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124ª Leva - 02/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Flavio Caamaña

 

Foto: Tati Motta

 

DIFERIR NA DURAÇÃO

 

o mar um dia me descobriu mas eu nunca descobri o mar
estávamos apartados por gírias por orçamentos
estávamos desunidos e desgrudados
éramos divididos por muros e fileiras
de campos minados e arames farpados
éramos dois desossados
esparadrapo sobre esparadrapo
eu e o mar

não havia sequelas visíveis não havia sístoles
não havia o amor amortecendo quedas
não havia sinais de trajetos ou de dejetos
no percurso de um alvo à salvo
dos atiradores de palavras
condicionados e incontinentes
treinados para enganar
treinados para fechar a geral

pode ser que um dia alguém conte essa história
e o mar desabe sobre as minhas costas
o mar sancionado e em estado de ressalva
o mar abraçado de burocracias
abocanhado até a ponta do último cais

e o mar nunca se descobre de igual pra igual
algo sempre se perde na hora da desova
algo de sobrenatural e aquela coisa e tal
eu e o mar aferidos na pressão
máquina contra carne
vontade sem vontade
verdade sem verdade
eu e o mar

 

 

 

***

 

 

SERVIL

 

se eu estou no fogo
e sou esta lenha

perdido no mato
um cachorro à solta

minha bagunça não cabe
nos bagulhos do doido

minha vida renega
o poema que afago

 

 

 

***

 

 

 

CURTO PRAZO

 

não é pela força que se mede um salto
cumpre-se a missão do corpo no espaço
desforram no ar as hélices parasitas
cumpre-se o que é dado e desmentido

não é pelo salto que se mede a força
o que perfura a sangue e violência
o que se desdobra de lúcida veemência
e um apurado silêncio de permuta

de tudo é a surpresa que se infiltra
de tudo a boca compra o alto risco
e a validade perde a justa forma
e a forma encontra um voo frágil

não é pelo voo que se traça um salto
e o leopardo morde-se na fissura
a mais primitiva forma de violência
os olhos não capturam na aterrisagem

 

 

 

***

 

 

 

PARTILHA

 

talvez ele seja abençoado por conhecer
a índole de seus carrascos/ talvez apenas
por falar uma língua e entender que quando
coçam os sacos não autorizam um perdão

que eu não consigo esquecer que ainda existe
o amor/ enxame de bolinações cravadas
que eu não consigo esquecer a luz acendendo
talvez ele seja abençoado por conhecer seus

carrascos/ trapos luxuosos beiços molhados
mendicantes de um beijo fuçando a garra
melindrosa de deus/ um feiticeiro e vidente

apunhalado pela lábia sapiente de odara ilê
pela caçada penitente/ um reles na trapaça
sua vida é um lamber de fogo esmaecendo

 

 

 

***

 

 

 

ORIDES

 

elevar o cavalo
a uma estatura
de ave

o tijolo
e o seu peso:
libélula

pelas rugas
fundas da face
florir a seda

os dedos
rígidos e murchos
despetalar

a beleza
atravessada:
espinho na cereja

 

 

 

***

 

 

 

DO QUE NÃO DISSE

 

 

arrependo-me das palavras que não disse
das latas que não senti o cheiro
da bebida diluindo-se nas poças de lama
aquecida pelo sol de sertões apodrecidos
na carcaça de secas esfomeando a rolinha
isso é alento isso é conversa
embrenhando-me no fumo amargo
de um amor letárgico
graveto no meio da sinuosa estrada
onde pneus sapeiam

goza se o veneno que vem do poema desvia-se da boca
e as palavras não sinalizam um retorno
nem despojo sei que cada frase não dita surrupia o ovo
de uma coisa que poderia ser grandiosa
e se recolheu num betume se esfarelou na estranheza
de antiquário e santo homem
de palavras eternas e perebas faltando
com a educação com o zelo cutâneo
pregado na apostasia

 

Flavio Caamaña é um trabalhador braçal e poeta nascido em Tamboril, desertão do Ceará. Atualmente residindo em Fortaleza, obteve primeiro lugar no XVI Prêmio Estadual Ideal Clube De Literatura, participou da coletânea “Golpe” e revistas eletrônicas. É autor de “Aquedutos” (Patuá, 2016).

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Qual sentindo poético terá a vida para alguém cujo existir exige re-existir, a todo o momento? Resistir ao ódio, ao preconceito, às múltiplas violências, e, por uma espécie de catarse, encher o mundo com beleza, movimento e poesia. Com quais cores tinge-se a face dessa artista, que joga com a sua não-existência, com o seu não-lugar no universo das representações binárias?  De quantas performances se constitui o cotidiano dessa poeta multifacetada? Entender o artista como este ‘ser no mundo’, que reflete, dialoga e problematiza a realidade, nos possibilita definir o fazer artístico, enquanto ferramenta social. No caso da poesia, por mais intuitivo que seja o ato de escrever, nesta atividade estão imbricadas todas as questões que permeiam a existência concreta daquele que escreve.

Atraídos por seus escritos, começamos a entrevistar JeisiEkê de Lundu. Mas, para nossa surpresa, nos deparamos com um delírio de artista. Uma angústia criativa capaz de animar mil corpos e deslumbrar todos os olhares de quem topar pela frente. É multi, tem mil facetas, não há como colocá-la no singular. JeisiEkê de Lundu é plural. Artista visual, performer, poeta, costureira, artesã e criatura de si mesma, a monxtra não-binária nascida na fronteira de Minas\Bahia, vive em Salvador, onde realiza performances nas ruas, em festivais de música eletrônica e na Terça Mais Estranha do Mundo, em que atua como Dramaqueen, e em saraus poéticos. Estuda Artes na UFBA, já produziu desde saraus a exposições, viradas culturais e shows espetáculos. Atualmente, flerta com o cinema e com o design de joias. Com poemas publicados na coletânea online Profundanças 2, JeisiEkê de Lundu fala de suas existências, enquanto artista transexual fora da representação binária homem/mulher, por meio do seus escritos e acaba por realizar uma militância poética cujos efeitos já se notam.

 

JeisiEkê de Lundu /Foto: Levi Mendes

 

DA – No processo criativo da escrita, é profunda a relação entre a geografia interior e o local onde nascemos. Em seu poema intitulado Enquanto meus pés balançam, publicado na coletânea Profundanças 2, você faz uma analogia entre seu local de nascimento “fronteira entre Bahia e Mina Gerais” e o seu “não-lugar” entre as categorias de gênero configuradas unicamente a partir do binarismo homem/mulher. Discorra a respeito do modo como ocorrem as relações entre as suas vivências e o processo criativo em sua poesia.

JeisiEkê de Lundu – Para pensar no que você chama de geografia interior busco o deslocamento. Nasci em uma família cristã tradicional, fui educada dentro desses preceitos, esse corpo que desde a primeira infância já percebe que não faz parte daquele território. Dentro de si cresce uma imensa vontade de buscar novas experiências para desvendar o seu interior, essa viagem emancipatória, não só de lugar – tornando o não-lugar um habitat – mas também de identidade, vagar por territórios outros me permitiu entender a transitoriedade, que é como enxergo tanto minha criação, quanto minha identidade de gênero. E a escrita encontra o lugar de cartografia, como alfinetes em um mapa na parede, marcando tanto o tempo-espaço, quanto o corpo e a experiência. Hoje, sou artista visual, trabalho com a imagem, com a forma, as linhas e a cor, e é interessante que até pouco tempo atrás eu tinha a escrita como uma ferramenta de registro do tempo e das minhas relações. Colocava esses escritos na gaveta, guardava esses restos de papel, meados de letras e encontros de palavras para futuras meditações. No rio dos encontros fui despertada.

 

DA – Profundanças 2, obra colaborativa lançada em plataforma online pela Voo Audiovisual, em 2017, é descrita por sua organizadora, a professora mestra e performer Daniela Galdino, como “resultado de uma desobediência à dinâmica do mercado literário marcada pela hierarquia”. Nesse sentido, qual a sua opinião acerca do significado desta coletânea para o contexto do sul baiano? E, em maior escala, no contexto brasileiro atual? Fazer parte do conjunto de dezesseis escritoras inéditas (em sua maioria) e dezenove fotógrafes, oriundas de diversas cidades baianas e de outros estados brasileiros, que compõe esta coletânea, gerou frutos em seu fazer criativo e na sua visão de si, enquanto escritora?

JeisiEkê de Lundu – É sempre dito pela mídia que nós – pessoas que vivem nesse ‘continente’ que chamamos Brasil – lemos muito pouco. Mas o que nunca é colocado em reflexão é o acesso à produção literária. Onde ela se concentra? Quem são os protagonistas da produção e difusão? Quem tem lugar de destaque nas feiras literárias? É uma resposta difícil? Eu diria que não, já que ela é a mesma se realocarmos a pergunta para outros campos da arte e da própria construção da sociedade. Uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), revela esses dados: os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%). O que vivemos na arte de escrever está ligado a quem pode falar – escrever nesse caso – contar sua história e se fazer visível nessa mata fechada e espinhosa que é a literatura. Eu passava por um período bem difícil, quando recebi uma mensagem de Daniela Galdino me convidando para fazer parte da antologia.  De início, me questionei se eu escrevia. Rabisco frases há muito tempo, mas contava minhas histórias para eu mesma, sempre enxerguei como diário, cartografias que guardava em uma gaveta. Selecionei alguns textos que estavam mais próximos e enviei. Não sei bem ao certo o que passou na cabeça daquela criatura, me selecionou e hoje estou publicada junto com Lanmi Carolina, minha irmã travesti que fez fotografias incríveis para a mesma coletânea. Perceber que o que eu escrevia podia dialogar com outras pessoas, que aquelas palavras poderiam servir de flecha, chamar para reflexão foi um dos primeiros impactos que tive com a antologia. Encontrar escritoras, perceber pessoas próximas abrindo suas gavetas e revelando seus escritos em recitais ou nas redes sociais, mostra que já existe fruto desse trabalho nessas ações. Hoje escrevo mais do que antes, entendo melhor o que é essa visceralidade, que vem e só nos deixa quieta quando o papel está borrado de tinta. Escrevo pra respirar, para que as palavras não me sufoquem, para que um suspiro novo venha. Não sou a primeira pessoa trans a publicar, tiveram várias outras, não é algo novo, mas ainda existe pouca visibilidade. Profundanças 2 causou muita coisa dentro de mim e sei que o mesmo aconteceu com as várias escritoras e fotografes, que publicaram junto comigo. Reunir escritoras, em sua maioria nordestinas, que não têm a escrita como profissão, mas que têm potência e existência como discurso é uma desobediência, como fala a própria organizadora. Profundanças é um ato de guerrilha e na mão da cada combatente tem uma vara de cansanção esperando o momento certo para o ataque.

 

DA – No poema Enquanto meus pés balançam, ao declarar seu não-lugar no mundo das representações, como nos versos “nem menino nem menina”/ sempre do lado de fora, sempre à margem”, você demarca, ao mesmo tempo, seu lugar de luta. Os lugares da invisibilidade, da não representação,  o “não lugar”, expostos no poema, denotam total consonância entre uma poesia quase autobiográfica e sua postura combativa. Conte-nos como ocorreu o processo criativo desta poesia, em especial, na qual a pulsação dos desejos conduz a fluidez dos corpos para longe de qualquer categorização estanque do gênero.

JeisiEkê de Lundu – Enquanto meus pés balançam começou a ser desenhada na rua, depois de uma ofensa, fui atacada e estava voltando para casa com a mente cheia de questionamentos, do tipo: ‘quem eu sou no mundo e de como isso interfere em como as pessoas em volta me leem’, e de ‘como minha postura pode interferir nas minhas relações’. Naquele momento, foi como um manifesto pra mim mesma, foi escrita no início de 2016, estava voltando de um tour pelo nordeste, onde me aproximei de pessoas com posicionamentos políticos, que me trouxeram várias reflexões importantes. Essa viagem também me trouxe à tona questões geopolíticas, entender esse trânsito que fiz da fronteira de Bahia-Minas para a capital baiana. Tudo isso influenciou, criei um vídeo-art para trabalhar a poesia em outra linguagem. Agora, eu acredito que o poema fala por si. É de longe uma das coisas mais potentes que já criei, no nível que dá conta de si, é a poesia por ela mesma. Ela conta de mim, sem que eu me apresente. Ou ela me apresenta, sem que eu conte de mim. Diferente dos outros escritos é a poesia que recitei logo, em poucos dias soltei-a na rua. Foi como uma resposta ao ataque, e um grito (sabe?) que não era pedido de socorro, Isso é um grito de alerta, não de socorro. É anúncio de guerra, como um: tenha cuidado!  O que vem depois de mim pode te confundir ainda mais. Por mais que a categorização dos corpos seja rápida, a fuga e a desobediência às normativas são ainda mais velozes. Os corpos estão nascendo cada vez mais desprogramados – e aqui eu não tô falando de biologia – longe de mim. Estamos reprogramando as culturas, culturas que oprimem e dilaceram desejos são, sim, alvo dessa reprogramação. Que é o sentido no qual termino o poema: criando leitos para que outres deságuem.– abriram espaço para que eu pudesse escrever e caminhar sem medo, é essa também uma das minhas funções no campo do desejo, ser rio para que outres naveguem e naveguem com segurança. Eu tenho certeza que não escrevo sozinha, que escrevo com muitas e para muitas, que as palavras que marcam esse papel não são só minhas.

 

DA – São tempos de problemas políticos e sociais graves no Brasil. As minorias que, no decorrer da história, foram subalternizadas convivem com um perigo constante. Neste contexto, como você compreende o papel da arte, enquanto ferramenta de crítica social? No que toca a violência contra transexuais, a sua poesia pode ser entendida como um espelho de denúncia, por exemplo? Em quais outros campos da crítica social sua escritura perpassa?

JeisiEkê de Lundu – É bem verdade que os problemas sociais que dizem respeito à população dissidente vivem momentos de ebulição, tanto no que tange às lutas, visibilidade e conquistas, quanto a resistência. Nós não morremos agora mais do que antes, mas também o número de pessoas trans que são cruelmente assassinadas ou se suicidam ainda é alarmante, e ainda falamos muito pouco sobre isso. A arte sempre teve em suas características a crítica como um ponto muito forte. Em tempos turbulentos, isso se torna quase que uma obrigação, quase que um dever do artista analisar o tempo em que vive e falar sobre ele, usando códigos e linguagens. Por outro lado, a arte também se apropria de pautas emergentes para criar poéticas e fomentar a criação, o que eu não vejo como um problema por si só, desde que o sujeito, que se apropria, saiba realmente o que está acontecendo. Um exemplo disso são espetáculos de teatro retratando a vida e a luta de pessoas trans, protagonizados por artistas cisgêneros que não têm elementos em suas vivências para tratar de um assunto tão vasto e potente. Ignoradas a existência e arte de pessoas trans, que são varridos dos espaços de criação, divulgação e fomento de seu fazer artístico. E aqui cito o MONART, Movimento Nacional de Artistas Trans, que recentemente lançou um manifesto sobre esse assunto, acredito que é de suma importância ler e acompanhar essa pauta.

Eu entendo que, enquanto biografia, o meu trabalho, se denuncia ou critica, é porque vai de encontro a uma norma, ao binarismo, ao mundo encaixotado em identidades fixas e castradoras. Acredito que, quando lançada, a palavra pode atingir não sei ao certo qual a estaca que segura essa estrutura toda, mas sei que existe potência nesse lançamento. Se atingirá um alvo, ou não, o importante é que houve o deslocamento e o percurso em que isso acontece. Seria prepotência uma artista traçar a rota de sua arte e ter plena certeza do que/onde ela vai atingir. A arte é muito mais ampla e viva. Nós estamos morrendo. Se levarmos em conta as estatísticas, meu corpo tem menos de 10 anos de vida, posso ser atacada a qualquer momento, ainda mais com a força da onda do conservadorismo querendo nos arrastar e nos lançar contra as pedras. Criar, ver meu trabalho publicado em uma antologia tão forte, que reúne artistas com uma representatividade tão ampla, como a Profundanças 2, já é, por si só, uma crítica. No entanto, minha principal crítica é continuar viva, é subir no palco, empunhar o pincel ou caneta, minha crítica é rasgar o véu da arte elitista e privilegiada e dizer que nós, apesar das pedradas, continuamos vivas!

 

DA – Além de poeta, você é também artista visual e performer.  O que nos faz pensar uma existência multifacetada de Jeisiekê de Lundu, enquanto artista. Quais as relações estabelecidas entre estes vários lugares de atuação artística, aos quais você disponibiliza seu tempo e dá vazão a sua criatividade? As questões de gênero são postas em discussão em suas performances. Com relação às artes visuais, existe alguma conexão entre a poesia e sua produção neste campo?

JeisiEkê de Lundu – Tenho me considerado uma artista visual, não que eu atue somente nessa área. Viajo no audiovisual com certa frequência, mas a arte visual me dá possibilidades para flertar com temas que acredito terem maior importância para a criação que desenvolvo. Dentro dessa caixa de multifaces da linguagem, consigo transitar pelo tridimensional, trazendo estruturas e subvertendo no corpo, nesse sentido, entendo o corpo como suporte – tanto de ação quanto de discurso. E, para isso, eu recorro à performance art, uma linguagem que bebe muito de outras linguagens da arte, se apropria de ferramentas e subverte conceitos, ressignificando os sentidos, para, nesse lugar, conseguir falar sobre o que é minha existência, sobre minha visão de resistência, de coletividade, de construção social, de normativas sociais.

Dizer o que se pensa em arte é um trabalho muito doloroso. Falar sobre assuntos emergentes é mais complicado ainda. Quando você constrói uma célula artística falando sobre “o vento que passou e arrancou a flor do jardim”, pode até ser que nenhum questionamento ocorra, ou que venham aplausos, contratos ou coisas do tipo. Mas, quando se tem trabalhos que questionam atitudes e performam lugares, que a estrutura não quer que seja visível, o questionamento nem sempre é feito baseado na obra em si, mas no sujeito que cria. Ou seja, no sujeito que se apropria da linguagem para questionar. Eu trago isso, nesse momento, porque meu lugar enquanto artista é questionado, minha arte é poucas vezes vista como ela é de fato. Meu corpo é questionado, minha validade enquanto artista é questionada pelo simples fato de não corresponder a uma expectativa hegemônica. E isso não acontece somente comigo, várias artistas do meu círculo mais próximo sofrem com atitudes parecidas. Corpos que deveriam – segundo a lógica higienista – nem existir, quanto mais se afirmar enquanto artista. Isso acontece com várias amigas da Casa Monxtra – coletivo de arte dragg formado por artistas negras, não binárias, mulheres, periféricas – do qual faço parte aqui em Salvador. Vários ataques e questionamentos acontecem não pela qualidade ou pela estética abordadas no trabalho, mas sim por quem protagoniza o trabalho e usa o discurso para enfiar o dedo nas feridas da sociedade. Agora sim, respondendo à pergunta, eu não consigo deslocar a escrita da visualidade porque de certa forma uma linguagem nutre a outra, a escrita compõe a imagem e o contrário também acontece. Boa parte dos textos publicados em Profundanças 2  fizeram parte de uma performance que fiz com Lanmi Carolina, em 2016, denominada “Rapina – ou a metamorfose do ser”. Os escritos eram parte da bagagem que carregamos na criação e na execução da obra. A escrita em algumas obras é como o registro fotográfico, só que em grafia, não em luz.

 

JeisiEkê de Lundu / Foto: Lanmitripoli com retouch de Juan Pablo Gutierez

 

DA – Haja vista a quantidade de colaboradores, podemos dizer que a obra Profundanças 2 se desdobrou em um coletivo, que tem desenvolvido o evento chamado Roda de Conversas em Profundanças. Tendo circulado por cidades da Bahia e Pernambuco, a roda intenciona conversar com o público, entre outros temas, a respeito das formas de ativismo literário, circulação alternativa, sentidos da criação artística em tempos de golpe(s). Como foi e está sendo participar destas rodas de conversa? Há algo de provocador nas plateias que têm frequentado? Como ocorrem essas trocas?

JeisiEkê de Lundu – Na época da publicação, eu não achava que tinha feito pacto de sangue com Daniela Galdino (risos). Mas se configurou em coisa parecida, viu? (mais risos). Brincadeiras à parte ou não, eu participei de uma roda de conversa e estou indo pra segunda agora. A primeira foi no campus do IFBA, em Ilhéus, o público de secundaristas, funcionários e professores do campus, dentro de uma semana de atividades bem intensa. Eu cheguei um dia antes e tive o prazer enorme de conhecer Aildil Araújo Lima (escritora cachoeirana), ganhei dela o livro Mulheres Sagradas, passamos boa parte da noite e da manhã sentadas na varanda conversando, fumando e bebendo café. Já havia começado a roda de conversa ali e não tinha me dado conta. Conversávamos sobre a “escrevinhência”, sobre a palavra – como encontramos com ela. Foi um momento único, marcou muito minha trajetória. De manhã encontramos Daniela e seguimos para o IFBA. Eu estava super nervosa, falar sobre minha escrita (coisa há pouco revelada), mesmo tendo experiência com palco, ali na frente de vários adolescentes me gerou um frio na barriga de primeira vez assim. Foi interessante, a dinâmica da roda aconteceu e li um texto sobre uma agressão, não é bem uma narrativa, eu criei alguma coisa, unindo experiências negativas com agressões e como isso se fixou em meu inconsciente. Como a sensação de ser agredida sempre volta e como ações do cotidiano podem se tornar disparadores para essas lembranças ruins. Eu estava lendo de cabeça baixa, quando terminei, várias pessoas estavam chorando, em prantos mesmo, nunca havia lido um texto meu em público pra tanta gente, e, quando termino, tem lágrimas – aquilo foi desconcertante. Eu não sabia se tentava sair dali, ou se chorava junto, mas eu não queria chorar, minha mente começou a pensar mil coisas. No fim da roda, fui almoçar no restaurante do campus e me sentei com alguns adolescentes, que fizeram parte da plateia. Ouvi histórias muito parecidas com as que eu vivi, foi reconfortante ouvir deles uma resposta e saber que as palavras, de certa forma, tocaram.

 

DA – A internet se constituiu numa importante plataforma de divulgação artística deste século. Esta entrevista, por exemplo, será divulgada no universo do www, seus poemas também foram publicados na  coletânea Profundanças 2,  que tem disponibilização online. Qual sua relação artística com as redes? Tem pensado em algum projeto artístico voltado para internet ou já utiliza as redes como maneira de divulgar sua produção artística?  

JeisiEkê de Lundu – Minha vida na arte começou e a internet já não era mais “mato”. Eu não conheci o tempo em que a divulgação e a promoção da arte estavam fora do campo virtual. De certa forma, o virtual interfere no modo como fazemos arte, de como formatamos nosso trabalho para caber nesse suporte. Existe certa preocupação, eu diria, mais com o mundo virtual do que com o dito real, se é que ele existe! Não sei, talvez esse mundo dos bits e do www seja o real. Em Profundanças, isso se tornou uma coisa interessante, o lance do livro digital, publicado em uma plataforma, o que gera uma certa democratização da linguagem, aí volta para o que eu já havia dito antes, sobre  “quem pode ler?”, “quem pode escrever?”, sobre o quão inacessível é publicar escritos no mercado editorial no Brasil e na mão de quem isso está. A internet possibilita trazer para a luz pessoas anônimas, escondidas pelo véu da invisibilidade, guardadas na “escrotidão” das máquinas. O simples ato de postar um texto em uma plataforma pode transformar toda uma cadeia, alterar várias rotas. Atualmente, eu trabalho muito com visualidades, usando meu corpo como plataforma para a criação artística, e a internet é sim a maneira mais fácil de divulgar esse trabalho e ter um retorno e um contato maior com o público.

 

DA – É bastante estreita a relação entre referências e reverências, seja em qual campo de trabalho estivermos falando. Sem reverências, quase impossível ter referências. E o contrário também poder ser verdadeiro. No fazer artístico, esta conexão aparece de maneira ainda mais intuitiva e forte. Comente sobre as reverências que norteiam o seu conjunto de referências, na constituição de seu leque de memórias enquanto poeta e performer.

JeisiEkê de Lundu – Não se escreve sozinha, por mais que o ritual de escrita seja solitário. No próprio ato de empunhar a caneta e rabiscar o papel, várias mãos fazem essa ação em conjunto, seja de forma consciente ou não. Eu estou falando sobre aquelas que não podem escrever ou sobre aquelas que escreveram antes de mim, e aqui trago minha referência, Simone Portugal, escritora baiana, que publicou, artesanalmente, seu primeiro livro, Filosofia do esgoto, e vende de forma autônoma e independente – traz em suas linhas a revolta e o escárnio como poética. Eu reverencio também Suzernagle Bento, poeta sertaneja, residente em Salvador, que carrega a seca e as memórias do sertão para enaltecer as bravas mulheres do semi-árido brasileiro. Enalteço e trago pra esse panteão de mulheres Michelli Mattiuzzi, performer e escritora negra, que trava uma imensa guerra para ser artista, nessa parte colonizada do planeta, jogando contra a branquitude e denunciando o racismo. Enalteço Annie Ganzala – grafiteira e aquarelista – que carrega a poética sapatão em seus murais e aquarelas. Enalteço Negrindia – Gabi – poeta, sapatão, mãe, cartoneira, distribuidora de zines e cadernos artesanais, que luta bravamente para construir novas distopias. Hija del Perra, Gisberta Kali, Vanusa Alves, Tieta do Agresta, Lanmi Carolina, Aranda Sousa, Frutífera Ilha. É bem mais que um leque, é uma arvore que dá frutos muito grandes, nessa revolta que é fazer poesia, façamos poesia, os fascistas odeiam poesia.

 

DA – Ao escrever, brincamos com as linhas do tempo. Passado e futuro podem se entrelaçar numa dança jamais imaginada. Como sua poesia lida com o tempo? Como a mente criativa de JeisieKê de Lundu trabalha os acontecimentos do passado? Sublimando-os? E como são as projeções de futuro? Há alguma bandeira de re-existência hasteada com desejos de mudanças?  

JeisiEkê de Lundu – Às vezes, o sentimento de revolta é tão grande que não sentimos o tempo, a escrita às vezes fica estagnada, parada, feito água barrenta, o sentimento de paralisia causa pessimismo. Você não consegue enxergar quais ações podem mover e causar transformações. As utopias desaparecem da mente, o que sente é que tudo se petrificou e só existe o regresso como caminho. Eu tenho certo receio com a linearidade do tempo. Às vezes, minha mente da um bug e começo a pensar que vivemos em círculos, que o tempo é um círculo e não uma linha – como ditam por aí. Quando escrevo, estou sempre pensando sobre isso, de como podemos projetar passado no futuro e presente no passado, de como essas noções de tempo estão imbricadas e são complementares e divergentes. Seria determinista entender o passado como ponto fundante para o futuro, seria aceitar a linha do tempo simplesmente, acreditar em predestinação, talvez, que tudo está escrito ou pronto pra ser vivido, sem a necessidade da mudança. Aqui, eu quero retornar ao pessimismo, pensar a mudança nos tempos que estamos vivendo, pode ser revolução, mas em meu caso é um tanto pessimista. Hastear bandeiras e lutar tem se tornado cada dia mais impossível. As forças estão cada vez mais miúdas, eu tenho sido pessimista. Meu desejo tem sido acordar e continuar viva, como aquela frase pichada em muro: “A gente combinou de não morrer’”. Aí mora a mudança, talvez quando os corpos dissidentes tiverem o direito de viver, simplesmente, continuar existindo, aí sim, possivelmente, alguma mudança pode ocorrer; antes disso, não acredito em nada.

 

DA – Falando em futuro, terminamos esta entrevista com votos de ainda mais progressos em sua multifacetada carreira e perguntando a cerca dos planos subsequentes. Há algo em mente que possa ser contado à Diversos Afins? Quais seus planos mais imediatos? E, a longo prazo, quais suas metas artísticas?

JeisiEkê de Lundu – Sempre digo que sou uma artista multilinguagem, atuo na performance, no vídeo, na tela, na escultura, na costura e a música sempre foi um desejo e uma vontade. Agora, estou trabalhando num projeto muito lindo, não cantando, que ainda não desenvolvi isso, mas na direção de visualidade da banda Saramandaia, um grupo de artistas residentes em Salvador, falando sobre dissidências, política, arte, inclusão e temas emergentes.  Tem sido um trabalho muito forte e lindo. Para além disso, a Casa Monxtra com A terca mais estranha do mundo, no bar Âncora do marujo, todas as terças-feiras, e estou rabiscando e enchendo uma gaveta para editar um livro(digital) que espero lançar esse ano ainda – uma mistura de contos, poemas e textos sobre dissidência, corpo ciborg e existências à margem. Várias ideias na mente e a tentativa que ela mesma não se sabote, porque a própria estrutura já faz esse trabalho bem feito. Mas vamos seguindo o baile e fazendo o que tem que ser feito. Ai, estou super empolgada com tudo isso que Profundanças me proporcionou! Foi lindo demais! Aproveito para agradecer a Daniela pelo convite sempre, a todas as pessoas que compõem esse projeto mais que maravilhoso, a todas que leram e compartilharam a ideia, e por mais agregadoras e engrandecedoras como esta. Gratidão sempre.

 

Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!  Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Olhares

Olhares

A sinfonia discreta da existência

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Tati Motta

 

O que são os dias senão uma soma incontável de detalhes? Somos a sucessão de uma vida constituída por recantos, sejam eles físicos ou algum produto direto de nossas construções afetivas. O mundo parece não nos revelar tão diretamente seus avisos e alertas. Carecemos de uma perspectiva que nos dê a noção dos átimos, daquilo que se abriga em recônditos diluídos nos instantes embaraçados do cotidiano.

Mas perceber aquilo que não está tão aparente requer um exercício constante de desaceleração. Alijados da pressa, aquela cruel companhia que teima em assolar nossos tempos, muito provavelmente conseguiremos compreender que a aparição de um lado sublime da vida requer alguma opção de serenidade diante do olhar que podemos lançar sobre as coisas. E é, de fato, um movimento poético o de reter da existência elementos que nos passam despercebidos curiosamente por representarem a porção humana que nos convoca para dentro de nós mesmos.

Não há dúvida de que um ritual de contemplações e minúcias faz parte do trabalho de gente como a fotógrafa mineira Tati Motta. Mais do que direcionar suas lentes para uma riqueza íntima de gestos e para a apreensão de semblantes e objetos, Tati traz à tona uma expressão da arte que dialoga com camadas muito peculiares do ser/estar num mundo que nos golpeia incessantemente com os ardis da uniformização dos sentidos. Eis um ponto fundamental: o fazer artístico utilizado como ferramenta de ressignificação e pluralidade.

 

Foto: Tati Motta

 

Quando pensamos em negar a uniformização das coisas, devemos entender que cada pessoa ou objeto retratado tem um potencial de nos revelar particularidades que só são vistas graças ao ponto de vista de quem se permite alguma paciente imersão. Com certa frequência, o ato de enxergar no turbilhão alguns requintes de leveza é atribuído aos poetas. E é com tal postura, diga-se de passagem, uma de suas feições, tendo em vista também se dedicar nalguma medida à escrita de poemas, que Tati Motta penetra com delicadeza nos detalhes que envolvem pessoas, lugares e objetos.

No que se refere a captar nossas humanas idades, Tati flagra pessoas em seu natural bailado habitual, redimensionando suas manifestações para um renovado sentido: o de mostrar quão rica é a profusão de gestos que se camuflam na paisagem rotineira dos dias. O resultado expõe o quanto determinados corpos carregam em si uma amplitude de linguagens, todas elas sinalizando alguma rota de afirmação, entrega, efusão ou até mesmo silêncio.

Certa cartografia dos lugares urbanos também atrai os mergulhos da fotógrafa. É com eles que ela repensa os vestígios deixados pelas investidas audaciosas do progresso material civilizatório. Também não menos importantes são os olhares dedicados às manifestações que irrompem do ato de quietude e paciência emanado pela observação dos eventos da natureza.

 

Foto: Tati Motta

 

Formada em Comunicação pela PUC de Minas Gerais, pós-graduada em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela UEMG, e especializada em Fotografia pela Escola da Imagem, Tati Motta confessa que sua inquietude foi quem lhe permitiu experimentar e desbravar as mais variadas formas de arte. Tem na fotografia conceitual uma grande impulsionadora de seu trabalho. Esta última, como a própria artista sustenta, é a principal responsável pela construção de imagens, expressão de ideias, manifestação do seu imaginário e dos seus devaneios.

A vida sabe como nos ofertar seus instantes ruidosos. Com eles, podemos simplesmente perdermo-nos na paisagem, sufocados pela padronização das rotinas, ou optarmos por apreendermos algum caminho que nos revele uma conexão de singularidade com nossas existências. Nas entrelinhas do mundo, algum novo sentido pode estar à nossa espreita.

 

Foto: Tati Motta

 

* As fotografias de Tati Motta são parte integrante da galeria e dos textos da 124ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Isabela Rossi

 

Foto: Tati Motta

 

UM CANTO

 

dos pássaros
honradas todas as plumas
rimos com dentes de nada
próximos choramos
Grandes telas de cinema
estações de tratamento
As ratas de esgoto também não conhecem aberto
o céu
Toquemos pra elas, Viviane
Com as palavras no azul
o violão cello
em comum nós temos um coração
patas
e pêlos cheirando azedo
ou sangue
quando a chuva infiltra
palcos planos
porões cândidos
Todos
desertos loucos da nossa alma

 

 

 

***

 

 

 

seria pássaro
a máscara caindo em rasa água
uma língua em pleno voo
trocar as penas que sinto de mim
por uma plumagem nunca antes inaugurada
pássaro átimo
desentendida da fome
invenção do étimo a
alinhavar o bico
onde
bocas já não falam mais,
assovios se afinam
busco este alimento, frutas em
olhos de virgem,
as folhas secas
que o jardineiro acomodou antes de fugir

 

 

 

***

 

 

 

COM A MÃO ESQUERDA

 

I

raiva acumulada nos anos
doce revólver mirando ânus
não quero nada disso
goteira de água morna
enxofre do desejo
não parece
mas meu corpo é feito no bronze

 

II

Par de olhos se despindo frente a frente
sombra ante sombra
luz fosca na verdade oculta
porrete na invenção do que se quer pra sempre
límpido cristalino sem violenta irrupção
Hora do espelho
Não me vejo taciturno e
uma chaga dantes tema misericórdia
é agora sangue urdindo
Em dó menor
Morrer todo dia cansa
estilhaçada a
nudez dos anjos
eu quero agora Cantar

 

III

que imagem é aquela desfeita
contratempo da charada
que rosto é esse pincelado
na astuta margem da página
cospem-nos as esfinges em ossatura

do espelho que estilhaça
Em todo poema
colo cacos
A procura do alguém que responda
o antiquado chamado
do Eu

 

IV

válvula
vibra vermelha vulva
essa mulher
verborrágica
vai gozar
mão esquerda em euforia
doce
vesicante prazer
ruindo
não há pesadelo
penetrar fecunda
a Vida

 

 

 

***

 

 

 

AREIA E CASTELO

 

areia e castelo
semente e casca
aço e sertralina
eu estava ficando louca
até no front
da pele com a pele
explodir
o sal
de uma Manhã

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DA VIDA COMUM

 

I.

por que me destes Deus este segredo da Pedra?
por que não olhaste para minha cara
dente de leão nos lábios da criança
e legasse a febre ou
sóbrio
o caminho dos leitos
que levam à Lete?

foi-me aventurado granitos
minérios
a levedura do chumbo

mas sou uma mulher
e todos os fuzis
são velas nas minhas mãos

 

II.

dedos da pianista
Lizst era um soldado
que gostava de açúcar
nós estivemos a ponto de partir
mas aquelas notas
melodias do incomum
desarmaram a vaidade

Filarmônica de trapos
preenche nossas horas
lugares onde descansamos
tecidos nos ninguéns

 

III.

nunca coube
nesta solidão
o vazio da estrela torta
recolhidas ao fogo
partilhamos apenas
os cacos
das vitrines opostas

refém dos caramujos
o Eu é insolúvel nos espelhos
muralhas contornantes da vida comum

 

Licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e, atualmente, aluna da Escola de Arte Dramática da USP, Isabela Rossi é atriz e autora na Companhia Balé de Pancadaria. Um dia, num suspiro, tomou de assalto os versos do samurai Paulo Leminski, “não discuto / com o destino/o que pintar/eu assino” e desde então tem seguido com a pólvora e poesia que se pode experimentar a Vida.

 

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124ª Leva - 02/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Daguito Rodrigues

 

Foto: Tati Motta

 

Falaria da saudade, se pudesse

 

Menino é menino, menina é menina. Vinicius sempre soube. O timbre da criança confundia um pouco. Fino, agudo. De garota, diziam. Libertador, contestava o pai. Era nos acordes do violão que Vinicius concordava com ele. Quando se derramava pela música ao pé da sucupira branca, na noite ao lado da fogueira. Ninguém negava. Quem poderia? E todo mundo aplaudia, pedia mais. Era uma voz bonita a do garoto, por mais que fosse feminina.

Ubiratan, o homem de dedos grossos e pele seca, do corpo contorcido e recurvado, a paisagem do cerrado, cresceu com as canções que amansavam as noites de um passado duro como aquela terra. Cresceu com a arte. Aprendeu a transformar as cordas em poesia de curioso. E desde que Vinicius nasceu embalou os sonhos do menino com harmonia musical. E tantos outros de tanta outra gente. Um inquieto.

Doze anos e lá estava o pequeno nas festas das fazendas. Microfone na mão e amor no peito. A mãe achava esquisito, gostava mesmo era do dinheiro a mais no fim do mês. No começo, Ubiratan tocava junto, levava o garoto no colo, mas a idade já não permitia a jornada dupla no campo e nas cerimônias. As reuniões até altas horas também ocupavam o tempo do velho pai. Encontros gritados, de braços erguidos e porradas na mesa. Batidas de portas. Vinicius acompanhava quando podia. Ou quando Ubiratan deixava. Era assunto sério.

Menino bonito. De cabelos longos e ondulados. Pele mais clara que o comum. Quase um filho de fazendeiro. Talvez por isso oferecessem tantos palcos a ele. Além da voz, claro. Dos sorrisos. Dos olhos pretos e lacrimosos, como se chorasse. E chorava, dependendo da música que ecoava na boca. Uma menina.

Quando as noites eram princesas, e Ubiratan preparava o fogo, com o violão ainda adormecido, quando o sol riscava o horizonte, Vinicius ouvia do pai as palavras de um mentor. O dedo escuro de unhas apodrecidas apontava para a vegetação rasteira, para as árvores esparsas no campo, e esse mesmo dedo se voltava para o peito do menino, para a testa do garoto, para a Lua no céu. A criança ouvia e entendia. O canto de mulher eram as asas da seriema, o sabor do araçá, o vento na cagaita. Somos. Escutava e memorizava. Um só. Mirava a enorme máquina no descampado e discorria sobre justiça e progresso, com exemplos que envolviam balas de menta e bombons de chocolate. Falava dos fazendeiros e de suas próprias leis. Tocava as folhas grossas com os mesmos dedos que tirava sons das cordas de aço. Segurava um punho de terra na palma das mãos. E discorria mais. Sobre o homem e o corpo. A separação cega do um e do todo.

A noite chegava com as pessoas, que iam se sentando, perguntavam de brigas e discursos, e Ubiratan levava o dedo à boca. Não ali. O palco sob a árvore e a luz da brasa não era o casebre das reuniões. O momento era da poesia, não de lutas. Os problemas e perigos que ficassem para lá, para além do cercado. Ao menos naquelas noites, que tudo parecesse simples e pequeno. Que fosse como deveria ser. Com respeito e união. E como era.

Hoje, se pudesse, Vinicius falaria da saudade. Falaria do tempo e do pai. Voltaria ao cerrado, à casa, à sombra da sucupira branca. Se ela ainda estivesse lá. Recolheria uns galhos, acenderia a chama. E apontaria também para o horizonte, para o peito e para a testa. Apontaria para o céu e teria a certeza de que somos sim um só.

Na tarde em que Ubiratan não voltou do campo, o garoto cortava batatas na cozinha. Sussurrava uma canção e a mãe estendia roupas no varal. Esperou na porta, com o sol já baixo. Não ouviu o som pesado dos pés na terra, que chiavam cada dia de um jeito. Macios no verão, duros no inverno. Os sapatos num ruído seco roçando as gramíneas e as ervas que rodeavam a casa. Eles não vieram.

Foi com a mãe que viu o corpo no casebre. Já sem reunião nem gritos. Só o silêncio. O sangue escuro no piso. Os olhos abertos para o nada. Foi com a mãe que tentou entender. Com o tecido da saia dela no rosto e as mãos apertando as coxas cansadas. Não pôde explicar para o garoto. Apenas lamentar. Os anos ensinaram. As conversas com os outros. As leituras dos textos. Só depois, o garoto de voz fina finalmente conheceu o pai e compreendeu seu fim. Só depois, o timbre agudo cumpriu a vocação para libertar.

Se soubesse antes, jamais teria cruzado os pórticos com partituras debaixo dos braços. Não teria versado canções entre taças de vidro e risadas insossas. Se soubesse antes, teria se agarrado aos braços do pai todo fim de tarde antes das reuniões. Teria implorado como um mimado para que abandonasse os grupos e as discussões. Rasgado pôsteres e papéis. Teria? Vinicius concorda com o pai. Hoje sabe, hoje entende.

E solta a voz em outras terras, distante das plantações de soja e milho. Por mais que se estendam por todo lado, não chegam onde o canto do garoto adulto chega. Tão longe. E com versos e rimas, com trovas e poesia, Vinicius repete as palavras do pai, transformando a luta em notas, desfilando baru, buriti e mutamba, galito, anhuma e irerê, abotoado, piapara e taguara, João, Maria e José. Espalhando o cerrado e seu povo pelo Brasil, como a água dos rios que nascem naquele solo. Terra rica, terra pobre. Povo sofrido, povo feliz. O progresso, a tradição. O dinheiro, a natureza. O masculino, o feminino. A voz de menina do garoto é também a voz grossa do pai sonhador.

E Vinicius levanta a bandeira. Como cantor e poeta. Ele, filho de Ubiratan, filho do cerrado brasileiro. Somos, canta e universaliza, um só. E é assim que seguiremos em frente.

 

 

 

***

 

 

 

Menino nas caixas

 

 

 

“O amor roeu o menino esquivo,
sempre nos cantos, e que riscava os livros,
mordia o lápis, andava na rua chutando pedras.”
(João Cabral de Melo Neto)

 

Fui o menino dos cantos. Calado, nos bancos das quadras de esporte. Escondido nas quinas das festas. Metido nas frestas dos clubes. Era medo das palavras, dessas faladas. Preferia o silêncio. As páginas dos livros. Ou aquelas em branco das papelarias. Um novo pacote de sulfite. Rasgava com a mesma vontade que as outras crianças rompiam os de bombons de chocolate. Mais que o cheiro do papel moço, eu gostava do vazio.

Fui o menino das viagens à praia, mas sem pés na areia. Escolhia a sombra da sala vazia, ao som das cigarras e dos gritos dos vendedores de sorvete. Distantes. A vida no verão era do lado de fora, mas não a do menino. Com as janelas fechadas e as cortinas cerradas, mordia o lápis e arranhava o papel, sentado no chão frio de uma casa alugada.

O menino não jogava bola como o pai. Não contava piadas como a mãe. Nem era cercado de amigos como a irmã. Fui esse menino esquisito. Um único. Desses que os adultos desconfiam, falam um para o outro. Não era normal, ficar assim de lado, perdido em livros e papéis. Tão longe do comum. Vai ser escritor, brincavam. Vai ser é louco. Queriam mesmo é que o menino fosse mais um.

O castigo era ir à praia. Mas mesmo lá, desenhava na areia, erguia muros e projetava rodovias que carregavam o menino para onde não havia nenhum outro, nenhuma voz. As pessoas assustam.

Mas fui também o menino cercado de amor. Um amor desses protetores, que mimam, impõe regras e conceitos. Só o amadurecimento consegue destruir tudo depois. Tarde demais. Um amor repleto de boas intenções, mas também de medo. Porque os pais, adultos como eram, sabiam que a vida não é amiga do estranho. A vida quer mais do mesmo. Os iguais com quem a gente cruza o tempo todo. O mundo não abre as portas para o diferente. Esse tem sempre que arrombar. Mas que menino tem força para arrebentar um cadeado?

Pois foi esse amor que roeu o menino. Matriculou no judô, no futebol, no vôlei. Jamais num curso de leitura ou escrita, muito menos de desenho. Roeu. E ele, tímido e com medo de se tornar igual a ninguém, fugiu dos papéis rabiscados e dos lápis mordidos. Vestiu a beca e carregou o diploma. Bateu cartão, usou o vale refeição, recebeu o décimo terceiro. Fez e refez o currículo. Entrou em reuniões, participou de happy hours e quando viu já não era mais menino. Sumiu nas mesmas roupas, na mesma rotina, nas mesmas frases de tantos outros. E se tornou igual a todo mundo. Como o mundo todo sempre quis.

Cadê o menino que riscava os livros, mordia o lápis e andava na rua chutando pedras? Cadê? Tiro o paletó, tiro a gravata, tiro a camisa. Arranco tudo e me assusto com o vazio. Bem o vazio, que eu tanto amava, hoje me arrepia. No espelho, não vejo nem homem nem menino. Não me vejo ali.

Cruzo as ruas como o menino virava as páginas dos livros. Histórias ficam para trás. A casa onde o menino morou, a escola, a praia, hoje é tudo apenas imagem no retrovisor. E com as mãos no volante, finjo que estou no controle. Que posso encontrar o menino. Mas, cadê?

Eu sei, não vou mentir, eu sei. Eu sei onde o menino está. Está jogado em caixas no alto do armário. Em papéis amarelados e duros, estampado em frases e rascunhos. Enterrado na dispensa. Escondido e isolado. Calado. Roído pelo amor. O menino são restos perdidos em papelões de leite desnatado.

Não há praia, não há areia. Não há pai nem mãe, apenas mudez. Não há amor, também. Nem luz. Mas não me venham falar de amor. Já li tanto sobre amor. Quem tem coragem de falar o quanto ele corrói meninos e meninas?

Não há resposta. Não há perguntas. Não há menino. Apenas caixas.

Apenas caixas. Ainda que essa verdade chegue a doer, ainda que venha a vontade de gritar, melhor mesmo é lembrar que um dia houve sim um menino. E que ele queria viver e sentir. Chorar e sorrir também. E se deixar levar pelo tempo, para que no tempo certo, um dia pudesse voltar.

 

Daguito Rodrigues é escritor e roteirista. Foi repórter da Folha de S.Paulo, Diretor de Criação na agência Publicis Brasil e dirigiu e escreveu o curta O Santo Salvador e o Demônio, entre outros. Acumula prêmios nos principais festivais de criação do mundo, como Cannes Lions, Prêmio Abril e Clube de Criação. Quer muito que você leia o primeiro romance dele, “Vozes na rua” (Kazuá, 2016).

 

 

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Foto: Tati Motta

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