Chegando a 120 edições, estamos certos de que os caminhos da revista atingem um patamar cada vez mais desafiador. As marés digitais têm representado um universo de transformações permanentes no sentido de apontarem novos rumos a serem empreendidos. Testemunhamos mudanças de cenários e comportamentos nos mais distintos momentos de nossa trajetória até aqui. A própria noção de uso dos suportes midiáticos eletrônicos encerra uma exigência bastante voltada para a questão da instantaneidade das experiências de leitura. E bem sabemos que este é um movimento que não vai cessar, pois há sempre um outro paradigma prestes a entrar em cena. Diante dessa constante alteração de rotas, autores e artistas são impelidos a fazer com que suas criações encontrem estratégias eficazes de comunicação com o seu público. A compressão tempo-espaço fomentada pelos trânsitos da internet trouxe, sem dúvida, uma perspectiva revolucionária em matéria de aproximações entre produtores de conteúdo e leitores. Nesse quesito, a literatura, por exemplo, tornou-se uma arte mais acessível, inclusive em relação a pessoas que não possuíam certa intimidade com ela. A perspectiva de compartilhamento das produções escritas, característica marcante dos tempos atuais, faz girar uma roda que antes talvez estivesse restrita apenas a determinados eleitos. Decerto, sempre partimos da compreensão de que há os naturais interessados pelos feitos literários e artísticos em geral, e que estes buscam voluntariamente aquilo que lhes interessa. Entretanto, podemos considerar que as ferramentas de divulgação trazidas no contexto contemporâneo acabam atingindo, mesmo que de modo desavisado, potenciais interessados em consumir conteúdos de tal monta. O resultado disso é um despertar de atenções que pode significar um incremento na via da recepção dos conteúdos. Ou seja, há mais gente tendente a ler e apreciar uma obra do que supõe a nossa vã convicção de outrora. O xis da questão talvez seja pensar quais seriam os mecanismos mais importantes para tornar as produções culturais algo verdadeiramente próximo das pessoas. Quiçá um dos propósitos de revistas digitais como a Diversos Afins seja o de encurtar distâncias, trazendo pra perto de seus projetos o olhar curioso e questionador de outro tipo de leitor. O tempo dirá. O fato é que haverá por estas bandas sempre alguém pronto a estabelecer elos. É o caso de poetas como Lilian Aquino, Leandro Rodrigues, Dheyne de Souza, Jorge Elias Neto e Ana Pérola, os quais embutem em seus versos vozes que falam ao mundo. Trazendo à baila um olhar sobre a coletânea de poetas e fotógrafas “Profundanças 2”, Geraldo Lavigne de Lemos aponta as razões pelas quais a obra merece ser lida. São da fotógrafa grega Angelik Kasalia as imagens que percorrem os mais diferentes recantos da nossa nova Leva de epifanias. O poeta e editor baiano Jorge Augusto, ao nos conceder uma entrevista, revela o que pensa sobre o seu ofício e as paisagens literárias contemporâneas. São os contos de Itamar Vieira Junior, Alê Motta e Marcus Vinícius Rodrigues que mobilizam modos peculiares de conceber a vida. Em matéria de cinema, Guilherme Preger traz à tona as delicadas questões presentes no filme nacional “Fala comigo”. Vivian Pizzinga discorre sobre a montagem brasileira da peça argentina “Entonces Bailemos”. Num território que remonta a lembranças de um período especial da nossa música, Sérgio Tavares escreve sobre “Só se for a dois”, segundo disco solo do cantor e compositor Cazuza. Sempre com a disposição de ampliar horizontes, a Diversos Afins segue seu rumo. Seja bem-vindo (a), caro (a) leitor (a)!
Da raiz do nome ─ esses dedos cravados
no beiral da fenestra ─
extrair a resina impura.
Forjar as velas,
acender o arrebol
na cela escura.
Sugar o ar,
queimando os segredos
da memória das frestas.
Comemorar o vácuo
estendido no vazio
entre as unhas
e paredes.
Tornar insuportável
o convívio com a fumaça
do tempo …...̶ desfazer-se da saudade.
Alardear a fuga
inútil da cama,
o suicídio das fotografias.
Com a cor das tintas …………………………na pele,
se esfregar nas quinas
para sufocar seu cheiro.
Cuspir nas plantas secas,
urinar nas portas,
misturar-se ao cheiro das cinzas.
Soltar o grito
e descobrir-se eco.
Serrar os pés da cadeira ……..─ espalhar no piso
a última réstia da certeza.
Arregalar os olhos
─ sustentar as pálpebras
e sua obtusa fuga.
Não contornar os segredos
─ sacrificá-los.
(Perceber que o fora
é um longe,
e o dentro, ……………barreira intransponível..)
Sentir o arrepio das cortinas, ………….o crepitar dos tacos, ………….o suor da vidraça.
Sujar de sangue
a moldura sem espelho.
Reparar na janela
e sua mirada sem luz.
No breu da não-paisagem
misturar um circulo negro …………….─ alvo no escuro.
Pressentir o estalo
da grade.
Dispensar o portal
da crença.
Aceitar o flagelo do ícone, …………..a lascívia dos místicos.
Ao que ofusca,
o aceno,
……….ao que enrosca, ……….o degredo.
Reter o passo,
recolher no ócio
o espanto.
Ouvir o canto
da primeira trinca ……..o pio agudo ……..nas rachaduras.
……………..Estampido,
estilhaços sem rumo,
restos de tudo.
Lançar-se aos cacos …..─ fôlego dos dias.
Recolher a sombra,
a imagem bipartida.
Perseguir a identidade,
levantando as pedras
das vias túrbidas.
***
Sob a pele
O corte,
a pele
– precipício.
Nem todo o fim
se desfaz em noite.
(. A noite decide o nome
de seus filhos..)
O abraço,
a espiral
– o Mundo.
Um recado do desastre
ao pé do ouvido.
( .O traço sob a pele
– cabedal de vícios ..)
***
Livro negro
(. Do canto obscuro
a beira do mito,
percorre-se o possível..)
Medusa,
Sangre minha língua,
Recubra de vida a hóstia
– alento do passado.
Musa,
surpreenda o que no sossego
dos dias tingidos,
simplesmente – ignora.
Ruína,
desabe com
as casas mortas.
Sertão,
rege a cisma no terço
e aboio dos de minha carne.
Cedro,
desfaça a nave fenícia
e entorne o vinho sobre as águas.
Poesia,
transforme em ruído
o som da espera.
Palavra,
seja o orvalho
de minha passagem.
Madrugada,
resgata o aceno
do tempo em meio a névoa .
Eternidade,
Estende sobre as asas
a poeira das estrelas.
Solidão,
não ignore a oferta do corpo
que a procura de ti, salta.
***
Campo de batalha
A manhã se dissipava em tons de normalidade
:Trincheiras
cobriam a distância
do silêncio
:Encostas
não se prestavam aos ecos
:Os sonhos
fluiam das valas
ao mar
( .Não se comemora a febre
onde inexiste vida..)
Na rede de intrigas
refringia o orvalho.
Nomes brotavam
florindo o charco
E o perfume
ignorava o olfato
da ausência.
(. O mais é um vazio
onde inexiste vida..)
A brisa revolvia
as cartas
………..letras alimentavam ………..os musgos
e os metais
entoavam louvores.
( .Pode-se falar de paz
onde inexiste vida..)
***
Noturno
O impulso carrega
uma promessa dos pés
Andava
─ confortavelmente ─
no escuro .( .sentia o calor
das coisas mortas)
(..Quem o pariu foi o vento nordeste …………………assustado ………………..com o apito do navio..)
Nas mãos
a lista dos homens tristes
e linhas tortas
─ desencontradas
A seu lado
uma inútil sombra
─ essa mundaneidade
Tinha a noite
e a paz das sarjetas abandonadas
O Mundo
acontecia dentro dos olhos
Deus
era imagem ausente
à margem da fábula
O corpo
─ acaso assombroso ─
rompia a escuridão
da Ilha morta.
***
Cabotino
Me gusta esta costumbre de la rubrica por lo inútil
Miguel de Unamuno
O sal curtiu
a corda exangue
Amarras e terços
costuraram os dias
a esta terra
ao cais do porto
e ao apito dos navios que conhecia pelo nome
Ir e voltar:
sonho de uma sombra
Até o dia
em que o Não a reconheça
e vibre a corda
lançando-a de volta
à sinfonia do esquecimento.
Jorge Elias Neto é médico, ensaísta, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória/ES. São de sua autoria os livros: “Verdes Versos” (Flor&cultura ed. – 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&cultura ed. – 2010), “Os ossos da baleia” (prêmio SECULT-2013), “Glacial” (Patuá – 2014), “Breve dicionário poético do boxe” (Patuá – 2015) e “Cabotagem” (Mondrongo – 2016). Publica regularmente nas revistas eletrônicas: Portal Cronópios de Literatura, Diversos Afins, Mallarmargens e Estação Capixaba. Membro da Academia espírito-santense de letras.
Fala Comigo, primeiro longa de Felipe Sholl, foi o vencedor do Festival do Rio de 2016. Antes deste, Felipe foi roteirista de alguns filmes como Campo Grande e Histórias só existem quando lembradas, além da direção de alguns curtas.
O tema do filme tem tradição no cinema. É a iniciação sexual de um jovem adolescente (de 17 anos) com uma mulher madura (de 43). É só pensar em A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, Mike Nichols), O Verão de 42 (Robert Mulligan) e o grande clássico A Moça com a Valise, de Valerio Zurlini.
No cinema brasileiro, no entanto, é um tema incomum. Há alguns filmes com o par trocado, sobre a relação entre uma moça e um homem mais velho, como À Deriva, de Heitor Dhalia, e A Menina do lado, um clássico de Alberto Salvá. No cinema brasileiro, a referência mais óbvia para um roteiro entre um jovem, no caso uma quase criança, e uma mulher mais velha é obviamente Pixote, de Hector Babenco, um filme com que Fala Comigo tem pouco a ver.
O longa de Felipe Sholl se parece mais com Casa Grande, um filme recente que também apresenta a iniciação sexual de um jovem de classe média carioca. No entanto, a aproximação entre os filmes se dá mais no ambiente de classe e na relação desencontrada entre jovens e pais dessa classe. Outros filmes recentes como o carioca Mate-me, por favor e Que horas ela volta? também apresentam o mesmo conflito.
É interessante observar que esses filmes contemporâneos abordam conflitos entre pais e filhos. O gap geracional é um tema ainda mais frequente da história do cinema. No entanto, um senso comum nos diz que a distância entre as gerações tem diminuído, que pais e filhos cada vez mais compartilham de mundos mais próximos e que isso se deve a uma infantilização dos adultos e certo amadurecimento dos jovens.
Fala Comigo partilha de algumas preocupações etárias e sociais com todos esses filmes, mas é diferente e singular entre eles. A história é sobre Diogo (vivido por Tom Karabachian), rapaz em idade escolar, músico, e Angela, (vivida magistralmente por Karine Teles) mulher madura, traumatizada por sua recém-separação, de profissão indefinida. Ela é atendida em análise por Clarice (Denise Fraga), psicanalista, mãe de Diogo. O casamento de Clarice com Marcos (Emílio de Mello) também está em crise de separação. Além desse quarteto, também há Mariana, a pequena irmã hipocondríaca de Diogo.
Diogo alivia sua tensão sexual adolescente telefonando anonimamente para as clientes de sua mãe, cujos contatos obtém clandestinamente, e se masturbando silenciosamente. Num de seus telefonemas, ele reconhece que Angela está próxima a uma tentativa de suicídio e a socorre. O romance entre os dois começa a partir desse fato e se desenvolve a partir daí sem resistências entre o casal. Os obstáculos virão de fora.
Denise Fraga e Emílio de Mello em cena / Foto: divulgação
Diferentemente de Casa Grande e Que horas ela volta?, o filme de Sholl parece não se importar em assinalar e confrontar a diferença de classes, um tema bastante frequente no cinema brasileiro contemporâneo. O que não quer dizer que a questão de classe não esteja presente. Todo o filme se passa em interiores de apartamentos de classe média da zona do sul do Rio de Janeiro e não tem praticamente externas. Numa de suas cenas iniciais, vemos a família em volta da mesa jantando. Há pouca comunicação entre pais e filhos enquanto comem. A estranheza dessa cena não é propriamente o silêncio, mas a persistência desse hábito de jantar em conjunto, em volta da mesa, com as posições parentais e filiais assinaladas, uma situação cada vez mais rara na vida social, porém que permanece como um índice de classe. Esse índice também transparece na pouca preocupação econômica de todas as personagens.
O fato é que questões sexuais, distâncias geracionais ou conflitos de classe parecem não ser exatamente o motivo principal de Fala Comigo. Em particular, a sexualidade do jovem Diogo e sua relação com uma mulher mais velha são provavelmente mais um Mcguffin do roteiro, apenas um elemento de atração. A questão principal parece ser mesmo a dificuldade de comunicação de todos com todos. Essa dificuldade está estampada, obviamente, no próprio título do filme. Uma dificuldade que se expressa mais no escutar do que no falar.
Ao se concentrar no núcleo familiar burguês, o filme revela sua temática psicanalítica. Não apenas a mãe de Diogo, Clarice, é psicanalista e Angela é sua analisanda, mas o consultório é na própria casa de Clarice. Ou seja, o lar de Diogo também serve de consultório de análise. Assim, a trama psicanalítica enreda-se em seu ambiente preferido: o lar, os conflitos edípicos, a torrente da libido e as rotas de fuga do desejo. Mas seria um erro considerar que Diogo encontra em Angela uma substituta desejável para o lugar de sua mãe. A fuga aqui não é tanto do sufoco familiar, mas da própria psicanálise.
Assim, quando Clarice acusa Angela de querer substituir o filho que ela nunca teve por Diogo, essa acusação violenta e injusta se dá dentro de um perfeito enquadramento psicanalítico. Angela só pode lhe responder que ela não está entendendo nada como psicanalista, assim como não está entendendo seu filho, que não é um cliente. Numa discussão cara a cara com sua mãe, Diogo se recusa acertadamente a sentar no divã.
Karine Teles e Tom Karabachian protagonizando Fala Comigo / Foto: divulgação
Fala Comigo é, portanto, um filme de crítica à psicanálise, mas esta crítica é realizada “por dentro” da obra. Uma das canções do filme, Freud sits here, de Letuce é uma sugestão sofisticada dessa relação. A crítica do filme se faz por um deslocamento ou uma inversão. O psicanalista também precisa sentar no divã e ser ouvido. Daí a ambiguidade do título: o importante não é falar, mas ter uma oportunidade de escuta. A escuta pode ser silenciosa, como na cena em que pai e filho ouvem a canção compartilhando um fone de ouvido. Ela também está presente na relação entre Diogo e sua irmã menor. Apenas ele realmente é capaz de ouvi-la e aliviar sua hipocondria precoce sintomática.
E assim também o próprio relacionamento sexual entre Angela e Diogo, nunca explícito, corre sem grandes obstáculos ou impedimentos internos, pois não é o essencial. Há mesmo uma desdramatização da relação entre o casal. Os obstáculos, como o inferno, são os outros. O que é importante é que a relação aconteça entre quem pode se entender e se comunicar. Ambos se ajudam mutuamente para tomarem distância de seus próprios lugares. Num momento tão difícil para o país, são poucos os filmes que se dão o direito a uma utopia.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
Na reunião ele arrasou comigo. Pela décima vez não aceitou minha proposta. Riu dos meus argumentos. Zombou dos itens que listei. Foi sarcástico.
Esperei que ele terminasse a terceira xícara de café para pedir licença e sair. Meus colegas não olharam. Pena. Vergonha.
Desci os dois lances de escada. Na recepção dei um beijo na secretária. Na porta do prédio comprei um picolé. Na esquina dei sinal para um táxi. No taxi olhei o relógio.Três xícaras. Impossível não fazer efeito.
***
Convite
Minha ex-namorada finalmente aceitou um convite para um cinema. Desde que terminou o namoro comigo eu tentava uma chance, afinal ela ficou pouco tempo com o desgraçado com quem me traiu.
O filme era Guerra Civil. Ela era louca pelo universo Marvel. Minha camiseta a fez sorrir. Pegou no meu braço e fez carinho no meu peitoral.
Antes do filme começar nos beijamos. Vimos todo o filme abraçados. Três segundos após a cena final saí do cinema. Lamentei perder os extras.
Escolhi muito bem a camisa. Vermelha. Homem de ferro. Na rua lotada ninguém notou os respingos de sangue.
***
Órfãos
O pai do Valério morreu de câncer. O pai do Sílvio morreu de infarto. O pai da Celeste foi atropelado em Copa. O pai do Joca se jogou da ponte. O pai do Milton morreu de velhice. O pai da Maria morreu de susto – um assalto na Avenida Brasil. O pai do Guilherme foi uma bala perdida no Andaraí. O pai da Glória morreu esmagado por um caminhão na obra do Shopping Carioca. O pai do Soares morreu num acidente de carro na Dutra. O pai da Lenice morreu esfaqueado num bar em Campo Grande. O meu pai foi comprar cigarro e voltou.
***
A velha
Passou a vida sentada. O motivo era a existência da televisão. Engordou de não caber em roupa pronta. Vestia uns panos grandes, quase lençóis.
Era feia a velha. Muito feia. Mancava de uma perna. Faltava dente na boca. Os cabelos eram ralos e espetados.
Morreu ontem de tardinha. Engasgada com um pão francês lotado de manteiga. Na confusão do engasgo o canecão de café com leite entornou e coloriu o sofá.
Era feia a velha. Muito feia. Mas era uma avó legal.
Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia “14 novos autores brasileiros”, organizada pela escritora Adriana Lisboa. “Interrompidos” é seu livro de estreia.
Há livros que são decisivos para a interpretação de um tempo. Registram fatos. Abordam temas. Promovem o diálogo. Fazem as pessoas avançarem, evoluírem. Alguns desses livros são constituídos de entranhas. São matéria viva, pulsante. São palavras vindas das profundanças. E tal conteúdo adere ao corpo do leitor. Quem o lê, ressignifica o mundo e o que nele existe. Antes, ressignifica-se.
Profundanças 2 reúne 16 escritoras: Aidil Araújo Lima, Ana Mendes, Andréa Mascarenhas, Daniela Galdino, Dayane Rocha, Débora Ramos, Erika Cotrim, Haísa Lima, JeisiEkê de Lundu, Laiz Carvalho, Larissa Pereira, Lílian Almeida, Mel Andrade, Miriam Alves, Rita Santana e Thalita Peixe de Medeiros. Não cabe a mim falar sobre cada uma delas, pois sendo uma, elas são todas, e sendo todas, elas são uma. O que eu poderia dizer sobre uma que não coubesse a outra? Incapaz de distingui-las dentro do discurso uno que o livro traz, e que assim foi feito para assumir a voz de cada mulher, coube-me expor o livro que não inaugura eventos sobre suas vidas – posto que está carregado da luta para livrarem-se de uma condição imposta –, mas assume uma voz antes inaudita, pois era calada.
Daniela Galdino organizou a antologia, que é literária e fotográfica. Ela também foi responsável pela apresentação e expõe sem meias-verdades o que precisa ser dito. A cada frase, o eco de quem hasteia uma bandeira com todos os brasões. O trecho de Conceição Evaristo que serve de epígrafe fala sobre o livro, colhido no céu da imaginação, repartido em folhas dadas às autoras e fotógrafes – como grafado no livro –, e, depois, aos leitores, antes que o sonho perca o penetrante toque da arte pura. Profundanças 2 ressalta a trajetória da mulher pelos caminhos da resiliência. Diz claramente que há um gene comum entre Frida Kahlo e elas, seja biológico ou não, e a sociedade insistentemente fracassa em desativá-lo.
Se uns textos tiram a mulher do sofrimento cotidiano e passam-lhes bálsamo nas feridas, outros são reações enérgicas contra as injustiças que lhe são imputadas. O leitor encontrará o depoimento de todas elas. E preste atenção: eu não disse confissão, segredo, desabafo… eu disse depoimento. Em alguns casos, sentirá o vento frio do inverno sobre o corpo nu; em outros, o sopro abafado do verão no areal. A própria voz é a principal ferramenta adotada pelas autoras, que, sabendo-se parte de um todo, dialogam de mãos dadas com as mulheres e olhos nos olhos com a sociedade. Quando alguma autora assume outra voz, retoma, em verdade, aquele gene comum citado acima, de forma que fala também sobre si. No entanto, não cala a outra voz. Serve, sim, de canal, para que todas sejam ouvidas. Elas são voz e porta-voz.
O leitor, por outro lado, conforme se apresente, terá orvalho ou geada, mas ambos resultantes da noite que elas atravessaram. A leitura poderá incomodar o leitor, se a mordaça estiver em suas mãos. Digo, porém, que o leitor de mãos livres sentirá confiança, se partilhar dos sinais que o livro aponta. Não vou falar ainda em felicidade e justiça, porque são dois estados a serem alcançados quando não houver mais obstáculos causando sombras e penumbras.
Tem-se prosa e verso. Na prosa, vemos regras clássicas e novas aplicações gramaticais. No verso, há os livres, os rimados, os metrificados, e as formas preestabelecidas, como o soneto. Em todo caso, há precisão. A linguagem dos textos é moderna e, embora às vezes pareça truncada, traduz o discurso interrompido pela sociedade e terminado pelas mulheres, porque elas são fortes. A inovação da literatura está presente no livro como está presente nas frestas de luz que os textos permitem ver. A novidade literária surge no desdobramento da própria reinvenção existencial das autoras, que sem perder a identidade e a meta, conseguem construir caminhos em qualquer ambiente.
A leitura flui muito bem, sempre alerta e renovada. Quando os temas são pontuais, a autora vai bem fundo, sem perder o fôlego. Quando os temas são mais abrangentes, a visão amplia sobre uma extensa superfície, até que o ponto nevrálgico seja atingido de uma forma contundente. O leitor permanece desperto a cada página, enquanto o cotidiano passa cru e objetivamente.
Umas das qualidades que se procura na literatura é a condição imagética, capaz de conduzir o leitor por cenários diversos a partir dos enredos. Os textos têm tal condição trabalhada com primor. E vão além. Em Profundanças 2 há uma via de mão dupla com a iconografia, pois as autoras foram registradas em ensaios por 19 fotógrafes, que foram, na respectiva ordem de apresentação das autoras, Camila Camila e Letícia Ribeiro, Josi Oliveira, Henrique Valença, Ana Lee, Cláudio Gomes, Andrezza Tavares, Haísa Lima, Catarina Barbosa, Lanmi Tripoli, Mariana Lisboa e João Caique, Adrian Greyce e Rodrigo Iris, Inajara Diz, Brenda Matos, João Santana, Shai Andrade, e Ytallo Barreto. Cada autora ainda recebeu uma ilustração de Bruna Risério. As fotos e ilustrações são figuras poéticas que acompanham os textos das autoras e trazem mensagens agora capazes de conduzir o observador por enredos a partir das imagens. É a inversão da arte que se espera em uma antologia literária; a transmudação para uma antologia fotográfica. A perspectiva muda. Contudo, leitor, lá estão os mesmos sinais.
Os ensaios e as ilustrações avançam sobre a descrição biográfica das autoras que, tendo deixado detalhes nas entrelinhas das poesias, deixam também nas entrecores e entreposes das figuras. Fotógrafes e a ilustradora conseguem traduzir em imagens as autoras, aproximando-as ao leitor. Um trabalho exitoso, que dá continuidade ao conteúdo, sem sabermos qual antecede qual, porque literatura e iconografia se combinam em busca de traduzir sentidos e sentimentos. Resolve-se, por ora, o impasse entre a palavra imagética e a figura que vale mais que mil palavras. O objetivo é trazer à tona aquilo que por muito tempo foi depositado no fundo.
Se o primeiro volume de Profundanças criou um neologismo, o segundo volume fixa definitivamente o verbete no vocabulário brasileiro, significando aquilo que vem do íntimo, que é da sensibilidade humana e se expõe de forma transparente. Diga-se mais. O livro não se encerra no conteúdo literário e iconográfico. Há, ainda, uma valorosa equipe de produção que permitiu tamanha qualidade. Isto porque a intenção não se resume a publicar o livro. É trazer o tema à baila, discuti-lo repetidamente até que se afastem as grades da imposição.
Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta. Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem publicações em jornais, revistas, blogues e antologias. Desenvolve os poemas furta-cores desde 2014. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus (2017). Mantém o instagram @geralavigne.
Às vezes caminha em mim uma saudade que é um pouco arredia, um pouco insolente.
Ela vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.
Ela toma a mão dos meus sonhos e começa a cerzir metragens curtas.
Como se minha vida fosse uma fita me fita, essa memória meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displicência do momentâneo. Paisagem que dorme sem leito.
Mas não é sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.
Muitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo específico de sentir falta.
É que ela me espinha o passado.
É que ela me aborta o presente.
É que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.
É que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio ríspido de me tirar daqui. Com o seu gesto insípido de me lembrar que o instante é tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.
Assim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios – da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o berço. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho há cílios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que tropeço e quando me aqueço azulejo já nem ri.
O que eu dizia mesmo?
Que às vezes ela não pisa nos meus medos.
E eu fico assim em vigília.
Eu fico assim dia a dia.
Sabe?
Eu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.
Eu corto o cabelo em outra.
Eu rio uma piada negra.
Mudo de endereço. Danço. Corro.
Vou à academia louco a levantar esses pesos.
Bebo.
Mas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.
É uma ressaca pelada, sabe?
É quando falo com meu cigarro.
Quando me abro com um café, me banho um blues.
Quando tenho alma feito desmaio.
Olhando buracos.
Catando sílaba.
Medindo o vácuo.
Sentindo uma saudade oca de senti-la.
***
é feito de versos livres meus buracos
é leito de rasgos amargos, bordôs, quinas de alma quitada, muito bem riscadas, rasuras ranhuras alturas vesgas
são feitos de esquinas meus verbos
lânguidos. profanos. paralelepípedos logrados
deitados à rua como deitados à lua como deitados à alma sem tráfego sem traqueia
é feita de poros a língua
à míngua de tatos
***
das frestas
tem uma guelra na minha janela
movendo o olhar da paisagem
qual uma folha quando desperta
qual um transeunte quando erra
qual quimera, verbo na língua
quando bate no asfalto um sol a nado
tem uma morada
insone
nas minhas guelras
***
Poiesis
enquanto os risos escorriam nos pés
na grama
nos galhos
nos céus
dos outros no tempo
em que sempre voltamos
jamais estaremos
uma criança, longe, muda, exangue, sentada
num canto daquele muro
(como no canto dos outros muros que agora a
derrubam
feito um sino mudo)
nesse canto lhe deram uma rosa
era uma rosa comum, cor-de-rosa, jovem, justa, virgem
não soube o que fazer com tanta verdade
embora sequer soubesse disso
de que agora a memória sabe
do jeito que a memória sabe saber reticente
poderia ter passado a tarde toda
aquela criança
talvez eras
com a rosa nas mãos
poderia dizer do cheiro daquela pétala uma obra aberta
do tônus firme do seu corpo frágil
das inverossimilhanças do contorno
na sua cor silenciosa
dos rosas da rosa
mas a rosa
intacta
naquelas mãos tão pequenas meu deus e que já sustinham o medo
de ser túmulo
qual teria sido o erro
que cometeram aqueles dedos
incapazes ainda de todo mal que agora teciam tão displicentemente
tomaram-lhe a rosa sem
não foi sequer capaz de
despedaçaram todas as pétalas e sépalas
ouviam-se ranger suas veias
enquanto ensinavam que era assim
que se brincava com as flores
foi a primeira vez para ela
que a poesia
colheu o seu silêncio
humano
***
domingo, 17 de abril de 2016
do ódio que derrama dos dentes, independentemente da cor das gengivas, das camisas, das vias
da dor dos direitos lesados
do medo que descama nas mentes, dependentemente de vozes
que não vociferam virtudes
que não zelam
da história adquirida a suores a sangue a pancadas a vidas
ratos em vaginas
leis em latrinas
do absurdo de hastear a morte o golpe o cuspe o lustre
de deus da família dos nomes
instituições todas falidas
enquanto pisam repetidamente nos olhos nos ovos nos seios
do humano
ameaçado de mote
ameaçado de mote
Ameaçado de mote.
Dheyne de Souza é poeta. Mora em Goiânia. É membro do grupo de vocalização de poesia Corpo de Voz. Tem, em parceria com Helô Sanvoy, um canal no YouTube de leitura de poemas prosas prosemas, Pequenos Mundos.
A montagem brasileira de Entonces Bailemos, de Martín Flores Cárdenas, fiel à original argentina, leva à cena, com a leveza e a suavidade que música e dança podem proporcionar, quatro atores e um músico contando histórias várias de relacionamentos. Aliás, de relações. Ou melhor: de qualquer palavra que torne possível o ato de nomear vínculos amorosos/afetivos, dotados de maior ou menor grau de intensidade, sendo mais ou menos frouxos, rápidos, inesquecíveis ou dolorosos entre duas pessoas (ou três, ou mais). Apaixonar-se, desapaixonar-se, morrer de ciúmes, entrar em paranoias, disfarçá-las, pirar em discussões infindáveis sobre a relação, distorcer os ditos do outro, saber mais do que o outro sobre seus próprios ditos a ponto de fazê-lo enxergar o que eles carregam, agredir, reparar, repetir o erro, querer mais, não querer mais, sem contar o descompasso entre as vontades: é disso tudo e algo mais que o texto trata. E se a gente se apaixona, se o amor é inevitável, se estamos entregues e isso é um risco, então, bailemos. Não há nada melhor a fazer.
O espetáculo, que cumpriu temporada no SESC Copacabana, é ótimo. E em tudo: o texto, engraçado e inteligente, instigante do início ao fim, ganhou tradução para o português da romancista premiada Paloma Vidal. A direção e a dramaturgia, do próprio Cárdenas, com Kika Freire como diretora assistente, constroem, de modo brilhante, a dinâmica da sucessão de histórias e de coreografias, pontuadas, aqui e ali, por o que seriam pequenos conflitos internos entre atores e personagens, expressando a mistura de metalinguagem e linguagem, num mix paulatino que encontra equilíbrio perfeito em seus 60 minutos de duração. Um exemplo em que fica mais evidente o recurso da metalinguagem, assumindo uma forma divertida, é quando as atrizes, vez ou outra, disputam o personagem da história da vez, ou quando brigam pela próxima história, chegando a se engalfinhar no colchão, para que uma não roube a cena da outra e vice-versa. O jogo é bom e faz rir, e há até o breve momento do ringue: tirada de gênio.
Certa dose de gaiatice inerente à coreografia original de Manuel Atwell vai aos poucos se evidenciando e se acopla a um humor crescente, que parece permitir-se aflorar à medida que o espetáculo avança, de forma análoga a uma pessoa, que, à primeira vista, aparentasse reserva, mas que, aos poucos, à proporção em que se sente à vontade e ganha confiança no ambiente ao redor, vai conseguindo mostrar sua espontaneidade e sua capacidade de criar e lançar mão do que é engraçado: assim é Entonces Bailemos, cuja dramaturgia torna-se cada vez mais desenvolta e, generosamente, leva junto seus quatro atores e o músico, os quais se expandem e parecem sentir-se aos poucos mais à vontade, dando vida a histórias que revelam suas facetas bizarras e engraçadas. Ou à medida que podemos tornar hilárias as facetas supostamente bizarras das histórias de cada um de nós. É claro que nada disso seria possível sem a qualidade desses mesmos atores e da direção que os conduz – Elisa Pinheiro, Gustavo Falcão, Leonardo Netto e Marina Vianna, os quais são acompanhados pelo músico convidado, Ricco Vianna, que, aliás, parece nunca ter estado em outro lugar na vida senão em um palco de teatro: eles conseguem, todos, sem exceção, encontrar a justa medida entre o drama mais carregado (quando necessário, e pontual) e o humor muito próprio do não se levar a sério. O pressuposto tácito é: rir de si mesmo é preciso, o que não deixa de remeter ao cerne da noção de humor de Freud, que o aponta como ferramenta do superego para proteger e consolar o ego do sofrimento. E é o ego que sofre de amor. Se a gente for capaz de rir do ego, com o ego, de rir do que pode levá-lo a um sofrimento maior, estaremos, ao mesmo tempo, cumprindo a função de protegê-lo desse mesmo sofrimento, ou de evitar seu paroxismo.
Foto: Dalton Valério
É assim que os personagens/atores intercalam-se nas histórias que contam sobre encontros e desencontros amorosos, extraindo esse humor necessário. Há sempre uma música perfeita para cada ocasião, com a qual as histórias dialogam. O arroubo afetivo e emocional também pode estar à espreita, e é preciso lidar com ele. Quando menos se espera, a censura cede um pouco suas atribuições de dever moral, de continente do afeto caótico, e, se duvidar, já estamos beijando apaixonadamente o cantor. Quem nunca?
A prioridade dada à narrativa se reflete num cenário minimalista, com um colchão de casal ao centro, onde os atores e os músicos ficam e de onde partem para contar seus casos. A iluminação fria, desprovida de intenção de aconchego, parece cumprir o papel, de mãos dadas com o cenário, de não desviar a atenção para nada que não seja o conteúdo do que é narrado e, claro, a forma como o é. É assim que o texto cumpre sua função de trazer à baila as diversas formas que cada um pode ter (inúmeras, inenarráveis – mas aqui tornadas narráveis ou, melhor, dramatizáveis – e incontáveis) de lidar com as reações ao outro e com o outro.
Evitando dar spoiler, mas podendo cair na tentação de dar algum (fica aqui a breve advertência para quem ainda não viu o espetáculo), destaco dois momentos: o primeiro é o do casal que entra numa espiral interminável de um diálogo que nada mais é do que escrutínio sobre a medida do tesão do outro – a pergunta se resume a algo mais ou menos assim: afinal, mulher, sobre aquele beijo minutos antes, aquele mesmo que não se pode negar ter acontecido justo aqui na nossa frente, você se excitou com ele? Essa indagação, absolutamente incapaz de disfarçar o desespero que aí se encerra, se desdobrará em outras, várias outras, e também em interpretações, em mal-entendidos, em vaivéns. No final das contas, para quem assiste, resta a seguinte pulga atrás da orelha: de fato, a mulher teve certo tesão ou foi levada a criá-lo a partir da própria DR que se tornou interminável? Aquilo que é revelado, ao término do interrogatório investigativo, se constitui em fatos ou interpretações? Como diria o personagem do filme O cidadão ilustre (Mariano Cohn, Gastón Duprat, Argentina, 2016), o que chamamos fato é a interpretação que prevaleceu sobre as demais. E estamos continuamente construindo interpretações e entendimentos sobre nós mesmos, sobre o que sentimos e o que fizemos. Assim, caberia a pergunta: o tesão, se de fato existiu, é maior no momento em que acontece ou no momento de sua confissão, quando assume a forma de palavra? E como contornar ou sair de tal interrogatório labiríntico, interminável, asfixiante?
O segundo trecho que destaco é o da mulher que relata o encontro sexual/amoroso com o último homem com quem esteve, que, diferente dos outros (e os outros, ela faz a ressalva, não foram poucos), parece de algum modo a ter levado em consideração de forma especial: olhou-a nos olhos, disse as palavras certas nas horas certas, preocupando-se em dizê-las, pediu para dormir um pouquinho mais depois do sexo e perguntou se ela se incomodaria, e foi tudo ótimo, para não dizer excelente. O que essa mulher descobre, não sem dificuldade para encontrar a expressão mais adequada à descoberta, é a sensação inédita de se encontrar a salvo. Mesmo que não saiba de quê. Se fizéssemos aqui um exercício breve de descolar esse relato do espetáculo e das estranhezas (tão corriqueiras, diga-se de passagem, tão nossas) que o texto busca iluminar, e com a prudência de não cair em estereótipos apressados, poderia ser dito que isso é o que quase toda a mulher quer, ao menos no âmbito do discurso. Mas a mulher específica que traz o relato está nitidamente perturbada diante de tanto carinho, um pouco irritada até, eu arriscaria dizer, diante de tanta coisa dando certo e apontando para um bom desfecho, ou para um bom começo, ou, enfim, para a continuidade tranquila. E assim nada termina como se imagina que poderia terminar uma história que, a princípio e aparentemente, parecia levar a bons caminhos. Há, além dessas, outras diversas histórias, todas com suas cotas de curiosidade, peculiaridade, humor e tensão.
Foto: Dalton Valério
À guisa de comentário final, não posso deixar de apontar que as soluções dramatúrgicas para essas histórias e suas conclusões, todas escolhendo o caminho simples, são interessantíssimas e, neste sentido, faço breve menção à solução dada à nudez do homem numa das primeiras histórias. Só esse ponto – risco de polêmica enorme – já daria um texto inteiro, por isso me refugio no comentário. Entonces Bailemos evidencia que a nudez no teatro não precisa ser literal (por que, provocação rápida, a quem ela serve e que argumentos podemos usar para justificar a servidão?). Pode-se argumentar que a especificidade da dramaturgia da peça permite escapar dessa exigência de literalidade, dado que são histórias contadas, umas atrás das outras, por aqueles mesmos atores, que vão assumindo os papéis ou a prerrogativa de narração, de modo dinâmico. Mas a especificidade não vincula um tipo ou outro de expressão dramatúrgica, e é claro que outras escolhas poderiam ser feitas. Minha conclusão provisória é a de que é ótimo quando não se precisa provar nada (atores, diretores, autores) através da nudez (como se ficar nu fosse prova do que quer que seja). Resulta em alívio quando todos nós nos liberamos disso e quando o foco do que é contado não é desviado para um elemento irrelevante que pode acabar cooptando a atenção do espectador em detrimento do que realmente se quer comunicar. Entonces Bailemos é o tipo de espetáculo que faz pensar e faz ter vontade de falar sobre. Que deve, enfim, ser revisitado.
A peça, que teve diversos prêmios e indicações, além de ter sido encenada em lugares como Buenos Aires, México e Chile, com diferentes elencos, chega ao Brasil ganhando segunda temporada no Espaço Sérgio Porto, no Rio de Janeiro.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
Esse caminho infinito
Que rodeia ausências
E só me traz uma saudade do que não
II
Mal amanheci
Nem me avistei hoje
E já te penso
III
O espelho vazio
E na banheira do meu peito
Inundação
IV
Percorre no meu corpo
Adentra a intimidade
É só a água do chuveiro, Querida
V
A memória, mais tarde
É uma cabeça encostada
Na janela do ônibus
VI
Enquanto a vida passa lá fora
O amor em estagnação:
O meu melhor fado.
***
CONFISSÃO
Um barulho na cozinha
A desconfiança de uma descendência italiana
Meus pais, um caos
Quebrantes
Eu, caquinhos.
***
A CASA
Esse fantasma
Que me atormenta
E desmorona no meu sobrenome.
***
CATARSE
Aquele copo cheio de veneno
O gesto mal intencionado
O corpo tomado por crença.
O espinho liberta.
***
ARMAÇÃO
Essas espumas que explodem
As rochas cobertas pelo desejo
De tanto (a)mar.
Sem nenhuma dúvida
Se deixar molhar.
Depois secar, desconheço.
Ana Pérola (RJ – 1988) mora em Florianópolis, é poeta, fotógrafa, tem ensaios publicados na Revista Ellenismos, exposição fotográfica e conto na Revista Cruviana. Além de escrever em redes sociais e em seu blog Sentidos, é colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica e no projeto infantil Para Qualquer faz de Conta e atua também na área de Recursos Humanos na qual é graduada.
— É melhor ser órfão de pai morto do que órfão de pai preso.
A frase veio de muito longe, lá da infância, assim que a janela se fechou. Marcelo não teve como reclamar que as janelas é que devem ser abertas quando as portas se fecham. Não pensou isso nem lembrou de Deus, mas se arrependeu de ter dito aquilo ao primo. O fato é que eles não tinham pai, não importava se um estava preso, o de Tiago, ou se estava morto, como o de Marcelo. Aquela frase, no meio das disputas normais de criança, ficou esquecida. Eles brigaram outras vezes, competiram por tudo, amigos e adversários, primos e irmãos. Agora, no meio da queda, Marcelo queria que o primo o tivesse visto correndo da polícia; primeiro pela avenida, entre os carros; depois, já dentro da favela, entre as casas, subindo muros, por cima das lajes. Era o gato, como gostava de dizer, quando criança, sempre caindo de pé e ileso fosse das árvores, fosse dos muros.
Gato. Foi esse o bicho que viu no rabisco aleatório que fez na aula de desenho. Depois, treinou várias vezes em casa escondido, ensaiou o gesto para parecer o mais espontâneo possível e fez dele sua assinatura. Primeiro nos desenhos da escola, depois nos muros da rua. Todo mundo pichava naquela época. Ele e o primo se uniam naquela vontade de marcar territórios. Iam cada vez mais longe pelo bairro. E fora dele também. Naquela aventura de ultrapassar limites, ampliar horizontes, Marcelo foi além. Dos rabiscos frenéticos, das marcas da galera, passou a se aventurar em outros desenhos. E mais que as pernas ágeis e compridas, descobriu que as mãos eram capazes de fazer quase tudo que imaginava. As imagens na sua cabeça aos poucos iam passando para os muros na tinta negra do mais barato spray. Eram apenas as formas. Vieram, a seguir, as cores, multiplicadas rapidamente. Uma explosão de cores, diria o menino, ainda desacostumado de criar imagens com palavras. Como os desenhos falavam mais, ele não insistia nas palavras. Foi assim, em silêncio, que respondeu uma tarde quando o primo o chamou para mais um desafio de pichação.
— Vamos?
A mão de Marcelo apontou um olho inacabado em um muro. E para a próxima pergunta, nem mesmo um gesto.
— Vai ficar de mariquinha, é?
Eles se separaram.
Marcelo queria que o primo tivesse visto seu salto entre um prédio e outro, queria que tivesse visto o gato pichado naquele lugar tão difícil, os truques pra se livrar do segurança, o portão arrombado, a tinta negra sob as unhas, aquela prova de que não era veado.
— Homem tem tinta preta na mão. Nada de verdinho, vermelhinho, amarelinho.
Marcelo tinha medo de ser visto como menos homem do que era, mesmo que até já tivesse mostrado isso algumas vezes. Pegava mulher. Não era fácil, era tímido, mas a força do corpo e suas exigências empurravam o menino para frente. E tinha Rai.
— É um peixe?
O peixe estava visivelmente voando, havia nuvens embaixo para provar. Ele se entrelaçava com um pássaro que visivelmente estava dentro d’água, havia ondas em cima para provar. Eram muito coloridos e pareciam voltear um em torno do outro, asas e barbatanas se uniam passando suas cores de uma para outra. Entre tantas, havia apenas um filamento azul que saía da cabeça do peixe, abraçava o pássaro e terminava formando a pena mais longa de sua cauda. Foi o que mais chamou a atenção da menina.
— Que azul lindo. Nunca vi um azul assim. Chega dói.
Marcelo tinha misturado vários tons até chegar àquele azul. Ele se orgulhava do que tinha conseguido.
— Eu chamo de azucrinante.
Ela riu. Para ele, azucrinante era algo incrível, legal. Ele não sabia que os dicionários pensam diferente. Ela sequer pensou. Seu olhar estava além das palavras, além da explosão de cores, além da magreza juvenil e morena dele. As meninas chegam primeiro a um entendimento do que querem e de como devem fazer para ter. Ela sorriu admirada.
— É tão bonito!
Rai era linda. De um beleza que todos sabiam. Tiago sabia.
Ela se intrometeu entre os dois como se alguém usasse uma ferramenta de metal para alargar uma pequena rachadura. No começo, sem se dar conta, mas logo percebeu, pelo jeito esquivo de Tiago, que havia ali um desejo. Ela não resistia à tentação de atiçar o rapaz e rejeitar. Tinha o gozo de, estando com um, saber que o outro de longe invejava.
Marcelo não percebia. Não via relação entre a nova namorada e o primo. Sentia apenas o afastamento, e se ressentia de Tiago não ter nenhuma admiração pelo que ele fazia. Nenhum elogio de quem quer que fosse fazia o primo sentir como uma vitória de Marcelo. A marca do gato pequena embaixo de uma paisagem colorida não significa nada.
— Melhor é quem vai mais longe, mais alto. Isso é que é coisa de homem.
A voz do primo gritava nos ouvidos de Marcelo durante a queda. A mesma voz que ouvia enquanto invadia aquele prédio. No silêncio que fazia para enganar o segurança, a voz estava lá dentro, alta. E mesmo depois, na fuga — seguranças, polícia, carros —, nada era mais alto do que ouvir o primo gritando a superioridade de quem vai mais alto, de quem coloca sua marca no lugar mais difícil. Ele correu pela ruas, pela favela, por sobre as lajes das casas. Sabia que por ali chegaria em casa facilmente. Tantas vezes os dois tinham feito aquele caminho. Da última laje viu a janela do quarto aberta. Eles moravam numa encosta, uma casa em cima de outras três casas, um prédio construído aos poucos, uma invasão para o alto, que outro lugar não havia por ali. Tanta gente. Dormiam no mesmo quarto, juntos e, agora, afastados, um afastamento que doía em Marcelo.
A janela estava aberta. Era só pular e estaria salvo. Pulou. Tiago estava lá dentro. Ele sorria. Marcelo, como um reflexo do primo, sorriu satisfeito. Eles se aproximavam, juntos de novo, Marcelo vitorioso e aceito pelo primo.
Então, Tiago, como um Deus ao contrário, sem nem mesmo abrir uma porta antes, fechou a janela.
Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, EPP Publicações e Publicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014), “Arquivos de um corpo em viagem” (Poesia, Editora Mondrongo, 2015) e “A eternidade da maçã” (Contos, Ed. 7 Letras, 2016), vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016.
O quanto pode encerrar a potência e os caminhos de uma voz que se quer dedicada à poesia? Por certo, há mais do que uma vontade de dizer coisas ao mundo, de vociferar intenções discursivas advindas da mecânica do pensamento. Não basta intentar criações como se estas fossem um mero jogo de representação dos sintomas pulsantes da vida e seus entornos. Desconfiamos, pois, que há muito mais por trás daquele que se mostra em palavras e versos ao mundo.
O poeta a quem dedicamos atenção agora abarca uma peculiar condição de estar no mundo, qual seja a de mostrar-se inquieto e desperto diante de questões que marcam sobremaneira a seara humana no quesito das identidades. É Jorge Augusto, intelectual baiano, educador, artífice do verso, editor e, principalmente, ativista cultural quem nos oferta possibilidades de diálogo a partir de um tão complexo território que é a literatura.
O Jorge com quem conversamos está envolto nas transformações que o tempo impôs a seus escritos. Desde os primeiros poemas, cobertos pela égide do desejo, até o momento presente, o autor tem revelado uma maturidade estética que é consequência natural de um processo pessoal de busca. Um de seus mais importantes projetos aponta para a condução da Organismo Editora, coordenando a Coleção de poetas baianos inéditos, bem como a Revista Organismo. É doutorando em Literatura e crítica da cultura pela UFBA. Na área de Literatura Brasileira, o cerne de suas pesquisas está voltado para temas como decolonialidade, modernismo brasileiro e literatura negra. Hoje, integra o corpo docente do IFMA.
Com poemas publicados na Antilogia – organização de coletânea entre poetas de Bahia e São Paulo (2011), no livro de poemas do Sarau da Onça, e na antologia Enegrescência (Ed. Ogum’s Toques), dentre colaborações para sites e revistas variadas, Jorge vai deixando entre nós os indícios de uma expressão que contempla uma percepção aguçada sobre a existência. Decerto, são revelações de uma alma que tenciona desarranjar acomodações e cujo alicerce do pensamento aponta para o ato frequente de vislumbrar a crítica salutar sobre o que está posto em matéria cultural.
O Jorge Augusto que nos confessa certo e atroz desengano diante do presente não repousa seus arremates no solo estático da desilusão. Pelo contrário, evidencia uma provocação que, em última instância, sugere uma mudança de rumos situada nalguma via de renovação. Como esta se dará só o futuro pode nos asseverar.
Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura
DA – Parte de sua produção poética possui uma atmosfera marcada por elementos sensoriais que sugerem instigantes percursos através dos sentidos, sobretudo no que se refere à construção do desejo. Em que medida essa característica é constituinte do poeta que você é hoje?
JORGE AUGUSTO – Acredito que em pouca medida hoje. Confesso que quando li/ouvi sua pergunta, fiquei pensando com o que nos meus poemas ela dialogava. Porque nenhum dos poemas publicados nas antologias, que foram as últimas publicações, têm essa presença dos elementos sensoriais, pelo menos não deliberadamente, não por vontade, e consciência. Mas logo lembrei das revistas e dos poemas que publiquei, mais ou menos em 2007 (período que comecei a publicar), na Germina Literatura e na Diversos Afins, no projeto Uníssono, por exemplo. E sua pergunta fez sentido para mim. Então, tive que respondê-la primeiro para mim, escutar a resposta, para depois dizê-la. Mas, sobre a construção do desejo, eu acredito que, assim como a fala na psicanálise, muitas vezes na escrita, mesmo e, sobretudo, à revelia do sujeito, há um exercício infinito, talvez, de elaboração do desejo ou da consciência dele. E desejo, aqui, no sentido amplo, desejo de revolução, de mudança, de foda, desejo de estar vivo. Enfim, acho que dos primeiros poemas para cá, e creio ainda está nos primeiros (e talvez já últimos), esse lugar, esse objeto do desejo, tenha mudado, ou melhor, expandido, alargado. Deixou de estar fixo no reduto do corpo e elasteceu-se a outros muitos corpus.
DA – Nesse processo de expansão de sua consciência poética, há uma preocupação intencional de se fazer ouvir por uma postura ideológica diante do mundo?
JORGE AUGUSTO – A postura ideológica diante do mundo vai, em qualquer expressão de linguagem, mais ou menos camuflada, mais ou menos exposta. Mas está sempre lá, na palavra, no silêncio, ou no silêncio da palavra. Acho, por exemplo, que o que você chamou de “preocupação intencional” em demonstrar uma ideologia pode estar, muitas vezes, melhor relacionada a uma escolha formal do que conteudística. Embora, para mim, o bom poema seja aquele em que essa separação forma-fundo é o menos visível possível, ou melhor, aquele em que essa divisão nem exista. E de resto não acho que foi uma “expansão de consciência poética”, mas uma mudança de opção, uma escolha estética, porque o tema, também, compõe a forma.
DA – O poeta deve ter um compromisso com o seu tempo?
JORGE AUGUSTO – Eu não acredito numa função trans-histórica do poeta. Não acredito que o poeta, ou a poesia, tenham uma função. Estas perspectivas acionam uma espécie de metafísica que não agencia nenhuma potência humana. Porém, acredito no papel histórico do (a) poeta. E são duas coisas completamente diferentes. O papel que o poeta deve desempenhar em seu tempo não tem nada a ver com uma função da poesia em si, transcendental e atemporal. Pelo contrário, diz respeito ao uso que o poeta empresta à poesia em determinado contexto histórico. Esse papel não tem necessariamente nada a ver com o desejo do poeta, nem do seu tempo, mas com o que é necessário a esse tempo. Por isso, a poesia deve ser pensada numa relação ético-estética. A forma não é meramente uma construção estética, mas ética. Nesse sentido, inverte-se aquela equação famosa em que o “grande” (assim entre aspas) poeta é aquele que ultrapassa sua época e está além do seu tempo, o bom poeta passa a ser aquele que entende que tipo de poesia o seu tempo precisa propor, que tipo de violência sobre a linguagem é necessária àquele tempo. Tanto a revista Noigandres quanto os cadernos negros foram, como projetos literários, igualmente importantes à literatura brasileira, em suas dimensões éticas e estéticas. É por causa disso, desse papel histórico que a poesia pode ter, que hoje é tão complicado pensarmos numa vanguarda ou numa estética que represente uma coletividade grande, de forma hegemônica, porque a sociedade globalizada é multitemporal e, consequentemente, com diversas necessidades diferentes, mesmo dentro de um único território político, como é o caso do Brasil. Assim, a poesia ganha vários, múltiplos papeis, num mesmo espaço-tempo.
DA – Há quem defina que a literatura não precisa ser dividida em frentes de atuação, sobretudo no que se refere às vozes pertencentes às minorias, tais como negros, gays, mulheres etc. Qual olhar você lança sobre esse tema, tendo em vista que a literatura é um importante instrumento de expressão identitária?
JORGE AUGUSTO – Essa questão carrega para mim uma série de falsas tensões. Por exemplo, é comum ouvir algum crítico ou “estudioso” da literatura perguntar: “por que chamar de “literatura negra”, ou de “literatura feminina” se a literatura é universal? Adjetivar a literatura é restringi-la e diminuí-la”. Essa fala, mil vezes dita e repetida nos mais diferentes círculos de conversa sobre literatura, é exaustivamente cansativa. Esse tipo de argumento mostra, ou uma ignorância do tema, ou um mau-caratismo, porque se tem algo óbvio na literatura, é que ela sempre foi adjetivada. Chamar uma literatura de inglesa, francesa ou alemã não é adjetivá-la? Chamar uma literatura de ocidental, não é adjetivá-la? Quantos livros de história da literatura ocidental (Europa, claro) nós víamos pelas prateleiras das livrarias? O que é necessário compreender é que essa adjetivação era também identitária, pois remetia, em grande parte, a relações entre os textos e a nação, ou língua e nação, ou texto e língua. É nesse sentido que alguns críticos chamam (ou chamavam) de literatura inglesa tudo que foi escrito em inglês, e que cada nação tomava para si um conjunto de textos e adjetivava. Ora, o que aconteceu nas últimas décadas foi uma reorganização, uma reorientação das construções discursivas sobre a identidade. Uma série de formações discursivas que viviam obliteradas sob as metanarrativas nacionalistas e marxistas ganharam novo protagonismo com o fim da esperança (pelo menos por agora) em uma sociedade não capitalista. Uma nova série de sociabilidades vai ganhando fôlego e politizando suas demandas e subjetividades, e, claro, essas sociabilidades engolidas historicamente pelas narrativas nacionais totalizantes precisam agora construir-se histórica e discursivamente como as nações se construíram. E para isso usam a literatura, porque, como todos sabemos, identidade é construção de linguagem. Portanto, não há absolutamente nada que diferencie, metodologicamente, chamar uma literatura de chilena, ou de negro-brasileira, os mecanismos discursivos de construção dessas adjetivações são os mesmos.
Outro argumento, um pouco mais respeitoso, mas ainda assim muito frágil, é a ideia de que, para chamarmos uma literatura de “feminina”, por exemplo, ela teria que ter necessariamente uma inovação formal que a diferenciasse das demais literaturas que a rodeiam com outros adjetivos pátrios. Essa proposição tem equívocos. Um deles é o de que não foi uma característica estética determinante quem fez com que as literaturas nacionais ganhassem seus adjetivos. Se não, poetas como Tomás Antônio Gonzaga, Castro Alves e tantos outros não seriam considerados literatura brasileira. Mesmo nosso modernismo assinalava no plano formal vários diálogos com as vanguardas europeias, como qualquer estudante sabe. É preciso compreender coisas muito simples, como o fato de que as revoluções formais que ocorrem na literatura, como Modernismo, Concretismo, Romantismo, agenciam conjuntos de textos. Já as adjetivações literárias como literatura brasileira, literatura feminina, literatura russa, literatura homoafetiva, agenciam coletividades de sujeitos. São coisas bem diferentes, mesmo podendo eventualmente misturar-se, num determinado contexto histórico, mas que são independentes umas das outras, pois uma diz respeito a como se produz, e a outra, a quem produz.
Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura
DA – Como você observa a dinâmica da construção das identidades no contexto digital, mais precisamente no que diz respeito às novas vozes autorais que publicam seus escritos em revistas digitais?
JORGE AUGUSTO – Acho que não sei responder esta pergunta, mas gosto de especular. Primeiro, acho que quando pensamos na produção de identidades no contexto digital, partindo da escrita, e aí acho quase impossível limitar a noção de escrita a texto, não temos como restringir esses autores ao contexto de publicação em revistas digitais. Antes, a ideia, para mim, seria pensar esse autor desde o post no facebook até o poema que sai no livro, que em muitos casos é o mesmo. Nesse sentido, não consigo pensar em outra possibilidade senão de chamar performance isso que você chamou de “construção identitária”. Essa performance diz respeito diretamente à relação entre autor e leitor, pois a internet e suas possibilidades de conexão e publicação possibilitaram um circuito de afetos novos ao poeta. O poeta e a poesia, como sabemos, são os patinhos feios das linguagens artísticas na indústria cultural de massa. O poeta é o mais barato, o que põe em circuito menor circulação de capital, e, por isso, não goza das mesmas projeções de publicidade que outros artistas. O poeta e sua obra estão quase sempre restritos ao próprio campo literário. Porém, as possibilidades de interação propiciadas pela internet abrem um novo circuito de circulação dessas obras e poetas que independe de acesso direto aos grandes veículos de divulgação massiva. E o mais perto que o poeta chega de ser pop é ter uma grande quantidade de seguidores nas redes sociais. O ápice é virar letrista de músicos famosos. Até aí o que há nessa presença do poeta no contexto digital são aspectos positivos: divulgação de sua obra e interação com o público, facilidade de acesso aos poemas e poetas, construção de uma rede de contatos e discussão entre autores, público e crítica etc.
Mas, a partir daí, o que nos interessa pensar é: que efeitos esse contato íntimo com o leitor causa na identidade, na performance do poeta enquanto poeta? E estamos diante de um fato: poeta nenhum escreve um poema por dia. Entramos aí talvez num jogo meio esquizofrênico, mas muito comum nas redes sociais, que é um trabalho de manutenção dos leitores, que só pode ser feito para além do texto literário. Assim, piadas, fotos, opiniões sobre tudo e qualquer coisa, interação contínua, etc., compõem o quadro de uma performance que não é mais, em muitos casos, de um poeta, ou escritor, mas simplesmente de uma pessoa pública. A poesia, em alguns casos, vai, pouco a pouco, ficando em segundo plano. Isso é muito mais comum do que parece. Um poeta muito pop não é necessariamente um poeta lido, embora isso possa tranquilamente acontecer. Em suma, o perigo nessa relação performática que atravessa a visibilidade do escritor e sua obra, expondo-os ao contato direto e cotidiano com o leitor, é tudo acabar num jogo de espelho narcísico. O que a nossa época menos precisa.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
JORGE AUGUSTO – O que eu não endosso na pós-modernidade é seu funcionamento como sinônimo de contemporâneo, como se o “pós-moderno fosse o contemporâneo”, isso é visto muito em um senso comum, mas também em discussões acadêmicas com pouco esforço de pesquisa. A pós-modernidade é uma nomenclatura que remete a uma proposta epistemológica, comumente filiada ao pós-estruturalismo francês, mas não apenas, que traz no campo da teoria um questionamento e uma ruptura com uma série de propostas epistêmicas que marcaram o pensamento científico até metade do século passado. Mas é apenas uma das propostas vigentes, pois temos a pós-colonialidade, a decolonialidade, o feminismo-negro, entre outras, todas propostas epistêmicas de grande fôlego e que compõem o cenário contemporâneo na produção de conhecimento. Portanto, me incomoda, primeiro, o uso do termo pós-moderno como sinônimo de contemporâneo, o que oblitera, esconde, todas as outras propostas de debate. Segundo, o pós-moderno é marcado por uma “politização da subjetividade”, de uma maneira tal que a individuação de grupos e sujeitos, suas demandas e projetos, passam a ser construídas a partir de pontos de vista específicos no plano histórico, social e político, o que me parece correto, e o é, até a página três. Há nisso, nessa arquitetura que se criou para combater a desigualdade, que é a justa luta pela autorrepresentação e pelo poder, uma esquina que em certa medida a reforça. E essa afirmação é um tanto polêmica, e é justo que seja, mas tentarei explicar. À medida que a micropolítica ocupa o lugar da metanarrativa marxista e os grupos minoritários agenciam suas próprias demandas, a política ganha uma nova potência transformadora que, vimos, deu muitos frutos positivos, nos planos políticos, epistêmicos e subjetivos. Mas eu acredito que esses frutos positivos podem ser, agora, potencializados, se restituirmos a esses discursos minoritários o desejo pela emancipação social, num plano coletivo. E não, isso não pede, em nenhuma instância, a volta da metanarrativa marxista, nem o império da superestrutura, nem o determinismo de classe. Era impossível continuar pensando a partir do marxismo, e tudo o que se fez depois disso mostra que foi uma mudança necessária, porém, igualmente acredito que pensar com o marxismo ainda pode ser útil. Então, pensar a partir de, e pensar com, é muito diferente. Creio que nossa apatia no cenário político contemporâneo, no Brasil, tem como um dos motivos, a falta de conexão, de costura entre as demandas políticas que os grupos minoritários agenciam. Temos, enquanto minorias, muita coisa incomum, mas também, em comum, todos sabemos. A fase de ruptura radical de construção discursiva da singularidade foi e tem sido fundamental. Agora creio que tecer uma rede de demandas comuns é, também, estratégico e potente no nosso atual cenário. A luta contra a violência cometida contra a mulher negra, contra sua solidão, não é apartada da luta contra o genocídio dos jovens negros nas periferias brasileiras, e ambas estão ligadas de forma mais ampla ao completo abandono da educação pública nas periferias do Brasil. O que precisamos hoje é aprender a costurar as demandas sem tirar força e singularidade de nenhuma delas. Esse é o desafio do intelectual hoje. Portanto, paradoxalmente, há uma pretensa universalização do plano epistêmico, operada pela sigla pós-moderno, que me desagrada, e uma fragmentação no plano político, da qual tenho ressalvas.
DA – Pensando na sua atuação à frente de uma editora como a Organismo, quais desafios surgem com mais evidência quando se trata de disseminar a produção literária no contexto de uma iniciativa independente?
JORGE AUGUSTO – As dificuldades são muitas. Uma editora pequena tem muitos desafios. Publicar é caro, distribuir também. Os serviços, se você quiser fazer um trabalho de destaque, também são caros. Enfim, do ponto de vista financeiro, às vezes parece inexequível. No caso da Organismo Editora, o desafio é ainda maior, pois, em nossa primeira coleção “novos autores”, publicamos apenas autores inéditos, ou seja, que teoricamente ainda estão construindo um público, portanto, sem grandes promessas de vendas; e também, essa coleção publica apenas poetas e, em sua grande parte, os poetas não vendem muitos livros; por fim, trabalhamos com uma proposta estética muito específica, pois o projeto da Organismo é pensar o livro como um objeto que produza signos e sentidos, que dialogue com os poemas, o livro como agenciamento de sentidos. Assim, nessa coleção tudo está relacionado no livro, fonte, cor, corte, poemas etc. Buscamos mitigar no maior grau possível a dicotomia forma-fundo. A proposta é pensar o livro, enquanto objeto, como organismo vivo, que não é apenas um repositório de sentidos, como uma caixa de guardar poemas, mas que está sempre em interação com o leitor e os poemas, produzindo esses sentidos. Essa característica nos isola no mercado, além de encarecer, muitas vezes, o preço de publicação do livro. A maior distribuidora de livros da Bahia se negou a distribuir nossos livros com o seguinte argumento: “da próxima vez, faça algo mais simples, essas coisas não vendem”. E olhe que eles cobram de 50 a 60 por cento pela distribuição.
Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura
DA – Temos experimentado no Brasil um crescente número de editoras pequenas que preferem elas mesmas distribuírem seus livros e, assim, cuidarem de todo o processo de comercialização. Há alguma outra saída nessa tentativa de sobrevivência editorial?
JORGE AUGUSTO – Tenho pouca experiência nisso, quase nenhuma, mas penso que temos algumas poucas alternativas, como intensificar cada vez mais as vendas pela internet, coisa que já acontece, essas editoras alternativas produzirem feiras em conjunto (também já é feito, mas pode ser intensificado). As editoras podem visibilizar catálogos em parceria, em seus sites, e cada vez mais os lançamentos terem uma importância maior, pois é o momento no qual as pequenas editoras conseguem escoar as publicações. Uma coisa que eu acho que deve ser feita é abrir nos grandes eventos espaço para as editoras menores. Sem esse espaço para publicização dos livros, fica muito difícil que eles sejam vendidos. Esse estado de coisas cria um fenômeno que me desagrada, e que remete a uma questão anterior que você colocou, pois, somam-se dois fatores: a histórica venda comedida dos poetas, a dificuldade de distribuição das pequenas editoras, junto com a exclusão dos grandes eventos. Com tudo isso somado, os poetas acabam tendo que virar promoters de sua própria obra, o que às vezes até funciona bem, outras nos lega uma série de constrangimentos horríveis, como a onda de autoelogio e autopublicação que vemos em redes sociais.
DA – No quesito da criação, como você avalia o novo panorama literário nacional?
JORGE AUGUSTO – O panorama atual da literatura brasileira tem uma peculiaridade histórica. Ele é, pela primeira vez, rizomático. E acho que a palavra é justamente essa, mesmo caindo num risco de parecer muito teórico. Acho que a ideia de múltiplo, por exemplo, não resolve. É rizomático no sentido de que são muitas linhas de fuga se cruzando e seguindo. Nessas quase duas décadas de século XXI, vimos a literatura brasileira ganhar diversas revistas importantes na internet, vimos as publicações de poesia assumirem uma crescente, sobretudo a partir das novas editoras. Mas alguns eventos se destacam, como a coleção de poetas lançados pelo selo Sete Letras, o grupo de poetas (até onde sei) majoritariamente do eixo Rio-SP que se formou em torno da revista Inimigo Rumor. Concomitantemente, tivemos um movimento que se forjou no contorno da revista Zunái, de Claudio Daniel, salvo engano chamava Neobarroco. E até aí o que tínhamos ainda era uma geração que buscava se debater na sombra do concretismo que, de algum modo, buscava dar o fantasmagórico passo à frente, tão inscrito na teoria da poesia concreta. Quem se livrou relativamente dessa questão, sobretudo na sequência das publicações, foi o grupo da Modo de Usar, inclusive com produção crítica. Mas até aí havia ainda uma multiplicidade que se irradiava a partir de uma linha de fuga do rizoma mais ligada à tradição. Há nesses grupos, na minha modesta opinião, um diálogo com essa tradição da literatura brasileira oficial, seja para negar ou buscar o passo à frente. Nas outras linhas de fuga do rizoma, acho que as expressões produzidas pelas estéticas minoritárias vêm gerar desde o século passado um conjunto de fortes cenas. Podemos tomar os Cadernos Negros como marco, chegando hoje à fortíssima e consistente literatura negra feminina, mas passando por uma literatura feminina, indígena, periférica, homoafetiva, ou seja, uma série de linhas de fuga vão se criando como tema diverso e como forma. Outros núcleos vão se formando como a editora Organismo e a Ogum’s Toques, na Bahia, as Edições Cartoneiras, em Recife. As diferenças se multiplicam e seguem em linhas de fuga. Nesse cenário, a criação é diversa, e aí vem a grande questão: a diversidade é uma qualidade ética nem sempre acompanhada de força estética. Portanto, não basta ser um poema filiado às minorias, ou um poema que seja contra-hegemônico em relação à literatura oficial, nem muito menos um poema que se enquadre na tradição para que seja tomado como um “bom poema”. Haver uma ampliação gigante de formas e temas possíveis como literatura nos permite dizer que há muitos projetos estéticos diferentes, mas não implica dizer que tudo que se faz dentro dessa diferença tem a mesma potência ético-estética. Isso parece óbvio, eu sei, mas não tem sido. Há todo um investimento teórico, de certa parte da academia e de parcela da crítica literária, para pensar esses novos corpus, e o próprio conceito de literatura, em seu sentido clássico, tem sido rasurado em muitas frentes. Desse modo, vejo o panorama da literatura nacional produtivo, diverso e muito positivo, em relação às obras produzidas, mas ainda em gestação em relação à crítica desse mesmo cenário, sobretudo em relação ao que é produzido fora do eixo Rio-SP. E ressalvamos que não se trata de uma cena acabada, na qual o múltiplo é dado como construído, há processos de mitose e meiose ainda em curso, há propostas de escritas se costurando, enquanto outras se bifurcam e seguem por si. Daí, a cena ser rizomática e não apenas múltipla, pois as multiplicidades ainda estão em pleno acontecimento.
DA – Somos um país de leitores subestimados?
JORGE AUGUSTO – Creio que somos um país de subleitores, e que os leitores que temos são, em boa medida, subestimados. E uma coisa tem muito a ver com a outra. Eu acredito que a equação normalmente acionada para falar de leitores no Brasil é essa: “os leitores são subestimados porque são subleitores, ou seja, leem mal, ou não gostam de ler”. Primeiro, é fundamental identificarmos o que essas pesquisas que apontam a não leitura consideram como leitura.
Um livro chamado Cultura Letrada, de Márcia Abreu, nos fornece insights valiosos sobre isso. Mostra, por exemplo, que nem todo tipo de livro é valorizado como leitura, nos processos educacionais. Portanto, há um tipo de leitura que é cobrada, obviamente aquela que redunda ao cânone e suas adjacências. É inegável como a indústria do livro cresceu no Brasil nos últimos anos. Alguém lê os best sellers, lê os livros que são adaptados pelo cinema, porque eles vendem muito. As pessoas não compram para colocar na estante. Quando nós, nos processos educacionais mais básicos, desconsideramos uma série de leituras, de diversas vertentes (do quadrinho ao clássico) que os meninos fazem, estamos subestimando não apenas essas obras, mas, sobretudo, os leitores e, consequentemente, produzindo subleitores. E subleitores aqui está empregado no sentido de sujeitos que leem apenas o necessário para o desenrolar da vida cotidiana mais prática, que não acionam a leitura em suas potências construtivas, inventivas e subjetivas. Porque, se lá no início, no ensino básico e fundamental, tudo que você lê é desqualificado pelo projeto pedagógico, pelo livro didático e pelo professor, o que está sendo posto em xeque, mesmo que “involuntariamente”, não é a obra que você gosta de ler, é a própria prática de leitura.
DA – Quem é Jorge Augusto?
JORGE AUGUSTO – Dizer quem sou é um estorvo e um teatro. Digo quem estou, é o máximo que posso tentar. Estou há algum tempo um homem pesado, sinto como se carregasse meu próprio peso como um escombro. Como se arrastasse, passo a passo, meu corpo como um trambolho. Desesperançado, desiludido. Eu disse em versos: “minha mãe morreu hoje /todo esse tempo, sem por que nem pecado / sem deus ou diabo, sigo só:/ homem sem fé, mas culpado”. E não mudou ainda, isso resume esse hoje que sou. Talvez haja certo momento, certa lucidez em que a solidão é inevitável e saber vivê-la é decisivo entre o choro e o riso. Eu devo estar, agora, nesse exercício. Acho que é um exercício de morrer para nascer de novo, como metáfora, como símbolo, acredito que tem potência nisso. O ruim é que nada quer morrer, nem a esperança, nem o passado, nem o amor, nem o cachorro, nem o corpo, tudo fica se arrastando, insistindo. O sofrimento vem muito dessa insistência em não acatar as mortes, das ordinárias às mais contundentes. O luto é tão necessário, para o sujeito quanto a luta. Mas é importante dizer que essa desilusão não é harmônica, nem apática, pois é esse homem consciente das mortes e da perenidade, justamente aquele que pode arriscar. Enfim, hoje sou um homem negro, sem esperança nem no amor, nem no país, nem no homem. Amanhã me pergunte de novo e, provavelmente, te direi outros poemas. Por enquanto, estou naquele um minuto de silêncio.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.