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	<title>116ª Leva &#8211; 01/2017 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<description>entre caminhos e palavras</description>
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	<title>116ª Leva &#8211; 01/2017 &#8211; Diversos Afins</title>
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		<title>Ciceroneando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Feb 2017 14:37:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[116ª Leva - 01/2017]]></category>
		<category><![CDATA[116]]></category>
		<category><![CDATA[2017]]></category>
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		<category><![CDATA[editorial]]></category>
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					<description><![CDATA[Editorial da 116ªLeva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/15.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/15.jpg" alt="" class="wp-image-13302" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/15.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/15-300x200.jpg 300w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Antonio Paim</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"> Nos primeiros movimentos de 2017, os caminhos insinuam possibilidades. Outros tons e cenários se delineiam diante da aproximação de novos criadores. A Revista Diversos Afins aprofunda o interesse por diálogos que representem perspectivas de construção crítica da arte. Tal predileção está associada ao fato de que há de se contemplar o mundo e suas faces através das vias artísticas, isso é inegável, mas deve-se levar em contar o caráter de enfrentamento da condição humana por um prisma também analítico e que seja capaz de promover alguns importantes questionamentos. Autores conferem uma especial dimensão à sua obra quando, ao deixarem de lado as armadilhas do discurso frágil e quiçá panfletário, deslocam suas vozes para um efetivo lugar de representação.  É quando o tempo da inconformidade e da inquietude deixa claras as suas marcas sem que esse processo aconteça de modo gratuito.  Há de se retirar da própria vida o subsídio daquilo que expõe e afirma as identidades de autores e artistas. Nada é em vão. Uma obra é construída notadamente pelas marcas que carregamos, pelo sopro que constantemente atravessa os instantes percorridos. Para entender um pouco tais mergulhos íntimos, individuais e agora aqui compartilhados, servem como referência os versos de <strong>Vanessa Dourado</strong>, <strong>Lucas Rolim</strong>, <strong>Taís Bravo</strong>, <strong>Casé Lontra Marques </strong>e <strong>Myriam de Carvalho</strong>. São vozes poéticas que nos convidam a desfrutar dimensões desafiadoras do espírito humano. No contexto da prosa, também os contos de <strong>Mariel Reis</strong>, <strong>Viviane de Santana Paulo </strong>e <strong>Caio Russo </strong>visitam paisagens nada usuais e tampouco confortáveis. Coube a <strong>Sérgio Tavares </strong>a preciosa tarefa de entrevistar a jornalista e escritora <strong>Paula Dip</strong>, profunda conhecedora da pessoa e obra de <strong>Caio Fernando Abreu</strong>. Na entrevista, Paula relembra importantes passagens da trajetória do autor gaúcho e sua relevância para a literatura brasileira. Noutro ponto da nossa edição, <strong>Helena Terra </strong>apresenta suas leituras para “Bífida e outros poemas”, primeiro livro de<strong> Alexandra Lopes da Cunha</strong>. Também na esteira dos convites à leitura, <strong>Jorge Augusto </strong>comenta a estreia de <strong>Robson Poeta Du Rap</strong> em livro. Quando o assunto é cinema, <strong>Guilherme Preger </strong>mostra um olhar agudo em torno da delicada temática presente no filme “Eu, Daniel Blake”. É <strong>W. J. Solha </strong>quem nos indica “Grãos de Esperança”, livro de haikais de <strong>Wilson Guerreiro</strong>. Por todos os cantos da 116ª Leva está a presença marcante das fotografias de <strong>Antonio Paim</strong>, cujo trabalho contempla um viés fortemente subjetivo. Com todas essas atuais expressões, abrimos mais um ano de publicações. Desejosos de continuidade, dedicamos essa nova edição a nossos leitores. Que sejam todos bem-vindos!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os Leveiros</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iii-50/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Feb 2017 14:30:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[116ª Leva - 01/2017]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres que escrevem]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Taís Bravo]]></category>
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					<description><![CDATA[O cotidiano das esperas na voz poética de Taís Bravo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Taís Bravo</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/At-int.jpg"><img decoding="async" width="400" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/At-int.jpg" alt="" class="wp-image-13277" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/At-int.jpg 400w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/At-int-240x300.jpg 240w" sizes="(max-width: 400px) 100vw, 400px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Antonio Paim</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Escavando areias com sede de oceano</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
escrever um romance<br />
pela transcrição das nossas mensagens<br />
dedicar uma página em branco<br />
à cada hora<br />
em silêncio<br />
até que<br />
a densidade da espera<br />
altere<br />
cada segundo<br />
ocupe<br />
uma<br />
página mais<br />
uma<br />
agora<br />
uma<br />
dezena<br />
sem nunca ser<br />
a mesma<br />
o feitio das somas<br />
as raízes que avançam pela calçada<br />
o acúmulo faz o objeto<br />
intransponível<br />
o livro forma estacas<br />
debruço meu ouvido<br />
ao que é sólido<br />
.<br />
um ponto é mais grave</p>



<p class="wp-block-paragraph">do que a ausência narra<br />
ressoa<br />
só<br />
os ruídos das minhas mãos</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Meus desejos são guelras</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
para me localizar<br />
os efeitos da ausência<br />
não há um áudio</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perco:<br />
a minha carne insiste<br />
em renovar o sangue<br />
até que a forma da sua boca deixe<br />
o início das minhas pernas</p>



<p class="wp-block-paragraph">o seu contato<br />
foi nada<br />
além de alento<br />
agora torna-se<br />
bem diante de mim<br />
fora do meu alcance<br />
algo que se decompõe<br />
na quina de uma memória</p>



<p class="wp-block-paragraph">o seu abraço</p>



<p class="wp-block-paragraph">e, por último, a história<br />
a espera da segunda pessoa<br />
do plural<br />
supus<br />
e sempre foi minha</p>



<p class="wp-block-paragraph">me cabe o trabalho:<br />
analisar vestígios<br />
esvaziá-los de nostalgia<br />
ou fome<br />
acertar meus parâmetros<br />
com essa média inequívoca<br />
e insuficiente<br />
o que alguns chamam de realidade<br />
uma convicção temporária</p>



<p class="wp-block-paragraph">é isto que move o embate.<br />
meu corpo resiste porque conhece<br />
a aridez que me aguarda<br />
na volta à superfície<br />
o que respira é carcaça</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>Millennials quase amam</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
Eu tiro uma foto da sua janela<br />
com isso já anuncio uma despedida<br />
porque quero me lembrar<br />
como era a brisa na sua janela<br />
depois te pergunto se venta assim até no verão<br />
como quem se prepara para os dias difíceis<br />
e espia o futuro<br />
você me diz que depende da direção dos ventos<br />
eu nunca entendi como se usa uma bússola<br />
penso que aqui poderia ficar<br />
fazendo nada<br />
feito os que esquecem dos trajetos<br />
e se distraem com o que há<br />
indiferentes aos movimentos obsessivos<br />
idas e vindas<br />
de quem insiste no desgaste<br />
para justificar a perda<br />
se entreter com o que há<br />
aceitar mais um café<br />
diante da direção propícia<br />
longe do que pode ser ou não certo<br />
guardo o recorte azul<br />
para quando voltar<br />
partida<br />
porque conto mais com a nostalgia do que com a sorte</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Treino</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
eu ando<br />
precisando<br />
de alguém<br />
que deseje<br />
meu corpo<br />
enquanto<br />
ando<br />
em busca de<br />
um corpo<br />
pode ser até<br />
menos<br />
um pedaço de pele<br />
não contra<br />
sobre<br />
ou melhor<br />
entre<br />
a minha pele<br />
sou eu<br />
raspando o tempo<br />
enquanto ando<br />
a minha pele<br />
cobre minha boca pernas ouvidos<br />
engole<br />
retira<br />
todas as células mortas<br />
seu pezinho macio<br />
novamente<br />
anuncia uma voz<br />
distante dos meus olhos<br />
é oferta<br />
não é um corpo<br />
enquanto ando<br />
há em torno<br />
incontável fluxo<br />
meu quadril<br />
treinado<br />
a fronte<br />
contida<br />
o olhar<br />
desvia<br />
o corpo<br />
não é meu<br />
à rua<br />
eu ando<br />
precisando<br />
não ser<br />
um alvo<br />
no Largo do Machado<br />
por exemplo<br />
um pedaço<br />
de pele<br />
sobre a minha<br />
pele<br />
é alarde<br />
não é como a sua<br />
mão<br />
a sua mão<br />
é você<br />
a minha pele<br />
sou eu<br />
o contato<br />
entre<br />
as células mortas<br />
é este ponto<br />
a insistência de infinito<br />
a tentativa<br />
de puxar um fiapinho<br />
e estender o limite<br />
em alguma medida<br />
entre<br />
as paralelas<br />
enquanto me toca<br />
entre<br />
raspa o tempo<br />
entre<br />
a confusão de carnes<br />
que sou eu<br />
que é você<br />
a sua pele sobreposta<br />
ao meu desejo<br />
é algo fora<br />
da precisão dos passos<br />
ou do refúgio dos pronomes<br />
a invenção nunca garantida<br />
o imediatismo inevitável<br />
das partidas<br />
o que significa:<br />
ir</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>Partida</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
A espera<br />
alguns supõem coisa estática<br />
plácida<br />
frígida</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espera<br />
imobilidade de quem está disponível</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espera<br />
as histórias esquecíveis de Penélope</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espera<br />
a qualidade de um gênero</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espera<br />
estou em um barco<br />
que parte ao mar<br />
retorna à ilha<br />
volta ao mar<br />
busca qualquer<br />
aceno pedido bandeira fogo<br />
e encara<br />
só<br />
o infinito</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espera<br />
estou aos pés<br />
de uma dormideira que pisca<br />
a cada agitação das marés<br />
e ela se faz imóvel<br />
estou obcecada em existir<br />
despida de qualquer olhar<br />
estou em busca<br />
de algum registro<br />
o rastro da partida<br />
no entanto é logo engolido<br />
pelo risco<br />
exato do mar</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espera é<br />
luta<br />
conflito<br />
embate</p>



<p class="wp-block-paragraph">O silêncio do que não procura não deseja não ocupa qualquer parte de mim</p>



<p class="wp-block-paragraph">estou alheia quando toda minha pele é isenta de fantasia<br />
estou alheia quando a nudez é um lugar inexplorado<br />
estou tão alheia quanto este território que aprendi a chamar de meu<br />
corpo com a falsidade própria de cada palavra</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espera<br />
não ter a possibilidade do abandono<br />
espiar todas as páginas suspensas<br />
neste silêncio</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espera<br />
se dobra diante da perda<br />
uma mão costura<br />
a outra rasga<br />
o sentido<br />
para além das rupturas<br />
é movimento</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Taís Bravo</em></strong><em> é escritora e tradutora em formação. Autora do livro digital “Todos os meus (ex) heróis são machistas”. É uma das criadoras e editoras da Mulheres que Escrevem. Co-fundadora da revista Capitolina, desde 2014, escreve para veículos como a revista Ovelha, a Alpaca Press e a TRENDR. Suas poesias já foram publicadas na revista Oceânicas e na Subversa.&nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivo-da-palavra-ii-7/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Feb 2017 14:19:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[116ª Leva - 01/2017]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Dois Argumentos para o espanto]]></category>
		<category><![CDATA[Jorge Augusto]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[rap]]></category>
		<category><![CDATA[Robson Poeta Du Rap]]></category>
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					<description><![CDATA[Jorge Augusto apresenta o livro de estreia de Robson Poeta Du Rap

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Dois Argumentos para o espanto</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Jorge Augusto</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Capa-Um.jpg"><img decoding="async" width="334" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Capa-Um.jpg" alt="" class="wp-image-13271" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Capa-Um.jpg 334w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Capa-Um-223x300.jpg 223w" sizes="(max-width: 334px) 100vw, 334px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Na história e na crítica literária, tradicionais, há certa expressão comum que defende dois tipos básicos de produção literária, uma voltada para as preocupações formais, a qual é creditada à experimentação e à evolução das linguagens e formas artísticas. De outro lado, estaria a literatura engajada, de cunho exclusivamente discursivo e voltada quase sempre para discutir ou expor questões sociais contemporâneas de seu autor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É desnecessário demorarmo-nos na fragilidade dessa dicotomia, são muitos os exemplos que embaralham e refutam essas afirmações, pois existe na cultura brasileira uma sofisticação estética de manifestações e linguagens tidas como marginais pela cultura canônica e hegemônica.&nbsp; Uma imensa genealogia pode ser listada nessa proposição, que poderia ser brevemente desenhada, partindo dos Racionais Mc´s e Gustavo Black Alien, no rap, Pedro Kilkerry, no Simbolismo, e Arnaldo Xavier na Literatura Negra, Glauber Rocha no cinema, só para citar alguns e poucos nomes de artistas que produzindo fora dos <em>lócus</em> hegemônicos empreenderam experimentos em suas respectivas linguagens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, sobretudo na literatura, a experimentação parece ser sempre creditada a movimentos que priorizam sempre a forma em detrimento da discussão social e política, fazendo funcionar a frágil dicotomia exposta acima, entre marginal e canônico, como sinônimos de engajamento e experimentação, respectivamente. &nbsp;Sem dúvida, um problema historiográfico que poderia ser resolvido facilmente com uma crítica que se propusesse a uma metacrítica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É esse gesto crítico que o livro “<em>A notícia plena ou Argumentos para o Espanto</em>”, do poeta e rapper Robson Poeta Du Rap, possibilita ao leitor atento. A obra embaralha os gêneros letra de rap e poesia e, se podemos afirmar que a discussão sobre rap como poesia é antiga e “consolidada” em alguns meios acadêmicos e dispõe já de bibliografia significante, talvez o mesmo não possamos dizer sobre pensar a poesia como rap, ou seja, pensá-la e construí-la dentro de uma estrutura rítmica pautada nos tempos do rap, como podemos ver no poema “poesia nenhuma no verso”, que diz: <em>o rap é ódio/a vontade de subir num pódium/nem que seja pra cuspir/a condição de não mais existir/poesia nenhuma no verso/ o rap é cuspe/ esse país que não sabe pra quê que serve a USP/ pra quê que serve a USP?</em> &#8211; Me parece esse um dos gestos de rasura impressos no livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além deste gesto, um outro, quiçá mais radical e ousado, aparece no livro, a saber: o esgarçamento do rap enquanto forma, a partir da proposição de letras de rap mais curtas e densas, construção denominada por alguns leitores e algumas vezes pelo próprio poeta, não sem ressalvas, como poema-rap-síntese. &nbsp;Nesse sentido o livro tem uma proposta estética específica e se insere numa genealogia de obras que propuseram experimentações formais, a partir de lugares não canônicos, no cenário da cultura brasileira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O livro interessa a todo leitor que gosta de poesia, e ou se importa em discutir e ou acompanhar a produção literária baiana e nacional, como também aqueles que pesquisam a relação que pode ser desenhada entre rap e poesia. Robson Poeta Du Rap tem poemas publicados na Revista Caros Amigos, na edição “Ato II” coordenada por Ferrez, e no Jornal Bahia Notícias, além de participações em saraus como Dominicaos e Pós-lida. Seu livro de estreia foi lançado pela Organismo Editora.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Jorge Augusto</em></strong><em> é poeta e professor. Doutorando em Literatura e Crítica da Cultura, pela UFBA. Publicou textos e poemas em revistas e jornais, como SUL21, Germina Literatura, Cronópios, entre outras. Participou de Algumas antologias como a Enegrescência, publicada pela editora Ogum´s Toques. É editor na Organismo editora.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-45/</link>
					<comments>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-45/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Feb 2017 14:05:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[116ª Leva - 01/2017]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Viver e morrer no facebook]]></category>
		<category><![CDATA[Viviane de Santana Paulo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=13265</guid>

					<description><![CDATA[Marcas virtuais num conto de Viviane de Santana Paulo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Viviane de Santana Paulo</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/IMG_4961-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="450" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/IMG_4961-2.jpg" alt="" class="wp-image-13267" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/IMG_4961-2.jpg 450w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/IMG_4961-2-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/IMG_4961-2-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Antonio Paim</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Viver e morrer no facebook</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Era uma vez ela —, uma amiga no facebook. Ela era amiga de uma amiga minha e me pediu amizade. Cliquei. Registrou-se com o nome de Megami de Aiedi Timaeus. Não sei se esse foi o seu nome verdadeiro, desconfio que não, por ser muito estranho e porque muitas pessoas se registram com nome fantasia mesclado ao verdadeiro. Fomos amigas durante uns quatro anos. Ela postava fotos da família, dos amigos, das viagens, esboços do que pensava sobre determinado acontecimento, vídeos engraçados, dizeres sobre sabedoria de vida. Soube que foi ao show do Caetano e lá encontrou o ex-namorado (foto dela sorrindo ao lado de um rapaz sorrindo), começou a trabalhar em uma instituição cultural, depois de dois anos mudou de emprego, era secretária executiva em um banco, fez uma viagem a Roma e subiu a escadaria na Praça da Espanha (no anexo, mais 31 fotos que eu não abri), desmanchou o namoro com o namorado porque conheceu alguém mais interessante no jantar da empresa (soube através de um comentário maldoso de uma amiga dela), casou-se com ele (fotos dela vestida de branco, segurando um buquê de orquídeas, o marido ao lado, homem bem apessoado, moreno, estatura mediana, de óculos e mais 95 fotos que eu não abri, e um vídeo no qual assisti os primeiros momentos em que ela entrava na igreja e dava o braço para o noivo), e passou a lua de mel em Buenos Aires (ela tomando café no Tortoni, em frente à fachada colorida de uma casa no La Boca, passeando na orla do Puerto Madero, comendo churrasco, tomando vinho e mais 46 fotos que eu não abri). Outros detalhes de sua vida eu soube, acompanhei algumas fotos: por do sol na praia de Santos, gato em cima do sofá, receitas de tortas de palmito, pudim de milho, tapioca, almoços ou jantares com a família, com amigos, caminhada na praia do Balneário de Camboriú, nova sandália de salto, dicas de restaurantes, de como se alimentar bem, receitas para dietas, vídeos de cachorros, de gatos, de papagaios, de tucanos, de bebês fazendo graça, de cidades estrangeiras, de lição de vida… e alguns comentários no facebook.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De repente, no meio de várias postagens que eu recebo, vejo com espanto uma foto dela in memoriam. Não sei como ela morreu, não sei por qual destas fatalidades repentinas ela foi acometida, se foi de câncer, acidente, aneurisma… Tinha trinta e quatro anos. Na foto ela possuía um sorriso sereno e o reflexo do sol banhava sua face, ao lado o cacho de uma orquídea rosa vergava-se do vaso suspenso na parede de cor ocra. Imaginei ser a varanda de uma casa no campo. Ela não era bela nem feia, possuía um rosto comum, ovalado, os cabelos escuros meio ondulados, compridos até os ombros, a pele clara, as bochechas um pouco salientes, os olhos pequenos e escuros, os lábios finos. E cliquei. Nunca nos encontramos, nunca troquei mensagens com ela no <em>inbox</em>. Cliquei em uma foto ou outra, em um vídeo ou outro, em um comentário ou outro. Na imagem in memoriam a família e amigos expressavam condolências. Postei as minhas e antes que surgissem fotos dela, recapitulando a sua vida, eu a excluí do meu grupo. Afinal não era meu parente ou uma amiga íntima!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que acompanhei a sua vida? O que estes detalhes da vida de um desconhecido têm a ver com a minha? Para que serve esta enxurrada de detalhes da vida alheia?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre procuramos saber da vida alheia, por mais que nos convençamos que não nos interessa. Não é bem assim, fora da nossa vida tudo faz parte da vida alheia, os filmes que assistimos, os livros que lemos, as pessoas que encontramos. Além da nossa vida, vivemos a vida alheia inconscientemente, apreendemos a realidade do outro de forma indireta e a integramos em nossa vida, em nossas opiniões, em nossas preferências, em nossa visão de mundo. Precisamos do outro, embora sejamos egoístas e egocêntricos. Mas sem o outro não temos como ser egoístas. Sem o outro estaríamos pensando no outro o tempo todo. Com o outro pensamos no que somos, nos definimos através do outro. No entanto, meu contato com ela não foi do tipo que proporcionasse esta característica. Hoje em dia não buscamos esta característica, temos preguiça de nos conhecermos e conhecer o outro e nos falta tempo. A amizade virtual permanece na superfície e no nunca conhecer o outro como ele é na vida real. Ela foi um punhado de imagens, frases sucintas e opiniões, vídeos, digitalizados e esporádicos, efêmeros como em um livro de enredo fragmentado, temas mesclados e incompletos —, um livro mal lido e emprestado que você esquece de não ter recebido de volta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E sigo minha vida clicando.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Viviane de Santana Paulo</em></strong><em> (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira &#8211; Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em diversos jornais e revistas. Vive em Berlim.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Drops da Sétima Arte</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/drops-da-setima-arte-28/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Feb 2017 13:59:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[116ª Leva - 01/2017]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Daniel Blake]]></category>
		<category><![CDATA[Drops da Sétima Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Guilherme Preger]]></category>
		<category><![CDATA[Ken Loach]]></category>
		<category><![CDATA[“Eu]]></category>
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					<description><![CDATA[O novo filme de Ken Loach aos olhos de Guilherme Preger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Guilherme Preger </em></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Eu, Daniel Blake. Bélgica, França, Reino Unido. </strong><strong>2016.</strong></p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Cartaz.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="303" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Cartaz.jpg" alt="" class="wp-image-13261" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Cartaz.jpg 303w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Cartaz-202x300.jpg 202w" sizes="auto, (max-width: 303px) 100vw, 303px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



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<p class="wp-block-paragraph">A propósito de <em>Eu, Daniel Blake</em>, último filme do diretor inglês Ken Loach, ganhador da Palma de Ouro de Cannes em 2016, o ex-Secretário do Trabalho do governo conservador britânico, Iain Duncan Smith, disse que o filme era injusto com os trabalhadores do serviço social inglês.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Certo ou errado, o secretário do Partido Conservador julgou o filme pelo que poderíamos denominar de “preconceito mimético”: existiria um protótipo real do qual o filme é apenas uma cópia ou representação de segunda mão. O preconceito mimético repousa na crença de que o cinema pode ser apenas uma imagem mais ou menos fiel de outra imagem primária, mais original.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O cinema sempre foi uma vítima preferencial desse preconceito, embora sua história tenha sempre sido de uma arte construtiva da imagem, arte menos de representação e mais de criação e de transformação. As operações básicas do cinema, o corte e a sutura, são técnicas de incisão e excisão da imagem pelas quais a montagem compõe um procedimento: o cinema é um aparelho através do qual as imagens são diferenciadas, transformadas, alteradas e metamorfoseadas tecnicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O cinema de realismo crítico de Ken Loach habita perigosamente a zona estética desse engano centenário que confunde a imagem prototípica e a imagem secundária. Que realidade é essa que o diretor traz ao espectador para que ele reflita e critique? Nos anos 60, o teórico Roland Barthes afirmou, em relação à literatura, que não havia romance ou escrita realista, mas apenas a escrita que gera um “efeito de real”. Por isso, a pergunta a respeito do cinema de Loach precisa ser deslocada: que efeitos de real nos trazem as imagens que suas câmeras operaram?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daniel Blake (vivido pelo ator Dave Johns), carpinteiro, em sua meia idade tardia, fica desempregado após um ataque cardíaco e se candidata a um beneficio social de saúde, porém a perícia o considera apto, apesar de seu médico lhe ter proibido de trabalhar durante a recuperação. Enquanto espera recorrer do resultado da perícia, Blake é obrigado a se candidatar ao estipêndio de salário-desemprego, mas para receber esse outro benefício, ele precisa passar por uma qualificação para entrevistas, montar e distribuir currículos e comprovar que está procurando emprego, embora clinicamente esteja incapacitado para trabalhar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com esse roteiro, o filme guarda semelhanças fortíssimas com o filme francês <em>O valor de um homem</em>, de Stephane Brizé (2015).&nbsp; A semelhança entre os cenários inglês (em Newscastle) e francês reforça a impressão de estarmos assistindo a uma reprodução fiel do contexto trabalhista europeu: a escassez de trabalho de um sistema econômico que produz desemprego e a destituição de uma ideia de Estado de Bem-Estar social que deveria bancar o sistema de seguridade para acolher desempregados e incapacitados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme de Ken Loach (cujo roteiro foi escrito por seu colaborador frequente Paul Laverty) é a narrativa de um giro em falso. Circulando entre a má vontade dos assistentes da seguridade, as esperas longas, irritantes e desmobilizadoras do serviço de teleoperadoras e as complicações do mundo digital com as quais é incapaz de lidar, Daniel Blake parece dar voltas sem sair do lugar.&nbsp; China, seu jovem vizinho, lhe adverte que o sistema fará de tudo para que ele desista de solicitar aquilo que tem direito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, Daniel Blake cumpre seu caminho pacientemente. A certa altura, ele desabafa à única assistente que o escuta. Ambos estavam se enganando mutuamente: ele estava procurando empregos que não existiam e ela oferecia serviços que o Estado não quer ou não pode mais oferecer.</p>



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<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Dave-Johns-na-pele-de-Daniel-Blake-Foto-divulgação.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="305" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Dave-Johns-na-pele-de-Daniel-Blake-Foto-divulgação.jpg" alt="" class="wp-image-13262" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Dave-Johns-na-pele-de-Daniel-Blake-Foto-divulgação.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Dave-Johns-na-pele-de-Daniel-Blake-Foto-divulgação-300x183.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Dave Johns na pele de Daniel Blake / Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



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<p class="wp-block-paragraph">O contexto subjacente de <em>Eu, Daniel Blake</em> é a da capitulação do Estado frente ao Capital.&nbsp; Estado que não quer mais cumprir seu papel de proteção social e quer despejar sobre os ombros dos trabalhadores a culpa por esta capitulação.&nbsp; Com isso, surge a farsa da procura por empregos que não existem, das perícias que não periciam, da qualificação dos desqualificados ou incapacitados. O protagonista do filme, no entanto, é aquele cuja dignidade é a de não desejar participar dessa farsa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contra a ficção dos empregos que não existem e do Estado que é apenas um subsidiário subalterno de um poder econômico maior e invisível, <em>Eu, Daniel Blake</em> apresenta a narrativa do trabalhador que quer valer sua dignidade de cidadão e da solidariedade cotidiana entre os trabalhadores. Daniel oferece sua ajuda, seu apoio e seus dotes de carpinteiro a Katie (Hayley Squires), mãe solteira <em>homeless</em> de dois filhos que também procura emprego. Numa das cenas mais pungentes do filme, ele a ajuda e a incentiva num momento em que Katie sucumbe de fome num centro de distribuição de cesta básica. Ele lhe diz que a fome não é motivo para vergonha e que há dignidade em buscar alimentos para os filhos e em lutar por sua subsistência.&nbsp; Nesse momento também aparecem as agentes sociais que realmente se mobilizam pelos necessitados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, à farsa fictícia agenciada pelo conluio entre o Estado e o Mercado, Loach opõe o realismo do coração debilitado de Daniel, da fome de Katie, e de uma solidariedade subterrânea que se mantém viva sob os escombros da própria classe trabalhadora desmobilizada. No entanto, esse realismo é antes alegórico, pois o coração solidário de Blake é também a imagem metafórica e contrastante do coração ausente do sistema social desumano. E a solidariedade entre os trabalhadores é o negativo do acordo espúrio entre Capital e Estado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E há o fato de Daniel Blake ser um carpinteiro, o que projeta no filme uma forte ressonância religiosa cristã. Mas antes da sugestão religiosa, há a evidente caracterização de Blake como um trabalhador hábil com as mãos, com um saber ancestral e essencialmente analógico, mas tendo que lidar com um mundo digital, imaterial e aparelhado por corporações que se escondem atrás de sistemas informatizados. Não é um <em>gap</em> geracional que o filme aborda, mas um contraste de mundos e modos de existência radicalmente diferentes. Assim, a solidariedade trabalhista que surge nesse filme parece ser remanescente de um mundo que se extingue.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No novo mundo do capital digitalizado e da capitulação do Estado, os sindicatos sequer são lembrados e os trabalhadores estão entregues à própria sorte. Por isso, o filme de Ken Loach não é o retrato realista de uma época, mas uma fábula humanista de feições kafkianas, por suas armadilhas circulares e procuras absurdas. Fábula que faz aparecer as imagens que estão excluídas das configurações de poder dominantes, digitalizadas, algorítmicas e programadas, antes que essas imagens se tornem completamente esquecidas ou absolutamente ignoradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão final é: haverá lugar para o humanismo cinematográfico de Ken Loach? O efeito de real dessa fábula será capaz de mexer com o coração de silício do sistema? Numa cena emblemática do filme, Daniel Blake faz seu protesto na rua pichando o muro do prédio da seguridade social com seu nome e o de sua luta. É aplaudido pelos transeuntes como um novo herói. Se essa mesma cena ocorresse no Brasil, não faltaria talvez quem o acusasse de vandalismo. Estamos em tempos difíceis para o humanismo. Por isso, as imagens precisam se emancipar do presente para propor versões de mundos com outras relações de afeto e de sociabilidade e dar nomes às lutas que engendrarão novas configurações de espaço-tempos.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/ob_uqy1aouk" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Guilherme Preger</em></strong><em>, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética IV</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iv-54/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Feb 2017 16:10:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[116ª Leva - 01/2017]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Myriam Jubilot de Carvalho]]></category>
		<category><![CDATA[O Autarca]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Recanto das Letras]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria da Música]]></category>
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					<description><![CDATA[O canto peregrino manifesto na trilogia de Myriam de Carvalho]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Myriam de Carvalho</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/13.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/13.jpg" alt="" class="wp-image-13250" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/13.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/13-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Antonio Paim</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Teoria da Música</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por vezes, a minha Fada ausenta-se. É<br />
caprichosa, vagabunda, peregrina.<br />
Fico de mãos a abanar, menina<br />
perdida, sem pátria nem lar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas quando regressa, cantam as ervas<br />
na beira da estrada,<br />
as gaivotas desafinadas,<br />
as andorinhas estreloucadas!<br />
Até as ondas na balaustrada,<br />
até as pedras pisadas da estrada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A minha Fada regressa. Um dia ao acaso, sem aviso.<br />
Não bate à porta. Entra naturalmente, instala-se.<br />
E os versos saem, de improviso, num sorriso impreciso mas<br />
conciso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A minha Fada, minha Deusa, minha mãe<br />
e minha irmã<br />
Essa mãe que não tive<br />
E me tem valido – sábia como um divã</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
O chiar desesperante dos pardais<br />
e o grasnar das gaivotas<br />
A leve aragem marinha,<br />
os ruídos da autoestrada<br />
Despertadores infalíveis<br />
da manhã da praceta</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda descolorido, o sol<br />
começa a aquecer as vidraças da janela<br />
Um avião cruza com estrondo o céu<br />
ainda embaciado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Calam-se os últimos pardais<br />
Fica no ar o chilreado de alguma andorinha<br />
Os primeiros carros começam a arrancar<br />
da garagem nocturna sob as estrelas</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eu tenho a minha estrela<br />
Uma, que brilha sobre os tectos dos prédios<br />
Haja sol ou haja vento,<br />
Seja dia ou seja noite<br />
Senta-se comigo ao computador,<br />
diz-me as palavras certas<br />
Maternalmente, afaga-me os cabelos<br />
“aqui está bem”,<br />
“aqui, é para alterar”<br />
E bebo mais um golo de água, e<br />
vou roendo uma maçã</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
Escolho as palavras como quem escolhe<br />
as pedras da calçada que não magoem os pés,<br />
ou como quem escolhe as pedras menos<br />
escorregadias por entre as poças de chuva,<br />
ou como quem escolhe as passadeiras<br />
mais seguras para atravessar a ribeira&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">As palavras existem anteriores a nós&#8230; dádiva<br />
das gerações passadas&#8230; antigas<br />
como o Tempo&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Têm Fogo nos pés como Mercúrio,<br />
Têm Música no coração, como a Noite,<br />
Fazem amor entre mim e o papel</p>



<p class="wp-block-paragraph">As palavras são violetas de estufa&#8230;<br />
Precisam de Ar, e de Luz suave<br />
para não lhes queimar as folhinhas</p>



<p class="wp-block-paragraph">As palavras fazem-me dançar<br />
Batem-me o ritmo no contraste<br />
das oclusivas,<br />
Adormecem-me os passos na toada<br />
das nasais,<br />
Abraçam-me<br />
no jogo das vogais&#8230;<br />
Dão que pensar nos símbolos e<br />
nas metáforas&#8230;<br />
Esmagam-me se rimo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As palavras têm que estar maduras<br />
como as uvas para a vindima</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.myriamdecarvalho.com/"><strong><em>Myriam Jubilot de Carvalho</em></strong></a><em>, 1944, portuguesa. Foi professora. Representada em várias antologias e revistas. Divulgadora da cultura e poesia do período do Al-Andalus. Colaboradora no jornal “O Autarca”, de Moçambique. Publica no site brasileiro “Recanto das Letras”. Três livros de poesia publicados.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Aperitivo da Palavra III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivo-da-palavra-iii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Feb 2017 16:03:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[116ª Leva - 01/2017]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[haikais]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[W. J. Solha]]></category>
		<category><![CDATA[Wilson Guerreiro]]></category>
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					<description><![CDATA[W. J. Solha comenta “Grãos de Esperança”, livro de haikais de Wilson Guerreiro
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os Trezentos curtas de Wilson Guerreiro</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por W. J. Solha</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Capa-de-Grãos-da-esperançai-INt.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="333" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Capa-de-Grãos-da-esperançai-INt.jpg" alt="" class="wp-image-13243" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Capa-de-Grãos-da-esperançai-INt.jpg 333w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Capa-de-Grãos-da-esperançai-INt-200x300.jpg 200w" sizes="auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Comemorando seus 70 anos de idade com estes haicais de <em>Grãos de Esperança – 300 haikais guilhermianos</em>, que acaba de sair pela editora Chiado, de Portugal, ele me lembra que em 2011, seis integrantes do grupo COMPOMUS, da UFPB, criaram &#8211; em comemoração dos meus mesmos 70 &#8211; a <em>Cantata Bruta</em>, &nbsp;a partir de curtíssimos contos meus sobre a violência contemporânea.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou me exibindo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É que, nesse concerto, um trecho particularmente me deslumbrou. De quem, caramba?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Wilson Guerreiro!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estes haicais foram, pra mim, nova surpresa. Daí que parti pra Wikipédia, para saber, afinal, “com quem estava lidando”! E&#8230; meu deus!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Wilson Guerreiro nasceu em Corumbá, Mato Grosso do Sul, 1945. Em 1959, mudou-se com a família pra Campinas-SP, e em 66 ingressou no ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica, como Engenheiro de Eletrônica. Mestre em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da UFPB, Campina Grande (1973), Master of Science (M.Sc.) em Eletrônica pela University of Southampton, Inglaterra (1975), e Ph.D. em Eletrônica por essa universidade (1979), atuou como professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPB no período 1971-1999,</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o que tem isso a ver com haicais? Calma. Prossigo de Wikipédia:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Teve sólida formação musical em cursos de composição, harmonia e instrumentos, tendo estudado com renomados professores, entre os quais Eli-Eri Moura, Marco César de Oliveira Brito e Liduino Pitombeira. Sua produção inclui peças para diversas formações camerísticas, orquestra sinfônica e trilhas sonoras para teatro e vídeo. Recebeu o Prêmio de Melhor Música no VI Festival Nacional de Teatro de Guaçuí, Espírito Santo (2005), e no XIII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, Ceará (2006), pela trilha sonora, composta em parceria com Marcílio Onofre e Samuel Correia, do monólogo gogoliano Diário de um Louco, dirigido por Jorge Bweres e André Morais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Wilson Guerreiro se descreve no haicai 282, desta edição:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Vivo sem conflito,</em><br />
<em>na calma, mas a minh’alma</em><br />
<em>busca sempre o agito.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Genial!</p>



<p class="wp-block-paragraph">E vamos aos haicais. Guerreiro assume, no subtítulo de seu livro, que os seus são guilhermianos. Como Guilherme de Almeida (poeta paulista, 1890-1969), estabeleceu para si tercetos de 5, 7 e 5 sílabas, rimas do primeiro com o terceiro verso, o segundo com rimas internas na segunda e sétima sílabas. Também assimilou o espírito guilhermiano da coisa:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Haicai é um mero enunciado: lógico, mas inexplicado. Apenas pura emoção colhida ao voo furtivo das estações, como se colhe uma flor na primavera, uma folha morta no outono, um floco de neve no inverno.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em>Sobre essa base&#8230; técnica surge o estilo Guerreiro, cuja primeira característica é a preocupação social. E outra: paixão pelo sertão nordestino brasileiro, patético e, muito mais: estético. Tanto, que as grandes obras de arte do país são todas dessa região ou sobre ela: <em>Os Sertões, </em>de Euclides da Cunha, <em>Grande Sertão: Veredas, </em>de Guimarães Rosa, <em>Vidas Secas, </em>de Graciliano Ramos, bem como os filmes <em>Deus e o Diabo na Terra do Sol, </em>de Glauber Rocha, <em>Os Fuzis, </em>de Ruy Guerra, e novamente <em>Vidas Secas, </em>agora de Nelson Pereira dos Santos. Destaque para <em>A Pedra do Reino,</em> do Ariano, e <em>Dom Sertão, Dona Seca, </em>de Otávio Sitônio Pinto. A Portinari essa área rendeu a impactante série de quadros <em>Flagelados </em>ou <em>Retirantes. </em>Ao poeta João Cabral de Melo Neto, deu <em>Morte e Vida Severina</em>, grande poema tornado popular pela música de Chico Buarque<em>. </em>E bombou na Globo, a novela <em>Velho Chico. </em>Mas eu falei de duas características marcantes destes haicais. Uma terceira: rigor. Músico da Orquestra Sinfônica da Paraíba, Guerreiro – metaforicamente – confessa:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Sustento meus filhos</em><br />
<em>com canto. A viola, portanto,</em><br />
<em>deve andar nos trilhos.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quarta: no espaço tão exíguo do férreo terceto de cinco-sete-cinco sílabas, próprio pra poucas imagens, ele às vezes nos entrega uma bela natureza-morta:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>À mesa, moqueca</em><br />
<em>com coco e pimenta, e um pouco</em><br />
<em>de chá na caneca.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais fotógrafo que pintor – pelo rápido clique – colhe cenas da caatinga, a <em>selva selvaggia </em>de exclusividade brasileira, <em>aspra e forte</em>, como nesta série de cinco haicais, que tiro da ordem, numa atrevida “montagem”:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Sertão. Descampado</em><br />
<em>sem sombra. A todos assombra</em><br />
<em>a morte do gado.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>No pequeno aterro,</em><br />
<em>exposto ao tempo, ali posto</em><br />
<em>já morto, um bezerro.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Sofrida imburana</em><br />
<em>insiste, mas não resiste</em><br />
<em>à seca tirana.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>No bruto sertão,</em><br />
<em>carcaças e mais carcaças</em><br />
<em>dispersas no chão.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Nunca se viu tanta</em><br />
<em>carência. Uma consequência:</em><br />
<em>o nó na garganta.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Veja a força disto:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>No rosto, a dor muda</em><br />
<em>de quem tem sede e também</em><br />
<em>passa fome aguda.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">E isto, que nos espanta pelo último verso:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Lar de massapê:</em><br />
<em>janela, porta, cancela,</em><br />
<em>antena e tevê.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Claro, nem tudo é trágico. Ou, bem: é, mas – se não desconcertante &#8211; deslumbrante:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Solitária flor,</em><br />
<em>num sulco do solo inculto,</em><br />
<em>em pleno esplendor.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Guerreiro, porém, supera o fotograma e ousa, quase sempre, um breve&#8230; cinema.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A mãe chama o filho</em><br />
<em>à mesa posta. Surpresa:</em><br />
<em>só cuscuz de milho.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Põe movimento até para o que não o tem:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os dedos aflitos</em><br />
<em>dos galhos de alguns carvalhos</em><br />
<em>buscam o infinito.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O que tem a ver com outro espetáculo triste que se vê em todo o Brasil:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Entre as grades de aço,</em><br />
<em>mil mãos suplicam em vão</em><br />
<em>por mais ar e espaço.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui, a curta ação é promovida por três verbos:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Maitaca chilreia,</em><br />
<em>quati treme. Sucuri</em><br />
<em>no chão serpenteia.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Como aqui:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Vento rodopia,</em><br />
<em>avança mais forte e alcança</em><br />
<em>frágil moradia.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou aqui, em que um dos verbos – queimar – implícito, é limitado pela expressão latina do segundo verso, e se solta, implicitamente, no terceiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Seca. Cai a tarde.</em><br />
<em>Um foco de fogo in loco,</em><br />
<em>e toda a mata arde.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui, Guerreiro parte para <em>quatro</em> verbos, que são como claquetes no poema:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O sapo coaxa.</em><br />
<em>A cobra dá o bote e&#8230; sobra:</em><br />
<em>ao sapo não acha!</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Take 1 – <em>o sapo coaxa.</em><br />
Take 2 – <em>a cobra dá o bote.</em><br />
Take 3: <em>e&#8230; sobra.</em><br />
Como?<br />
Take 4: <em>ao sapo não acha.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses&#8230; filmetes prosseguem num momento em que ele – abandonando o campo, já no final do livro &#8211; parte pro que vê nas cidades. “Estiremos” os haicais, e&#8230; cinematograficamente&#8230; montemo-los também:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O povo se atiça em becos, ruas, botecos: clama por justiça. // Nas ruas, na praça, país melhor, mais feliz, reivindica a massa.// O povão audaz protesta e se manifesta sob bombas de gás!// Um estampido alto e seco ecoa no beco. Corpo jaz no asfalto.// O Estado recua diante da voz vibrante do povo na rua.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Atenção: Luz! Câmera! Ação!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Take 1:<em> Árido sertão.O cacto floresce em pacto co’a essência do chão.</em><br />
Take 2: <em>Tragédia anunciada: grotesca seca, dantesca; gente em retirada.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Bem, isto é uma espécie de <em>trailer. </em>Cabe ao leitor, agora, puxar o freio de mão e, em câmera lenta, usufruir &#8211; de um a um &#8211; estes belos achados e centenas de outros. Guerreiro, ao contrário do sertão, é tão generoso quanto muito farto.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>W.J. Solha</em></strong><em> lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora, pela qual também lançou seu segundo poema longo, Marco do Mundo, em 2012, a que se seguiu Esse é o Homem, em 2013. Em 2015, lançou “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” pela Editora Penalux.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética V</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-v-48/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Feb 2017 14:57:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[116ª Leva - 01/2017]]></category>
		<category><![CDATA[Casé Lontra Marques]]></category>
		<category><![CDATA[Enquanto perder for habitar com exatidão]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=13231</guid>

					<description><![CDATA[O denso fluxo poético de Casé Lontra Marques]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Casé Lontra Marques</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/AntPaim.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="450" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/AntPaim.jpg" alt="" class="wp-image-13234" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/AntPaim.jpg 450w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/AntPaim-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/AntPaim-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Antonio Paim</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O calor da nossa falta de hora</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foco na nuca da noite o calor da nossa falta de hora (desejando que a noite seja densa); quase estanco sua seiva — e deixo pingar das gengivas o acidente de uma voz. Os copos que caem, as pedras (ou cidades) que despencam não são mais os meus dentes. E daqui a pouco não sobrará muito o que engolir. Um dia, ouve. Um dia tudo aqui vai flutuar: um dia — será logo — a gente vai flutuar, simplesmente flutuar. Como a criança<br />
que cresce<br />
em mim (como a criança que<br />
cresce<br />
contra mim). Juntando<br />
as mãos<br />
nas amígdalas. Reencontro este limiar — jardim? fronteira? deserto? encruzilhada? — indiferente a qualquer pacificação. E apesar de toda a atrofia: reencontro este limiar (uma elipse; outra elisão) em que o acirramento<br />
da linguagem<br />
deixa marcas fecundas no corpo — deixa marcas (ou ventosas ou queloides ou asas) fundadoras de um corpo. Metalurgia<br />
molecular: o corpo, a mulher que ainda serei<br />
diz<br />
para meus intestinos. O corpo testemunha a nossa inconsistência. Mas não só: o corpo — com seus sonos e suturas,<br />
seus<br />
pombos e praias — eletrifica o tempo quando nos expomos aos signos/sabores/sintomas das contusões (dos desconhecimentos) que não prevenimos<br />
nem<br />
promovemos. Não deflagramos<br />
(não<br />
delimitamos) porém<br />
de<br />
-batemos. Sem domesticar<br />
a desorientação dos povos à volta ou<br />
no<br />
centro do deslumbramento. Do atordoamento por onde a gente distribui — dopa depois distribui — o suor<br />
que<br />
talvez se torne<br />
fala.<br />
Fome e<br />
fala.<br />
Fúria e<br />
fala.<br />
Ou<br />
fenda ou farpa<br />
ou<br />
fagulha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>Nomear os sons na dissolução</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nomear os sons na dissolução<br />
conserva<br />
um pouco das sílabas ofensivamente estendidas</p>



<p class="wp-block-paragraph">ao<br />
espanto</p>



<p class="wp-block-paragraph">inicial?</p>



<p class="wp-block-paragraph">quase esqueço<br />
o<br />
que responder — enquanto nos arrastam —</p>



<p class="wp-block-paragraph">até<br />
o fundo</p>



<p class="wp-block-paragraph">das retinas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">sustentando (pânico após pânico)<br />
a<br />
fabricação da apoteose</p>



<p class="wp-block-paragraph">— minto —</p>



<p class="wp-block-paragraph">da<br />
metamorfose</p>



<p class="wp-block-paragraph">corporal;</p>



<p class="wp-block-paragraph">com<br />
súbito prazer;</p>



<p class="wp-block-paragraph">insisto:</p>



<p class="wp-block-paragraph">assim<br />
que o bulbo — depois de algum silêncio —<br />
mas<br />
antes do acaso;</p>



<p class="wp-block-paragraph">assim<br />
que o bulbo (o bulbo)</p>



<p class="wp-block-paragraph">esfriar</p>



<p class="wp-block-paragraph">no<br />
asfalto:</p>



<p class="wp-block-paragraph">acordaremos — ainda dentro da precariedade —<br />
ao<br />
redor dos poros: outra vez:</p>



<p class="wp-block-paragraph">por<br />
que logo</p>



<p class="wp-block-paragraph">eu tentaria coibir</p>



<p class="wp-block-paragraph">uma<br />
qualquer</p>



<p class="wp-block-paragraph">intrusão?</p>



<p class="wp-block-paragraph">nascemos para a língua:<br />
alertas<br />
ao tempo — sem a exatidão da voz —<br />
contra<br />
essa espessa mudez:</p>



<p class="wp-block-paragraph">nascemos<br />
para o que nos ressuscita</p>



<p class="wp-block-paragraph">— arremessando um rosto —</p>



<p class="wp-block-paragraph">nos<br />
cristais<br />
da<br />
cica</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>Também o apodrecimento incita à insistência</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também o apodrecimento incita à insistência<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span> (por mais<br />
que procure<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>despencar do desalento)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora combalidos, não apodrecemos</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span> sobre<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>os gestos</p>



<p class="wp-block-paragraph">com que perturbamos o tempo —</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>sobre<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>as frases com</p>



<p class="wp-block-paragraph">que<br />
consumimos</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span> o desconhecimento</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span> (as ruidosas<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span> referências convergem</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>para<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>o vértice que expõe</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>a vida<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>ao<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>ventre</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>de nossas vertentes)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>As dobras das mãos</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Terei uma única vertigem: um nome — desde o nervo — gravado na nuca, um nome formado por imagens colhidas ao largo de um ossuário (de vozes em que avultam vidas vociferantes): a paisagem que progride por horas íngremes: quando dorme — sem idade — os dias ardem sobre seu dorso como cristais de sal; adiante, o declive: chama-se o verão (provoca-se o exílio) com sons (entre ganidos) que o ladeiam — da mesma maneira que se ladeia um crânio — receando seu cerne: chama-se — o verão, chama-se o que desvia o curso do pulso: arquejante: deita onde há trauma, onde há tumulto — contamina a camisa, a água, a manhã, a palavra arrastada pela raiz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">tudo<br />
quanto devemos</p>



<p class="wp-block-paragraph">fazer<br />
desaparecer: (pulsando):</p>



<p class="wp-block-paragraph">dias<br />
de cinzas</p>



<p class="wp-block-paragraph">na<br />
saliva?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Terei o crivo, a clave, o claustro de uma última crueldade: conservarei — por não saber controlar — a cratera, o cancro; conservarei o cancro no pulmão desta última crueldade: no pulmão — até então inesperado: porque, no nervo deste cancro, o diafragma expande suas malhas, seus planos, mastigando a cartilagem, a areia, a gangrena, a engrenagem de uma carne cáustica, até fermentar — nas ogivas das gengivas — um liame de misérias (cujas contorções obedecem, apesar da exaustão, a um programa de insuficiências que sustentam o sobreaviso, sem provocar, no entanto, sequer um princípio de precaução):</p>



<p class="wp-block-paragraph">tudo<br />
branco sísmico</p>



<p class="wp-block-paragraph">espanto</p>



<p class="wp-block-paragraph">(renascer): pulsando:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ogivas<br />
de<br />
dias</p>



<p class="wp-block-paragraph">entre</p>



<p class="wp-block-paragraph">mímicas</p>



<p class="wp-block-paragraph">não</p>



<p class="wp-block-paragraph">emitidas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Debruça a cabeça pacificada. Entrega os nódulos de magma incrustados entre as dobras das mãos cansadas de edificar armas com destroços de casas; entrega — junto com os nódulos de magma, junto com um embrulho de mãos calcinadas — a vigília coberta por camadas de cantos inúteis, de imagens engessadas, de ritmos diluídos, de falas despedaçadas)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Se a língua aprovasse</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
Se a língua aprovasse<br />
apenas</p>



<p class="wp-block-paragraph">os prazeres do desastre: o paladar</p>



<p class="wp-block-paragraph">passaria<br />
sem este esquivo</p>



<p class="wp-block-paragraph">horizonte</p>



<p class="wp-block-paragraph">— entre<br />
vivido — no alvo</p>



<p class="wp-block-paragraph">(compacto)</p>



<p class="wp-block-paragraph">da<br />
voracidade</p>



<p class="wp-block-paragraph">(como um</p>



<p class="wp-block-paragraph">aço</p>



<p class="wp-block-paragraph">no cio</p>



<p class="wp-block-paragraph">do</p>



<p class="wp-block-paragraph">ácido).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Casé Lontra Marques</em></strong><em> nasceu em 1985. Mora em Vitória, Espírito Santo. Publicou “Enquanto perder for habitar com exatidão” (2014), “Saber o sol do esquecimento” (2010) e “Mares inacabados” (2008), entre outros.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-50/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Feb 2017 14:08:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[116ª Leva - 01/2017]]></category>
		<category><![CDATA[Caio Russo]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Diário]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=13217</guid>

					<description><![CDATA[O novíssimo arremate da prosa cotidiana e poética de Caio Russo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Caio Russo</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/AtPaim-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="450" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/AtPaim-1.jpg" alt="" class="wp-image-13220" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/AtPaim-1.jpg 450w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/AtPaim-1-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/AtPaim-1-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Antonio Paim</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Diário</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">6h07 e o calor da manhã sorri irônico da tarde que virá tostada numa frigideira de asfalto.<br />
Essa completa ausência de brisa fotografa o que poderia ser um álbum familiar da década de 30, pai sentado, mãe empertigada com a mão sobre o ombro do patriarca, três filhos em pé ao redor aguardando nervosos o estrondo e o cheiro de pólvora da câmera primitiva que lascará uma parte de suas almas infantis, exatamente como confidenciou o tio Sérgio entre sussurros no almoço passado, quando soube do retrato parental.<br />
ental.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">6h22, daqui três minutos o Sr. Maurício do pet-shop destrancará a porta da frente e sairá para comprar o pão matinal.<br />
Não, ele não se atrasa, é neurótico como eu, o hábito funciona, é a batida sintomática de uma estaca, a parte final do longa metragem em que o casal acaba junto, mas se separam assim que termina os 96 minutos de filme, tenho certeza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">6h26, é provável que o Sr. Maurício do pet-shop tenha tido um enfarte enquanto descia as escadas, talvez esteja agora mesmo agonizando numa tentativa ridícula de chamar a esposa que só acorda às 10h04 por conta dos 6 mg de rivotril.<br />
Posso ver daqui aquela mão estufada, dedos cilíndricos usando os últimos minutos de uma medíocre existência para abrir a maçaneta do portão da garagem e o suor faz deslizar, deslizar, e os nervos frágeis não permitem que a mão feche, segure, mantenha.<br />
Quem sabe não está arrependido, “por que não cortei a gordura da picanha?” “por que a cerveja todo dia e não só nos finais de semana?” “arroz na banha de porco”.<br />
Foi tarde, é sempre tarde para soltar a mordaça do cotidiano, gritar o próprio nome não escolhido nunca.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">6h40 e é o tédio.<br />
Não, Baudelaire e seus párias não sabem o que é o tédio, só conheceram a melancolia. O tédio foi anunciado no XIX, mas demorou 153 anos para ser parido.<br />
A maioria é preguiçosa e só.<br />
Nem melancólica, nem entediada.<br />
Tédio? É preguiça fermentada, envelhecida em barril de carvalho, ausência de ausências, o verdadeiro contentamento imóvel, homens</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">6h45, olha lá, é o Sr. Maurício do pet-shop, atrasado para o pão matinal. Hoje o dia começou incomum, fora de esquadro.<br />
Esse tom sépia da tua pele não engana, são os ventrículos pedindo ajuda, a icterícia do fígado estampada no andar desritmado.<br />
feito pedras por debaixo de lagos pausados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">7h00, não foi hoje, mas tudo bem.<br />
Eu aguardo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Caio Russo</em></strong><em> é escritor, melômano, estranho como as imagens num desenho de Alfred Kubin. Autor dos livros “Delicado desespero de beija-flor em voo” (Chiado, 2015), “Vaga queda” (Benfazeja, 2016). &nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-i-51/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Feb 2017 14:48:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[116ª Leva - 01/2017]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[palavras Ressentidas]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Revista Berro]]></category>
		<category><![CDATA[Vanessa Dourado]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=13202</guid>

					<description><![CDATA[O atalho ímpar da poesia de Vanessa Dourado]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Vanessa Dourado</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Atpaim-int.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="450" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Atpaim-int.jpg" alt="" class="wp-image-13213" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Atpaim-int.jpg 450w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Atpaim-int-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2017/02/Atpaim-int-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Antonio Paim</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>GENTES</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">retiro a carne deste corpo<br />
que de corpo<br />
sequer corpo é<br />
e exponho ossos<br />
sobre este rosto<br />
que reluz a máscara<br />
que eu nunca quis,<br />
que eu nunca aceitei usar</p>



<p class="wp-block-paragraph">não são maus os homens que roubam<br />
nem as mulheres que choram<br />
pelas esquinas da fome<br />
pelas ruas do hoje<br />
não cabe<br />
sua vontade de ser gente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>CORPOS ABERTOS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abrem<br />
Lapsos sem regras<br />
Vívidos tatos<br />
Pupilas dilatadas</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dilatam<br />
Grampos em pernas<br />
Límpidos bálsamos<br />
Mãos entrelaçadas</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entrelaçam<br />
Bocas servas<br />
Segundos grávidos<br />
De prazer sem calma</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mundos recíprocos<br />
Lascivas mostras<br />
De corpos abertos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>VOCÊ MEIO FIM</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">e lá<br />
quando chego<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;. ..</span>no meio<br />
de você</p>



<p class="wp-block-paragraph">e aqui<br />
quando logo<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;. ..</span>no fim<br />
de mim</p>



<p class="wp-block-paragraph">chega logo<br />
aqui e lá<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span>no meio e<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>no fim<br />
de você em mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>CHÃO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desterritorializo<br />
O liso mundo<br />
não me serve</p>



<p class="wp-block-paragraph">Absinto de si<br />
Coágulos de outros</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alquimia delirante<br />
Religião sem hão</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo é</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sondo limites<br />
Embriago o mundo<br />
Chão é sempre chão<br />
Os pés têm memória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>LIBERTUS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
Não amarrarei<br />
uma fita colorida<br />
ao rabo do gato<br />
Ser livre,<br />
liberto,<br />
libertino<br />
Dói<br />
Nem sempre<br />
é lindo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>UM DESTINO É POUCO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca tive morte tranquila<br />
todas elas foram desesperadas.<br />
Um tiro de desilusão no meio do peito,<br />
uma facada de solidão no fundo da alma.<br />
Vi as tripas da minha tristeza por tantas vezes<br />
que perdi as contas.<br />
O afogamento é sempre o mais comum,<br />
o gosto do sal desidrata.<br />
O encontro com o chão da realidade<br />
depois de mergulhar no amor do trigésimo andar,<br />
levantar com as costelas da esperança quebradas.<br />
Nunca foi fácil.<br />
Eu sigo morrendo,<br />
sou o pior dos vasos<br />
porque ressuscito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<br />
<strong>PANTERA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lampejos de vida sem frio<br />
Sem freio<br />
Veias abertas no seio da fera<br />
Feitas a ferro<br />
Olhos fundos e sem beleza<br />
Profundas brutezas<br />
Corpos sobre a mesa<br />
Servidos à francesa<br />
Tiro único e certeiro<br />
No meio do peito<br />
Prova não ser passageiro<br />
Ainda que sem leito<br />
Cobre-se de miudezas<br />
Enche-se de sutilezas<br />
Dança sem presteza<br />
Morre sem nascer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Vanessa Dourado</strong>&nbsp;<em>é escritora e feminista latino-americana. É autora do livro</em>&nbsp;“<em>Palavras ressentidas” – Editora Giostri, 2015</em> &#8211; <em>e colaboradora na Revista Berro, vive em Buenos Aires. </em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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	</channel>
</rss>
