dizer quando falou “bras longs” (pronúncia: “bralon”). Perguntei o que queria e percebi que meu francês não era tão bom quanto achava que era (risos). Mas voltando à criação do livro em si, houve um dia, dez anos após minha volta, em que acordei e percebi que tinha uma história pronta. Ainda não sabia que o livro ia ser uma mistura de romance de formação, livro de receitas e diário de viagem, algo talvez novo na literatura contemporânea brasileira. Quando estava perto dos dez mil caracteres escritos, percebi que tinha um romance para resolver, nas mãos.
DA – É incrível esse tempo de maturação e, sobretudo, como você bem transferiu uma estadia, que durou anos, de maneira condensada para o livro. O que me leva a pensar sobre a integridade dessas memórias. Durante esse período, você teve algum diário onde anotava sobre os dias, e que serviu de fonte para o romance? Ou foi mesmo um esforço de percorrer essas lembranças, revisitar os lugares, rever as pessoas, sentir os cheiros e os gostos dessa época? A mesma pergunta serve para as receitas. As tinha anotado num caderno ou as escreveu de cabeça? Precisou consultar ou falar com algumas das pessoas daquele tempo?
ALEXANDRE STAUT – Quando Anita Deak, editora do livro, preparava os originais, surgiu a questão sobre os possíveis diários. Ela queria lê-los, talvez publicar parte deles com minha caligrafia. Mas nunca os fiz. Adoro ler diários de escritores, mas nunca escrevi uma linha, a não ser diários terapêuticos, que nunca virão a público (risos). Gosto dos diários da Virginia Woolf, do Lúcio Cardoso, são tantos… Acontece que o período em que vivi na França sempre foi muito presente na minha vida. Quase todos os dias, antes da publicação deste livro, lembrava-me de flashes de memórias, histórias truncadas. Para escrever o livro, quando não conseguia seguir adiante, acionava o trabalho do escritor de ficção que sou, sem me importar muito com a fidelidade dos fatos. Há inclusive alguns nomes trocados no livro, para que assim não comprometesse moralmente pessoas que cruzaram meu caminho na França. “Paris-Brest” é um livro de auto-ficção. É um gênero que gosto. Acabo de ler um livro alucinante da Delphine de Vigan, que se chama “Baseado em fatos reais”. Indico! Sou leitor de auto-ficção, gosto dos livros do Ricardo Lísias e do Julián Fuks, que exploram essa literatura. Falando sobre cheiros, sabores, lembranças, algumas pessoas acham que sou um dândi… faço banquetes para os amigos, participo de festas literárias, criei um site de literatura importante no Brasil (São Paulo Review), escrevo ficção, faço críticas gastronômicas, atuo como ator em peças de teatro e no cinema. Talvez Proust seja a inspiração mais real para este livro… a tiazona dândi mais poderosa que já existiu. Falo dele algumas vezes no texto, cito as suas madeleines, dou a receita original do doce. Bem, queria fazer um livro que despertasse sensações. Por isso, exploro bastante as receitas, o cheiro das feiras livres. Sem contar que de uma receitinha todo mundo gosta. Quando resolvi inseri-las no livro, testei cada uma. Mas minhas receitas não têm medidas certas. Uso punhados, faço medidas na concha da mão. Uma coisa meio bruxo… que sou (risos).
DA – Sim. As referências literárias e as musicais são um tempero à parte no livro, se me permite o trocadilho (risos). Mas já falamos sobre isso. Queria voltar a um momento que é descrito meio en passant, logo no começo, que é sua temporada em Londres, a qual precede os anos na França. Como se encaixa esse tempo em território inglês com sua formação de jornalista, já que viajou para Brest depois de trabalhar um tempo em redações no Brasil, escrevendo sobre gastronomia? Foi em Londres que aprendeu a cozinhar, não? E lá também que conheceu o Yann, um personagem sem o qual o romance não existiria. Como se deu esse encontro?
ALEXANDRE STAUT – Cozinho desde criança. Minha tia Lia fazia bolos de festa. Eu ficava vendo aquele capricho todo. Aos 11 anos, quando queria comer bolo, não pedia para minha mãe. Ia para a cozinha e fazia. Meu pai, que morreu quando eu tinha sete anos, era um grande cozinheiro. Todos os domingos ia para a cozinha, eu acordava com a casa cheirando feijoada, dobradinha. Ele gostava de receber parentes e amigos. Era festeiro. Herdei isso dele. Falo sobre minha família paterna, que é mezzo italiano, mezza judia, e sua relação com a cozinha e a música, no meu primeiro romance, “Jazz band na sala da gente”, de 2010. A Inglaterra aconteceu na minha vida em 1998. Trabalhava num jornal de São Paulo e, ao ser demitido, uma amiga jornalista, Ana Paiva, sugeriu que eu fosse para lá me tratar de tanto álcool e balada. Lá, bebi mais ainda (risos). Mas comecei a trabalhar em cozinhas de hotéis bacanas. Conheci Yann Danjou num desses hotéis e foi identificação à primeira vista. Ou paixão. Uma semana depois, morávamos juntos. Yann foi (e é) meu amor, amigo, irmão, pai, namorado, confidente. Uma amizade que resistiu a três países (moramos juntos na Inglaterra, Brasil, França e depois Brasil, mais uma vez) e a muitas cidades. “Paris-Brest” foi escrito de presente para ele, não é só um livro dedicado ao Yann, é um livro escrito para ele, uma forma de agradecer tanta coisa que vivemos juntos. Hoje, ele mora na França e eu no Brasil, mas nos falamos quase todos os dias. Rimos e choramos muitas vezes juntos. Na mesma semana em que o conheci, em Londres, tive a notícia do suicídio do meu irmão, de vinte e poucos anos, no Brasil. Nunca me esqueço da tarde em que liguei para minha mãe, de uma cabine na Bayswater Road, e recebi a notícia. Sentei no chão da cabine e desmontei. Desliguei o telefone e liguei imediatamente para Yann, que foi me encontrar debaixo de uma árvore no Hyde Park. Chorei até anoitecer e o Yann ficou ao meu lado, calado. Nunca me esqueço dessa árvore. Passava ali depois e via que essa era a árvore da infelicidade. Até hoje essa é a árvore da infelicidade. Achava no suicídio algo chique, via atitude… Ana Cristina Cesar e companhia. Isso até acontecer dentro da minha casa. Enfim, nesse momento, grudei no Yann. Uns meses depois, pedi que me levasse para morar na França. Mas voltando ao livro, ele foi escrito como forma de agradecer ao Yann, pela sua presença nesse momento de dor. E também como forma de levantar seu astral quando o Le Patio Gourmand, restaurante que ganhou dos seus pais, faliu, na França. O livro foi uma coisa pensada como forma de agradecimento. Senti-me um pouco Virgina Woolf ao escrever “Orlando” para Vita Sackville-West. A obra-prima de La Woolf é uma carta de amor, num momento em que a nobre Vita faliu e se viu sem autoestima. Bem, muitos leitores devem conhecer a história da amizade das duas inglesas.
DA – Uma história bonita, afinal, que resiste aos duros golpes da vida. Um fato curioso, que você cita no começo do livro, são os três livros que levou para França. “Como cozinhar um lobo”, da americana M. F. K. Fisher; “O livro das frutas”, da britânica Jane Grigson; e “Jules e Jim”, romance do francês Henri-Pierre Roché. Diante de toda uma bibliografia universal, gostaria que comentasse sobre as escolhas específicas desses livros. E a ausência de uma obra de autor brasileiro deveu-se a uma razão intencional?
ALEXANDRE STAUT – Havia começado a ler livros de gastronomia, e me apaixonei pelo da M. F. K. Fisher. Aliás, este não é só um livro de gastronomia. T.S. Eliot chegou a dizer que Fisher era uma das melhores prosadoras de meado do século XX. E é mesmo. Seu livro mais famoso, “Como cozinhar um lobo”, é sobre guerra e paz, é um manual de sobrevivência em épocas de guerra, é filosofia da mais alta qualidade. O livro de Grigson caiu nas minhas mãos por acaso, dias antes da minha viagem. É de uma beleza sem fim para quem gosta de botânica. Já “Jules e Jim” é um clássico maravilhoso, embora a tradução portuguesa que eu tenha seja lamentável. Único livro de Roché. Adoro autores de obra econômica. E até desconfio daqueles que têm dezenas de livros publicados. Escrever romance é algo muito difícil. Às vezes, o cara escreve um único livro e aquilo é uma obra-prima. Não levei qualquer livro brasileiro para a França. Acho que propositalmente. Mas uns dias antes da viagem lera “Eles eram muitos cavalos”, do Luiz Ruffato, que me deixou transtornado. Ruffato tinha sido meu editor-chefe no Jornal da Tarde. Acompanhei um pouco a criação desse livro que reacendeu em mim a vontade de ser escritor. Ao chegar na França, arrumei um computador e comecei a escrever, a escrever… Tinha um esboço de um romance, nos primeiros tempos lá. Mas era algo muito ruim que joguei no lixo. O mundo está cheio de livros ruins, não queria parir mais um. Falando nisso, não gostaria de ter lançado meu segundo romance, “Um lugar para se perder”. O título é bom, mas, para mim, não é um bom livro. Dois leitores muito especiais gostam dele e o elogiam, Maria Valéria Resende e Leonardo Tonus. Mesmo assim, acho um romance estranho, mal resolvido. Uma vez me encontrei com Sônia Coutinho na Livraria Cultura. Ela tinha lido “Um lugar…” e me disse: “Seu livro é estranhíssimo. Você é escritor” (risos).
DA – Ser estranho também é uma qualidade. Como bem disse, o mundo está cheio de livros ruins que, caso fossem ao menos estranhos, talvez seriam melhores. Mas, à parte a memória e as referências literárias, o livro cede espaço para observações de natureza histórica, a exemplo dos capítulos que se dedicam a desvendar os costumes e os produtos da Idade Média. Como foi o trabalho de pesquisa e por que considerou válido incluir essas informações?
ALEXANDRE STAUT – Ah, sim. Sou apaixonado pela Idade Média, literatura, costumes, alimentação, comércio, comunidades urbanas. Estudo por conta própria o período há muito tempo. Li tudo e vi os filmes sobre Fausto, alquimista, astrólogo e mago, protagonista de uma lenda da Idade Média alemã, que teria feito pacto com o demônio, um arquétipo da alma humana e das nossas aflições. Mas gosto também de livros teóricos sobre o assunto. Na França, há muitos. E é possível sentir a Idade Média bastante presente em diversas cidades do interior. Os cemitérios no centro de alguns vilarejos, na frente da igreja principal do lugar, acho fascinantes.
DA – É marcante também a aparição de canções por todo o livro. Algumas delas, inclusive, apresentam o caráter latente de uma trilha sonora dessa época. Em dado momento, você menciona a participação de Gilberto Gil e Jorge Mautner, num festival em Brest; este último, aliás, de quem você é fã e tentou um encontro, que acabou não acontecendo. Por outro lado, a literatura faz parte de um processo muito mais íntimo que mundano. Há a citação de um encontro com o escritor Humberto Werneck, mas nenhuma outra tentativa de buscar no outro o espírito literário. Nos anos em que passou na França, você mantinha, de alguma forma, contato com a literatura brasileira ou mesmo com jovens autores franceses? Chegou a frequentar feiras literárias, eventos que fossem pautados pela literatura?
ALEXANDRE STAUT – Não tinha pensado nisso. O livro tem, sim, mais música que literatura. Foi um período muito musical da minha vida. Inclusive meu encontro com a música eletrônica. Ia dançar quase semanalmente. Meus encontros com escritores aconteciam por meio de programas de TV e de leituras. Incrível a quantidade de programas de TV na França, com a participação de escritores. Eu assistia a todos. Assim, conheci duas autoras que me acompanham até hoje. Anne F. Garreta, que participa do Oulipo, uma figura bem estranha; e Amelie Nothomb, belga que faz muito sucesso na França com seus romances de títulos esquisitos: “A higiene do assassino”, “Antichrista”, “Cosmética do inimigo”, “Biografia da fome”. Nos três anos e pouco em que estive por lá, basicamente eu li. Li em francês. Ler numa língua estrangeira é uma forma de entrar em contato com as sutilezas de tal língua. Isso requer dedicação. Foram anos em que me dediquei a aprender essa língua que para mim era um tanto desconhecida. Lia autores brasileiros recém-traduzidos lá também. Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu. Já conhecia a obra do Caio inteira. Foi bacana lê-lo em francês.
DA – Interessante você citar essa transposição da língua, pois, salvo eventos esporádicos, a exemplo do Ano do Brasil na França, a literatura brasileira parece algo ainda muito limitado a seu próprio território. Você citou Hilda e Caio F., porém, imagino, que deve ter topado com traduções de outros autores contemporâneos. Qual foi sua percepção do interesse da literatura brasileira entre os franceses? Ainda somos vistos pelo viés do exótico, do tropicalismo que exulta suas belezas naturais, seu calor endêmico?
ALEXANDRE STAUT – Estava lá nos tempos anteriores do Ano do Brasil na França, inclusive no momento da festa. O Brasil estava na moda. Traduziram muita coisa boa. Hilda e Caio estavam nessa leva. Era um orgulho chegar às livrarias e ver bancadas de autores brasileiros. Os programas de TV que discutem literatura (são vários, até em canal popular tem!) falavam sobre a gente. Discutiam Guimarães Rosa, liam trechos. Lembro que, em 2005, Lya Luft estava na onda, no Brasil, com os seus livros de autoajuda. Num programa, me lembro, alguém leu um trecho de um desses livros dela, e a apresentadora cortou o entrevistado: “Isso é uma bosta” (risos). Mas não podemos nos esquecer de que, antes da autoajuda, Lya foi uma grande escritora. Hoje em dia, graças ao professor da Sorbonne Leonardo Tonus, a literatura nacional ficou mais em evidência na França. Tudo trabalho do Leonardo! O que ele fez e faz para a literatura nacional por lá já entrou para a história! Há também o trabalho de formiguinha do livreiro e editor Michel Chandeigne, dono de La Librairie Portugaise et Brésilienne, e da Éditions Chandeigne, que já publicou Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant’Anna, Moacyr Scliar, Armando Freitas Filho, Francisco Alvim, Henriqueta Lisboa, Ana Cristina Cesar, Mário Chamie, entre tantos outros.
Alexandre Staut/ Foto: Juliana Carrascoza
DA – Realmente o professor Leonardo Tonus tem feito um trabalho irretocável em prol da literatura brasileira. Mas falaremos disso mais adiante. De volta ao livro, um dos momentos que considero mais tocantes é aquele em que você escala umas pedras à beira mar, onde fica sentado por horas, isolado, escrevendo num caderno. Para mim, essas passagens irradiam toda a narrativa com uma luz de melancolia. O que eram esses momentos para você, afinal? Havia ali mais literatura ou mais autorreflexão?
ALEXANDRE STAUT – Era uma mistura de tudo. Sempre gostei de ficar sozinho, de caminhar, tanto na cidade quando no meio da natureza selvagem. Resolvo cenas de livros em caminhadas, ou então sentado em posição de zazen, principalmente em locais silenciosos. No caso dos momentos de meditação, sentado na falésia do lado esquerdo da cidade de Arromanches-les-Bains, eu olhava os destroços do porto construído pelos ingleses na Segunda Guerra. Havia acabado de ler “Un pedigrée”, do Patrick Modiano (romance sobre os momentos em que seus pais viviam escondidos, por lugares obscuros de Paris, para não serem encontrados pelos nazistas – ainda não traduzido no Brasil). Assim, inspirei-me a escrever um livro sobre meu avô Eduardinho, judeu alemão cuja família migrou para o Brasil. Ele era músico de uma pequena orquestra no interior e dono da funerária da cidade, Pinhal. O livro se chama “Jazz band na sala da gente”. É sua biografia romanceada. Interessante você notar que “Paris-Brest” é um livro melancólico. Você percebeu um traço importante do livro, que também é meu traço. Sou um cara triste. Como Orhan Pamuk, sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz.
DA – É também nesse instante em que se dá conta de que a escrita é mais forte, em você, que a gastronomia, que o desejo de se tornar um chef. Consegue traçar um paralelo entre o processo de criação e a elaboração de uma receita? Em que a arte culinária e a literatura se aproximam e em que se divergem?
ALEXANDRE STAUT – A escrita sempre foi mais forte em mim do que qualquer outra coisa. É uma necessidade física, real, acho até que só consigo tomar conta do vácuo que vivemos neste planeta por meio da escrita. Talvez ela me distraia da loucura que é estar girando há mais de 700 km por hora, num planeta, sabe-se lá para onde. Quanto a ser chef, nunca o quis. Trabalhei como cozinheiro por uma necessidade momentânea. De qualquer forma, amo cozinhar. Me distrai bastante. Quando estou de saco cheio do mundo literário, vou pra cozinha. Considero a gastronomia uma arte, assim como a literatura. São artes diversas. A gastronomia também é uma coisa mágica. Uma pena que no Brasil muitos intelectuais e até escritores consideram culinária coisa de fresco. Muita gente pensa assim. A gastronomia é um patrimônio da humanidade. É possível relatar a história do planeta Terra por meio dela. Adoro os países em que a gastronomia é tratada como patrimônio; França, Portugal, Espanha, México. Aqui ainda estamos longe disso.
DA – Em compensação, a gastronomia explodiu com um dos carros-chefes de muitos programas de TV. Há canais a cabo, inclusive, que preenchem toda a programação com chefs nacionais e internacionais (e famosos que se acham chefs de cozinha) esbanjando a arte culinária. Esse “fenômeno” acabou por migrar também para a literatura, fazendo com que todas essas celebridades televisivas entrassem na mira das editoras, que abastecem cada vez mais as prateleiras com livros de culinária, de receitas, de viagens relacionadas à gastronomia. Como encara essa fascinação por esse tipo de programa, por livros dessa natureza? E você acredita que, assim como na literatura, há uma banalização da arte culinária; a consolidação de um pensamento de que qualquer um pode cozinhar, assim como qualquer um pode escrever?
ALEXANDRE STAUT – Acho ótima esta explosão do mundo da gastronomia. Acabo de voltar do Piauí, onde fui fazer uma grande reportagem sobre a culinária local. Antes da gastronomia regional entrar na moda, não se bebia cajuína. Disseram-me que hoje tem em todos os bares, vendinhas, restaurantes, supermercados, aeroportos… É a valorização da cultura alimentar. Por outro lado, as pessoas ainda conhecem mais Nutella do que, por exemplo, o tucupi (caldo da mandioca usado na região Norte, para se fazer vários pratos), ou então dão mais valor ao risoto do que ao baião de dois. Mas, com a popularização da arte gastronômica, espera-se que isso possa mudar um dia. Acho que qualquer um pode cozinhar, como pode escrever. São duas atividades democráticas. A escrita, por exemplo… para escrever basta um pedaço de papel e um lápis. Você pode escrever se nascer rei na Europa ou numa aldeia perdida no Brasil ou na África. Claro que aqui entra a questão do analfabetismo no Brasil, por exemplo. Mas esta já é outra história.
DA – Sinceramente me desagrada essa ideia generalizada de que qualquer um, com papel e caneta, possa escrever. É claro que escrever, sim, mas não fazer literatura. Penso o mesmo da arte culinária. Minha esposa gosta de programas de gastronomia. Certa vez, ela assistia um de competição que, para entrar, o candidato tinha de fritar um ovo; e a maioria não conseguiu. Eu adoro cozinhar, cozinho todos os dias, contudo sei que estou longe de ser um chef. Por outro lado, considero-me um escritor, pois estudo, leio, pratico, entendo as técnicas, os meandros da escrita, e busco, com isso, aperfeiçoar meu texto. Sendo também um crítico literário (escreve para o Valor Econômico), você não acredita que, a despeito de uma importância incontestável, a democracia na literatura tem seu limite na qualidade da narrativa?
ALEXANDRE STAUT – Ah, sim. Também acredito que com papel e caneta não se escreva literatura. É preciso estudar, ler, treinar. Um bailarino, para dar uma pirueta no ar, treina uma vida inteira. Existe uma faísca inicial, que é a inspiração. Depois, o que tem é o trabalho. É preciso trabalhar duro para escrever literatura. Mas ainda acredito que esta é uma arte democrática. O cara precisa de papel, lápis e tempo… além de ler livros, que ele pode comprar por R$ 5, na banca de jornal da esquina, ler de tudo um pouco.
DA – Alguns anos depois de retornar ao Brasil, você lança dois livros: “Jazz band na sala da gente”, de 2010, e “Um lugar para se perder”, de 2012. O primeiro foi uma edição do autor, e o segundo foi publicado por uma editora de pequeno porte. Na ocasião, chegou a procurar um grande selo editorial, mandou o original para a análise de alguns desses? Como avalia essa relação entre um autor inédito e as editoras, no Brasil?
ALEXANDRE STAUT – Não há relação! (risos). Os grandes editores não leem autores em começo de carreira, salvo algumas exceções. Mas até entendo. Editoras recebem 30, 40 originais por dia. Resolvi publicar “Jazz band…” em edição de autor, pois naquele momento tinha uma necessidade quase física de ter um livro lançado. Quando ficou pronto, percebi a importância de uma editora por trás do trabalho. Eu não sabia o que era “preparação de texto”. Para quem não sabe é uma espécie de “direção de arte”, como se faz no cinema. A preparação é essencial. O meu livro saiu com palavras repetidas na mesma página, sem necessidade. Errinhos que só um preparador iria pegar. Quando ficamos muito tempo com um texto, a leitura se torna oração. A gente lê sem se dar conta de cada palavra, da importância de cada palavra no contexto. De qualquer forma, este é um bom livro e merece uma segunda edição, agora caprichada. A dica que dou para quem quer publicar independente: não deixe de contratar dois profissionais antes de imprimir o seu livro, um preparador e um revisor. São trabalhos diferentes, e que só podem ser feitos por pessoas especializadas, que estudaram para isso.
DA – Excelentes dicas, de fato. Outra coisa que você fez, ao voltar ao Brasil, foi criar a São Paulo Review, um dos portais de literatura mais prestigiados nos dias correntes. Como e por que surgiu a ideia de montar a página? E, nesse tempo de existência, a SPR lhe trouxe mais amizades ou inimizades?
ALEXANDRE STAUT – Pois é, sempre li as “Reviews of Books” e percebi a lacuna. O Brasil não tinha nenhuma. Fui com a cara e a coragem e registrei o nome, em 2013. Chamei Viviane Ka, que é do mundo editorial, para ser minha sócia. Em pouco tempo, escritores e leitores perceberam que havia qualidade no trabalho e começaram a nos passar pautas, sugerir resenhas. Surgiu um time muito bom de colaboradores. Nos últimos tempos, a jornalista Ana Weiss se juntou a mim e à Viviane, para fazermos a revista juntos. Ana é uma das jornalistas culturais mais importantes do país. O time está formado e o projeto caminha muito bem. Estamos agora fazendo um plano de negócios para conseguirmos patrocínios, para que possamos ir mais longe ainda. Nunca se sabe, mas acho que consegui mais amigos. Sou contra detonar livros. Sou um jornalista/editor/crítico ecológico. Acho que não vale a pena gastar celulose e energia elétrica para falar mal de escritores e livros ruins. Melhor deixá-los no limbo.
Alexandre Staut / Foto: Macus Steinmeyer
DA – Há pouco você mencionou a questão do analfabetismo no Brasil como um dos principais adversários da literatura. Do tempo em que passou na França, o que trouxe de experiência da relação entre educação e literatura? O que representa a literatura, na vida comum de um francês? E o que poderíamos transferir para nossa realidade?
ALEXANDRE STAUT – Convivi bastante com crianças e adolescentes na França. Eles leem por toda parte, no metrô, andam pelas ruas com livro aberto, na frente da cara. As escolas incentivam a leitura desde muito cedo. Minha enteada, na época uma adolescente, andava com livros para cima e para baixo. Os seus professores passavam tanto obras clássicas quanto contemporâneas. Lembro-me dela comentar com prazer autores que conversam com nosso momento histórico, como Amelie Nothomb. A leitura por lá parece estar incorporada ao modo de vida francês. Talvez seja o país que mais valoriza a literatura. Aqui, falta o trabalho de base. Falta incentivo do governo. É uma questão um tanto complexa, né, não sei se um dia será resolvida. De qualquer forma, não acredito na frase que dizem por aí de que brasileiros não leem.
DA – Falando em professores, quero trazer à conversa o Leonardo Tonus, professor da Universidade Paris-Sorbonne, que tem feito um trabalho inestimável em prol da literatura brasileira na França, em especial no reconhecimento dos escritores contemporâneos. O grande evento que coordena, “Primavera Literária”, no qual autores brasileiros participam de debates na capital francesa, contou com sua participação numa das edições. Como foi voltar à França, desta vez com status formalizado de escritor?
ALEXANDRE STAUT – Participei da “Primavera Literária” em seu primeiro ano, em 2014, junto do Michel Laub, Julián Fuks, Marcelino Freire e Ana Martins Marques. Íamos à Sorbonne e falávamos com os alunos de estudos lusófonos do Leonardo Tonus sobre nossos livros, discutíamos literatura em língua portuguesa, de forma geral. O trabalho do Leonardo na Sorbonne é uma beleza. Ele valoriza cada um dos seus alunos, no que eles têm de mais genuíno. Conheci alguns que não gostavam de estudar e que depois do Leonardo viraram críticos literários, escritores. Mas antes disso, em 2013, ainda a convite do professor e de passagem pela França, dei uma palestra para sua turma, também nas dependências da Sorbonne. Senti um misto de medo, timidez, vaidade. Chegando à sala, todo mundo me deixou super à vontade. Para minha surpresa, estavam na minha palestra Humberto Werneck, Daniel Antônio, ótimo jornalista cultural brasileiro, entre diversos ex-alunos do Leonardo. Tive a sorte de ficar amigo do Tonus, que me chamou para criar o “Outono Literário” ao seu lado, e ao lado da Mirna Queiróz (Revista Pessoa) e Simone Paulino (editora Nós).
DA – Iria perguntar mesmo sobre o “Outono Literário”, realizado este ano em São Paulo, que surgiu como uma derivação da “Primavera Literária”, de Paris. Como foi pegar um evento de sucesso, com suas próprias características, e transportá-lo com mesma relevância para o Brasil? E quanto ao futuro: vocês têm a intenção de torná-lo regular? Buscar parcerias, replicá-lo em outras cidades, ampliar a programação de debates, inclusive com a presença de autores internacionais?
ALEXANDRE STAUT – O “Outono” nasceu no primeiro semestre deste ano, uma união de forças do Leonardo Tonus, da Mirna Queiróz, Simone Paulino e minha. Fizemos eventos na livraria Blooks, com lançamento de livros; numa escola da Zona Leste, onde acontece o Sarau dos Mesquiteiros; na Unibes Cultural; e no Bistrô Ó Chá. Reunimos mais de 20 escritores de todo o país, para falarmos sobre literatura no Brasil. Houve também um evento no Rio de Janeiro. O “Outono” nasceu como proposta de integrar discussões de norte a sul do País, e como evento a se realizar anualmente. Logo mais divulgamos a agenda para 2017.
DA – Desde o ano passado, têm ganhado relevância debates sobre a literatura de gênero, chamando atenção para uma participação mais ampla de mulheres, de negros e de homossexuais tantos nas editoras quanto em festivais literários. Na condição de curador e de autor, como se relaciona com essa discussão?
ALEXANDRE STAUT – No Brasil, o racismo é endêmico e cultural. Por isso, infelizmente, só nos resta uma solução: as cotas. No mais, basta ver os autores e os livros que fazem sucesso, tanto nos cadernos culturais quanto entre o público. A literatura brasileira é branca, heterossexual e “macha”. Com o perdão do trocadilho, acho um saco isso.
DA – Retornando ao livro, há dois momentos bem simbólicos de transição: a sua saída do Brasil para a então desconhecida cidade de Brest, e depois a sua primeira volta ao Brasil, quando se dá conta de que ainda sua estada na França não tinha chegado ao fim, daí você retorna. Mesmo que não tenha qualquer citação, esses momentos me trouxeram à memória o famoso poema de Manuel Bandeira, “Vou-me embora pra Pasárgada”. Consegue traçar um paralelo entre esses anos e os versos de Bandeira?
ALEXANDRE STAUT – Este poema me persegue. Gosto tanto, que incluí um trecho na minha peça de teatro “Marquesa”, encenada pela atriz Paula Cohen, no festival Satyrianas, semanas atrás. Há uma vontade de fugir para encontrar a felicidade, um desejo de percorrer o mundo, como um cigano, ver paisagens. Há também um sarcasmo e uma ternura que são próprios do Bandeira e de muitos autores nacionais. Quando escrevo, tento olhar para o Brasil com essa ternura… mesmo que esteja escrevendo sobre a França, ou qualquer outro lugar do planeta.
DA – Lá, no começo da nossa conversa, falamos sobre os três livros que você levou para França. Se soubesse que algum francês viria passar uma temporada no Brasil, qual dos três livros você recomendaria que ele trouxesse?
ALEXANDRE STAUT – Recomendaria que comprasse três livros aqui… para que entendesse um pouco mais a gente. Para conhecer a vida política brasileira, “Memórias de um sargento de milícias”. Para conhecer a sociedade brasileira, “A hora da estrela”. Para conhecer a alma do brasileiro, “Grande sertão: veredas”.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.