À frente de um projeto editorial, como é o caso da Diversos Afins, não há nada que nos estimule mais do que a continuidade dos caminhos. E é realmente uma renovação que, por estar inserida numa condução marcantemente cotidiana, acaba por nortear sempre o desejo pela descoberta do novo. Quando falamos em novidade, pensamos muito mais numa noção de abarcar eventuais aproximações que se configuram de modo natural numa jornada como a nossa, e não numa busca forçosa pelo inusitado. De fato, o que a experiência tem nos revelado é que ideias e colaboradores surgem em nosso caminho como consequência de um fluxo autônomo de movimentações. Significa dizer que, para além das rotas que projetamos alcançar, marcadas essencialmente por intenções de busca e pesquisa, existe um fator que permanece imensurável: o interesse crescente de pessoas no que se refere a integrar nosso painel de diversidades. Nesses pouco mais de 10 anos de trajetória, a revista vem construindo um largo espaço de convivências, o qual é marcado fundamentalmente pela convergência de perspectivas criativas. Palavras e imagens pavimentam as vias editoriais trilhadas até aqui através dos diálogos, do entrecruzar de olhares e estilos. O resultado é um universo no qual trafegam identidades e representações as mais distintas possíveis. Nada é uniforme, pois sempre há uma voz que nos conclama a olhar para uma direção raramente pensada. Do mesmo modo, não precisamos fazer uso das vestes da vanguarda para justificar toda e qualquer investida que se pretenda realmente nova. Nunca é demais lembrar que tudo sempre esteve no mundo e que a construção de sentidos também pode passar pelo crivo da subjetividade. Então, quem seriam os sujeitos que por ora compartilham seus mundos conosco? A Leva 117 apresenta alguns valiosos nomes. Nas searas poéticas de agora, vemos Vinícius Mahier, Rita Santana, Nayara Fernandes, Diego Vinhas e Mariana Basílio desfilarem seus versos entre nós. Numa entrevista concedida a Floriano Martins, a fotógrafa e poeta Leila Ferraz divide conosco um pouco das suas impressões sobre suas experiências imagéticas. É através da cuidadosa análise de Vivian Pizzinga que tomamos ciência dos caminhos propostos pelo espetáculo teatral “Redemunho”, baseado na obra de Ronaldo Correia de Brito. Quando o assunto é prosa, os contos de Izabela Leal, Tatiana Faia e Matheus Arcaro ocupam um especial lugar no contexto de narrativas de vida. São de Bianca Lana os desenhos, pinturas e ilustrações que perpassam todos os recantos desta edição. No quesito cinema, Guilherme Preger traz à tona uma série de reflexões em torno de “A Garota Desconhecida”, novo filme dos irmãos Dardenne. Alexandra Vieira de Almeida aborda a importância de se ler o mais recente livro de ensaios de Igor Fagundes. “Canções para depois do ódio”, mais novo disco de Marcelo Yuka, é objeto das escutas de Fabrício Brandão. Com o estímulo permanente de seguir adiante, caro leitor, convidamos você a descortinar mais uma etapa de publicações.
Tinha tão pouca energia que pensei até em apanhar o autocarro para percorrer a ridícula distância de seiscentos metros entre o posto de saúde e a farmácia. A farmácia ocupa boa parte de um quarteirão e vende tudo e mais alguma coisa que ocupe o espectro de produtos e serviços entre os cosméticos, a morfina, e a impressão de fotografias. Enquanto esperava na fila, ela deu-me uma pancadinha no ombro. Por aqui? Estás bem? Explico-lhe que hoje sou uma personagem num filme de Woody Allen, nada está bem e tudo me aflige: uma gripe, um abcesso num dente, uma alergia em redor da boca que me anestesia o queixo. Paramos de falar porque me chamam para ir levantar a receita. Ela desaparece entre as sucessivas estantes de produtos enquanto eu espero e respiro de alívio. Penso de imediato em adoptar o meu subterfúgio típico, desaparecer sem me fazer notar. Entendo ser esta uma das manifestações mais naturais da minha misantropia, com a vantagem de ser ambígua o suficiente para não permitir que o visado alguma vez se sinta inteiramente ofendido. Mas assim que me aproximo da promessa de luz das escadas rolantes, ela emerge sinistramente do quarteirão dos comprimidos de alergias. O que é que se está a passar ao certo contigo, é o que ela quer saber. Exactamente como num filme de Woody Allen, isso eu só vou saber quando a acção chegar ao fim. Tenho dificuldade em explicar isto a pessoas pragmáticas como ela, mas o inteiro significado de certas coisas que tenho vivido tende a levar um longo tempo até acertar contas comigo e o facto de que ultimamente não tenho escrito nada só adensa essa falta de percepção. Claro que o que ela quer saber é o que eu tenho escrito ultimamente e onde tenho publicado e eu vai para um ano e meio que nada, nem uma linha, bem, há os poemas, mas eu nunca consegui arrumar isso muito bem na categoria de escrever, e, de resto, ninguém quer ouvir falar desses textos e é muito raro eu discuti-los com alguém. Enquanto trocamos inanidades eu noto que ela perdeu peso, noto que quando a conheci há dois anos num curso organizado noutro país, quando passámos duas semanas sentadas na mesma sala de aulas e a correr de teatro em teatro e de bar em bar e eu a vi brincar no mar como uma criança, ela não era bem esta pessoa aqui à minha frente. Ela deve estar agora na segunda metade dos vinte, vinte cinco ou vinte seis anos, e temos em comum o termos, entretanto mudado de óculos, noto que na Grécia ela falava inglês com sotaque americano e que aqui fala inglês com sotaque britânico, com um resíduo levíssimo de um sotaque que ninguém poderia associar ao italiano original, enquanto eu, um pouco numa corruptela de algo que Eça escreveu, faço sempre questão de que o meu sotaque se note, mesmo que as inflexões da prosódia do inglês britânico me sejam agora mais do que exaustivamente familiares. Mas o meu objectivo não é confundir-me com a paisagem ou erodir a minha própria estranheza ou tentar camuflar o facto do meu estatuto estrangeiro. Daqui a dez minutos, quando eu e ela nos sentarmos no café, o sotaque dela vai vir ao de cima uma vez e apenas uma vez, ao tentar pronunciar a complicada palavra xenophobia, um desafio prosódico à altura desta mulher despachada e inteligente por quem, não sentindo verdadeiramente simpatia, não consigo deixar de sentir empatia, e não é só por causa do que escreveu Sebald em Emigrantes, que os emigrantes naturalmente se aproximam uns dos outros. Isto para dizer que sigo alimentando as minhas próprias contradições, que depois de começarmos a conversar na farmácia eu não consegui não a convidar para beber um café, apesar da febre e do cansaço. Ela aceita imediatamente a minha proposta com entusiasmo, enquanto penso que é errado estar aqui a ter uma conversa, num dia em que não fui trabalhar por me sentir doente e esta jovem mulher que me é familiar sem nunca deixar de me ser estranha me explica que desde a última vez que falámos se casou, mas que o marido, entretanto voltou para Itália, para entregar a tese de doutoramento e, porque, claro, não conseguia arranjar trabalho aqui. Este café em St. Michael Street há-de ser o mesmo há quarenta anos. Recordo-me de que, ao contrário da amizade que quase de imediato me ligou a algumas pessoas naquele curso, nunca me consegui sentir verdadeiramente próxima dela, e penso que provavelmente nunca nos tornaremos amigas em parte por causa da catástrofe da minha personalidade, em parte porque há nela uma imaturidade profundamente simpática que adensa a minha impaciência, que me deixa ver um pouco do meu próprio desdém, e ao mesmo tempo, da minha resistência, na atenção com que discutimos a actual conjuntura política, a incerteza do futuro, até mesmo o reconhecimento de que há semanas que não me era tão fácil ter uma conversa inteligente com alguém, sem, no entanto, ser capaz de me iludir a mim própria e vir agora aqui apontar cobardemente, diariozinho, que nada disto é da ordem da amizade fraternal, perto do perfeito arquétipo platónico da coisa real, onde está bem vivo o tipo de diálogo pelo qual até a mais estúpida conjuntura política que tem animado este país no último ano se podia corrigir.
Tatiana Faia. Portugal (1986). Vive e trabalha em Oxford. É doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese sobre a Ilíada de Homero (Back Across the Barrier of the Teeth. Studies on Homeric Characters: The Iliad). É autora de dois livros de poemas: Lugano (2011) e teatro de rua (2013). Os seus contos, ensaios, poemas e traduções podem ser lidos, entre outros lugares, em A Sul de Nenhum Norte, Ítaca, Caderno: Enfermaria 6, Modo de Usar & Co., Colóquio/Letras e Relâmpago.
não sei se sei, serei
no fim, talvez, eu seja
concreta o que não sei
sendo, melhor, o que nunca pensei
sem passado passeio nas paisagens das surpresas
sem futuro flutuo nas justaposições dos agoras
às vésperas d’um acontecer
sou tudo o que não foi.
***
Pele, à flor da carne
o vazio
no torso da poesia, o infértil
rubra vastidão de boca surda
rouco vão de olhos mudos –
a pele
à flor da carne do cerne do
excesso
quente doce inacabada
certeza do nada
quente doce inebriado
certame do tudo
um parto rasgado de vício
viço e delírio.
***
Ontens afins
uma vida curta
para dias longos
sonhos selados
para destino sem rédeas
a realidade me atravessa
num tráfego de segundos
sentidos me atropelam
sem defesas nem definições sigo – às cegas
não mais espero respostas
respondo as perguntas que me interrogam
todo o agora me define
todo o depois me duvida
todo o antes me recorda
todo o futuro me esquece
sou ontens afins de hojes infindos.
***
Já não sinto
já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
sou corpo que chama
suo poros em chama
sou inteiro alma queimando
na pele, em toque, o arrepio
na pele, em frio, o calafrio
na pele o fogo – (a)brasa viva
já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
já não sei dizer
o que sou
o que soou
onde estou
o que sobrou
de mim mesmo acabou
acabou de acabar
foi embora pr’um mundo imenso
o mundo intenso da tua alma
um mundo onde imerso emerso em mim
peno sem tua doçura
peno sem tua ternura
te preciso como cura
te preciso como escudo contra meus eus fantasmas
te pertenço inteiro pra me pertencer em parcelas suaves
sem ti não sou comigo
contigo sou inteiro
sem ti sou metade ignorada de mim
contigo meu sentir não mente
sentimento em suma transborda:
bordando em mim o amor que me salva com glória.
***
Pecados líricos
quero-me
embebecer do não sabido
pecados líricos – benditos
verbos versos vícios
ilícitos líquidos explícitos
quero-me
embebecer do não sabido
pecados líricos – benditos
sedes súbitas
securas sólidas
alma insana
que nunca me nega
um verso santo
: milagre de um peito morto
ateu na santidade – atado no amor sacro
que me salva das misérias interiores.
Nayara Fernandes nasceu em Teresina, PI, em setembro de 1988. Tem poemas publicados nas revistas Germina, Alagunas, Mallarmargens, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times e nos sites LiteraturaBR e Livre Opinião – ideias em debate. Participou da coletânea Quebras – uma viagem literária pelo Brasil, lançada em novembro de 2015.
A criança como o estado da criação em Poética na incorporação – Maria Bethânia, José Inácio Vieira de Melo e o Ocidente na encruzilhada de Exu, de Igor Fagundes
Por Alexandra Vieira de Almeida
Igor Fagundes faz do sagrado, em Poética na incorporação (Editora Penalux, 2016), oitavo livro do autor e quarto de ensaio, um caminho para o novo e desconhecido, sem a roupagem velha e puída com a qual se acostumam aqueles que estão presos à tradição mais gasta do pensamento. Traz o olhar da criança, não em sua pura inocência, mas naquilo que ela tem de esperteza, de astúcia e curiosidade pelo fogo do conhecimento na abertura à indagação.
Uma revelação infantil, um erê, na fonte do riso, no rio, é o ponto de partida para a construção poético-filosófica deste livro magistral, que não se quer mais um monumento de saberes a serem seguidos, mas de questões e descobrimentos de novas veredas vivas. A raspagem é o desnudamento de toda nossa tradição cultural, ocidental e oriental, quebrando as dicotomias e trazendo a infância do mítico à lume, à presença, o originário em toda sua força.
O grande mestre poeta Alberto Caieiro já nos revelava este desvestir, este retirar, na violência, no sangue da palavra, o que se tem de mais tradicional em nossa cultura. Igor Fagundes, com todo seu dom pela e na palavra, nos encanta com um canto trazido pela Mãe Oxum. No encontro, nas incorporações entre Exu, Hermes e Cristo, o poeta-filósofo, por aqui estudado, faz da “encruzilhada” um grande trabalho intertextual de confluência entre vários lugares: o grego, o cristão e o africano. Faz da morada do mítico, do filosófico e do poético um trabalho grandioso de esquecimento e memória, sem tomar a água da repetição, porque a incorporar uma nova vida, um pensar nunca antes visto, mas inovado com palavras originárias.
O sagrado, livre dos pré-conceitos da tradição ocidental, perfaz os entrecruzamentos de territórios que poderiam parecer à primeira vista inconciliáveis, mas que pela artimanha arquitetônica da criação de Igor Fagundes, nos leva, com a cantora Maria Bethânia, da Musa à Pombagira, do mar ao sertão baiano. Faz do poeta José Inácio Vieira de Melo um Ulisses que incorpora Exu. O trabalho de incorporações é o diálogo possível que encontramos presente também nos pré-socráticos, sobretudo em Heráclito, que pela “harmonia dos contrários”, torna admirável esta encruzilhada entre tradições distintas, mas próximas pelo olhar agudo de Fagundes.
Nessa “estória”, como o autor mesmo chama, encontramos um trabalho de raspagem, de desnudamento da tradição, para que o novo da criação, da poesia possa nascer. Pois, só abandonando as velhas roupas, o peso, que a leveza do poético pode advir. É intenso o jogo de paralelismos, espelhamentos neste livro original de Igor Fagundes. O livro não segue um sumário tradicional: são versos que alinham as páginas e os capítulos são belíssimos batuques, não só a críticos, mestres e professores homenageados, mas a entidades como Maria Padilha e Exu Tranca-Rua, da tradição afro-brasileira. Em cada capítulo se constrói um mergulho ao universo do Erê, a criança sempre eterna, que caminha para o processo criativo do nosso imaginário, daquilo que incorpora novamente e, sempre presente, se atualiza.
Nas três metamorfoses do espírito, de que falou Nietzsche em Assim falou Zaratustra, seria preciso o ser humano atingir o estado final de criança, paradoxalmente, para que se fizesse a ponte para a liberdade completa. Da fase do camelo, passando-se para a do leão, atinge-se o estágio da criança, quando as cargas pesadas são deixadas de lado até que surjam novos valores. Não valores que venham a servir de modelos, mas valores que os questionam.
A “raspagem” é o retorno a este estágio de infância, onde se busca a liberdade dos paradigmas do mundo adulto e institucionalizado. O erê – a Lagriminha de Ouro da Oxum – surge como apelo ao filósofo-poeta, que, abarcando novos mares, chega ao sertão das criações. Igor Fagundes, a partir de uma vontade de potência, conquista um mundo que é todo seu e que leva o leitor não a respostas prontas, mas às indagações, conforme o universo da criança. A “raspagem” produz seu efeito: o leitor se desnuda de suas antigas vestes conceituais.
Alexandra Vieira de Almeida é escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ).
Há pontos de partida e chegada nesse imenso território chamado vida. No movimento dos decisivos arremates aos quais ousamos, habita um ponto intermediário que nos permite acessar alguns retornos. Não se trata necessariamente de voltar a determinadas origens, algo que poderia remeter a um sentido de nostalgia. Definitivamente, não é isso. A ideia aqui presente é a de que certos recomeços têm muito mais a ver com superações de cenários pretéritos, assinalando, pois, etapas que inauguram novos estágios da consciência em torno de fatos, lugares e pessoas.
Quiçá a nossa passagem aqui pelas bandas terrenas não seja também um exercício constante de estarmos atentos aos sinais de toda natureza. Tudo isso talvez para entendermos quem ou o quê realmente nos tornamos. E fica a pergunta: ainda dá tempo de modificar certas trajetórias?
Ao que parece, a indagação lançada acima faz parte das novas veredas trilhadas pelo músico Marcelo Yuka. De imediato, o nome de batismo de seu novo disco, Canções para depois do ódio, assemelha-se à ponta de um gigantesco iceberg. É, de fato, um título sugestivo, impactante e provocador a nos situar em meio ao mar bravio das procelas humanas. Numa tradução mais ágil, a constatação do quanto se é possível a qualquer pessoa interferir no seu próprio destino.
Canções para depois do ódio é um verdadeiro enxergar além dos domínios mais acostumados. Aposta num porvir perfeitamente enquadrado numa noção de renascimento das pessoas. Como é de costume, não faltam a Marcelo Yuka as ferramentas discursivas capazes de evocar um caminho para as mudanças de rumo. Em todas as suas faixas, o disco promove deslocamentos de tempos e espaços que se harmonizam com a agudez do verbo de seu criador.
É justamente na potência verbal de suas composições que Yuka confere um caráter orgânico ao seu novo trabalho, pois cada uma das 16 canções do álbum aparece integrada a um complexo painel de observações sobre a contemporaneidade e seus laços. Nesse trajeto musical, há um fluxo através do qual nada se dissocia de um conjunto que carrega em si um vigoroso corpo de significados. De um ponto a outro da obra, tudo se encaixa e cada peça desse vasto mosaico de imagens não sabe viver sem o seu correspondente.
Marcelo Yuka em show no Circo Voador / Foto: Daniela Dacorso
Após percorrermos canções como O dia em que o homem se cansa, Por pouco, Myto, Agora nesse momento, A carga, Memórias artesanais e Algo mais explícito, temos uma noção mais apropriada do movimento vivo que está contido no disco. Em cada parte do álbum, restam claras as razões pelas quais Yuka se consolida como um dos letristas mais significativos de seu tempo. Como poucos, sabe transitar com pungência por matizes políticos, filosóficos e afetivos, pondo em evidência o papel desempenhado pela memória.
Um outro grande aspecto do disco são as escolhas vocais. Contando com as valiosas interpretações de artistas como Céu, Black Alien, Cibelle, Barbara Mendes, Seu Jorge, Vicky Lucato, dentre outros, as canções se apresentam com um vigoroso repertório imagético e sonoro. Em boa parte delas, está presente a voz marcante de Bukassa Kabengele, cantor belga de origem congolesa, que integra A Entidade, banda conduzida pelo próprio Marcelo Yuka (voz, programações e sampler) e em cuja formação também traz artistas como Ricô Bassito (baixo e percussão), Bárbara Ferr (voz), Tedy Santana (bateria e percussão) e Muralha (VJ). Tudo isso posto e devidamente mesclado, há na obra uma forte presença de elementos musicais africanos, além de trazer bases eletrônicas.
É perceptível que Canções para depois do ódio é um trabalho motivado por um estado de perplexidade diante de uma nefasta ordem política, econômica e social que insiste em avançar com seus tentáculos ultraconservadores por sobre o mundo. Frise-se: o Brasil de Marcelo Yuka também é parte integrante desse conturbado estado de coisas.
Por mais que carregue em sua história pessoal as marcas dos equívocos humanos, o artista faz questão de aplacar qualquer possibilidade de ira diante das adversidades. No fundo, o que ele nos diz em seu novo rebento musical é que as tensões, ruídos e conflitos podem ser repensados à luz de alguma lucidez e serenidade. É, por assim dizer, uma maneira diferente de conceber o que ainda pode fazer valer nossa existência.
Vislumbrar para além do ódio uma via movida pelo otimismo não é uma construção nem um pouco fácil de se apreender ou praticar. Tal exercício pode assumir uma ressonância utópica. No Marcelo Yuka de hoje, os caminhos da mente e do coração fluem com mais leveza, evidenciando que o amor, no seu sentido mais largo possível, não é balizado por vãs expectativas de aceitação.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
da mesma matéria
de que são feitos
os domingos
– tédio e vapor em pedra-sabão –
compunha-se a espera
num gesto mais
branco
***
DE UM CALENDÁRIO
as coisas, depois, têm o tamanho da bagagem.
cada um sabe o peso das alças, a medida do que
escorre. e comungam, além do instante e das
coordenadas, a dose de um tédio que rumina e
aprende a doer,
depois.
primeiro, as coisas morrem.
***
BENFICA
das guerras que sempre respiram
em algum lugar do mundo,
pousa aqui este
atrito
contra a tarde pronta para
esmurrar meu abraço
na lembrança de você dizendo caminhar
por uma cidade
desconhecida é tomar a vida
de alguém,
emprestada,
contra a luz (e seu monólogo,
esta milonga), esta
bela infelicidade a jogar
ligue-os-pontos
com cumeeiras, árvores
e sombras do bairro
unidas sem voz
como em uma
língua
de estátuas
***
NADIR
uma vez no terraço do plano mais erguido
(céu e teto justapostos)…. da graça
você desce um degrau
até a próxima nuvem, e sem que perceba …………………..o chão se aproxima
a viagem vertical
….corta o arranha-céu ….atravessa o solo ….no eixo negativo ….do inframundo
sonho abaixo
em
mácula anátema opróbrio vendeta
doença vileza repulsa infâmia
fel ira joio malícia dissenso
flagelo mania engulho falência
e quando não for mais possível
— baque seco —
significa que você chegou.
este é o grau zero da queda.
agora comece a cavar.
***
BABEL
dentro da pós-verdade
rostos geminados
sorriem (saliva e
peçonha
) apontando a culpa da vítima
a culpa pós-
morte
cozida por indicadores em riste
na longa noite
dos amoladores de facas.
dentro da pós-verdade ainda
o pós-trabalho: a rês livre
para os negócios
(as cláusulas e caminhos
do abate).
agora pós-tudo
a legião de pais da velha família
vomita em novilíngua
a redução de um país
ao plural de pó
***
MINHA SOMBRA E EU
1. tropeçamos muito – isso
não é engraçado.
2. gostaríamos de menos luz
ou nenhuma:
ela também precisa dormir.
3. desconfiamos de romances
de formação ou do fim
da História, mas estamos
esgotados
demais para debater.
4. adoramos, sem razão
aparente,
bancas de revistas
padarias
e aeroportos.
5. ouvimos nossa tradução
simultânea
mesmo que entre o
vão das vozes algo
escape para nunca
mais.
6. preferíamos afastar a
intimidade forçada (creio
que a ela incomode
que meus gestos sejam
sempre
spoilers dos seus).
7. continuamos sós.
8. também não sabemos
bem
o que fazer
com os nossos mortos.
Diego Vinhas nasceu em Fortaleza/CE em 1980. Publicou os livros de poemas “Primeiro as Coisas Morrem” (2004) e “Nenhum Nome onde Morar” (2014), ambos pela editora 7 Letras (RJ). Coeditou a revista de poesia GAZUA e organizou a antologia “Meio-dia: alguna poesia de Fortaleza”, publicada em edição bilíngue pela editora VOX, de Bahía Blanca (Argentina). Participou de diversas antologias no Brasil, EUA e Portugal.
A sensorialidade da literatura de Ronaldo Correia de Brito na peça Redemunho
Por Vivian Pizzinga
Foto: Silvana Marques
Faca. Este é o nome do belíssimo livro de contos de Ronaldo Correia de Brito, lançado em 2003, e que deu origem ao espetáculo Redemunho, com direção de Anderson Aragón, que esteve em cartaz recentemente na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro. Quatro contos do livro são transpostos para a linguagem dos palcos, com uma dramaturgia carregada de lirismo e que aproveita muito do texto bem cerzido por seu autor.
Os contos escolhidos para compor Redemunho são A escolha, CíceraCandóia, Redemunho e Mentira de Amor, nessa ordem. Apesar de apenas o primeiro carregar explicitamente em seu título a temática da escolha, ela permeia os quatro contos encenados, evidenciando que a decisão que reside por trás de cada ato de escolher tem muito menos liberdade do que pode parecer a olhos menos atentos.
No primeiro conto, uma mulher deve escolher o homem ao lado do qual levará a vida, o que significa oscilar entre o martírio de sustentar até o final um relacionamento violento, mas legitimado pela sociedade e pela família, e o amor suave e acolhedor que, no entanto, não encontra legitimação alguma; mas a escolha é também entre a paixão irracional e a tranquilidade de um sentimento apaziguador. No segundo, uma filha deverá escolher entre ficar e ir embora, resignar-se a um destino moroso, engessado e amargurado, sem perspectivas, ou a culpa insuportável de deixar para trás a obrigação moral com a mãe e sua incapacidade de se cuidar sozinha. No terceiro conto, a escolha envolve segredos familiares e reside em continuar deixando-se enganar ou enfim desenterrar a verdade, no sentido literal do verbo aqui usado. Finalmente, no quarto conto, o mais delicado e poético de todos, o que temos é a escolha de uma mãe de família entre colocar-se em risco em busca da liberdade ou, novamente, resignar-se a um destino isolado e sem vida. Os laços de afeto que unem os personagens e suas (não-) escolhas de vida é o que dá o tom de cada um dos enredos, com suas esposas e maridos, mães e filhas, filhos e mães, abandonos e traições. Três atores em cena, Ana Carbatti, Claudia Ventura e Alexandre Dantas, dão vida a esses personagens curtidos pelo sol, pelo estio e pelo esquecimento do sertão do Ceará.
É preciso, antes de tudo, apontar os perigos da empreitada de Redemunho, que não se configura como adaptação. A transposição de linguagens não é tarefa fácil, e aí já se pode encontrar um elemento de complexidade do espetáculo, sobretudo em se tratando de um texto bem trabalhado como é o de Faca: o desafio exige um cuidado para que não se percam as características de cada um dos tipos de linguagem, sem, no entanto, desrespeitar o que se pode chamar, na falta de palavra melhor, de natureza de cada um deles. A literatura permite a imaginação livre e solta do leitor a partir da habilidade do escritor de tecer um texto imagético que guia o enredo e que cria personagens com o poder de cativar quem os acompanha. O teatro, por outro lado, oferece suporte imagético através da dramaturgia que constrói, ou seja: as cenas, os gestos e os personagens já estão lá e têm cara, cor e forma, mas essa oferta deixa, ainda assim, brechas para a mesma imaginação do espectador, que, a partir de recursos criativos e cênicos muitas vezes inesperados (e simples, no melhor sentido do termo), também deve ser capaz de imaginar objetos, personagens e acontecimentos que não estão lá.
Foto: Silvana Marques
Para citar alguns pequenos exemplos no espetáculo em questão, o ruído de grãos de areia levemente salpicados pelo chão do cenário remetem à chuva que cai insistente; uma cadeira trançada de palha faz as vezes de venezianas através das quais se pode espiar o mundo que teima em acontecer lá fora, separado do cárcere que só oferece sons para os prisioneiros em cativeiro; pedras dependuradas em um canto do cenário evocam a floresta, o quintal, a moita e o ambiente exterior em cada um dos contos dramatizados; um banco redondo assume a função de piano.
Fato é que Redemunho, espetáculo composto com um cuidado que salta aos olhos, ficando à altura do cuidado presente no texto literário de Ronaldo Correia de Brito, caminha, ainda assim, na fronteira tensa entre o que poderia ser uma peça atordoante, difícil de acompanhar, e o que pode ser uma peça primorosa, em termos de lirismo expresso em todos os elementos que compõem um espetáculo teatral. Sorte a do espectador, pois a bamba caminhada na fronteira perigosa não resvala para o atordoamento. Mas Redemunho não é uma peça fácil, exigindo uma oscilação entre a máxima atenção da plateia e o deixar-se levar por algo que se assemelha à atenção flutuante freudiana, meio através do qual o psicanalista não se prende a cada detalhe do conteúdo trazido por seu analisando, deixando-se, ao contrário, à deriva para captar aquilo que realmente importa, aquilo que merece ser pontuado e que fará diferença no processo (e, neste caso, na analogia aqui proposta, sem prejuízo da fruição estética que a peça permite). Digo isso porque o texto de Ronaldo Correia de Brito avança por metáforas e descrições prenhes de sensorialidade. “Sono abandonado de macho” e “sítios de desejo e terror” são alguns dos inúmeros exemplos em que o lirismo une sensação e imaginação: impossível não entender de imediato o que é um sono abandonado de macho, percepção, curiosamente, mais feminina do que masculina, sendo esta uma expressão que faz sentido prontamente, que coloca em palavras aquilo que sempre entendemos como tal, mesmo que nunca tivéssemos nos apercebido da ideia. Mas algumas outras expressões, quando aparecem em texto impresso, permitem a releitura para uma melhor fruição ou um melhor entendimento. Ao ganhar roupagens dramatúrgicas, contudo, a literatura de Faca acaba concorrendo com o movimento dos atores pelo palco, a musicalidade que permeia a vida monótona dos personagens, a iluminação e o cenário que situam em terras firmes personagens antes imaginados. E é exatamente o concatenar de todas essas informações (e a impossibilidade da releitura de uma cena que está sendo encenada agora) o que pode causar certo atordoamento, que não chega a acontecer, mas que está à espreita; há, porém, uma exigência de trabalho e talvez uma demora para o espectador se encontrar no texto encenado. Nada, entretanto, que impeça o inegável enlevo estético que o espetáculo proporciona.
Redemunho, para não ser atordoante e fazer jus à beleza do texto do qual faz parte, conta com uma cenografia, assinada por Doris Rollemberg, que prima pela discrição sem abrir mão de delicados detalhes. Os figurinos de Flávio Souza seguem a mesma lógica, compondo com o cenário. Em ambos, temos a prevalência de tons pastéis, mas encontramos pequenos bordados e retalhos coloridos, linhas vermelhas entrelaçadas nas cadeiras, no chão e nas roupas. Essas minúcias fazem todo o sentido. Tanto para não mergulhar o espetáculo em excesso de informação, como também servindo de paralelo formal com o conteúdo das quatro histórias, cujo fio condutor é o vínculo asfixiante e desgastante entre personagens presos à própria sorte e uns aos outros, presos num destino que não sabem muito bem se construíram ou se foram por ele determinados. Há uma vida de rotina claustrofóbica e poucas opções de saída, labirinto que roda e roda e roda em torno de um cerne mofado. Todavia, as brechas de paixão que mal podem ser contidas estão lá. Existem, e é possível alargá-las ou ignorá-las. São brechas tão pequenas quanto os fios coloridos aqui e ali no vestuário dos atores. É o caso da mulher enclausurada com as filhas na própria casa, aprisionada pelo marido que detém a chave guardada sempre em um bolso sem fim, figura ameaçadora que aparta a mulher do mundo, casal que é terreno deserto de diálogos. Malgrado tamanha resignação, a mulher não se impede de usufruir lampejos de vida e desejo (tais quais os fios coloridos entrelaçados nas cadeiras de palha do cenário), quando acompanha a vida da cidade através dos ruídos que vêm de fora, até a chegada do circo.
Foto: Silvana Marques
A direção de Anderson Aragón consegue intercalar os contos de modo harmonioso e retomá-los ao final, aproveitando o clímax que vem aos poucos e rompendo com a linearidade sugerida à primeira vista. Mas ouso apontar que talvez essa não tenha sido a melhor ordem dos contos. A escolha, que, dos quatro contos selecionados, é o mais complexo, poderia não ter sido o primeiro. Isso porque é preciso contar com o fato aqui já mencionado de que, pela complexidade do texto literário em pauta e pela aproximação formal com a leitura dramatizada, a plateia talvez demore a se situar, e quem sabe um conto “mais fácil”, que permita a entrada mais imediata do espectador na proposta do espetáculo, funcione melhor.
Já a direção musical de Aldredo Del-Penho consegue introduzir a musicalidade ausente no texto literário (musicalidade apenas evocada), e são belas as músicas escolhidas. Entretanto, em alguns momentos, dificultam o acompanhamento do texto, o que pode prejudicar a compreensão da história. Menos música talvez fosse uma boa opção.
E, finalmente, os atores, fantásticos, que conseguem carregar de emoção e vida o drama de cada um dos personagens. Destaque para Ana Carbatti e Claudia Ventura, cujas vozes e entonações parecem modular exatamente as emoções vividas e contidas, os ressentimentos envelhecidos, comunicando quase que de modo imediato o interior devastado de seus personagens aos espectadores.
Redemunho trata disso: emoções e ressentimentos que tomaram idade, destinos aprisionados, vidas sem saída, obrigações morais aniquiladoras, tiranias disfarçadas de boas intenções, vínculos de amor e ódio, sangue derramado em tormentas familiares sem sentido. Trata de segredos prontos a serem revelados, de esperas insuportáveis. É a paixão estancada em um quotidiano tedioso, no qual as poucas opções de fuga e rompimento são escassas e tão discretas quanto os fios coloridos dos figurinos dos atores.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
Cláudio chega arrastando os olhos pelo chão. Sequer quando abre a porta do restaurante eles se opõem à gravidade. Carrega sobre as pálpebras anos de frustração. Na língua, as palavras deitadas pela covardia conferem um sabor sórdido às possibilidades não cultivadas. Por que demorei tanto? Ele precisa de uma resposta para alvejar a boca. Porém, as respostas claras não existem na natureza, são construídas por mentes que necessitam de algo estável. O acre da boca se intensifica quando pensa que a estabilidade da ponte entre Clarice e ele era apenas aparente. Por não atravessá-la com frequência, só via a regularidade do pavimento; não percebia a estrutura se corroendo sob os gestos e sorrisos complacentes.
Os primeiros tempos de casamento não deixaram a expectativa acima dos fatos. Mas não demorou muito, as cores começaram a desbotar e, quando ele tentou colorir o relacionamento, faltaram-lhe os dotes de artista. Fez um borrão que foi se extenuando até restar uma camada praticamente imperceptível que, de certo modo, sustentou o laço fraterno entre eles. Era avesso a traições, respeitava Clarice. E estava seguro da reciprocidade desse sentimento. Só não foi capaz de sentir que para o amor sobreviver é preciso uma dose mínima de desrespeito.
Quinta-feira, como se cumprisse uma obrigação herdada, ele estava sobre a esposa. Copiaria os mesmos movimentos das semanas anteriores se não sentisse o peito umedecer e ouvisse a voz entrecortada, o que estamos fazendo, Cláudio? Ele também começou a chorar. Os dois rostos se colaram e misturaram-se as lágrimas de anos. Na manhã seguinte, ele não acordou em sua cama. Antes de sair, insistiu para que se encontrassem dali a uma semana, onde tudo começou. Com um gesto emprestado, Clarice moveu lentamente a cabeça para cima e para baixo.
Cláudio sabe onde a esposa está sentada. No entanto não é por isso que não ergue os olhos; é porque sente medo de vê-la segura, asco de encontrá-la sustentada por si. Em verdade, sente-se como o suicida minutos antes de apertar o gatilho. A iminência da perda, mesmo daquilo que ele acredita abdicar, faz transbordar no peito uma sensação escura, espalhando o instinto de conservação por todo o organismo: as mãos estão molhadas, a boca seca, as orelhas quentes e os calafrios sobem e descem pela coluna.
Quando, enfim, levanta a cabeça, as narinas se expandem. Com o vestido florido, Clarice parece costurada ao ambiente, criação de um artífice desatento que colocara naquele salão sombrio uma escultura delicada. Os olhos dela escondem-se e mostram-se conforme o vento tira para dançar a mecha de cabelos cor de mel. A pele branca, que não se curvou ao tempo, exala maciez e um sabor de futuro chega aos lábios do homem. Clarice não parece a mulher que na semana anterior repugnara-o na cama, mas a menina que estivera sentada ali dezessete anos antes.
Talvez por isso as pernas de Cláudio não se entendam entre si. Há somente cinco mesas ocupadas, contudo é como se o restaurante estivesse cheio de olhos voltados para ele. O homem não está preparado para conversar com uma menina, muito menos com a sua menina.
A cada passo, Cláudio tenta pinçar os fatos que poderiam salvar o relacionamento; refaz o percurso até chegar à tarde de primavera em que vira Clarice pela primeira vez, naquela mesma mesa. Mas não consegue preencher os pensamentos e o vazio é invadido por um homem que acaricia as mãos da sua esposa. Um homem que olha nos olhos dela e para quem Clarice consegue sorrir com algo mais do que a boca. Cláudio agita as mãos como a criança que se recusa a compartilhar o brinquedo que desaprendera a usar. Clarice é minha. Só minha, ouviu bem?
A ideia da esposa com outro o carrega para o banheiro. O que devo dizer? O discurso ensaiado não parece verossímil. Molha a testa como se pudesse inchar os pensamentos com persuasão, entretanto, diferentemente dos seus anseios, a água traz a imagem de um velho nu, deitado em posição fetal no centro da cama redonda. Só há a cama branca no quarto enorme. Ele invoca o nome de Clarice, atravessa as madrugadas por gritá-la até as costelas engolirem o abdômen, mas só ouve o eco da própria voz. Entra no banheiro um senhor que cumprimenta Cláudio com um movimento de cabeça. Ele retribui o sinal. O velho começa a gesticular, emitir grunhidos e apontar para a saída. Cláudio se desespera, foge do mudo e encosta sem ar na porta. Porém, não pode escapar da certeza de que nada do que falar para Clarice mudará o que está decidido. Uma decisão que vem sendo enrijecida ao longo dos últimos anos e que palavra alguma terá o poder de perfurar. É tarde demais: a aproximação da verdade traz o negrume aos seus olhos.
Como se chegasse ao matadouro, Cláudio se aproxima da mesa. Adormecida dentro de si, Clarice continua girando o canudo enfiado no suco de morango não sorvido, mesmo enquanto ele se senta. Um silêncio rígido perdura por longos segundos até que ele pede uma cerveja ao garçom, que prontamente o atende. A cerveja desce agarrada à garganta como se não quisesse fazer parte daquele corpo vencido. Os olhos de Cláudio percorrem o restaurante: o que vê não se assemelha ao conteúdo entalhado na memória. Tudo agora é áspero demais, esnobe demais. Ele, então, fixa a vista em Clarice como se desejasse prender aquele instante na superfície dos olhos, ciente que nunca mais ele seria seu. Procura em si palavras não nascidas, revira o vocabulário, mas nada de substancial desce à língua.
– As paredes não eram assim tão escuras…
– Acho que não.
Trocam ainda umas frases sem tonalidade. Cláudio se dá conta do que Clarice sabia antes de se sentar ali: as palavras são desnecessárias nos velórios. Ainda mais nos velórios tardios.
***
Condenado à liberdade
“Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.”
(Clarice Lispector, A paixão segundo GH)
Estou aqui há oito dias e alguns meses. Quantos meses? Não sei ao certo. Até a semana passada o calendário não passava de mais uma invenção vencida. O que sei é que estou nesta cela há tempo insuficiente. Está me ouvindo, Pagu? Parece mais peluda hoje, as patas maiores. Patas peludas e firmes, feitas para caminhar pelo teto, de onde você me vê como sou e não como parecia ser. Antes de me atirarem neste cubículo eu estava pronto, homem modelar. Sabia o que tinha que fazer. E fazia. E refazia. Usava o livre-arbítrio para alcançar a verdade que esperavam de um homem alto, 38 anos, cabelos grisalhos, chefe de família, empresário. Eu era. Até me enfiarem aqui. Só que eles se enganaram, Pagu. Todos eles. Ao me isolarem na solitária, não me privaram da liberdade. Privaram-me do que acreditam ser a liberdade, no que igualmente eu acreditava. Mas foi só aqui que conheci a verdadeira face da liberdade meses atrás: a chuva lavava os telhados; embora a cela estivesse tomada pelo hálito da penumbra, da minha cama vi a gota reluzindo no teto: as lágrimas começaram a desabrochar da alta fenda e despedaçaram-se no chão. Comecei também a chorar. Não somente porque fora educado a repetir, desta vez era diferente. O pranto, sem o soluço da dor, acordou o sorriso que há tempos não visitava meu rosto. A goteira ficou espessa, eu precisava entrar naquela torrente. Arranquei o macacão encardido, as meias, a cueca e corri para misturar minhas lágrimas com as do teto. E da água, antes translúcida, brotou uma espécie de corrente, mas cujo desenho, já não mais aquoso, foi aos poucos tomando a forma de… uma mulher! E como era maravilhosa. Linda o suficiente para um encantamento que me afogou numa emoção sem precedentes. Uma mulher de olhos ruivos. Quem é você? Sem dizer uma palavra, ela puxou minha pele, que facilmente se descolou da carne, feito estas paredes que você conhece tão bem. Depois, os músculos e os órgãos dissolveram-se com seu sopro: em instantes, eu era duas retinas suspensas e um coração pululando. Você não viu isso, não é mesmo? Acho que sequer era nascida. Pela primeira vez na vida eu era imperfeito. Incompleto. A partir deste banho, virei o avesso de Deus, um ser ébrio e imberbe, sem natureza (nem divina, nem humana), que não passa de criação! Lá fora, eu fora criado, avental e touca, servindo diariamente pedaços da minha vida ao destino. Ele comia, se lambuzava e, quando se dava por satisfeito, atirava os restos dentro de moldes construídos pelos Guardiões da Esperança. Só que aqui, Pagu, neste retângulo de seis metros quadrados, aprendi, como você, a arrancar do meu peito o fio sobre o qual eu passeio sem sair de mim. Mas terei que sair daqui a pouco. É o que diz na carta que o carcereiro me entregou semana passada. Envelope ocre, papel timbrado com as iniciais do doutor que conhece as vísceras da lei: “Ilmo. senhor Pedro, o pedido de soltura foi deferido; o senhor sairá em oito dias”. Eu contratei esse advogado? Para quê? Sua eficiência arremessou meu avesso à boca do desespero: à medida que os novos dias engoliam os velhos, o temor escorria do peito aos membros: as pernas estrangeiras do corpo, os braços rigidamente esticados ao longo do tronco. A lembrança de antes da solitária deixava meu futuro anestesiado. Não, não posso mais voltar a ser como aqueles senhores que caminham ao lado da vida; não suporto mais vestir a máscara que cada situação suplica; não quero mais enfiar meus sentimentos num saco sujo. Jamais imaginei que poderia arrancar as boias que me prendiam à minha superfície. Aliás, nunca cogitei a existência dessas boias. Foi somente aqui que me tornei um abismo negro, úmido e cálido por onde caio sem eriçar os pelos e, em cada centímetro, encontro os andaimes frouxos, as entranhas e as arestas que não quero mais aparar. Antes de os homens fardados me buscarem em casa naquela manhã ensolarada, eu percorria, de cabeça erguida, um caminho marcado com tinta indelével; por isso não enxergava o traçado. Aqui aprendi a dançar sobre a minha história que escrevo a lápis em páginas sem pautas, dançarino surdo carregado pelo ritmo da respiração. Aqui consegui ouvir a vida gritando em meus pulsos, consegui apanhar a eternidade em cada átimo e soltá-la para que tudo não passe de possibilidades. É, Pagu, o mundo é pequeno demais; eu só caibo nesta cela. Porém, desde que recebi aquele papel pálido, o cheiro inebriante que irrompia dos meus poros não frequenta mais minhas narinas. Naquele momento comecei a registrar os dias na pele com a ponta do canivete. Não me olhe assim. Coagido pela lei, tive que aguardar a oitava manhã e ela nasceu chorando como se compartilhasse com o meu espírito o estado agônico de quem está prestes a ser aprisionado. Ouço os passos do carcereiro marcados pelo balançar das chaves, ele está vindo abrir a cela, provavelmente com os dentes à mostra. O que farei? Permanecerei abraçado às grades implorando que me deixe aqui? Gritarei, Excelentíssimo senhor Juiz, eu me declaro culpado, sou uma ameaça à sociedade? Subornarei o diretor da cadeia? Não, nada disso funcionará. Irei, mas nem vou me despedir de você, porque darei um jeito de voltar ainda hoje. Ainda hoje.
***
Sentido
Se eu fosse uma árvore entre as árvores, gato entre os animais, a vida teria um sentido.
(Albert Camus, O Mito de Sísifo)
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
(Clarice Lispector, Água viva)
Então vai buscar um sentido pra tua vida. Vai e me deixa com meus livros incompletos e meu mundo sem parapeitos. Com meus pedaços de presente que são, ao menos, mais intensos que o teu futuro cintilante. Não tenho a pretensão de unidade, querida. Há tempos a ilusão não me lança os olhos. Eu te admiro muito, fica sabendo. Iludir-se é uma dádiva. É preciso muita coragem pra desviar assim dos fatos. Mas agarrar-se à maior lasca de madeira quando se sabe que o resgate não chegará a tempo, não faz de ti um ser sagaz. Sabes por quê? Porque tu jamais te perguntas sobre a necessidade do resgate. E eu, Samanta, não preciso ser salvo. Prefiro nadar até perder as forças.
Não quero escrever “pai” com letra maiúscula somente pra me sentir protegido. Não quero levantar a cabeça pra desviar a vista das vicissitudes da terra. Contemplar as próprias vísceras é demais pro teu estômago frágil, não é? Porém o remédio que tomas pra esvanecer a vida apenas disfarça a doença que se alastra sob a tua pele. Nunca percebeste que no dia seguinte à festa, se aceita melhor em frente ao espelho aquele que não carregou a cara de tinta? Não há como esconder o tempo, amor. Mas tu insistes em pedir silêncio às engrenagens da vida. Insistes em colocar um pedaço de felicidade na ponta da vara amarrada às costas. Onde tu queres chegar, Frederico, tu esbravejas com a boca branca. Eu te devolvo uma pergunta que fica flutuando, sem força pra atingir teus tímpanos: existe esse “onde”?
Não há nada mais difícil que convencer alguém sobre o óbvio. A imagem é tão grande à frente dos olhos que fica indiscernível; é como o peixe que jamais se dá conta de que cumpre sua sina no oceano. O que te separa de uma prostituta? As duas se entregam em troca de conforto e segurança. A diferença é que travestiram tua atividade de decência. Tu és necessária à ordem. És necessária pra manutenção do que deve ser mantido. Mas há tantas janelas, Samanta! Por que abrir apenas uma e se conformar com a penumbra? Pra que construir apartamentos quando se pode comprar um balão por bem menos?
Vou te confessar uma coisa: não é saudável engolir as lágrimas pra transmitir serenidade. Não é saudável dormir às onze horas e acordar às sete ainda com a rodela de pepino sobre os olhos. Não é saudável usar roupa social no verão. O que há de natural em rir de uma piada de mau gosto só porque o chefe a contara?
Com o mundo sobre as costas, tu te conformas com o alívio de tirar o sapato ao fim do dia. Não te passa pela cabeça que possa ter algo de sensato em eu não querer usar sapatos apertados? Que eu prefira dançar a correr? Pois, sim, prefiro dançar descalço em círculos até as pernas pedirem pausa. Dançar por dançar, tu perguntarias. E eu, sem vontade na voz, responderia: vai procurar o teu sentido.
Matheus Arcaro é professor de Filosofia, artista plástico e, principalmente, escritor. Tem dois livros publicados: um de contos, “Violeta velha e outras flores” (Patuá, 2014), e o romance “O lado imóvel do tempo” (Patuá, 2016). Tem textos publicados nos sites Mallarmargens e Germina, além de ser colunista dos portais Língua de Trapo, Educa Dois e LiteraturaBr.
Tenho pedido a todos que descansem De tudo o que cansa e mortifica. Mas o homem não cansa.
Hilda Hilst
I
Se me disseres, amor, sou teu sonho.
Dir-te-ei, rema, ardor, entre os olhos.
Pois o canto que cantas é efêmero.
E o que sou é estandarte do sol.
A crescer frágil e rígido.
A rasgar os votos sagrados.
Entre a ruptura dos galhos.
Repara no que te digo.
Se me disseres: voa, sou teu laço.
Fugirei hoje mesmo, desertora.
Pois onde amo, não caibo.
Pois onde vivo, não meço.
Vaga, eu te vago.
Vaso do vazio.
Pureza do perene.
Um adeus inerente.
***
II
São hemisférios os meus olhos.
Ainda que crepitem os séculos.
Ainda que naufraguem no presente.
E não posso adiar o amor que sinto.
O amor suporta o peso corpóreo.
Atravessa a pobreza, o ódio, o abandono.
Abraça o que se renega.
Conduz o que não se mede.
À sombra de uma árvore, resistimos.
O amor e eu. No coração que é vertigem.
Em vias remotas e poeiras estelares.
Tudo é afinal, indiferente.
Porque não posso adiar a vida.
***
III
Divino Nada.
Toca-me o espírito.
Como o fugaz sopro da morte.
Como se o tempo fosse vida.
E o futuro, minha sorte.
Apresenta-me: desfecho.
A inacabada via.
Oferenda terrena.
Inevitável meio.
Divino Nada.
Salva-me o corpo
Em linhas versais.
Sela os segredos
Fluindo silêncios,
Abismos minerais.
Preposições são cantares,
No princípio da imagem.
Tu, fascínio em milagre.
Por campos lacunares.
O vasto total.
Amiúde, o haver nos restará.
O haver em branca transparência.
Construções em pás de silício.
Gravuras que se entrelaçam.
O oco fundo, Divino Nada.
***
IV
Tem sido de manhãs tecida
A minha sombra.
Sutilíssima na luz.
Translúcida nos olhos,
Em meu exíguo espaço.
A vida: plena.
O viver: insuportável.
Ou és carne ou és embaraço.
Sulcando os desvios do sangue.
Uma vida esculpida de sonhos.
Como foi que aprendemos a ser?
O perecível costura o presente.
O imperecível é paisagem da mente.
***
V
Porque o meu universo
É um todo de palavras
Golpeando o estado da fome.
Boca-alaúde de sentimentos.
Fino contraste do instante.
No desgaste do som,
Atemporal intempérie.
Na membrana diária,
Vendaval de mistérios.
Pelas lacunas do céu,
Tessitura da morte.
Minuto-terra em espumas.
Entre salmos: fleuma.
Entre braços: feixe.
Porque o meu universo
São pálpebras em corais.
Desde a língua.
Saltando melismas.
Sou um inteiro.
***
VI
À memória de Allen Ginsberg
O peso do mundo é o peso do sonho.
Sob o fardo do amor,
Sob o feitio da ilusão.
O peso do mundo é um fator irreal.
Sob o feitiço do perverso,
Sob a finura do convexo.
Mas quem de nós poderá negá-lo?
Se a leveza é invenção abstrata.
Se a natureza é limite brutal.
Paraísos movem-se mais adentro.
Peregrinos progressos rarefeitos.
Moléculas de uma frágil história.
Em céus que desabam, petrificados.
Pois nenhuma elucidação, América,
Há de salvar-nos.
Nenhuma religião, Kaddish,
Será poesia.
Nenhuma dor, atemporal.
Mariana Basílio é pedagoga, mestre em Educação e poeta. Atualmente cursa pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura. Autora dos livros Nepente (Giostri Editora, 2015) e Sombras & Luzes (Editora Penalux, 2016), versa no presente os dois próximos livros, Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016) e Megalômana. Tem entrevistas e poemas publicados em revistas do Brasil e de Portugal, como Inefável, Limbo, Raimundo, Garupa, mallarmargens, O Garibaldi, Germina, O Equador das Coisas, InComunidade, Oceânica, Vida Secreta, alagunas, Plural, entre outras.
A imagem que nos aterra a existência, que se torna um testamento usual, um versículo sempre na ponta da língua, cobra hoje uma tarifa existencial que nos limita a própria reflexão sobre o que somos ou deixamos de ser. Somos viciados em uma demanda reiterativa. Algo nos impede de experimentar um mundo outro sob ou sobre a capa de uma realidade averbada pela crença na imutabilidade da vida. Ora, mas a vida é tudo menos imutável. Mesmo no plano sagaz das religiões a vida é o preço, a súplica, a tormenta, o vislumbre, o apogeu, a dádiva, e não é possível pensar em nenhum desses atributos como um álibi inquestionável que não permite à espécie humana mudar sequer de postura na cadeira em que presta depoimento sobre sua existência. A fotografia é uma das mais complexas faturas da criação artística, a começar pela resistência da arte entendê-la como sua cúmplice. A beleza é outro aspecto frequentemente confrontado pela incredulidade em que o gesto humano seja tudo menos apenas uma reação brutal à diferença. Leila Ferraz é uma poeta que se distingue entre seus pares pela percepção que possui das relações entre o criador e sua obsessão. Alheia às formatações de gênero, é poeta, ensaísta, fotógrafa, desenhista, foi uma das organizadoras da Exposição Internacional do Surrealismo, em São Paulo, anos 1960. Aqui dialogamos sobre o ambiente da fotografia, ou melhor, sobre o espírito da imagem. E o diálogo se faz ilustrar por algumas de suas fotografias.
Leila Ferraz / Foto: arquivo pessoal
DA – Quando começaste a fotografar lidavas com o mundo analógico. Tempos depois, quando retomas, já está em curso pleno o mundo digital. Do ponto de vista estético, como tens lidado com a passagem de uma técnica para outra?
LEILA FERRAZ – Sou uma fotógrafa analógica assumida. Esse foi o meu mundo durante toda minha vida. Tudo o que eu queria, tinha que pensar, analisar, testar, me apaixonar e me envolver de tal forma visceral que o mundo digital foi um tapa na cara. Veja abaixo esta foto de 1971 – tudo era feito no olho e nas mãos. Envolvia cheiros, ácidos, estudos e a conquista de um tempo fascinante no qual eu me perdia. Mas era um trabalho meu. Como quem cava fundo cada réstia de luz, penumbra ou escuridão. Um processo de imenso prazer. E buscas e descobertas. Desde criança, este mundo que peguei nas mãos quando as reproduções ainda eram feitas em placas de vidro. Desde quando bem pequena, descobria as minhas origens folheando sem nunca me cansar os álbuns de família. Com fotos de bem mais de 150 anos. Como medir, lidar, conquistar o que nasceu comigo? Eu ainda sou analógica. Atualmente, os recursos digitais nos proporcionam tudo o que queremos. Praticamente na hora. São milhares de opções imediatas. Existe, sim, o fator surpresa. Porque num toque de dedo ou criamos o que desejávamos ou o que nós desejávamos já vem pronto. Eu tinha um estúdio fotográfico completo. Com salas, químicas, bacias, ampliadores, Hasselblad, Leica, Roller, iluminação e tudo o mais. Atualmente, com uma máquina, programas e aplicativos consigo o que conseguia e mais. Em termos estéticos, o método analógico me dava mais prazer porque era eu quem o criava. No digital, posso ir além. Mas nunca sozinha e sim com uma legião de tecnologia me acompanhando. Talvez cheguemos aos mesmos lugares, mas sem os mesmos prazeres. Digitalmente, esses valores são predeterminados. Nossa interferência e interação são calibradas entre o cérebro e o olho – modo único de cada ser olhar e fotografar.
Foto: Leila Ferraz
DA – Curiosamente ilustras a tua resposta com duas fotos em preto & branco, o que lembra certa rejeição da cor em muitos fotógrafos. Há uma espécie de resplendor excessivo na cor que impede o olhar de decifrar meandros mais íntimos da imagem?
LEILA FERRAZ – De certa forma, sim. A cor é fascinante, porém ela nos excede, quando apenas cor. Raros são os fotógrafos que sabem dar às cores suas temperaturas exatas. A cor mantém estreita relação com a temperatura, com a hora. O calor de cada cor tem algumas regras áureas que aprendemos e exercemos na medida em que fotografamos analogicamente.
DA –E como o acaso dimensiona o espectro final da imagem fotografada?
LEILA FERRAZ – O acaso é o orgasmo que temos. Quando ele acontece, gozamos. Se vamos ou não repeti-lo e nos tornarmos amantes é a proposta misteriosa inerente ao próprio acaso.
DA – Bom, recordo certo entendimento de que a fotografia aprisiona a alma da gente.
LEILA FERRAZ – A isso Roland Barthes (com quem concordo) chama de noema fotográfica. O momento decisivo, único, raro, de Cartier Bresson, que perpetua toda a essência estética do ser ou da coisa da fotografia. Ou da coisa fotografada. Aquilo que é próprio e unicamente possível naquele instante.
Foto: Leila Ferraz
DA – Salvador Dalí via na fotografia “o veículo mais seguro da poesia e o processo mais ágil para perceber as mais delicadas drenagens entre a realidade e a surrealidade”.
LEILA FERRAZ – Veja a insegurança dessa frase. Sua fragilidade. Ela precisa de um mecanismo que justifique um processo contínuo no tempo. Não concordo.
DA – Talvez venha do fato de que o Dalí, ainda em 1929, quando afirmou tal coisa, pensava na fotografia apenas como o registro de uma cena, o que ele próprio chamava de catálogo “de imagens fragmentárias que dão lugar a um total conhecimento dramático”…
LEILA FERRAZ – Sim, é possível. A fotografia como registro foi e ainda é, infelizmente, entendida dessa forma. Quando, na verdade, essa é apenas uma de suas aptidões enquanto manifestação artística.
DA – Quais os caminhos estéticos que a utilização da fotografia abre para a tua concepção criativa como um todo?
LEILA FERRAZ – Caminhos estéticos são para mim como palavras autológicas ou heterológicas. Para segui-los é preciso estar com os sentidos em uníssono. Suspensos. Minha concepção criativa, tanto no poema quanto na fotografia, por exemplo, é minha expressão de ser. Única. Soma de diversos processos raros. Nasci com essa capacidade de ser intuitiva. Para mim, o domínio da técnica é uma escolha fortuita. Lúdica. Feminina. Inexplicável. É uma sensação de concretude e seus fantasmas invisíveis. Há um momento harmônico que surge instantaneamente quando a coisa da arte se expressa em si mesma.
Foto: Leila Ferraz
DA – Como lidas com temas e formas ao definir recortes e justaposições em tua criação fotográfica?
LEILA FERRAZ – Tenho uma paleta de cores naturais e cambiantes que me cercam e me abrangem. Posso dizer que o mundo que me cerca está organizado em matrizes pré-determinadas e que se modificam a cada instante. Criando, assim, uma relação de movimento contínuo. Meu poder de escolha de temas é um processo interior – que pode ser aleatório ou determinado por um desejo. Sem dúvida, aquilo que considero como belo é o meu ponto de partida. Seja uma paisagem, por exemplo, ou algo estático. Contudo, a minha interferência permite que eu simule diversas composições de formas e cromáticas, até que me bastem. Até que eu chegue ao meu noema – no sentido que relatei acima. Nesse sentido a manipulação digital me proporciona a capacidade de transcender à fotografia, recriando cenários, figuras ou abstrações num cenário surpreendente e inédito. Por vezes inesperado em termos de justaposições ou recortes. Atualmente, já consigo controlar ou dominar as possibilidades do mundo digital para obter exatamente o que desejo, como resultado. Porém, a surpresa é sempre instigante e muitas vezes conflitante.
DA – Quando preparas uma cena para fotografar, lidas com os truques de sua figuração. Trata-se, como em toda criação, de atuar no limite de uma falsificação. Nesse tablado, como se relacionam a imaginação e o instinto de imitação? Paul Éluard dizia que “a imaginação não mente nunca, pois ela nunca se equivoca”.
LEILA FERRAZ – Em diversas ocasiões eu preparei a cena que imaginara. Estas duas: a primeira foto é a do meu próprio umbigo. E resolvi utilizar um recurso digital para lhe conferir uma “história feminina”, por assim dizer. Já na segunda imagem, acrescentei vários outros recursos digitais e desarranjos para lhe conferir movimento. O movimento de um veleiro chamado NOTURNO. Com isso vou além de minha intenção original. Passo a acrescentar o elemento de Thalassa – também próprio do universo feminino. E mais – ao deslocar o eixo da imagem, surge o movimento. E a imagem criada torna-se única e poética. Há outro caso em que para obter um resultado imaginado, tive que interferir várias vezes na paisagem. Queria fotografar um homem à noite, com a lua por detrás da Ilha Bela, e que as ondas do mar preenchessem o corpo do modelo. Processo que demorou muito tempo, por se tratar de uma sobreposição sobre uma mesma película que já havia fotografado a paisagem com o modelo. Após alguns minutos, pedi para o modelo sair e então as ondas do mar invadiram, também, o espaço de seu corpo. E fui além. Na gráfica, além das cores básicas, acrescentei a impressão de mais uma cor, o ouro, formado pela passagem de uma bicicleta. Tudo isso foi feito analogicamente, com uma Hasselblad e passagem de luz sobre um papel virgem, em câmara escura. Foram vários fotolitos até chegar ao resultado que eu desejava. Vários dias e um processo caro. Com as facilidades do mundo digital, isso seria feito muito rapidamente. Talvez com um resultado final diferente. Porém controlável. Há mais exemplos. Centenas deles. Nesses casos, a imaginação se transforma em realidade. Isso é possível, sim.
Foto: Leila Ferraz
DA – Entendes que a web permite hoje um instrumento valioso de trabalho para a criação artística?
LEILA FERRAZ – Essa tecnologia, encontrada à disposição de qualquer pessoa, me proporcionou novas formas de expressão, de comunicação e transformação da realidade. É possível interferir em qualquer imagem. Multiplicá-la, replicá-la e movimentá-la através de qualquer espaço ou base. Misturá-la em qualquer meio e adicionar inusitadas linguagens. Através dos meios digitais, o comportamento da imagem fotográfica, às vezes de uma mesma imagem, conquista simbologias inéditas. Crio um novo vocabulário emocional a ser decifrado.
DA – Quando o fotógrafo lida com o modelo vivo, desperta certamente nele um instinto de espetacularização. Sendo o modelo objetual, como se realiza essa teatralização dos sentidos?
LEILA FERRAZ – Creio que lidamos com a metafísica quando falamos de fotografia e todos os casamentos possíveis e impossíveis que se realizam entre tecnologia e processos artesanais.
DA – Esquecemos algo?
LEILA FERRAZ – Posso dizer que o processo digital de cores e mesmo de nuances monocromáticas me é muito valioso. Sem dúvida, todo esse processo que atualmente me fascina, é altamente tecnológico, preciso e ao mesmo tempo cambiante, de acordo com o resultado que desejo obter ou que me surpreenda quando atinjo um ponto que para mim é a manifestação da vontade de nominar o incontrolável, porém “ordenado”.
Foto: Leila Ferraz
TRÊS POEMAS INÉDITOS DE LEILA FERRAZ
Ossuário de fontes
Esgotei minha última saliva.
Minha umidade esvaiu-se em leite de amêndoas.
Não há lágrimas descendo as escadas.
Estou estranha, tão estranha, e não me basto.
Pouco sei desta mulher que nasce e renasce a cada manhã,
e não se põe jamais, porque a ela pertencem as linhas da vida
que unem as artes e os manifestos.
Esta tresloucada fêmea ensandecida capaz de desnortear o mais sério dos eruditos.
Que depoimento é este que tanto queres?
Para mim se assemelha a uma equação da própria física que ainda nem descoberta foi.
Um depoimento afetivo de memórias juradas ao esquecimento.
Sim, reunirei minhas últimas forças e dormirei com os protagonistas de minhas lembranças.
Com ou sem as suas próprias naturezas devastadas.
***
As luvas da raposa
Hoje a liberdade se esconde
no cache-sexe de Adão e Eva.
Procuro em mim o Andrógino Primordial.
Meus desejos se tornaram anjos persecutórios.
E enlouqueço enquanto refaço meu corpo na praia da Olaria.
Tenho todos os elementos da loucura.
Agora fotografados.
Quanta beleza na boca de Narciso!
Quanta verdade revela um espelho.
Já não posso te esperar.
Serei do primeiro marinheiro que aportar aos meus pés.
***
Fotografia noturna
Uma paranoia engole nossas memórias.
Cada tecla tocada emite um falsete nas nuvens.
Quem colherá as imagens secretas que gerei?
Quem se esconderá na concretude de nossas palavras,
Onde se ocultam meus gestos eternos cor de prata.
Nada sincero ou palpável.
Toda criação espalhada pelo universo.
Planetas adversos pelas avenidas cósmicas.
Encontros extraterrestres acontecem quando recebo um amante em meu lençol.
E a estética amorosa conjuga verbos proscritos.
Filhos da nervosa ruela que dobramos no espaço.
Sonhos cada dia mais impossíveis nos retoques dos retratos.
Garantias no lugar de signos colocam suas máscaras entre as pernas dos mortais.
Estarei sonhando?
Floriano Martins é poeta, ensaísta, editor e tradutor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e a ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.