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116ª Leva - 01/2017 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Antonio Paim

 

Nos primeiros movimentos de 2017, os caminhos insinuam possibilidades. Outros tons e cenários se delineiam diante da aproximação de novos criadores. A Revista Diversos Afins aprofunda o interesse por diálogos que representem perspectivas de construção crítica da arte. Tal predileção está associada ao fato de que há de se contemplar o mundo e suas faces através das vias artísticas, isso é inegável, mas deve-se levar em contar o caráter de enfrentamento da condição humana por um prisma também analítico e que seja capaz de promover alguns importantes questionamentos. Autores conferem uma especial dimensão à sua obra quando, ao deixarem de lado as armadilhas do discurso frágil e quiçá panfletário, deslocam suas vozes para um efetivo lugar de representação.  É quando o tempo da inconformidade e da inquietude deixa claras as suas marcas sem que esse processo aconteça de modo gratuito.  Há de se retirar da própria vida o subsídio daquilo que expõe e afirma as identidades de autores e artistas. Nada é em vão. Uma obra é construída notadamente pelas marcas que carregamos, pelo sopro que constantemente atravessa os instantes percorridos. Para entender um pouco tais mergulhos íntimos, individuais e agora aqui compartilhados, servem como referência os versos de Vanessa Dourado, Lucas Rolim, Taís Bravo, Casé Lontra Marques e Myriam de Carvalho. São vozes poéticas que nos convidam a desfrutar dimensões desafiadoras do espírito humano. No contexto da prosa, também os contos de Mariel Reis, Viviane de Santana Paulo e Caio Russo visitam paisagens nada usuais e tampouco confortáveis. Coube a Sérgio Tavares a preciosa tarefa de entrevistar a jornalista e escritora Paula Dip, profunda conhecedora da pessoa e obra de Caio Fernando Abreu. Na entrevista, Paula relembra importantes passagens da trajetória do autor gaúcho e sua relevância para a literatura brasileira. Noutro ponto da nossa edição, Helena Terra apresenta suas leituras para “Bífida e outros poemas”, primeiro livro de Alexandra Lopes da Cunha. Também na esteira dos convites à leitura, Jorge Augusto comenta a estreia de Robson Poeta Du Rap em livro. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger mostra um olhar agudo em torno da delicada temática presente no filme “Eu, Daniel Blake”. É W. J. Solha quem nos indica “Grãos de Esperança”, livro de haikais de Wilson Guerreiro. Por todos os cantos da 116ª Leva está a presença marcante das fotografias de Antonio Paim, cujo trabalho contempla um viés fortemente subjetivo. Com todas essas atuais expressões, abrimos mais um ano de publicações. Desejosos de continuidade, dedicamos essa nova edição a nossos leitores. Que sejam todos bem-vindos!

Os Leveiros

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116ª Leva - 01/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Taís Bravo

 

Foto: Antonio Paim

 

Escavando areias com sede de oceano

 
escrever um romance
pela transcrição das nossas mensagens
dedicar uma página em branco
à cada hora
em silêncio
até que
a densidade da espera
altere
cada segundo
ocupe
uma
página mais
uma
agora
uma
dezena
sem nunca ser
a mesma
o feitio das somas
as raízes que avançam pela calçada
o acúmulo faz o objeto
intransponível
o livro forma estacas
debruço meu ouvido
ao que é sólido
.
um ponto é mais grave

do que a ausência narra
ressoa

os ruídos das minhas mãos

 

 

 

***

 

 

 

Meus desejos são guelras

 
para me localizar
os efeitos da ausência
não há um áudio

Perco:
a minha carne insiste
em renovar o sangue
até que a forma da sua boca deixe
o início das minhas pernas

o seu contato
foi nada
além de alento
agora torna-se
bem diante de mim
fora do meu alcance
algo que se decompõe
na quina de uma memória

o seu abraço

e, por último, a história
a espera da segunda pessoa
do plural
supus
e sempre foi minha

me cabe o trabalho:
analisar vestígios
esvaziá-los de nostalgia
ou fome
acertar meus parâmetros
com essa média inequívoca
e insuficiente
o que alguns chamam de realidade
uma convicção temporária

é isto que move o embate.
meu corpo resiste porque conhece
a aridez que me aguarda
na volta à superfície
o que respira é carcaça

 

 

 

***

 

 

 
Millennials quase amam

 
Eu tiro uma foto da sua janela
com isso já anuncio uma despedida
porque quero me lembrar
como era a brisa na sua janela
depois te pergunto se venta assim até no verão
como quem se prepara para os dias difíceis
e espia o futuro
você me diz que depende da direção dos ventos
eu nunca entendi como se usa uma bússola
penso que aqui poderia ficar
fazendo nada
feito os que esquecem dos trajetos
e se distraem com o que há
indiferentes aos movimentos obsessivos
idas e vindas
de quem insiste no desgaste
para justificar a perda
se entreter com o que há
aceitar mais um café
diante da direção propícia
longe do que pode ser ou não certo
guardo o recorte azul
para quando voltar
partida
porque conto mais com a nostalgia do que com a sorte

 

 

 
***

 

 

 

Treino

 
eu ando
precisando
de alguém
que deseje
meu corpo
enquanto
ando
em busca de
um corpo
pode ser até
menos
um pedaço de pele
não contra
sobre
ou melhor
entre
a minha pele
sou eu
raspando o tempo
enquanto ando
a minha pele
cobre minha boca pernas ouvidos
engole
retira
todas as células mortas
seu pezinho macio
novamente
anuncia uma voz
distante dos meus olhos
é oferta
não é um corpo
enquanto ando
há em torno
incontável fluxo
meu quadril
treinado
a fronte
contida
o olhar
desvia
o corpo
não é meu
à rua
eu ando
precisando
não ser
um alvo
no Largo do Machado
por exemplo
um pedaço
de pele
sobre a minha
pele
é alarde
não é como a sua
mão
a sua mão
é você
a minha pele
sou eu
o contato
entre
as células mortas
é este ponto
a insistência de infinito
a tentativa
de puxar um fiapinho
e estender o limite
em alguma medida
entre
as paralelas
enquanto me toca
entre
raspa o tempo
entre
a confusão de carnes
que sou eu
que é você
a sua pele sobreposta
ao meu desejo
é algo fora
da precisão dos passos
ou do refúgio dos pronomes
a invenção nunca garantida
o imediatismo inevitável
das partidas
o que significa:
ir

 

 

 

***

 

 

 
Partida

 
A espera
alguns supõem coisa estática
plácida
frígida

A espera
imobilidade de quem está disponível

A espera
as histórias esquecíveis de Penélope

A espera
a qualidade de um gênero

A espera
estou em um barco
que parte ao mar
retorna à ilha
volta ao mar
busca qualquer
aceno pedido bandeira fogo
e encara

o infinito

A espera
estou aos pés
de uma dormideira que pisca
a cada agitação das marés
e ela se faz imóvel
estou obcecada em existir
despida de qualquer olhar
estou em busca
de algum registro
o rastro da partida
no entanto é logo engolido
pelo risco
exato do mar

A espera é
luta
conflito
embate

O silêncio do que não procura não deseja não ocupa qualquer parte de mim

estou alheia quando toda minha pele é isenta de fantasia
estou alheia quando a nudez é um lugar inexplorado
estou tão alheia quanto este território que aprendi a chamar de meu
corpo com a falsidade própria de cada palavra

A espera
não ter a possibilidade do abandono
espiar todas as páginas suspensas
neste silêncio

A espera
se dobra diante da perda
uma mão costura
a outra rasga
o sentido
para além das rupturas
é movimento

 

Taís Bravo é escritora e tradutora em formação. Autora do livro digital “Todos os meus (ex) heróis são machistas”. É uma das criadoras e editoras da Mulheres que Escrevem. Co-fundadora da revista Capitolina, desde 2014, escreve para veículos como a revista Ovelha, a Alpaca Press e a TRENDR. Suas poesias já foram publicadas na revista Oceânicas e na Subversa. 

 

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116ª Leva - 01/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Dois Argumentos para o espanto

Por Jorge Augusto

Na história e na crítica literária, tradicionais, há certa expressão comum que defende dois tipos básicos de produção literária, uma voltada para as preocupações formais, a qual é creditada à experimentação e à evolução das linguagens e formas artísticas. De outro lado, estaria a literatura engajada, de cunho exclusivamente discursivo e voltada quase sempre para discutir ou expor questões sociais contemporâneas de seu autor.

É desnecessário demorarmo-nos na fragilidade dessa dicotomia, são muitos os exemplos que embaralham e refutam essas afirmações, pois existe na cultura brasileira uma sofisticação estética de manifestações e linguagens tidas como marginais pela cultura canônica e hegemônica.  Uma imensa genealogia pode ser listada nessa proposição, que poderia ser brevemente desenhada, partindo dos Racionais Mc´s e Gustavo Black Alien, no rap, Pedro Kilkerry, no Simbolismo, e Arnaldo Xavier na Literatura Negra, Glauber Rocha no cinema, só para citar alguns e poucos nomes de artistas que produzindo fora dos lócus hegemônicos empreenderam experimentos em suas respectivas linguagens.

Porém, sobretudo na literatura, a experimentação parece ser sempre creditada a movimentos que priorizam sempre a forma em detrimento da discussão social e política, fazendo funcionar a frágil dicotomia exposta acima, entre marginal e canônico, como sinônimos de engajamento e experimentação, respectivamente.  Sem dúvida, um problema historiográfico que poderia ser resolvido facilmente com uma crítica que se propusesse a uma metacrítica.

É esse gesto crítico que o livro “A notícia plena ou Argumentos para o Espanto”, do poeta e rapper Robson Poeta Du Rap, possibilita ao leitor atento. A obra embaralha os gêneros letra de rap e poesia e, se podemos afirmar que a discussão sobre rap como poesia é antiga e “consolidada” em alguns meios acadêmicos e dispõe já de bibliografia significante, talvez o mesmo não possamos dizer sobre pensar a poesia como rap, ou seja, pensá-la e construí-la dentro de uma estrutura rítmica pautada nos tempos do rap, como podemos ver no poema “poesia nenhuma no verso”, que diz: o rap é ódio/a vontade de subir num pódium/nem que seja pra cuspir/a condição de não mais existir/poesia nenhuma no verso/ o rap é cuspe/ esse país que não sabe pra quê que serve a USP/ pra quê que serve a USP? – Me parece esse um dos gestos de rasura impressos no livro.

Além deste gesto, um outro, quiçá mais radical e ousado, aparece no livro, a saber: o esgarçamento do rap enquanto forma, a partir da proposição de letras de rap mais curtas e densas, construção denominada por alguns leitores e algumas vezes pelo próprio poeta, não sem ressalvas, como poema-rap-síntese.  Nesse sentido o livro tem uma proposta estética específica e se insere numa genealogia de obras que propuseram experimentações formais, a partir de lugares não canônicos, no cenário da cultura brasileira.

O livro interessa a todo leitor que gosta de poesia, e ou se importa em discutir e ou acompanhar a produção literária baiana e nacional, como também aqueles que pesquisam a relação que pode ser desenhada entre rap e poesia. Robson Poeta Du Rap tem poemas publicados na Revista Caros Amigos, na edição “Ato II” coordenada por Ferrez, e no Jornal Bahia Notícias, além de participações em saraus como Dominicaos e Pós-lida. Seu livro de estreia foi lançado pela Organismo Editora.

Jorge Augusto é poeta e professor. Doutorando em Literatura e Crítica da Cultura, pela UFBA. Publicou textos e poemas em revistas e jornais, como SUL21, Germina Literatura, Cronópios, entre outras. Participou de Algumas antologias como a Enegrescência, publicada pela editora Ogum´s Toques. É editor na Organismo editora.

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116ª Leva - 01/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Viviane de Santana Paulo

 

Foto: Antonio Paim

 

Viver e morrer no facebook

 

Era uma vez ela —, uma amiga no facebook. Ela era amiga de uma amiga minha e me pediu amizade. Cliquei. Registrou-se com o nome de Megami de Aiedi Timaeus. Não sei se esse foi o seu nome verdadeiro, desconfio que não, por ser muito estranho e porque muitas pessoas se registram com nome fantasia mesclado ao verdadeiro. Fomos amigas durante uns quatro anos. Ela postava fotos da família, dos amigos, das viagens, esboços do que pensava sobre determinado acontecimento, vídeos engraçados, dizeres sobre sabedoria de vida. Soube que foi ao show do Caetano e lá encontrou o ex-namorado (foto dela sorrindo ao lado de um rapaz sorrindo), começou a trabalhar em uma instituição cultural, depois de dois anos mudou de emprego, era secretária executiva em um banco, fez uma viagem a Roma e subiu a escadaria na Praça da Espanha (no anexo, mais 31 fotos que eu não abri), desmanchou o namoro com o namorado porque conheceu alguém mais interessante no jantar da empresa (soube através de um comentário maldoso de uma amiga dela), casou-se com ele (fotos dela vestida de branco, segurando um buquê de orquídeas, o marido ao lado, homem bem apessoado, moreno, estatura mediana, de óculos e mais 95 fotos que eu não abri, e um vídeo no qual assisti os primeiros momentos em que ela entrava na igreja e dava o braço para o noivo), e passou a lua de mel em Buenos Aires (ela tomando café no Tortoni, em frente à fachada colorida de uma casa no La Boca, passeando na orla do Puerto Madero, comendo churrasco, tomando vinho e mais 46 fotos que eu não abri). Outros detalhes de sua vida eu soube, acompanhei algumas fotos: por do sol na praia de Santos, gato em cima do sofá, receitas de tortas de palmito, pudim de milho, tapioca, almoços ou jantares com a família, com amigos, caminhada na praia do Balneário de Camboriú, nova sandália de salto, dicas de restaurantes, de como se alimentar bem, receitas para dietas, vídeos de cachorros, de gatos, de papagaios, de tucanos, de bebês fazendo graça, de cidades estrangeiras, de lição de vida… e alguns comentários no facebook.

De repente, no meio de várias postagens que eu recebo, vejo com espanto uma foto dela in memoriam. Não sei como ela morreu, não sei por qual destas fatalidades repentinas ela foi acometida, se foi de câncer, acidente, aneurisma… Tinha trinta e quatro anos. Na foto ela possuía um sorriso sereno e o reflexo do sol banhava sua face, ao lado o cacho de uma orquídea rosa vergava-se do vaso suspenso na parede de cor ocra. Imaginei ser a varanda de uma casa no campo. Ela não era bela nem feia, possuía um rosto comum, ovalado, os cabelos escuros meio ondulados, compridos até os ombros, a pele clara, as bochechas um pouco salientes, os olhos pequenos e escuros, os lábios finos. E cliquei. Nunca nos encontramos, nunca troquei mensagens com ela no inbox. Cliquei em uma foto ou outra, em um vídeo ou outro, em um comentário ou outro. Na imagem in memoriam a família e amigos expressavam condolências. Postei as minhas e antes que surgissem fotos dela, recapitulando a sua vida, eu a excluí do meu grupo. Afinal não era meu parente ou uma amiga íntima!

Por que acompanhei a sua vida? O que estes detalhes da vida de um desconhecido têm a ver com a minha? Para que serve esta enxurrada de detalhes da vida alheia?

Sempre procuramos saber da vida alheia, por mais que nos convençamos que não nos interessa. Não é bem assim, fora da nossa vida tudo faz parte da vida alheia, os filmes que assistimos, os livros que lemos, as pessoas que encontramos. Além da nossa vida, vivemos a vida alheia inconscientemente, apreendemos a realidade do outro de forma indireta e a integramos em nossa vida, em nossas opiniões, em nossas preferências, em nossa visão de mundo. Precisamos do outro, embora sejamos egoístas e egocêntricos. Mas sem o outro não temos como ser egoístas. Sem o outro estaríamos pensando no outro o tempo todo. Com o outro pensamos no que somos, nos definimos através do outro. No entanto, meu contato com ela não foi do tipo que proporcionasse esta característica. Hoje em dia não buscamos esta característica, temos preguiça de nos conhecermos e conhecer o outro e nos falta tempo. A amizade virtual permanece na superfície e no nunca conhecer o outro como ele é na vida real. Ela foi um punhado de imagens, frases sucintas e opiniões, vídeos, digitalizados e esporádicos, efêmeros como em um livro de enredo fragmentado, temas mesclados e incompletos —, um livro mal lido e emprestado que você esquece de não ter recebido de volta.

E sigo minha vida clicando.

Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em diversos jornais e revistas. Vive em Berlim.

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Eu, Daniel Blake. Bélgica, França, Reino Unido. 2016.

 

A propósito de Eu, Daniel Blake, último filme do diretor inglês Ken Loach, ganhador da Palma de Ouro de Cannes em 2016, o ex-Secretário do Trabalho do governo conservador britânico, Iain Duncan Smith, disse que o filme era injusto com os trabalhadores do serviço social inglês.

Certo ou errado, o secretário do Partido Conservador julgou o filme pelo que poderíamos denominar de “preconceito mimético”: existiria um protótipo real do qual o filme é apenas uma cópia ou representação de segunda mão. O preconceito mimético repousa na crença de que o cinema pode ser apenas uma imagem mais ou menos fiel de outra imagem primária, mais original.

O cinema sempre foi uma vítima preferencial desse preconceito, embora sua história tenha sempre sido de uma arte construtiva da imagem, arte menos de representação e mais de criação e de transformação. As operações básicas do cinema, o corte e a sutura, são técnicas de incisão e excisão da imagem pelas quais a montagem compõe um procedimento: o cinema é um aparelho através do qual as imagens são diferenciadas, transformadas, alteradas e metamorfoseadas tecnicamente.

O cinema de realismo crítico de Ken Loach habita perigosamente a zona estética desse engano centenário que confunde a imagem prototípica e a imagem secundária. Que realidade é essa que o diretor traz ao espectador para que ele reflita e critique? Nos anos 60, o teórico Roland Barthes afirmou, em relação à literatura, que não havia romance ou escrita realista, mas apenas a escrita que gera um “efeito de real”. Por isso, a pergunta a respeito do cinema de Loach precisa ser deslocada: que efeitos de real nos trazem as imagens que suas câmeras operaram?

Daniel Blake (vivido pelo ator Dave Johns), carpinteiro, em sua meia idade tardia, fica desempregado após um ataque cardíaco e se candidata a um beneficio social de saúde, porém a perícia o considera apto, apesar de seu médico lhe ter proibido de trabalhar durante a recuperação. Enquanto espera recorrer do resultado da perícia, Blake é obrigado a se candidatar ao estipêndio de salário-desemprego, mas para receber esse outro benefício, ele precisa passar por uma qualificação para entrevistas, montar e distribuir currículos e comprovar que está procurando emprego, embora clinicamente esteja incapacitado para trabalhar.

Com esse roteiro, o filme guarda semelhanças fortíssimas com o filme francês O valor de um homem, de Stephane Brizé (2015).  A semelhança entre os cenários inglês (em Newscastle) e francês reforça a impressão de estarmos assistindo a uma reprodução fiel do contexto trabalhista europeu: a escassez de trabalho de um sistema econômico que produz desemprego e a destituição de uma ideia de Estado de Bem-Estar social que deveria bancar o sistema de seguridade para acolher desempregados e incapacitados.

O filme de Ken Loach (cujo roteiro foi escrito por seu colaborador frequente Paul Laverty) é a narrativa de um giro em falso. Circulando entre a má vontade dos assistentes da seguridade, as esperas longas, irritantes e desmobilizadoras do serviço de teleoperadoras e as complicações do mundo digital com as quais é incapaz de lidar, Daniel Blake parece dar voltas sem sair do lugar.  China, seu jovem vizinho, lhe adverte que o sistema fará de tudo para que ele desista de solicitar aquilo que tem direito.

No entanto, Daniel Blake cumpre seu caminho pacientemente. A certa altura, ele desabafa à única assistente que o escuta. Ambos estavam se enganando mutuamente: ele estava procurando empregos que não existiam e ela oferecia serviços que o Estado não quer ou não pode mais oferecer.

Dave Johns na pele de Daniel Blake / Foto: divulgação

O contexto subjacente de Eu, Daniel Blake é a da capitulação do Estado frente ao Capital.  Estado que não quer mais cumprir seu papel de proteção social e quer despejar sobre os ombros dos trabalhadores a culpa por esta capitulação.  Com isso, surge a farsa da procura por empregos que não existem, das perícias que não periciam, da qualificação dos desqualificados ou incapacitados. O protagonista do filme, no entanto, é aquele cuja dignidade é a de não desejar participar dessa farsa.

Contra a ficção dos empregos que não existem e do Estado que é apenas um subsidiário subalterno de um poder econômico maior e invisível, Eu, Daniel Blake apresenta a narrativa do trabalhador que quer valer sua dignidade de cidadão e da solidariedade cotidiana entre os trabalhadores. Daniel oferece sua ajuda, seu apoio e seus dotes de carpinteiro a Katie (Hayley Squires), mãe solteira homeless de dois filhos que também procura emprego. Numa das cenas mais pungentes do filme, ele a ajuda e a incentiva num momento em que Katie sucumbe de fome num centro de distribuição de cesta básica. Ele lhe diz que a fome não é motivo para vergonha e que há dignidade em buscar alimentos para os filhos e em lutar por sua subsistência.  Nesse momento também aparecem as agentes sociais que realmente se mobilizam pelos necessitados.

Assim, à farsa fictícia agenciada pelo conluio entre o Estado e o Mercado, Loach opõe o realismo do coração debilitado de Daniel, da fome de Katie, e de uma solidariedade subterrânea que se mantém viva sob os escombros da própria classe trabalhadora desmobilizada. No entanto, esse realismo é antes alegórico, pois o coração solidário de Blake é também a imagem metafórica e contrastante do coração ausente do sistema social desumano. E a solidariedade entre os trabalhadores é o negativo do acordo espúrio entre Capital e Estado.

E há o fato de Daniel Blake ser um carpinteiro, o que projeta no filme uma forte ressonância religiosa cristã. Mas antes da sugestão religiosa, há a evidente caracterização de Blake como um trabalhador hábil com as mãos, com um saber ancestral e essencialmente analógico, mas tendo que lidar com um mundo digital, imaterial e aparelhado por corporações que se escondem atrás de sistemas informatizados. Não é um gap geracional que o filme aborda, mas um contraste de mundos e modos de existência radicalmente diferentes. Assim, a solidariedade trabalhista que surge nesse filme parece ser remanescente de um mundo que se extingue.

No novo mundo do capital digitalizado e da capitulação do Estado, os sindicatos sequer são lembrados e os trabalhadores estão entregues à própria sorte. Por isso, o filme de Ken Loach não é o retrato realista de uma época, mas uma fábula humanista de feições kafkianas, por suas armadilhas circulares e procuras absurdas. Fábula que faz aparecer as imagens que estão excluídas das configurações de poder dominantes, digitalizadas, algorítmicas e programadas, antes que essas imagens se tornem completamente esquecidas ou absolutamente ignoradas.

A questão final é: haverá lugar para o humanismo cinematográfico de Ken Loach? O efeito de real dessa fábula será capaz de mexer com o coração de silício do sistema? Numa cena emblemática do filme, Daniel Blake faz seu protesto na rua pichando o muro do prédio da seguridade social com seu nome e o de sua luta. É aplaudido pelos transeuntes como um novo herói. Se essa mesma cena ocorresse no Brasil, não faltaria talvez quem o acusasse de vandalismo. Estamos em tempos difíceis para o humanismo. Por isso, as imagens precisam se emancipar do presente para propor versões de mundos com outras relações de afeto e de sociabilidade e dar nomes às lutas que engendrarão novas configurações de espaço-tempos.

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Myriam de Carvalho

 

Foto: Antonio Paim

 

Teoria da Música

 

Por vezes, a minha Fada ausenta-se. É
caprichosa, vagabunda, peregrina.
Fico de mãos a abanar, menina
perdida, sem pátria nem lar.

Mas quando regressa, cantam as ervas
na beira da estrada,
as gaivotas desafinadas,
as andorinhas estreloucadas!
Até as ondas na balaustrada,
até as pedras pisadas da estrada.

A minha Fada regressa. Um dia ao acaso, sem aviso.
Não bate à porta. Entra naturalmente, instala-se.
E os versos saem, de improviso, num sorriso impreciso mas
conciso.

A minha Fada, minha Deusa, minha mãe
e minha irmã
Essa mãe que não tive
E me tem valido – sábia como um divã

 

 

 

***

 

 

 
O chiar desesperante dos pardais
e o grasnar das gaivotas
A leve aragem marinha,
os ruídos da autoestrada
Despertadores infalíveis
da manhã da praceta

Ainda descolorido, o sol
começa a aquecer as vidraças da janela
Um avião cruza com estrondo o céu
ainda embaciado

Calam-se os últimos pardais
Fica no ar o chilreado de alguma andorinha
Os primeiros carros começam a arrancar
da garagem nocturna sob as estrelas

Mas eu tenho a minha estrela
Uma, que brilha sobre os tectos dos prédios
Haja sol ou haja vento,
Seja dia ou seja noite
Senta-se comigo ao computador,
diz-me as palavras certas
Maternalmente, afaga-me os cabelos
“aqui está bem”,
“aqui, é para alterar”
E bebo mais um golo de água, e
vou roendo uma maçã

 

 

 

***

 

 

 
Escolho as palavras como quem escolhe
as pedras da calçada que não magoem os pés,
ou como quem escolhe as pedras menos
escorregadias por entre as poças de chuva,
ou como quem escolhe as passadeiras
mais seguras para atravessar a ribeira…

As palavras existem anteriores a nós… dádiva
das gerações passadas… antigas
como o Tempo…

Têm Fogo nos pés como Mercúrio,
Têm Música no coração, como a Noite,
Fazem amor entre mim e o papel

As palavras são violetas de estufa…
Precisam de Ar, e de Luz suave
para não lhes queimar as folhinhas

As palavras fazem-me dançar
Batem-me o ritmo no contraste
das oclusivas,
Adormecem-me os passos na toada
das nasais,
Abraçam-me
no jogo das vogais…
Dão que pensar nos símbolos e
nas metáforas…
Esmagam-me se rimo.

As palavras têm que estar maduras
como as uvas para a vindima

 

Myriam Jubilot de Carvalho, 1944, portuguesa. Foi professora. Representada em várias antologias e revistas. Divulgadora da cultura e poesia do período do Al-Andalus. Colaboradora no jornal “O Autarca”, de Moçambique. Publica no site brasileiro “Recanto das Letras”. Três livros de poesia publicados.

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra III

Os Trezentos curtas de Wilson Guerreiro

Por W. J. Solha

 

Comemorando seus 70 anos de idade com estes haicais de Grãos de Esperança – 300 haikais guilhermianos, que acaba de sair pela editora Chiado, de Portugal, ele me lembra que em 2011, seis integrantes do grupo COMPOMUS, da UFPB, criaram – em comemoração dos meus mesmos 70 – a Cantata Bruta,  a partir de curtíssimos contos meus sobre a violência contemporânea.

Estou me exibindo?

Não.

É que, nesse concerto, um trecho particularmente me deslumbrou. De quem, caramba?!

– Wilson Guerreiro!

Estes haicais foram, pra mim, nova surpresa. Daí que parti pra Wikipédia, para saber, afinal, “com quem estava lidando”! E… meu deus!

Wilson Guerreiro nasceu em Corumbá, Mato Grosso do Sul, 1945. Em 1959, mudou-se com a família pra Campinas-SP, e em 66 ingressou no ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica, como Engenheiro de Eletrônica. Mestre em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da UFPB, Campina Grande (1973), Master of Science (M.Sc.) em Eletrônica pela University of Southampton, Inglaterra (1975), e Ph.D. em Eletrônica por essa universidade (1979), atuou como professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPB no período 1971-1999,

E o que tem isso a ver com haicais? Calma. Prossigo de Wikipédia:

Teve sólida formação musical em cursos de composição, harmonia e instrumentos, tendo estudado com renomados professores, entre os quais Eli-Eri Moura, Marco César de Oliveira Brito e Liduino Pitombeira. Sua produção inclui peças para diversas formações camerísticas, orquestra sinfônica e trilhas sonoras para teatro e vídeo. Recebeu o Prêmio de Melhor Música no VI Festival Nacional de Teatro de Guaçuí, Espírito Santo (2005), e no XIII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, Ceará (2006), pela trilha sonora, composta em parceria com Marcílio Onofre e Samuel Correia, do monólogo gogoliano Diário de um Louco, dirigido por Jorge Bweres e André Morais.

Wilson Guerreiro se descreve no haicai 282, desta edição:

Vivo sem conflito,
na calma, mas a minh’alma
busca sempre o agito.

Genial!

E vamos aos haicais. Guerreiro assume, no subtítulo de seu livro, que os seus são guilhermianos. Como Guilherme de Almeida (poeta paulista, 1890-1969), estabeleceu para si tercetos de 5, 7 e 5 sílabas, rimas do primeiro com o terceiro verso, o segundo com rimas internas na segunda e sétima sílabas. Também assimilou o espírito guilhermiano da coisa:

Haicai é um mero enunciado: lógico, mas inexplicado. Apenas pura emoção colhida ao voo furtivo das estações, como se colhe uma flor na primavera, uma folha morta no outono, um floco de neve no inverno.

 Sobre essa base… técnica surge o estilo Guerreiro, cuja primeira característica é a preocupação social. E outra: paixão pelo sertão nordestino brasileiro, patético e, muito mais: estético. Tanto, que as grandes obras de arte do país são todas dessa região ou sobre ela: Os Sertões, de Euclides da Cunha, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, bem como os filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Os Fuzis, de Ruy Guerra, e novamente Vidas Secas, agora de Nelson Pereira dos Santos. Destaque para A Pedra do Reino, do Ariano, e Dom Sertão, Dona Seca, de Otávio Sitônio Pinto. A Portinari essa área rendeu a impactante série de quadros Flagelados ou Retirantes. Ao poeta João Cabral de Melo Neto, deu Morte e Vida Severina, grande poema tornado popular pela música de Chico Buarque. E bombou na Globo, a novela Velho Chico. Mas eu falei de duas características marcantes destes haicais. Uma terceira: rigor. Músico da Orquestra Sinfônica da Paraíba, Guerreiro – metaforicamente – confessa:

Sustento meus filhos
com canto. A viola, portanto,
deve andar nos trilhos.

Quarta: no espaço tão exíguo do férreo terceto de cinco-sete-cinco sílabas, próprio pra poucas imagens, ele às vezes nos entrega uma bela natureza-morta:

À mesa, moqueca
com coco e pimenta, e um pouco
de chá na caneca.

Mais fotógrafo que pintor – pelo rápido clique – colhe cenas da caatinga, a selva selvaggia de exclusividade brasileira, aspra e forte, como nesta série de cinco haicais, que tiro da ordem, numa atrevida “montagem”:

Sertão. Descampado
sem sombra. A todos assombra
a morte do gado.

No pequeno aterro,
exposto ao tempo, ali posto
já morto, um bezerro.

Sofrida imburana
insiste, mas não resiste
à seca tirana.

No bruto sertão,
carcaças e mais carcaças
dispersas no chão.

Nunca se viu tanta
carência. Uma consequência:
o nó na garganta.

Veja a força disto:

No rosto, a dor muda
de quem tem sede e também
passa fome aguda.

E isto, que nos espanta pelo último verso:

Lar de massapê:
janela, porta, cancela,
antena e tevê.

Claro, nem tudo é trágico. Ou, bem: é, mas – se não desconcertante – deslumbrante:

Solitária flor,
num sulco do solo inculto,
em pleno esplendor.

Guerreiro, porém, supera o fotograma e ousa, quase sempre, um breve… cinema.

A mãe chama o filho
à mesa posta. Surpresa:
só cuscuz de milho.

Põe movimento até para o que não o tem:

Os dedos aflitos
dos galhos de alguns carvalhos
buscam o infinito.

O que tem a ver com outro espetáculo triste que se vê em todo o Brasil:

Entre as grades de aço,
mil mãos suplicam em vão
por mais ar e espaço.

Aqui, a curta ação é promovida por três verbos:

Maitaca chilreia,
quati treme. Sucuri
no chão serpenteia.

Como aqui:

Vento rodopia,
avança mais forte e alcança
frágil moradia.

Ou aqui, em que um dos verbos – queimar – implícito, é limitado pela expressão latina do segundo verso, e se solta, implicitamente, no terceiro.

Seca. Cai a tarde.
Um foco de fogo in loco,
e toda a mata arde.

Aqui, Guerreiro parte para quatro verbos, que são como claquetes no poema:

O sapo coaxa.
A cobra dá o bote e… sobra:
ao sapo não acha!

Take 1 – o sapo coaxa.
Take 2 – a cobra dá o bote.
Take 3: e… sobra.
Como?
Take 4: ao sapo não acha.

Esses… filmetes prosseguem num momento em que ele – abandonando o campo, já no final do livro – parte pro que vê nas cidades. “Estiremos” os haicais, e… cinematograficamente… montemo-los também:

O povo se atiça em becos, ruas, botecos: clama por justiça. // Nas ruas, na praça, país melhor, mais feliz, reivindica a massa.// O povão audaz protesta e se manifesta sob bombas de gás!// Um estampido alto e seco ecoa no beco. Corpo jaz no asfalto.// O Estado recua diante da voz vibrante do povo na rua.

– Atenção: Luz! Câmera! Ação!

Take 1: Árido sertão.O cacto floresce em pacto co’a essência do chão.
Take 2: Tragédia anunciada: grotesca seca, dantesca; gente em retirada.

Bem, isto é uma espécie de trailer. Cabe ao leitor, agora, puxar o freio de mão e, em câmera lenta, usufruir – de um a um – estes belos achados e centenas de outros. Guerreiro, ao contrário do sertão, é tão generoso quanto muito farto.

W.J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora, pela qual também lançou seu segundo poema longo, Marco do Mundo, em 2012, a que se seguiu Esse é o Homem, em 2013. Em 2015, lançou “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” pela Editora Penalux.

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Casé Lontra Marques

 

Foto: Antonio Paim

 

O calor da nossa falta de hora

 

Foco na nuca da noite o calor da nossa falta de hora (desejando que a noite seja densa); quase estanco sua seiva — e deixo pingar das gengivas o acidente de uma voz. Os copos que caem, as pedras (ou cidades) que despencam não são mais os meus dentes. E daqui a pouco não sobrará muito o que engolir. Um dia, ouve. Um dia tudo aqui vai flutuar: um dia — será logo — a gente vai flutuar, simplesmente flutuar. Como a criança
que cresce
em mim (como a criança que
cresce
contra mim). Juntando
as mãos
nas amígdalas. Reencontro este limiar — jardim? fronteira? deserto? encruzilhada? — indiferente a qualquer pacificação. E apesar de toda a atrofia: reencontro este limiar (uma elipse; outra elisão) em que o acirramento
da linguagem
deixa marcas fecundas no corpo — deixa marcas (ou ventosas ou queloides ou asas) fundadoras de um corpo. Metalurgia
molecular: o corpo, a mulher que ainda serei
diz
para meus intestinos. O corpo testemunha a nossa inconsistência. Mas não só: o corpo — com seus sonos e suturas,
seus
pombos e praias — eletrifica o tempo quando nos expomos aos signos/sabores/sintomas das contusões (dos desconhecimentos) que não prevenimos
nem
promovemos. Não deflagramos
(não
delimitamos) porém
de
-batemos. Sem domesticar
a desorientação dos povos à volta ou
no
centro do deslumbramento. Do atordoamento por onde a gente distribui — dopa depois distribui — o suor
que
talvez se torne
fala.
Fome e
fala.
Fúria e
fala.
Ou
fenda ou farpa
ou
fagulha.

 

 

 
***

 

 

 
Nomear os sons na dissolução

 

Nomear os sons na dissolução
conserva
um pouco das sílabas ofensivamente estendidas

ao
espanto

inicial?

quase esqueço
o
que responder — enquanto nos arrastam —

até
o fundo

das retinas:

sustentando (pânico após pânico)
a
fabricação da apoteose

— minto —

da
metamorfose

corporal;

com
súbito prazer;

insisto:

assim
que o bulbo — depois de algum silêncio —
mas
antes do acaso;

assim
que o bulbo (o bulbo)

esfriar

no
asfalto:

acordaremos — ainda dentro da precariedade —
ao
redor dos poros: outra vez:

por
que logo

eu tentaria coibir

uma
qualquer

intrusão?

nascemos para a língua:
alertas
ao tempo — sem a exatidão da voz —
contra
essa espessa mudez:

nascemos
para o que nos ressuscita

— arremessando um rosto —

nos
cristais
da
cica

 

 

 
***

 

 

 
Também o apodrecimento incita à insistência

 

Também o apodrecimento incita à insistência
……….. (por mais
que procure
………..despencar do desalento)

Embora combalidos, não apodrecemos

……….. sobre
………..os gestos

com que perturbamos o tempo —

………..sobre
………..as frases com

que
consumimos

……….. o desconhecimento

……….. (as ruidosas
……….. referências convergem

………..para
………..o vértice que expõe

………..a vida
………..ao
………..ventre

………..de nossas vertentes)

 

 

 
***

 

 

 

As dobras das mãos

 

Terei uma única vertigem: um nome — desde o nervo — gravado na nuca, um nome formado por imagens colhidas ao largo de um ossuário (de vozes em que avultam vidas vociferantes): a paisagem que progride por horas íngremes: quando dorme — sem idade — os dias ardem sobre seu dorso como cristais de sal; adiante, o declive: chama-se o verão (provoca-se o exílio) com sons (entre ganidos) que o ladeiam — da mesma maneira que se ladeia um crânio — receando seu cerne: chama-se — o verão, chama-se o que desvia o curso do pulso: arquejante: deita onde há trauma, onde há tumulto — contamina a camisa, a água, a manhã, a palavra arrastada pela raiz:

tudo
quanto devemos

fazer
desaparecer: (pulsando):

dias
de cinzas

na
saliva?

Terei o crivo, a clave, o claustro de uma última crueldade: conservarei — por não saber controlar — a cratera, o cancro; conservarei o cancro no pulmão desta última crueldade: no pulmão — até então inesperado: porque, no nervo deste cancro, o diafragma expande suas malhas, seus planos, mastigando a cartilagem, a areia, a gangrena, a engrenagem de uma carne cáustica, até fermentar — nas ogivas das gengivas — um liame de misérias (cujas contorções obedecem, apesar da exaustão, a um programa de insuficiências que sustentam o sobreaviso, sem provocar, no entanto, sequer um princípio de precaução):

tudo
branco sísmico

espanto

(renascer): pulsando:

ogivas
de
dias

entre

mímicas

não

emitidas?

(Debruça a cabeça pacificada. Entrega os nódulos de magma incrustados entre as dobras das mãos cansadas de edificar armas com destroços de casas; entrega — junto com os nódulos de magma, junto com um embrulho de mãos calcinadas — a vigília coberta por camadas de cantos inúteis, de imagens engessadas, de ritmos diluídos, de falas despedaçadas)

 

 

 

***

 

 

 

Se a língua aprovasse

 
Se a língua aprovasse
apenas

os prazeres do desastre: o paladar

passaria
sem este esquivo

horizonte

— entre
vivido — no alvo

(compacto)

da
voracidade

(como um

aço

no cio

do

ácido).

 

Casé Lontra Marques nasceu em 1985. Mora em Vitória, Espírito Santo. Publicou “Enquanto perder for habitar com exatidão” (2014), “Saber o sol do esquecimento” (2010) e “Mares inacabados” (2008), entre outros.

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116ª Leva - 01/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Caio Russo

 

Foto: Antonio Paim

 

Diário

6h07 e o calor da manhã sorri irônico da tarde que virá tostada numa frigideira de asfalto.
Essa completa ausência de brisa fotografa o que poderia ser um álbum familiar da década de 30, pai sentado, mãe empertigada com a mão sobre o ombro do patriarca, três filhos em pé ao redor aguardando nervosos o estrondo e o cheiro de pólvora da câmera primitiva que lascará uma parte de suas almas infantis, exatamente como confidenciou o tio Sérgio entre sussurros no almoço passado, quando soube do retrato parental.
ental.

6h22, daqui três minutos o Sr. Maurício do pet-shop destrancará a porta da frente e sairá para comprar o pão matinal.
Não, ele não se atrasa, é neurótico como eu, o hábito funciona, é a batida sintomática de uma estaca, a parte final do longa metragem em que o casal acaba junto, mas se separam assim que termina os 96 minutos de filme, tenho certeza.

 

6h26, é provável que o Sr. Maurício do pet-shop tenha tido um enfarte enquanto descia as escadas, talvez esteja agora mesmo agonizando numa tentativa ridícula de chamar a esposa que só acorda às 10h04 por conta dos 6 mg de rivotril.
Posso ver daqui aquela mão estufada, dedos cilíndricos usando os últimos minutos de uma medíocre existência para abrir a maçaneta do portão da garagem e o suor faz deslizar, deslizar, e os nervos frágeis não permitem que a mão feche, segure, mantenha.
Quem sabe não está arrependido, “por que não cortei a gordura da picanha?” “por que a cerveja todo dia e não só nos finais de semana?” “arroz na banha de porco”.
Foi tarde, é sempre tarde para soltar a mordaça do cotidiano, gritar o próprio nome não escolhido nunca.

6h40 e é o tédio.
Não, Baudelaire e seus párias não sabem o que é o tédio, só conheceram a melancolia. O tédio foi anunciado no XIX, mas demorou 153 anos para ser parido.
A maioria é preguiçosa e só.
Nem melancólica, nem entediada.
Tédio? É preguiça fermentada, envelhecida em barril de carvalho, ausência de ausências, o verdadeiro contentamento imóvel, homens

6h45, olha lá, é o Sr. Maurício do pet-shop, atrasado para o pão matinal. Hoje o dia começou incomum, fora de esquadro.
Esse tom sépia da tua pele não engana, são os ventrículos pedindo ajuda, a icterícia do fígado estampada no andar desritmado.
feito pedras por debaixo de lagos pausados.

 

7h00, não foi hoje, mas tudo bem.
Eu aguardo.

 

Caio Russo é escritor, melômano, estranho como as imagens num desenho de Alfred Kubin. Autor dos livros “Delicado desespero de beija-flor em voo” (Chiado, 2015), “Vaga queda” (Benfazeja, 2016).  

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Vanessa Dourado

 

Foto: Antonio Paim

 

GENTES

 

retiro a carne deste corpo
que de corpo
sequer corpo é
e exponho ossos
sobre este rosto
que reluz a máscara
que eu nunca quis,
que eu nunca aceitei usar

não são maus os homens que roubam
nem as mulheres que choram
pelas esquinas da fome
pelas ruas do hoje
não cabe
sua vontade de ser gente.

 

 

 

***

 

 

 
CORPOS ABERTOS

 

Abrem
Lapsos sem regras
Vívidos tatos
Pupilas dilatadas

Dilatam
Grampos em pernas
Límpidos bálsamos
Mãos entrelaçadas

Entrelaçam
Bocas servas
Segundos grávidos
De prazer sem calma

Mundos recíprocos
Lascivas mostras
De corpos abertos.

 

 

 

***

 

 

 

VOCÊ MEIO FIM

 

e lá
quando chego
………………. ..no meio
de você

e aqui
quando logo
……………. ..no fim
de mim

chega logo
aqui e lá
…………..no meio e
………………………no fim
de você em mim.

 

 

 
***

 

 

 
CHÃO

 

Desterritorializo
O liso mundo
não me serve

Absinto de si
Coágulos de outros

Alquimia delirante
Religião sem hão

Tudo é

Sondo limites
Embriago o mundo
Chão é sempre chão
Os pés têm memória.

 

 

 
***

 

 
LIBERTUS

 
Não amarrarei
uma fita colorida
ao rabo do gato
Ser livre,
liberto,
libertino
Dói
Nem sempre
é lindo.

 

 

 
***

 

 

 
UM DESTINO É POUCO

 

Nunca tive morte tranquila
todas elas foram desesperadas.
Um tiro de desilusão no meio do peito,
uma facada de solidão no fundo da alma.
Vi as tripas da minha tristeza por tantas vezes
que perdi as contas.
O afogamento é sempre o mais comum,
o gosto do sal desidrata.
O encontro com o chão da realidade
depois de mergulhar no amor do trigésimo andar,
levantar com as costelas da esperança quebradas.
Nunca foi fácil.
Eu sigo morrendo,
sou o pior dos vasos
porque ressuscito.

 

 

 
***

 

 

 
PANTERA

 

Lampejos de vida sem frio
Sem freio
Veias abertas no seio da fera
Feitas a ferro
Olhos fundos e sem beleza
Profundas brutezas
Corpos sobre a mesa
Servidos à francesa
Tiro único e certeiro
No meio do peito
Prova não ser passageiro
Ainda que sem leito
Cobre-se de miudezas
Enche-se de sutilezas
Dança sem presteza
Morre sem nascer.

 

Vanessa Dourado é escritora e feminista latino-americana. É autora do livro “Palavras ressentidas” – Editora Giostri, 2015e colaboradora na Revista Berro, vive em Buenos Aires.