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119ª Leva - 04/2017 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Numa estrada que sempre aparenta ser um tanto imprevisível, manter os passos com estabilidade é algo a ser celebrado, principalmente quando o alvo são as vias movidas pela literatura e pela arte. Nesse trajeto notadamente dinâmico, entram em cena novos atores a cada investida editorial e que trazem consigo detalhes importantes de seus mundos, de seus universos particulares. A partir da soma de um número incontável de expressões, um projeto como o da Diversos Afins consegue perpetuar seu objetivo principal, qual seja o de servir como um recorte da produção literária e artística contemporânea. A revista chega a onze anos de publicações consciente de seus propósitos, pontuada pelo compartilhamento de vozes, verbos, imagens e sons de sujeitos a demarcarem suas identidades diante dos complexos cenários mundanos. Entendendo o meio como uma fluida e mesclada plataforma de possibilidades culturais, percebemos que os ímpetos autorais comungam cada vez mais de uma noção plural de sentidos. Ou seja, estar no mundo revela aos criadores que as alternativas de produção de suas obras não representam uma ideia assentada em bases unívocas e cristalizadas. Ao longo de mais de uma década de edições, pudemos testemunhar uma variedade substancial de obras que apontam para perspectivas estilísticas e estéticas diferenciadas. E aqui não estamos a falar de intentos vanguardistas, mas de formas singulares de propagação do pensamento através da arte. Assim, cada autor trouxe até nós as marcas valiosas de suas existências enquanto sujeitos que almejam alguma transformação quiçá pessoal ou coletiva. É imensurável falar aqui dos colaboradores que nos ajudaram a manter viva a chama da revista. Torna-se impossível quantificar ou traçar qualquer painel classificatório dos diferentes tipos de contribuição que fizeram com que todos os esforços de publicação surtissem efeitos reais. Some-se a isso a importância do papel dos leitores, os quais têm se firmado como incentivadores permanentes do projeto, muitas vezes sugerindo caminhos. Como a abertura para o novo sempre esteve em pauta entre nós, nada mais natural do que trazer à cena, desta que é a nossa leva de celebração, criadores que comungam dos nossos ideais. É, por exemplo, o caso dos poetas Helena Zelic, Morgana Adis, Hugo Lima, Luís Perdiz e Sara Síntique. Do mesmo modo, a presença marcante dos desenhos e aquarelas de Samuel Luis Borges oferece-nos vias especiais de revelação. Em mais uma valiosa colaboração, Guilherme Preger convida-nos a percorrer os delicados ambientes do filme palestino “Degradé”. Trazendo densos recortes de vida, temos em mãos os contos de Kátia Borges, Cesar Cardoso e Marcus Groza. Numa pequena sabatina concedida a Sérgio Tavares, o editor Eduardo Lacerda fala um pouco sobre sua trajetória na condução da Patuá, uma das mais importantes editoras independentes do Brasil.  Alex Simões apresenta-nos “Desinteiro”, livro de poemas de Guelwaar Adún. Quando o assunto é teatro, Vivian Pizzinga volta seus olhares para a peça alemã “The so-called outside means nothing to me”. Numa preciosa contribuição ao nosso caderno musical, Tiago Velasco estreia entre nós falando do novo disco da banda carioca Do Amor. E assim, queridos leitores e parceiros, surge a Leva de número 119! Nossos mais calorosos agradecimentos a todos aqueles que, sem exceção, estiveram conosco até aqui perfazendo mais um aniversário. Evoé!

Os Leveiros

 

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119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Morgana Adis

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

[indizível]

 

Como contar o que devo?
Da sordidez dos beijos.
Da miséria, da fraqueza.
Das línguas que espalham espaços- espasmos-líquidos
por onde podem escorrer as paredes
viscosas e róseas, ignorando tudo,
em órbita desgovernada,
e com o peso na linha tênue?

 

 

 

***

 

 

 

[juro]

 

Continua a vontade
de saber: sem
machucar os peitos do pé.
Na convicção ínfima de
imediato é extinta,
a mente.

Sentir o estalar pelos
ecos pintados nos ossos.
Triste em sensação,
persiste pelos séculos…
em sobras de tinta.
Amém!

 

 

 

***

 

 

 

[imaginário]

 

Atas meu cavalo alado
às nuvens secas e parcas.
Rendo a parte mais fraca
ao difuso, e no movimento
me junto às patas.

Patas que, em repente estranho,
cavalgam plenas e fartas
o desejo escuso do uso da faca,
cravada no exato momento
para que de mim partas.

 

 

 

***

 

 

 

[tatear]

 

Proponho sentir às cegas,
palpitar: sem desfecho!
De súbito, o arrebato
da silenciosa vigília-terna,
ecoa em repousos arredios
– na caligrafia que
se fez soar.

Miúdas cintilâncias
recortam a ausência
que se impõe sem dor;
aos corpos-folha: flores
e aromas presentes:
sob crianças noturnas
só-risos ecoados em fé.

Da seta cravada na espinha
lateja um unicórnio insólito.
Mergulha em sombras
transparentes ao fazer
da teia o orvalho
que quebra o espanto:
com acalanto nervoso.

Em piscadas bem abertas
recobramos a vigência
dos tempos retorcidos.
São constelações de letras
explícitas: transbordadas
pelo nado tateado, do vagar
ensandecido-errante.

Retido o encontro: sanar
em falares notívagos
delirantes, ínfimos percorridos,
enraizados no raro:
em pleno pulso
do absurdo-mágico:
quimeras do inerente-errático.

Presságio estático
caiu entre as nuvens: que
fitam angústias desde o véu
da caverna confidente.
No centro dos sempres
estamos libertos da
instância, mas não da infância.

Por dentro – o inequívoco:
convicção primal e surda
que impõe ritmo e cor
ao ser-sentir. Estampa
nas veias o cósmico grito de duas
esferas feitas do mesmo pó e
das constelações dos medos.

 

 

 

***

 

 

 

[quero ser]

 

De súbito, uma mui
pequena falta de atenção,
provoca o toque inestimável
entre elementos então
transmutados em respiro
sem piedade.
Quem disse? Meu corpo…
em resposta à língua
que bem preciso entender.
Como se pensa algo que
nem corpo é? Onde o
nunca é matéria! Tem enfim
uma centenária no jardim e veste
as sandálias da compaixão, pois
só assim consegue pisar o chão.
Compaixão por quem?
De mim é que não.

 

Clamo por concentrar
nas mãos o bem que desejo.
Seria como tocar o nada. Olhar
fixamente as lambidas de luz que
emanam o pulso intermitente e intuir
a força que emerge de todas as veias
conjuradas nas artérias,
num latejar mínimo,
que passaria incógnito se não fossem
as arteiras meninas dos olhos que,
pensativas, seguem de perto
o movimento da carne
que envolve o vulto oculto
e sem pele. Inconveniente
momento de perceber que
basta oferecer o intento para
escorregar pelos sistemas de
sóis e luas invertidos,
reconfigurados e ativos, recuperados
pela calma do respirar inteiro e… ser
ar para tocar as claves do íntegro
sabor e do suave brincar
das pontas.

Morgana Adis é a assinatura de Claudia Aguiyrre com as letras. Leitora antes de nada. Deixou de ser jornalista e professora de cinema, por uma vida mais integrada aos quatro elementos. Mantém-se documentarista e editora. Em ambos ofícios,  sente que o importante é ouvir. Orientada a escrever com mais regularidade pelo poeta Leopoldo Comitti o faz entendendo cada vez menos de tudo: desta vez com mais propósito. Nasceu em Santiago do Chile e vive o Brasil há quase quarenta anos. É uma das idealizadoras do Epigrama Coletivo Editorial e do Koletivo Artístico Nukanal.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Kátia Borges

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Nas profundezas do mar azul

 

Ele ficou me olhando como se quisesse pescar em mim peixes estranhos, desses que se abrigam nas profundezas do mar azul. Um amigo, que morreu de leucemia há muitos anos, me contou sobre peixes que desenvolvem antenas e moram em cavernas escuras, repletas de oxigênio, no fundo do oceano. Fiquei mudo, desejando colocar a cabeça para fora da água. Um ônibus passou, fazendo um barulho dos diabos. Puxei um cigarro e acendi. Não sei quanto tempo fiquei parado ali, sentado sozinho no banco de cimento, pensando nos peixes insanos, quase humanos, que habitam em mim.

Nunca mais deixei de sentir um gosto de água salgada na boca.

 

 

 

***

 

 

 

Que seja doce

 

Na escuridão aconchegante do cinema, olhou para o amigo como se o visse pela primeira vez. Estivera muito doente, longas noites em uma UTI, mas já não sentia um aperto no coração ao pousar os olhos nele. Chegava a cantarolar baixinho da mais pura, da mais simples felicidade apenas por tê-lo. O rosto do amigo, refeito, dispensava compêndios filosóficos. Era preciso colocar diariamente o passado no varal, como se faz com os lençóis molhados de suor após a febre. A febre, vespertina e monstruosa, não precisava mais ser medida, desmedidas temperaturas em um termômetro de incertezas. De repente os olhos do amigo encontraram os dela e ele riu. Quis falar alguma coisa, mas só lhe vinham na cabeça uns poemas tristes. A morte ainda os rondava, em sua dança, mas já não tinha par. “Que seja doce”, pensou, lembrando um conto de Caio Fernando Abreu, e voltou a prestar atenção ao filme.

 

 

 

 

***

 

 

 

Um céu de chumbo

 

Tudo parecia perfeito quando o telefone tocou em uma manhã remelenta de domingo. O marido ainda dormia e os filhos faziam uma algazarra dos diabos no jardim. Ela atendeu e, enquanto falava, percebeu que nuvens escuras vindas do nada estavam se adensando sobre a sua casa. Logo, logo, choveria. Pensou em chamar os meninos para dentro, mas havia esquecido momentaneamente os seus nomes. Escutou até o final, limitando-se a dizer apenas que sim e sim. Entendia a absoluta necessidade de ajudar. Iria, assim que possível. Não demoraria muito.

Quando o marido acordou, correu para contar a novidade. Uma amiga de infância estava doente. Era urgente ajudar. O homem olhou meio de banda. Conhecia todas as amigas da mulher. Qual delas? Empalideceu. Não havia como explicar. A existência da desconhecida traçava uma incômoda linha divisória. Se pudesse olhar para dentro dela, naquele momento, teria vertigem.

Com o passar dos dias e a inquietação da mulher, decidiu ceder. Ficaria uma semana, nem um dia a mais, e ele cuidaria dos meninos. Na volta, traria consigo a desconhecida convalescente, dissipando qualquer dúvida. Mas, o que havia de errado naquela história? Era a pergunta que martelava o juízo do homem, inconformado com o súbito segredo que se impusera entre eles.

Mas toda a combinação com a qual concordara era falsa. Ela jamais deixaria que a amiga entrasse em sua casa. Também não acreditava ser fácil retornar. Assim, quando beijou os filhos, ela o fez com intensidade redobrada. O mesmo se deu quando caiu nos braços do marido, na noite anterior à partida. Devia muito a ele e a gratidão costuma revestir o amor com predicados inomináveis.

 

 

 

 

***

 

 

 

Alzira

 

Alzira gosta de cachaça. Bebe logo cedo. No bairro onde mora, na periferia da cidade, num boteco perto. Os copos pequenos sorvidos às talagadas, o cotovelo apoiado na bancada, o corpo pequeno sacudido pelo gesto. A boca faz um esgar engraçado que não combina com o olhar triste. Antes de subir no ônibus passa a mão nos cabelos desgrenhados. Mostra a carteirinha ao motorista. Ajeita a magreza entre os passageiros. Não tem horário, não bate ponto.

Guarda o material de trabalho no cemitério. Com passos lentos desce a escadinha. Apanha a água sanitária, o amoníaco, a soda cáustica, a vassoura, o balde. Quando sobe, canta músicas aprendidas no templo. Deixou de ir por falta de dinheiro. Vergonha de tirar poucas moedas do bolso. Trocar pão por bênçãos. Ficaram as canções na boca, entre os poucos dentes que restam e o ritmo de quando ainda sabia tocar sanfona.

Se aparece um visitante, segue em silêncio. Diante da lápide, oferece seus préstimos: limpeza diária, mensal, anual, só um trato breve. Um real por túmulo. Em Dia de Finados, cobra mais. Ali, nunca chorou seus mortos. Se pudesse, vejam só, seria cremada. Não daria trabalho aos outros. Alzira cheira a álcool todo o tempo. Suas falas quase precisam de legenda como nos filmes mudos. Alzira não tem medo de fantasmas, só de gente viva.

 

 

 

 

***

 

 

 

Maresia

 

Por mais que viajasse, entrando e saindo de aviões, sentia sempre o mesmo perfume. O cheiro forte do mar, desde a infância. Quando fechava os olhos, o marulhar a embalava até que adormecesse. Dentro do ouvido, onde quer que fosse, levava consigo a essência dos oceanos. Podia sentir o gosto do sal na carne, sensível. Como um sabor que viajava em sua pele, a maresia parecia estar dentro da bolsa.

Respirava fundo, a 11 mil metros de altura, como se os pés estivessem fincados na areia macia, com os tornozelos mergulhados na água fria. Subia e cobria as suas coxas, envolvia o sexo, molhando os sentidos, acariciava os seios e entrava pela boca. Não tentava achar explicações. Deixava-se ficar assim com a alma encharcada.

Quando sentia dor, era somente sede. Rios secavam dentro do peito, crustáceos passeavam pelo solo em busca de abrigo, peixes morriam, sufocados pelo ar. Mas precisava, mais que mar, de algum estreito, pequena ilha, porto onde ancorar. Mal sabia que qualquer movimento é como o sacolejo de um saveiro, rasgando com sua quilha gigantescas ondas.

Vivia assim, morrendo em despedidas, içar de âncoras, presa de iscas, vítima de arpões, acenando em escadas de avião, com asas de metal rasgando o espaço. O corpo carregava os sentimentos, mala extraviada em alfândegas de países diversos. Falava pouco por ignorância, para manter-se a salvo em lugares estranhos. Não desejava maiores envolvimentos. Queria apenas um mar que a levasse, misturando sua pele branca à espuma das ondas.

 

Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Helena Zelic

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

meninas

 

faz tempo
um poema que expresse
amor
só o amor, sem tempos duros
sem pratos quebrados na parede
e a angústia das lâmpadas

pensei
que estivesse o corpo intacto
que já não sentisse nada mas
o amor, esse escafandro
escancarado
crescendo as plantas marinhas

a gente deu as mãos
pensei de brincadeira
não consigo escrever esses versos
sem pensar em seu rosto
e seus cabelos
alguma coisa aconteceu
no meu organismo
não consigo imaginar alguém
que leia este poema
e não veja nele
o seu rosto e seus cabelos
meu rosto
meus cabelos.

 

 

 

***

 

 

 

cidades perdidas

 

existe são paulo e as multidões
a garoa e a chuva ácida
sobre os capôs, chapéus e cabelos.
aquela são paulo que,
dizem,
não existe mais
existe em santos
nas praças do centro
e nos tijolos das velhas indústrias
em meio ao fogo
dos despreocupados.

não tenho conhecimentos
químicos ou de vida
para saber se o tijolo,
no fogo,
derrete
ou vive.

minha tia anda pelas ruas
de santos
e se entende nas calles cubanas.
as vielas de salvador
têm as formas de Cuba,
para ela
todo lugar é a saudade de La Habana
e das casas de andares altos
que o tempo cortou no meio
para caber mais habitantes.
por fora, as portas são altas,
ainda são.

nenhuma cidade deixa de existir
quando se torna exemplo
dos postais, das réguas
da arquitetura
das utopias.
a memória nunca pode ser
armadilha das mudanças.

 

 

 

***

 

 

 

os clássicos

 

quem sabe quais seriam
as palavras de Safo
censuradas pelo tempo
[pela igreja católica]
abarcadas como ilhas mudas
pelos colchetes e chaves da história?

quantos beijos na boca
quantas bocas
[quantas? como?]
a despeito de menandro e apolo?

o que sussurravam as mulheres
nos ouvidos?
um mundo em festa.

os fragmentos das letras
são lacunas do encontro
entre uns corpos e outros.

há amores como há embarcações
e somem no mediterrâneo,
enormes e invisíveis.
[um mundo em festa!]
mais que ilhados,
subaquáticos.

 

 

 

***

 

 

 

um narrador que grita

 

nunca, nesta vida ou nas próximas
poderei escrever como uma poeta portuguesa.
posso imitar os versos grandiosos
de uma poeta portuguesa
posso copiar os sentimentos precisos
de uma poeta portuguesa
posso falsificar documentos
como faz a decadência das fronteiras
sem pátria e sem trabalho
duas casas e nenhuma.

posso dizer que sou
e assim chegar ao limite
convencer alguns católicos
não-praticantes do ofício da fé
andar nas ruas como uma poeta portuguesa
erguer talheres como uma poeta portuguesa
falar dos mares e do amor infinito e súbito
como o faria uma poeta portuguesa;
como se sozinha o detivesse
no centro do corpo
contra os monstros marítimos.

posso fingir que compreendo e que me espanto;
posso escrever como uma subdesenvolvida
a fingir que conhece a solidão do hemisfério norte
e os cânones das bibliotecas
que nomeiam ruas, escolas e tentativas.

posso esculpir um pássaro e narrar seu voo
como se voasse.
como se existisse para tal fim.

posso contar as pérolas
dos pecados da ave maria
(em segredo sepulcral).
mas nunca, sob hipótese alguma,
poderei escrever como uma poeta portuguesa.

são outros os meus heróis.

 

 

 

***

 

 

 

um lugar no mundo

 

que aquele rasgo na noite
seja um astro satélite
parece impossível

a distância tamanha
aproxima água e minério
a perder perspectiva

no meio do caminho
um abismo de sombras
pedágios, cavaleiros e dragões

o medo de altura
da humanidade visível
nas pedras que cortam a China.

 

 

 

***

 

 

 

mitos

 

como um país que não se esquece de seus mortos e seus vivos
como um povo que resguarda a língua anterior às fronteiras
porque são eles mesmos a língua,
a língua é eles
como tua capacidade de amar novas pessoas
e reconhecer perfumes antigos
e querê-los, porque assim respira mais.

como a dura revolta de nossos ossos,
como as multidões que se levantam,
tu tem direito à tua história.

 

Helena Zelic tem 21 anos, é estudante de Letras, comunicadora, militante da Marcha Mundial das Mulheres, coordenadora de literatura da revista Capitolina, poeta e autora de “Constelações”, publicado em 2016.

 

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119ª Leva - 04/2017 Gramofone

Gramofone

Por Tiago Velasco

 

DO AMOR – FODIDO DEMAIS

 

 

Fodido demais é o terceiro e mais recente trabalho do quarteto carioca Do Amor. Gustavo Benjão (guitarra e voz), Gabriel Bubu (guitarra e voz), Ricardo Dias Gomes (baixo e voz) e Marcelo Callado (bateria e voz), nestas dez canções (mais bônus track), seguem firme em sua antropofagia pop globalizada, ao deglutir e transfigurar ritmos variados – do indie rock ao partido alto, passando pelo frevo e pelo free jazz – utilizando guitarras, distorções, sintetizadores e um senso de humor peculiar que são a assinatura da banda.

Quem conhece já está acostumado e até espera essa miscelânea sonora. Em Fodido demais, no entanto, o caldeirão do Do Amor pareceu mais equilibrado e enxuto (apenas 11 faixas, contando com a bônus track, pouco se comparado ao disco anterior, “Piracema”, com 18 canções). A concisão, os arranjos mais redondos e sutis e a seleção e a organização do repertório apontam para uma banda mais madura, sem que isso represente qualquer quebra no que vinha sendo feito até então. Os rapazes estão, claramente, polindo o projeto estético que vêm desenvolvendo.

Se até a faixa sete, Fodido demais apresenta a faceta rock da banda de forma mais evidente, mesmo que em sentido amplo e sem um respeito conservador ao gênero; as quatro últimas atiram-se de forma mais descarada no samba, no frevo e em demais ritmos do país. Mas sempre através de um filtro cosmopolita, como o partido alto com sintetizadores “Minhas vozes”, a bem-humorada “Metaleiro vento”, faixa que começa como um free jazz e logo incorpora ritmos regionais brasileiros, fazendo a cama sonora para versos como “Metaleiro vem/ Pegue nessa viola/ Eu sei que você curte Astor Piazolla/ E isso você nunca pode negar” e “Metaleiro sai/ Saia dessa redoma de fumaça preta/ Caia no reggaeton e abrace o capeta/ Ele brinca com fogo e você de Abadá”. O bloco “não rock” se completa com “Frevo da razão”, um frevo à moda Do Amor que conta com a participação luxuosa – e grave – dos vocais de Arnaldo Antunes.

 

Do Amor / Foto: divulgação

 

Mas rock e não rock não são boas formas de dividir o trabalho da banda, já que o apagamento dessas dicotomias e de quaisquer fronteiras sonoras é parte da proposta do quarteto. Assim, o indie rock de guitarras “Peixe voador”, música que abre o álbum, convive harmoniosamente com “Fodido demais”, canção densa cujo peso remete ao grunge e que traz trechos da obra Do Amor, do autor francês Stendhal, recitados pelos quatro integrantes, e com “A lince”, faixa com um quê de rock progressivo, mas com a virtude de não se deixar enfeitiçar pela egotrip virtuosística característica do gênero.

Duas faixas parecem estabelecer conexões mais próximas a músicas de outros trabalhos: o hit pop de Benjão “O aviso diz” é primo-irmão de “Ofusca”, canção de “Piracema”. O parentesco não é à toa, já que “O aviso diz” foi composta na época da pré-produção do disco anterior. Já “Make songs”, de Dias Gomes, remete não só a “I’m a drummer”, de Marcelo Callado, pelo jogo de palavras em inglês que as duas faixas estabelecem, mas, também, por obedecer a uma estrutura de repetições que parece atrair o baixista e que está presente, por exemplo, em “Exploit”, faixa do primeiro disco, “Do Amor”, lançado em 2010.

 Fodido demais deve ser ouvido várias vezes, se possível com fones de ouvido, o que permitirá escutar as camadas sonoras e as texturas que se escondem por trás de arranjos que só são simples na superfície. Neste terceiro álbum, a Do Amor sedimentou sua proposta estética e valorizou ainda mais as canções, demonstrando que a maturidade trouxe sutilezas benéficas para a banda e, por que não, para os ouvintes.

 

Tiago Velasco nasceu em 1980. É doutorando em Letras na PUC-Rio, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, jornalista e escritor. Autor dos livros de contos Petaluma (Oito e Meio) e Prazer da carne (Multifoco), além do livro de não ficção Novas dimensões da cultura pop (Multifoco). Em 2015, ficou em quarto lugar no Prêmio Off Flip de Literatura na categoria contos.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Dividir-se para multiplicar: uma leitura de “Desinteiro”, livro de poemas de Guelwaar Adún

Por Alex Simões

 

“É colocando a violência do signo poético no interior da ameaça de violação política que podemos compreender os poderes da linguagem” (Homi Babha, O Local da Cultura, p. 97)*

 

 

 

O que pode ser um livro de poesia? Uma arrumação de poemas temporariamente suspensos no tempo, espacialmente dispostos num livro, ou unidade de sentido mediante o esforço de um artista que o assina e o pensa e o executa como projeto? Desinteiro, livro de estreia do experiente poeta-editor Guellwaar Adún, publicado em 2016 pela Ogum’s Toques, é um projeto desconcertante e consistente, um livro cuidadosamente pensado e executado para abalar a cena literária brasileira. Um livro de 164 páginas, dividido em quatro partes (Corda Retesada para Tiro, o Arco Armado, A Flecha, O Alvo), conta com capa belíssima de Dadá Jaques, ilustração de Raimundo Santos Bida e projeto gráfico do poeta que assina a obra.

Em Desinteiro o fragmento nos leva ao duplo, ao múltiplo, ao mesmo tempo que compõe um todo, por ser desinteiro, e não suas partes, suas metades. I-Tal e qual o livro, este ensaio de leitura pede licença a Exu para falar, Padêlicença. O “signo-como-símbolo” ** é tanto o dono do falo quanto o dono da palavra. É assim que se pode entender o trocadilho como estratégia de contra-ataque, de leitura descolonial da tradição, do poema como lugar do isso-e-aquilo. Eixo e Exu são muito mais que simples contraposições, são índices de um ouvido atento para a diferença entre o que se escreve e o que se diz, de um poeta que traz o que traduz, que se revela no que escuta e que problematiza na escrita o que a própria escrita pensada acriticamente não assimilaria como semelhante-quase-igual. Quando “encruzilhadas” é preterido por “encruzas”, tradições discursivas aparentemente distantes são alinhavadas: os pontos de candomblé e as rimas do rap. Ou como explicar a presença do étimo “encruzas” como item lexical no repertório de um poeta meio carioca, meio baiano? O seixoLalu acompanha Ogum(‘s Toques) e Oxóssi. Cancela ejós, dando luz a outros nós, sóis.

O filho de Oxóssi é guerreiro por definição. Reteza a Arca para o tiro e acerta o alvo branco. Desafia o olhar simplista, mostra o poder dilacerante que se exerce pela palavra, no alvo da página, no jogo entre palavra e alvo, nos interstícios, nas apropriações e nas aproximações: o rondeme é tanto o lugar do sacrifício ritual, quanto o panóptico sagrado a que voluntariamente se dirige o iniciado. Aqui o yorubá (e outras línguas africanas que meu ouvido colonizado não identifica), o espanhol, o francês, o inglês e o português se encontram no mesmo poema, dizendo serem os mesmos os problemas enfrentados na diáspora pelos filhos de África em seus encontros e desencontros, mediados pelos modos de gritar contemporâneos. Desse modo vemos um “eu” que vai aos poucos se dilacerando, em consonância com o rito de iniciação: meu eu,/ despido de meu corpo, (Diga a verdade às crianças); um eu que é um lugar sagrado: Meu corpo é meu templo (I-tal); um eu que se retesa no Arco Armado.

E é n’O Arco Armado, que o guerreiro e sua autoapresentação cede lugar para a cena da guerra e para a heteroapresentação (Ferdinandeando, Roteiro para Semembe). A guerra se dá na linguagem, na disputa por um território, naquilo que tem lugar (tempo) em e toma lugar de(espaço), relembrando Fanon, porque “Relembrar Fanon é um processo de intensa descoberta e desorientação. Relembrar nunca é um ato tranquilo de introspecção ou retrospecção. É um doloroso re-lembrar, uma reagregação do passado desmembrado para compreender o trauma do presente.” (Babha, 2005, p. 101) Fanon que, por sinal, é explicitamente retomado no texto de Guellwaar, não só em nome próprio e intimamente citado pelo prenome, como pela apropriação em forma de verbo em primeira pessoa, num dos poemas que, segundo minha limitada e parcial avaliação, constitui um dos momentos mais potentes do livro, inclusive por nele ouvirmos ao fundo a música versista de Cruz e Souza arrematando a polifonia complexa desse ouvido de músico-e-poeta: Frantz palavras e sotaques, fanoneio / portal do inverno, me recolho e me esgueiro. (Portal)

Já em A Flecha, muda-se a estratégia em relação aos nomes próprios. O que, em outros momentos é apropriação e de nomes próprios, para sinalizar afeto e/ou citação como estratégia poético-discursiva (baldwinamente, saramagueando, fernandiando, fanoneio), aqui é enfrentamento e nomeação: Thomé de Souza, não por acaso, vem em primeira pessoa logo após um poema em que é mencionada uma encomenda do rei (o rei e o mar) e antes do poema dedicado a Hamilton Borges Walê, um guerreiro nomeado e uma espécie de irmão-poético de Guellwaar, com quem compôs o grupo “Os Maloqueiros”, levando a poesia e o teatro para as ruas de Salvador. Essa parte termina no que seria o livro como tradicionalmente o concebemos, com a autoria assinada por um sujeito empírico, que assina uma construção verbal, mas que aqui é arquearia do verbo, em que o alvo é sempre o alvo.

Em O Alvo, o desinteiro se realiza, pleno. Lugar de inscrição do leitor, de incompletude assumida, de assunção da página em branco como locus do entrave, do conflito e da negociação entre leitor e autor, do princípio de cooperação entre o leitor que escreve e o poeta que lê: rasura e traço, poesia militante e não limitante, porque incompleta por consciência de si, por consciência do outro. Poesia em favor de, por ser poesia contra, no sentido formulado por Ricardo Aleixo (2000)***:

 

Vejo….. a ….“boa poesia” ……como…. .sendo ….aquelaque é,
independentemente. de. seus assuntos, contra. Contra a língua
cotidianaa. e ..a ..literária, contra. a …poesia anterior, contra os
conceitos correntes ..de poesia,. contra .a .poesia das palavras
“poéticas”,..contra ela mesma,contra a comunicabilidade fácil,
contra…. .o difícilde superfície, ..contra a.. História, ..contra a
filosofia,…… contra. .a. ordem.. social e .política vigente, contra a
ditadura do sentido único, contra a ideia de identidade (étnica,
cultural, …….religiosa,….. sexual etc.) ….enquanto uma “ficção
simplificadora” …..que ..tem como ..fim último ..a .exclusão da
alteridade, …..contra, ..enfim, ..a enfadonha.. convicção. de que a
poesia está morta.……………… ………………………………………………………..

 

Desinteiro é, portanto, um aceno em direção à poesia viva, que assume riscos, que interpela a participação ativa de leitoras e leitores, que dá a cara a tapa, propondo desafios e trazendo à cena vozes silenciadas, é a pergunta de Fanon “O que quer um homem negro?” tentando ser respondida: o homem negro quer, entre outras coisas, escrever poemas, dizer que está vivo, que caminha sobre espinhos brancos, assumindo sua condição de guerreiro em combate.

E eis a Dicção da Flecha, que prepara a cena do combate ao mesmo tempo que afirma o sagrado do combate, porque a guerra se faz no discurso, na inscrição do sujeito nesse discurso,  e também na cisão desse sujeito, deslocado, diferenciado, reencenando as autoabolições, para, re-nascer. E aqui encerro a minha cena da cena, encerrado nesse discurso em que também me vejo, re-nascido, dividido e multiplicado, desinteiro, irmanado ao sujeito que opera o procedimento cirúrgico e demiúrgico na linguagem:

 

Em busca da paleta imperfeita
na mosca, sem vida fácil,
fixação, incerteza,
zarabatana espreita
olho ácido,ágil
mira acesa

 

 

Notas:

 

* Trad. de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláudia Renate Gonçalves.

 

** Barthes, segundo Babha.op. cit.

 

*** Na Encruzilhada, no meio do redemoinho. In: Pedrosa, Célia (org). Mais Poesia Hoje. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2000. P. 154.
 

 

Alex Simões é poeta, escritor, professor, performer e tradutor de poesia. É autor de “Estudos para Lira” (inédito, Menção no Prêmio Copene 2001), “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (Domínio Público, 2013), “(hai)céufies” (Esquizo Editora, 2014) e “Contrassonetos Catados & Via Vândala”(Mondrongo, 2015). Colabora em Revistas Literárias, antologias e em blogs/sites de literatura. Ministra oficinas de poesia, com foco em versificação e ações performáticas em poesia. Recentemente traduziu o livro “Entonces Daniela” (Lummen Editora, 2015) e coeditou um número da Revista Organismo. Integra o Mapa da Palavra e é um dos colaboradores da Revista Barril.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Luís Perdiz

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

MIGALHAS

 

os monumentos são zoológicos do medo
violentas cortinas rasgam a noite

preciso de distinção nos dentes
instantâneos que não mordem

………..o jardim de apuros
onde nossas garras desaprendem o espaço

 

 

 

***

 

 

 

TEMPLO

 

nunca intacto
repouso nesta superfície de cascalhos
sonhos aprendidos ao hálito da terra
lágrima primata incrustada na labareda
planície viva do princípio
tarde marmórea por onde encontro

suas coxas quentes
secretamente solares

 

 

 

***

 

 

 

A HORA DA PANTERA

 

I

……………o meu amor meu bêbado amor que ruge
na órbita tenaz de cabelos e orquídeas
no subterrâneo vicejante da floresta do tesão
a argyreia dos olhos trespassa a senha dos ciclones
……………desarma o fogo e o laser dos saguões cinéticos
e com seu batom negro devora o próximo planeta

 

 

II

………….o meu amor meu vertiginoso amor que salta
pelos viadutos abismos arvoredos farpas
dilacera o aro do tempo com patas atômicas
arranha verbos vorazes na espinha das almas
……………ressurge ofegante no sofá-cama escarlate
luzente entre gozo e caos

 

 

 

***

 

 

 

BANQUETE

 

estirados sobre uvas e fogueiras
oferendados aos olhos do dragão
adormecidos em tambores e maços
devorados na miragem nupcial da ordem

as fábricas nas unhas crescem

 

 

 

***

 

 

 

UMA PRESA FÁCIL

 

o mínimo possível
estancado com zelo
ruidoso fêmur

pesar o pesadelo
de tantos ossos
a feroz visão
em limiares doces

nervo e seiva
laborioso istmo
maravilha consternada
porém viva

uma presa fácil
habita aquela antiga e frágil cama
onde os livros doem mais

 

 

 

***

 

 

 

INSTANTE ESTRANGEIRO

 

a tradução nuvem diamante em língua
uiva ausente sobre o telhado escandaloso

convites dispersos ressonância incógnita
gestos indecifráveis de rubi tráfego

tração fútil aos volts de neurônio
retrógrado na distância

trilhos devoradores
despedida de maquiagens áridas

navego nu em mim
estrangeiro náufrago

 

 

 

***

 

 

 

NOS CORRIMÕES DO SILÊNCIO

 

enxágua esta espera
desespera frenética
aranha indeferida

do impresso
chovem granadas

 

Luís Perdiz é poeta, compositor e editor do portal de literatura “Poesia Primata, voltado para a degustação e difusão da poesia brasileira contemporânea. Faz parte do projeto musical autoral “Estranhos no Ninho, do coletivo Ocupecompoesia e colabora regularmente em revistas de literatura e antologias. Com poemas de Saudade mestiça (Patuá, 2016), seu livro de estreia, foi agraciado com  menção honrosa no Programa Nascente USP. Atualmente vive em São Paulo.

 

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119ª Leva - 04/2017 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Degradé. Palestina/França/Canadá. 2015.

 

 

Degradé (2015) é um filme “made in Palestine”. A informação que vem numa das cartelas de abertura é crucial. São poucos ou raros os filmes que chegam da Palestina no Ocidente. Só este fato já justifica uma visita ao filme. Veremos que a questão da visibilidade é um dos elementos mais importantes de sua proposta estética.

Uma das principais virtudes do filme dos diretores irmãos Arab e Tarzan Nasser (pseudônimos de Mohammed Abunasser and Ahmed Abunasser) é evitar o caráter de denúncia ou mesmo a posição de vitimismo nessa visibilidade. Embora as condições da ocupação israelense sejam efetivamente trabalhadas no filme, elas serão tratadas “metonimicamente”, isto é, de forma deslocada.

A história do filme se passa inteiramente dentro de um salão de beleza feminino e é protagonizado quase que exclusivamente por mulheres. A dona do salão é uma russa que diz que dá na mesma morar na Rússia ou na Faixa de Gaza. Ela é ajudada apenas por uma jovem palestina. Ambas atendem uma moça jovem e uma mulher mais velha, enquanto outras mulheres aguardam a vez de atendimento sentadas nas poltronas.

O cenário poderia perfeitamente se passar no Brasil devido ao caráter periférico e precário do estabelecimento. As mulheres também poderiam perfeitamente se passar por brasileiras, dada a tez morena da pele, certa malícia de comportamento e até mesmo por causa do vestuário. As mulheres vestem-se casualmente, com jeans e algumas de camiseta. Em particular, a jovem cabeleireira ajudante, sempre ao celular, se comporta não muito diferentemente de qualquer moça brasileira das periferias urbanas. Apenas uma das mulheres que aguardam sua vez, a mais religiosa, usa véu escondendo o cabelo.

 

Cena do filme “Degradé” / Foto: divulgação

 

O fato de representarem para as câmeras sem o véu cobrindo os cabelos é um elemento fundamental na estética de Degradé. O salão cabeleireiro é um espaço de intimidade feminina. As mulheres fazem os cabelos, as unhas, se depilam e até mesmo tomam banho, pois há uma sala de banho no andar superior. Também conversam sobre suas vidas amorosas e até mesmo sobre sua sexualidade. Uma das mulheres diz que seu marido perdeu o apetite sexual e ela está ali para se embelezar e tornar-se mais sexualmente desejável, segundo suas palavras. A moça sendo atendida está se embelezando para um possível casamento (que ela rejeita), enquanto a ajudante do salão não sai do celular, angustiada com o namorado que está do lado de fora do salão, carregando uma arma. Há também uma mulher, negra, que é divorciada.

O espaço de intimidade feminina do salão é, na verdade, um espaço fechado sem homens. Os homens estão do lado de fora, armados até os dentes, prontos para um conflito, não se sabe exatamente com quem. Um deles (vivido pelo próprio diretor) é o namorado ou o apaixonado pela jovem ajudante do salão, que aparentemente o rejeita por sua participação na guerrilha ou na milícia. Ele passeia armado e conduz uma leoa sequestrada do zoológico e que teve, supostamente, seus dentes arrancados pelos guerrilheiros/milicianos. A ajudante do salão tenta equacionar, sem sucesso, um equilíbrio entre seus deveres profissionais e sua agitação amorosa pelo homem que a persegue.

Assim, o filme figura uma demarcação rígida de espaços: o ambiente do salão é o espaço feminino de intimidade, como extensão do espaço doméstico, porém mais livre, pois as mulheres podem comentar sua vida íntima e amorosa, suas frustrações ou alegrias, umas com as outras. Do lado de fora, é o espaço masculino da guerra, do confronto, do poder e da dominação. Entre os dois, há a janela do salão e as conversas de celulares. Os celulares são usados abundantemente para as conexões entre esses mundos.

A repartição entre o mundo público masculino e o mundo privado feminino é uma divisão conhecida nas sociedades islâmicas; no entanto, o filme desconstrói essa ordenação assimétrica de poderes introduzindo outras perspectivas. Se a câmera cinematográfica confinada ao salão de beleza pode ser uma metáfora da clausura feminina ao mundo doméstico e da suposta falta de liberdade das mulheres muçulmanas no Oriente Médio, no entanto, a própria esfera masculina do poder, nos territórios palestinos, está enclausurada entre os muros da ocupação e da segregação. O confinamento do foco cinematográfico ao espaço interior do salão não é tanto uma metáfora, mas uma metonímia, um deslocamento do isolamento murado e restringido da Faixa de Gaza, e da restrição ao ir e vir, tema de várias conversas entre as mulheres.

O salão de beleza é antes um espaço de liberdade feminino do que de reclusão. Num certo sentido, as mulheres estão mais livres lá dentro do que os homens do lado de fora, com seus conflitos de território. Mas há um aspecto ainda mais sutil nessa assimetria de perspectiva: a presença da câmera no interior do salão abre uma brecha na visibilidade proibida da intimidade feminina: as personagens mulheres são filmadas sem o lenço, com seus cabelos gloriosamente livres e à mostra. A proibição das mulheres exibirem publicamente seus cabelos é reiterada no filme e será um elemento dramático no final da história. Portanto, há uma ambiguidade estética na exibição cinematográfica desses cabelos femininos. A questão não é apenas que Degradé desafia uma restrição de ordem imagética ao dar visibilidade ao proibido. O “controle do imaginário” é antes colocado em jogo. O jogo de esconder e exibir os cabelos e a narrativa ficcional que nos apresenta as divisões de territórios são um único e mesmo jogo encenado pela montagem cinematográfica.

Daí porque o título do filme seja Degradé, o nome que se dá a um corte de cabelo em camadas. Inicialmente um corte de cabelo militar masculino, tornou-se moda entre as mulheres que lhes deram outra conotação, própria ao embelezamento. Degradé é uma ressignificação do conteúdo militar e masculino do corte, traduzido para o mundo feminino e também indica o deslocamento de uma realidade que é mais complexa do que divisões estritas de sexo, poder e política. Pois a exibição dos cabelos femininos pelas câmeras, para o espectador, por um filme “feito na Palestina”, relativiza a proibição do tabu e revela, num jogo de aparências, as camadas intermediárias de visibilidade.

 

Cena do filme “Degradé” / Foto: divulgação

 

Mas “degradé” também sugere aquilo que é “degradado” e a degradação se intensifica no filme com o decorrer da narrativa e a presença dos “ruídos” e do “caos” do mundo de “lá fora” para o interior do salão. Pois o mundo do exterior também é o mundo do confinamento e da segregação. A condição de desespero da situação palestina se degrada pelas divisões políticas internas entre os grupos que disputam o poder. Numa das cenas mais interessantes do filme, é proposta uma inversão de perspectivas: uma das mulheres do salão começa a imaginar o que seria se as mulheres palestinas tomassem o poder dos homens. Ela começa a distribuir os cargos de um novo governo entre as demais mulheres presentes. Essa tomada imaginária de poder é interrompida pelo aumento de tensão exterior que acaba invadindo o espaço interior do salão. A luz é cortada, não há gasolina para o gerador, os barulhos de bombas e tiros de fora impedem qualquer paz interna. As próprias mulheres começam a brigar entre si. A entropia de um mundo fechado começa a tomar todas as relações e os ruídos crescentes impedem as conversas e o compartilhamento das intimidades.

Curiosamente, a situação de confinamento de Degradé é semelhante a de outro filme recente, o egípcio Clash, filme que se passa inteiramente no interior de uma camburão policial, com detidos das manifestações após a queda de Hosni Mubarak. Simetricamente, o filme egípcio focaliza apenas homens dentro do espaço estreito e interior da viatura. Como no filme palestino, também sabemos pouco ou nada do que se passa no exterior. No entanto, a situação de fora é trazida para dentro com toda sua carga de tensão e violência. Clash é um filme mais bem “fechado” e “redondo” do que Degradé. Neste, temos um excesso de personagens, algumas sem função essencial na trama. O resultado é a impossibilidade de se aprofundar em seus dramas, de modo que, em alguns casos, temos personagens rasas, tais como a moça que está grávida e sente as dores do parto no interior do salão, exatamente quando um conflito acontece do lado de fora. Apesar disso, a questão do jogo de aparências, dos cabelos que não podem ser mostrados aos homens, mas que são ostensivamente exibidos pela câmera, bem como a abordagem de temas sobre desejo e sexualidade feminina e a crítica ao mundo violento e corrompido dos homens dá ao filme palestino uma sutileza ausente no filme egípcio.

Mas é sintomático que esses dois filmes recentes apresentem os dramas do Oriente Médio sob a perspectiva do confinamento do espaço. Devemos mesmo expandir esta percepção e olhar essas obras como artefatos estéticos da periferia capitalista, aquela que outrora se chamava de Terceiro Mundo. Mesmo que a situação da Palestina seja fruto de uma ocupação neocolonial, a sensação de uma experiência “sem saída” é a tônica da vivência de muitos povos e uma das razões do desespero dos deslocamentos imigratórios. E poderíamos igualmente imaginar este filme tendo como ambiente uma comunidade periférica carioca, em meio ao conflito entre traficantes, milicianos e policiais. É exatamente dessas situações de clausura existencial que os imigrantes procuram escapar. Embora termine tragicamente, Degradé, por sua vez, é um filme que abre suas objetivas para ampliar a visão estética dos espectadores. Nas telas, suas protagonistas femininas não são apenas vítimas, mas sujeitos capazes de fazer a vida continuar, com suas lutas, mas também com experiências de libido, afeto e solidariedade. Como diria a teórica Donna Haraway, é preciso “lutar na barriga do monstro”. O filme dos irmãos Nasser joga uma luz nessa barriga e expande as fronteiras da obscuridade produzida pelos muros da segregação.

 

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Cesar Cardoso

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Coreografia

 
Para Olivia Alvarez

 

Está sozinha no palco, apenas os espelhos a multiplicam. Ela e seu tutu, que a deixa quase nua. Ela e seu corpo e a dança. Ela e seu olhar, que só vê o palco, a dança, seu corpo, os espelhos.

Quando a música termina, a bailarina não agradece a ninguém. Simplesmente para no palco. Para dezenas de vezes em seus espelhos. Dezenas de vezes imóvel. Estará esperando os aplausos?

Até que as duas mãos de seu público levantam a caixa, dão corda novamente, pousam e observam.

 

 

 

***

 

  

 

Certificado de garantia Maxchild

 

Parabéns, papai. Parabéns, mamãe.

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***

 

 

 

Robinson Crusoé

 

Subo até o topo da duna de areia e vejo bem longe um sinal de fumaça. É vida, com certeza! Desço a duna a toda, fazendo os cálculos de como chegar até lá, e sigo a rota pensada, torcendo para não me perder mais uma vez.

Algumas horas depois subo mais uma duna e, ao chegar no topo, respiro aliviado. Desta vez não me enganei. Lá embaixo estão os motivos do sinal de fumaça. Um homem sentado em frente a uma fogueira. Desço ansioso, segurando a faca.

Ouço um ruído atrás de mim e me viro com o revólver engatilhado. Ele ainda tem tempo de saltar, mas eu atiro, acerto em seu rosto e ele cai ensanguentado e imóvel, com a faca a seu lado.

Me certifico de que está morto, pego a faca, subo até o topo da duna de areia e vejo bem longe um sinal de fumaça. É vida, com certeza!

 

 

 

 

***

 

 

 

Os bravos soldados do fogo

Para Cibele Fernandes

 

Acordei com a sirene. O barulho veio aumentando e eu esperei que fosse diminuindo. Mas não. Parou à minha porta. Levantei rápido da cama e corri para abrir a porta da frente, já dando de cara com os bombeiros carregando as mangueiras, gritando ordens, cercando o quintal e procurando, procurando. Eu também não encontrava nenhum sinal de fogo. Mas não tive tempo de alertá-los, eles já acionavam os hidrantes e encharcavam a casa toda. A princípio, não entendi aquele procedimento e até me aborreci. Mas eles foram gentis e pacientes e me fizeram ver que, por mais que a gente não perceba e mesmo não encontre, há sempre um incêndio.

 

 

 

***

 

 

 

Classificados 1 – Contentamento

 

Para Gabriela Amaral

 

É um bom emprego. Trabalhar com água é muito agradável, melhor do que com gente.

Primeiro tampo a pia, depois abro a torneira e deixo encher. Quando a pia está cheia, fecho a torneira, pego o conta-gotas e faço a sucção. Daí é só sair da casa, atravessar a ruazinha de terra e já estou na praia. Vou até o mar e esvazio o conta-gotas. Depois volto e repito a operação até esvaziar a pia. Então é só encher de novo e recomeçar.

Tem alguma coisa a ver com as marés, mas eu ainda não entendi muito bem. O importante é que eles estão contentes com o meu trabalho.

 

 

Cesar Cardoso é carioca e formado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2012, publicou o livro de contos “As Primeiras Pessoas”, pela editora Oito e Meio. E em 2015 lançou “coisa diacho tralha” (poesia), pela editora Texto Território. Escreveu para a revista Caros Amigos e para os jornais O Pasquim e O Planeta Diário. É roteirista, tendo escrito programas de tv como Tv Pirata, A Grande Família e Sai de Baixo. Atualmente, é roteirista do programa Zorra, que em 2016 foi indicado ao International Emmy Awards de melhor comédia. Os contos aqui selecionados fazem parte do seu mais novo livro, “Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos”, publicado recentemente pela Editora Oito e Meio.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara Síntique

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Seio

 

meus seios estão agora
devorados por tigres
que os engolem
com fome e lascívia

esses pequenos órgãos
não serviriam ao leite
ou à valsa de teus dedos
ou à tua língua
veneno aos mamilos

tampouco seriam acampamento
às guerrilhas da morte

esses tigres estraçalham
as carnes miúdas
e sem pressa
e fervorosos de abundância
se encaminham para o ventre.

 

 

 

***

 

 

 

Revoada

 

amanhã ou hoje
voar ao sol
para sentir o calor
sobre os ossos
esse que eu não encontro
em parte alguma
e que a ausência não consola.

 

 

 

***

 

 

 

Andarilho

 

somente as pernas sentem o gozo
e quando muito
os pés – as pontas dos dedos
adormecem e flamejam.

mas se o cheiro do líquido
chegar à língua
e nela se fizer um gosto:
tua estrada proclamou-se sem fim.

 

 

 

***

 

 

 

Tontura

 

eu queria a insônia de Mekas
e ser com ele
aquele verde
e aquele sol
e alongar o corpo ao chão
dissolver o corpo ao chão
mas a minha insônia
ela só me agarra ao cigarro
e tua companhia não existe mais
há solidão e bagunça
canção alguma a ouvir
a não ser a voz
de um homem
embriagado
na televisão
eu não consigo estar nesse corpo
depois dessa imagem:
a voz dele como reza
e os copos vazios.

Mekas não me dirá mais nada.

eu já entendi o pausar do desejo
já me deitei sobre a náusea
e sobre o vômito
e sobre o som do acordeão
teimo em escrever isso que vai sendo pedido
mas eu me quero sono, me quero silêncio
os membros são pedaços de fúria
e não há controle
todo o meu vibrar em contradição
e ainda existe o teu ciúme
e meus olhos sobre teu dorso inteiro
e um pensar até doer a cabeça
e um desistir de parar ou tentar.

não, Mekas, eu não rezarei ao além.

 

 

 

***

 

 

 

Coração ou fragmento

 

guardo em silêncio feérico
teu corpo viçoso
ligeiro e pesado
no meu corpo em pedaços

guardaria assim mesmo
se fora de leveza e ternura

queria poder fingir inteirezas.

 

 

 

***

 

 

 

Útero ou dissolução

 

escorrega desse sangue
o eco de teu choro.

escorre entre as pernas
a insensatez das palavras –
enquanto escavam o colo
tuas dez garras miúdes,
suficientes e exatas
para bem-aventurar a loucura.

e o útero,
berço nunca plácido,
da rasura,
da sobra,
da secura dos galhos,
dissolve o corpo inteiro,
tua morada.

 

 

 

***

 

 

 

Além da memória

 

A Sidney Souto
in memorian

 

o corpo não zera depois da morte
não estão nulos, os órgãos
eles se arranjam pelo espaço
os processos químicos prosseguem
e ele se entremeia na terra
e dança com ela, em silêncio.

também não zera depois do amor
mas visita um espaço
quase vazio, quase inteiro
e nele é quase místico, quase cético
quase terra, quase céu

depois do amor, o corpo é quase
um entre,
a não caber em escala alguma
como se fora poesia, mas ainda não o é

o corpo, talvez, zere aqui
nas palavras,
nesse dizer, um desdigo
aqui,
no buraco invisível,
imagem e só,
aqui, na palavra,
zero e infinito.

 

Sara Síntique é graduada em Letras Português-Francês e mestranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Nasceu em Iguatu (CE), em 1990, e reside em Fortaleza desde 2001. Autora do livro de poesia “Corpo Nulo” (2015, Editora Substânsia), também é atriz e performer.