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119ª Leva - 04/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Em entrevista concedida à Diversos Afins, em 2013, Eduardo Lacerda apontou dois desafios especiais para o crescimento da editora Patuá, que havia montado fazia apenas dois anos: publicar livros diferentes e únicos, que inovassem o caráter editorial de alguma forma; e conseguir gerar lucro com isso.

Passados três anos, a realidade financeira do selo não se distingue da de qualquer editora pequena e independente no Brasil, cujo editor, além de se preocupar com a qualidade artística da obra, “tem de embalar cada livro, levá-los aos correios, pagar contas em vários bancos diferentes, implorar para que alguém os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer páginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulgação dos livros”.

Quanto ao primeiro desafio, no entanto, pode-se dizer que foi superado com louvor. Com mais de 500 títulos lançados, a Patuá é hoje referência no mercado editorial para os autores que procuram uma maneira de debutar na literatura. Mas o reconhecimento não depende apenas dos estreantes. A notoriedade trazida por prêmios e pela presença constante na lista de indicados atrai, cada vez mais, escritores renomados que encontram, na editora, um novo porto de lançamento para seus trabalhos.

Na entrevista a seguir, Eduardo Lacerda faz um balanço dos últimos seis anos à frente da Patuá, tocando em temas que constituem um cenário realista do mercado editorial brasileiro, refletido a partir da experiência de se comandar uma editora que segue com a postura de independente. Com lucidez e otimismo, o poeta que se tornou editor fala ainda sobre vitórias e frustrações, mercado literário, premiações, formato digital, leitor no Brasil e da razão de seguir acreditando no que faz.

“Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante não só para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma época. Um leitor pode ser tão importante quanto milhares de leitores”. Uma leitura recomendada para quem já está e para aqueles que pretendem ingressar nos caminhos sinuosos – e nem sempre recompensadores – do universo do livro.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Passados quatro anos do lançamento da antologia poética “Outro dia de folia”, sua carreira de escritor segue em pausa. É mais fácil ser editor que poeta?

EDUARDO LACERDA – Eu não tenho uma carreira como poeta, tenho um livro publicado, composto por poemas escritos em um momento da minha vida no qual escrever era importante. Hoje escrever não é mais importante, acho muito importante ler e, como minha profissão, acho importante o trabalho de editor, o qual eu exerço com paixão, a paixão que eu não tenho mais como poeta. Mas também não é fácil ser editor, hoje leio muito menos do que lia há dez anos. Cuidar de uma editora pequena e independente me exige a leitura, mas também embalar cada livro, levá-los aos correios, pagar contas em vários bancos diferentes, implorar para que alguém os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer páginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulgação dos livros. A edição, como trabalho, vai além e fica aquém da leitura, para o bem ou para o mal. Mas acho que o mais difícil é ser leitor do que ser poeta, considerando que ser leitor exige isolamento, reflexão, convívio com os textos e muita recusa. Já muitos poetas (e mesmo eu, quando fui poeta e agora, como editor) buscam o que é público, o reconhecimento, a leitura do outro, a crítica do outro, a venda do livro, a participação no evento. Quando somos apenas leitores, nos bastamos a nós mesmos, mas um poeta e também um editor não se basta sozinho, precisa do outro, o outro é imprescindível na busca de si mesmo. Se eu pudesse, seria apenas leitor.

 

DA – Fundada em 2011, a Patuá carregou, durante um tempo, o rótulo de ser uma editora voltada para a poesia. Hoje, o catálogo é bem variado, inclusive com proporções igualitárias entre romances, antologias de contos e antologias poéticas. Essa realidade já fazia parte da ideia original, quando planejou o foco da editora, ou foi algo inevitável, que ganhou forma de acordo com os pedidos de leitura de originais que chegavam?

EDUARDO LACERDA – Um editor precisa ser apaixonado pelo que lê e precisa ser um bom leitor daquilo que pretende editar. Eu não sou um bom leitor de literatura infantil ou de literatura infantojuvenil, por isso não me arrisco muito a editá-la. Eu reconheço sua importância, mas acho que outros e outras profissionais farão uma edição muitíssimo melhor do que a minha. Sou um bom leitor apaixonado de poesia e, talvez, um leitor mediano, mas apaixonado, de prosa. É natural que a poesia tenha um espaço maior dentro da editora, minha formação anterior, como editor, foi editando fanzines, jornais e revistas literárias. Eu convivi, na última década, com centenas de poetas antes de efetivamente editar seus livros, de muitos já tinha editado poemas nesses jornais, revistas, zines, articulado eventos, saraus. É uma relação anterior que tenho com os poetas e com a poesia. Mas gosto muito de prosa, de contos e de romances, e é natural querer publicá-los também. Contudo, o número de poetas publicados ainda é muito maior.

 

DA – Outra característica da Patuá era de ser um porto para autores estreantes. Com o amadurecimento da editora, porém, escritores de renome, com títulos lançados pelos chamados grandes selos, começaram a ser publicados pela Patuá. Você percebeu isso como uma consequência da incapacidade das grandes editoras de manter esses autores ou como a procura destes por um selo pequeno, que oferece uma participação ativa nas etapas do processo de feitura do livro? Chegou a se preocupar quando esses contatos começaram a acontecer? O que procura um escritor consagrado ao entrar em contato contigo?

EDUARDO LACERDA – Ainda somos uma editora focada nos autores estreantes. Nesse primeiro semestre, publicamos dezenas de autores e autoras estreantes e, dos ditos consagrados, ou mais experientes, apenas o novo livro de poemas do Ronaldo Cagiano e o novo romance da Micheliny Verunschk, que apesar de muito reconhecida como poeta, teve seu primeiro – e muito premiado – romance publicado com a Patuá. Ano passado publiquei as antologias poéticas de dois autores que me formaram, mas não posso dizer que são consagrados, apesar de algum reconhecimento, que são o Sergio Cohn e o Fabio Weintraub, mas eles sempre foram publicados por editoras pequenas ou médias. Claro, temos muitos autores que publicaram seus primeiros livros com outras editoras pequenas ou de forma independente, muitos que já não são estreantes, mas que publicaram seu livro de estreia com a Patuá. Acho que um catálogo de 500 títulos, como o nosso, permite uma pluralidade de autores e autoras. Dependendo do recorte feito, a impressão pode ser uma ou outra.

 

DA – Nesses seis anos de existência, a Patuá acumula premiações expressivas, tais quais o Jabuti e o São Paulo de Literatura, além de ter autores da casa regularmente entre os finalistas. Qual é o efeito real de um prêmio para uma editora de pequeno porte/independente?

EDUARDO LACERDA – Em um primeiro momento, ganhar um prêmio aumenta o “prestígio” da editora, o que acaba atraindo muitos escritores querendo publicar conosco. Após o resultado positivo em algum prêmio, recebemos um número três vezes maior de originais. Também vendemos um número maior, mas não expressivo, de exemplares do livro premiado. Acho que prêmios são importantes, precisam existir, assim como os eventos literários, mas eles não definem a literatura. No caso da Patuá, minha felicidade em ganhar um prêmio é saber que rompemos uma lógica de que somente as grandes editoras ganham esses prêmios. Já ganhamos duas vezes o Prêmio São Paulo, duas vezes o terceiro lugar do Jabuti, de poesia e de contos, dois Prêmio Guavira (um prêmio menos conhecido, do Mato Grosso do Sul), tivemos muitos autores semifinalistas e um finalista do Oceanos/Portugal Telecom, tivemos já cinco autores finalistas do Jabuti e, em 2017, a Patuá tem dois livros finalistas do Prêmio Rio de Literatura.

 

DA – Hoje você já consegue selecionar o original que irá publicar? O que leva em conta nessa escolha? E de que forma lhe chateia a maneira de um autor se portar diante da editora, pelo fato de ser independente? Talvez algo que certamente este nunca fizesse, caso fosse recusado ou tivesse de negociar com um grande selo.

EDUARDO LACERDA – Eu sempre selecionei o original que publicamos. Não cobramos a edição, não ganho nada publicando algum livro sem acreditar nele, nem lucro monetário, nem um bom catálogo, posso até errar, mas erro por vontade própria, não porque o autor está pagando pela edição. Leio tudo o que publico, mas não posso dizer que consigo ler tudo o que recebemos para publicar, mesmo se me dedicasse apenas à leitura de originais, ainda assim o tempo necessário seria maior do que possível. Por isso (e por muitos outros motivos) acho bom que existam outras editoras trabalhando bons livros, não entendo uma outra editora como concorrente. Já sobre como os autores se portam, os autores e autoras são o que há de melhor e de pior no meu trabalho. Não teria conquistado nada sem a confiança de algumas pessoas, de alguns escritores e escritoras incríveis que me ajudam, apoiam, leem e compram nossos livros, que são muito generosos. Ao mesmo tempo é desgastante ter que responder algumas mensagens absurdas de madrugada, de pessoas que não confiam em nosso trabalho, que se estivessem em uma editora maior tratariam o editor de outra forma, mas eu, hoje em dia, ligo pouco para isso, para esses problemas. Em seis anos de trabalhos e mais de 500 títulos publicados, apenas três autores saíram com problemas da editora, brigados, alguns poucos outros tiveram problemas, mas que foram solucionados. Acho que a maior parte dos autores entende o que é e como funciona o trabalho de uma editora pequena e independente.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – A Patuá também oferece serviços editoriais para autores que optam por pagar por seus livros. Muito se discute sobre o papel do editor nesse tipo de situação; se o fato de o autor custear a tiragem não faria com que houvesse um olhar mais benevolente sobre os defeitos da obra. O que pensa sobre isso?

EDUARDO LACERDA – Do nosso catálogo de 500 títulos, posso afirmar que não chega a 10 o número de livros pagos pelos autores, talvez um pouco mais, mas provavelmente até menos. Todos os outros livros foram pagos por mim, por meio da venda de livros a leitores. E desses 10, apenas de um me arrependo, que posso admitir que publiquei por necessidade financeira e não por escolha minha e isso com consciência do autor. Um livro pago pela autora e do qual me orgulho é o nossa “Teresa – vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk. O livro teve patrocínio da Petrobras, precisava de uma tiragem de 1500 exemplares e a autora tinha os recursos do prêmio para isso. O livro é excelente, de uma autora já reconhecida e que me enviou o original para leitura, original do qual gostei, era um livro que teria publicado gratuitamente (claro que com uma tiragem menor). Outros livros pagos pelos autores eu teria publicado gratuitamente, aliás, é o que faço quando pedem orçamento, leio e avalio, se aceito a publicação paga é somente se for por opção do autor. Dinheiro assim não me seduz, embora precise de dinheiro para manter o meu projeto. Pagar pela edição não é um problema, grandes e bons autores pagaram por suas edições. Ótimas editoras realizam esse trabalho com um critério e qualidade ainda maiores do que o meu. Não acho um mérito ou me vanglorio de não fazer muitos livros pagos, acho que é a minha opção de trabalho, que me traz alguns resultados positivos, como manter minha coerência editorial, que é até bem incoerente; e negativos, como deixar a editora quase sempre com problemas financeiros, não graves, mas também muitas vezes falta dinheiro para alguns projetos que gostaria de realizar.

 

DA – Seguindo nessa mesma linha de raciocínio, a proliferação das pequenas editoras proporcionou um aumento expressivo de novos autores no mercado. Muitos por meio dessa condição de pagar pela publicação de seus livros. Sendo assim, temos uma faixa etária cada vez mais baixa de escritores estreantes, muitos deles claramente despreparados para entregar uma obra de qualidade. Ao ter contato com alguns originais, você chega a conversar com esse tipo de autor, aconselha que espere um pouco, lapide a escrita, forme-se como leitor primeiro, antes de pensar em publicar o primeiro livro?

EDURADO LACERDA – Poucos escritores querem ouvir conselhos, muito menos os mais jovens. Com a facilidade de publicação, qualquer escritor encontrará uma forma de publicar seu livro de estreia (ou dezenas de livros por ano), seja por uma editora tradicional, seja por uma plataforma de autopublicação, seja pelo Wattpad, pela Amazon, por um blog, pelo Facebook. É uma opinião muito pessoal, muito, mas eu acredito que a literatura é um direito, é direito ler, é direito escrever. Se a facilidade gera banalização (e gera), também cria oportunidades de aumentarmos o número de escritores e de leitores, o que é ótimo. Não há como nos beneficiarmos de uma condição sem trazer junto vários de seus aspectos negativos. Agora, como filtrar esses aspectos negativos, isso é um ótimo desafio.

 

DA – O lançamento do primeiro livro, sobretudo quando o autor é jovem, é envolto por uma camada espessa de vislumbre sobre o que é o mercado e o meio literário. Muitas vezes, é difícil para um autor compreender que a carreira de um livro não depende do quanto ele ache que dará certo, que será um sucesso. Você lida com esse tipo de ingenuidade e, posteriormente, relatos de desapontamento? É papel do editor transmitir para o autor uma realidade que vai além daquela contida em seu livro?

EDUARDO LACERDA – Sim, lidamos com as decepções e frustrações de dezenas de escritores todos os dias. Não só com os autores mais jovens, mas também aqueles mais velhos, mais experientes. É comum receber ou publicar o livro de um autor mais velho, que já lançou livros nos anos 80 ou 90 e ver a decepção com as vendas, com a repercussão, diferentes da que tiveram há algumas décadas. Escuto muito desses autores “meu primeiro livro vendeu 300 exemplares na noite de lançamento, não vou vender menos do que isso”. Quando o livro não chega aos 50 exemplares vendidos, a decepção é enorme, alguns chegam a culpar a editora, que nunca trabalha de forma suficiente. Também os meios de divulgação são muito diferentes, alguns autores esperam ainda que o jornal irá noticiar o lançamento, mas sabemos que isso não ocorre mais. O lançamento de um livro, exceto para o autor e para a editora, não é mais um acontecimento social, que desperta interesse público (exceto em cidades menores, nessas cidades a dinâmica de um lançamento é muito interessante, os jornais locais noticiam, pessoas “importantes” da cidade muitas vezes comparecem). Podemos somar às decepções, além da recepção e das vendas, a inexistência de crítica literária (existem ainda alguns bons resenhistas, mas que não dão conta da leitura de milhares de lançamentos todos os anos) e os prêmios literários, poucos e que nem todos vão ganhar, mesmo com bons livros. Essa decepção ou frustração gera, em alguns autores e autoras, uma ansiedade, uma necessidade de lançar vários livros em um curto espaço de tempo, na expectativa de que o próximo livro alcance o sucesso que o anterior não encontrou. Assim um livro vai substituindo o outro sem que haja um tempo mínimo de trabalho. O editor deve explicar, mas também entender (muitos não entendem), que um livro é um trabalho a longo prazo. Um livro não pode morrer dentro do catálogo da editora e tem que continuar acontecendo, mesmo que os resultados venham bem devagar. É bem difícil, mas é possível.

 

DA – A Patuá trabalha com pequenas primeiras tiragens, entre 50 e 200 exemplares. Muitos desses livros acabam não alcançando leitores e, muito menos, os cadernos culturais e a chamada crítica especializada. Ter um livro publicado, assim, acaba sendo mais um capricho. Isso lhe angustia de alguma forma? E, diante de um cenário em que a literatura tem cada vez menos espaço nos jornais e nas revistas, como avalia a importância dos sites, blogues e demais plataformas digitais voltadas para a literatura?

EDUARDO LACERDA – Me angustia, mas não considero um capricho ter um livro publicado com uma baixa tiragem. A culpa não é do autor, da autora ou da editora, temos um problema gravíssimo de falta de leitores e descaso pela literatura. O escritor, a escritora, eles escrevem. A editora publica. Ambos trabalham para que o livro chegue ao leitor. Se o livro é bom, se o autor, se a autora, trabalham sua literatura e levam isso a sério, uma hora a literatura se sobrepõe ao que não é literatura. Mercado editorial não é literatura. O que eu faço, editar livros, não é literatura. Literatura é o que está escrito e que nós damos suporte, um bom suporte, que pode ajudar que a literatura chegue ao leitor, mas quem escreve é o escritor e lançar um livro para poucos leitores, embora seja triste, não é apenas um capricho. Os sites, blogs etc são muito importantes. Excelente literatura está sendo produzida e publicada diretamente nessas plataformas. Autores e autoras mais jovens, que ainda nem conhecemos, estão se formando, lendo, comentando, refletindo, a partir de literatura divulgada pela internet.

 

DA – Falando em digital, li uma entrevista sua, faz alguns anos, em que defendia apaixonadamente o livro físico. Ainda tem a mesma opinião sobre a relevância da obra em papel? Não há, num plano futuro, a intenção de lançar os livros da Patuá também em formato digital?

EDUARDO LACERDA – Eu ainda sou apaixonado pelo livro impresso, acho que nunca deixarei de ser, mas não sou contra ou avesso ao livro digital. Pelo contrário, acho incrível a possibilidade de termos milhões de livros acessíveis, o que pode ajudar a democratizar o acesso ao livro (pode, talvez ainda não esteja, porque formação de cultura e hábito de leitura não estão relacionados apenas com a disponibilidade de livros).  Futuramente também a Patuá terá livros digitais, mas ainda não é um plano. Editar um livro pode ir além da plataforma ou suporte escolhido para ele existir, se impresso ou se digital. Eu ainda me importo muito com a possibilidade do encontro que o livro impresso permite, a festa de lançamento, as leituras públicas (embora muitos poetas leiam hoje em dia em seus celulares), as trocas de livros, as feiras, o livro impresso permite ainda um encontro entre pessoas que eu gosto muito. É um romantismo meu, ao qual me permito. Talvez esse encontro exista no livro digital também, talvez um dia passe a existir para mim.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Ao contrário de muitos editores, que preferem trabalhar nos bastidores, você é um editor ativo, que participa de eventos e está sempre divulgando seus autores. A Patuscada, um misto de livraria e bar, é possivelmente a melhor representação desse tipo de atitude, cuja intenção maior é congregar autores e leitores. Essa é também uma maneira de ter uma contrapartida às livrarias, de projetar os livros que não estão nas vitrines dos shoppings literários? E já houve a intenção de levar os livros da Patuá para essas prateleiras?

EDUARDO LACERDA – Eu adoro livrarias, não detesto a forma como elas trabalham com as editoras, é simples. Acho que o Brasil tem pouquíssimas livrarias e que precisamos incentivar e criar milhares de outras, através de leis que promovam a isenção de alguns impostos para as pequenas livrarias (não para as grandes) e de outras ações. Aliás, eu costumo dizer que mesmo São Paulo não tem livrarias, temos algumas megastores e algumas boas livrarias em regiões ricas da cidade, como a Paulista, Jardins, Pinheiros, Vila Madalena etc e em alguns shoppings, essas mais para livros de alta vendagem, os chamados best-sellers. Não estou fazendo um julgamento de qualidade, apenas apontando como e o que trabalham. Será raro, nessas livrarias de shopping, encontrarmos livros até de autores conhecidos, reconhecidos e consagrados, como, por exemplo, Clarice Lispector ou Mário de Andrade. Poesia, talvez, aquela utilizada no vestibular do momento ou a lançada pelo último BBB poeta ou pelo Gregório Duvivier (novamente, não é um julgamento de valor, mesmo porque gosto de alguma poesia dele). Mas se pensarmos nas regiões de classe média, nas mais pobres ou nas periferias da cidade de São Paulo, não temos mesmo livrarias. Precisamos discutir o modelo como trabalham as livrarias. É impossível pensar que uma empresa (a livraria) pega produtos (o livro) em consignação, com frete de ida e volta por conta dos fornecedores (o editor), pede 50% de desconto no preço final do livro, depois de efetivar a venda ainda pede mais 120 dias para pagamento, se o livro for danificado o exemplar é devolvido da mesma forma, com prejuízo à editora. Até pouco tempo atrás esse sistema ainda garantia que nossos livros seriam expostos nas livrarias, mas atualmente a situação é ainda mais absurda, porque a maior parte das livrarias apenas cadastram os livros em seus sites e só nos pedem o exemplar se for vendido. Cuidar de um bar e livraria é uma experiência incrível, ainda assim com suas (minhas) frustrações. Vendemos pouquíssimos livros, muitos escritores aparecem por lá para beber, mas nunca levaram um livro. Enfim, não vou ganhar no grito, meu trabalho continua e, se fosse fácil, muita gente estaria fazendo.

 

DA – Dando uma olhada nas listas dos mais vendidos, fica evidente a hegemonia dos grandes selos, sobretudos aqueles que trazem, em seus catálogos, traduções de best-sellers internacionais. Como fazer uma editora independente ganhar expressividade nesse cenário em que a literatura contemporânea brasileira, sobretudo a composta majoritariamente por autores desconhecidos, está longe de representar a preferência dos leitores?

EDUARDO LACERDA – Como disse, a literatura, o que é literatura, não se mede pelo número de leitores; a literatura existe, resiste e será sempre assim. Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante não só para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma época. Um leitor pode ser tão importante quanto milhares de leitores. Eu acredito nisso ou já teria abandonado a edição independente.

 

DA – O brasileiro é um leitor ruim?

EDUARDO LACERDA – Não podemos culpar o indivíduo pelo sistema. O Brasil, como país, tem um projeto político de não formação de leitores. É um projeto mesmo, político, social, cultural e econômico de um não interesse para formação de leitores. Começa com o descaso com a educação, mas somente a educação não garante que teremos leitores, passamos também por diversos períodos de proibição da circulação de livros e literatura. Nossa história é uma história de descaso com o livro, com a literatura e com o leitor.  E não podemos chamar de leitor ruim quem não lê e quem lê aquilo que consideramos literatura ruim. Sim, acho que existe uma boa literatura, mas, como já disse, acredito que a leitura e a literatura são direitos, direito de ler, direito de escrever, direito de publicar. Experiências em saraus de periferia, por exemplo, que dão a palavra para a pessoa comum, de todas as profissões e de todas as cores, de todas as classes sociais, como chamar essas pessoas de leitores ruins? São leitores, talvez alguns ainda em formação, mas leitores. Estão se apaixonando pela literatura, pela poesia, estão escrevendo. O que poderá explodir e acontecer a partir disso até mesmo de boa literatura em nossa visão tão limitada do que pode ser boa literatura? Por outro lado, temos – eu tenho, eu pelo menos quero ter – o dever de ajudar a mudar esse país, de pensar um país que ame sua literatura, que ame o livro, seja ele impresso ou digital, que ame seus escritores, que ame seus leitores, sejam eles bons ou ruins.

 

DA – Olhando para o Eduardo Lacerda que, em 2013, criou a Patuá, consegue enxergar uma certa inocência na maneira como ele enxergava o mercado literário? E, passado esse tempo, qual a melhor coisa que ser dono de uma editora lhe proporcionou?

EDUARDO LACERDA – O Nelson Rodrigues que disse que sem paixão não dá nem pra chupar um picolé, também não se faz muita coisa sem inocência, nem mesmo amar é possível sem inocência. O grande desafio é continuar um pouco inocente e apaixonado. Eu descobri um caminho seguro nesse mercado literário e editorial, recebo os livros, leio, consigo, de alguma maneira, escolher alguns bons títulos, envio para um grande artista fazer a concepção de capa e projeto gráfico, mando pra gráfica, faço o lançamento, envio para jornalistas e críticos, vendo um pouco, pago os custos, faço o próximo livro, eventualmente ganhamos algum prêmio. Certo, não é só isso, isso é um resumo, mas é um caminho seguro. Como ser inocente e apaixonado e pensar que, sabendo disso, de algo que já dá bons resultados, posso pensar em algo diferente, que me contradiga, que me oponha ao meu trabalho e me renove? A melhor coisa de ser dono de uma editora é fazer os amigos que eu faço. Escritores e escritoras, sim, mas também pessoas admiráveis. Não sei se meu trabalho pode mudar o mercado editorial ou literário, não sei se estamos fazendo alguma história. Mas eu sei que estou fazendo a história da minha vida e de alguns/algumas escritores e escritores. E fazer sua própria história, de forma apaixonada, já me parece bem importante.

 

DA – Vale a pena trabalhar com livro no Brasil?

EDUARDO LACERDA – Vale, vale muito! Acho que se tivesse seguido uma carreira de professor, que é a minha formação, se tivesse terminado a graduação, feito um mestrado, um doutorado, talvez eu tivesse uma estabilidade financeira um pouco maior. Mas nunca teria me divertido tanto, feito tantos amigos, lido tantos ótimos livros.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Groza

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Articulações Endurecidas

 

Jade lavava pedrinhas antigas que encontrou numa gaveta da avó. Não pareciam pedras preciosas. Mas Jade as afagava com cuidado, submergidas, como se fosse o próprio corpo da avó. Morrer é se converter em pedra. O corpo duro em cima da mesa do velório lhe deu essa impressão. As articulações da mão estavam endurecidas. Não sei por que Jade tentou dobrar o punho da vó, como fizesse um exercício de fisioterapia que ela mesma tinha feito quando quebrara o braço. Tentava talvez dar ânimo à vó. Mas logo tiraram a menina abobada de perto do corpo. Jade: que aliás fisicamente era muito parecida com a vó, ou com o que ela tinha sido na juventude.

_ A vó gostava muito de você! disse a mãe para Jade, enquanto a menina continuava a alisar as pedrinhas coloridas.

A vó Vera foi a única de toda a família a aceitar a gravidez da filha, mãe solteira, e até se separou do marido que queria botar a filha grávida no olho da rua. Cidade de interior, moralismo e preconceito é coisa farta. Quando Jade nasceu, o pai ainda zombou, dizendo que ela tinha parido uma retardada. Os fofoqueiros da família diziam que devia ser filha de algum primo. No ano seguinte, quando o pai se finou, a mãe de Jade não foi no enterro e ainda postou na Internet: “Não me venham com condolências. Faz muito tempo que não tenho pai.” A vó Vera desaconselhava esses rancores, até podia entender, mas rezava para que os nós do rancor desatassem do peito da filha.

A gaveta que Jade estava arrumando tinha também um cachimbo. Mas ela fingia estar atenta às outras coisas. Com uma bacia de água ao lado, lavava as coisas da vozinha. Só de vez em quando ela lançava um olhar de rabicho para o outro lado da gaveta onde estava o cachimbo da vó. Sabia que se pegasse o cachimbo, a mãe ralharia, pois esta vez ou outra também lançava um olhar pra ver o que Jade estava fazendo, enquanto desocupava o armário.

_ Uma vez quando você tomou acetona, foi vó que levou você pro hospital!

_ E eu fiquei bêbada, mãe?

_ Não, mas teve que fazer lavagem no estômago.

_ Mas se não tivesse feito lavagem, eu ficava bêbada?

_ Não, Jade! Isso foi quando você era criança…

Jade não é mais criança. Mas sabe que é “meio retardada”, como os meninos da rua tantas vezes repetiram. Por isso ela pode cobiçar o cachimbo; e planeja pegá-lo escondido. É só esperar: porque primeiro a mãe conta alguma história da vó, depois algumas lágrimas rolam. E vai ser no próximo rolar de lágrimas que vou apanhar o cachimbo e jogar pra debaixo da cama.

Jade não é mais criança, mas também não pode fumar. Fumar faz mal. Jade é meio retardada, mas não deixou de ver que, no velório da vó, a mãe saiu pra fumar e voltou cheirando a cigarro.

Entre um acontecido e outro desenterrado da memória, a mãe começou a chorar de novo e logo saiu pra se assoar no banheiro. Jade então teve tempo de pegar o cachimbo, botar na boca e dar uma tragada imaginária. Depois o jogou para debaixo da cama.

_ Jade, vamos parar um pouco. Pra almoçar?!

_ Pode ser mãe, tô com fome.

Na verdade, ela tinha na boca um gosto da poeira velha acumulada no fundo da gaveta. Pensou nos restos mortais da vó, que estavam dentro de uma pequena urna na sala. Estava sem fome. Mesmo assim ela e a mãe foram almoçar. Jade comeu com gulodice.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Hieróglifos

 

 

Mãe, deixa ser meu o quarto da bagunça? Era desejo antigo. Ter um quarto. Quase uma casa. Não era só veleidade de menino. Deixa ser meu o quarto da bagunça! O caçula já tá grande, pode bem dormir sozinho. Mas o quarto de vocês já é uma bagunça! Olha, Mãe! Sonâmbulo descabido. Olha que eu monto cabana de lençol na garagem. Convoco os amigos, chamo os vizinhos. Trincheira de brinquedos e livros. E, quando crescer, faço festa durante a quaresma. E ainda viro boêmio! Não acredita?

Ela deixou. Agarrei tarefa de ajeitar tudo: traz a cama, cola um pôster, muda o espelho. Mãe, vou fazer uma tabela de basquete na parede! Bem em frente à cama… Pode? Pintei de amarelo o quadrado, circulei com preto e, para fixar a cesta, furei os dois exigidos buracos. Mas durou pouco. O queixo duro respondeu de través. Pisou tenso em desalento de é meu, é meu, é meu… Então a Mãe desaprovou, emprestou da bruxa uma vassoura e foi redesenhar o trabalho: tirou a cor de dentro do quadrado, espalhou por toda a parede o novelo amarelo embaraçando. Restos de palha da vassoura grudados na tinta. Colagem rupestre. Parede ficou amarela e branca. Pintura abstrata. Parecia um ninho profanado, com a gema dos ovos escorrendo.

Zanga de leão ferido: fui lá e também registrei minha raiva. Bosta. Buceta. Porra. Um ou outro palavrão genuíno desses escrevi… e até uma suástica desenhei. Mas as asas da suástica pus voltadas ao contrário. Sabe que nem quatro unhas encravadas? Lascou. Prédio do amor e da caça. Eficácia do signo. Primeira e última dádiva. E assim a parede muitos anos se preservou: contornada com gemas da vassoura improvisada em pincel e as minhas palavras raivosas. A parede do quarto voltou a ser, mais do que nunca, a parede do quarto da bagunça.

Com o tempo passou também a painel de recadinhos. Rasuras. Quem vinha em casa se sentia no direito de um cantinho pra rabiscar. Primo pequeno chegava e queria provar a todos que já sabia escrever o nome. Depois a medição dos adolescentes crescendo também era anotada ali. Assim foi: borrão desencantado da vida. Teste do estêncil. Resto de massa corrida. Sujeira de pincel…

Quando, em certa ocasião, veio o padre dizer missa aqui em casa, o canto de ouvir a confissão ficou sendo justamente ao pé da nossa parede rasurada. No quarto da bagunça. Debaixo da suástica de asas invertidas. Antes, porém, em gesto de contrição antecipado, minha mãe foi lá e cobriu de branco os termos mais técnicos. Foi coisa pouca. Não chegou a mudar o sentido da obra.

Outra vez, a parede recebeu também inscrição do tato em vermelho durante o sexo. Dedos desenhando com sangue menstrual da primeira namorada. E a mancha de sangue lá ficou – o vermelho se tornando marrom, quase preto – nem sei até quando.

Hoje, manchas todas devem estar inda lá na parede, debaixo de alguma camada, das tantas que foi preciso dar, em vão, para cobrir a ira, o amor e os carinhos que sujam de vida todo o lugar.

 

Marcus Groza é poeta e ficcionista. Autor do livro “Sossego Abutre” (Ed. Patuá – 2015), é coeditor da Revista Abate e da Revista Saúva.

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Hugo Lima

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

a linha pensa

 

para edith derdyk
traço a linha
além da página
o que exceder é horizonte

 

 

I.

-meu corpo
atravessa o espaço
com suas linhas-

-na fluidez da passagem
a linguagem retém
o gesto-

-entre cortes e costuras
tecidos e ranhuras
o traço
revela seu avesso-

-no ritmo
i-n-i-n-t-e-r-r-u-p-t-o
do ir e vir
sobre o papel-

-de-se-nho-

-de dentro pra fora
de fora pra dentro-

-remendos
e tessituras
 

 

II.

-a linha
do horizonte
é fronteira-

-ao mesmo tempo
aproxima
& afasta-

-agrupa
e separa
minha língua
da sua
meu corpo
do seu-

-a linha
do horizonte
ultrapassa
aquilo que fica
daquilo que
escapa-

-a rasura
no mapa-

-a comunhão
exata-
-entre
meu gesto
e o seu-

 

 

III.

-a linha
intermitente
da leitura-

-a leitura
intermitente
do poema-

-o poema
intermitente
da vida-

-a vida
intermitente-

 

 

IV.

que constelações
desenharão
estas linhas?

que caminhos
revelarão
nos mapas?

que tecidos
formarão
suas camadas?

que estórias
traçarão
sobre as páginas?

que riscos
correrão
sob o nada?

que marcas
deixarão
no papel?

 

 

V.

-a linha
quer adentrar
a memória
habitar
o instante
estruturar a
narrativa-

-a linha
quer inventar
paisagens
desviar
caminhos
conectar
linguagens-

-a linha
quer ser
um pedaço–

–do espaço-

-transformar-se
em estrela
constelar seu
rastro-

-a linha
pensa
o momento exato:

-um
emaranhado-
-de ponto-s-
em nós-

 

 

VI.

——sob a pele tatuada
o corpo tece sua gramática
alinhavando o pensamento
à sintaxe dos versos
fixando-se no desejo
de adentrar a sala
ampliar o horizonte
ser uma e ser mil
tornar-se trama
enredo
fazer arte
tecer o texto
alinhar os livros na estante
os quadros nas paredes
amarrar
uma a uma
as orelhas de cada página
a grande onda dos dias
a geografia das formas
o entorno e suas bordas
s u a s ó r b i t a s
pespontar o destino
pelos fios de Ariadne——

 

 

Hugo Lima é poeta, performer e educador. Tem poemas publicados em diversas revistas e jornais literários, como Dezfaces, Gueto, Mallarmargens, dentre outros. É autor dos livros Nus, Florais & Ping-Pong (2014), Corpo dos Afetos: para Herberto Helder (2015) e Dois Quartos, com Tida Carvalho (2017), pela Crivo Editorial, e Repeats & Bonus Tracks, que integra a terceira temporada da coleção Leve 1 livro (jun/2017). Mora em Belo Horizonte. 

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

A verve provocativa de The so-called outside means nothing to me

Por Vivian Pizzinga

 

Cena da peça “The so-called outside means nothing to me” / Foto: divulgação

 

 

No palco, quatro jovens mulheres, vestidas com roupas largas, nada sedutoras, dividindo-se em emanações de uma mesma personagem, Minna, jovem isolada por escolha, em um apartamento num dia entediante. Relacionar-se com o mundo exterior – the so-called outside –, com o que há fora do apartamento, com o que há fora de si, implica muito desgaste: ficar o tempo todo balizando o que se diz com o que se pensa, medindo os parâmetros vigentes em uma dada cultura com a vida que caminha fora das capturas ideológicas, quaisquer que sejam; ficar ainda regulando o politicamente correto que, entretanto, é estrangeiro face aos pensamentos espontâneos mais genuínos, verificando a adequação do que se sente àquilo que se pode sentir, do que se pensa àquilo que é considerado pensável, ao que é aprovado socialmente, ao que está na moda, ao que é vanguarda ou, por que não?, ao que é sustentável. Essas constantes verificação e regulação são extremamente cansativas e perturbadoras. A personagem, dividida em quatro, prefere não. Este é o cerne em torno do qual começa a girar o sensacional The so-called outside means nothing to me, que teve apresentações no Cena Brasil Internacional, em junho de 2017, nos palcos do Teatro I do CCBB-RJ.

Há um cerco de emoções, esperas e questionamentos que se erige ao redor das quatro atrizes e delas emana. Trata-se de quatro moças que fogem aos padrões de beleza mais rapidamente identificáveis: usam óculos, têm cabelos emaranhados, nada lisos, não são magras nem fazem um uso sedutor do próprio corpo, não estão maquiadas. O cenário é desprovido de objetos ou quaisquer outros dispositivos que sirvam de atenuantes de tudo o que se passará ali, de tudo o que será dito, de toda a tradução corporal do texto bem urdido. O chão e a parede são pretos, não há matizes. A iluminação dá sinais de que inexistirá como elemento estético, uma vez que tudo começa em clara luz, com as pessoas ainda terminando de encontrar seus lugares na plateia, apesar de o toque da campainha que indica o início próximo do espetáculo já ter soado. É quando entram as quatro mulheres jovens, olhando com desconfiança para os espectadores, semblante de poucos amigos, suspeita sem disfarce algum, ausência deliberada de simpatia.

 

 

Foto: Guto Muniz

 

 

O espetáculo é dirigido por Sebastian Nübling e coreografado por Tabea Martin, e o texto, brilhante, carregado de uma inteligência provocativa, com senso de humor e ironia, é da premiada escritora alemã feminista Sibylle Berg, autora ainda de 13 romances, 21 peças, e possuindo grande projeção na Alemanha exatamente por sua característica provocadora. A nítida e quase palpável provocação de seu texto não traz, no entanto, um incômodo indigesto. É possível rir de si mesmo, quando o si mesmo é retratado da forma como o é em The so-called outside. O humor é, definitivamente, a melhor forma de provocação. E o que é mais interessante no espetáculo é que a dramaturgia e a coreografia acompanham a verve provocativa de Sibylle Berg: elas logram êxito em traduzir para os movimentos e expressões corporais tudo o que está sendo dito ali, através da linguagem verbal.

As atrizes que incorporam (com toda a literalidade do termo incorporar, pleno de corporeidade em seu paroxismo) todos os tensionamentos e solilóquios infinitos da personagem central pertencem ao The Maxim Gorki Theatre, que desembarca pela primeira vez no Rio. Trata-se de um dos mais politizados teatros públicos da Alemanha, tendo sido destruído durante a Segunda Guerra Mundial e reconstruído e reaberto em 1952, e cuja companhia tem um elenco fixo e multiétnico de 17 performers e um grupo paralelo composto exclusivamente por artistas imigrantes. Na apresentação carioca do espetáculo, temos Cynthia Micas, Nora Absdel-Maksoud, Rahel Jankowski e Suna Güler.

Pode-se dizer que o texto é feminista por colocar em xeque uma série de aspectos esperados do que deveria ser viver como mulher, sentir como mulher, fazer coisas de mulher, ter hábitos de mulher, vontades de mulher, pensamentos de mulher. Entretanto, e isso é o mais interessante, para trazer sua crítica contumaz, o texto não precisa do subterfúgio de atacar o homem, como se a questão toda se resumisse a dois polos opostos e necessariamente conflitantes. Não se refere ao homem ou ao gênero masculino como “macho” (ou algum equivalente) usando um mesmo tom de agressividade e ataque que denuncia no homem machista quando este se refere à mulher menosprezando-a exatamente por ser mulher. No feminismo de The so-called outside, a mulher tampouco será poupada. E esse é um dos grandes achados do espetáculo: os questionamentos vão muito além da denúncia que assinala as desigualdades de gênero. Há toda uma análise muito bem-humorada, cheia de boas sacadas, divertidíssima, das contradições e chatices da sociedade capitalista na qual vivemos. E sociedade capitalista são palavras que, unidas, podem soar aqui como militância lugar-comum, repletas de significados prévios e vagos, que guiam para um entendimento perigosamente rápido do que o espetáculo propõe, mas, ao elegê-las, estou apenas sendo fiel àquilo que o texto traz e que inclui também a própria crítica à crítica ao capitalismo e seus excessos sem nenhum recurso a fórmulas óbvias. Não, não há nada de óbvio no espetáculo. Porque as mulheres que estão ali se contorcendo, pulando, aglutinando-se, cuspindo água, jogando-se ao chão, gritando, cantando musiquinhas românticas da Whitney Houston e outras, simulando o grande encontro amoroso e utópico que, elas sabem, nunca vai existir na realidade tal qual na imaginação, essas mulheres estão também rindo de si mesmas e de suas agruras, e sobretudo das estratégias, sempre falhas, sempre inócuas, que são levadas a criar, cotidianamente, para fazer face a essas mesmas agruras.

 

 

Foto: Guto Muniz

 

 

Um exemplo disso é o momento da aula de zumba, em que uma das quatro atrizes fica dançando, separada das outras três, como se tivesse chegado ao grau máximo da felicidade, da euforia que serve de panaceia para os males da alma e do coração, mostrando que a melhor forma de lidar com a ansiedade, com as frustrações, é a aula de dança, é a agitação incessante do corpo, continente maior de desvarios emocionais.  Não há maniqueísmo no texto de Sibylle Berg, dado que tanto a pressão para o consumo e para a acumulação típica dos modos de vida capitalista (e que incluem – ou podem incluir – as aulas de zumba, as aulas de yoga, as meditações transcendentais) são alvos do texto ácido da autora, como também o politicamente correto. Novamente, é preciso insistir: não há fórmulas prontas e pré-fabricadas em The so-called outside.

Um dos dilemas trazidos pela personagem é que Minna está apaixonada por uma amiga, Lina, que volta e meia manda um SMS. Toda vez que há um SMS para ser lido, a personagem apaixonada tem que usar uma série de subterfúgios para conter sua euforia e sua expectativa, para não se deixar levar pela ansiedade extrema. Ela quer e não quer ler, ela quer ler mais tarde para mostrar a si mesma o quanto é forte e o quanto não está desesperadamente esperando uma resposta de Lina, mas ela não resiste e, toda vez que o celular apita o SMS, Minna dá o que promete ser uma olhadinha rápida, e as mensagens da amiga sempre falam de alguma relação com outro homem, do que ela sente ao lado desse outro homem. É aí que Minna terá que encontrar maneiras para lidar com isso. Os recursos corporais e dramatúrgicos do espetáculo são a melhor expressão do desatino de Minna. Só mesmo os grunhidos, as caretas, os gritos, os pulos, só mesmo a torção de caras, bocas e corpos em uma verdadeira coreografia da repulsa e do desdém forçados para traduzir o que Minna sente. Para dar conta de expressar o insuportável.

E, no decorrer do espetáculo, a luz vai se apagando, acompanhando uma espécie de anoitecer do dia de Minna, quando há um recrudescimento da angústia que ela, de todas as formas, desesperadamente, tentara tapar. É nesse momento que, após uma correria insana pela vida, retratada em pensamentos obsessivos, por um dia que passeou por questionamentos inúmeros acompanhados de brutalidade e indignação, que ela vai se dando conta de que é jovem e o mundo, para quem é jovem, para ela, começa amanhã. Será?

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Olhares

Olhares

Espirais do caos: uma vereda em Samuel Luis Borges

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

No cerne do tempo, as formas transitam. Saem do plano mental das ideias para depois ocuparem espaços plenos de significado. Flutuam por entre seres e dimensões possíveis num emaranhado de sensações que, ao fim e ao cabo, são demasiadamente humanas por natureza.

Acima de toda uma composição abstrata da vida que as linhas iniciais desse texto acabaram de mencionar, há o fino trato do entendimento das coisas pelo viés da poesia, essa colossal capacidade que um determinado artista possui de tornar perceptíveis sentimentos emanados de uma fonte intangível.

Faz toda diferença considerar que certas rotas traçadas pela arte aproximam dois polos fundamentais da acepção das coisas: o primeiro deles pensa a materialidade como instância do que nos é imediatamente visível aos olhos; o outro mergulha no âmago das interioridades, indo buscar ali um resultado subjetivamente marcado pelas construções abstratas do ser/estar no mundo.

Nessa confluência de dimensões aparentemente opostas por natureza, mais especificamente na relação entre o concreto e o impalpável, é preciso dar nome aos bois. Estamos falando de Samuel Luis Borges, artista que, na miríade complexa de seus desenhos e aquarelas, engendra um caminho marcado por uma elaboração peculiar das formas.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Por que não falarmos em transgressão quando o artista ao qual acabamos de aludir ousa trazer à baila contornos nada usuais para referendar a experiência humana? A resposta é afirmativa na medida em que Samuel mescla sabores e dissabores tão nossos na caracterização dos seres que advêm da sua inquieta verve criativa. Diga-se de passagem, a tais criaturas pensadas pelo artista em questão é dada uma conformação traduzida em caos e mistério.

Eis que chama atenção no fazer artístico de Samuel a caracterização espiralada de uma parte significativa dos seus desenhos. Tais delineações parecem estabelecer pontos de permanência das formas para algo além da esfera física e visível. Desse modo, a intersecção dos corpos revelados remonta a uma ideia de que os laços humanos estão atravessados por uma pungente sensação de amalgamento. Ao que fica a pergunta: novas existências brotariam dali?

Talvez a mecânica que articula os sentimentos humanos possa servir como resposta. No entanto, há, por assim dizer, o nascimento de outras tantas existências a partir desse cruzamento de traços propostos pelo artista. Dessa interligação dos seres, brota um todo orgânico capaz de nos lembrar que a espécie humana, sendo composta em essência dessa pangeia que aproxima tanto êxtases quanto espantos, delimita seu locus num limiar incessante de labirintos e precipícios. Assim, partidas e chegadas, alegria e dor, vida e morte como cenários possíveis.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Qualquer tentativa de tornar banal a acepção do caos parece não encontrar abrigo no trabalho de Samuel Luis Borges. Não é um trato meramente desordenado das coisas e sensações quem dá a tônica da construção imagética como se a solução criativa estivesse contemplada pelos artifícios de um rearranjo. Pelo contrário, devolve-se o incômodo, esse espantado gesto do ser, sob a forma de representações pessoais e sensíveis do laborioso ato que é viver. Daí, o artista não fugir do enfrentamento quando o mundo em toda sua complexidade o convoca a se posicionar.

A expressão artística aqui presente contempla também a impressão de que o homem contemporâneo não é detentor de uma identidade estática, tendo em vista que o caldeirão das representações culturais borbulha mudanças estruturais a todo tempo e que atingem o sujeito em sua busca por sentidos. Em face de tal cenário, difícil seria manter viva qualquer alusão a lugares pacificados pelas mãos invisíveis da uniformidade.

No seu modo autodidata de se comunicar com o mundo, Samuel confere à poesia um status de razão central de suas manifestações enquanto artista. E o fazer poético não é apenas o gesto que transborda de seus desenhos e aquarelas, mas também aquele que demanda incursões pela palavra escrita e falada.

Envolto pelas atmosferas urbanas, Samuel Luis Borges existe entre nós. Transita entre os espaços da metrópole que acolhe e repele, navega pelo insondável. É porta-voz da construção e também da desconstrução do tempo. Tenta fazer com que sua arte desacostume o arranjo natural das coisas.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

*Os desenhos e aquarelas de Samuel Luis Borges fazem parte da galeria e dos textos da 119ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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Arte: Samuel Luis Borges

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Arte: Samuel Luis Borges

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Arte: Samuel Luis Borges