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123ª Leva - 01/2018 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Um novo ano começa a mostrar suas investidas. E para um projeto editorial como o da Diversos Afins é sempre tempo de vislumbrar caminhos, possibilidades de outros encontros movidos por palavras e imagens. A arte tem o condão de promover arranjos diferenciados, tirar as coisas de lugar, desacostumar o tempo. Com maestria, ela evoca um olhar atento ao viés inquieto da existência, quiçá uma busca pelo sentido da nossa própria vida. Se só usamos dez por cento de nossa cabeça animal, tal como apregoava Raul Seixas, podemos imaginar o quanto ainda permanece desconhecido em nós, sobretudo nos imensos labirintos componentes da mente humana. Então, o que pode a arte diante das zonas obscuras ou inexploradas? No mínimo, alguma espécie de sondagem. Mas pode também ser uma agente movida pela provocação, aquela que nos impele a buscar uma não conformidade das coisas. Daí que, em matéria de criação, as manifestações mais peculiares possíveis podem contribuir para aproximações na diferença. Se cada autor confere à sua obra uma voz própria, emanada de seus mergulhos íntimos, talvez possamos supor que as experiências, por mais assemelhadas que sejam entre si, nunca exprimem idênticos saberes e sabores. Em suma, a cada um de nós e dado sua própria travessia com toda a sorte de ambientes explorados. Em matéria de literatura, por exemplo, podemos imaginar como cada autor reage a seu tempo, ao mundo que o cerca. E é com a bagagem de sua individualidade que os poetas Natália Agra, Fábio Pessanha, Cibely Zenari, Analice Martins e Adrian’dos Delima desfilam por nós seus pungentes versos, prenhes de imagens, prenhes de vida. Revelando-se um protagonista de seu tempo, o escritor Itamar Vieira Junior é o entrevistado da vez. Numa resenha sobre o livro de estreia de César Manzolillo, Daniel Russell Ribas destaca perspectivas para o conto. Vivian Pizzinga menciona suas sensíveis impressões sobre o espetáculo teatral “Preto”. São de Paulo Bono, Danilo Brandão e Glauber da Rocha as narrativas que evidenciam vias desnudas da vida. É Daniela Galdino quem nos apresenta o disco de estreia do cantor e compositor Rafique Nasser, jovem revelação da nossa música popular. No caderno de cinema, o filme “The Square – A Arte da Discórdia” é alvo das análises de Guilherme Preger. Entre múltiplas incursões textuais, a nova edição traz a marcante presença dos desenhos da artista plástica Raquel Piantino. Com vocês, caros leitores, a 123ª Leva!

Os Leveiros

 

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123ª Leva - 01/2018 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

The Square – A Arte da Discórdia. Suécia/Alemanha/França/Dinamarca. 2017.

 

 

O filme de Ruben Ostlund, The Square (2017), foi vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2017 e concorre ao Oscar de filme estrangeiro no Oscar 2018. Esse sucesso de premiações não levou, no entanto, o filme às principais listas dos melhores do ano passado.

A versão em português do título deste filme sueco é um tanto infeliz. Não é sobre arte nem sobre discórdia. A simplicidade do título deveria ter sido prezada na tradução.

O filme é uma sátira e, em certos momentos, uma comédia. Há momentos tensos e um conjunto de peripécias que prendem a atenção num filme talvez excessivamente longo (144 minutos).

Christian (Claes Bang) é o curador-chefe de um museu de vanguarda em Estocolmo, Suécia. O museu está às vésperas de uma exposição de uma obra intitulada “O Quadrado” e que tem o seguinte conceito: “O Quadrado é um santuário de confiança e cuidado. Dentro dele todos têm direitos e obrigações iguais”. Para o lançamento da nova exposição, o museu deseja fazer uma campanha publicitária e contrata uma agência para tal.

A cena inicial é uma entrevista na qual a personagem Anne (Elizabeth Moss) pergunta a Christian sobre uma postagem em seu blog pessoal, onde ele divaga sobre reflexões estéticas um tanto confusas sobre a distinção de conceito entre exposição/não exposição. O próprio Christian não entende o que ele quis dizer e responde com uma comparação banal: se a bolsa de Anne fosse esquecida numa sala do museu, seria considerada uma obra de arte ou não?

O filme foi aclamado como uma discussão sobre a validade e os limites da arte contemporânea. Na mesma entrevista, em tom de blague, Christian afirma que um dos propósitos do museu que dirige é atrair investidores no acirrado mercado da arte e ao mesmo tempo testar os limites desse mercado. O tom satírico do filme parece ser uma ironia a este paradoxo.

Mas o desenrolar do filme parece se distanciar das discussões estéticas propriamente ditas. Acompanhamos de perto os percalços da vida privada de Christian. Logo no início, após a entrevista, ele é vítima de um logro e tem sua carteira e celular roubados. Desenvolve um estratagema para recuperá-los e tem sucesso em reaver seus pertences, mas a custo de provocar danos colaterais e questões éticas. Envolve-se sexualmente com Anne, a entrevistadora americana. Leva sua filhas para fazer compras no shopping, etc. O filme enfoca sua desastrada, porém banal, vida pessoal e deixa de lado o universo de debates sobre arte.   A tumultuada vida de Christian realmente atrai o foco narrativo do filme e a discussão sobre arte contemporânea parece um mcguffin, um pretexto.

Porém, em outras cenas isoladas temos o retorno do tema da arte. Numa delas, um dos artistas expositores é apresentado no museu através de uma conversa, mas a entrevista é interrompida diversas vezes pelas reações infames e constrangedoras de um paciente da síndrome de Tourette. Em outra longa cena, das mais tensas e interessantes, uma performance com o “homem-macaco” é realizada durante um jantar de gala com patrocinadores e extrapola as fronteiras entre o real e a ficção, arte e convenção e entre o aceitável e o inaceitável.

 

Foto: divulgação

 

Essa extrapolação de fronteiras talvez seja uma das chaves de entendimento do filme. The Square não aborda a arte propriamente, mas a “forma” em si. Afinal, o “quadrado” é uma forma fechada em sua simplicidade. Supostamente, devemos nos focar em seu interior, onde haveria “cuidado e confiança”. O santuário quadrático é um espaço de proteção. No entanto, a campanha publicitária contratada para dar visibilidade à exposição nas redes sociais tem um efeito desastroso e explosivo. A campanha se dá fora do quadrado. O filme de Ostlund tem esse desenvolvimento astucioso: se queremos entender o filme devemos olhar para fora da forma.

Toda forma é uma unidade complexa: inclui algo em si ao mesmo tempo que exclui todo um universo. O lado de dentro é simples e harmônico, o lado de fora é múltiplo e caótico. E apesar de ser um “santuário” aurático, nenhuma forma é capaz de isolar o lado de dentro do lado de fora. Se o lado de dentro tem algo de resguardo harmonioso, o lado de fora é banal e ruidoso. Mas é impossível blindar o lado de dentro de uma obra de seu lado exterior, pois o ruído ultrapassa os limites e penetra no interior.

A vida ordinária de Christian é esse banal que é o fora da arte, cheio de ruído e confusão. Não é tanto a arte que se revela blindada, mas a própria trivialidade da vida e da mentalidade de Christian parecem infensas à sublimidade estética que lhe é tão próxima.  Mas mesmo essa afirmação se revela frágil: o filme é um jogo de ultrapassagens, de transposições de fronteiras.

Numa cena exemplar, a tensa conversa numa sala de exposição entre Anne e Christian sobre a noite de sexo de ambos é interrompida diversas vezes pela sonorização de uma das instalações em exposição. Nesse caso, é a obra de arte que é o “fora” ruidoso da cena da conversa. Já os impropérios do paciente acometido de Tourette são emissões ruidosas do lado de fora para o lado de dentro do universo da vaidade artística.

 

Foto: divulgação

 

É possível circunscrever uma divisória entre arte e vida? E o traçado da forma, o que ele divide? Se a forma circunscreve certo domínio separado e ficcional, essa separação é relevante?  A cena de sexo do casal é testemunhada pelo insólito chipanzé de estimação de Anne que, no entanto, não é capaz de perceber nada de inusitado. Mesmo assim, Anne fecha a porta do quarto. E há também o homem-macaco que agressivamente ultrapassa todas as fronteiras entre representação e convivência ou rompe as fronteiras entre espetáculo e cerimônia.

Também o universo hype da vanguarda estética da Suécia é invadido pelos mendigos e pedintes que se multiplicam nas ruas da social-democracia escandinava. Christian, nesse aspecto, como curador, é um mediador entre fronteiras de mundos. Não é arte ou banalidade, sucesso ou fracasso, a transgressão ou o politicamente correto. São, na verdade, composições entre esses extremos. Mas também não é uma questão de que não há forma, ou que a forma, como uma ficção, é uma distinção irrelevante. Pois se não há limites, também não há passagens de um lado ao outro, como se demonstra amargamente pela performance violenta do homem-macaco.

Não é tanto uma discussão sobre questões avançadas da arte contemporânea que torna The Square um filme interessante, mas uma discussão sobre formas, limites e traçados. E que há tanto o dentro como o fora do quadrado. E que não podemos circunscrever nossas ações, pois elas sempre extrapolam. Curiosamente, no entanto, embora seja um filme que aborde várias questões, o roteiro de Ostlund é um tanto tradicional. Na forma de uma narrativa que se desenvolve em peripécias e cujo foco se concentra em sua própria trama, é justamente a forma cinematográfica que não é abordada. Pode se dizer que talvez sejam essas questões contextuais sobre o mercado da arte, sobre o aumento da pobreza e da criminalidade na Escandinávia, sobre as redes sociais e sobre o politicamente correto que são o lado de lá da objetiva da câmera. Mas, na verdade, essas questões todas contextuais estão inseridas no enquadramento fílmico, em sua diegese. É o próprio frame cinematográfico que se obscurece no fluxo narrativo. Toda arte distingue não apenas aquilo que a forma encerra e desencerra, mas a própria forma em si.

 

 

Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.

 

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123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Cibely Zenari

 

Foto: Kelly Cristina dos Santos

 

frútero

 

12 contrações
compassadas
despressurização
caem as máscaras
primeiro as mulheres
depois as orgias
celestes

 

 

 

***

 

 

 

astro

 

navego na tez dessa pele
astrolábio
avesso à razão da direção

fundo com o oceano
mares profundos

sem fronteiras entre
donos
terreiros
terras
tornozelos
e saveiros

perdidas docas
lábios e bocas

remam incansáveis
ilhas inalcançáveis
flutuam
latitude zero

trapiches largados
birutas
balangamos ao vento

ao fundo escafandro
Ó2 acabando

jamais achados
escombros náufragos
pegadas na água
em únicos rastros
úmidos
de lábios cúmplices

trovões silenciam
há salvos?

 

 

 

***

 

 

 

botânica

 

o rizoma de nossas raízes
gira rodas cinéticas
em forças centrípetas
e ao centro estripulias
de dois quadrúpedes
de sensibilidades termostáticas
incendeiam variáveis distônicas.

o resultado atômico
pulsa sangue aos ventrículos
banhando estruturas
músculo-esqueléticas
em névoas harmônicas
onde vejo nebulosas
emanarem formatos
amorosos-biônicos
geneticamente interessados.

 

 

 

***

 

 

 

woman

 

minhas sardas e rugas
minhas saias sem nesga
minha brancura com olheiras
você vem e me toma pelo que pareço

meus tons vivos
meus sons graves
meus dons inexplicáveis
você me retoma quando anoiteço

meu doce café
meu bom tempero
meu extraordinário pé
você me adora quando te teço

estou tua,
sempre que pela manhã caminho nua
na nossa imaginada e exclusiva rua.

 

 

 

***

 

 

 

corra lola

 

ela vestida
em vestido ela era
em corrida ela vestia
esvoava e ela corria de vestido e voava
voada de chão
cabelo, cabelo santo, era cabelo
era vestido vestida e cabelo pendia
um desespero lhe corria
nas veias gotas vazias corriam
suor e lágrimas, rápidas
corria de si, de se machucar
corria e perdia
lhe saiam cabelos
lhe ficavam nuas
saias saiam, pelos corriam
despencavam pernas e braços
peitos des-pe-da-ça-vam
flutuava aos pedaços
torpes pegadas lhe seguiam
o que sobrava dela
era ela, fumaça chamuscada
em reflexo na fachada
e ainda ela
ela no dia do hoje
ainda pingava
talvez veneno doce
talvez carne passada
era um vestido rendado
esburacado de frio
no meio fio corria, desequilibrava
ela morrida de corrida cansada

 

 

 

***

 

 

 

cozinha*

 

uma certa mania de fazerem das cozinhas, brancas
é preciso colocar cor, os cheiros têm cor
as casas de aluguel azulejam branco até o teto
dá uma mania de escrever e pendurar coisas
na casa antiga a torneira é uma avó que se lembra em alguém
as cozinhas são os quartos adolescentes dos adultos
algumas panelas dependuradas para exibir
aqui é uma cozinha
um pano cai aleatoriamente sobre o botijão para dizer
aqui é quente, sai fogo
as formigas em seus caminhos naturais
nunca os interrompo
aqui a natureza se desenha em fome
quando transamos na pia
fiquei com vontade de dizer que te amava
mas não sabia se era a mesma coisa que amar
o desejo de falar que ama
e depois veio
o amor
veio o desfile de moda íntima pela cozinha
e copo d’água pelado da madrugada
depois veio o desamor
ele não comia mais na cozinha
mas me comia
ainda há fome no desamor
a cadeira amarela agora um trono vazio
apressa-se um bolo no forno
enche a casa de chocolate
aquece por um curto tempo o oco branco e quadrado
dessa mania de azulejo frio
sentar à mesa
afundar estofado de cadeira
tantas e tantas vezes na rotina
até que o rejunte encarda mas continue re-juntando
o que nasce separado
vira carne de pele quente
cozinha é uma fábrica
depois se repousa na cama
e depois some com a fome
a cozinha é tão enorme
hoje trago a cama e moro nela
deito com as panela

 

*poema parafraseado de algum da poeta Carla Diacov sobre banheiro

 

Cibely Zenari é poeta, psicóloga e psicodramatista. Sua produção poética já transbordou os formatos tradicionais, como objeto poético e produção de cartazes escritos com sangue menstrual. O universo feminino é produto e produtor de sua pesquisa na escrita em seu universo anatômico e simbólico. Auto-publica zines de poesia chamados Tril’orgia – escreve, diagrama, costura e vende.

 

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123ª Leva - 01/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Danilo Brandão

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Vera

 

Desliza.

Desliza.

Ela gritava.

Bem no meu tímpano. Ia longe. Todo o suor do mundo. O seu cuspe que se espalhava.

E então eu deslizava. Dan Brown. Paulo Coelho e algumas americanas de meia idade. Da esquerda pra direita. E meus olhos se esforçaram. R$ 39,90. Não parava e eu não conseguia me concentrar. Calor do caralho. Como fedia.

Seus peitos eram enormes. Pálidos. Flores eram regadas em sua camisola cor de mel. Tetas enormes e molhadas. Pequeno. O quarto era o contrário de suas tetas.

Tinha esse hábito. Meio-dia. Chegava com o pote. Arroz, feijão, bife. O pote azul. Suava. Invariavelmente, suava.

Calor do caralho.

Vera. Vera me encontrou num fim de tarde. Ela me viu primeiro e sempre dizia isso. Estava no banco. Pisava na minhoca. Ela já estava morta. Vera carregou seus peitos até nós. Eu e a minhoca. Desequilibrou-se. Firmou. Pescou meus olhos.

Minhocas não têm olho. Disse-me. Não têm mesmo. Ela jamais saberia.

Eu só usava verbos. Chamou-me pro quarto. O quarto de Vera. Sabia que eu era escritor. Jurou-me que eu era. Então, abriu a Amazon. Mais vendidos.

Desliza.

Desliza.

Calor do caralho. Vera estava sempre ligada nos mais vendidos. Todo dia. Ela abria e anotava o nome de alguma novidade. Comprava todos.

Disse-me que amava literatura. Estava na faculdade e tomava sol. Num fim de tarde. Adorava tomar sol. Os raios nos meus poros. Ela me disse que fazia mal. Fazia. Gostava.

Gostava de literatura também. Bandini, Arturo Bandini. Ri. Ela: não.

Seus peitos eram enormes, de fato. Como o vestido pretendia. Dois olhos enormes a me olhar. Achei que a escreveria em algum dos contos. Era uma boa personagem.  Ela gostava.

Nua. De óculos. Abriu meu caderno. Sem janela. Seu quarto. De novo. Não entendeu a letra, me perguntou o tempo todo. Aquilo me irritou. Fechei os olhos. E por que não usa um notebook?

Mutarelli.

Não entendeu. Nunca tinha ouvido falar. Calor do caralho.

Lourenço é calvo e explicava pra plateia, com os dedos, amarelos do tabaco, em riste, que tinha um caderno. Preenchia-o com qualquer merda, o fedor de uísque no ar. Não se interessou no papo. Mas continuei mesmo assim: quando pintava algum trampo, ele voltava lá, desbravava a merda, alguma coisa sempre se aproveita de lá. Não curtiu.

Stephen King. Estava no topo. Mostrou-me o ranking dos que mais faturaram no ano. Tá certo. R$ 15 milhões não é nada mal. Compraria o Mutarelli e uma camisola nova pra Vera. Riu.

Nua.

Fechou o caderno. Devolveu-me. Eram verbos. Demais. Ação e corte. Corte.

Ia me fazer um escritor. Mestre em fazer adolescentes gritarem no cinema de shopping center. Estava terminando a faculdade. Queria ser escritor, de fato. Vera ia fazer isso pra mim.

Passei as tardes com Vera. Ela já era formada e sabia das coisas. Vera me trancava no quarto. Trazia o pote. Azul. Calor. Às vezes vinha com o que chamava de inspiração. As tetas despencavam. Como pêndulos, balançavam. E os mais vendidos nos encaravam. Eu, pras tetas. Ela, pra eles. Gozava. Depois, voltava a me trancar. Era preciso. Fechava as janelas e o sol sumia. Escritor precisa ficar sozinho.

Tá ruim. Vai, vai, desliza.

Vera caiu numa terça. Uma faca atravessou-lhe as tetas. Era terça e desliza agora vai. Morreu de desgosto. Culpa minha. Ação e corte. Saudades da Vera. Quando morreu, suas tetas estavam no ar.

 

 

 

***

 

 

 

Ciclo

 

Lembra quando sua mãe te lembrou que eu era preto? E quando ela te perguntou se você não percebia isso. E quando ela falou que a casa agora fedia. E que isso era normal porque preto tem um cheiro diferente mesmo. Um cheiro que impregna no estofado da linha alta. E você trazia um preto pra jantar todas as noites na casa dela então isso iria acontecer mesmo.

Lembra daquela vez que eu menti pra você e você chorou por um mês? E ela te lembrou que  namorar preto era assim mesmo. E que em preto não dava pra confiar mesmo. Era normal. Isso ia acontecer mesmo. Tudo isso era pra você aprender. Depois desse dia ela nunca mais conseguiu respirar o mesmo ar que eu. Eu chegava e ela saía. Mesmo assim, eu curtia sacar o olhar dela pra mim. O olhar em direção ao preto que jantava com a sua filha. Eu curtia. Aquela porra era puro ódio e a gente ficava nesse jogo de se olhar e se odiar mutuamente. A atmosfera da casa pesava quando o preto chegava. E isso eu também curtia.

Você sempre me disse que ela era uma boa pessoa mesmo assim. Que aquela parada era cultural e pronto. Não era nada pessoal. Não era um racismo fodido desses que eu tropeçava na rua todos os dias. Desses que me fazia ser acusado de entrar em um lugar. Era uma mais leve. Quase calmo. E eu quase me convencia disso. Até eu olhar o olhar dela e a gente recomeçar nosso jogo.

Acho que foi sua mãe que terminou com a gente. Você disse pra ela que me amava, apesar disso. E ela não entendia nada. Tinha te educado e te pagou escola particular até o final do ensino médio. Tinha tanto menino bonitinho na sua sala, ela te dizia. Um dia peguei ela dando socos no ar. Ela chorava igual criança quando se perde dos pais. Ela murmurava com a boca torcida para os próprios ouvidos. Ela se perguntava aonde tinha errado pra filha gostar de preto.

E o seu pai tentou acalmá-la. Levantou-a. Deu três tapas de leve em sua cabeça e beijou sua testa. Ele olhou pra porta e me viu lá. Ele procurou minha essência. Olhava o mais profundo que seus olhos rasgados podiam chegar. Cavava-me. Entendi que aquilo era um pedido de desculpas. Acenei e fui embora.

Quando descobriram que o primeiro namorado dela era preto e que sua avó a trancou em casa por semanas até o seu avô dar um jeito no preto, eu senti pena. Mas curti. Eles disseram pra ela que o preto havia se casado com outra e que era assim que deveria ser e que preto era assim mesmo. E ela engoliu a lorota e ficou por isso mesmo.

E eu te disse que colocaria sua mãe nas minhas histórias. E que ela havia mudado minha vida e você só dava risada. Mas eu te disse. E eu coloquei. E você me disse pra esquecer. E disse que amava. E eu disse que eu também. Mas eu menti. E quando a gente finalmente terminou, eu curti. Era o ciclo. Mas sinto falta do olhar de sua mãe.

 

 

 

***

 

 

 

Cisto

 

Brotou um cisto na minha orelha e ela está de papo com o cabeludo de novo. Descobri que não sei escrever histórias longas. Não tenho imaginação. O resultado do concurso saiu. Na Paraíba minha prosa não é muito popular.

As primeiras palavras brotaram de novo. Uma a cada minuto. Deve ser o cabeludo e eu preciso deixar meu cabelo crescer. Ficar com cara de autor. Entrar pro meio e chamar o editor no inbox. Elogiar sua revista. Sua curadoria refinada e, aí sim, seria popular na Paraíba.

É preciso ser popular na Paraíba. Cada um ganhou uma menção honrosa na câmara municipal. Dez exemplares, um pra cada. Só.

Muito bem, editor. Bela revista. Tem um cantinho de página pra mim? Eu deveria me preocupar com o cabeludo. Não posso deixar meu cabelo crescer, brotou um cisto na minha orelha.

Descobri que só sei falar de mim. Autoficção está na moda e os premiados já a desprezam. Jogam tudo no mesmo bolo. Chamam de merda narcisista. Ok. Eles são populares na Paraíba. Estão certos. É preciso ter imaginação.

Vi uma foto de Guimarães com os jagunços. Vi um filme de Hemingway no bar, no meio de Cuba, tomando cachaça com os pobres. É preciso ter imaginação. Mas brotou um cisto na minha orelha e não posso deixar o cabelo crescer.

O cabeludo toca violão. Deveria aprender a tocar violão, ficar com cara de autor que toca violão. É uma boa ideia escrever e tocar. Um homem com imaginação. Vi no jornal que o premiado leciona música na universidade. Toca violão e ganha prêmios. Deve falar francês. E essa é outra boa ideia.

É preciso ser popular na Paraíba. Não sou do meio e aí fica bem difícil mesmo. Falta o enredo. Mete lirismo nessa prosa, rapaz. Sobra lirismo na Paraíba. Ele é premiado, o cabelo é grande, escorrido, cabeludo, toca violão e deve falar francês. Pronto. Lirismo.

Poesia. É sempre bom ser poeta nas salas do departamento de música. Músico com cara de autor, premiado, cabeludo, arrastando seu violão.  Fala francês e conjuga verbos corretamente.

Parece uma boa ideia. É legal ser autor com cara de autor. Os editores colocam a foto embaixo do conto.

Chegou um e-mail. Um convite. É um curso. Escrita criativa. O professor-autor desta vez não tem cara de autor, nem de professor. Não é cabeludo e como eles podem vender uma coisa dessas? Se vou pagar por um curso de escrita quero um autor com cara de autor. Cabeludo. Mínimo. Serragem no rosto. O professor-autor que ensina que editoras estão fora de moda e que o negócio é fazer os cursos que, aliás, ele mesmo dá. Auto-publicar-se-ei. Fazer um evento. Chamar seus amigos – não esqueça de seu professor. Ganhar vários tapinhas nas costas. Não vendeu. Resistiu.

Brota mais três mensagens do cabeludo no celular dela.

Vou operar do cisto e deixar meu cabelo crescer.

Ele dói.

 

Danilo Brandão nasceu em São Paulo e mora em Londrina, interior do Paraná. É estudante de Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. Tem textos publicados em sites, revistas e jornais literários.

 

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123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Analice Martins

 

Desenho: Raquel Piantino

 

RUÍNAS

 

O que se decompõe
também conta uma história.
Outra:
pelo avesso.

As cores que esmaecem
têm brilho próprio.
Outro:
lusco-fusco.

As paredes trincadas
reverberam suas nervuras.
Outras:
cicatrizes.

O tempo que se contorce
se ergue em ruínas.
Outro:
natimorto.

 

 

 

***

 

 

 

LA CITTÀ

 

Percorrer uma cidade,
derrubar seus muros,
furar suas paredes,
arrancar sua pele,
até que,
núbil,
ela se curve
como o mapa
roto
que se dobra
e se guarda.

 

 

 

***

 

 

 

CROMOTERAPIA

 

Por todos os lados,
um verde incrédulo
atravessa janelas e paredes.

Come traças e ruínas,
deita luz
em corações silentes.

E grita uma alegria
espantalha.

 

 

 

***

 

 

 

AMPULHETA

 

Para o que tarda,
não há mais tempo
no célere deslizar dos dias.

Tempo não há para esperas.
O amanhã sempre chega
antes.

Parem os ponteiros.
Quebrem os relógios.
Clamem o tempo da gestação.

Não roubem da fruta
nem da flor
sua delonga.

Deixem que o remoto e o ermo
comam da estrada
a poeira.

 

 

 

***

 

 

 

ABRACADABRA

 

Na parede branca e lisa,
a realidade
escorrega
sem contornos,
inexistente.

Dentro da moldura,

na parede branca,
a realidade
se ergue
outra.

A que é entrevista

pela janela,
essa,
não a inventamos.

Mas a que aprisionamos,

em cores e linhas,
é a que nos inaugura
a vida e os desejos.

 

 

 

***

 

 

MAGIA

 

O traço na página em branco
cava a palavra,
que tomba em gruta
profunda.

O eco da palavra escavada
distorce o sentido.
Inventa uma outra
vertigem.

A página em branco é caverna
de paredes e ásperas entranhas.
Precisa da teima e da urgência
de quem a percorre.

A sombra do traço entrevisto
ganha a cor do desejo imaginado.
Eis a magia que propicia
a coisa.

A coisa que – sólida –
o desejo inventou,
e o traço riscou
na parede branca e muda.

 

Analice de Oliveira Martins nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ), é Doutora em Estudos de Literatura pela PUC-RIO. Leciona Literatura Brasileira e Literatura Comparada no IFF campus Campos Centro e atua também, como professora e orientadora, nos Programas de Mestrado e Doutorado em Cognição e Linguagem da UENF. Pesquisadora e ensaísta, é autora do blog Rumores e Ruídos, no qual publica crônicas e poemas.

 

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123ª Leva - 01/2018 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Nuances da diferença

Por Vivian Pizzinga

 

Cássia Damasceno / Foto: Nana Moraes

 

Preto, novo projeto da companhia brasileira de teatro, com direção de Marcio Abreu e dramaturgia dele, Grace Passô e Nadja Naira, se inicia a partir da fala pública de uma mulher negra e é fruto de uma investigação sobre as formas de lidar com a diferença e, mais do que isso, sobre as formas de recusá-la em nossas sociedades. E o fruto dessa investigação está bem longe de ser um espetáculo qualquer, no que traz de riqueza de linguagens, arrojo na montagem e, sobretudo, importância do assunto tratado. Os desdobramentos do trabalho do grupo no espectador são impacto e reflexão, para dizer o mínimo.

Há uma fala de Angela Davis, em uma conferência realizada em Salvador, Bahia, em 2017, reproduzida no texto de Marcio Abreu no programa da peça, que vale a pena repetir aqui, pois ela é a síntese do que Preto consegue promover: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo”.

A observação de Angela Davis é certeira, e talvez sirva para todas as outras bases de pirâmides sociais mundo afora, e para todos os demais pensamentos que enxergam na luta no coletivo – e somente no coletivo – a maneira de mudar radicalmente os alicerces de sistemas habituados ao cacoete da injustiça e da desigualdade social, em todos os seus aspectos. E é interessante como se pode fazer uma transposição dessa fala ao espetáculo, como se este último conseguisse, em sua dramaturgia, expressar exatamente o que ela aponta, traduzindo a ideia para a linguagem teatral: no início, uma mulher negra se movimenta, é a fala de uma mulher negra, como a introdução de uma conferência ou um seminário, que começa questionando a posição da mesa e do microfone. Os espaços que as coisas ocupam direcionam também os espaços que as pessoas ocupam, a arquitetura dos lugares tem influência sobre comportamentos (Foucault já observava isso ao estudar o hospital, os manicômios e os presídios). Mudar os móveis, as posições, os lugares, as funções, os papeis provoca, necessariamente, outras mudanças menos concretas e que têm grande chance de atingir as atitudes e a cultura. Da mesma maneira, nesse início de espetáculo, tudo começa aparentemente de modo obediente, cada coisa no lugar onde se espera que esteja, e a fala da mulher aponta a problemática desses lugares. A partir daí, o desenrolar do espetáculo é então uma espécie de furacão crescente, de ampliação das ideias em forma de fala, dança, música, tal como as mulheres negras que, ao se movimentarem na base da pirâmide, movimentam a pirâmide inteira. E tudo isso é acompanhado pela trilha sonora que Felipe Storino executa ao vivo.

A força e o arrojo perpassam a peça integralmente, desde a delicada e envolvente cena protagonizada por Grace Passô e Renata Sorrah, em que, muito próximas fisicamente, dividem um mesmo microfone para ir descrevendo uma aproximação afetiva e corporal entre mulheres, cujo desfecho brilhante da cena não comentarei para não estragar, até a fantástica dança com Felipe Soares e Rodrigo Bolzan, numa espécie de duelo corporal e coreográfico – o homem branco e o homem negro dançarinos – com enormes cabeças que são suas caricaturas, promovendo o contraste entre a expressão da dança e a inexpressividade da máscara.

 

Renata Sorrah e Grace Passô / Foto: Nana Moraes

 

A cena em que Cássia Damasceno se apresenta prometendo sambar, para depois prometer cantar, e depois prometer ficar sozinha para o público, traz também uma palpitação qualquer difícil de explicar, talvez por gerar a expectativa de que algo supostamente óbvio vai acontecer, a mulher negra com voz potente e gingado prestes a entreter uma plateia: ela vai, volta, abre a boca como quem está na iminência de um grito ou uma nota ou um protesto, sai e retorna, e nada acontece do que se espera acontecer, embora tudo aconteça do que não se espera acontecer. Essa cena, como a peça inteira, promove um desarranjo nas expectativas tradicionais, nas ideias prontas, porque cutuca uma questão primordial: como lidar com a imagem e o que esperar da imagem? A imagem do branco, a imagem do negro, a imagem do artista, a imagem da mulher brasileira que samba e rebola, a imagem do prazer, a imagem que o outro faz de nós e sobre a qual não temos a menor possibilidade de ajuste, retificação ou controle, como lidar com isso?

Perguntas sobre “como você se vê” ou “como é carregar a sua imagem por aí” ou “você tem problema com a imagem” ou “posso então tirar uma foto” geram desconforto e reflexão por parte dos atores-protagonistas, cujas contradições ficam explícitas na discrepância entre respostas dadas e comportamentos.

Ao final da apresentação a que tive oportunidade de assistir fascinada e capturada, observei que, após os aplausos, a plateia foi se retirando do Teatro III do CCBB de modo silencioso. As pessoas pareciam impactadas, e em vez de interagirem entre si comentando sobre a peça ou o que quer que fosse, saíam um pouco mudas, talvez porque a montagem seja mesmo de tirar o fôlego e o chão, gerando certa dose de fascinação que é preciso mais sentir do que falar.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Adrian’dos Delima

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A DANÇA

 

Há uma poesia
de tal tamanho
querendo pôr
meu corpo em movimento
Que saio
sem rumo certo
para a rua
por esta tarde
agradável de inverno
onde algumas folhas
balançam
orelhas ao vento

 

 

 

***

 

 

 

SUBURBE

 

A tarde tinha um ar grisalho ao terminar
Onde as lâmpadas mais altas
Acendiam cabeças
De vaga-lumes pálidos

Eram os pescoços desta cidade baixa
Que se esticavam nos postes
Talvez para ver além dos telhados
Presos que estavam na borda da calçada

Se pudessem se lançavam
Por cima do chapéu do morro
Para o céu estrelado que à noite
O teto das metrópoles usa

Para iluminar com os poetas
Os vultos que a lua projeta
Os vãos escuros entre os edifícios
E a sombra da miséria sob os viadutos

 

 

 

***

 

 

 

PHATO

 

Fato exposto (FRATura)
TRACtor feito feito TRACto
faTOR-faTURA

PRAto posto

R
uralmente
rURp

 

 

 

***

 

 

 

O VOTO DO SILÊNCIO

 

Escute um discurso contemporâneo

O verdadeiro nadador
é aquele que cruza os braços
diante da água.
A estrela mais bela
ainda está por ser descoberta.
O grito
que vale a pena ser ouvido é o do mudo.

Incorre em erro
aquele que diz o que acha que sabe
porque a verdade está escondida
e em constante movimento.

Se você repete estas frases, você tem alguma chance

 

 

 

***

 

 

 

OS PEIXES

 

Tocando com os dedos no vidro,
Os peixes dentro do aquário
Se movimentam, seguindo-os.

Ao contrário, com peixes dentro,
A um toque invisível no monitor
Se movem os peixes do lado de fora.

 

 

 

***

 

 

 

TURVBILHÃO

 

O ventilador olhou dois lados
Eu dormi
Ele virou pro outro
E enterrou fundo
As hélices pela janela
Numa nuvem de chuva

 

Adrian’dos Delima (Canoas, RS), pseudônimo para Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS, onde não se graduou em função de dificuldades econômicas. Publicou em revistas impressas e online, como a Germina, a Babel Poética e a Sibila. É autor dos livros “Consubstantdjetivos ComUns (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015)” , “Flâmula e outros poemas (Gente de Palavra, 2015)” e “Aqui fora o olholhante (Vidráguas, 2017).

 

 

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123ª Leva - 01/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Glauber da Rocha

 

Desenho: Raquel Piantino

 

EXU PAGÃO

 

Prometi que nunca mais iria ficar preso por causa de uma mulher: podia ser a Vivi Fernandez, a Mônica Mattos, a Morgana Dark ou a Fernanda Corrêa que ia cagar para ela. Foi o que decidi na prisão. E não só isto: quando saísse, iria viver uma vida honesta, sem feitiçarias, assassinatos. Mas, ao ver a boazuda da Ana Rita saindo da casa de minha mãe, não pensei duas vezes para correr atrás dela, para me enfiar em mais uma roubada em troca do amor de uma mulher.

Ela entrou em seu carrão, bati na janela, Ana Rita abriu. Olhei para seus olhos e por um instante pensei estar olhando o céu. Nunca havia visto olhos azuis tão claros como os dela, era linda mesmo, Ana Rita dava de dez a zero nas mulheres das revistas que eu vivia folheando quando estava na prisão.

– Eu faço o que você quer, é só me pagar – eu fui logo dizendo.

Ela abriu a porta e eu entrei, sentando-me no banco do passageiro.

– A sua mãe não quis fazer o trabalho para mim…

– Que trabalho?

– Matar meu esposo…

– Olha, dona, faz mais de um ano que minha mãe não faz mais este tipo de trabalho, ela fez o santo… E quem é do santo não pode fazer o mal, só o bem… Ainda mais quem é de Omolu, santo que abomina a maldade… Mas eu faço… É só pagar bem que faço! – falei olhando para as suas pernas e depois para os seus olhos.

– Interessante.  Como é seu nome mesmo?

– Zeca.

– Zeca, você falou que mata meu esposo. Do que você precisa? – disse ela, arrancando com o carro.

Falei para Ana Rita tudo o que precisava.

– Quanto vai dar tudo isto?

Disse o valor e ela parou o carro perto da ponte, para preencher o cheque.

– Quantos dias, Zeca? – ela quis saber.

– Dentro de um mês no máximo ele estará morando com o diabo.

– Precisa de mais alguma coisa?

– Só o nome do infeliz e uma foto 3×4, se tiver.

Chamava-se Ramão.

Ana Rita tinha uma foto 3×4 do marido na carteira, puxou-a e me deu. Olhei para o indivíduo: era um homem branco de bigode e sobrancelhas bem pretas, olhar sério, estava de terno e gravata.

– E se ele não morrer? – Ana Rita perguntou.

– Se ele não morrer na macumba, eu mesmo o mato na paulada. Não será o primeiro…

 

 

***

 

 

Tal como minha mãe antes de fazer o santo, na segunda-feira não tinha nem para o cigarro. É o que diz a Bíblia – se tinha algo que me fazia passar o tempo na prisão era a Bíblia, a Bíblia e as revistas de mulheres peladas –: “todo presente e todo bem mal adquirido perecerão.” Isto está no livro do Eclesiástico. No livro do Eclesiástico a gente encontra todas as respostas da vida. Nele diz também: “o trabalhador dado ao vinho não se enriquecerá, e aquele que se une às prostitutas é um homem sem valor algum”. Eu era assim. Um homem sem valor algum, sempre entregue à cachaça e às prostitutas de toda estirpe.

No mês seguinte, Ana Rita apareceu. O carro dela estava todo sujo, com a lama da favela.

– Sujei todo meu carro…

– Mas não é só o carro que está sujo não, dona. Você também está…

– Onde? – disse ela, olhando para a sua roupa.

– Esqueça. Diga…

Ela me olhou nos olhos:

– O homem está mais vivo do que antes…

– Droga!

– E agora?

– Agora vou ter que fazer outro trabalho no cemitério, para um exu pagão. O problema é que acabou o dinheiro, preciso de mais algum.

Mesmo contrariada, Ana Rita me deu mais dinheiro. Fui num cemitério bem assombrado, à meia-noite. A lua estava minguante. Se você deseja acabar com a vida de uma pessoa, tem que ser nessa lua. Porque a lua estava minguante não dava para ver quase nada na minha frente. Me cuidava para não acabar tropeçando numa tumba.

Desta vez não levei um bode, só um galo preto, uísque e charutos. Fui indo. Eu precisava chegar lá no fim, onde os trabalhos são feitos. De vez em quando encontramos alguém no caminho, mas desta vez não tinha ninguém, nem o coveiro cuidando das covas. Olhei para os lados, acendi as velas e fiz o trabalho. Terminei tudo rápido e saí daquele cemitério assombrado. Depois fiquei em casa, esperando notícias de Ana Rita. Passou uma semana e ela apareceu novamente, mas desta vez irritada porque o feitiço não tinha vingado:

– O santo de seu esposo é muito forte, ele deve ser de Ogum ou de Xangô. Na macumba não vai ter jeito. Vai ter que morrer na paulada mesmo. Mas vou ter que cobrar por esse serviço…

– Vou ter que gastar mais dinheiro, Zeca?

– Sim.

– Quantos desta vez?

Falei o valor e Ana Rita concordou.

– Mas é o seguinte. Eu tenho que prestar algum serviço na casa, para bolar o melhor plano.

– Vou dispensar o jardineiro. Você entra no lugar dele, na segunda-feira.

– Ok.

Ana Rita estava indo embora quando lhe pedi um dinheiro adiantado. Ela reclamou, mas acabou me concedendo. Passei o sábado e domingo bebendo, fumando e me deitando com as prostitutas de um bordel bem fuleiro perto de casa. Na segunda-feira pedi dinheiro emprestado para minha mãe, para comprar um passe de ônibus e uma carteira de cigarros. Ela me olhou com o olhar atravessado, sabia que eu estava tramando o mal.

– Pode ficar tranquila, minha mãe, arrumei um trabalho, de jardineiro.

– Você não me engana, filho. É na cadeia que você quer passar a maior parte de sua vida?

Minha mãe tinha uma intuição extraordinária, como a maioria dos filhos e filhas de Omolu. Muitas vezes ela nem precisava abrir as cartas ou jogar os búzios para saber o que seu cliente precisava. Eu sabia se era coisa boa ou não conforme o tempo da consulta: quando o cliente queria algo mal, ela já o dispensava, quando o cliente queria algo bom, a consulta demorava. Eu sabia que Ana Rita não queria algo bom porque do mesmo jeito que entrou, saiu. É impressionante ver o quanto que a beleza não define o caráter de uma pessoa: quem iria dizer que uma mulher angelical como Ana Rita não passava de uma bandida? A beleza física é a maior das ilusões, toda ilusão é uma prisão, como eu era um sujeito que vivia iludido, vivia preso.

Cheguei sete horas da manhã na casa da Ana Rita. Casa não, uma mansão! Ela me deu o macacão de jardineiro e me mostrou a dispensa com as ferramentas de trabalho: tinha enxada, pás pequenas e pás grandes, picaretas, serrotes. Era ali também o meu canto, onde eu devia almoçar e descansar. Queria me ver trabalhando, para não levantar suspeitas. Eu odeio trabalhar, ainda mais debaixo do sol. Na cadeia recusei todos os trabalhos que diminuíssem a minha pena. Mas fazer o quê? Trato é trato e eu iria ter que trabalhar debaixo daquele sol que às sete da manhã já estava forte pra cacete.

Foi o que fiz até o meio-dia, quando Ramão chegou, em sua BMW branca. Estava vestido tal como na foto 3×4. Não suava, é claro, quem vai suar dentro de uma BMW? Ao me ver me cumprimentou, mas fez com um desinteresse próprio de quem não gosta da ralé. Me deu mais vontade de matá-lo. Fiquei pensando na origem de Ana Rita: de onde ela veio, da vida honesta ou das calçadas da vida? Por que queria matar seu esposo? Só pelo dinheiro ou por ódio?

Ramão era um político corrupto, um deputado. Um ímpio. O ímpio que pensava da seguinte maneira, com seus comparsas: “tiranizamos os justos na sua pobreza (o pobre), não poupemos as viúvas (e as mães solteiras) e não tenhamos consideração com os cabelos brancos do ancião (os aposentados)”. Ele diz: “que a nossa força seja o critério do direito, porque o fraco, na verdade, não serve para nada!”. É assim que pensa o político corrupto, era assim que certamente pensava o deputado Ramão.

Na hora do almoço Ana Rita mandou a Luana, sua cozinheira, trazer um prato de comida: seria o mesmo que foi servido em sua mesa? A cozinheira era uma mulher negra e bondosa, carregava uma corrente bem fina no pescoço, com um pingente do Cristo Crucificado. Ela era simpática, não muito bonita, mas uma mulher que pelo jeito parecia saber colocar o homem no caminho estreito, no caminho correto.

Conversamos um pouco. Gostou de conversar comigo. Toda vez que ela vinha me trazer o almoço, conversávamos. Ela me falava passagens bíblicas que eu já estava cansado de saber, contudo com um sentido diferente, com um significado diferente: enquanto eu lia procurando a lei, ela lia buscando o amor. Me envergonhei. Comecei a me interessar por Luana. Ela era um anjo que Deus havia enviado em minha vida, a melhor coisa que podia fazer era casar com uma mulher feito a Luana.

Pensando assim, veio a vontade de desistir do plano de matar Ramão, de me arrepender, de trabalhar honestamente e de devolver à Ana Rita todo o dinheiro que tomei dela. Pensei em me converter, em deixar esses exus pagãos que eu me envolvia de lado e colocar Jesus no altar da minha vida, tornar-me um justo, andar lado a lado com as entidades de luz, com os anjos e os apóstolos. Ainda dava tempo. O ladrão que foi crucificado com Jesus se arrependeu antes de morrer e Cristo o perdoou. Não sei se ele teve uma grande recompensa nos céus, mas com certeza entrou ao lado do Filho de Deus e, portanto, protegido. Era melhor fazer o mesmo. Chegar em Luana e dizer: case comigo! Foi o que fiz. Quando ela entregou o meu prato de comida lá naquela dispensa escura, eu peguei em sua mão e a pedi em casamento:

– Casamos em tua igreja, Luana, e seremos felizes, com a bênção de Deus!

– Está bem, Zeca.

Mas Ana Rita era uma mulher astuciosa e malvada. No Eclesiástico está escrito que “a mulher maldosa é como um jugo de bois desajustado; quem a possui é como aquele que pega um escorpião”. Seu esposo e eu estávamos nas mãos de um, pronto para nos ferroar sem dó. Falei com ela, disse:

– Ana Rita, não quero mais matar ninguém nesta vida. Por mais que seu marido mereça morrer, que seja pelas mãos de outro justiceiro, não eu.

Falei-lhe que iria arrumar um emprego e que iria devolver todo dinheiro que me deu, centavo por centavo. Mas Ana Rita, como disse, era uma mulher astuciosa e malvada. Disse-me que não confiava que longe dela pudesse lhe devolver o que devia, que seria mais correto de minha parte ficar e pagar com meu trabalho. Todo mês ela descontaria a metade de meu ordenado. Em três meses estava livre.

Miseravelmente, aceitei. “Toda malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher”, já dizia Eclesiástico e eu caí na sua malícia. No fim de um expediente, quando Ramão estava viajando, Ana Rita me ofereceu um copo de vinho. Eu teria rejeitado tranquilamente se não tivesse visto pelo decote de sua blusa seus seios brancos bem redondos e soltos, desprotegidos. Eram como maçãs suculentas.

Não resisti, esqueci meu compromisso com Luana e tomei num gole só todo o copo de vinho. Bebi outro copo cheio e mais outro. O vinho reacendeu o fogo de minhas paixões e quando vi estava na cama da pecadora. Entrei nela como um animal, virei Ana Rita de um lado, de outro, fi-la segurar firme nas barras de ferro de sua cama! Quando caí estremecido de gozo, ela pediu:

– Mata ele para mim, meu homem, mata?

– Mato sim!

Dois dias depois Ramão estava de volta. Quando deu meu horário, saí da casa deles e fiquei lá fora, esperando o telefonema de Ana Rita, me informando se Ramão já dormia. Luana saiu um pouco depois, mas não me viu, pois eu estava atrás de uma árvore. Onze da noite Ana Rita ligou. Pulei o portão da casa, fui até à dispensa, peguei uma pá e entrei na casa. Ana Rita, com uma camisola vermelha, abriu-me a porta. Ramão roncava. Cheguei perto dele e comecei a desferir os golpes com a pá.

Ele deve ter morrido na primeira, que acertei em cheio em sua cabeça. Fui para cima de Ana Rita, para beijá-la. Ana Rita não quis meu beijo, escapou dos meus braços, sacou o celular e ligou para a polícia. Tive vontade de matá-la, mas o desespero de ser preso foi maior, saí correndo. A polícia me pegou a dez quadras da casa dela. Fui preso e enquadrado no artigo 157 seguido pelo 213. Hoje, aqui na cadeia, cada vez que vejo uma de minhas revistas de mulheres peladas, faço a mesma promessa de sempre: nunca mais volto para a cadeia por causa de uma mulher! Nunca!

 

Glauber da Rocha é escritor e professor. Formado em filosofia e em pedagogia, com pós-graduação em educação especial inclusiva. Mora em Campo Grande, MS. Publicou “Pelas ruas de tua cidade, ó morena!” (poesias/2018) e “Crônicas Para o Face” (crônicas/ 2018). Para 2018, pretende lançar dois livros de contos: “Com os dentes que ainda me restam” e “matando anões”.

 

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123ª Leva - 01/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

As variantes do conto

Por Daniel Russell Ribas

 

 

O livro de estreia do autor César Manzolillo, Angústia e outros presságios funestos (Gramma Editora, 2017), possui as marcas de uma obra iniciante. Sem esconder suas referências literárias, também demonstra uma visão própria para as mesmas. Como em projeto “Mix Lit”, que promove a construção de um novo texto através dos trechos previamente conhecidos, Manzolillo relembra seus ídolos em luz própria. No caso, sua interpretação se sustenta acima dos gigantes em que se apoia.

O estilo breve, quase telegráfico de alguns contos, remete a Rubem Fonseca. Contos como “Cibele”, “Gabriel” e “Gilmar”, inclusive, referenciam imediatamente o universo de submundo e violência exposto no seminal “Feliz ano novo”. Entretanto, são exceções na maneira como o autor se apropria de sua fonte. Se a secura de Fonseca servia a um propósito realista e de choque, Manzolillo reutiliza esta artimanha como uma forma de conduzir o leitor às entrelinhas das narrativas. Ele insinua, no lugar de situar seu receptor. No caso, ele opta por uma desconstrução. Quando mimetiza na superfície o mestre, abre o espaço para a análise de seu uso. Manzolillo, então, oferece uma interpretação labiríntica, em que o narrador descreve uma cena que não se apresenta como uma saída, mas uma nova passagem para a compreensão íntima de seu leitor. O leitor é provocado a criar sua versão, como um novo escritor. O autor mostra as ferramentas e oferece as reticências entre as frases.

Estruturado em relatos breves, todos em 22 linhas, com os nomes de personagens como títulos, há um instigante experimento sobre a função da informação. O fato de não se tratar de contos fechados é a isca para que o ato da criação seja a força motriz. Mais do que a psicologia e o cenário, é a interpretação dos elementos o protagonista frequente do livro. A falta de localização dos atores neste palco, cujas escolhas e vidas são questionadas em múltiplas vozes, forma uma colcha opaca. O resultado é irregular, mas segura o interesse.

Os contos variam em gênero e alcance. Enquanto alguns são simples em sua estrutura, outros arriscam em uma miscelânea de vozes cujo atrativo é o impacto. Como em Dalton Trevisan, outro grandioso a que o livro presta homenagem, não é necessariamente o ato final o ápice dramático. A virada pode surgir logo na metade, um efeito que mexe em toda a compreensão do resto da história. O conto “Bianca” é um ótimo exemplo. A princípio um texto inofensivo, torna-se voraz após uma frase específica inserida em meio às cartas que a protagonista recebe. É um ótimo exemplo de como o minimalismo pode abrir o portal para uma nova visão sobre as ações de seu personagem. O que Bianca fez?, o leitor pode se perguntar.

Já em contos como “Arnaldo” e “Rita”, as narrativas são diretas, cujo propósito é o punch line. Embora sejam seguros, funcionam dentro do corpo da obra. O livro forma um padrão em que estes contos funcionam como alicerces, ou “respiros”, para mergulhos mais expressivos na metalinguagem. Manzolillo os intercala, de modo que a leitura de cada unidade passa ligada a uma anterior, mas com um todo que busca a surpresa do leitor. O autor é bem-sucedido neste aspecto, pois não é fácil adivinhar o que virá em seguida. A sensação de “caos organizado” carrega uma vitalidade que sustenta o espetáculo. Mesmo em contos que não alcançam seu potencial, como “Saulo” e “Clara”, há uma indagação preciosa para manter o interesse. A construção, o caminho, vale mais do que a jornada. Se em textos como esses a proposta torna-se mais óbvia, é quando se arrisca na seletividade de informações que funciona a contento. Matérias crípticas, como “Helena” e “Bartolomeu”, mostram que os personagens são o que menos importa na tapeçaria. São meios para um fim.

A que se destina, então, Angústia e outros presságios funestos? Com seus altos e baixos, é um inteligente exercício sobre escrita iniciante. Não ironicamente, diversos textos lidam com escritores em começo de carreira. Ao mesmo tempo que mostra uma voz ainda presa a seus ídolos, o efeito final é de uma reconstrução, jamais imitação. Há uma relevante questão que permeia o livro: o que torna um material único: originalidade ou uma maneira como nos debruçamos sobre o passado? Como encaramos o que se passou, expandimos nossa visão de mundo e acrescentamos ao jogo da literatura uma possibilidade refrescante. Nossos mestres não precisam ficar presos numa cápsula. Podemos resgatá-los com uma voz nova. A angústia da desconstrução é o que surge no livro de César Manzolillo, cujo presságio e a apreciação literária formam a cumplicidade criativa entre autor e leitor. Se nada é o que parece, cabe ao próximo elemento na cadeia completar os espaços em branco.

 

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo literário Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve crônicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas coletâneas de contos. Ganhou o Prêmio Argos pela edição de “Monstros Gigantes – Kaiju”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Palavras parecem domar o tempo com a astúcia de suas investidas. Talvez por tal razão não sejam menos importantes que a sina dos seus criadores. Elas, as palavras, ousam mais do que representar o mundo de quem as profere, imersas que estão nas profundezas do humano. Revelam-se a complexa ponte entre o íntimo e aquilo que está exposto cotidianamente nas travessias mundanas, bem ali na face desnuda da vida.

Quem engendra o verbo tem a consciência de que sua expressão criadora não se encerra dentro de um único domínio exclusivamente pessoal. Pelo contrário, intenta o encontro com o outro, trajeto comunicativo que, podemos desconfiar, não cessa jamais. Desse modo, levar a cabo uma obra é crer que na outra ponta outros sujeitos poderão consolidar sua permanência, conferindo-lhe uma gama de sentidos multifacetados. Por certo, um escritor fica exultante quando seus leitores mantêm vivo o seu legado dadas as mais distintas possibilidades de vivência, interpretação e apropriação do conteúdo concebido.

Assim como não se passa impunemente pela vida, com a literatura ocorre o mesmo. É salutar pensar um autor como alguém que mergulha nas questões de seu tempo e delas retira elementos construtivos para seu ofício. Quem se depara com a obra de um escritor como Itamar Vieira Junior, percebe um criador de olhares atentos aos fenômenos que constituem e demarcam sua condição de estar no mundo. Mas eis que tal característica tanto se baseia num fluxo de criticidade quanto no de uma vivência que permeia uma perspectiva de fruição estética. Assim, vemos um Itamar a construir sua obra com os requintes da lucidez, mas também sem negligenciar as possibilidades de criação inerentes a um viés de assunção das coisas intangíveis.

Com dois livros de contos na sua trajetória, Dias (Caramurê, 2012) e A Oração do Carrasco (Mondrongo, 2017), além do romance Paraíso (Câmara Brasileira do Livro, 2008), Itamar Vieira Junior pode ser considerado um dos nomes relevantes do atual cenário literário brasileiro. Grande parte disso se justifica em razão de que sua escrita madura e bem construída assinala um valioso lugar de reflexão, sobretudo quando se trata de atentar para o território das alteridades.

Doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia, Itamar revela-se um escritor profundamente envolvido com as temáticas que denunciam a invisibilidade do povo negro. Na entrevista que agora segue, o escritor toca em certos lugares de incômodo social, reflete sobre a representação do racismo na literatura, o papel dos novos escritores, além de lançar luz sobre o panorama editorial brasileiro contemporâneo. O resultado do diálogo mostra-nos não somente um intelectual a expor seus consistentes pontos de vista, mas um indivíduo intensamente marcado pela necessidade de mergulhar fundo na dimensão humanista da existência.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Há tantos grilhões na condição humana e certamente aqueles que se referem à opressão do homem pelo homem são dos mais cruéis. Em “A Oração do Carrasco” você traz um deles à tona, qual seja a marca histórica do racismo, fantasma que nos ronda incessantemente. Diante de um contexto de tal natureza, como você concebe a literatura enquanto instrumento de exposição e debate desse tipo de incômoda temática?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A literatura como expressão artística acomoda, involuntariamente, a narrativa da experiência humana. Atravessando os séculos – de Dom Quixote ao romance contemporâneo – ela sempre trouxe como sua razão de existir o descortinar de nossa condição. Hannah Arendt em sua obra “A condição humana” diz que a política é um dos três pilares da vita activa do homem. Tanto o trabalho quanto a obra – os outros dois pilares – são executados pelo homem em sua solidão, a partir das acepções que Arendt apresenta sobre trabalho e obra. Mas a política só se dá através do homem e entre os homens. Ou seja, somos seres essencialmente políticos e a literatura carrega, invariavelmente, a exposição do que um escritor é e pensa sobre o mundo a sua volta. Sem a política seríamos amebas vagando no mar do nada.

Vamos lembrar que a literatura abriga a diversidade do pensamento humano. Que há obras como “Escola de cadáveres”, de Louis-Ferdinand Céline, ou “O presidente negro”, de Monteiro Lobato, com um teor racista inquestionável. E que muitas outras, da mesma forma, vão se debruçar sobre as nossas mais primevas questões existenciais, dentre elas o preconceito baseado na diferença de origem ou de cor. “Amada”, de Toni Morrison, ou “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, por exemplo, abordam o racismo pelo viés histórico e social do colonialismo. É incômodo perceber que são obras que tratam o preconceito numa perspectiva histórica e que, ao se confrontar essas narrativas com o mundo contemporâneo, percebe-se que as mudanças são sutis e as formas de discriminação resistem apesar dos avanços.

Há algo incômodo na literatura contemporânea – e digo especialmente sobre a literatura produzida no Brasil. Como é uma atividade de uma classe privilegiada, ou pelo menos os autores que estão em evidência fazem parte dessa classe, os temas são majoritariamente afeitos aos dramas da classe média branca. Proporcionalmente, há um número menor de obras com personagens que representem a imensa diversidade da nossa sociedade. O racismo também existe no próprio fazer literário, não poderia ser diferente. Isso revela que há algo brutal em nossa história se repetindo, quando vemos persistir a discriminação ao senegalês ou haitiano que chega ao Brasil contemporâneo. Ou quando as relações entre patroas e domésticas nos fazem lembrar as relações de subalternidade mais vis do Brasil escravocrata. Ou quando abrimos um livro e não encontramos representações de nossa diversidade. Esse incômodo é que me fez conceber “A oração” como um painel, não de simples histórias distintas, mas capaz de apresentar um encadeamento de narrativas que nos lembrasse de que a história se repete. Não é por acaso que “Alma” abre o livro e é impossível pensar sua história desconexa das histórias de “Foi” e “Dominique” do conto “Meu mar (Fé)”, ou de Doramar. A imigração empreendida pelos ancestrais de Alma se repete da mesma África para o Brasil do nosso tempo. Esses imigrantes estão fadados a uma história de subserviência não muito diferente dos imigrantes do século XVII, XVIII. O papel de submissão dado pelo mundo a Alma se repete com Doramar, uma empregada doméstica que vive nos dias atuais, ou com “Foi”, a imigrante que vive deslocada em um país que não consegue acolher a diferença.

 

DA – No conto “Alma”, apesar das agruras vividas pela protagonista, notamos que paira nela um ímpeto que a encoraja a crer numa perspectiva de que algum dia sua existência cumprirá um sentido, digamos assim, mais pleno de liberdade. Há na narrativa a presença viva dos contrastes entre o pensamento colonizador e o colonizado. Diria que essa construção textual evoca uma necessária provocação, sobretudo para o que ainda testemunhamos em sociedade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o sentido a que você se refere é uma premissa humana. Ou talvez seja uma premissa dos seres sencientes, se estendermos o desejo de liberdade aos animais. Há muitos anos trabalho com as histórias de comunidades negras rurais que estão passando por processos de regularização das terras que habitam. Em um desses lugares, encontrei a história de uma mulher escravizada que caminhou de Salvador até o Sertão Baiano – quatrocentos quilômetros de distância. Ela se tornou matriarca e fundadora de um agrupamento humano que resiste por quase duzentos anos. Só se sabe isso sobre ela. Não há registros além da história oral. Uma narrativa fabulosa, a princípio, e a ficção entra para preencher o que não se sabe sobre essa mulher: as motivações de sua peregrinação e o que encontrou pelo caminho. O que faria uma mulher cativa caminhar por um ambiente hostil, desconhecido, com possíveis perigos? A revisão da história social de nosso lugar indica as circunstâncias dessa migração. E a minha experiência humana, aquilo que nos une, incluindo a personagem Alma, permite emular esse sentimento supostamente universal de não estar subjugado e ser livre. É uma narrativa em primeira pessoa que opta pelo fluxo de consciência. Alma é a voz que narra personagens, episódios históricos e ações que marcaram sua trajetória. Essa foi a forma que encontrei de trazer à literatura a contundência da oralidade, do que pode ser narrado por gerações, resistindo e se transformando, quando as circunstâncias sociais e econômicas não permitem que haja registros documentais. A oralidade é uma forma de comunicação que antecede à escrita. Transmutada, é capaz de denunciar os incômodos que a humanidade, em seu processo civilizatório, não conseguiu transpor. Recentemente, fotografias de um mercado de escravos na Líbia se propagaram nas redes sociais. Em pleno século XXI nos deparamos com imagens que poderiam ser quadros de Rugendas representando a aflição de algo que talvez julgássemos ter acabado. Pelo contrário, os fantasmas continuam a nos atormentar. Escrever sobre uma mulher que precisou interromper o ciclo de violência que sofria, devolvendo a violência àqueles que a subjugavam, reflete essa provocação. Desmistifica, inclusive, que essa subserviência foi pacífica. No Arquivo Público do Estado da Bahia há importantes referências sobre crimes cometidos por trabalhadores escravizados.

 

DA – Há toda uma literatura dedicada às questões da negritude e que, no entanto, permanece ainda desconhecida por muita gente. Destacaria aqui, sobretudo, obras que se enquadram na perspectiva pós-colonial, cujos autores nos falam de mundos com suas narrativas e ambientações próprias, com o vigor que demonstra que não podemos olhar a África de modo homogeneizante. Na sua visão, que universos são esses que precisam ser vistos e lidos?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Os universos autóctones e da diáspora. Porque não basta ler a vasta literatura produzida no continente africano, é preciso compreender o seu legado para o mundo, principalmente para o continente americano e, mais recentemente, para a Europa Ocidental. A literatura pode ser um caminho para alcançar a história e o pensamento humanos a partir da perspectiva de nossa diversidade étnica. Tanto a literatura pós-colonial com seus mais diversos temas, desde o nefasto poder do colonialismo que vislumbramos na obra de Chinua Achebe e Chimamanda Adichie Ngozi até o trágico apartheid, tema recorrente nos romances de Coetzee e Nadine Gordimer, quanto a literatura diaspórica que pulsa de norte a sul do continente americano, são narrativas que confrontam o passado com o presente e nos despertam para a crise e o fracasso, em termos, de nossa civilização. Principalmente quando permitimos que as diferenças se tornem os mobilizadores das relações de poder que estabelecemos com nosso entorno. Nesse contexto a ficção pode comunicar a universalidade da experiência humana pela simples possibilidade de nos envolver numa trama de afetos onde somos convidados a todo o momento a ler o mundo a partir da perspectiva das personagens. Sem dúvidas é um interessante exercício de se transferir para o lugar do outro e conhecer suas vivências e experiências.

 

DA – Nesse conjunto de representações de mundos que precisam vir à tona através de uma arte como a literária, surge um componente de alta relevância, que é o das afirmações identitárias. Como tais sujeitos podem vir a se tornar efetivamente seres de ação no quesito que amplia uma via marcantemente humanista?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A identidade é e sempre será relevante em contextos onde seja preciso realçar a alteridade. Já estive em comunidades negras rurais em que o racismo não era um problema aparente em suas vidas, a não ser quando precisavam resolver algum problema na cidade. Não fazia sentido um debate entre eles sobre a negritude, a não ser quando precisaram se confrontar com o Estado ou com outros grupos. Eu prefiro não tratar a identidade como um constructo fixo e imutável. Gosto mais do conceito de identificação que coaduna com a perspectiva do devir humano. Não somos seres imutáveis. Somos devires porque existe um movimento vital no homem, no mundo e no homem através do mundo. Esse movimento é fonte de transformações constantes. A identificação está baseada na diferença, e afirmar essa diferença como legítima e parte da diversidade humana é o que mobiliza as performances identitárias. Nenhum ser humano é composto de uma única identificação, nós somos muitas identificações sobrepostas, e algumas delas certamente se relacionarão com a de alguém a sua volta. Somos mulheres, homens, homossexuais, negros, índios, ateus, católicos, candomblecistas, e na trilha de nossa existência através do mundo nos reconheceremos. Agora, imagine que na trilha da vida, sem os artifícios que dispomos para o conhecimento, isso possa levar bastante tempo. Às vezes um longo tempo se pensarmos que nossos problemas são urgentes. Imagine também o poder da literatura, da música – e enfatizo o hip hop, o funk, o samba, ritmos que têm um forte apelo popular – da televisão, do cinema, das séries estrangeiras, que chegam com uma velocidade incrível na era da informação. A arte pode ser um valioso instrumento, não o único, mas certamente o que nos envolve com mais afeto e é capaz de comunicar nossa humanidade com grandes chances de êxito. Já que falamos de literatura, imagine o poder de “Stella Manhattan”, de Silviano Santiago, para comunicar a existência queer, ou “A pianista”, de Elfriede Jelinek, sobre a violência que cerca a existência da mulher. Ou o maravilhoso The Underground Railroad, de Colson Whitehead, que acabo de ler, para expor as agruras do racismo no continente americano. São obras ficcionais capazes de gerar empatia por nos permitir interagir no campo da imaginação com essas personagens. Ninguém sai delas indiferente ou ileso.

 

DA – É insuficiente considerar o papel da literatura por um viés de mera fruição estética?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Gosto muito do Milan Kundera ensaísta, além de ser um ficcionista excepcional, justamente porque seus ensaios estão despidos de um viés analítico e acadêmico. Precisamos dos artigos e pesquisas acadêmicas para o conhecimento. Mas seu alcance é limitado.  Diferente dos ensaios de Kundera que primam por uma abordagem estética e humanista da literatura. Em “A cortina”, Kundera apresenta a literatura (romance) como a arte do conhecimento que existe e sobrevive por se debruçar sobre a experiência humana. Parte dessa existência e sobrevivência deve-se à fruição, uma característica que diferencia a arte literária de outros gêneros de escrita. A fruição estética abre um leque de possibilidades que permitem interpretações e reinterpretações sobre um mesmo texto. O leitor é peça-chave nessa engrenagem por ser afetado, na experiência pessoal e intransferível da leitura, de maneira distinta. Por ser fruição estética, sem nenhum demérito, é que a literatura tem seu alcance expandido e se torna um instrumento de conhecimento do mundo-tempo que vivemos.

 

DA – Diria que a sua escrita reflete um processo consciente e permanente de engajamento com as questões de seu tempo?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho inevitável que quem se debruça sobre qualquer atividade intelectual, sem a arrogância ou o peso que o termo intelectual possa evocar, está refletindo de alguma forma sobre seu tempo. Desde os primórdios tem sido assim. Não escrevemos para nós mesmos e muito menos sem a esperança de que o que escrevemos altere qualquer coisa. Escrevemos porque desejamos comunicar algo. Desejamos provocar emoções. A comunicação parece ser um atributo muito caro à espécie humana, desde a pré-história com a arte rupestre até a era da informação e a revolução digital. O que não cessou durante nossa história foi a nossa urgente necessidade de nos comunicarmos. Tenho uma visão muito dessacralizada do ato de escrever e, mesmo nutrindo um profundo interesse pela literatura e por quem a faz, não creio que seja diferente, na essência, das muitas formas de comunicação que o homem elaborou ao longo de sua história. Sei também que nem todo escritor terá algo relevante para comunicar, mas ainda assim sua obra será acolhida ou não a partir dos valores que os leitores e estudiosos irão lhe atribuir. Acho que quem se debruça sobre a escrita, ou qualquer construção artística que tenha a possibilidade de resistir ao tempo, deseja no fundo comunicar e provocar a reflexão, seja da mais íntima questão humana aos problemas mais complexos de nossa civilização. Uns superficialmente, outros detidos de forma mais profunda sobre essa experiência. Não vejo a minha escrita dissociada da minha própria experiência. Pretendo-a consciente, talvez por isso engajada. Mas há arte inconsciente e que não seja engajada em seus próprios parâmetros? Essa é uma questão, não tenho a resposta. Atribuí a mim, como creio que fizeram os meus pares do passado e do presente, a intenção de dar um testemunho pessoal sobre o meu tempo. Um testemunho pequeno, mínimo, da história em face à nossa grande diversidade enquanto espécie. O que seria minha vida, e a de qualquer escritor, dentro do grande tempo da história humana? Talvez possamos narrar um átimo dessa longa jornada. Fiz essa escolha por circunstâncias que não seria capaz de explicar. Ao mesmo tempo pode parecer uma presunção considerar que somos capazes de aprisionar em uma narrativa uma versão de nosso tempo. Pode parecer soberba assumirmos esse lugar de narrar uma história. É e sempre será uma posição delicada, ainda que estejamos autorizados por nossas convicções a escrever.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O grande afluxo de novos escritores parece instaurar um outro momento para a literatura brasileira. Nesse percurso, as plataformas digitais assumem um papel fundamental como viabilizadoras de espaços dotados de considerável autonomia criativa. As produções não cessam e se avolumam num ritmo até certo ponto frenético, algo que pode comprometer a qualidade do que é escrito, pois, em alguns casos, o desejo urgente de ser publicado ignora todo um processo de maturação e profundidade necessários a uma obra. São tempos de pressa estes em que vivemos?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – São tempos urgentes, não só para a escrita. Talvez seja cedo para esboçar uma reflexão sobre o que está ocorrendo. A princípio vejo a democratização do acesso à publicação como um avanço por permitir que obras que não seriam acolhidas pelas grandes editoras cheguem ao público, ainda que essa circulação seja restrita. São livros que, graças às plataformas digitais e às pequenas editoras, têm tornado possível a construção de uma bibliografia que é ainda um pequeno panorama da nossa diversidade enquanto sociedade. Sobre isso não há dúvidas: obras de qualidade têm encontrado espaço no segmento das pequenas editoras. Basta observar as últimas premiações. Em contrapartida, vivemos um tempo de exposição de ideias e imagens de forma instantânea nas redes sociais. Somos a imagem que projetamos para essas janelas de comunicação. Há, sem dúvidas, uma glamorização da atividade do escritor e isso faz com que qualquer um, tendo habilidade ou não, se proponha a exercê-la. Mas isso não chega a preocupar porque se forem muito ruins não resistirão ao crivo das primeiras críticas de leitores e especialistas. O que persiste é que estamos num país com baixos índices de leitura comparado a outras nações em desenvolvimento. Dentre os possíveis leitores há ainda um grande caminho a percorrer. É preciso construir uma política pública que fomente a formação de leitores.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Somos um país em que a educação, até o presente momento, não foi encarada como um propulsor de desenvolvimento humano. Fôssemos um país que levasse a sério a educação, teríamos certamente mais leitores. Segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro, quase metade da população não tem o hábito de ler. Um terço nunca comprou um livro. Mas quase todos carregam um smartphone, correto? Estão conectados às redes sociais e à internet. E como dispõem do tempo e da tecnologia? Certamente essas “escolhas” explicam em parte nosso retrocesso em questões de direitos humanos e nossos persistentes problemas sociais. Uma população não educada tem menos chance de participar e colaborar ativamente das instâncias de decisões. Tem menos chance de refletir criticamente sobre o mundo e seu tempo. Pode ser facilmente manipulada. Vamos lembrar, para não perdermos o hábito de falar de literatura, de “O conto da aia”, de Margaret Atwood, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. Onde foram parar os livros na República de Gilead? Para onde a supressão da circulação de conhecimento pode levar a humanidade? Além dos nossos problemas estruturais de educação, há um particular desinteresse do poder público em investir em políticas de formação de leitores. Num país com mais de 200 milhões de habitantes, onde quase metade da população não tem o hábito de ler, o que poderíamos ser se compartilhássemos leitura, interesse e conhecimento de forma democrática?

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas ao qual chamamos de pós-modernidade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou um espectador, com participação mínima na vida ativa de meu país. Pior, sou um espectador desatento, alterno horas de pretensa atenção e horas de devaneios. Não é um lamento, digo isso conformado. Sou um leitor em primeiro lugar. Para cada mil livros que leio deverei contribuir de forma tímida com um que escrevo. E observo nosso tempo com muita confusão e poucas conclusões. Reflito diariamente, mas sem exigir de mim mesmo uma definição sobre as coisas. Sabe como vejo o mundo? Como observo nossa jornada através da história? Como se lesse algo que acabo de escrever e que vou modificando, entendendo de uma nova forma, percebendo as movimentações de palavras e sentidos numa frase, num parágrafo. Mesmo depois de ter revisado doze vezes e receber o livro da editora, se não quiser sofrer, não o lerei para não querer reescrever depois de impresso. É como leio traduções ou um livro qualquer: começo a arrumar as sentenças como se fossem minhas. Quando percebo minhas divagações retorno para meu papel de leitor novamente. Observo essa fluidez e velocidade próprias de nosso tempo com espanto. As transformações são vertiginosas e na vertigem perdemos momentaneamente o autocontrole. É como um livro novo que faz você ler e subverter todas as coisas que aprendeu até aqui sobre escrita e leitura. Mas penso que esse estranhamento deve ter existido durante toda a jornada humana com intensidades diferentes. Quando leio Lima Barreto, penso nas inquietações de seu tempo, que transparecem em sua obra, e o que remanesce até o nosso tempo de tudo que ele possa ter refletido ou não. Estar no presente, engolido pelo caleidoscópio da história e do tempo, não garante o distanciamento necessário à reflexão.

 

DA – Quando poderemos dizer que um autor obteve sucesso com seu ofício?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Quando um único leitor vier até ele para dizer que um parágrafo do que escreveu lhe provocou alguma reflexão. Isso é o que espera quem publica, quem compartilha pensamentos e escritas com o público. Quando publicamos algo, por qualquer meio, não sabemos em que mãos irá parar. Mas se alguém que lhe desconhece escreve um e-mail ou indica a leitura de seu trabalho é porque algo pode ter ocorrido na experiência entre narrativa e leitor. A vida de uma obra só se ilumina nesse espaço “entre”. Uma obra não tem vida ao ser escrita ou enquanto está na imaginação de um único homem ou mulher. Ela ganha vida a partir do contato. É um espaço mágico onde a paixão pela experiência humana irá ocorrer. Imagino o que diria se encontrasse os escritores que me incendiaram de paixão pela leitura e escrita. O que diria sobre suas obras que não me abandonam mesmo passado tanto tempo. Como elas contribuíram para o que sou. Sei também que virão muitos autores, talvez alguns ainda por nascer, que me trarão essa mesma paixão. Um autor só obtém êxito com seu ofício quando consegue iluminar esse espaço entre a obra e o leitor.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.