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122ª Leva - 07/2017 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Mesmo que de forma involuntária, cada ano que finda encerra consigo alguma espécie de ciclo. No caso específico de um projeto como o da Diversos Afins, tal transição de etapas se opera na compreensão de que algumas construções aqui feitas abrem espaço para outras mais. Desse modo, há o estímulo natural para que novas vozes tragam até nós o que de mais genuíno elas podem apresentar: suas identidades. São encontros proporcionados pela expressividade oriunda de palavras e imagens, verdadeiro coletivo sobre o qual criadores engendram a substância de seu pensamento. A ideia de reunir autores e artistas das mais distintas orientações e estilos acaba sempre por contemplar o propósito central da revista, que é o de mostrar a pluralidade de expressões. E assim vamos aprendendo a seguir adiante, pois é a experiência vivida a cada fase alcançada quem dá o tom e a medida do que precisamos ajustar e melhorar. Tanto no terreno da Literatura quanto das demais artes aqui veiculadas, as revelações acontecem de modo muitas vezes inusitado, dividindo as frentes de atuação entre aquilo que é pesquisado por nossa equipe e o que é resultado da adesão espontânea dos interessados em colaborar com a caminhada. Dá para sustentar com bastante firmeza que a revista é um trabalho de permanente construção, constatação esta que sempre nos lança um desejoso olhar para o futuro. 2017 finaliza seus ímpetos, mas deixa conosco o sabor da descoberta, condição que se projeta para as intenções do ano que virá logo em seguida. A Leva 122 traz em seu âmago o contato e consequente publicação de alguns autores que estreiam conosco. Quem povoa com a pungência de sua arte todos os recantos da nossa mais nova edição é a fotógrafa argentina Bárbara Bezina. Nos cadernos de prosa, desfilam as palavras de Anderson Henrique, Viviane de Santana e Marcelo Ariel. Tocando em temas tão caros à literatura contemporânea, o escritor Nivaldo Tenório concede uma entrevista a Sérgio Tavares. É Guilherme Preger, com sua precisa análise, quem nos convida a assistir o filme francês “A Trama”, mais novo trabalho do diretor Laurent Cantet. Na agulha de nosso Gramofone, giram as impressões sobre o segundo disco da banda OQuadro. Por aqui, também passam os versos de poetas como Teresa Coelho, Vladimir Queiroz, Rafaela Ferrari, Hilton Valeriano e Ana Freitas Reis. São de Vivian Pizzinga as valiosas reflexões em torno do espetáculo teatral canadense SIRI. Num verdadeiro convite à leitura, Geraldo Lima dedica atenções especiais para “O tapete voador”, livro de contos de Cristiane Sobral. Com o melhor que o presente pode nos proporcionar, eis uma nova jornada de expressões culturais, caros leitores! Sejam bem-vindos!

Os Leveiros

 

 

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122ª Leva - 07/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Vladimir Queiroz

 

Foto: Bárbara Bezina

 

VALADO

 

Existe ali ao lado
um buraco profundo
que se divide em temores:
um que berra e se oculta;
um que se transpõe
invade
vai ao longe
nas asas
no voo da catapulta;
um dominado
que rumina
o lume indigesta,
que passa pelo trato
como um jato obscuro;
um que transpassa o valado
de um pulo, em solavancos
mancos, de bengala
e se rala nos joelhos
no farpado embolado,
cumprindo uma penitência.
Sangrando sorri
um riso largo
nas mãos brancas
de um teclado melodioso,
vai mancando
arrancar os tocos
……………….trecos
…………………….tascos
da alforria prometida de um ser alado.

 

 

 

***

 

 

 

ABISMO

 

Resvala-se o louco pelas frestas,
respinga a borrasca pela testa
que lhe empresta o balanço do mar
para navegar sem rumo
à espreita do horizonte que lhe foge….

Um mouco que lambuza na fronte
as cores e segue pelas nuanças
à beira do abismo.
Numa mistura de cataclismos,
em desalinho cisma pela noite,
pelos ventos aguçados
de sentidos.
Adormece após os uivos
e gemidos.

 

 

 

***

 

 

 

LILÁS

 

A curva do rio é um anúncio,
prenúncio da correnteza.
Prepúcio tosco a desvestir o reinado
que coroa o bem-te-vi.
No jornal a manchete desregra a balburdia
criada no matagal:
torrenciais as chuvas estrondam e ocultam
o choramingo dos ninhos que repousam sob a várzea.
Nem se ouve o gemido germinado da gema
de um cristal puro que prende o grito de vida:
jaça a ir-se colérica no sopro do vento,
acompanhar a curva do rio que mastiga o bambual.
Indefeso caminho do leito
que na tormenta indigesta sucumbe.
Um obituário genérico nas mãos de um bérbere
hedonista, a moldar com as mãos a ânfora,
que recolhe a água que molha a margem,
que muda a cada instante
e flui:
pretérito sujeito de Éfeso em profecia.

Vem o perfume lilás aos olhos,
cai pétala por pétala o aroma
adubando a sola pé ante pé,
curtida de um couro denso, passa.
Uma rês que se desfez.
Não se compraz e segue,
fica o perfume estendido:
perdido jaz
…………….na praça.

 

 

 

***

 

 

 

MUXARABIS

 

Vejo a beleza que se espalha
por detrás da treliça
escondida,
a resguardar a formosura.
Só a réstia e o caminho lunar
podem beijar-lhe a face,
adernar sobre a pelve roliça.
Só a treva a rondar-lhe a boca,
despregar o véu da doçura.
Só os dois a comungar o amor,
entrelaçar os segredos.
Desvendar os devaneios,
os arquejos
e anseios guardados em jura.

 

 

 

***

 

 

 

TROMBETAS

 

As trombetas são ouvidas
para anunciar a estreia sem ensaio.

Vai pelas escarpas rolando o corpo
até despencar pelo barranco a alma,
e com calma repousar a crina,
lacrimejando.

As trombetas são ouvidas
para anunciar a estreia sem público,
e no púlpito desfazer as injúrias,
póstumas.

Vai pela campina forrar de madrasto a pele
que lhe permite o passo.
Despedir-se da culpa
que lhe mantém preso aos mistérios.

Sáfaro indigesto a berrar
ao Deus Hefesto:

Escrever com o ferro da forja a fala!

 

 

 

***

 

 

 

BARBA

 

A barba a crescer-lhe aos pés,
a tocar os caminhos nos passos
em desalinho que ficaram construindo o por vir.
A barba a roçar-lhe a mão, que pensa
segura o afago a gestar a ânsia da pele.
A barba, um invólucro de algodão
a ocultar a expressão das marcas
estiradas pelas macas que passam
e levam o tempo num suspiro,
desnudo de tudo,
num susto oculto da leve brisa
que roça a barba.

Um soluço a descer-lhe pela face
e mergulhar nos fios
escondidos na sofreguidão.

 

Vladimir Queiroz nasceu em Feira de Santana, Bahia. É membro do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Européias (CLEPUL) – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou os livros de poemas “Seres & Dizeres” (Pórtico, 1996), “Apokálupsis do Sertão” (Luripress, 2008), “Instinto” (EGBA, 2010), “Muxarabis” (EGBA, 2015), “Brasileirança” (EGBA, 2016), dentre outros.

 

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122ª Leva - 07/2017 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

OQUADRO – NÊGO ROQUE

 

 

Continuar os caminhos é sempre uma complexa missão quando o assunto é a criação artística. Nesse processo, o desafio maior parece ser o de desenvolver um novo projeto com consistência e uma identidade própria, capaz de comunicar algo ao mundo. É no quesito autoral que as coisas ganham corpo, sobretudo na expectativa gerada em torno daquilo que um artista pretende expressar ao seu público após ter obtido sucesso com um trabalho de outrora.

As linhas que iniciam este texto se aplicam bem à trajetória de uma banda como OQuadro. Tradicionalmente marcado pela sonoridade emanada do rap, o grupo agora traça seu novo voo através do seu segundo disco, Nêgo Roque (Natura Musical), consciente de que tem em mãos uma vasta possibilidade de enveredar também por outras vias musicais. Tudo isso, claro, sem deixar de lado a potência discursiva e sonora do gênero que marca a banda desde as suas origens, algo que remonta a pouco mais de duas décadas de estrada.

A julgar pelas escutas de cada uma das 12 canções, a aposta em Nêgo Roque rendeu bons frutos. OQuadro continua colocando em prática o viés da criatividade coletiva na concepção de seus trabalhos. Isso significa que cada detalhe que compõe letras e arranjos foi pensado de forma a contemplar a participação ampla de todos os integrantes da banda. O resultado dessa sinergia de diálogos desembocou num álbum que projeta o grupo numa condição de sempre ter algo relevante a nos dizer.

 

OQuadro / Foto: divulgação

 

Desde a faixa abre-alas, Ainda é cedo, já somos devidamente apresentados ao universo revitalizado da banda. Dizer isso representa a constatação de que os sentidos aqui estão abertos para perceber o mundo em que vivemos, lugar este que nem sempre nos transmite boas novas, atravessado que está por nossas colossais desumanidades cotidianas. Na canção que batiza o nome do disco, a qual conta com a participação de BNegão, paira a sensação de que a expressão que vem de África não pode se reduzir a um espaço geopolítico delimitado no mapa mundi, mas sim de algo maior, sentimento que atravessa fronteiras e assume seu lugar de destaque no pensamento e na ação dos sujeitos dispersos pelo mundo. Noutro momento, estamos diante de Trabalho, composição que lança um olhar de criticidade sobre a lógica perversa das relações trabalhistas, estas mesmas que ainda trazem, sobretudo num país de marcas colonizadoras como o Brasil, reminiscências e máculas da exploração do homem pelo homem segundo a estúpida ordenação capitalista.

Em Muita onda, faixa que conta com as participações de Emicida e Dj Gug, o vigor discursivo das falas não deixa nada a desejar, representa a propriedade de uma atitude inquieta que se exalta após se deparar com a avalanche de acontecimentos de uma conturbada contemporaneidade. Nesse “mar revolto” da tão propalada pós-modernidade, o sujeito da perplexidade testemunha seu tempo sem se considerar acima de qualquer regra estipulada. É ele mesmo um alguém que transita pelas vias escorregadias da sua própria identidade.

Me diz quanto vale expressa um questionamento permanente a respeito da violência, mesmo que algumas vezes simbólica, exercida sobre o Outro. Então, quem seríamos nós para mitigar nossos semelhantes em razão de qualquer suposta diferença ou pelo simples capricho de reproduzir a miopia das relações de poder? Certamente, a resposta ficará a cargo das nossas consciências e do quanto estamos imersos numa noção de controle da liberdade alheia, as tais amarras do corpo e da mente.

Se a paisagem que atravessa a vida está impregnada por uma insônia manifesta, há momentos em que buscamos algum alento. Diante do contraste entre tensões e levezas tão típicas das paisagens humanas, é salutar pensar que uma canção como Luz vem para equilibrar nossas mais opostas percepções da existência. É uma espécie de tomada de consciência que aponta para um necessário resgate do sublime em nós. Seguindo esse fluxo, a canção aqui ganha contornos de beleza pelas luxuosas interpretações de Indee Styla e Raoni Knalha.

 

OQuadro / Foto: divulgação

 

Um dos pontos altos do álbum é certamente Jahggant, um verdadeiro conjunto de referências que conciliam elementos derivados do jazz de New Orleans, efeitos eletrônicos e da pungência da cultura afro-brasileira. Nessa harmoniosa evocação de ritmos que dialogam entre si, OQuadro consegue comunicar o poder precioso da mescla de linguagens sonoras que aproxima mundos distantes. Já Pés no chão reforça a necessidade de se firmar a continuidade dos caminhos sem perder a lucidez e tampouco a capacidade de sonhar, e nos diz: “A verdade precisa de quem milite em nome dela/ e não de revolucionários de meia tigela”.

Nêgo Roque é um álbum que nasce com uma proposta de comunicar pelas vias mais enxutas possíveis e mais certeiras, é o que nos diz o baixista e também vocalista Ricô. Segundo ele, uma perspectiva de simplicidade foi buscada para os arranjos. “Em alguns momentos, esteve presente a ideia de estudar o silêncio, o barulho e o rock também. O rock é muito além de distorção, está na fala, nas frequências mais graves e sujas, e acho que a gente conseguiu usar isso de maneira minimalista e inteligente ao mesmo tempo”, sustenta.

Norteado por um viés experimentalista, o disco segue a atmosfera do rock e tem a característica marcantemente voltada para o afropunk, evidenciando uma atenção especial às temáticas ligadas ao negro e seu lugar no mundo. A banda reflete sobre a negritude como um resgate de algo pretérito, mas também direcionando um olhar para o futuro, quiçá um ambiente de ressignificação, diálogo e construção identitária. Por sua pluralidade vocal, potencialidade discursiva, arranjos cuidadosamente elaborados e um trajeto por múltiplos estilos e texturas sonoras, é possível arriscar que o OQuadro inscreve sua importância na cena musical brasileira contemporânea. Eis aí algo irreversível.

 

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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122ª Leva - 07/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Viviane de Santana

 

Foto: Bárbara Bezina

 

A BOMBA

 

Descobriram uma bomba da segunda Guerra Mundial ao fazerem uma obra na proximidade do meu prédio. A polícia passou convocando os moradores, pelo alto-falante, a deixarem suas casas. Na Alemanha, as bombas estão por aí, enterradas inertes no fundo da História, mas chega o momento no qual desabrolham como a gigante semente de uma flor nefasta, despontam da terra como uma enorme melancia enferrujada e repleta de crostas de lama. Mesmo depois de setenta e poucos anos podem explodir. Bombas são assim, não possuem prazo de validade como o pão, o leite ou a nossa vida. Enquanto ela estiver protegida por uma camada de terra como o embrião maligno da morte, ela fica ali, esperando a sua vez de espocar e despedaçar tudo a sua volta. Ouço os passos dos vizinhos descendo as escadas, os automóveis, antes estacionados na rua, deixam o local. O cinza do dia é escuro e chove. O eco do megafone funde o final da tarde. Não sei para aonde ir assim rápido, espontâneo. Devo ir a algum restaurante – longe – e ficar jantando a noite toda? Será que eu seguirei o chamado da polícia para evacuar ou ficarei em casa como aqueles teimosos que não abandonam os seus pertences mesmo com a chegada de um furacão, permanecem implacáveis junto de suas coisas como se pudessem salvá-las com sua presença flutuável, quebradiça?

Com repulsa visto o casaco, calço os sapatos, pego a bolsa, meu livro e o caderno de anotações. Na calçada, pergunto ao policial: quanto tempo isso demora? Talvez até amanhã de manhã! Até amanhã de manhã?! Penso perplexa. A polícia nem disponibilizou tempo para eu fazer uma mochila com a escova de dente, creme antirrugas, uma toalha e o pijama. Tocou a campainha de casa em casa ameaçando: deixe o apartamento imediatamente! Voltei. Regressei para o meu apartamento. Sentei-me no sofá da sala e escuto a mudez de tudo ao meu redor, como se o mundo tivesse se esvaziado. Não posso acender a luz, para não descobrirem que transgredi a regra. Será que sou a única a contrariar as ordens? Vejo a pantomima do vento farfalhando as folhas da árvore diante da minha sacada. Isso me leva a pensar naqueles que vivenciam a guerra, que sentem os tremores da explosão sob seus pés, ouvem o ruído ensurdecedor, que perdem as paredes de sua casa ou o teto, perdem os móveis e os que sobram são cobertos pela grossa camada de cimento pulverizado e seus pedaços, e perdem seus pertences – quando não perdem um braço, uma perna, — a vida.

Não é a primeira bomba a ser encontrada e não será a última. Há milhões enterradas nesta terra e nas regiões mais afetadas pelo conflito bélico daquela época, também são encontradas ossadas de civis mortos plantadas debaixo da cidade, por várias décadas. Eles renascem tão inocentes como morreram. Os ossos são resgatados e levados para um laboratório ou para o cemitério. Suponho que façam um teste de DNA para saber quem é. São tantos ossos ainda dormindo, esperando alguém libertá-los e lhes dar um rosto e uma biografia, e os levar aos seus parentes que agora fazem parte do futuro.

Os artefatos são desativados com sucesso, com exceção de alguns poucos. Acontece de trabalhadores da construção civil depararem-se com um dispositivo, cavando a terra com a escavadora, e ele explodir. Geralmente, são encontrados em terrenos baldios. O governo de Berlim comprou documentos e fotografias pertencentes aos arquivos dos Aliados para a busca de artefatos, e criaram um mapa com as regiões mais afetadas. Será que o piloto de um dos seiscentos aviões que jogaram mais de cinco mil bombas nesta cidade imaginou que ele poderia me acertar? Eu, que não vivi a guerra, não nasci neste país, vivi muito tempo longe daqui, e setenta e poucos anos depois, uma bomba da segunda Guerra Mundial pode me atingir como se a guerra fosse ontem.

Certa vez, o artefato explodiu e escutei na rádio: três especialistas em armamento morreram, as vidraças de alguns prédios se espatifaram, brotaram rachaduras nas paredes. Deixaram mulher e filhos. Quando explodem, apesar de antigos e enferrujados, é com os mesmos vigor e iniquidade, como se todos esses anos a força de destruição da guerra tivesse incubada ali.

Há pouco eu ainda ouvia o chiado das rodas dos automóveis passando ligeiros pela autoestrada lá adiante, o som undíssono dos pneus no asfalto encharcado ecoava alquebrado até a janela da minha sala. Agora nada, apenas o silêncio, parecido com o primeiro de janeiro quando todos dormem de ressaca.

E então, depois de algumas horas, na meia-luz, anotando palavras ilegíveis, a fome me surpreende e vou à cozinha, comer o resto da batata-frita que eu fiz para o almoço. Semelhante aos condenados à morte que fazem a sua última refeição. A bomba pode explodir agora, comigo comendo batatas-fritas. No banheiro, fazendo xixi, torço para que ela não exploda agora que estou com as calças abaixadas sentada na privada. Não é assim quando se está em guerra? Nem ao banheiro podemos ir em paz, as mínimas e insignificantes ações podem se tornar as últimas e tudo é perigoso. Percebemos o quanto as mínimas coisas são essências e o quanto podemos ser felizes com elas, como simplesmente jantar em casa com a família, ouvir uma música na rádio, guardar a louça no armário, tomar banho…

Ando como uma intrusa no interior do meu próprio apartamento. Não há mais alto-falante lá fora, não há mais polícia perambulando pela calçada. A rua está deserta, o prédio está abandonado. Não vejo mais o xadrez das janelas acesas e apagadas, que aparece todas as noites, somente o breu indecifrável resplandece na fachada das casas. E quando a taciturnidade é mais pesada do que aquilo que escrevo, a sensação de fim de mundo me advém, me sobressalta, logo em seguida, desaparece de novo. E depois? Devo pensar na vida eterna? O que vem depois da destruição, do fim? Não sei, só sei do não existir mais neste apartamento, neste corpo, nestes pensamentos. Só sei da abrupta interrupção de mim com esta vida, com as coisas deste mundo material. Talvez eu me torne somente pensamentos gasosos que flutuam no ar, uma espécie de névoa que se evapora ou se transforma em chuva e cai na terra, no cimento, nos telhados, no vidro dos automóveis. Pois não é assim, na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Nós nos transformamos em quê depois de mortos? Não sei para aonde vou quando eu deixar de ser eu incorporada nesta armação de carne e ossos, sangue e órgãos. No fundo, morrer é simples, basta um segundo e, às vezes, nada percebemos; outras vezes, a vida é um morrer constante, repleta de dor e desespero.

Reflito nos especialistas em engenho explosivo trabalhando ao redor do artefato. Certamente precisaram cavoucar cuidadosamente a terra, na região onde o dispositivo se encontra, para liberá-lo do lamaçal. Presumo que armaram uma cabana com cobertura de plástico sobre esta área, para que os pingos de chuva não caíssem sobre o rosto dos especialistas e em suas mãos, atrapalhando a concentração. E também de luz eles precisam, deve haver um grande farolete doando claridade. E no instante decisivo, os especialistas precisam ficar sozinhos, completamente solitários, e assim poucas pessoas morrerem se algo der errado.

Imagino um único especialista enfrentando este artefato de duzentos e cinquenta quilos, enterrado a cerca de meu prédio. Tudo a sua volta foi evacuado, a autoestrada está vazia, os edifícios, o supermercado, o asilo de velhos, a estação de metrô, os prédios, as calçadas. Apenas ele e o silêncio absoluto, ele e a afonia que caiu sobre esta parte da cidade como um manto negro, ele e o isolamento, ele e a solidão, ele e o pipocar dos pingos de chuva sobre o plástico, ele e o suspense, ele e a obscuridade do futuro.

Durmo no sofá da sala. No meu quarto, a cama fica muito perto da janela, e se o artefato explodir o vidro se espatifará em cima de mim, cortando meu corpo, furando minha carne. A sala fica do lado onde a pressão levaria os cacos a caírem para fora, deduzi com os meus parcos conhecimentos de física. Meu prédio localiza-se à margem do perímetro dos quinhentos metros de evacuação.

Tenho o sono leve, meu sonho é uma mistura de vizinhos invadindo meu apartamento, me acusando, me ordenando a sair, e o amarelado claro e forte do sol se derramando na escada. No meio da madrugada, desperto e cogito se seria agora que ele separa a concha entre o impulsor de ignição e o explosivo, com o cortador de granulado de água — e fomos salvos. Meus olhos arregalados vislumbram o escuro como se pudessem atravessá-lo feito um raio. Esse escuro nada me responde. Não é possível eu saber, pode ser agora, daqui a meia hora, duas horas, ou já foi. O que ele pensa neste átimo de tempo preciso com o bafo da morte na sua nuca, instante no qual o seu corpo pode vir a ser despedaçado e pedaços voarem e como um bando de pombas pousarem no chão. As partes espalhadas como em um quebra cabeça imontável. Sentir ele não sentirá, nada disso ele sentirá. Mas possui a consciência. Talvez ele reze, se for religioso, talvez ele pense em sua mulher e filhos, em seus pais, em sua namorada ou apenas se concentra porque a rotina – são mais de setecentas bombas que ele desativou – a prática o fez esquecer que ele é a pessoa que executa um trabalho que toda vez pode ser a última. Como se eu, ao assinar um documento no escritório, corresse o risco de explodir. Pego a caneta, observo o papel profundamente, calculo minha assinatura no espaço exato, preparo a caneta, a minha mão, respiro fundo, concentro-me, penso nos meus entes queridos e — desejo viver e — assino.

Não há como eu saber o lance de tempo exato no qual ele cala a bomba, corta a sua aorta e o monstro morre para nunca mais, — vencido, agora inofensivo, semienterrado na terra como um estranho alienígena de ferro, sem olhos, sem ouvidos, sem membros, somente com a boca fechada, esta boca que ao abrir engole construções e vidas. Não há como eu saber, mas creio que esta bomba não me alcança, esta bomba não me alcançará.

 

Viviane de Santana é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, publicação independente, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.

 

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122ª Leva - 07/2017 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Trama (L’Atelier). França. 2017.

 

 

L’Atelier, filme de Laurent Cantet, chegou aos cinemas brasileiros como A Trama. O título do filme em português não trai o motivo da história, mas introduz certo deslizamento semântico que torna o filme ainda mais interessante.

O atelier, no caso, é uma oficina de escrita. A escritora de romances policiais Olivia (vivida por Marina Foïs) ministra a oficina para uma turma de jovens “problemáticos”, periféricos ou marginalizados. O objetivo da oficina é a escrita coletiva de um romance policial pelos alunos. A atividade tem um fim de integração social e os alunos ganham uma bolsa pela participação. Eles são franceses de famílias de ascendência africana ou árabe. Mas há dois franceses tradicionais, brancos, e um deles é Antoine (vivido por Matthieu Lucci), que se sobressai como o outro protagonista do roteiro.

A reunião do grupo fornece um microcosmo das tensões sociais que afetam a sociedade francesa, em particular os jovens. A história do filme acontece após o assassinato em massa ocorrido na boate Bataclan em novembro de 2015. As tensões aparecem entre os jovens e entre eles e a professora, que é uma mulher branca, de cerca de 50 anos e bem sucedida como escritora. Ela ministra a oficina com idealismo, acreditando não apenas conduzir o grupo para uma boa realização de sua tarefa (o romance que será publicado), mas também que esta oficina ajudará os jovens em sua inserção na sociedade e na difusão do interesse pela literatura.

 

Foto: divulgação

 

Laurent Cantet é o diretor do aclamado Entre os Muros (2008), ganhador da Palma de Ouro em Cannes e do excelente Em Direção ao sul (2005), entre outros filmes. A Trama tem uma estrutura de roteiro que se assemelha a Entre os Muros. Mistura habilmente as esferas da realidade e da ficção. Sobretudo, em ambos os filmes há um conflito etário e social entre jovens e uma personagem de mais idade, numa posição de autoridade e conhecimento. No filme de 2008, há um confronto aberto entre os alunos e o professor que desfaz as relações de hierarquia dentro do aparelho escolar.

No filme mais recente, Olivia é uma escritora mais experiente, mas a literatura não é um aparelho de hierarquias rígidas.  A literatura é justamente o tipo de atividade que desestabiliza as hierarquias sociais porque embaralha as pontas entre a ficção, que é a técnica de construir um mundo imaginário, e a realidade, que não é outra coisa senão aquilo que contamos sobre ela. A questão é que aprendemos na literatura que ficção e realidade não se opõem, mas são complementares, que não há realidade que não seja também ficcionalmente elaborada.

Daí porque o título de A Trama faz um comentário a esse imbricamento entre realidade e ficção. É verdade que se fosse apenas por isso não teria alguma novidade no filme de Cantet, pois a confusão entre literatura e realidade é trabalhada em muitos outros filmes como, por exemplo, o filme Dans la maison, de seu compatriota François Ozon. No filme de Laurent Cantet, esse imbricamento tem uma conotação política e sexual.

No início do filme, pode parecer estranha a razão pela qual o roteiro escolhe a personagem de Antoine para seu foco narrativo. Entre jovens multiculturais é justamente o mais francês entre eles que protagoniza o enredo. A razão dessa escolha torna-se mais clara aos poucos: descobrimos que o jovem Antoine está para se envolver com grupos da extrema-direita francesa. Junto com seu primo e amigos, Antoine frequenta as reuniões de um líder extremista que prega a França para franceses, o ódio aos migrantes, o direito ao porte de armas. No entanto, Antoine não vê esse movimento como político, mas como um tipo de diversão. Ele acompanha apenas seus amigos aos encontros e a passeios onde brincam com armas. Durante as reuniões da oficina, ele é aquele que rejeita qualquer filiação do argumento do roteiro que está sendo construído coletivamente a uma motivação política como querem alguns dos outros jovens. A localidade onde o filme se passa, La Ciotat, é uma zona portuária que abrigou no passado muitos movimentos grevistas. Familiares de alguns desses jovens fizeram parte desses movimentos grevistas.

 

Foto: divulgação

 

No fundo está a questão do terrorismo, pois o assassinato em massa da boate Bataclan ou o atentado em Nice e a onda islamofóbica que invade a França estão muito presentes para os jovens e alguns deles sofrem na pele as consequências. Antoine expõe sua tese: a motivação política ou religiosa dos atentados é mero pretexto e deve ser posta em dúvida. Esses motivos apresentados pelas mídias não passam de narrativas ficcionais a seu jeito. O que realmente leva os jovens a matar é puramente o desejo de sentir a experiência do assassinato e da morte. Ele apresenta um trecho ficcional de seu próprio punho para o roteiro que escrevem. Nesse texto, apresenta a cena de um assassinato com os detalhes sádicos de realismo, o que provoca a repulsa nos demais jovens do grupo. Para Antoine, no entanto, não ser possível estabelecer uma causalidade política ou religiosa para os assassinatos acaba servindo muito mais à causa dos imigrantes, pois tiraria deles o peso da responsabilidade. Na verdade, apenas o desejo de matar dos jovens do Bataclan explica o assassinato e não o fanatismo religioso ou mesmo a filiação a movimentos extremistas islâmicos.

O que supostamente Antoine defende é não apenas a despolitização do romance (e da literatura), bem como da própria política. É como se ele encarnasse literariamente o absurdo do Estrangeiro de Albert Camus: para matar não há necessidade de nenhum argumento. De fato, assim como o personagem de Camus, Antoine vive uma vida de absoluto vazio existencial e tédio. Ainda próximo da adolescência, ele é um caráter que está à espera de seu destino, como uma página em branco.

Laurent Cantet, através da personagem de Antoine, está discutindo o apelo crescente da extrema-direita entre os jovens franceses. Curiosamente, esses jovens fazendo política não acreditam que são políticos. No grupo da oficina, Antoine está sempre contestando seus colegas de um ponto de vista que se quer neutro ou não engajado e desse suposto não engajamento vem parte de sua força argumentativa. O problema é que tal não engajamento não consegue se sustentar. Olivia, que estuda esses círculos de extrema-direita para seu próximo livro, observa que Antoine é sempre “do contra”, procura a cada momento o conflito com os colegas. Ela se aproxima dele para tentar talvez ajudá-lo, ou por causa de um fascínio erótico pelo rapaz mais jovem.  E é aí que aflora no roteiro uma tensão de fundo sexual não resolvida entre a escritora de meia idade e o jovem pós-adolescente.

 

Foto: divulgação

 

Tensão libidinal que é vivida pelo jovem principalmente como um grande incômodo. Pois ela penetra sub-repticiamente além de toda vontade, consciência ou determinação contrária. Isso acaba por atingir sua suposta neutralidade ou individualismo exacerbado. Mas não há neutralidade e sim um alheamento. E a libido fala de uma ligação afetiva mais primordial e inescapável em relação ao outro. Impossível não sermos afetados pela presença física e corporal dos outros. A oficina de escrita mostra que literatura não é só a arte de contar histórias, mas de colocar em perspectiva as diferentes visões de mundo. E o ateliê é o centro mesmo de onde essas perspectivas e suas tramas se encontram. E a partir daí acontece o que é comum a todas as tramas, que é se enredar. A Trama é assim um filme sobre as redes que a imaginação traça para agarrar a realidade e, justamente, o filme fala de um cargueiro que se desprendeu de amarras e avançou sobre a cidade num grande desastre. É para não se perder num “sentimento oceânico” freudiano de morte e aniquilamento que Antoine entrou para a oficina, apesar de seu suposto alheamento. Algo que faz todo sentido numa cidade portuária em que até os grandes cargueiros podem navegar desgovernados.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

 

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122ª Leva - 07/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Rafaela Ferrari

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Se do meu púbis nascessem asas, talvez esse peso no colo também aprendesse a voar,
talvez a necessidade de preenchimento com algo que molda meus pensamentos místicos necessitasse de somente mais um livro mítico para recuperar
esse vazio
essa completude de bebidas alcoólicas e fumaça enquanto fecho os olhos, e minha existência se resume a apenas um mexer da alma na caixa craniana, como se nem a gota mais pesada de chuva pudesse matar a sede
do púbis

sem luz
mas com esperança

 

 

 

***

 

 

 

o peso no peito na penumbra do quarto
o vestígio do vento nas veias
na minha orelha
no lago
O do ré mi fa das partículas subatômicas
nem a mais doce rosa de Hiroshima saberá cantar o adeus à pátria

 

 

 

***

 

 

 

Entre vidas e vindas
Descubro que a partida é a mais rápida das mortes
aos quarenta não sou
aos quarenta serei
mais pó do que hoje me descubro ser

 

 

 

***

 

 

 

gravidade igual empuxo
me encontro flutuando em mim mesma
pernas e braços algemados unicamente ao meu próprio ser
apnéia em minha própria consciência, que me afoga
que me sustenta
que me prende
que me algema
que me proíbe de conhecer o infinito pó das estrelas numa tentativa de conhecer o finito pó do eu.
Às pressas nado

em mim

 

 

 

***

 

 

 

Ausên…cia

 

Ainda bebia dos cachos ausentes , a curvatura do sorriso, o vai e vem do toque , o vai e vem da alma. Bebia do Abraço ausente , o calor dos átomos , o frio do vento , a beleza de um mundo sem sapatos.
Bebia do beiço ausente , a pureza do laço cardíaco , a sujeira do caminho , da passagem entre o corredor
e a estrada
perdida
encontrada
Bebia dos lenços a própria lágrima.
De todas as ausências , o cheiro era o que mais falava

 

 

 

***

 

 

 

Olhou pro céu
e reparou que o eterno é uma vulgar onda eletromagnética chamada de luz.
Com forma
amada
Conformada
Sem Theo.

 

Rafaela Ferrari cursa Relações Internacionais na Universidade de Brasília. Natural de São Paulo e parida na Avenida Paulista, começou a se interessar pela arte durante o Ensino Médio, em um curso para jovens escritores (CLIPE) da Casa das Rosas.

 

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122ª Leva - 07/2017 Jogo de Cena

Jogo de Cena

A relação entre o humano e o não-humano no espetáculo canadense SIRI

 Por Vivian Pizzinga

 

Foto: Julie Artacho

 

SIRI é o nome de um sistema operacional da Apple, um software que nos faz lembrar de filmes como Her (de Spike Jonze) e Blade Runner 2049 (de Denis Villeneuve). A diferença, entretanto, além das que se referem aos aspectos formais/ficcionais próprios de cada uma das linguagens artísticas específicas, isto é, a dramatúrgica e a cinematográfica,  é que, no caso de SIRI, estamos falando de algo real, um aplicativo que existe, que funciona, que muitas pessoas usam diariamente, ao passo que Samantha, em Her, e os replicantes de Blade Runner (Ridley Scott) e Blade Runner 2049 são o auge do que se imagina, a cada época, sobre o estado ao que pode desembocar a evolução das máquinas e robôs e sua relação com a vida humana diária. SIRI não faz tudo o que Samantha faz, mas faz muita coisa. De fato, parece já haver à disposição de todos nós uma opção de secretária e faz-tudo, por assim dizer, que, no mundo de internets, virtualidades, redes sociais e googles da vida, está pronta e hábil para resolver todos os pequenos e grandes problemas que enfrentamos rotineiramente.

SIRI é também o nome do espetáculo canadense inédito no Brasil, com direção de Maxime Carbonneau, em que a atriz Laurence Dauphinais, no palco do teatro, interage com esse aplicativo em tempo real. Apesar de se tratar de um aplicativo e de haver um texto mais ou menos prévio, a interação com um dispositivo tecnológico como esse dá margem à possibilidade de variações imprevistas, de um diálogo inédito a cada apresentação. O espetáculo – meio dramatúrgico, meio performance – esteve em cartaz no Teatro do Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro.

Inicialmente, Laurence se apresenta em português à plateia, falando um pouco de sua vida e de suas origens e contando que é filha da tecnologia: sua mãe fez inseminação artificial em 1982 com um doador que apresentava semelhanças físicas com seu marido mas cujo anonimato era uma condição de todo o procedimento. Laurence nasce, então, em julho de 1983, é câncer com ascendente em câncer e lua em escorpião e não tem como fugir dos questionamentos sobre suas origens, assim como assinala e considera as influências astrológicas em sua vida uma inquietação que perpassa o espetáculo e sua interação com o aplicativo SIRI. É nesse sentido que a pergunta sobre os outros 50% que lhes deram origem (o doador desconhecido) parece ser uma constante na vida de Laurence e, em seu diálogo com o software, a temática da paternidade surge aqui e ali quando a atriz indaga a ele sobre o que acha de Steve Jobs, por exemplo, e se o considera como sendo seu pai. Tudo isso é feito com legendas eletrônicas.

 

Foto – Julie Artacho

 

O que há de muito interessante na ideia de Maxime Carbonneau e Laurence Dauphinais é que, dentro das limitações de um teatro (isto é, a partir de uma perspectiva bem diferente daquela do cinema, quando a temática aparece em Her, por exemplo, e Samantha, o sistema operacional que tem a voz de Scarlett Johansson, é ilimitada em suas respostas, nas entonações e variações de voz com que conversa com o seu ‘dono’, em suas capacidades e interesses), há uma tentativa instigante e exitosa da dupla canadense de tematizar essa relação do humano com a tecnologia. Aliás, com as novíssimas tecnologias, cujo avanço veloz deixa para trás as soluções e as respostas aos impasses éticos que surgem em relação a elas. Fazemos, assim, malabarismos inimagináveis com todos esses sistemas, resolvemos problemas em segundos e a distâncias impensáveis, acumulamos dados que nossos armários e prateleiras jamais conseguiriam comportar, mas não sabemos lidar com suas consequências e com as questões éticas que tudo isso pode ocasionar.

A interação do humano com a tecnologia e as consequências daí derivadas não se resumem apenas aos dispositivos eletrônicos, objeto específico que o espetáculo escolhe abordar. O exemplo do filme Náufrago (de Robert Zemeckis), em que o personagem de Tom Hanks interage com uma bola e a batiza de Wilson, já mostra claramente o quanto precisamos da interação com o outro, ainda que desprovido de humanidade ou apenas dotado de uma humanidade atribuída. A bola de Tom Hanks não respondia às suas perguntas. Não resolvia seus problemas de localização, não fazia contato com bases militares, nem era capaz de lançar mão de uma música para distraí-lo num momento de solidão. Por outro lado, se é que Wilson respondia às interpelações do náufrago, tais respostas existiam apenas em nível imaginário. Um software como SIRI, por sua vez, tem múltiplas respostas a uma mesma pergunta, mesmo que elas aqui e ali se repitam, ou ainda que não façam sentido. Com todas as limitações, SIRI oferece algum tipo de resposta. Algum diálogo, alguma interação, certa distração.

 

Foto – Julie Artacho

 

Laurence vai, portanto, tentando puxar de SIRI assuntos mais humanos e menos informativos. Ela quer ir além das reconhecidas habilidades técnicas de SIRI, persegue seus furos, dado que o software é bom em informar, mas e quanto aos afetos e às temáticas simbólicas, como o aplicativo se resolve com isso? Laurence quer saber se SIRI sente falta de Steve Jobs, se tem um pai, se é feliz, se é mulher e, finalmente, se sabe qual é o sentido da vida.

A peça mostra também que a busca por uma conversa com o aplicativo que se assemelhe a uma interação entre humanos pode gerar frustrações. SIRI pode parecer cínica ou irônica, mas não passa de um software que não sabe ler modulações de afeto e tonalidades emocionais, que não sabe manejar uma discussão porque não está implicada nela, e não o está porque é apenas isso: um software que engana bem, mas só por enquanto. O espetáculo também levanta, inevitável e implicitamente, o aspecto segundo o qual essas variadas tecnologias influenciam e produzem impacto em nossas vidas. Aborda-se, pela via dramatúrgica e artística, exatamente o que Bruno Latour já levantava em sua Teoria do Ator-Rede (TAR), ao falar sobre a mediação técnica em sistemas híbridos, em que atores humanos e não-humanos têm mútua influência entre si, em que a ação sociotécnica leva em conta necessariamente a simetria entre esse humano e o não-humano que o cerca, tal como no espetáculo canadense, que alça SIRI à categoria de coautora do texto e que a insere nos créditos referentes ao elenco da peça.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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122ª Leva - 07/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcelo Ariel

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Em A CRIAÇÃO DO MUNDO SEGUNDO O ESQUECIMENTO

 

O significante aqui é a sombra da árvore com sua música silenciosa quase tocando seus olhos, árvore ininteligível e silêncio amado com força suficiente para desintegrar a mistificação da linguagem poética, mas isto apenas no final, quando a sombra de um outro silêncio incancelável atravessar o espaço

 

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E se tudo for uma metáfora dos nossos sonhos? E se a realidade for um emaranhado de poemas e problemas tão misturados entre si que é quase impossível distinguir uns dos outros? E se o amor for no fundo a única maneira de distinguir uns dos outros?

Talvez as metáforas sejam ‘a droga do século’ mas na falta delas o amor pode se converter em mais uma droga anestésica, uma geração inteira viciada em ‘anestesia da vida interior’ não é melhor do que outra viciada em ‘fuga interior’, olhar para fora pode ser um ato revolucionário se nossa vida interior acompanhar o nosso olhar, vou reler o seu livro como se ele fosse um filme em estado puro ou seja, como se ele fosse ‘ algo vivo’ como os nossos sonhos, esse lugar onde o amor nasce ou se confirma como mais uma metáfora, a mais poderosa delas.

 

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Como acender uma paisagem para libertar os gritos?

 

Inesperadamente os sentidos mais profundos de um termo nos escapam se estamos no início de uma paixão por uma ideia vaga e errática como essa ideia do ao vivo (inexistente segundo a microfísica pois tudo é gravado) ou a ideia do encantamento como fundador do amor (impossível segundo a lógica mais abstrata e por isso mesmo uma longa sinfonia que toca muito baixa por dentro) como um pássaro que se apaga.

 

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Todas as tentativas de controlar, limitar ou destruir o caos formam a essência do nazismo psíquico, o caos é indestrutível e se multiplica através das galáxias, das palavras e dos silêncios.

O nazismo psíquico tem cheiro de menta.

Nós em nome do poema contínuo nos colocamos contra o nazismo psíquico neo-positivista dos livros de autoajuda e contra o nazismo psíquico pseudo-niilista e semi-hedonista da cultura das drogas.

o nazismo psíquico se alimenta da diluição da angústia em um pragmatismo ou utilitarismo disfarçado de ética-estética do vazio que por sua vez se alimenta da lógica do possível imediato da ditadura das coisas.

ora o caos já provou através da história que a vida se move dentro do impossível

e dissolve as coisas no ácido do tempo-morte. No ácido do tempo-êxtase

o caos é ambíguo como um elétron, ora é uma partícula de caos visível, ora é uma onda invisível de hipercaos.

o caos não é um teatro.

o nazismo psíquico é um cenário interior construído pela ditadura das coisas-conceito.

o hipercaos não é um poema.

nenhuma palavra jamais tocou na realidade, isso explica porque os escritores sempre fracassam quando tentam vencer o nazismo psíquico com palavras.

mas em verdade vos digo que a poesia fora das palavras é infinitamente mais poderosa do que a ditadura das coisas e ela virá como uma onda viva de dentro do hipercaos tudo o que chamamos de realidade será consumido por essa devastadora onda de sonho.

 

 

 

***

 

 

 

Em O REI DAS VOZES ENTERRADAS

Manifesto Sabiá

 

 

18 de setembro de 2013 às 15:20

Conversando com um amigo sabiá, rimos muito das reclamações que fizeram de seus cantos. Ele disse que os cantos que mais incomodam são os quânticos desatrofiantes, que interiorizados oniricamente na cidade geram como primeira reação uma imediata indignação com os véus cegantes da pseudo exterioridade, e tem como consequência um acordar-revolta contra o próprio canto-reza (ele nomeou esse processo como ornitoclash anticósmico). Disse ainda que repelimos os cantos dos sabiás e dos sábios com a mesma ignorância que destruímos as abelhas humanas, atordoados e anulados pela pluriesquizofonia congelante e assassina do irreal. Tive de concordar, e rimos ainda mais. Quando lhe perguntei sobre os limites da desrazão, ele voou.

Depois me deitei no sofá e sonhei  que ele não havia voado e havia começado uma convenção telepática de Pássaros do mundo inteiro e  o Sabiá pousou em cima da lâmpada da sala e começou um canto-diálogo com o ‘Ele’ que é o eu dos sonhos:

Sabiá: – Nós somos o mesmo pássaro, mas de todas as formas de asa o seu olho é a mais bonita, a asa fechada no círculo, com todos estes fios finos

Ele: – Supercordas para receber as imagens do cosmos disfarçadas

Sabiá:- O canto do olho cria todos os sóis, você é um Sabiá diferente dos outros

Ele:- Eu sou um Sabiá, porque é o que todos nós dizemos quando encontramos vocês, definição é o assassinato pela nomeação

Sabiá:- Sim, vocês cantam isso com o olho-boca, mas a porta, o que vocês chamam de bico em mim, é em outro lugar na cabeça e é também um ovo que vocês quebram por dentro

Ele:- O cérebro, o nome do nosso bico é cérebro

Sabiá:- Então a flutuação dos raios é para dentro dos fios, aqui o ar é delicado e podemos conversar, mas meus eus estão chamando e tenho de voar para fora do seu dentro.

Eu acordo e não consigo mais pensar em outra coisa a não ser na origem da palavra ‘ Sábio’ e na ligação entre o canto dos Sabiás e o canto quântico dos Pré-Socráticos.

 

Escrito com Kleber Nigro

 

 

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Voltando para a floresta-sem-floresta que a película de Berkeley sempre confundida erroneamente com o véu de Maya continua escondendo. Nesse lençol de luz e gravidade que chamamos de VISÕES a ‘Une rose seule,c’est toutes les roses’ continua cantando :

” Ó imenso mar das formas coberto por este manto de olhares imensamente fechados…Logo mais TUDO estará flutuando como o sonho

Para acabar de uma vez por todas com o amor, basta chamá-lo de amor e esperar que a palavra dissolva A COISA… Que morre dentro do pote de vidro fechado de um nome ou passa como essas nuvens clonadas na superfície desse mar emprestado por um filme onde elas se deitam como putas ou dentes-de-leão filtrando um ex-poema dentro do pó. O amor é o esqueleto de um inseto.

 

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A Love Supreme

 

Cruz e Souza: Existe uma rutilância sublime nas auroras em contraste com o tempo que nos assombrava que tornava pálida a luz destas chamas que fomos e que hoje é musical se a este sonho for comparada.

John Coltrane: Talvez venha do Senhor todo esse resplendor, a luz invisível que era a música que hoje não podemos mais separar de nada, até da nossa carne, este pó de luz  que volta a ser luz e de novo pó da luz

Cruz e Souza: Sim, entendo teu discernimento da música e dentro da arquitetura da etérea leveza das experiências, eras músico…

John Coltrane: Não, tentei não ser isto, eu tocava para o altíssimo e tudo o que eu fazia era orar e receber os sinais, Ele só desce pela escada das harmonias celestiais e a música e a oração são a mesma coisa, como degraus dessa escada

Cruz e Souza: Já que falaste em escada, vamos subir…

 

Marcelo Ariel é poeta, performer e dramaturgo. Nasceu em Santos, em 1968, e reside em Cubatão-SP. Autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados”, “Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio”, “Com o daimon no contrafluxo”, “Potestade e pássaro”, entre outros. Os textos aqui publicados integram o livroA névoa dentro da nuvem – Prosa reunida”,recentemente publicado pela Lumme Editor.

 

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122ª Leva - 07/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ana Freitas Reis

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Horas doces.
Um segredo, sem som, sem enredo,
Só silêncio segredado num espaço isolado,
Dentro a luz e movimento plano.
Nem um dano, nem um toque, nem uma dor,
O segredo revelador do que se tem suspenso, pontas de voo leve.
Sem greve, sem grave, sem agudos, Só os mudos que se querem em viagem de olhos abertos e fechados,
Sem machados, sem armas, sem pecados, só planície, só paisagem.
Horas de paragem.

 

 

 

***

 

 

 

O tempo suspenso do criador. Sabemo-lo do pássaro a elogiar a horizontalidade. Um gesto que amacia a possibilidade de um longo campo para fertilizar. Junto à montanha a urgência da geração. A homenagem ao minúsculo. O espaço da transformação. Como se apenas fosse necessário permitir que cada ponto pudesse encontrar o seu lugar entre os outros. Regressamos sempre ao encontro.

 

 

 

***

 

 

 

corpos emprestados
em roupas roubadas
de encontros furtados
entre mãos mentirosas
textos perdidos
em prazeres fingidos
bocas enganosas
entre sonhos adormecidos
lençóis mal lavados
em dormidas vazias
dos quartos alugados
entre noites vadias
radiografias marcadas
costelas partidas
pernas engessadas
carnes agredidas

 

 

 

***

 

 

 

Não quero nada mais óbvio do que os azuis de um céu escuro, do que uma casa abandonada e do que um livro que não se sai da capa. Não quero nada mais óbvio do que vozes de cigarros de prata, do que uma passadeira de memórias e do que ninguém que passa por essa estrada. Não quero nada mais óbvio do que uma janela partida, do que os ventos daquela despedida e da morte a assoprar no caminho. Não quero nada mais óbvio do que um carinho, do que ouvidos que se assobiam e de silêncios que não são óbvios.

 

 

 

***

 

 

 

O ser em contração
Sem combustão no interior
Devagar, bem devagar
Lento, bem lento
O calor
Dissipa-se pela luz
Cessa os movimentos
Fizeste de mim o ausente
Estou em vão

 

 

 

***

 

 

 

Vai
e vem
a morte
o ciclo
a espécie
tem contínuo
Norte
O ponto
O repouso

 

 

 

***

 

 

 

Sobressalto
Cada vez que os meus olhos amarrotados se fecham
O preto protege-me da luz
São camadas, muitas camadas.
A porosidade, a cor e a textura fazem parte do nosso solo.
Passamos por ele sem palavras.
Embaraço
Cada vez que os teus olhos espantados se abrem
No campo, a nitidez da profundidade e o encanto na cristalinidade da pedologia.
Esclareço-me
Cada vez que há olhos que se fixam na geografia
Perdemo-nos entre as cortinas meridianas maiores que o território.
Não consigo codificar porque
Distorcemo-nos
Cada vez que os nossos olhos se atravessam.

 

Ana Freitas Reis vive em Lisboa e é criadora. Cria programas de desenvolvimento de pessoas e poemas. É graduada em Psicologia pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Há 10 anos que é sócia-gerente da Progma, um projeto para o desenvolvimento de competências comportamentais, onde é responsável pela inovação dos programas e faz a coordenação e produção de espectáculos teatrais e programas de formação para outras empresas. Colabora semanalmente com o radialista Ricardo Mariano e o fotógrafo Alípio Padilha, no programa de rádio Em Transe, onde escreve parte dos seus poemas. 

 

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122ª Leva - 07/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

Contos que traduzem a conflitante realidade do povo negro brasileiro

Por Geraldo Lima

 

 

Cristiane Sobral [poeta, escritora, atriz, diretora e professora de teatro, nascida no Rio de Janeiro e radicada em Brasília] é uma das vozes mais contundentes da literatura negra brasileira. E, ao falar de literatura negra, falo do texto literário (poesia ou prosa) que, segundo Zilá Bernd, no seu livro Introdução à literatura negra (Editora Brasiliense, 1988, pág. 95), “configura-se como uma forma privilegiada de autoconhecimento e de reconstrução de uma imagem positiva do negro”. É, também, literatura que tem o compromisso de denunciar a discriminação racial e o quadro de exclusão em que vive a maior parte da população negra no Brasil. É, em suma, uma literatura que se propõe como militante, engajada, com todos os riscos que isso acarreta. E é assim nos dezoito contos que compõem o livro O tapete voador (Editora Malê, 2016), de Cristiane Sobral.

Nesse seu livro, Cristiane Sobral nos dá mostra de como esse tipo de narrativa se propõe como objeto estético e, ao mesmo tempo, como instrumento de conscientização do indivíduo negro sobre a importância de assumir a sua verdadeira identidade racial e cultural. O confronto, aí, é contra a ideologia do embranquecimento. A estratégia, nesse caso, é tomar uma situação cotidiana que exponha o problema da discriminação racial ou do conflito identitário do negro brasileiro, de modo objetivo, quase didático, de maneira que o leitor saia da leitura do texto com sua consciência mudada, ou, na linha do que alguns dos contos de O tapete voador sugerem, renasça com nova identidade cultural ou resista sem abrir mão das suas convicções raciais.

De imediato, ficamos tentados a ver nesse tipo de procedimento literário um defeito ou uma pobreza estética, ao qual faltaria sutileza na construção da narrativa e na representação psicológica das personagens. Sobre isso, nos alerta Zilá Bernd (ibid., pág. 98): “Assim, em literatura negra, a questão de avaliação do nível estético atingido não deve se pôr como elemento exclusivo de análise, ou como preocupação única da crítica. Jack Corzani, autor da importante obra La Littérature des Antilles-Guyane Françaises (1978), (…) recoloca o problema de privilegiar o estético no estudo de obras que se querem essencialmente funcionais, concluindo que esse critério corresponderia a condenar a pesquisa, a priori, à esterilidade”. Assim, devemos ver, em primeiro plano, o caráter de funcionalidade desse tipo de procedimento narrativo para explicitar, no caso, os problemas raciais e sociais que afetam o negro brasileiro.

E é de modo consciente e corajoso que Cristiane se equilibra entre estes dois polos (o estético e o ideológico) na construção dos dezoito contos que compõem esse seu livro. A sua habilidade na construção da narrativa que privilegia o elemento estético e a fabulação fica visível no conto Bife com batatas fritas. Nesse conto, a questão estética e a temática social são bem articuladas, de modo que o leitor não tem como não se comover com o quadro de miséria e orfandade de uma criança de periferia. Esse é, aliás, um dos melhores contos do volume e poderia figurar em qualquer antologia dos melhores contos brasileiros. No conto O limpador de janelas, o que chama a atenção é o modo como a narrativa se constrói a partir de frases muito curtas, fragmentadas, o que torna o ritmo acelerado e surpreendente, dando conta das várias peripécias amorosas do protagonista.  Ao final, o personagem Samuel, um quase pícaro, um “pegador” nato, verá que a sua condição de negro em terras tupiniquins vai sempre lhe reservar surpresas desagradáveis. Por falar em final, é de se observar que há, propositalmente, um elevado tom de idealização em alguns casos, beirando o inverossímil, como o que acontece no conto Metamorfose, em que tudo acaba exageradamente bem.

Ainda que predomine o realismo, algumas histórias flertam com o fantástico, como nos contos O galo preto e A samambaia.  O tom de sarcasmo, de deboche e de ironia molda algumas dessas narrativas, tornando ainda mais agudo e crítico o olhar da autora sobre os episódios de discriminação racial e de negação da própria negritude, como é o caso dos contos Lélio e Afrodisíaco (neste, ironiza-se o propalado vigor sexual dos negros). Ora narradas em terceira pessoa, ora em primeira – nesse caso, majoritariamente narradas por mulheres –, as histórias compõem um painel de situações variadas em que o indivíduo negro se vê frente a frente com a questão do preconceito racial, da miséria ou da crise de identidade. A subjetividade feminina é também ponto de destaque nessas histórias de enfrentamento e reconstrução da imagem, como nos contos Vox mulher, em que a protagonista expressa, numa linguagem marcadamente poética e intensa, seus desejos e seu orgulho de ser mulher negra, e Pixaim, no qual uma mulher rememora, de modo comovente, sua infância passada no Rio de Janeiro e marcada pelo sofrimento de se ver obrigada a mudar sua imagem, com o alisamento desastroso do cabelo, e reafirma, já residindo em Brasília, seu orgulho e sua alegria de se ver no espelho como ela realmente é: uma mulher negra e madura. “A gente só pode ser aquilo que é”, afirma ao final, num claro recado aos que procuram negar a sua origem.

Nem sempre os personagens são pessoas que negam a sua negritude. Algumas, pelo contrário, assumem a sua ancestralidade e suas características negras e as defendem com convicção. Tomemos, como exemplo, o conto O tapete voador, que abre o volume, e o conto Renascença, que o fecha. No primeiro conto, narrado em terceira pessoa, a personagem Bárbara, de origem humilde e orgulhosa da sua cor, é funcionária de uma grande empresa e tem o reconhecimento pelo seu trabalho. No momento, ela pretende se aperfeiçoar mais ainda e pede o apoio da empresa para fazer uma pós-graduação. Mas qual não será o seu espanto e a sua decepção ao ser levada à presença do presidente, que deve autorizar esse apoio, e encontrar lá, no posto mais alto, um homem negro? A decepção ficará por conta do que ele, partindo da sua estratégia de ascensão profissional e social, vai lhe aconselhar a fazer em relação à sua aparência. No segundo conto, também narrado em terceira pessoa, encontramos a personagem Teresa prestes a romper com a sua orientação religiosa. Negra, charmosa e orgulhosa da sua cor, sente-se preterida pelos homens negros da igreja evangélica que ela frequenta. “Teresa gostava muito da sua igreja, mas seu corpo negro também sentia naquele ambiente o peso do preconceito, da discriminação. Isso gerava muitos questionamentos. Por que não despertava o interesse dos rapazes da congregação? (…) O fato é que, naquela comunidade, os homens negros normalmente costumavam casar com mulheres brancas…” O fato de ser independente e ter um estilo próprio (“não alisava os cabelos”), chocava os outros fiéis, e sempre era aconselhada a mudar a sua aparência. Assim como Bárbara, só lhe resta resistir e ir em busca de um convívio em que seja valorizada sem precisar negar a sua identidade racial.

Num país em que a representatividade da população negra é baixíssima nos meios literários, nos quais circulam com maior desenvoltura as obras dos autores brancos e das autoras brancas, é de se celebrar o trabalho de escritores e escritoras como Cristiane Sobral, que dão voz e vez em suas narrativas e poemas à nossa gente tão excluída.

 

Geraldo Lima é natural de Planaltina-GO e reside em Brasília, DF. É escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, “Baque” (conto, LGE Editora), “UM” (romance, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco), “Trinta gatos e um cão envenenado” (teatro, Ponteio Edições) e “Uma mulher à beira do caminho” (Editora Patuá). Participou de algumas antologias literárias e tem textos publicados em jornais, suplementos literários, revistas impressas e revistas eletrônicas, sites e blogs. É autor do roteiro do longa de ficção “O colar de Coralina” – direção de Reginaldo Gontijo – e da peça de teatro “Trinta gatos e um cão envenenado”, encenada em 2016 em Brasília. E-mail: gera.lima@brturbo.com.br