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121ª Leva - 06/2017 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Existem realmente fronteiras para a arte? Usando de mais exatidão, as expressões artísticas, com toda a sua carga de diversidade e linguagens múltiplas, podem se curvar ante a ditames que as impedem de mostrar-se ao mundo? Ao que parece, o controle do homem sobre o homem nunca deixou de ser exercido. Seja para aplacar as possibilidades libertárias encerradas pelas epifanias da mente ou do corpo, seja para desfilar todo um império de moralismos montados numa égide de hipocrisias, são abertas cada vez mais novas alas de intolerância e desrespeito. Numa instância mais aprofundada, negar a alguém o gozo de sua humanidade plena é também um ato de barbárie. Nesse ínterim, a censura à arte parece ser uma das formas mais cruéis de tentar aniquilar a voz de alguém. E podemos deslocar tal intento limitador aos mais variados campos de expressão, da literatura, passando pela música, até as artes visuais. Então, qual seriam os elementos argumentativos que classificariam uma determinada obra como sendo um atentado à pauta conservadora da sociedade? Melhor pensarmos num jogo de oposições, através do qual interesses obscuros e moralistas alimentam um nocivo status quo de garras imperiosas. A tais tipos não interessa que uma voz, por exemplo, periférica ouse falar ao mundo sobre a inteireza de sua verdade pessoal marcada pela caracterização de sua identidade. A arte jamais deixará de ser atravessada pelas marcas pessoais de quem a engendra, ainda mais quando se trata da construção identitária que se mostra ao mundo por intermédio das criações. Assim, discurso e linguagem se amalgamam dentro de uma ideia que aponta para a mais viva representação de uma individualidade. A ninguém é dado o direito de exterminá-la. Definitivamente, não há espaço para destruições identitárias num ambiente como a Diversos Afins. Que novas vozes venham a transitar suas faces por aqui. O caminho está aberto. A Leva 121 traz, a propósito, uma importante entrevista com a poeta e performer Daniela Galdino, artista que conduz com maestria a segunda edição do coletivo de poetas e fotógrafas “Profundanças”. Sobre este e outros temas afeitos à Performance e à Literatura, o diálogo germinou algumas preciosas reflexões. Por aqui, agora trilham as alamedas poéticas os versos de Eunice Boreal, Celso Yokomiso, Tassyla Queiroga, Lilian Sais e Helena de Andrade. A partir do espetáculo “Para que o céu não caia”, Marcus Groza descreve sua experiência com vigorosas manifestações da dança. São de Guilherme Preger as impressões sobre o filme cubano “Últimos dias em Havana”. As narrativas de Rita Santana, Anchieta Mendes e Vinícius Canhoto compõem nossos dedos de prosa de então. Thiago Mourão nos apresenta uma significativa prévia do novo disco da cantora Illy Gouvêa. São de Saulo Dourado os atentos mergulhos no livro de crônicas “#Parem de nos matar!”, de Cidinha da Silva. Para coroar todas as alamedas desta nova edição, expomos as pinturas da artista portuguesa Cláudia R. Sampaio. Com os caminhos cada vez mais abertos, eis uma nova Leva. Boas-vindas!

Os Leveiros

 

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121ª Leva - 06/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rita Santana

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

A FEBRE

 

Talvez a cidade seja vista por mim de forma panorâmica, como se eu não estivesse dentro dela, morando nela, mas de passagem. Do meu ônibus, olho. Mesmo que eu morra e seja enterrada aqui, eu não sou deste lugar. Não tenho vínculos sentimentais com as suas ruas nem com a sua gente. Gosto muito das casas que resistiram ao tempo e permaneceram intactas no silêncio arquitetônico da Capital, maculadas pela poluição. Eu aprecio, observo e penso as pessoas e o espaço. Mas não sei a cidade. Se soubesse, eu estaria nela. Não estou. Os nomes das ruas começam a ter algum significado dentro de mim. Os sacolejos do ônibus, curvas e freadas bruscas tiram o meu pensamento do foco, e a minha atenção se desvia para alguém, um ponto, outra viagem, um cabelo, uma camisa, um cheiro. É na minha terra que meus mortos morrem. Vejo na mesma calçada, o edifício Haroldo Lima e a igreja Universal do Reino de Deus. Quantos paradoxos atravessam-me! Tenho que fazer a síntese para não sucumbir, surtar, sofrer! Sinto que sou vigiada.

Às vezes, ela, Verônica, sente certo pertencimento, sim, certa aderência à cidade. Confessar talvez fosse resgatá-la para o lugar do fracasso. A conquista dos espaços é ainda mais dura do que supunha desde sempre, e os anos passam. O que há é vida e desengano. Dentro, memórias amontoadas e irresolúveis girando como os discos de vinil que vivem dentro do quarto-e-sala no Largo 2 de Julho. Um sangramento inconfesso e umas lembranças, mais doloridas hoje que ontem, atormentam-na. Veste uma calça jeans, um mocassim vermelho, surrado pra caramba, e aquela velha blusa de malha macia, mole, com pequenas flores brancas sobre o fundo vermelho. O cabelo solto com umas flores de crochê, cachos mais definidos, fios hidratados, alguns nós embaraçados, creme. Cabelo de mulher negra: macio, mole e muito fino.

– Sinto-me seguida, guiada nas palavras que uso, nos gestos. Como se houvesse uma inteligência a conduzir – ou tentar –os meus passos. Mas isto não é da sua conta, ouviu? Não é da sua conta o que não quero revelar. Não gosto da delatora ignorada que me espia e talvez revele falsas impressões sobre mim e sobre a minha intimidade. Originalidade, minha cara, tenha originalidade! O que em mim interessa a você, diz respeito aos seus inconfessos desejos? Nada! Por que, então, me olha? Demônios!  Sinto que aqueço e sangro por dentro. A boca inteira traz um gosto de sangue, e a cabeça – toda ela – parece conter a mesma sensação. Sinto-me sozinha, completamente sozinha em todas as minhas horas, sem que exista um par. Apenas a algoz que denuncia as minhas infâmias. Déspota que não olha pra si mesma e não tece seus próprios tecidos, apenas olha e é incapaz de manipular o tear; espia e manipula verdades, informações. Uma mulher! É mulher quem me delata. Habito um vestido de tecido barato, amarronzado, com manchas pretas que remetem à África, isto sim! Como acreditar no olhar que interpreta e é dono das verdades em narrativa de vida alheia? O olhar que orna o real como bem lhe apetece. Acreditar na edição desse olho, na sua montagem autoral?! Cacete!! Sinto frio e sede! Visto calafrios e enigmas. E não desisto de buscar a Poesia.

É uma quinta-feira! Início de tarde. Vejam – eu preciso cumprir o meu destino. O sol está muito forte e aquele ônibus não entra na estação da Lapa. Logo, é preciso caminhar até lá subindo o Vale do Tororó. E ela o faz, enquanto olha as vendedoras ocupadas com suas mercadorias, empurrando o pedestre para o asfalto com seus caixotes que me lembram o cenário de peças teatrais que vivem grudadas dentro de mim. Preciso acender velas. Perdão! Às vezes, caio em abstrações e penso em mim, no meu nome. Ela, Verônica, nossa personagem, vê beleza nos artefatos, nos objetos expostos, nas cores das malhas grudadas nas manequins cada vez mais próximas de um ideal de feminilidade baiana. Mas, apesar do cansaço, parece sorrir.

– Não, eu não gosto da Lapa! Eu, verdadeiramente detesto a Lapa e tudo o que a cerca! É tudo muito áspero, seco, escuro, sujo e concreto. O subsolo é uma prisão! Piso ainda nesta calçada sem olhar por onde ando e sei que preciso estar no agora para vencer o presente a cada passo: e não tropeçar! Mas como está difícil abandonar o passado. Como hoje ele me atravessa e insiste em lembranças antes apagadas! Hoje, sangro um pouco mais internamente. Os anos não me livraram de algumas imagens. Alguém para telefonar caso aconteça alguma coisa comigo? SAMU! E O Sol Também se Levanta desatinando sensações da leitura de tantos anos atrás, como se pudesse me levar de volta àquelas touradas, e às palavras que me trouxeram tanta estranheza; o cheiro das páginas do livro na memória. E o almoço? Comer sozinha. Preciso comprar um abacaxi. Falta-me oxigênio no cérebro! Gosto amargo de sangue na boca, vertigem nos olhos. Confusão de sombrinhas, pernas e poemas caídos no chão. Rostos de gente que não é a minha gente e uma perturbação nos dedos. O suor. Aquele mau cheiro de minha avó em meu corpo, os panos na pele, as pulseiras de ouro de tia Tonha no cérebro. E a febre nas pernas!

Parece tropeçar! Não consigo acompanhá-la agora. Ela, entre a multidão de trabalhadores, é apenas mais uma a levar empurrões, olhares e palavras de estupro. Como são comuns as palavras de estupro nas ruas dessa Bahia! Vence as escadarias e em algum momento se apóia em um homem, sorri uma desculpa e para. Depois prossegue sendo levada pela pressa, pelos atropelos, pelos ambulantes, pelas mercadorias, pelos dvds piratas em abundância atraindo seus olhos de fadiga.

– Estranhezas. Sensações. Impressões. Eu queria estar naquelas páginas novamente. Lembrança da alma em sincronia perfeita com os tijolos de uma cidade cujas cores não seriam as do romance lido há tanto tempo, mas cores de um amor abortado entre a baía de Todos os Santos e a baía do Pontal. O pôr-do-sol na Sapetinga, um deque, promessas inauditas. E o meu corpo suando frio enquanto resisto e observo o meu ceticismo quanto à chegada. Sempre temi encontrar em uma cidade o meu passado, a minha intimidade de outras vidas. Não perseguirei Toulouse, nem o Engenho de Santana, nem Milagres, nem Carcassone. Um chá e uns incensos talvez resolvam o meu drama, a minha tragédia. Uma caipirinha e um beijo. Eu preciso mesmo é de um beijo! Não, a boca está muito seca. Quero água! Que calor!

São quase duas horas da tarde. A fome dispara o alarme no corpo da mulher que sigo e as suas pernas doem; acho que tremem; são finas e fracas. Da distância em que estou, parece que cambaleiam um pouco. Verônica lamenta a sua peregrinação e outras mulheres em todo o mundo também o fazem, entretanto, seguem. Mas é apenas de Verônica o nosso olhar, os nossos gestos inúteis de ajuda, o nosso riso tentando entender a sua alma e inventar fingimentos para o seu caminho, construindo a trilha da sua chegada. Pensando no tempo para que a narrativa se cumpra. Como entender Verônica assim, entre a multidão que se esbarra na estação da Lapa correndo para alcançar, antes de qualquer pessoa, aquele degrau vazio da escada rolante – sempre tão cheia, insuficiente e suja – como se estivesse fugindo de algum suspeito? Suspeitando de tantos no medo moderno. Talvez outros já intuíssem a sua existência. Mas não tivessem querido alcançá-la na sua solidão sem par; talvez a temessem. Não havia para a nossa Verônica a parceria no mundo, a companhia absoluta, mesmo que invisível. Ela passava apressada pelos dramas alheios esquecidos em estações, em carteiras de identidade perdidas nos banheiros fétidos das rodoviárias, em ruas fétidas do centro de São Paulo, nos arredores das velhas catedrais, nos fétidos interregnos de Copacabana.

– Lembro daquele homem por quem me permiti ficar apaixonada por meses razoáveis. Ele me beijava em francês e queria que eu entendesse a sua língua. A língua eu entendia bem, sabia entendê-la, mas o idioma? Assim? De supetão? Não…  E, ainda por cima, dissera que eu era a primeira a não entender a sua linguagem, me deixando estupidamente grilada durante uns tempos. Depois, dispersei o pensamento, mas de vez em quando me vem – não mais o homem, aquele rosto eu (quase) esqueci – mas o substantivo perca, inexistente no idioma oficial, infelizmente. As minhas perdas nunca deixarão de ser, realmente, intimamente, as minhas percas, muito mais lindo, mais forte, mais palatável, mais brasileiro, mais meu, mais de quem sabe intuir a língua e lambê-la. Exaspera-me a ociosidade da gramática. Fico feliz quando encontro percas na boca do povo. Percas são pérolas na boca do povo.

Lá vai ela! Na sua arrogância de personagem! O sol penetra seu tecido e enfraquece suas certezas. Titubeia um pouco tonta, enquanto sobe a ladeira, mas sabe que chegará. A pressão está caindo por causa do sol, da fome e do cansaço, da menstruação próxima e das frustrações políticas. Respira um pouco e para diante do vendedor de água de coco. Bebe toda a água sentindo-se revigorar imediatamente. Agradece ao moço oriental com um sorriso e segue levando consigo o seu encantamento, sua simpatia heróica, seu charme silencioso. O sol parece que está posto sobre a Praça da Piedade.

– Quase morri outro dia atropelada por um ônibus defronte ao quartel do corpo de bombeiros. Eu atravessava a rua distraída – talvez pensando no caruru da corporação suspenso por falta de verbas ou talvez pensando naquela cor para um vestido ou na intensidade da cor ou nos homens do calendário, na água, em Luma – quando ouvi um freio brusco ao meu lado. Segui, sem olhar a face metálica da morte. E agora aqui. Estamos aqui! Estou perdendo a ortografia.

Um carro buzina agora mesmo diante do seu corpo quase curvo com o peso das sensações. Sequer olha para o motorista e segue, querendo chegar em casa. A avenida Sete não percebe o episódio. Os transeuntes transitam sonâmbulos entre os ambulantes, volantes, volições, buzinas, pernas, barracas e desejos. É preciso segui-la antes que se perca ou morra. Para no mercadinho e compra um abacaxi maduro e cheiroso, além da farinha. Olha as pimentas frescas. Pensa se verá aquele rapaz suave que a deixa tonta. Ou sou eu a pensar naquele rapaz suave, doce, leve, lépido? Quem fica tonta? O repolho roxo é pequeno. Pensa na sua textura e na sua cor, no barulho da trituração. Chega ao edifício com o cansaço das operárias. O elevador está quebrado novamente e somente ela, àquela hora, sobe a escada. Quase sempre que sobe aqueles degraus, é rezando o pai nosso. Vê as plantas da vizinha sobre o muro e sente uma alegria, uma espécie de consolo, subversão da sujeira. As chaves. Abre a porta, segurando a sacola com os livros entre as pernas.

– O apartamento me resguarda. Tiro os sapatos, respiro e entro. Deixo os livros no sofá e abro a janela da sala. Beber água geladíssima! É a ordem do organismo inteiro. Embrulhos sobre a pia. Estico as pernas no sofá e tento relaxar um pouco, sacudo as pernas, pés descalços. O suor ensopou toda a roupa e o meu rosto. Com as mãos, tento amenizar o suor. É preciso me esticar antes de qualquer coisa. Penso no quanto devem ter me achado repugnante na rua, com tanto suor. Penso no caldo de cana que eu detesto porque um dia me causou enjôo. Alguns rostos me viam todos os dias saindo para a estação às cinco e meia da manhã, driblando os camelôs e toda espécie de ambulantes que organizavam suas mercadorias. As engenhocas eram papelões, lonas e ferragens que se transformavam em tendas. Olho o mofo das paredes do apartamento recém pintado, lembro das baratas que surgem à noite, e da velha casa do passado com tantos mofos e telhados pictóricos, bicicletas e poço, cisternas, tonéis e túneis. Os sonhos que me perseguem naquela casa. A profundidade escura do passado. Os gritos das mulheres violentadas, agredidas, ecoavam nas paredes do edifício. Meus gritos e meus silêncios também formavam o coro no poço do elevador.

Liga a tevê para se sentir acompanhada. Certifica-se de que não há homens na obra de um sobrado próximo. Despe-se. Antes, olha-se ao espelho e percebe uns sinais no rosto, típicos da família do seu pai. Umas pintinhas pretas. Segura os seios suados, suspende-os, aperta-os e sorri. As rugas sobre o nariz delineando o tempo. Caio chega confuso à memória. Vontade de ter morangos frescos. Perdi os tomates maduros na geladeira. O banho libertá-la-á de tudo aquilo, do cansaço, da dor nos tornozelos, nos músculos. Olha os crisântemos dentro do jarro azul e sabe que eles, mesmo murchando, a salvarão de Salvador e da sua máquina incessante de moer vidas, comer pernas e devorar os sonhos mais delicados, pelo menos durante uma semana. Pensa em O Jogo de Ifá de Sonia Coutinho. A cidade come os nossos sonhos com as impossibilidades. A cor da pele aqui também é uma conquista cotidiana, com guerras impensáveis. A cidade ilumina os sonhos da gente com os espaços ensolarados e cheios da arquitetura que não ilude mais a sua/minha expectativa. Cuidado ao partir, cuidado! Qual é o seu interior? A pergunta ressoa pelo chão frio. Umas lembranças teimam em lhe invadir hoje. A tarde começa a ficar nublada, o peso das nuvens recai sobre o seu ânimo.

– Observo o recrudescimento das cenouras na geladeira. Se ao menos eu fosse fácil, Deus! Por que me deste a visão? Alguma coisa na cidade me aprisiona. Serei eu a minha própria cela? Meus naufrágios naqueles navios noturnos serão criados pela minha própria mente? Haverá tempo de ser quem eu pretendia? O meu projeto de gente? Ou terei que atravessar eternamente o sacrifício e o desvio do túnel? Amolar a faca e imolar a garganta.

A água do chuveiro hoje cairá por mais tempo. Pega a toalha e começa a se enxugar, mas não quer sair; volta para a ducha como se ainda não tivesse entrado e tenta concentrar-se novamente no banho, no agora. Esforça-se para não pensar na conta do telefone que já chegou, mas pensa. Depois disso, o de sempre: cochilo, almoço, janela, lixo na porta, correspondências, louças, lousas. Novamente tenta seguir o ritual do banho, mas veio o calafrio ainda debaixo da água. Sabia da sua força, por isso buscou a toalha com sofreguidão. Era tarde, caiu lentamente no chão e quis paralisar o corpo, conter o bater dos dentes, mas era inútil. Soergueu-se com desespero por pura consciência da solidão e por medo de morrer ali tremendo de frio. Consegue chegar até a sua cama e cobre o corpo com o edredom. Paralisa os movimentos e lentamente consegue escapar do tremor. Permanece apenas respirando, imóvel. O corpo está quente, as pernas ardem.

Veio o incêndio. A partir daquele momento, todos os velhos sobrados ruíram sobre aquela mulher. A sensação de abandono entrou pela janela com as lufadas de fumaça que se misturavam na atmosfera lá fora. Ela olhava assustada. As labaredas cresciam no interior do prédio defronte do seu edifício. Conseguiu levantar e caminhar até a janela. A imagem da desolação dos moradores, a agitação e a gritaria. Dentro de si, tantas vozes querendo falar. E o calafrio oprimido apenas pelo medo de perecer sem defesas. Desligou a televisão e deu um telefonema inútil. Não havia conforto do outro lado nem reconciliação nem socorro.

De repente, é noite. Ela ouve a música de olhos fechados e começa a dançar na sala. Fica em pé na escrivaninha e vê o mundo mais amplo e se vê maior diante do mundo e sente desejo de abraçar toda a Baía. Há mosquitos circulando o espaço, a lâmpada e uma vontade de comer chocolate e lambuzar a boca. A música de Ella penetra seus sentidos e os tecidos ficam arrepiados. Ela faz movimentos leves do balé clássico que aprendeu em aulas de dança afro com Zebra e murmura a cantiga, o refrão. O corpo sua e o vento frio penetra as prateleiras da estante. Toulouse! Verônica agora caminha sozinha nos labirintos da cidade cor-de-rosa. Olha a feira nas calçadas e os objetos vendidos ali. Garrafas, antiguidades, roupas usadas, porta-retratos, frascos de perfume. Músicos se apresentam em cada esquina e dão ao ar uma atmosfera agradável de que a arte está em todos os lugares, principalmente nas ruas. Estala os dedos e morde os lábios ao som das Timbilas, marimbas e dança. Eu também desejo dançar, Verônica! Mas ela não me ouve, apenas grita: Nunca mais na sua vida ligue para mim. Você não sabe que hoje é o meu aniversário! Ouço Billy, ouço Ella. Há sussurros em seus lamentos. Ouvimos outrora Sarah Vaughan em uma vitrola antiga, bebemos vinho. A noite ia serena e carregada de silêncios, carícias – nunca houvera carícias ali, e escuridão. Apenas as sombras que vinham do beco dos artistas traziam o movimento do mundo lá fora e as músicas que se misturavam com as nossas.  As nossas sombras dançavam no apartamento; sim, agora eu também danço. Ele tremia de uma forma violenta e eu nunca soube perguntar por que os tremores, por que a impotência, por que não aprofundamos absolutamente nada, sequer as carnes. A arquitetura da cidade espezinha os que vêm do meu interior. Preciso renovar o meu armário, entende? Sair desta! Cair fora! Preciso perder a minha própria pele e emergir outra figura. Ainda quero perseguir o cometa Lulin ou qualquer outro astro que me faça sair da minha própria atmosfera doméstica, caseira. Pensei que a ideologia estivesse enterrada e morta, mas não está. O elevador quebrava sempre que eu tentava buscar água mineral do outro lado da rua, numa esquina em que uma costureira aplicava o seu comercial na janela: costura-se, conserta-se. E eu pensava: Morre-se! Na entrada do meu apartamento: Morre-se. Como em Pompeia: A Casa do Poeta Trágico, mas, aqui, apenas: Morre-se! O vento entrava pelo apartamento inteiro e sobre a minha cabeça cansada destilava um ar frio de resgate dos sentidos perdidos durante o sol sem almoço, sem água. Aquele homem proferia as promessas do passado e beijava a minha boca como sempre, engolindo tudo no tempo da eternidade. E ele já não era. Os bombeiros erguem suas escadas, gruas, repórteres, gritos, e os moradores do sobrado que chegam. Mulheres correm. Uma delas se deixa ficar na calçada com a mão na cabeça, segurando o pensamento que teima em fugir daquele lugar, o armário, as contas, as roupas dos filhos que estavam na escola, fogão, prestações do ferro novo, a narrativa e a minha vida em incêndios. Sinto o calor, padeço. O peso do seu nome nas costas e uma vontade de rezar. Chorar por aqueles a quem amara. Os amores perdidos. Enxugar as faces de cada um; perpetuá-las em seus lençóis até a eternidade. Buscando entre os astros o abraço do pai, sem que o tocasse, entendendo a comunicação das energias, onde é prescindível o toque. Assim ela o fazia: enxugava as dores dos homens a quem amara no seu véu, no seu colo abnegado, mas falível, inquieto, insatisfeito, febril e irado. Santo sudário de imagens, memórias. Expulsá-los do seu templo de várias formas, a todos, num só ímpeto! Com a ira santa das fêmeas que despertam para a indiferença eloquente do macho; a ira das viúvas afortunadas que gritam e são ouvidas na arena. A minha verônica é mulher de sanhas e louca, por isso, Santa. É mulher de êxtases quando toma o chá, quando se entrega na meditação, quando goza em machos e em preces, quando faz silêncios cíclicos. E quando dança! Agora eu ouço o Bolero de Ravel no circo com todo o grupo presente, cumprindo a determinação cênica do meu diretor, indo pra tantas viagens desconhecidas, quase sem volta. Pedra. E Ele na vidraça da janela, com palavras de um poema destinado a outra, a ameaçar as minhas/suas certezas. Ela cresce. Sinto que o seu tormento também a mim me atormenta um pouco. Terei fome, também eu? Terei também eu estas víboras dentro de mim e do meu estado inerme de existir? Eu, a narradora fria que se surpreende ao também suar? Seria da narradora também o suor? E o orgasmo? Serei eu de natureza gozável também e humana? Terei também eu um sexo e um discurso, assim como as verônicas que se mostram nas telas, nos véus? Eu beijo…  E o meu nome? Estou no Beco dos Artistas e me observo diante de uma parede de bar pintada, enquanto o artista plástico tenta, bêbado, explicar o seu processo criativo, certamente bem mais interessante que a obra, caso conseguisse expressá-lo. Era Sarah cantando e você viciado, sem que eu soubesse dos rituais em cocaína. Equus no palco e você tremendo ao meu lado, acho que por puro tesão àqueles cavalos magníficos, ou a cocaína? E tantos desejos circulando no meu sangue, perpassando vertigens e já não era você o homem com quem eu tentava uma transa séria, madura: – Foi bom pra você, mas eu estou aqui, desse jeito ainda! Houve uma segunda vez? Não sei! Não sei! Os diários, as cartas e as receitas médicas soltas no chão do apartamento, expostos aos olhares dos amigos que chegavam e os amigos dos amigos desconhecidos que atropelavam minhas palavras e; também eu bêbada, atropelada pelo ônibus durante a duração daquele beijo. Eu também vivi tudo isso, em algum lugar! E você chegava de outro encontro. E aquele beijo, após licores caros e queijos fartos à mesa de um restaurante onde eras percorriam todos os cantos do muro, hermeticamente fechado, consolidando um discurso de alienação do mundo lá fora. E o pedido para que eu fosse sentar ao seu lado e o não seguido do seu corpo me beijando até hoje? Onde estou? A pista traz luzes e é noite. Luzes de estrelas na estrada. Quantas luzes! Quem guiava o voiture enquanto nos beijávamos na estrada de Montppelier a Itacaré? Enquanto nos refugiávamos nos cafés das calçadas para apreciarmos aquele céu azul, ainda sem trio elétrico, nem turistas invasores? Ele nunca soube que você era uma artista! – ele nunca ouviu o que você falava, nem o seu silêncio! Ele só via o seu umbigo e o seu pênis. Estou perdendo o desejo de continuar sendo esta mulher. Falo com paredes, mas principalmente, com barcos e homens do mar, inalcançáveis. Queria me despir de todas as tibiezas. Sou muito fraca! Muito fraca. Ele nunca soube que você falava. O beijo no átrio da igreja de Santo Antônio com a lua na boca quase a dizer que ama e o infinito sutil dentro de mim, como se fôssemos eternos naquele lugar diante do sagrado e da heresia da lua. Os sapos continuam caindo do céu, minha orquídea! Como eu entendo os sapos caindo do céu sobre nossas cabeças naquele filme. Através da garrafa de vinho ou da taça de Martini, ela viu a imagem da mulher, cuja sombra dançara com ela a noite inteira e, ao perceber que tinha sido vista, correra para a parede e fora aprisionada como musgo, pelo mofo esverdeado. A outra me olha assustada pelo flagra e parece tornar-se uma ninfa, um fauno, uma árvore, talvez um irôko, um musgo. Ou sou eu a figura esmagada no mofo cujos olhos de espanto ainda gritam dentro de mim? Suo, suo, suo e fecho os olhos para um longo beijo. Daquela mulher, eu só conseguira arrancar o nome: Berenice. Mas a vida sempre escapou-me.

 

Rita Santana é uma ilhoa! Em essência, cada vez mais solitária e dedicada à escrita de forma indisciplinada, talvez caótica, mas com determinação absoluta. Publiquei em 2004 o livro Tramela (prêmio Braskem/contos); em 2006 o selo Letras da Bahia selecionou e publicou o Tratado das Veias (poesia.  Alforrias (poesia) é uma publicação da Editus/2012 e consta da bibliografia do Mestrado em Letras da UESC/2018. Sou atriz, o que facilita vivenciar meus dramas como se assistisse a um espetáculo, com certo distanciamento, e professora, o que me possibilita trocar aprendizagens contínuas e enlouquecer um pouco mais. Profundamente triste com o destino do País: daí a necessidade cada vez maior da Arte e do seu desnudamento.

 

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121ª Leva - 06/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Celso Yokomiso

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

GAIVOTAS

 

Palavras
não voam.

Se te entendo
não é por verbo.

É por vício
de planar

em teus vales
de voz alguma.

 

 

 

***

 

 

 

PASSEIO

 

alças vôo
no subir
dos pés

e pisas
como pólen
em pouso

faz
dos céus
teu convés

alvoroço
entre pássaros

 

 

 

***

 

 

 

SENTENÇAS

 

naquele nada ainda
coube uma tristeza

naquela queda ainda
coube uma rasteira

naquele incêndio ainda
coube uma centelha

naquela dor ainda
coube uma doença

coube ainda aquela
perda naquela ausência

naquele erro ainda
coube uma sentença

 

 

 

***

 

 

 

A TÚNICA

 

furtar um rosto
por trás da túnica

saber dos vincos
e das surras

colher nas rugas
a verdade

que lhe dói

 

 

 

***

 

 

 

O ERRO

 

calo a conversa
que vem ao caso

castro a vida
que vai dar certo

calco o veto
que vem a acertos

cedo aos erros
que vêm à vista

 

 

 

***

 

 

 

INSOLENTES

 

a sombra
que se faz
ao meio

a clareza do
centeio onde
a luz desvela

— teus seios
são um eclipse

 

Celso Takashi Yokomiso nasceu em São Paulo. Graduado em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Mestre e Doutor em Psicologia Social pelo IP-USP. Docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Escreveu LIMITES (prêmio Festival Universitário Xerox do Brasil e Livro Aberto, publicado pela Ed. Cone Sul,1998) e HIATOS (prêmio Nascente – USP  e Editora Abril, 1999).

 

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121ª Leva - 06/2017 Gramofone

Gramofone

Por Thiago Mourão

 

ILLY – AFROUXA

 

 

É certo que de passo em passo se constrói um caminho e é de single em single que a baiana Illy Gouvêa vem conquistando seu espaço, não só junto ao público e à midia, mas também aos artistas já consagrados da MPB. Pavimentando uma carreira cuidadosa e sólida, regida com louvor por Jorge Velloso, Illy lançou em junho deste ano seu primeiro de dois singles, Afrouxa.

Com cinco músicas, disponíveis gratuitamente no spotify, o trabalho tem como carro chefe a faixa Afrouxa, canção inédita de Arnaldo Antunes, um dos compositores paulistas mais baianos, em parceria com Davi Moraes e Pedro Baby. Esta primeira música já mostra de cara que, mesmo radicada no Rio, a baiana quer mesmo é trazer ainda mais a Bahia para o mundo.

Mas esqueça clichês de axés, arrochas, humor escrachado ou pagodões. A Bahia que Illy traz, sob regência do produtor Moreno Velloso, um craque, é a Bahia de ritmo próprio, com uma leve lembrança dos Novos Baianos, mas com outros baianos. E se arte fala e mostra, Afrouxa faz isso tudo e mais: traz sensação. É quase possível sentir o cheiro do dendê misturando com alfazema e mijo da lavagem do Bonfim. A musicalidade que acompanha os versos de manhã /ainda é cedo / de tardinha, amor/ ainda é cedo também é um explícito convite à cidade alta para ver o pôr do sol nascer, deixando neste verso o jogo de oposição poética, uma marca de Arnaldo. Tudo isso com a percussão contrastando a doçura vocal de Illy.

Imagens são o que não faltam nesta faixa, na qual os compositores mostram que a sereia (talvez do Rio Vermelho) é Iemanjá, que beija Iansã e também Nanã, ampliando o cenário da baía com beijo da chuva com o mar. E o tom libertário da música, de quem pede um pouco de espaço para curtir a profanidade baiana, exemplificando o beijo de Adão e Eva, sem esquecer a lealdade (não suposta fidelidade) do amor, segue para uma balada mais pop em Só Eu e Você, lançada em 2016 e produzida por Alexandre Kassin.

A música, com letra de Chico César, ficou conhecida pelo grande público ao se tornar tema de Claudia Ohana na novela Sol Nascente e é uma daquelas baladas que não saem da cabeça. A faixa traz também a intensidade artística de Illy, quando degusta dos versos vigorosos fazendo amor/botando pra moer/ só eu e você ou tudo em pausa só por causa do eclipse/ da elipse que o tempo fez por nós, dando sobriedade e sinceridade a um término de um romance de sexualidade profunda e energias explosivas. A balada pop, que já abre falando que o Instagram não terá fotos, comunica tanto com as novas gerações digitais, quanto com as gerações analógicas.

 

Illy / Foto: Fernando Young

 

E Illy é ainda mais Illy quando começa a faixa Ela, do baiano Arnaldo Almeida, integrante da histórica Confraria da Bazófia. Uma letra de mulher forte, extremamente apaixonada, intensa e, principalmente, inteligente. Não à toa, esta é a música do meio e nos dá a melhor pista do que virá no próximo single, Djanira, a ser lançado em novembro e que já tive a honra de ouvir. Sem o feminismo de fachada, em voga ultimamente na tal arte engajada, mostra não só o trânsito livre social da mulher ela é do centro mas não se incomoda/com as cores do subúrbio, como também a alma feminina, que se apaixona, mas observa. A mulher do século 21, que transpira formosura enquanto é sulamericana, inglesa, do tempo e, acima de tudo, baiana. Com a percussão da terra da magia e de musicalidade gostosa, fácil de ouvir e viradas empolgantes, Ela traz a suavidade da voz de Illy, mas com ataques nos versos um pouco mais firmes.

Enquanto você não chega, de mestres baianos como Cézar Mendes, Capinan e Pretinho da Serrinha, traz em sua musicalidade a lembrança do samba santoamarense, terra de Cezinha. Com a poética utlizando-se de termos do samba como enredo, porta-bandeira e compasso, é uma ode ao samba. Dentre tantas homenagens ao ritmo já produzidas, esta se destaca por mostrar a doçura de Illy de uma forma mais ágil, valorizando também a sonoridade do recôncavo baiano, em excelente produção de Alexandre Kassin.

Ainda aproveitando-se da influência do samba, talvez onde Illy se encontre melhor, Olhar Pidão tem musicalidade um pouco mais de balada, e a letra, do também baiano Ray Gouvêa, segue a linha da mulher forte e irresistível, em jogo de palavra que amacia o ouvido: quando você me olha com esse olhar de louça/outra moça fica pra trás. A faixa curta encerra o single deixando o ouvinte com gostinho de quero mais.

E virá mais Illy em Novembro, com o single Djanira, que, junto com Afrouxa, se tornará o albúm Voo Longe, produzido por Moreno e a ser lançado no ano que vem. Enquanto isso, você pode assistir aos clipes de Illy e aos vídeos dela com artistas como Caetano, Fagner, Chico César e Mart’nália.

 

 

Thiago Mourão é escritor, autor dos livros Mosaico de Sensações e Java Jota e de alguns artigos políticos em O Globo. Atualmente, prepara um livro de contos para ser lançado em breve. É também revisor responsável pela Editora Bem Cultural e trabalha com assessoria de imprensa da bela região do Vale do Café, no Rio de Janeiro. 

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Tassyla Queiroga

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Vácuo

 

é possível convencer um corpo a entrar em movimento
desde o ventre
e se arrastar pra onde queira
o ponto que divide dentro e fora
é uma órbita
o umbigo é a primeira mamadeira
um oco enfeitado
que nunca se preenche
o buraco
precisa se manter limpo
o conceito de caule e seiva
nasceu da primeira
mãe
feita de instinto
em tempos tão remotos que nada tinha nome
cordão umbilical virou ponte
por onde o fermento entra
a coragem nasce na placenta
e não abandona
o umbigo
feito criança
precisa se manter limpo.

 

 

 

***

 

 

 

Tipo 9

 

da horizontal da cama à cozinha conto 12 metros
de poeira e coisas por arrumar. a vitrola
travada em Caetano denuncia: tudo
fora da ordem. me dissolvo em
preguiça, tal qual prego
enferrujado e da janela
do quarto vejo a
disposição do
vizinho
na varanda
varrendo e fumando
cigarro marlboro às 9 da manhã
acordar cedo no sábado é a nova revolução russa
eu ativista da paz
dissidente volto
a dormir mais.

 

 

 

***

 

 

 

Disparo

 

qualquer palavra é gatilho pro poema
o pensamento-som
viaja na velocidade da luz
e qualquer som é também gatilho
pra trilha sonora do poema
basta um batuque
pra se inspirar basta estar
vivo
e atento
como uma roleta russa
basta um disparo
pra que eu não durma
e o gatilho dos meus sonhos é o teu nome.

 

 

 

***

 

 

 

Terceiro andar

 

construir paredes com fendas
te dar a chave da entrada
empurrar os móveis pro canto
sala palco pra te ver dançar
bolero de frente pro espelho
arrumando a mala ao contrário
todo dia esquece uma peça
todo dia um convite pra aquietar no meu peito
o felino insaciável
leão rouco rindo de velhas piadas
roubando seu lado da cama
e nem existia lado antes da sua visita
você toma muito espaço
mal respiro
o cigarro na varanda é retrato
em preto e branco
do teu corpo
que eu rego todo dia
aluguel de uma história como essa não se paga
conjunto de talheres de prata
bibelôs de porcelana
mobília de dentes expostos
o muro frágil que construímos
entusiasma meu sarcasmo
distribui meu sangue em tua artéria
e veja: a matéria prima
dos encontros
é feita de saliva e cerveja
na calçada suja de um bar vazio
o assunto da conversa é teu nome
pronunciado pela minha boca
doze vezes antes da primeira vez em que você penetrou
a casa onde morava
a velha senhora tímida e seus gatos famintos.

 

Tassyla Queiroga é escritora paraibana, residente em São Paulo. Já participou de alguns saraus e reúne poemas para a publicação do seu primeiro livro.

 

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121ª Leva - 06/2017 Jogo de Cena

Jogo de Cena

BEBERAGENS DE ESPECTADOR: Dançar para que o céu não caia

 Por Marcus Groza

 

Cena de Para que o céu não caia / Foto: Sammi Landweer

 

Antes de entrar para ver Para que o céu não caia, de Lia Rodrigues, abri o programa e li as palavras acima. O espetáculo é inspirado no livro A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa. De imediato, podemos dizer que no espetáculo nada indica uma relação figurativa com o universo ameríndio e, nesse caso, o interesse aqui não recai sobre o aspecto tradutivo que nele possa haver em relação ao livro ou em relação ao mundo ameríndio: gostaria de fazer aqui um exercício mais simples, trazendo o relato da minha experiência como expectador desse espetáculo, no MIT-SP, em março de 2017.

Ao entrar, recebemos uma pequena toalha: a sala de apresentação está vazia, um linóleo preto, limpo com esmero. Como não fui um dos primeiros a entrar, apenas aderi à enorme roda que se começou a formar, todos sentados no chão, em roda. Talvez tenha sido decisão dos espectadores se sentarem daquela maneira, não sei. O estranhamento começa quando, como espectador, não defino muito bem que lugar devo ocupar. Enquanto todos vão se sentando, dois performers/bailarinos começaram a lançar pó de café ao longo das beiras da sala: estranhamento e sinestesia. Ao começar o espetáculo – e digo assim apenas por força do mau hábito que temos de achar que a coisa começa quando entram os artistas e a luz entra em ação –, os outros bailarinos entram portando potes que colocam sobre duas extremidades da sala no chão onde há pó de café. A entrada e essa ação já me mostram que o círculo formado por nós, espectadores, não vai funcionar: muitos como eu estavam de costas para os bailarinos. Todos se voltam, alguns se levantam. Os bailarinos em silêncio, com muita tranquilidade, aproximam-se e bordejam o público: apenas depois de longo instante, alguns deles vêm até nós e fazem um pequeno gesto ou resmungam baixinho algo incompreensível. Depois de outro instante, o público se junta ao centro. “Parece que finalmente acertamos, ufa! Agora vai começar”, penso. Depois entendo que já tinha começado e uma troca não-verbal, da ordem do sutil, já tinha se estabelecido.

Como espectador, posso dividir o espetáculo em duas partes: a inicial, em que não sei onde devo me posicionar, e a segunda, na qual uma roda se (re)estabelece e os bailarinos dançam no centro. Gostaria de destacar a primeira parte e, mais especificamente, o estado de liminaridade que, nessa primeira parte do espetáculo, se fez emergir para mim.

Depois que finalmente nos postamos no centro, os bailarinos em uma das extremidades da sala, próximos às paredes, dirigem-se aos potes que tinham colocado ali. Tirando de dentro um composto negro – que pelo cheiro do início julgamos ainda ser pó de café – pintam o rosto e depois todo o corpo, sempre com gestos controlados, em uma atitude cerimonial. Depois dessa caracterização, o olho – sempre bem aberto – ganha uma expressividade incomum. Levantam-se muito lentamente e caminham na nossa direção. Estamos sentados no piso, vulneráveis. Mas somos maioria.

Num estado de desaceleração acentuado, eles começam a atravessar a pequena multidão que somos, abrem caminho. Param diante de alguns de nós e aproximam o rosto a poucos centímetros e ficam nos encarando por um longo tempo. Olhos arregalados. Atravessam com extrema calma e delicadeza, mas fica claro que, vindo em nossa direção, vêm como se pudessem trombar em um de nós ou nos derrubar. Por isso, talvez, abrimos espaço. Sentam-se diante dos que estão sentados para encará-los e, da mesma forma, encaram os que estão de pé. A dilatação temporal ganha relevo, junto com a meia-luz e o silêncio: abrem um estado de suspensão, o ar parece mais espesso. Não sei o que vai acontecer comigo; isso talvez caracterize bem a liminaridade. No caso em questão, os códigos reconhecíveis do que seja dança ou teatro estão em suspensão.

 

Foto : Sammi Landweer

 

Um estado de suspensão é aberto para mim como espectador naquele momento: a sensação de não saber o que ia acontecer comigo não era exatamente um medo. No início, tive receio de que algum deles viesse me encarar, prevendo que seria desconfortante, como no jogo infantil de ficar encarando o outro sem piscar. Depois desejei que viesse, sim, curioso sobre o que poderia experienciar a partir desse contato quase íntimo. Quando um bailarino vem encarar uma pessoa na minha frente, tento também encará-lo (Embora ele não tenha me olhado, parece que foi aí que entrei no jogo; fui capturado talvez). Em seguida, uma outra bailarina vem encarar uma mulher que estava ao meu lado, e eu, novamente, tentava atrair o olhar dela fixamente como se fosse comigo. Assim que a bailarina se levanta, essa mulher que está ao meu lado também se levanta e a persegue, ficando, como que seduzida, olhando pra bailarina, enquanto esta continua encarando outras pessoas. Ao acompanhar essa “cena” entre uma bailarina e essa espectadora, ainda sentado, virei a cabeça e fiquei absorto assistindo àquela  “perseguição” – coisa discreta que poucos devem ter notado. E foi, nesse momento, que tive medo, sim: num dado momento, tenho um susto com uma movimentação à minha frente: podia ser uma outra pessoa vindo me encarar e eu estava, desguarnecido, entregue, com a cabeça voltada para trás. Não era. Nisso levanto e de longe continuo observando a mulher do público que ainda persegue a bailarina; enquanto esta, impávida, segue encarando outras pessoas. Nisso me ocorreu que talvez aquele modo de encarar fosse uma tentativa de dar ignição numa espécie de telepatia, numa intercomunicação mágica, silenciosa, numa comunicação sutil e não-verbal. A liminaridade é um estado de suspensão radical, em que se instaura uma instabilidade e mesmo certa vulnerabilidade. O estado liminar dá margem a devaneios: para mim, naquele momento, com toda a realidade, a telepatia parecia integralmente realizável. Por definição, na liminaridade não se distingue bem o que pode ser do que não pode ser.

Depois de nos atravessarem uma vez, os bailarinos vão até o outro lado e pintam todo o corpo com uma farinha branca e novamente atravessam, encarando as pessoas, longamente, indo até o outro lado. Começa então uma terceira travessia, para a qual os bailarinos agora colocam um trapo sobre o rosto e vêm em nossa direção, agora rastejando e zurrando, rastejando e gemendo. Instauram um clima de alta histeria. Novamente, vêm em nossa direção como se fossem trombar conosco, se não desviarmos. Já não somos mais um bloco no centro. Lentamente vêm na minha direção. É quase uma ameaça. Parecem, nesse ato de atravessar o público, uma força da natureza. Nessa terceira travessia, o deslocamento no plano baixo traz uma presença animal.

A segunda parte do espetáculo – nessa divisão que visualizei como espectador – certamente reverbera sob o signo liminar também. Mas agora há distinção entre público em uma grande roda e os bailarinos no meio. Às vezes, a roda precisa abrir um pouco mais; outras, pelo movimento convulsivo da dança parece que um deles pode se chocar com alguém do público. Embora o espetáculo todo seja sem música, o barulho dos pés roçando no chão enquanto dançam e a respiração ofegante dos bailarinos formam uma sonoridade vitalista, que pude notar num campo de sensibilidade poroso a micropercepções que não seria o mesmo se não tivesse sido instaurado aquele estado de liminaridade da primeira metade do espetáculo. A meia luz que predomina no espetáculo colabora muito para a liminaridade que se instaura. O curry com que mancham todo palco na cena final parece um pó muito brilhante quando então a luz aumenta, e o seu cheiro ressoa por um bom tempo no nariz, depois que saímos da sala de apresentação.

 

Foto: Sammi Landweer

 

Marcus Groza é poeta, dramaturgo e encenador. Autor do livro “e a lua como órgão principal” (Ed. Primata – 2017), entre outros, é doutorando em Artes Cênicas (Unirio) e editor da Revista Abate e da Revista Saúva.

 

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121ª Leva - 06/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Cidinha da Silva e a crônica como ato de nomear

Por Saulo Dourado

 

 

Números sobre a mortalidade negra no Brasil estão à disposição para quem quiser buscar e se inteirar. Gráficos, porcentagens, tabelas comparativas, que mostram o mapeamento de homicídios, um dos mais graves do mundo. Dos 30 mil jovens assassinados em 2012, 77% são pretos ou pardos, diz a Anistia Internacional. A CPI do Senado de 2016 conta que, a cada 23 minutos, um homicídio de mesma ordem acontece no país, e não há sinais de diminuição. Nas chacinas, autoridades discutem quantos foram os massacrados afinal, com 1 ou 2 a mais ou menos, como um placar.

O livro #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016), de Cidinha da Silva, traz os dados e as evidências das mortes físicas e simbólicas de toda uma população, mas os ultrapassa: dá forma e nome aos números. Afinal, com valores absolutos se consegue convencer a razão daquilo que deve importar, mas não o afeto. Quanto mais se banaliza em ofício e em notícias um acontecimento, menos o sentimos, e disso é preciso curar-se. Como antídoto, devemos entrar no particular e no miúdo para que fatos se conectem de novo às tripas e às mãos, para o sentimento e para o rebote.

A crônica tem um papel fundamental, o de tornar especial uma pessoa e um acontecimento a ponto de formar o elo de sentimento entre o particular e o todo. Eis o gênero literário que Cidinha da Silva conduz com ritmo e amplidão, e o mote que ela alcança. Seus textos dão nome, corpo e presença: Maria Julia Coutinho, Sueli Carneiro, Taís Araújo, Lázaro Ramos, Mirian França, Antônio Pompêo, Luiza Bairros, Aranha, Claudia da Silva Ferreira, Livia Nathália, Liniker… Em uma crônica sobre a postagem de Fernanda Lima que elogia as empregadas domésticas como “batalhadoras”, há uma pergunta pontual da autora: “E por que não pôs os nomes dessas mulheres?” Por que seriam anônimas batalhadoras, e mais uma vez todo um povo ser uma massa anônima? Esta reivindicação percorre o livro: a de tirar a mortalha da despersonificação, causa e efeito do prosseguimento de um genocídio.

Ao contrário da Odisseia de Homero, em que o herói Ulisses se salva de Ciclopes ao se chamar Ninguém, na realidade brutal e de negligência institucionalizada as quais vivem o povo brasileiro, aquele que for Ninguém, pelo contrário, é o alvo fácil. Não se trata de cada um ascender e se tornar Alguém para salvar-se; trata-se de narrarmos e escutar as narrativas dos nomes, como um princípio, para que o Alguém seja por princípio dignidade, e não camadas de ocultação e cinismo, como é no Brasil. “É preciso ir mais fundo”, diz Cidinha em Desde dentro, “É preciso ouvir a estas e a milhões de famílias desde dentro, desde antes das tragédias anunciadas (…) É preciso olhar com os olhos de ver e ouvir com ouvidos de escuta. Desde dentro.”

Os assuntos de #Parem de nos matar! são tantas vezes críticas ao lugar da banalidade das informações: as mídias em geral. A princípio, pode-se questionar: se há tantos casos cruéis contra a juventude preta, guerra civil entre policiais e narcotráfico, por que dedicar três crônicas a Maju do Jornal Nacional, programa de uma emissora eminentemente chapa branca? Está diretamente ligado, pois é preciso assistir e cobrar no palco dos afetos, em filmes, partidas de futebol, novelas, palestras, ministérios, àqueles com os quais a comoção, a admiração, os desejos se tornem vistas e refletidas. Eu preciso ver aquele que me faz sentir: eu preciso sentir candura ou raiva, ternura ou desprezo sem elos específicos de corpo e de pele.  Tudo aquilo que dirige os afetos a tornar um massacre um fato menos sensível é cúmplice de seus acontecimentos.

Sem o sentimento, é muito mais fácil esquecer-se e deixar acontecer. Eu particularmente fico contente por este livro ter-me feito passar irritações, náuseas, estranhezas, comoções, raivas e risos, ter-me deixado baqueado em uma tarde de domingo. Quer dizer que há energia de movimento pelas páginas e que passam por mim. Porque sentir é dar força, é vigor de natureza, e nessa dança não há sentimento ruim ou bom, há aquela que provoca o movimento de dentro para fora, a vontade de ser para além de si. Há métodos de ação? Provoca-se a consciência como as crônicas à Carolina Dieckmann e à Patrícia Moreira, ou por marchas, rolezinhos e protestos, ou por dentro das estruturas para refazê-las, como a política em Luiza Bairros, ou a música de Ellen e o humor de Chris Rock na abertura do Oscar. Ou tudo junto, nisto como em tudo que envolvam coletividades e mudanças.

São vários os subtemas dentro de um grande tema, em circunstâncias diversas. O cronista também é um rebatedor: a realidade se lança plural e inverossímil, e a crônica a devolve menos bruta, talvez mais brutal, tangida por olhar e saliva. O cronista cria veículos de sensações e também organiza e interliga acontecimentos, dá linhas de pensamentos. #Parem de nos matar!, então, enquanto uma compilação de dezenas de textos, está sob o desafio de traçar algum caminho, de ligar uma ideia à outra, e ganhar unidade. Consegue. A princípio, pensei que fosse uma ordem cronológica dos acontecimentos, depois vi que era por temas, e talvez sejam os dois movimentos se costurando. Misturou-se a tal ponto que um texto mais denso, como “Tempo Novo!”, que vai do racismo no futebol ao golpe parlamentar de 2016, seja coeso com o belo “Matias e o Boneco de Star Wars”.

Assim, me deixo levar totalmente por uma crônica como “Obituário de uma lembrança”, com a qual me reconheço nas palavras de conselho feitas da autora ao amigo anos antes, e aqui a recorto:

És a primeira pessoa de meu círculo próximo de convivência assassinada e quero que seja a última. Não sei lidar com isso e não quero aprender. Sou fraca e insignificante. Não tenho a força da poeta que declara firme: Dos nove homens de minha família assassinados, sete foram mortos pela polícia…

Cada um dos que se vai nesse massacre é a primeira de algum círculo, é sentido com uma força que não acreditaríamos se apenas o subtraímos ou o somamos. Do contrário, se não conseguimos religar as dores aos sentidos, o que senão as palavras para fazerem a força de ligação? As crônicas, lumiares das pequenezas, indo do cada um para o todo, e do todo para cada um, formam. O livro de Cidinha da Silva reúne.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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121ª Leva - 06/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Anchieta Mendes

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

QUANDO A CHUVA MOLHA A ALMA

 

Mercedes viu o pai, naquele dia, chegar bêbado. O rosto avermelhado, a voz travada. Quando bom, as palavras saíam com dificuldades. Poucos entendiam os significados. Lá fora o céu empalideceu. O vento varria gravetos e as árvores envergavam. As galinhas corriam no terreiro em algazarras. O céu escurecia rapidamente. Sua irmã Francisca chegou da vizinha resfolegante. “Cuida! Vamos fechar as janelas. A chuva está vindo como nunca”.  O pai deitou-se no chão frio como de costume. Resmungou qualquer coisa indecifrável. Não se interessou pela chuva a vir, apesar de sempre esperar por ela. As outras irmãs fecharam-se no quarto. Helena precisou de ajuda de Isabel, a irmã mais próxima.

Mercedes ajudou as irmãs o mais rápido possível. Correu à janela para ver a chuva. Não tinha chegado, mas o cheiro estava no ar. Olhava para a estrada à distância. Olhava para o pai na sala deitado no chão, a não sonhar com a chuva. E ele não a viria tão torrente, tão forte capaz de deixá-los quase à deriva. A mãe deixou-o morto e não precisou dele para buscar formas de não se envolverem no dilúvio. Por mais que sentisse dó dele, Mercedes sabia, no íntimo, a cada dia o desprezo aumentar. Era um pai doutro mundo. Era um pai presente-ausente. Era um pai de lascar. Olhava agora para a mãe. Corpo esquálido, de ossos do peito a estufarem-se. Os olhos quase não cabiam nos côncavos. A pele presa aos ossos e aos nervos e às juntas. Pele ressequida e sugada. As pernas finas a formarem dois arcos. Os cabelos tingidos aqui e ali de branco e ruins de serem penteados. Ficava a se pensar como aquela mulher pariu cinco filhas com aquele corpo que mal se firmava em pé. Às vezes temia em a mãe se desmoronar e os ossos se espalharem pelo chão. Era uma mulher de aparência fraca, mas forte na luta, na lida, nas resoluções. Pecava pelo amor desvairado, pela inocência no pensar e no agir pelo marido longínquo. Não entendia a mãe, ou se fazia por não entender. Por que aquele amor de um só? Por que sofrer tanto por um homem? Procriação? Carne? Carne era só o que ele trazia na feira do mês, e só. O resto as mulheres da casa tratavam de conseguir às duras penas.

Ela chegou, aos poucos, perpendicular vindo da estrada, subir o alto, banhar as podas das árvores, tingir as cores encardidas das casas. Mercedes viu a chuva vir de tal forma branda para depois forte. Lembrou de Paulo, amigo de Francisca e que se tornou amigo de todas. Lembrou porque ele era como a chuva, apesar de sempre tardia, passageira. Vinha sempre, saltitante, mas logo ia a deixar reverberação no ar. Mas logo esqueceu da imagem fugidia daquele que seria o ponto cego da visão. Deixou-se a ver a chuva a tamborilar nas telhas, aos poucos e logo constante. Não quis ouvir as irmãs no quarto a rirem. A mãe chegou-se perto e as duas ficaram mudas, pelo vão da janela, a ver aquela coisa rara. Cada uma ao seu modo.  As irmãs no quarto, agora a rirem. Quis rir também, e assim o fez, de forma suave, a receber a chuva do caju. E nunca soube o porquê do caju. Naquelas bandas a fruta era rara, quase a não existir.

Foram assim serenas, controláveis, no princípio, que as águas de setembro molharam as lembranças de Mercedes. O pai deitado no chão da sala, bêbado. A mãe sem tantas palavras, mas nos olhos o brilho a espelhar os pingos d´água. As irmãs, no início, a rirem de qualquer coisa. Mas nem tudo foi assim. Tudo foi aos poucos, como qualquer chuva a banhar aquelas terras gris. Choveu. Choveu como nunca. Na proporção que as águas caíam, o cenário mudava. A casa edificada no alto parecia estar segura de provável inundação. Mas o que se veria nas próximas horas foi de causar medo. Os risos das meninas se foram, aos poucos.

Quando a noite chegou, e o pai ainda bêbado e jogado, a chuva veio junto. A luz dos postes era pouca para se enxergar o que acontecia lá embaixo. O caminho a dar na casa, em um dos lados, havia declive acentuado. Existia um vão convexo. Uma espécie de açude sem água. Na beira da estrada, um bar. No início da chuva, alguns bêbados celebravam em brados. Ouviam-se copos a se quebrarem e garrafas tilintarem. Mas depois apenas a chuva. Foi quando a luz se foi. Os risos das meninas também. O pai naufragado no álcool. A mãe, agora, preocupada. Todas trataram de buscar as lamparinas, as velas, algo para as iluminarem. As telhas cantavam, dançavam à chuva, explodiam em melodias agudas. Sentiam-se os respingos por entre elas, como se aspergissem água benta naquelas pecadoras. O pai não sentia, estava morto, e não era novidade morrer a cada dia. A chuva a aumentar.  Os olhos das irmãs, apesar de Francisca ser a mais velha, a expressarem medo.

As casas vizinhas, distantes, Mercedes tentava ver as frouxas luzes pelos rasgos das portas. Eram luzes disformes. Os grossos pingos da chuva turvavam a visão.  Não conseguia enxergar o que, pela manhã, seria o mar lá embaixo e sem condições de não ir a lugar nenhum.

Mas a noite ainda demoraria a chegar ao seu fim. A casa, com suas três portas, delimitava os dois mundos: o interior e o exterior inundado. Mercedes temeu o pior, mas segurou-se. Não tinha presenciado aguaceiro como aquele, apesar de não ver, mas sentia. Os respingos de entre telhas a banhavam como gotas de orvalhos exagerados. Banhavam a esperança de dias melhores, como estágio para que as futuras plantações vingassem. Lembrou, então, de ter deixado a escola, não porque quis, mas pela imposição do pai. Era preciso limpar os matos a engolirem o feijão. Era preciso encher os baldes de água da cisterna. Era preciso encher-se de tantas tarefas para esquecer a dor de ter deixado de estudar. Por isso cruzava com o pai no dia a dia como a um estranho nos caminhos empoeirados daquele terrível lugar.

A escola era do outro lado da estrada. Paralelo à estrada, o rio. Depois do rio a escola. Para chegar lá, muitas vezes, precisou nadar, com as roupas, a sacola com o livro e o caderno e o braço a puxar a água. Quando chegava à margem, esperava Francisca para se ajudarem a se vestir. Os meninos iam pelo outro lado, distantes. E esses meninos, apesar de próximos naquela geografia de Magdaluz, a cada dia, se tornavam mais distantes. Muito mais tarde, com a idade avançada, e as durezas da vida, não os via com os seus próprios olhos e nem os sentia com os seus restantes de sentidos.

Era bom estar sentada na cadeira da escola, apesar de péssima, mas era o que tinha. A manhã a passar a rabiscar cadernos, a juntar palavras naquele único livro, não era ruim. As duas filas das carteiras, de um lado as meninas e do outro os meninos, mostravam as divisões entre eles. A professora era rigorosa, e mesmo no intervalo não as deixavam ir longe, esconderem-se. Os óculos da professora deviam ter graus demais para enxergar tão longe. A sua amiga mais íntima, Eufrásia, de cabelos louros, pele branca como a neve, aparentava inocência, mas era uma diaba por dentro. Os quinze anos das duas emparelhavam entendimento, embora Mercedes se resguardasse nos ímpetos. Já Francisca não era bem assim. Por ter um ano a mais das duas, envolvia-se com Eufrásia em peripécias demais para a época. As trocas de bilhetes eram constantes e os assuntos, claro, eram sobre os meninos. Mercedes era quem acobertava os encontros delas com eles quando dos intervalos. Estava sempre atenta a todos os passos da professora e dos seus óculos longitudinais. Inventava sons, batia palmas sem ver para quê, cantava o que não sabia cantar, gargalhava por nada. Tudo para avisar às meninas das investidas da professora. Depois em casa, Francisca contava tudo, mas jurava de pés juntos, que tudo não passava de beijos, só beijos. Conte-nos, dizia Mercedes, os detalhes. Francisca minuciava cada ação e reação. Helena ouvia e imaginava tudo. Como as demais também. No final cada irmã guardava pra si aquele segredo como algo mais precioso do mundo.

Eufrásia não deixou a escola. Eufrásia casou, teve filhos e se separou do marido para viver com outro, e depois com outro e, hoje, não se sabe do paradeiro dela. Mercedes riu, enquanto sentia a chuva naquela escuridão de lá de fora. Dentro de casa, as luzes bruxuleantes dos candeeiros tornavam as irmãs e a mãe imagens fantasmagóricas. Quando elas se moviam, as sombras nas paredes se encontravam como a se engalfinharem.

Na mistura dos sons nos telhados, dos chinelos pela casa, deixava Mercedes entregue a devaneios e, ao mesmo tempo, atenta a tudo. Achava os movimentos da casa o seu mundo mais profundo. A chuva trazia, além dos fantasmas nas paredes, os vultos do passado. Na proporção em que a chuva se fincava na noite, a casa enchia-se dos parentescos vultos, vizinhos e figuras desfiguradas. Mercedes recebeu todos eles, entre desconfiada e deslumbrada. A tia Andaluzia gostava de falar alto, e foi logo expondo o seu ponto de vista em relação à situação da região: “a seca me dá agonia por ter que comer carne seca e farinha. Não tenho nada contra o gosto, mas minhas dentaduras não aguentam”.  Tratava logo em tirar do bolso do vestido o naco de fumo e a palha de milho. Insumos para o cigarro de cheiro maldito. Não se importava para o torcer de narizes dos outros. “retirem-se os incomodados. O terreiro é o local ideal para as bestas”. E continuava a falar, sempre se referenciando à dona da casa. A cada palavra a sair da boca, enxovalhada de fumo e fumaça, o olho direito fechava. Era a forma viciosa, um tique nervoso a deixar a outra pessoa a querer lhe imitar. Pelo olho fechado a fumaça soltava-se e enuviava aquele sentido incomum. Os gestos das mãos em jogar para uma e outra o cigarro de palha mordiscado era outro gesto intranquilo. Tia Andaluzia não era normal. Espalhafatosa, apesar do corpo magro, ao chegar num ambiente tomava conta de tudo. Os outros eram os outros.  Foi assim que ela entrou na casa, já por volta da madrugada, encharcada da chuva. Foi assim, também, em outros dias quando a chuva veio tão forte que não quis voltar de onde veio. “O marido se ajeita”. Ficou uma semana com a irmã de roupa única. As de baixo a irmã precisou comprar. O cunhado foi aos solavancos, no lombo do jumento, a resmungar injúrias para si, a comprar no comércio calcinhas para Tia Andaluzia. As filhas, naquele dia, não aguentaram de tanto rir. Queriam ver a encomenda, o tipo. Mas o pai sob protestos aos quatro ventos enviou a mercadoria pela vizinha. Chegou horas depois trazido pelo animal afogado na cachaça.

Outra personagem, a se livrar da chuva, foi Tio Nonato. Ao entrar trouxe na aparência, de nota, o rente cabelo à brilhantina. O cuidado com aquela indumentária era de causar comentários. Anexado pelo bigode fino, sempre penteado. Ambos os toques negros pela tinta rejuvenescedora. Trazia no bolso o pente fino, guardado como relíquia, parte do corpo, parte da vida. Juntados os irmãos sob o aguaceiro e aos olhos e mente de Mercedes, a noite arrastou-se diferente. Tio Nonato comentou sobre o cunhado caído para depois deixá-lo largado igual a todos. Os irmãos enfiaram-se na cozinha e beberam garrafas de café ao gosto das palavras e memórias elucidadas. Mercedes ficou no canto da porta a ouvir aquelas vozes misturadas do além e do presente.

Tio Nonato também ficou pós-chuva. Deixou a mulher na cidade distante, e acompanhou a Tia Andaluzia em visita à irmã. Foi num período de dois dias que Tio Nonato revelou-se doído pela paixão do passado. Em outras visitas à cidade de Magdaluz, há muito tempo, conheceu uma mulher. Trovadora, audaciosa, bonita, indecifrável por fim. Amor, paixão, atração, não se sabe. O que se sabe foi o rapto da mulher casada, notícia afora. A esposa de Tio Nonato soube e aguentou e chamou a amante de rapariga, praguejou, desejou morrer, serenou. Suportou o tempo de seis meses em que o aventureiro e apaixonado cabra desnudou-se das suas responsabilidades de marido. O filho de uma égua fugiu como o diabo foge da cruz. Fugiu como quem buscava nas carnes da outra o que não encontrava em casa. Voltou tempos depois ao largar a mundana quando abusou. Entregou de volta ao marido como objeto usado, e aquele traído a recebeu. E agora, no encharque da chuva, Tio Nonato mergulhou-se na cachaça a lembrar das aventuras e de querer saber do paradeiro da aventureira.

Foi assim a noite toda a lembrança, a memória a misturar-se com a realidade. As vozes das irmãs com a da mãe fizeram com que Mercedes confundisse o real do imaginário. Porém não deu para confundir quando as telhas dançaram. As telhas não suportaram o soprar do vento. Muitas foram arrastadas. Buracos se abriram no telhado. A chuva a continuar forte, tanto fora como dentro de casa, deixou a todas em pânico. O pai jogado e agora molhado. Era preciso sacudi-lo. Mas antes as irmãs e a mãe trataram de aparar o aguaceiro; cobrir os parcos móveis; de vassouras e rodos a puxar o excesso. O pai era um móvel-imóvel que podia inundar-se, por enquanto. Todas se molharam. O cuidado estava também em Helena. O cuidado estava nas louças e na última feira do mês. Helena se salvou, mas a feira foi de porta afora. A mistura aguou. A mãe quis ir atrás, mas foi impedida pelas filhas. Todas as roupas molhadas, grande parte dos móveis. Quando o pai foi arrastado pela leveza do álcool, a mãe atirou-se para impedi-lo. Foi então que as irmãs notaram o grande amor da mãe pelo pai. E nessa divisão de água entre os pais e as filhas, Mercedes tornou-se pioneira no estilo de vida que iria perdurar por todos os dias vindouros. Mesmo Helena com suas dificuldades, sentiu o quanto aquele episódio as marcaria para sempre.

 

Anchieta Mendes, natural de Juazeiro do Norte-CE, é escritor com prêmios literários e contos publicados em várias antologias. É autor de “Valados de giz” (Romance), “Alquimia” (Romance – Multifoco) e “Bicho Metropolitano” (Contos – Penalux).

 

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121ª Leva - 06/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Eunice Boreal

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

E me disse coisas

 

com o espanto
de quem não sabe
o que diz

Toda vez que tentava falar
Dos seus sentimentos
Sentia serpentes saindo
Dos seus poros
Em gritos contínuos
Enquanto apenas tentava pensar.

 

 

 

***

 

 

 

Elucubrações

 

Prometo apenas ser
Desenvoltura do laço.
Quando não, silencio,
Já não grito. Escuto
Labirintos que me vivem.

Vem! Se aceitas o meu lado secreto
Que nem sempre de encanto se mostra.
Vem! Tu, que sabes da Medusa,
Dos tempos, do grito…
Mas, alto, escutas o amor.

 

 

 

***

 

 

 

Partícula

 

Na origem do mundo
Quem sabe um neutrino
Que agora
Me atravessa
Também tenha
Vivido
Algum
Movimento
De todo
O início.
Talvez alguma espécie
Que me antecede
Tenha lembrado
Do primeiro
Sol nascente.
Talvez algum traço
Da minha pele
Teça o mapa
De todo
O caminho.
Mas
O que importa
A memória
Deste corpo
Físico
Se tudo
É sempre
Muito mais
Belo
Do que a gente
Imagina?

 

 

 

***

 

 

 

Tabuleiro

 

Dentro do jogo

De palavras

Nem todas

As peças

Foram

Dadas.

Dado

A essa

Partida

Nada volta

Tudo é

(A)I(N)DA.

 

 

 

***

 

 

 

Sentido

 

todas as estações revelam
os filhos e as flores dos fractais.
pedir licença ao novo e ao velho
não te invalida em nada
pois os sábios não precisam
se impor nos degraus imaginários.
há muito que o tempo sabe
todos dançam
circulares
mesmo enquanto se levantam.

 

 

 

***

 

 

 

Fronteira

 

O corpo é o único território
Que não precisa de cercas
Elétricas.

Mas também é possível
Você diz
Que alguns sons cheguem
Ao seu pé
Do ouvido
Como palavras-bomba.

Sim
Mas diferente
Da política
O corpo ainda está vivo
E permite reações diversas.

 

Poema-imagem de Eunice Boreal

 

Eunice Boreal é uma Poeta Multimídia. Começou os estudos da arte aos 9 anos de idade. Desde então, realiza trabalhos com a escrita, o desenho, a música, a interpretação e as filmagens. Além disso, une a sua prática artística aos estudos filosóficos, realiza palestras sobre a arte e também já trabalhou em parceria com o Cnpq. Parte da sua obra está presente na internet, em exposições individuais e mostras coletivas, como por exemplo a Vídeopoéticas II, que aconteceu no Centro Cultural São Paulo.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Últimos dias em Havana (Ultimos dias en la Habana). Cuba. 2016.

 

 

Últimos dias em Havana é um drama cubano de 2016 dirigido pelo que é hoje considerado o mais importante diretor de Cuba, Fernando Pérez. O filme conta a história de Miguel (vivido por Patricio Wood) e Diego (Jorge Martinez), dois amigos de infância. Diego é um homossexual que sofre de aids e está fisicamente preso a uma cama. Miguel é aparentemente um homem assexuado que é obcecado por seu desejo de deixar a ilha e emigrar para os Estados Unidos. Ele espera conseguir o visto da embaixada americana para o qual vem se candidatando há algum tempo.

Sabemos que um evento de violência ocorreu na escola de juventude dos amigos, no qual Jorge foi vítima de discriminação e Miguel o teria protegido. Esse episódio selou a amizade entre os dois ao mesmo tempo que destinou Diego a uma vida de clandestina sexualidade. A história do filme se passa num momento em que Diego, deitado inválido sobre uma cama, tem a ajuda de Miguel para quase tudo, desde comida, remédio e banho. Diego confia em Miguel mais do que em sua família. A casa onde o casal de amigos mora pertence a Diego e a família deste teme que ela seja destinada em testamento a Miguel, uma possibilidade no direito da ilha socialista.

Últimos dias em Havana lembra imediatamente Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate, 1994), de Tomás Gutierrez Alea, sobre história de Senel Paz, o maior sucesso de público da história do cinema cubano.  A referência é explícita: também aquele é um filme sobre a amizade entre dois homens, um deles homossexual. Justamente, as personagens gays de ambos os filmes têm o mesmo nome, Diego (e são interpretadas por atores de nome Jorge, Perrugoia e Martinez, respectivamente). No entanto, as personagens não homossexuais são bem diferentes, quase opostas. No filme de Alea, David é um jovem comprometido com a revolução que tem enorme preconceito contra os gays. No filme de Pérez, Miguel é um homem que sonha com a vida americana e considera a revolução socialista uma verdadeira catástrofe pessoal.

 

Cena do filme Últimos dias em Havana / Foto: divulgação

 

Em sua passagem pelo Brasil, Fernando Pérez admitiu a referência ao filme de Gutierrez Alea, porém disse que seu filme é um tributo a esse, considerado o maior diretor cubano, de quem foi assistente. Atualmente, Fernando ocupa a posição de destaque de seu mestre. No entanto, para o diretor ambos os filmes são muito diferentes, apesar do núcleo de história comum. Na verdade, não é uma questão tanto de referência quanto de diálogo. E num certo sentido, o filme de Pérez guarda um tom crítico em relação a Morango e Chocolate.

Toda obra de cinema, ou mesmo artística, de Cuba está marcada pelo estigma do documento. Se a presença e a persistência da revolução cubana permanecem incompreensíveis para muita gente, é através da arte que se procura explicar o mistério da longevidade da revolução, para o bem ou para o mal. Assim, há pessoas que se basearam no filme de Gutierrez Alea para criticar ou mesmo denunciar a suposta perseguição homofóbica na ilha caribenha. Morango e Chocolate não seria então uma obra de ficção, mas sim um testemunho do caráter homofóbico dos revolucionários, “representados” pela personagem de David.

Não adiantaria argumentar, no entanto, que o filme seja um drama ficcional ou que Gutierrez Alea foi um diretor que sempre apoiou a revolução, ou que o filme tenha sido financiado com dinheiro estatal cubano e que tenha passado, sem censura, nos principais cinemas da ilha, ou mesmo que a sorveteria Coppelia tenha se tornado um ponto turístico e que lá nunca falte justamente o sorvete de “fresa”. Tudo isso deveria matizar uma apressada leitura “realista” ou “documental” da obra. Morango e Chocolate é o que se chama, em teoria literária, de um filme “polifônico”, um filme de vozes e perspectivas. A crítica ao ranço preconceituoso, machista e homofóbico eventual de um guerrilheiro cubano é elemento narrativo do filme, mas também é ato de autorreflexão estética da própria revolução, que repensa seu significado através de uma obra de arte.

 

Foto: divulgação

 

Últimos dias em Havana retoma um diálogo que torna ainda mais complexa a questão da sexualidade na ilha caribenha. O Diego do filme de Fernando Pérez já não representa mais a antítese da revolução. Num certo sentido, ele está em paz com sua condição de cubano e com o regime socialista. Há, portanto, neste filme uma troca de papéis com sinais trocados: é Miguel, amigo e interlocutor de Diego, que não confia no regime. Mas Diego, por sua vez, não é exatamente uma pessoa conformada com a situação do regime burocrático que reprime ou cerceia sua sexualidade. Sua prisão são sua cama e sua doença, e sua luta é por manter vivas a libido e a delícia de viver, mesmo em seus “últimos dias”.

O que o filme põe em confronto não é mais o destino coletivo de uma nação socialista contra o livre exercício individual da sexualidade. De certo, a sexualidade de Diego precisou ser vivida de forma clandestina, mas ele sabe que tudo em Cuba se consegue sob a “vista grossa” do poder oficial. Tudo é vivido nas brechas entre as aparências oficiais do regime político e a realidade cotidiana das ruas. Assim, o que a narrativa do filme confronta não é mais o Estado contra o indivíduo, mas a aparência oficializada do governo pós-revolucionário e a urgência política da vida e dos afetos cuja existência se dá coletivamente. Agora é Miguel que, ao se individualizar em sua amargura e desejo de fuga, vive uma vida paralisada, cuja única esperança é receber uma aceitação da embaixada americana, enquanto Diego e outras personagens vivem mais plenamente seus desejos e suas sexualidades. Últimos Dias em Havana inverte assim a perspectiva de Morango e Chocolate: não é mais a revolta do indivíduo que assinala a verdade opressiva do regime coletivo. É a intensidade da vida coletiva que se “vira” em condições desfavoráveis e traz a verdade sobre a impotência existencial do indivíduo representado por Miguel. Embora não suporte o sistema político de Cuba, Miguel o representa muito mais do que Diego e seus amigos e familiares. Diego incorpora o afeto existencial e libidinal que é ausente do discurso oficial da burocracia no poder, no entanto, é a rigidez desse sistema que torna viável esta mesma corrente afetiva subterrânea, ao permitir que prossiga como se não existisse.

O filme de Fernando Pérez trabalha de maneira a tornar complexa a relação entre a aparência formal do regime político e a aparência estética cinematográfica. Se, no início, o filme parece aderir a uma estética folhetinesca de oposições fortemente marcadas entre os caracteres antagônicos de Diego e Miguel – o primeiro exuberante, porém imóvel, e o segundo afetivamente paralisado, porém circulante – esse antagonismo se torna menos trivial aos poucos, pois a amizade entre os dois está incluída nesta “política da vida” da qual Diego é portador. A entrada em cena de novas personagens como P3 (ou P4, vivido por Cristian Jesús Pérez) e Yusisleydis (Gabriela Ramos), a sobrinha de Diego, amplia o caleidoscópio atual da vida na ilha caribenha, trazendo à tela a vivacidade da geração contemporânea de jovens cubanos. Ambos, aliás, justamente não alimentam o sonho de emigrar e vivem no interior de um experimento social de sobrevivência à margem dos legados possíveis ou das promessas utópicas da revolução.

 

Foto: divulgação

 

A presença deles interrompe repentinamente a normalidade esquemática da relação entre Miguel e Diego, assim como interrompe a história do filme numa bifurcação do correr da narrativa cinematográfica. É com a entrada desses jovens que o filme ultrapassa o binômio quase-dialético da fórmula “morango e chocolate” para desviar a outros rumos estéticos. Formalmente, há dois elementos marcantes na construção cinemática. O primeiro está no uso da música diegética, interna ao enredo. Toda a trilha sonora do filme é ouvida no interior da própria história numa junção engenhosa entre narrativa ficcional e documento contextual. Assim, a belíssima canção cantarolada por Yusisleydis tem o aspecto simultaneamente de um momento lírico de fantasia, sendo no entanto extremamente realista, evitando o que seria um artificioso comentário sentimental do diretor e expressando inesperada erupção do real na trama. O mesmo para a canção Chupa Piruli que acontece num mercado de produtos de consumo de Havana. A cena joga com a ambiguidade de sua localização e parece ocorrer em uma espécie de Miami insólita localizada dentro da capital cubana. Essa canção não “comenta” de fora o enredo, mas emergindo por diegese da própria narrativa funciona como um comentário irônico que o filme faz das próprias expectativas do público.

E há, a partir de certo momento, o recurso brechtiano de distanciamento e estranheza provocado pela fala de Yusisleydis, que passa subitamente de personagem secundária à narradora da história. O filme então assume um aspecto fabuloso, porém ao mesmo tempo mais fortemente verdadeiro. Não é simplesmente o caso de dar “voz” ao povo cubano, pois Yusisleydis não “representa” os jovens da ilha. Ela só representa a ela própria. Sua fala tem o mesmo efeito da música diegética: emana do interior do dispositivo cinematográfico ficcional interpelando diretamente o espectador. O que importa é menos o que ela tem a dizer e mais o gesto de sua enunciação, a tomada da palavra. O que é exemplar não é sua mensagem, mas sim o gesto revolucionário de assumir a palavra sem intermediários.

Últimos dias em Havana parece um filme em paz com o regime socialista, porém não se pode acusá-lo de ser uma propaganda do Estado cubano, nem tampouco é uma obra dissidente. O filme não transmite a ideia de que a revolução está em seus últimos dias, mas também não está em seus momentos gloriosos. Se o filme indica que há algo novo nascendo é porque a revolução também sofre metamorfoses insuspeitas, entre a verdade da fábula e a gélida ilusão da realidade.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.