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124ª Leva - 02/2018 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Tati Motta

 

Afinal, de que é feita uma nação? De um mero aglomerado de pessoas marcadas pelos laços comuns e historicamente institucionalizados pela ocupação de um mesmo território geopolítico? Ou seria pela reunião de interesses difusos pautados por uma exposição das diferenças? Num país de proporções continentais como o Brasil, talvez seja árdua tarefa vislumbrar tudo como se fosse o resultado direto de uma uniformização de pensamento. E de fato esta última, para nosso bem, não deve existir. Pensando a partir do viés cultural, por exemplo, somos levados a concordar que a pluralidade de expressões é quem dá as cartas. Basta notarmos a multiplicidade de manifestações que, alocadas em seus espaços regionais, exprimem a força individual e personalizada dos mais distintos grupos sociais. Há razões históricas para isso, bem sabemos, mas a valorização das tradições de cada povo pode também dialogar com as mudanças trazidas por eventos como a globalização. Há, evidentemente, críticas a processos como este, mas, por outro lado, é saudável pensar no modo como determinadas culturas podem expandir suas epifanias além das fronteiras demarcadas usualmente. O saldo é deveras positivo quando tomamos contato com a arte de pessoas e coletivos dos mais profundos rincões do país. E há uma sensação semelhante de permanente descoberta quando, através de um projeto como a Diversos Afins, podemos conhecer os mais variados atores que, com a verdade de sua arte, ofertam sempre algo de relevante para nossos olhares. A marca principal disso é justamente o reconhecimento da diferença, da capacidade que cada autor ou artista tem de revelar o potencial de suas singularidades. Partindo dessa premissa, o presente nos leva ao encontro de poetas como Flavio Caamaña, Isabela Rossi, Luiz Frazon, Flávia Péret e Verónica Aranda. É ponto de destaque dos nossos caminhos a entrevista feita por Elis Matos com a escritora JeisiEkê de Lundu, artista multifacetada que nos expõe a força e a beleza de seu pensamento. Vivian Pizzinga promove mergulhos pessoais na provocativa peça “Insetos”. No caderno de música, temos a estreia de Pérola Mathias num texto sobre o primeiro disco do grupo de hip hop pernambucano Arrete, inteiramente formado por mulheres. São de Daguito Rodrigues, Carla Kinzo e Fernando Rocha os contos que por aqui povoam os espaços em prosa. O “Exercício da Distração”, mais recente livro de poemas de Kátia Borges, é tema das leituras de Saulo Dourado.  Em seus percursos pela sétima arte, Guilherme Preger nos brinda com olhares para o documentário francês “Visages, Villages”, que traz a parceria entre a cineasta Agnes Varda e o fotógrafo JR. Cada recanto desta nova edição é contemplado com uma exposição fotográfica da mineira Tati Motta, artista que enxerga no mundo detalhes que nos escapam teimosamente. Eis a nossa 124ª Leva. Boas leituras!

Os Leveiros

 

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124ª Leva - 02/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Luiz Frazon

 

Foto: Tati Motta

 

ARCHYTAS OF TARENTUM

 

O que sabemos
de nós mesmos
é um pouco mais
do que uma chave de fenda sabe
sobre um parafuso:
é um jeito abissal
de enroscar o mundo
e prendê-lo, firme.
Um íntimo conhecer, profundo,
do seu nome ferroso,
a matéria que se abraça.
É lançar-se adentro
e entretecer o aço
sob pressão
da mão alheia.

 

 

 

***

 

 

 

COSTURA

 

“Quanto mais eu, que nu nasci, me encontro nu:
nem perco e nem ganho.”
Cervantes

 

Guardo com zelo,
numa das gavetas de minhas vísceras,
a primeira roupa que vesti.

Era eu, não muito mais
que um nome
e um mosto de minha mãe e de meu pai.

A roupa trançava seu algodão no meu torço,
tecia-me uma língua,
aquecia-me um gesto,
e enxugava todos os choros
do resto de minha vida.

 

 

 

***

 

 

 

ITINERÁRIO ESTILETE

 

Num vão de tempo,
esquecida
e prenha
de sabores salinais,
a lágrima
é a cicatriz solúvel,
iluminada,
pública,
engasgada
no caminho
de um ismo choro.
Agora,
outra percorre uma vereda
já de antes desbravada:
um rastejo cítrico
no encalço da benção.
Em dorso derme
no rodapé da folha-face
a cópula:
fusão de gotas
atemporais.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

COMEDOURO

“Mourão, mourão
Tome teu dente podre
Dá cá meu são.”
parlenda de autor desconhecido

 

barganhamos com nossos nomes
a imagem
do que esperamos ser

no entanto, à conta-gotas,
somos traídos

o nome é a palavra que nos come

 

 

 

***

 

 

 

ESTATUTÁRIO

“Olha tua obra.
Olha a obra que é tua por ser feita à tua revelia.”
Rodrigo Petrônio

 

Seguramos o sol
com força, na unha.
Não lhe damos folga abonada,
nem licença ou férias;
não lhe permitimos atestar
doença ou praga
na pele do seu nome de luz.
Queremos o sol
analfabeto em Marx,
quase escravo.
E são poucos os que o imaginam
rebelado,
vigorando seu ardor
e retorcendo a madrugada.
Forjando no fogo
imagem lúdica da meia-noite.

 

 

 

***

 

 

 

POEMA PARA HEIDEGGER CORRIGIR

 

“Flerto com o mundo enquanto o calunio”
Victória Monteiro

 

Chove lá fora,
no entanto, uma janela, com laivos de vidro,
e estigmas de aço,
lacra meu corpo
para o mundo.

Desejo arremessar minha consciência
o mais longe que posso.
Na chuva, ela ensopa-se de rios selvagens nas ruas
e empossa águas de outro continente
em seu quintal.

Se depois procura abrigo
se saltita pelas poças, encharcada e com medo
se adentra à primeira embarcação, plausível
não me convém espionar.

 

Luiz Frazon é Educador Social na cidade de Ribeirão Preto, SP. Cursou letras, apesar de não concluir o curso e hoje faz bacharelado em Educação Física e Esporte pela USP. Coeditou o Zine “O circense” entre os anos de 2003 e 2007. Participou de algumas antologias poéticas, publicou seu primeiro livro de poemas, “Roçando água”, em 2009 e em outubro de 2017 seu segundo livro, O nome pela metade, pela Editora Patuá.

 

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124ª Leva - 02/2018 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

ARRETE – SEMPRE COM A FROTA

 

 

Não faltam mulheres protagonizando uma cena e mudando rumos e paradigmas, seja na música, no mundo da arte, na política ou em qualquer área da vida social. Mas quando estas mulheres chegam a ser vistas e reconhecidas, podemos saber que há uma longa trajetória de luta, afirmação e busca por reconhecimento para que chegassem a ocupar este lugar. É a velha história de que as mulheres precisam estudar, pesquisar, se especializar e falar grosso três vezes mais (no mínimo) do que os homens para serem reconhecidas. Se for mulher e da periferia, então, a questão se aprofunda ainda mais.

A trajetória de Ya Juste, Nina Rodrigues e Weedja Lins, que compõem o grupo de hip hop pernambucano Arrete, não é diferente. Vindas de uma longa estrada de criação e produção no hip hop nordestino, o grupo lançou em 2017 o seu primeiro disco: Sempre com a frota. As MCs estão na estrada desde o começo dos anos 2000, tanto como MCs, quanto como pesquisadoras da cultura popular nordestina e, no caso de Weedja, também como dançarina de break.

O Arrete começou em 2012 e leva o nome do primeiro single que lançaram: “Arrete não”. O single foi divulgado através de um clipe, produzido, gravado, editado e locado pelas próprias Ya, Nina e Weedja na comunidade em que moram, Cajueiro Seco, em Jaboatão do Guararapes, município da região metropolitana do Recife. Esse primeiro single foi um anúncio e uma mostra do tom e da estética do grupo, tanto visual, quanto musical.

 

Arrete / Foto: divulgação

 

O disco veio cinco anos depois, gravado entre 2016 e 2017 e lançado em julho deste último ano com o apoio do Funcultura. Segundo as próprias integrantes do grupo, o processo de criação do disco expressou os anseios delas em relação à música que queriam fazer e à forma como equilibrariam a arte com a vida pessoal – as paixões, a família, a maternidade, as amizades, etc. O álbum agrega composições engavetadas e composições novas, que fizeram com que o trabalho tivesse uma coesão entre a estética e a personalidade de cada uma. O nome do disco é o título de uma das composições de Nina, que é também uma das faixas com o instrumental mais pesado e sóbrio. A letra traz os parâmetros de uma ação e existência ética no mundo: “hip hop incendeia no ritmo e poesia/ na filosofia com a frota sem censura/ então assuma agora/ postura, ideologia/ sem hipocrisia, falsa conduta”.

A faixa que abre o álbum, “Poetizar”, dá o tom da mistura sonora que o disco traz aliado à poesia das meninas. Sons tradicionais da música popular nordestina, como o pandeiro e a viola – que são, inclusive, citados na letra -, aliados à guitarra distorcida, compõem essa abertura em que as MCs se identificam e definem seu lugar de fala:  “Somos versos mais que prosa/ somos todas muito caras/ Esse é o projeto Arrete/ poetiza nordestina com orgulho/ pernambucana da terra de Aruanda /trago as guerreiras de lança”. E ao longo da letra outras muitas referências à cultura regional vão sendo invocadas, costurando as influências que as próprias meninas trazem em sua trajetória artística e de vida, que vão do cenário do manguezal e do canavial à influência de Luiz Gonzaga, “trilha sonora do nosso povo”. E definem: “arquitetas de uma grande e intensa batalha […] seguirei sempre com a frota, com as mais finas rosas e com a mais forte prosa”.

“Arrete não”, o single lançado em 2012, vem no disco com uma batida eletrônica que mescla o brega e o hip hop. Na letra, assim como em “Sempre com a Frota”, que dá nome ao disco, há uma espécie de manifesto: “Queimei as pestanas pra fazer o som do bom/ se tem o dom/ prove e mostre o do bom/ não arrudeie/ com fala solta nesse vento/ se for pra provar/ tem que ser só no talento/ tô com a gota serena/ pra esculhambação […] Ideologia/ o que te falta nessa vida”. A letra é recheada de expressões locais e do sotaque regional.  A expressão que dá nome à faixa já é um exemplo. O verbo “arretar” significa fazer voltar; fazer parar; ou parar o movimento. Mas como expressão quer dizer abusar; irritar; tirar do sério. “Arrete não” seria, assim, algo como “não perturbe”: “Arrete não/que o bonde aqui é bravo”, dizem as meninas. O disco todo é permeado por esse vocabulário idiomático, o que pode dificultar o entendimento de algumas letras para um público não nordestino, mas não impede que o resto do Brasil compreenda, mergulhe e escute essa cultura. É uma forma de fazer conviver, inclusive, a riqueza da linguagem que configura nossa formação cultural dentro de um país continental, que não pode ter uma única imagem para se representar.

Já “Le Plaisir” é uma das composições novas, feitas para o disco. A música fala de amor e o som se aproxima de referências do hip hop brasileiro contemporâneo, como o feito por Tássia Reis, por exemplo, explorando ritmo e balanço mais lentos. A faixa é outra que ganhou clipe com roteiro, direção, fotografia e figurino executado pelas próprias MCs, que convidaram estudantes de dança da Universidade Federal do Pernambuco para fazer dialogar o break com a dança contemporânea. O cenário também foi desenhado por elas mesmas e é composto por diversos objetos que remetem às famílias de cada uma. Como os quadros do pai de Yanaya, que é artista plástico, as madeiras que fazem referência ao avô carpinteiro de Nina e os vinis. O título e os versos em francês também vêm da descendência de Ya. Elas falam que se remetem muito à família no trabalho porque a família foi sempre muito presente para elas no processo artístico.

O ragga aparece nas faixas “Faya” e “Bang Bang”, somando no arco de referências sonoras que o Arrete agrupou neste seu primeiro disco: o brega, o eletrônico, o hip hop, os sons de viola nordestina, pandeiro e de guitarras distorcidas (mescla que outrora havia irrompido no movimento manguebeat) etc.

 

Arrete / Foto: divulgação

 

Todo o instrumental do disco foi feito pelos músicos Riva Le Boss e Felipe Maia, que conseguiram traduzir as influências das integrantes do grupo. Ya diz que gosta muito do ragga, do rock dos anos 70; Nina, de música popular nordestina e de música pernambucana; e Weedja soma com o rap old school, gangsta e também com o brega. No leque de influências contemporâneas, elas citam os conterrâneos Flaira Ferro, Juliano Holanda e Johnny Hooker. Além da nova cena do hip hop brasileiro que, felizmente, agrega cada vez mais mulheres, como Flora Matos, Karol Konká e a já citada Tássia Reis.

Por fim, é preciso destacar que o Arrete reúne em seu projeto todas as linguagens da cultura hip hop, acompanhadas nas batidas pelo DJ Rimas.INC e por dançarinas convidadas.

Com pouco mais de seis meses de disco lançado, o Arrete já fez inúmeros shows em Recife e pelo interior. Ao longo do carnaval foram duas apresentações: no som na rural na Cena Peixinhos e no palco do Rec Beat no domingo, dividindo a programação com Larissa Luz, Lucas Estrela, Don L, Javier Díez-Ena e Dj Flavya. Além das músicas do disco, aproveitaram a ocasião para mostrar um novo single, “Não te quero mais mizéra”, feita pelo DJ Rimas.INC, com produção de Patrick Torquato, que pesquisa e defende a música periférica, empoderamento e combate aos preconceitos em seu trabalho. Assim, na expressão, nas linguagens artísticas que agrega, no vocabulário, nas expressões, no sotaque e no timbre, o Arrete é uma amálgama de valores e postura estética, cultural e política.

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

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124ª Leva - 02/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Flávia Péret

 

Foto: Tati Motta

 

Estudos para um acidente

 

Dentro das cobertas
do lado esquerdo da cama
quase encostado na parede
fria e branca
do nosso quarto de dormir
você escuta música com os fones de ouvido
que nunca me empresta
porque você acredita
que eu estrago suas coisas
mas você se esquece
enquanto escuta
esses compositores desconhecidos e obscuros
que quem quebra as xícaras
desta casa
é você

 

 

 

***

 

 

 

Manhã com nuvens

 

Acidentes acontecem diariamente
nos quartos e nas cozinhas
não apenas nas via de circulação
mas em espaços pequenos e áridos
ou naqueles fortemente irrigados
como as plantações de arroz
ou dentro das panelas onde cozinhamos feijão
numa manhã nublada de terça-feira
dia duro como um corpo com roupas

 

 

 

***

 

 

 

Cartilha-de-cura

(para Ana C.)

 

Eu queria que meu filho fosse mais livre
brincasse na chuva
como os indiozinhos que vi ontem à noite
naquele documentário na televisão
eu queria que a mãe do meu filho fosse mais livre
nunca desistisse de afundar navios
comesse um pouco mais devagar
desaprendesse a ler e a escrever
tocasse a vida
não com a cabeça ou com as palavras
escafandrista dos sentidos
obtusos, incertos, agitados
mas com as plantas dos pés
os olhos bem abertos
os dedos das mãos

 

 

 

***

 

 

 

Abrigo Nuclear

 

Um dia
eu quis
me separar

acordei
decidida
era de manhã cedo
a cidade ainda em silêncio

você
estava
na cozinha

fervia
água
para fazer
um chá

olhei para
os seus pés
descalços
sem meias
nem medo

sentei-me
ao seu lado
pedi
um beijo
tomamos
em silêncio
nosso chá

 

 

 

***

 

 

 

Ikebana

(Para Simone Brantes)

 

Quase todas as noites
antes de dormir
prometo que na manhã seguinte
ao me levantar
colocarei
sobre a mesa
não apenas as xícaras
mas tudo aquilo
que ficou por dizer
(as coisas difíceis, as coisas bonitas)
e meu cansaço
infinito
de repente se dissolverá
serei equilibrada como
certos arranjos de flores
audaciosa como as salamandras
pequenos bichos que mesmo arrastando-se
nunca fogem do fogo

 

Flávia Péret é escritora, faz livros e é professora de literatura e de escrita. Publicou: Imprensa Gay no Brasil (2011), 10 Poemas de Amor e de Susto (2013), Outra Noite (2014), Novelinha (2016) e Uma Mulher (2017). Em 2018, publicará pelo selo Leme (editora Impressões de Minas) a novela Os Patos. Vive e trabalha em Belo Horizonte.

 

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124ª Leva - 02/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Lúcida distração

Por Saulo Dourado

 

 

Temos Vagas é o título do primeiro poema de O Exercício da Distração (Penalux, 2017), de Kátia Borges. A escolha da entrada funciona como um aviso na porta: aqui o preço do feijão cabe no poema. Se em Não há vagas Gullar reclama que a poesia só traz “homens sem estômago”, a primeira parte do livro de Kátia se chama “Como se fosse o órgão vivo”. Mas a sutileza e a transmutação é que o órgão vivo também é o próprio poema. Em O gourmet momentâneo, versos de Margaret Atwood estão em papel amassado, no meio de uma aula, “passados em mão em mão como se fosse o órgão vivo”. O ciclo se completa: a poesia, qual um contrabando no mundo oficial, a um só tempo evidencia o cotidiano e se torna outra coisa, reinventando-o.

Outras referências a autores aparecem quase página a página. Poderíamos chamar de intertextualidade, se nesse O Exercício o tema da saudade e da ausência não aparecesse com tanta frequência. Como muitos versos parecem conversas com pessoas ausentes, o uso do contato com outros autores parece também um bate-papo com uma gente que não está ali, ou seja, gente como Quintana e Bandeira seriam conhecidos íntimos que deixam saudades como os amados e os amigos da vida do eu-lírico. O cotidiano na poesia de Kátia Borges assume assim o diálogo permanente com pessoas invisíveis, e o seu olhar as traz para a presença, as coloca ao lado da pedra na praia. Odisseia mostra:

 

Já não espero teu regresso
enquanto teço – a beleza
servirá para os que chegam
ainda que inalcançável
aos que retornam.

Há certa Ítaca intangível
em meu peito
que não se demora.

Um segundo e verte-se
vórtice inatingível
em Itaparica – e na dura
pedra fria dos dias deposita
seus destroços.

 

Há uma tendência ao imaterial, ao universal – uma “certa Ítaca intangível” -, mas que logo se verte e se toma pela realidade mais imediata, ainda que pior, fria e destroçada. É uma decisão de conduta que faz desta distração não uma fuga, um alheamento, um devaneio para sair do mundo tal como é, e sim o aproveitamento das brechas das coisas para trazer o “inatingível” para cá, do céu das ideias para as águas do tempo e das águas para o solo da vida vivida. Se na primeira grande sequência de poemas podemos sentir às vezes ainda o peso do Intangível, e algumas oscilações em Cais e A dor fantasma com desejos contraditórios por um mundo que não está aqui, a partir de Alegria Alegria a poesia de Kátia escolhe a vontade de enxergar ao redor (com a ironia, claro, de “perder os óculos na bolsa” e só encontrá-los nos “cabelos”).

A partir do verso “Nada no bolso ou nas mãos” – que foi um desprendimento para Caetano Veloso em relação aos deveres de sua época, já uma citação d’As Palavras, de Sartre, no qual o filósofo se entende liberado de sua neurose burguesa enquanto busca de ser um homem de exceção -, Kátia se descontrai. Seus versos ficam mais cheios de coisas, justo porque é preciso perdê-las. “Imersa, sigo firme/no exercício que me atrela/a este ofício: perder coisas”. Para perder é preciso estar em permanente contato, sentir, pegar, observar, escolher. É a partir daí que seu olhar pelo cotidiano assume o seu ponto mais alto, e longe da banalidade ou do excesso de idealismo, alcança o meio.

Se o poema Odisseia condensa o primeiro movimento do livro, o singelo Pragmatismo poderia representar o segundo. “Tenho me ocupado com coisas práticas./Se há água ou não há água no pote do cachorro”. Ao descrever acontecimentos de um dia, com o cão cego, as pistas de skate no Jardim dos Namorados, sente-se a vida ali, e o que poderia ser a burocracia do dia-a-dia é, com uma disposição de espírito maior, a própria vida. Os versos finais trazem o segredo e quase pedem a cumplicidade do leitor: “Às vezes penso que seria bom ter um cágado,/daqueles que se escondem durante anos debaixo dos móveis,/de modo que fosse sempre necessário procurá-lo”. Como no poema Infância de Drummond, a própria história se torna mais bonita que a de Robinson Crusoé.

A terceira parte de O Exercício da Distração traz um título autoexplicativo: As Pequenas Vilanias da Cidade. É quando o cotidiano público, visível nas calçadas, marquises e praças, é feito de tristezas e brutalidades. Na lida diária da cidade, a rotina é forte, as ruas não perdoam, a noite por vezes é indigesta. O eu-lírico, que poderia se distanciar das cenas como um mero olhar externo, poetiza uma relação imbricada com o que vê, e faz de seu sentimento o sentimento da cidade, e vice-versa, a exemplo de “A Praça da Piedade”.  Um blues da piedade? Seus poemas tornam-se mais próximos ao rock, letra, música e referência, como já é uma marca em outros livros, Balada de Janis (P55, 2010), Ticket Zen (Escrituras, 2011) e São Selvagem (P55, 2014). Se nos livros anteriores já estavam o rock’n’blues, o I ching, a proteção de Arcanjo Miguel e “o preço do feijão”, em O Exercício de Distração os poemas ganham ainda mais em precisão, visão de mundo e imagem.

Em The End, poema final do livro, tal qual na música de mesmo título dos Beatles no Abbey Road, o livro compreende seu caminho e seu sentido de distração:

 

essa vida que sabemos sem lugar,
posto que o coração não se publica
nos murais, é ócio diluindo o sangue,
manchetes sem fundo
de verdade, qualquer distração
que agrade a audiência.
Sobre o tempo, não sou dessas.
Quando desço a Contorno,
a beleza me golpeia feito o vento.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Carla Kinzo

 

Foto: Tati Motta

 

Wabi sabi

 

Partiu em três pedaços grandes, vai dar pra colar. Recolhe os cacos da pia, entre os restos do refogado, o detergente, o que sobrou da louça. O que se estima não se usa, as coisas gastam; quebrou de massacrada pelo uso. Tem vontade de chorar e engole: se a xícara não gritou ao escapulir das mãos oleosas, não será ela a se denunciar. Lembra do super bonder que viu na geladeira, as gotas definitivas hão de reparar a concavidade da primeira estrutura. Organiza os pedaços, que bom que nada se esfarelou – há um ponto de equilíbrio entre as partes apoiadas que mantém a impressão antes da queda. Ninguém vai perceber. Tenta abrir a geladeira, a mão escapa da alça da porta; geladeira velha, mão cansada. Sente a dor aguda na ponta dos dedos, a dor de quem coloca mais esforço do que é preciso pra realizar uma tarefa simples e mesmo assim. Ouve a patroa na porta da cozinha, coloca o corpo entre a xícara e a porta, esquece os dedos. Tá tudo bem, Rita? Tá, tá tudo bem, a senhora precisa de alguma coisa? A patroa estranha a resposta longa demais, transformada em pergunta; acaba entrando na cozinha como uma personagem do século XIX, o corpo meio de lado dos que desconfiam: tá tudo bem mesmo, Rita? Tá, tá tudo sim. O diálogo não avança, nem Rita se move de sua posição. Ou a patroa. Quem visse a cena de fora, notaria o equilíbrio frágil na cozinha, as peças não coladas querendo saltar. Silêncio. Mesmo…? – a patroa insiste no papel; levanta a sobrancelha esquerda –, tem certeza que…? Rita percebe o corpo tenso, “tem vontade de chorar, engole”, é assim que se lembra do que já havia decidido, “se a xícara não fez barulho, não sou eu que vou me denunciar”: é que ando assustada com os assaltos no bairro.

Assaltos? No bairro?

É. Não tá sabendo?

Uma peça que se move.

Os olhos da patroa correm pra baixo, tentando saber; o corpo perde o alinhamento militar. Assaltos… não, não sabia. Quer dizer, é mesmo…? No bairro? Rita quase tem pena da patroa, mas as peças precisam ficar onde estão. Ela assente com a cabeça, é… as meninas tão falando. Algo da rigidez na cozinha se desfaz. Tão difícil a cidade – isso não é mentira. É, tá demais. Difícil demais. A patroa se aproxima, recua – é. Isso também me preocupa, Rita. Ah, se ela soubesse do seu bairro, dos bairros percorridos, cada um deles até chegar àquele ali. O trajeto no trem, no ônibus. As plataformas, o cheiro ácido do pão de queijo às sete no terminal. As chinelas com os calcanhares cavados. As xícaras frágeis. Uma daquelas que se quebrou, ela sabe, vale mais que um mês refazendo aquele percurso. Os vagões, os fones de ouvido coloridos comprados na ida e que não prestam mais na volta. As mãos manchadas do cobrador. Rita não percebe, mas seu olhar já está jogado na cozinha. Nem se lembra mais daquela xícara.

Não pensa muito nisso, Rita – e a patroa sorri. É verdade. Deixa pra lá.

Talvez Rita também tenha sorrido. De alívio, quando ela finalmente saiu.

Ao se virar, encarou a ainda falsa xícara, os pedaços porcamente agrupados com óleo, sabão, linhas de trens, asfalto. Agora sentia mesmo o choro no pescoço, querendo saltar. Mas quem disse que podia? Não podia não.

Abriu a geladeira com as mãos prevenidas, agarrando o super bonder antes que a patroa resolvesse voltar.

 

 

 

***

 

 

 

E ele cai

 

Toma ar. Como se tivesse que narrar aquele lance ou como se estivesse em campo e precisasse de todo o oxigênio do mundo pra disparar, da torcida ele toma ar.

Não é o único.

Por um instante, o ar parece imóvel, tomam ar todos; todos seguram na boca um pedaço do oxigênio do estádio, como se receassem atrapalhar o momento crítico que antecede a entrada do meia na grande área: a bola domada fora do chão no peito, o pé esquerdo e o direito abrindo um espaço definitivo sobre o gramado, adversários tentando interceptar chuteira, bola, caminho – e o jogador, impassível, atingindo a metade inimiga do campo, enquanto fura a cortina de ar parada no espaço, controlada apenas pela respiração da torcida.

Nesse instante, ninguém vê, ou quase ninguém, o menino que, em sua primeira vez num jogo, levado pela mãe, torcedora fervorosa, coloca a mão na boca, querendo o gol. Ninguém poderia saber – ou quase ninguém – que depois desse jogo o menino tomaria a decisão silenciosa e definitiva, ao lado da mãe santista, de se render ao oponente e torcer para o Timão. Seriam poucos aqueles capazes de dizer com precisão, muitos anos depois daquele dia, a marca da garrafinha d’água que a moça de olhos fundos bebia, aquela que, tendo sido focalizada pela câmera de TV no coração do lance, mais tarde se tornaria jornalista naquela mesma emissora. E apenas duas ou três pessoas no imenso estádio se lembrariam mais tarde que no meio da torcida Corinthiana estava aquele cantor famoso, aquele que fez sucesso com uma música que falava de um carro.

Então, um grito abafado. E alguém que se assusta, que tira os olhos da cena; que foi isso? O ar no estádio, tão estático, se descontrola.

O susto é a primeira peça que cai sobre a seguinte, aquela que faz cair todas as peças invisíveis que parecem levar o jogador pela mão na direção do gol. Mas acontece que há um grito e, por isso, ele cai. Bola e homem obedecem a uma lei misteriosa: ele cai, ela escapa. E o jogador caindo, é pênalti! Todos os olhares se voltam uma vez mais para o campo, o que houve?, pênalti!, como perdi isso, não tem dúvida, é pênalti, foi pênalti?, presta atenção, claro que foi, foi falta; menino, tira a mão da boca!; olha lá, não acredito, safado, ele se jogou, mas quem foi que gritou, você não ouviu?, esse aí não é aquele cantor? sei lá, quem?, aquele, daquela música; onde?, me passa a garrafa d’água, você não ouviu?, ouviu o quê?, um grito!, foi falta, a torcida concorda, sim, uníssona, é pênalti!, ela brada, soltando o ar até então estacado no peito.

Menos um homem na torcida.

Esse ainda o retém, o último ar. O derradeiro depois do grito e antes do chão, o coração subitamente paralisado; o ar final antes que a imagem certa do gol na retina se desmanche, antes do campeonato. Antes da queda do jogador no campo, antes da sua, esse homem o retém.

Mas o ar acaba e ele cai.

 

Mestre e doutoranda pelo Programa de Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa na FFLCH/USP, Carla Kinzo é formada em Cinema pela ECA e em Letras pela FFLCH. É também atriz e dramaturga. Tem publicados os livros Matéria (7Letras, 2012), Cinematógrafo (7Letras, 2014), Eslovênia (7Letras, 2017) e o infantil Grão (Pólen, 2015). Em 2015, recebeu um ProAC de Criação Literária para desenvolver um livro de poemas, a ser lançado este ano.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Por entre metáforas e disputas: o demasiadamente humano em “Insetos”

Por Vivian Pizzinga

 

Susana Ribeiro, Marcelo Olinto, Marcelo Valle e Cesar Augusto em cena de Insetos / Foto: Elisa Mendes

 

Uma atmosfera escura, que indica catástrofe recente ou iminente, e vários pneus amontoados. Enquanto a plateia vai entrando e ocupando os seus lugares, alguns personagens apenas observam e se remexem no centro do palco. O cenário, assinado por Beli Araújo e Cesar Augusto, já sinaliza o teor do que se vai passar: há uma revolução acontecendo, tudo mudou ou vai mudar, novos códigos de conduta são instaurados, a luta pela sobrevivência se faz de forma inaugural. As abelhas foram embora, o que é um índice importante de algo muito errado – e ruim. E o desenrolar da trama vai se dar a partir do ponto de vista dos insetos. A Cia. Dos Atores, com direção de Rodrigo Portella, traz esse texto original de Jô Bilac, Insetos, para o CCBB, no Rio de Janeiro, comemorando 30 anos de percurso, e oferece ao público um lugar de reflexão e humor. É rir para não chorar.

A metáfora que a peça traz remete aos tempos atuais. Ou outros, que se repetem aqui e ali, quando menos se espera e aos quais é preciso estar atento, para que não se alonguem muito. O tema é político: estamos diante de um novo governo, alguns insetos ganham preeminência em relação a outros e trazem um novo regulamento a que todos devem obedecer e segundo o qual alguns trabalharão e outros servirão de comida para os supostos mais fortes. Não há negociação, nem espaço para o meio-termo: quem se desvia disso, o inseto que tenha ousado mudar ou assumir uma forma inesperada, irá pagar o preço. As categorias são claras e a diferença não tem vez. No meio disso, as subversões, as resistências micropolíticas, a clandestinidade, as alianças permitidas ou não, as estratégias de sobrevida, os arroubos, a fuga. Novas moedas de troca se estabelecem, transações econômicas espúrias têm lugar. Baratas, cupins, grilos, besouros, pirilampos, mosquitos, joaninhas, todos devem se encaixar na nova ordem ou inventar a melhor maneira de se desviar de seus excessos autoritários.

O que vemos na dramaturgia de Insetos é um estado de exceção ao qual todos têm de se submeter (ou fugir para Lisboa). A sociedade deveria ser “livre, laica e leve”, mas não há liberdade em canto algum no novo sistema que se instaura. Classes sociais (por espécies) – ou o que a isso se assemelha – são criadas deliberadamente, por decreto, com privilégios, sacrifícios, direitos e deveres que lhes são próprios. E o elenco compõe esses jogos sociais de maneira orgânica, tal como a própria natureza que aqui é protagonista. Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Marcelo Valle, Susana Ribeiro e Tairone Vale estão sensacionais travestidos de insetos e encenando a perspectiva desse mundo que desperta nojo e aflição, mas que nada mais é do que um reflexo da humanidade. Conseguem tornar uma barata despedaçada, quase morta pelo Baygon e pelo sapato de uma dançarina, em uma figura simpática, carismática, beirando o agradável. E engraçada também. O figurino de Marcelo Olinto é criativo, remetendo de modo original aos bichos ali representados.

 

Foto: Elisa Mendes

 

O mosquito Aedes Egypti é um momento à parte de Insetos: boiando em águas paradas, ele explica ao público a fatalidade e a certeza da finitude. Não há como fugir, ele nos diz. Ri das armas que construímos, seres humanos buscando a eternidade, nossa complexidade contrastando com sua simplicidade e sua letalidade. Precisamos de vacina, já tomamos? Irônicos, os insetos sabem de sua curta duração, têm ciência de um prazo de validade apertado e que pode acabar a qualquer momento, como o público pode testemunhar. Seus planos sempre contêm a iminência da morte, a proximidade do fim, e têm de levar em consideração, necessariamente, a fugacidade da vida. São diferentes dos humanos, que, como assinala o mosquito, “morrem de medo de morrer”. Aqui, ao menos, não há o auto-engano.

Insetos não deixa de trazer um alerta, sem ser panfletário: o que os humanos estão causando no único ambiente em que, até agora, sabem viver? As baratas sobreviveram aos dinossauros e, possivelmente, vão sobreviver aos seres humanos também. No geral, os insetos conseguem se salvar, mas podem se matar uns aos outros, se repetirem as disputas humanas, demasiado humanas, que movem os povos em suas guerras, em suas concorrências e à sanha de produtividade e crescimento econômico que lhes são tão caros. Quanto mais se cresce, mais se devasta. E, como não poderia deixar de ser, o dinheiro consegue tudo, resolve todas as coisas, como nos mostram os personagens dessa ficção tão irmã da realidade.

O desfecho do espetáculo, solucionando a pergunta inicial de um casal imerso em falsa tranquilidade, usufruindo de seu gim e representando a ambição da espécie humana, finaliza com um acento nostálgico e de beleza simples essa brilhante dramaturgia.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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124ª Leva - 02/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Verónica Aranda*

 

Foto: Tati Motta

 

Tradução: Edson Oliveira
Revisão: Clarissa Macedo

 

Estrangeira

 

Tem dias que entro em uma confusão
precipitadamente, enquanto busco
o pulso da cidade, o mesmo pulso
do Cairo na hora marcada pelo muro
da cidadela ocre ou em um dezembro
na multidão de Nova Deli.

Busco avenidas com o cais ao fundo,
diante daqueles velhos armazéns
e casas de embarcações onde antigamente
se perdia, Biralbo, o pianista,
com o impulso quase policialesco
daquele que foge de um amor, e ao mesmo tempo,
deseja encontrá-lo em vielas
onde volateiam os pombos,
e não para de andar e se percebe
diante do Cais de Sodré que é um estrangeiro.

 

Extranjera

 

Hay días que me adentro en el bullicio
precipitadamente, mientras busco
el pulso a la ciudad, el mismo pulso
de El Cairo en la hora punta desde el muro
de la ocre ciudadela o de un diciembre
en la aglomeración de Nueva Delhi.

Busco avenidas con el muelle al fondo,
al pie de aquellos viejos almacenes,
y oficinas de barcos donde antaño
se perdía Biralbo, el pianista,
con el impulso casi policiaco
del que huye de un amor y, al mismo tiempo,
se lo quiere encontrar en callejones
donde revolotean las palomas,
y no para de andar y se da cuenta
frente al Cais do Sodré que es extranjero.

 

 

 

***

 

 

 

Armazéns Mouraria

 

Os comerciantes chineses embaralhavam as cartas
na conspiração de um filme noir.
Os golpes das fichas trouxeram a derrota
dos que jogaram numa cartada
o amor e a vida: dois de espadas.

Se afundaram para sempre os navios de pimenta.

 

Armazens Mouraria

 

Los comerciantes chinos barajaban los naipes
en la conspiración del cine negro.
Los golpes de las fichas trajeron la derrota
de los que se jugaron a una carta
el amor y la vida: dos de espadas.

Se hundieron para siempre las naves de pimienta.

 

 

 

***

 

 

 

Mirante de Santa Catarina

 

Eu nao sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Contam as velhas crônicas que outrora
o povo subia até aqui
para esperar os navios
e seu regresso incerto da rota
das especiarias e das tormentas,
até o alto onde se forjava
toda resignação, com a paciência
de argilas modeladas na sombra
das promessas junto às ermidas.

Hoje espero, não sei muito bem o que,
assomada ao contágio secular.
E os versos que leio
de Mário de Sá-Carneiro já anunciaram,
desde os botequins parisienses,
o tédio pós-moderno, a ressaca ilustrada
que flutua sobre o rio e os telhados.

 

Miradouro de Santa Catarina

 

Eu nao sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Cuentan las viejas crónicas que antaño
subía hasta aquí el pueblo
a esperar a las naves
y su regreso incierto de la ruta
de las especias y de las tormentas,
hasta este alto donde se forjaba
toda resignación, con la paciencia
de arcillas moldeadas a la sombra
de las promesas junto a las ermitas.

Hoy espero, no sé muy bien el qué,
asomada al contagio secular.
Y los versos que leo
de Mário Sá-Carneiro ya anunciaron,
desde los cafetines parisinos,
el tedio posmoderno, la resaca ilustrada
que flota sobre el río y los tejados.

 

 

 

***

 

 

 

Estação de Santa Apolônia (Alfama)

 

Desci em uma daquelas estações
onde ninguém pendura uma guirlanda
de cravos laranjas ao chegar.

E ao longe, a cidade que se iluminava
entre pontes metálicas e hotéis
com cheiro de toalha e salitre,
nessa hora precisa
em que os vendedores desaparecem
deixando unicamente amontoado
o milho e os restos da feira.

Então, nesse momento
na sala de espera repleta
de viajantes sentados sobre suas malas
tive a lucidez do desencontro.

Olhei para o azul celeste colonial
pintado nos muros, evocando
velhas cartas de amor escritas em La Habana.

 

Estação de Santa Apolonia (Alfama)

 

Bajé en una de aquellas estaciones
donde nadie te cuelga una guirnalda
de claveles naranjas al llegar.

Y fuera la ciudad, que se encendía
entre puentes metálicos y hoteles
con olor a toallas y salitre,
en esa hora precisa
en que los vendedores se diluyen
dejando únicamente amontonados
los restos de la feria y el maíz.

Entonces, sólo entonces,
en la sala de espera rebosante
de viajeros sentados en maletas
tuve la lucidez del desencuentro.

Miré el azul celeste colonial
que tenían los muros, evocando
viejas cartas de amor fechadas en La Habana.

 

 

 

***

 

 

 

Miradores

 

Os múltiplos Pessoas sugeriam
ir lê-los aos miradouros
diante do primeiro café contemplativo.

 

Miradores

 

Los múltiples Pessoas sugerían
ir a leerlos a los miradores
ante el primer café contemplativo.

 

 

 

***

 

 

 

Navegantes

 

As noites partiam, desdobradas
sobre os mapa-múndi do desejo,
aqueles em que tu marcavas
os países em forma de postais,
onde havia feito escala,
enquanto me perdia
por essas latitudes de teu corpo
que anunciam as ilhas e alcançava
o centro do teu peito
com instrumentos de navegação.

 

Navegantes

 

Se nos iban las noches, desplegadas
sobre los mapamundi del deseo,
aquellos donde te iba señalando
los países en forma de postales,
donde había hecho escala,
mientras me detenía
por esas latitudes de tu cuerpo
que anticipan las islas y alcanzaba
el centro de tu pecho
con instrumentos de navegación.

 

* Poemas do livro Alfama (Centro de Poesía José Hierro, Getafe, 2009)

 

Verónica Aranda nasceu em Madrid, Espanha. É licenciada em Filologia Hispânica e realizou estudos de doutorado em Nova Deli. Recebeu diversos prêmios de poesia, dentre eles o Miguel Hernández e o Ciudad de Salamanca. Publicou vários livros, como Poeta en India (Melibea, 2005), Alfama (Centro de poesía José Hierro, 2009), Postal de olvido (El Gaviero, 2010), Lluvias Continuas. Ciento un haikus (Polibea, 2014), Épica de raíles (Devenir, 2016) e Dibujar una isla (Reino de Cordelia, 2017). Também é tradutora.

 

Edson Oliveira da Silva é poeta, doutor em Teorias e Críticas da Literatura e da Cultura pela Universidade Federal da Bahia, em consórcio com a Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente é Professor Adjunto da Universidade Estadual de Feira de Santana, ministrando disciplinas na área de Literatura Espanhola e Literatura Latino-americana.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Fernando Rocha

 

Foto: Tati Motta

 

Ainda estou aqui

 

Alguém que se foi, mas permanece aqui como um holograma, deitado na cama, de onde não pode mais se levantar, da boca apenas saem sons que não são palavras, a fralda é agora o banheiro, não sente mais vergonha dos excrementos, não sente mais o controle do próprio corpo, é um refém sem algoz, talvez a má sorte, que ele sempre ignorou, olhando sempre para os lados e para trás, mas nunca para frente, ela estava lá, pronta para desmanchar toda a construção inútil que foi a vida.

O homem forte, trabalhador, aquele por quem meus olhos e meu corpo se encantaram, não existe mais, ele está acamado há quatro anos, sequela de um a.v.c.. Tenho cuidado dele do jeito que posso, nossa filha me ajuda aos finais de semana. Ainda estou aqui, tenho querer, sinto o meu corpo pulsar.

Ontem a menina veio, menina? É uma mulher de 20 anos, mas aos olhos da gente é sempre uma criança, tomei um banho mais longo, senti cada gota de água correr em mim, um tempo comigo, depois saí por aí.

Parei na padaria onde ficava com os colegas de faculdade, nenhum deles estava lá, ao contrário de mim, concluíram o curso de direito, são doutores e doutoras, ocupados com as burocracias da vida de um advogado.

Sentei-me no balcão porque as mesas são destinadas aos que têm companhia, através dos lanches, eu vi dois homens que conversavam e bebiam suas cervejas, ali estavam como se flutuassem numa bolha que os protegia das chateações do cotidiano. Um tinha um sorriso encantador, eu queria, mas não conseguia parar de olhar, ele devia ter uns dez anos a menos que eu. Pela persistência do meu olhar, percebeu que eu o estava mirando, meio tentando disfarçar, mas sem conseguir, ele começou a retribuir o gesto, há tempos trancada em casa, como é bom ser desejada, ou será só devaneio meu?

Não, o amigo foi embora, ele veio até mim, a mão estendida era desejo, mas também receio, eu não tinha mais tanto tempo ou paciência para pudores, levantei, o beijei entre o rosto e a boca, disse um nome que acabara de adotar para aquela tarde, ele também se apresentou, conversamos sobre a vida, suas pupilas dilatadas me engoliam, olhos de menino num rosto de adulto, não recuei, pus a mão sobre a dele e com toda a minha coragem, não desviei o olhar, ele aceitou.

Disse que tinha que voltar para casa, eu disse que ainda estava cedo, me ofereceu uma carona, aceitei, minha intenção oblíqua era outra, entrar no carro e colocar meu plano em curso, eu disse vai por ali, vire à esquerda, entra! Estávamos na frente de um motel, ele titubeou, mas me obedeceu.

Entramos… Numa voracidade se atirou sobre mim, eu, faminta por um corpo aceitei e retribuí. O calor da pele transpassando a roupa, braços fortes e quentes, o beijo forte, parecia me engolir, era a vida sinalizando sua presença, logo estávamos nus, a boca dele percorrendo cada centímetro do meu corpo, acendendo em cada poro uma fogueira, um pouco afobado, mas eu logo comecei a ditar o ritmo, entendimento pleno entre corpos, duas horas morando no prazer.

Tomei banho sozinha, porque o contentamento é egoísta, saímos, disse a ele que podia me deixar na esquina, à direita, de lá pegaria um taxi, um último beijo, mais sereno, antes de sair do carro.

Em casa, a menina disse:

– Mãe, está tudo bem? A senhora está diferente.

– Coisa da sua cabeça, filha. Pode ir cuidar da sua vida, deixa seu pai comigo.

Olhei nos olhos do meu marido, eles permaneciam opacos, mas me miravam de um jeito diferente, fui até a cozinha preparar um sanduíche, mordido com força de quem está inteira em si.

 

Fernando Rocha da Silva é paulistano, nascido em 1981, graduado em Letras, professor de Língua Inglesa na rede municipal de São Paulo, autor do livro de contos Sujeito sem verbo (Confraria do vento), da novela Os laços da fita (Penalux) e Afetos (Penalux). Tem um conto na antologia Descontos de fadas (Alink editora). Possui textos publicados em Mallarmagens, Diversos Afins, Incomunidade, Musa Rara e Letras Inacabadas.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guillherme Preger

 

Visages, Villages. França. 2017.  

 

 

É fácil dizer que Visages, Villages (2017) celebra a arte do encontro. No entanto, o encontro nunca é uma tarefa fácil.

O filme de Agnes Varda e JR começa com uma série de desencontros banais entre os dois e termina com o dramático desencontro entre os diretores e o cineasta Jean-Luc Godard. Entre esses desencontros, ocorre o encontro dos diretores, como a dizer que os encontros são mais improváveis do que os desencontros.

Todo encontro é uma reunião entre afinidades e contrastes. Este se dá entre uma senhora de 88 anos e um jovem de 33 anos. Ambos são artistas da imagem. E a imagem que o espectador vê é justamente a imagem do encontro que coalesce formada pela liga dos afetos comuns, mas também por tensões de diferenças e disparidades. O jogo de cena é o mover dessas polarizações entre aproximações e distanciamentos.

 

Cena de “Visages, Villages” / Foto: divulgação

 

A começar, como diz o título, por um encontro de rostos e cidades, em que fotografar as faces de seus habitantes é uma oportunidade para falar e filmar as cidades ou os lugares. À primeira vista, Agnes Varda é a cineasta e documentarista das pequenas vilas francesas e de suas praias, como atesta sua já longa obra, enquanto JR é o fotógrafo e grafiteiro dos rostos de pessoas comuns expostos na grandeza monumental de suas colagens nos muros das cidades que visita.

Mas, no filme, JR é o motorista do caminhão que funciona como uma câmera rodoviária, enquanto Agnes Varda está na mesma viagem pela memória e pelas recordações afetivas, isto é, pelos seus traços e suas fixações. Trata-se, portanto, também de retratar as cidades e de viajar pelos rostos.

 

Agnes Varda e JR / Foto: divulgação

 

Mas há também outros opostos que se encontram nesse curso de imagens: o contraste entre permanência e impermanência. A leveza nomádica do registro de JR se dá pelo caráter efêmero e perecível de suas fotografias, coladas analogicamente nos muros caiados e abandonados das vilas e das cidades, enquanto Varda procura no registro fotográfico a resistência da memória, como o rosto translúcido de Cleo, cuja beleza deve superar a passagem do tempo. A todo o momento, a diretora de Cleo das 5 às 7 recupera uma imagem do passado que abre uma trincheira contra a liquidez dos tempos modernos.

Há, pelo menos, duas políticas de imagens que se confrontam nesse encontro cinematográfico. A herança esquerdista da diretora se revela na elegia sobre a dignidade do trabalho numa época em que o trabalho material e corporal supostamente regride frente à hegemonia digital e financeira do capital. E essa elegia adquire um viés feminista, seja na resistência da senhora que é a última moradora de uma vila de operários abandonada ou no testemunho oral e fotográfico das mulheres dos trabalhadores de carga. Essa relação entre feminismo e trabalho é uma das contribuições políticas mais relevantes da obra de Agnes Varda, ela própria mulher e operária da imagem.  A uma das mulheres que diz estar sempre atrás de seu marido, Agnes observa que ela não está atrás e sim ao lado. É nesse trabalho de deslocamento que sua arte propõe uma interrupção da incessante desmobilização forçada pelos ritmos acelerados da economia financeira.

 

Cena de “Visages, Villages” / Foto: divulgação

 

A política de JR, no entanto, é menos definida. Seu modelo de trabalho é o do empreendedor que convoca os funcionários de sua própria empresa a realizar a montagem de suas colagens, a qual ele supervisiona. O trabalho poético de JR é influenciado pelo surrealismo, pelo situacionismo e pela arte urbana do grafite. JR pertence a um grupo de artistas que deseja romper as barreiras e limites artificiais entre arte e vida. Em sua própria existência, ou em seu trabalho, ninguém realmente consegue traçar uma fronteira onde está a vida e onde está a arte. A obra de arte é uma forma de vida. Por isso seu evidente desapego pela permanência das imagens. A mensagem de JR é a de não resistir à fatalidade da entropia, mas aliar-se a ela. Por isso, o enorme labor em colar a imagem na ruína abandonada na praia é perdido em apenas uma manhã da maré marítima sem ser lamentado. Há antes de se perceber a beleza inerente de sua efemeridade, que é a da própria vida.

 

Agnes Varda e JR / Foto: divulgação

 

Num diálogo decisivo, JR pergunta a Varda sobre se ela, com seus 88 anos, tem medo da morte. É como se o filme transmitisse um recado freudiano: ao final, serão a entropia e a pulsão de morte as grandes vencedoras. A vida é apenas um desvio, um alongamento nomádico, um retardamento a essa fatalidade. Mas como Freud mesmo comparou a pulsão psíquica à montagem cinematográfica, temos em Visages, Villages um encontro de afinidades entre a montagem cinematográfica (afinal realizada apenas por Agnes) e a colagem gráfica, realizada por JR e sua equipe. Colagem e montagem são formas do heterogêneo e dos contrastes. E desses contrastes, o encontro não pode suprimir ou dissimular os atritos, ou mesmo os confrontos.

Ao final, o filme é aceitação do que não pode ser resolvido por nenhum acordo, por nenhuma empatia dos afetos, ou mesmo pela amizade. O encontro, para ser justo, precisa respeitar aquilo que resiste a se conciliar em seu âmbito. A marca da memória é justamente a desses heterogêneos que se recusam a se dissolver. A arte é, com certeza, uma forma de vida, mas que não pode se confundir com a trivialidade da entropia. O modo de existência da arte é a sua resistência contra a banalidade e contra o “mais provável”. Os encontros que realmente permanecem são os cruzamentos desses desvios raros e imprevistos que chamamos de acontecimentos.

 


 

 

Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.